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2. RESPONSABILIDADE CIVIL APLICADA AO DIREITO DO TRABALHO E O

2.2 Responsabilidade Civil no Dano Existencial

2.2.1 Origem e conceito

A origem do dano existencial se deu em meados do século XX, na Itália, e a primeira aparição foi na Corte de Cassação da Itália, no ano de 2000, que reconheceu o direito de reparação por dano existencial na Decisão nº 7.713 (ação proposta por um filho contra seu pai, que havia o abandonado junto com sua mãe, buscando ressarcimento pelos danos pessoais sofridos) da Suprema Corte, tratando o dano existencial como uma espécie de dano extrapatrimonial.

A partir desse julgamento originou-se um novo modo de ressarcimento quando é ferida essa faceta singular da dignidade da pessoa humana. No Brasil, o dano existencial tem ganhado cada vez mais espaço, sendo considerado uma espécie de dano moral, mas que não busca reparar o íntimo da pessoa lesada, e sim reparar o modo como se possibilitou a inserção no cotidiano, como o contexto social que o ofendido está inserido.

No direito brasileiro, com fim do regime militar e a volta do Estado Democrático, e com a entrada em vigor do novo instituto jurídico, surge um movimento acentuado de tutela aos direitos fundamentais. E, dentre os direitos

fundamentais relativos à personalidade, a proteção à existência digna foi inclusa como um direito fundamental da pessoal humana, possuindo assim, uma proteção especial.

Para uma melhor compreensão do que vem a ser o dano existencial, podemos relacioná-lo como um dano que afeta o projeto de vida do trabalhador, e impossibilita o empregado a relacionar-se em sociedade, privando-o de conviver em atividades sociais, culturais ou até mesmo impossibilitando-o de gozar de seus descansos, tanto psíquicos quanto físicos. Essas ações, inegavelmente, impossibilitam o empregado de realizar os seus projetos de vida.

O dano existencial também pode ser chamado de dano à existência do trabalhador, se levado em conta o viés relativo à vítima que privada dos direitos constitucionais fundamentais. E é isso que faz eclodir o direito de buscar um ressarcimento por seus direitos violados no Poder Judiciário.

Disserta, nesse sentido, na Revista dos Tribunais online, Amaro Alves de Almeida Neto, (2005, s.p.):

O dano existencial, ou seja, o dano à existência da pessoa, portanto, consiste na violação de qualquer um dos direitos fundamentais da pessoa, tutelados pela Constituição Federal, que causa uma alteração danosa no modo de ser do indivíduo ou nas atividades por ele executadas com vistas ao projeto de vida pessoal, prescindindo de qualquer repercussão financeira ou econômica que do fato da lesão possa decorrer.

Pode-se perceber que por esse enfoque, temos uma abrangência muito grande referente ao campo do dano existencial, caracterizando-o como um dano que traz um prejuízo à existência social do trabalhador. Certamente pode-se compreender tal existência como o projeto de vida do indivíduo, seja na autoestima, no crescimento pessoal e familiar, bem como em frustrações de seus desejos e expectativas, que ofendam diretamente a sua dignidade.

O dano existencial é uma espécie de dano imaterial. Um dano caracterizado pelos prejuízos sofridos pelo trabalhador devido a condutas ilícitas

praticadas por parte do empregador, que o submente a excessivas jornadas de trabalho, causando, assim, ao empregado, uma vasta limitação na sua vida social, e na convivência com familiares.

Em um conceito que abrange, com maestria, tudo o que foi até aqui estabelecido, o advogado Murilo Rosário, (2014, s.p.), sintetiza o dano existencial da seguinte forma:

O “dano existencial” decorre da conduta patronal que viola qualquer um dos direitos fundamentais da pessoa humana, causando uma alteração do empregado em executar o projeto de vida pessoal ou um impedimento do empregado em usufruir das diversas formas de relações pessoais e sociais fora do ambiente laboral.

Desse modo, percebe-se que o dano existencial surge quando é violado algum direito do empregado, como a não concessão do gozo das férias ou o não cumprimento das pausas de descanso exigidas em uma jornada de trabalho habitual, fazendo com que o empregado tenha uma exaustão no ambiente de trabalho.

Dita exaustão não lhe oferta a oportunidade de cumprir o que havia programado no campo particular, afetando assim sua convivência familiar e social, fazendo surgir até mesmo danos psicológicos.

O dano existencial é, portando, uma afetação negativa e juridicamente relevante para o lesado, o qual possuía uma determinada rotina e, em razão de uma conduta lesiva, acaba sofrendo uma alteração prejudicial, total ou parcial, permanente ou temporária, em quaisquer atividades desenvolvidas pela vítima. (SOARES Flaviana Rampozzo, 2009, p. 44).

A vítima havia inserido atividades em seu cotidiano e, em virtude do fato lesivo – abuso de direto do empregador – teve que interromper a realização, total ou parcialmente, de seus planos, pois não consegue realiza-los ante as condições adversas impostas pelo patrão.

Assim sendo, pode-se ressaltar que se configura dano existencial, no âmbito laboral, a prática do empregador impor uma sobrecarga excessiva de trabalho ao empregado, limitando ou impossibilitando o seu direito de desfrutar das demais atividades de seu cotidiano ou até mesmo de desenvolver seus projetos de vida, seja no âmbito social, pessoal e até profissional (não consegue realizar um aperfeiçoamento, por exemplo).

Portanto, para que o empregado possa alegar a existência do dano existencial sob argumento de prorrogação da jornada de trabalho com frustação de projeto de vida pessoal, é necessário trazer aos autos do processo uma narrativa adequada do fato danoso e do nexo causal, eis que o ônus probandi é da parte que alega o seu direito. (ROSÁRIO, Murilo, 2014).

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