Direito do Consumidor
Evolução histórica e relação Jurídica de Consumo.
Quando surgiu a necessidade de uma lei específica de direito do consumidor? Foi a revolução industrial. Houve aumento de população nos grandes centros urbanos e com isso aumento da procura por produtos e serviços; isso acarretou a necessidade de um novo modelo de produção; a produção em série, em escala. Essa evolução histórica vem do período pós segunda guerra mundial, que inicia a revolução tecnológica que caiu como uma luva nessa sociedade de consumo porque é muito mais fácil com um maquinário de ponta realizar um maior número de produto e colocá-lo no mercado.
Uma segunda fase é a da globalização que é a nossa época.
Essas fases foram determinantes para o surgimento de um lei específica sobre os direitos do consumidor. Antigamente existia um conceito clássico, quase romântico de produção. O cidadão ia se casar se sentava com um alfaiate, escolhia a cor do tecido, o corte, ou seja, era consumidor e produtor discutindo os detalhes do produto, discutindo as cláusulas contratuais. Hoje, com a tecnologia, com a informatização, com a globalização essa discussão não mais existe. Hoje, temos o monopólio da produção nas mãos do fornecedor; é ele que estabelece o quê, quando e como produzir. Bem, diante de um modelo de produção em que a quantidade pesa mais que a qualidade, conseqüências começaram a acontecer, defeitos começaram a surgir e para isso existem as leis. Mas a legislação da época não encarava essa produção despersonalizada, que deixou aquele conceito clássico. O CC de 1916 com o pacta sunt servanda, a obrigatoriedade do que foi contratado não mais produzia efeitos nessa sociedade de consumo. Portanto, a legislação da época não mais era adequada para regulamentar esse novo modela de produção.
Eis que surge um movimento mundial. Legislações específicas regulamentando essa nova sociedade de consumo, essa nova relação jurídica, pautada no fortalecimento do fornecedor e na fraqueza, chamada vulnerabilidade do consumidor.
A Constituição de 1988 trabalhou, no artigo 5º, XXXII, direitos fundamentais, a necessidade da defesa do direito do consumidor. É um direito fundamental a defesa dos direitos do consumidor. Também no artigo 170, quando fala dos princípios da ordem econômica, diz que um desses princípios é a necessidade da defesa dos direitos do consumidor. No ADCT, artigo 48 temos o legislador constituinte estabelecendo um prazo para o legislador produzir um Código de Defesa do Consumidor.
Portanto, o contexto histórico da necessidade de um legislação específica são as três revoluções industriais, a inicial, a tecnológica e a informatização na era globalizada.
O ADCT previu 120 dias para a confecção de um código, mas demorou mais, a Constituição é de 1988 e o CDC é de 1990, lei 8078/1990.
Características principais do Código de Defesa do Consumidor:
1. É um Microssistema Multidisciplinar , ou seja, em seu conteúdo temos regras de direito constitucional, civil, Pena, Processo Civil e Direito Administrativo. Nele fala-se em Dignidade da Pessoa Humana que está na Constituição Federal e também no CDC. Regra de direito civil, quando falamos de responsabilidade civil do fornecedor; Processo civil, como inversão do ônus da Prova. Tipos penais e sanções admnistrativas.
2. É uma lei principiológica e significa que no seu corpo temos disposições fundamentais que visam reequilibrar uma relação jurídica tão desigual.
Nesse momento histórico em que o fornecedor estabelece o quê, com e quando produzir, resta ao consumidor muito pouco. Ou ele adquire ou não adquire o produto ou serviço que já está pronto, com regras estabelecidas pelo fornecedor. O CDC concede prerrogativa ao consumidor por ser este o vulnerável dessa relação e para reequilibrar essa relação jurídica que é tão desigual.
Normas de ordem pública são as que não podem ser derrogadas pela vontade das partes. O consumidor mesmo sendo capaz não pode abrir mão de direitos, eles são indisponíveis. Tais cláusulas, em havendo no contrato, são nulas de pleno direito, mesmo as partes sendo capazes.
Normas de interesse pessoal: um caso particular muitas vezes leva a uma repercussão geral, atinge toda a coletividade, é o caso do uso do CDC aos bancos.
Relação Jurídica de Consumo
É aquela estabelecida entre consumidor e fornecedor que tem por objeto a aquisição de produtos ou a contratação de serviços.
Consumidor
Sentido estrito: é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produtos ou serviços com destinatário final.
Consumidor Destinatário final :
Corrente finalista: Consumidor destinatário final é aquele que consome o produto ou o produto é consumido por sua família. O profissional está excluído desse conceito.
O fundamento é que o CDC visa proteger o vulnerável. Ele não aceita que uma pessoa jurídica, ou que um profissional liberal possa ser considerado consumidor. Portanto, restringe o conceito de consumidor destinatário final.
Corrente Maximalista: tem um conceito mais amplo. É todo aquele que retira o produto ou serviço do mercado de consumo, seja qual for a finalidade. É um conceito objetivo.
Se temos, de um lado, uma corrente restritiva e de outro, uma corrente ampliativa, na hora da prova temos de nos posicionar? O STJ considera que a corrente finalista prevalece, porém de uma forma mitigada, atenuada. Para o STJ, pessoa jurídica pode ser considerada consumidor desde que comprovada sua vulnerabilidade. Essa que é presumida para a pessoa física. Micro empresa, empresas de pequeno porte tem maior chance de provar sua vulnerabilidade. O advogado ao adquirir um computador para desempenhar suas atividades também pode comprovar sua vulnerabilidade.
Há também, no CDC, o conceito de consumidor por equiparação, por exemplo:
- A coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis que haja intervido nas relações de consumo.
- A vítima do evento danoso – que é a pessoa que recebe um presente, por exemplo, uma TV e esta explode em seu rosto ao ser ligada.
- As pessoas expostas às práticas comerciais e contratuais. Pessoas exposta à uma propaganda enganosa. Fornecedor;
É toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados (os que colocam o produto ou serviço no mercado de consumo com habitualidade). Produto:
É todo bem móvel, imóvel, material ou imaterial colocado no consumo. A doutrina vai além e coloca o produtos novo ou usado na relação jurídica, também, Fungível ou infungível.
Para produtos amostra grátis, posso invocar o direito do consumidor? Sim posso. Comprovando que usei o shampoo e me caíram os cabelos. Posso reclamar,inclusive reparação de danos. E o serviço gratuito é objeto do CDC? Para o CDC o serviço tem de ser remunerado, mas é possível falar em serviço gratuito e ser objeto sim do CDC. É o caso do estacionamento gratuito dos shopping centers, que na verdade é
remunerado indiretamente pelas compras que fazemos em suas lojas, e vale mesmo para quem não compra nada. Portanto o CDC considera, também, a remuneração indireta.
Outra questão importante é se o serviço público é ou não objeto da relação jurídica de consumo. Depende. Se ele for remunerado por impostos ou qualquer outra espécie tributária, como saúde, segurança, que não são pagos diretamente mas, através de prestação pecuniária em forma de tributos não será objeto da relação jurídica de consumo. Entretanto se a prestação é dada por tarifa ou preço público aplica-se o CDC, como transporte coletivo de ônibus que é pago uma tarifa, energia elétrica, água, fala-se em aplicação do CDC. O artigo 22 do CDC diz que o serviço público, quando essencial, tem de ser contínuo. Se o consumidor não pagou a conta de energia elétrica pode ter o serviço interrompido? A corrente minoritária entende que não pois extrapola os limites legais da cobrança, constrangendo o consumidor. Viola também o princípio da dignidade da pessoa humana. Prevalece a corrente majoritária da legitimidade de interrupção do serviço público em razão do inadimplemento, com fundamento legal na lei 8987/95, lei geral das concessões, artigo 6º. Mas tem de haver o prévio aviso para estar de acordo com essa lei. Salvo exceções como hospitais, escolas públicas, Município, devido interesses maiores; miserabilidade do consumidor. Não pode cortar mas pode entrar com uma ação de cobrança.
É aplicado o CDC ao serviço bancário?
Os bancos para a doutrina sempre foram passíveis da incidência do CDC. O próprio CDC inclui nos serviços, as atividades bancárias. Mas não basta estar na lei, não basta a doutrina pensar nesses termos. O STJ diz que o CDC deve ser aplicado às instituições financeiras. O STF também entende aplicação do CDC às atividades bancárias. Mas há projeto de lei 143/2006 que tenta retirar a aplicação do CDC aos serviços bancários. Incidência do CDC também para os juros abusivos. A jurisprudência entende que as instituições financeiras podem cobrar juros acima dos 12% porém dentro de uma média aceita no mercado. Se estiver além, aplica-se o CDC.
Direitos Básicos do Consumidor e Princípios do CDC.
O CDC é uma regra principiológica que visa conceder prerrogativas à parte mais vulneráveis do consumo. Princípio da Dignidade da Pessoa Humana
Quando o fornecedor coloca um produto no mercado de consumo ou presta um serviço deve considerar e prezar pela dignidade do consumidor. Vimos que podemos aplicar o CDC aos serviços públicos, àqueles serviços suja contrapretação for por tarifa ou preço público, ou seja, os serviços que não tem como contraprestação pecuniária os impostos que são diluídos nos diversos serviços públicos. Serviço público essencial é um serviço público contínuo e uma corrente minoritária não pode ser interrompido. Quando falo em interrupção de serviço público em razão de inadimplemento do consumidor, estou constrangendo-o a efetuar o adimplemento e assim, constrangendo o consumidor e consequentemente violando o artigo 42 do CDC.
Um pai de família com vários filhos, único que não tinha na comunidade ligação clandestina, ficou sem emprego e sem poder comprar o leite para as crianças. Vem a conta de energia e ele não pode pagar e deixa de lado a conta. Para a maioria, pode ser interrompido o serviço de fornecimento de energia, mas, isso não feriria o princípio da dignidade human? Fere.
Princípio da Proteção à vida, à saúde, à segurança.
Por esse princípio, o fornecedor quando coloca um produto no mercado de consumo ou quando presta um serviço nesse mesmo mercado, deve preservar pela vida, pela segurança e pela saúde do consumidor. Temos que analisarmos de uma forma cadenciada essa questão, pois podemos achar que não é possível colocar no mercado de consumo um produto que ofereça risco à vida, à saúde ou à segurança do consumidor. Mas é possível. Por exemplo, um produto como o veneno para matar insetos, é um produto perigoso e deve ser colocado no mercado de consumo dentro de uma nocividade razoável, nocividade que
esperamos, ou seja, o veneno para matar insetos, espero que ele realmente mate só insetos. Porém, se uso tal produto e me intoxico, estou diante de um produto que é exageradamente perigos, extrapola os limites do razoável.
Tem de existir um alerta dessa nocividade ao consumidor e sendo assim não há que se falar em nocividade. Tem que vir com uma informação de nocividade.
Princípio da Transparência
Quando falamos da transparência, falamos no dever de informar, não só sobre as características ou qualidades mas às cláusulas contratuais. Transparência entre fornecedor e consumidor. Se o produto tem uma certa nocividade há a necessidade da informação dessa nocividade. Vamos estudar a proteção contratual e veremos que as cláusulas contratuais não obrigam os consumidores se não for dada a oportunidade prévia de conhecer o conteúdo dessas cláusulas. Se não houver conhecimento prévio dessas cláusulas haverá violação do princípio da transparência e do dever de informar.
Princípio da Harmonia na Relação de Consumo.
Dizemos que há harmonia na relação de consumo quando existe a boa fé objetiva mais equilíbrio.
Boa fé objetiva: durante muito tempo a boa fé era analisada no seu aspecto interno, subjetivo. Quando falamos de relação de consumo, o enfoque é outro, aqui há a boa fé objetiva, ou seja, analiso regras de conduta. Regras de conduta é um conceito muito amplo.
Quando falamos de boa fé objetiva, falamos de deveres anexos ou laterais, que são o dever de proteção, de informação, de cooperação. Agora sim podemos delimitar regras de conduta. Agora sim podemos aferir se numa relação concreta houve boa fé, ou seja, havendo a informação adequada e ostensiva de uma eventual nocividade razoável e um produto ou de um serviço, haverá boa fé objetiva. Havendo a cooperação adequada do fornecedor em face do consumidor, ou seja, pode pagar em qualquer agência bancária e não só naquela determinada agência, haverá boa fé objetiva. Temos também a proteção do consumidor em face do fornecedor, ou seja, uma informação que evite um prejuízo maior ao consumidor ao lidar com o produto. O CDC confere prerrogativas e não privilégios ao consumidor. Prerrogativas são vantagens lícitas. Privilégios são vantagens ilícitas. Devido à desigualdade que existe na relação jurídica. E por isso imprescindível a proteção do lado mais frágil.
Princípio da Vulnerabilidade
O consumidor é a parte mais fraca da relação jurídica de consumo no aspecto técnico, econômico ou jurídico/científico.
Vulnerabilidade técnica: o fornecedor detém o monopólio dos meios de produção, pois é ele quem sabe sobre o material empregado no produto ou serviço e eu consumidor sou vulnerável nesse aspecto técnico. Vulnerabilidade econômica: muitos consumidores são economicamente menos fortes que as instituições financeiras. Tai a fraqueza.
Vulnerabilidade jurídica/científica: o consumidor não tem condições alguma de contratar um advogado para conferir as cláusulas contratuais e também não entende de direito e por isso é a parte fraca.
Quando falamos em presunção de vulnerabilidade nos referimos à pessoa física e não à jurídica que tem que comprovar tal vulnerabilidade.
O CDC traz prerrogativas ao consumidor mas não é arbitrário. Por esse princípio, se houver uma cláusula nula no contrato e se for possível retirar apenas essa cláusula e sobreviver o contrato, haverá a conservação do contrato. Artigo 51, 2º.
Artigo 6, V do CDC. Aqui temos possibilidade de modificar cláusulas desproporcionais e revisar cláusulas excessivamente onerosa, isso é querer preservar o contrato.
Princípio da Responsabilidade Solidária.
Diz que se mais de um concorreu para a causação de dano todos responderão de forma solidária. Por exemplo, numa cadeia de produção, o fabricante fabrica e o comerciante vende, ou seja, se o comerciante por meio de uma informação equivocada acabou vendendo um produto que causou prejuízo ao consumidor e que também tinha defeito de fábrica, todos responderão de forma solidária. Artigo 7º, único e 25º, 1º.
Princípio da Inversão do Ônus da Prova.
Partiremos do CPC, artigo 333º, que envolve o ônus da prova, onde o autor tem que mostrar os fatos constitutivos do seu direito e o réu tem que mostrar os fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do autor. Temos então uma divisão do ônus da prova, onde o autor sabe o que e quando tem de comprovar os fatos e o réu sabe, também, o momento em que tem desconstituir, por exemplo, a prova do autor. Portanto, na regra do CPC o ônus da prova é dividido.
No CDC funciona assim: quando o consumidor sofre um dano em razão de um defeito no produto e ajuíza uma ação de reparação de danos, tem que demonstrar o dano, o nexo causal e o defeito, em princípio sim, mas é possível o autor consumidor postular a inversão do ônus da prova.
O artigo 6º, VIII do CDC fala da chamada inversão do ônus da prova que é um direito básico do consumidor com o objetivo de facilitar a sua defesa em juízo.
Eu consumidor que teria que demonstrar o defeito do produto, se o juiz entender que for o caso, eu não tenho mais de comprovar isso. Ou seja, fornecedor, defenda o senhor que o defeito inexiste. Eu consumidor sou autor, mas se ocorrer a inversão do ônus da prova é possível que o juiz determine que o fornecedor determine que aquele defeito inexiste.
Portanto é um critério que o juiz pode adotar, invertendo o ônus da prova a partir da constatação de um dos seguintes requisitos: ou a verossimelhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor. Constatando um desses requisitos pode ocorrer a inversão do ônus da prova.
Verossimilhança das alegações é a plausabilidade da verdade pela documentação apresentada na PI. Ou seja, ele tem quase certeza que o autor está falando a verdade.
Hipossuficiência é a vulnerabilidade no aspecto processual. É a fraqueza no aspecto processual. Ela tem que ser comprovada ao juiz.
É possível a inversão de plano, independentemente de critério do juiz? Sim no artigo 38 do CDC, que diz, no tocante à publicidade, a correção e veracidade é ônus do fornecedor. Aqui decorre de lei e não do juiz. Publicidade enganosa ou abusiva, quem tem de provar que não é é o fornecedor.
O momento adequado de pedir a inversão do ônus da prova é controverso e exitem 3 correntes:
1. A inversão deve ocorrer quando do despacho da inicial. A crítica diz que é muito cedo para o juiz aferir os requisitos da verossimilhança e da hipossuficiência.
2. A inversão do ônus deve ocorrer no momento da sentença, com o fundamento de que ônus da prova é regra de julgamento e assim sendo deve ocorrer no momento da sentença. A crítica diz que pode ser um pouco tarde.
3. A inversão pode ocorrer até a fase de saneamento. Não é tão cedo e não é tão tarde a ponto de pegar a outra parte de surpresa. A divergência é entre essas duas últimas.
Esse princípio segue um ordem, ou seja, efetiva prevenção e reparação, ou seja, num primeiro momento exige-se do fornecedor a prevenção à ocorrência do dano, que ele não pratique condutas capazes de causar lesão aos consumidores no mercado de consumo. Na sequência, ocorrendo o dano, teremos a efetiva reparação. Ou seja, não se pode limitar a indenização, não se pode dizer que se paga até X mil Reais. Responsabilidade Civil no CDC
Em regra, essa responsabilidade civil é objetiva que é aquela que independe da demonstração do dolo ou da culpa. Se adquiro uma TV com defeito e esse defeito me gera um dano o que deverá ser comprovado numa ação de reparação de dano é o dano o nexo de causalidade e o defeito do produto, lembrando que há o princípio da inversão do ônus da prova. Pode ser até que o consumidor nem tenha que provar o defeito do produto. Então temos esses requisitos: dano, nexo de causalidade e defeito, podendo o defeito nem ser demonstrado pelo consumidor na inversão do ônus da prova.
Neste caso, o consumidor na regra do CDC, quando falamos em responsabilidade civil objetiva, não temos que demonstrar o elemento subjetivo que é o dolo ou culpa, ou seja, a TV com defeito gerou danos à minha pessoa; eu só tenho que demonstrar o dano, o nexo causal e o defeito; não preciso demonstrar nem a culpa e nem o dolo e isso é muito importante pois é muito difícil demonstrar os elementos dolo ou culpa é muito difícil numa relação jurídica de consumo. Demonstrar que aquele fornecedor atuou de forma negligente, imprudente ou imperita; demonstrar que o fornecedor atuou com a intenção e vontade de prejudicar o consumidor é realmente muito difícil.
Sabemos desde o início que o CDC tem por objetivo trazer novos elementos de defesa do consumidor, ao vulnerável e a responsabilidade objetiva é um instrumento nessa defesa.
A responsabilidade objetiva do CDC é fundamentada pela Teoria do Risco da Atividade Desenvolvida na Atividade de Consumo.
Teoria do Risco da Atividade Desenvolvida na Atividade de Consumo
Quando falamos em um fornecedor colocando um produto no mercado de consumo ou prestando um serviço nesse mesmo mercado, temos que ele presta o serviço ou vende o determinado produto com objetivo de auferir lucro. Se o objetivo é auferir lucro, o fornecedor tem que arcar com os custos, com os incômodos dessa atividade desenvolvida no mercado de consumo, ou seja, tem que arcar com os riscos da atividade desenvolvida.
Em uma frase, a relação da teoria do risco e a responsabilidade objetiva do CDC pode ser dita da seguinte forma: “ aquele que aufere os cômodos deverá arcar com os incômodos” .
O fornecedor arca com os incômodos reparando o consumidor pelos danos ocorridos no mercado de consumo.
Quando falamos em responsabilidade objetiva no CDC temos que lembrar que temos a responsabilidade pelo fato do produto e responsabilidade pelo ato do serviço e a responsabilidade pelo vício do produto e do serviço.
Existe diferença técnica entre defeito e vício? Sim existe.
Quando falo em responsabilidade pelo fato de um produto decorrente de um defeito estou relacionando com a insegurança do produto ou do serviço. Portanto, defeito tem relação com insegurança.
O vício está relacionado com a inadequação do produto ou do serviço para os fins a que se destinam. Vício é mera inadequação.
Defeito é mera insegurança do produto ou do serviço. Vício é mera inadequação do produto ou do serviço. Exemplo que diferencia um vício de um defeito:
- Compro uma TV. Quando ligo ela explode no meu rosto. Isso é defeito. Se no mesmo caso, na hora que vou ligar a TV e ela simplesmente não liga, isso é vício.
É importante fazer essa diferença pois o CDC fala em responsabilidade objetiva do fornecedor pelo fato do produto ou serviço,que tem relação com defeito, que tem relação com insegurança; danos relacionados à essa insegurança.
O CDC fala também em responsabilidade objetiva pelo vício do produto ou serviço. Responsabilidade pelo Fato do Produto ou Serviço:
É uma responsabilidade decorrente de um acidente de consumo fruto de um produto defeituoso.
Artigo 12 CDC – fabricante, produtor, construtor, importador responderão objetivamente pelos danos causados aos consumidores.
Produto defeituoso deve ser entendido nos termos do CDC, ou seja, nos termos de defeito e vício. Produto defeituoso para o CDC é aquele que não possui a segurança que dele legitimamente se espera.
O artigo 12 não fala do comerciante responde de forma subsidiária pela responsabilidade objetiva pelo fato do produto ou serviço, nos termos do artigo 13 do CDC.
Artigo 13 CDC – o comerciante responde pelo fato do produto ou serviço quando o fabricante, produtor, construtor ou importador não puderem ser identificados, quando a identificação não é clara ou ainda quando não conservam adequadamente o produto perecível.
Um dos princípios do CDC é o da Solidariedade que diz que se mais de um contribuiu para a causação do dano, todos responderão de forma objetiva. Vimos que o fabricante contribuiu para a causação do dano porque o produto era defeituoso. O comerciante também contribuiu para a formação do dano porque falhou numa informação; responsabilidade solidária.
Vamos supor que o consumidor lesado ajuíza ação de reparação de danos contra o comerciante que vai e repara o dano. Mas nesse exemplo ele não é o único responsável; o fabricante também o é. Nesse caso o comerciante pode exigir o direito de regresso contra o fabricante.
É admitida a denunciação da lide ao fabricante? Ou seja, se eu comerciante tenho uma ação de reparação de danos contra mim posso denunciar a lide ao o fabricante para o caso de se eu tiver que reparar o consumidor e na mesma lide já exerço o direito de regresso automaticamente? Não, a denunciação da lide não é admitida quando se fala em responsabilidade pelo fato do produto ou serviço.
Ou seja, o comerciante pode exercer o direito de regresso numa ação autônoma, ou se valendo da mesma ação; só que ele paga o consumidor e continua o processo, só que agora em face do fabricante. Mas não é possível a denunciação a lide, ou seja, nessa discussão inicial entre comerciante e consumidor não é possível trazer uma nova pessoa, que no nosso exemplo é o fabricante, ao processo. Mas por que não é possível trazer o fabricante ao processo? Por que não é possível denunciar a lide?
Porque se trago uma nova pessoa ao processo tenho que citá-la, dar oportunidade dessa nova pessoa se defender e estaria retardando a reparação do dano ao consumidor. Mas há também um outro fundamento: a relação entre consumidor e comerciante, em regra, envolve a responsabilidade objetiva. Mas, e a responsabilidade entre comerciante e fabricante é subjetiva. Ou seja, se fosse admitida a denunciação da lide eu estaria trazendo um outro fundamento jurídico ao processo que é essa relação de responsabilidades. No caso de responsabilidade pelo fato de serviço, se um consumidor aciona um banco por constrangimentos sofridos na porta de entra do banco, será que é possível o banco denunciar a lide à empresa de segurança? A jurisprudência do STJ tem dito que sim. Nas responsabilidades pelo fato do serviço, nos casos de serviços defeituosos é possível a denunciação da lide.
Causas de excludente de responsabilidade pelo fato do produto: Art. 12, parágrafo 3º.
1. provar que não colocou o produto no mercado de consumo. Exemplo: fabricante de medicamentos constatou que um lote estava danificado e causaria prejuízo ao consumidor. Separa o produto e o coloca num galpão. Esse galpão é furtado e vendido no mercado. Se provar que foi furtado não será responsabilizado pelo fato do produto.
3. culpa exclusiva da vítima ou de terceiro
Responsabilidade pelo Fato do Serviço, ou seja responsabilidade por um acidente de consumo fruto de um serviço defeituoso:
Art. 14, 1º. Serviço defeituoso é serviço inseguro. É serviço que não tem a segurança que legitimamente se espera. Aqui a linha de raciocínio é a mesma que é a insegurança.
Causas de excludente de responsabilidade pelo fato do serviço.
O fornecedor de um serviço defeituoso pode se eximir de responsabilidade se ele: 1. provar que o serviço foi prestado porém o defeito inexiste.
2. culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
3. A culpa concorrente do consumidor atenua ou exclui a responsabilidade? Ela atenua a responsabilidade mas não exclui. O pingente de transporte público (o que anda pendurado).há culpa concorrente do passageiro. É concorrente porque o fornecedor permitiu essa situação e o consumidor sabe que é perigosa essa conduta.
Responsabilidade pelo Vício do Produto ou Serviço. Vício no CDC é a inadequação aos fins a que se destinam.
Art. 18 – Vício de Qualidade: é aquele que torna o produto inadequado, impróprio, diminui o valor do produto ou está em desacordo com as informações da oferta.
Ex.: compro um veículo zero km. Tiro o veículo da agência e o motor funde. Há uma desvalorização do veículo. Isso é um vício de qualidade. O que fazer com o carro se ele foi feito para andar? O CDC traz alguma alternativa? Sim.
Art. 18, 1º. O fornecedor tem 30 dias para sanar o vício. Se não sanar o consumidor pode substituir o produto por outro de mesma espécie, marca e modelo. Se não tiver um igual, ele pode trocar por outro de marca , espécie ou modelo diversos, complementando o valor se este for mais caro ou sendo restituído do valor pago a maior se o outro for mais barato.
Pode também ter a restituição do valor pago, monetariamente atualizado, sem prejuízo de eventuais perdas e danos.
Pode também ter o abatimento proporcional no preço.
Não precisa esperar os trinta dias, sempre que, em razão da extensão do vício comprometer a qualidade ou característica do produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
Ex. o taxista tira o carro zero e funde o motor. Neste caso ele não pode esperar os trinta dias, pode pedir diretamente às alternativas anteriores.
Vício de Quantidade.
Há o vício de quantidade quando o conteúdo líquido do produto for inferior ao da embalagem, rotulagem, mensagem da oferta em geral.
Se compro 1kg de feijão e vem 500 gramas posso exigir complementação do peso, restituição, substituição ou abatimento proporcional.
Vícios dos Serviços. Art. 20 CDC.
Vimos que a regra é a responsabilidade objetiva. A responsabilidade do profissional liberal é exceção. Esta responsabilidade, como prestador de serviço é subjetiva. O advogado, o médico tem obrigação de empregar todo o conhecimento técnico para atingir o resultado porém não estão obrigados a atingir o resultado. Sua atividade é de meio. O paciente está com câncer, o médico vai fazer de tudo para curá-lo, mas não pode
garantir que vai curá-lo. O advogado vai usar todos os recursos técnicos para vencer uma ação mas não pode garantir que vai vencer a ação.
Porém, quando a atividade do profissional liberal for de fim. Ou seja, cirurgia plástica de embelezamento. Posso ou não posso falar em responsabilidade objetiva. Aí sim a responsabilidade será objetiva pois ele prometeu atingir um resultado.
Art. 26. Prazos para reclamar vícios são de 30 dias para produtos e serviços não duráveis e 60 para produtos e serviços duráveis.
Art. 27. Para reparação civil de danos é de 5 anos, prescricional.
Vídeo 4
Oferta e Publicidade no CDC
Trabalhamos na aula passada com a responsabilidade civil no CDC. Concluímos que a responsabilidade é, em regra objetiva em que o consumidor não precisa demonstrar a culpa, bastando demonstrar o dano, o nexo de causalidade e inicialmente o defeito de um produto ou sérvio, lembrando sempre que há a inversão do ônus da prova, em que o consumidor entra com a ação mas não necessariamente terá que demonstrar o dano se o juiz de direito encontrar a verossimilhança nas suas alegações ou a hipossuficiência deste consumidor.
Não temos que demonstrar nem o dolo e nem a culpa, em regra na responsabilidade civil, mas aqui no CDC há exceção; vimos que a responsabilidade civil do profissional liberal é subjetivo onde o médio, o profissional liberal, o advogado quando atua numa relação de confiança, desempenhando uma atividade de meio e que compromete a utilizar toda a técnica, todo o conhecimento para atingir o resultado, mas ele não pode se obrigar a atingir o resultado. Salvo, se esse profissional liberal desempenhar uma atividade de resultado como um médico cirurgião plástico, numa cirurgia de embelezamento e não reparadora, sua responsabilidade será objetiva. Se for uma cirurgia reparadora falamos de responsabilidade subjetiva.
Oferta no CDC tem que ser vista com uma visão diferente da do direito civil clássico, no qual temos uma oferta que vincula, que obriga, e sim um convite à oferta que pode, simplesmente, no meio do caminho, por alguma razão ser deixado de lado. Quando falamos em oferta no CDC, é uma oferta que vincula o fornecedor. Se ele promete entregar um determinado produto a um determinado preço ele tem a obrigação de cumprir a promessa, PIS aqui a oferta vincula, não é simplesmente um convite. A figura do proponente do direito civil clássico é aquele que faz a oferta, mas ele pode desistir no meio do caminho. No CDC a situação é outra, se o fornecedor ofertou algo ele tem que cumprir o que ofertou.
Com base nesse panorama vamos a um conceito de oferta no CDC. Oferta na relação jurídica de consumo é sinônimo de marketing que é um conjunto de técnicas e práticas que visam aproximar o consumidor de um produto ou serviço colocado no mercado de consumo.
As características da oferta estão no artigo 30 do CDC.
1. Oferta é toda informação ou publicidade suficientemente precisa.
Oferta, portanto, não é apenas a publicidade, ela é qualquer informação desde que suficientemente precisa. Exemplo, uma coisa é o panfleto que recebemos na rua que caracteriza muito bem uma publicidade, como geladeira por tal preço com tantas peças em cada loja, tanto parcelado por mês, isso é publicidade. Diferente disso é a informação de um vendedor na loja, que fala para o cliente que a correntinha dourada é de puro ouro, sem o ser. Isso não é publicidade mas é uma informação suficientemente precisa que caracteriza uma oferta e consequentemente vincula o fornecedor.
“Toda publicidade contém um informação, mas nem toda informação é uma publicidade”. Mas, mesmo que não seja publicidade é uma forma de manifestação de oferta e o CDC tem todo um regramento que vai proteger esse vulnerável da relação diante de uma oferta vinculada pelo fornecedor no mercado de consumo.
2. Vinculação do Ofertante.
O fornecedor tem a obrigação de cumprir aquilo que foi veiculado. Mas ele não pode alegar erro gráfico do jornal? Em regra não pode. A exceção é se o erro for evidente, ele não estará obrigado a cumprir com o erro veiculado. Mas isso só ocorre em situações absurdas como esta. Mas qual é o fundamento jurídico disso? é a boa fé objetiva que é exigida não só do fornecedor mas também do consumidor. Qual o consumidor que não percebe o erro de uma TV que custa em média 500 reais ter sido anunciada pela loja por 5 reais?
Mas, em regra, ofertou tem que cumprir. 3. A oferta integra o contrato de consumo.
Quando temos, no contrato, regras que estão completamente diferentes daquelas veiculadas no planfleto, posso juntar o panfleto na inicial porque ele integra o contrato de consumo.
Por exemplo, carpete de madeira, instalado, 50 reais o metro quadrado instalado. O vendedor após calcular a área apresenta um valor por metro quadrado maior do que o anunciado pois determinado componente não foi levado em consideração, por exemplo, a cola para colar o carpete ao piso. Ou, na publicidade, vem um contrato impresso, em letras minúscula, ilegíveis, desmentindo muitas vezes o conteúdo da publicidade. Temos de ter cuidado pois, a todo momento essas características estão sendo violadas.
Falamos que a oferta tem essa conotação de marketing, de práticas que visam aproximar o consumidor de um produto ou serviço. Vamos falar um pouco, então da primeira manifestação de oferta que é a publicidade. Publicidade é a informação dirigida ao consumidor como objetivo de promover um produto ou serviço. Tem essa conotação comercial de promoção.
Publicidade não é tecnicamente sinônimo de propaganda pois enquanto a publicidade tem essa conotação comercial, a propaganda tem religiosa, filosófica, política, social, econômica. Exemplo, propaganda política. Publicidade de cigarro, publicidade de bebidas alcoólicas. Mas nem a jurisprudência e nem o legislador constituinte observam, na prática, essa diferença.
Temos duas espécies de publicidade: publicidade enganosa e abusiva. Para entendermos essas espécies, temos que trabalhar com princípios do CDC que se referem, especificamente, à publicidade.
Princípios da Publicidade, em geral.
1. Princípio da Identificação Imediata da Publicidade.
A publicidade deve ser identificada de plano pelo consumidor. Sendo assim, posso pressupor que determinadas publicidades dissimuladas, do tipo subliminar, do tipo clandestina são vedadas no nosso ordenamento. O galã da novela ingerindo um produto cuja marca fica exposta ao público que acompanha a novela. É o merchandising.
Mas como conviver com o merchandising e com esse princípio?
Os autores do anteprojeto do CDC dão uma fórmula interessante: é a veiculação dos chamados “créditos”. Ou seja, antes de começar o programa, um filme que irá se valer dessa técnica de publicidade, por exemplo, tem que vir a informação de que esse programa fará uso de merchandising de tal produto, de uma técnica indireta de publicidade de um determinado produto; porque do jeito que está, hoje, o princípio da identificação imediata da publicidade é constantemente violado pelos abusos, também pela publicidade simulada que tem aquela conotação jornalística, onde uma equipe jornalística entra numa casa e joga um vinho no carpete e demonstra que um determinado produto é capaz de retirar a mancha deixada pelo vinho. Mas esse é o mundo dever ser porque a prática não é assim, e aí a nossa responsabilidade de retirar uma publicidade como essa do ar, pois temos instrumentos individuais e coletivos para realizar esse mecanismo de controle e não deixar tudo para o poder público, para as autoridades e o MP.
2. Princípio da Vinculação contratual.
Se a oferta tem o princípio da vinculação do ofertante e a publicidade é uma das manifestações da oferta, logo, tudo que é fruto de uma publicidade também vincula o seu fornecedor. Ofertou, vinculo. Publicidade é modalidade de oferta, logo o que foi objeto de publicidade também vincula o seu fornecedor.
3. Princípio da Inversão Obrigatória do ônus da Prova.
Em regra, no CPC artigo 333, o ônus da prova é dividido entre o autor e o réu. O autor tem que demonstrar os fatos constitutivos do seu direito e o réu os fatos impeditivos, modificativos ou extintivos.
No CDC, artigo 6º, VIII, há uma inversão do ônus da prova a critério do juiz, se reconhece a verossimilhança das alegações ou a hipossuficiência do consumidor. Ele pode, inclusive de ofício essa inversão pois o CDC é uma norma de ordem pública.
Quando o tema for publicidade, veracidade e correção da mensagem publicitária, o ônus da prova é do fornecedor. É uma inversão obrigatória, que decorre de lei, mais precisamente do artigo 38 do CDC. “E ônus do fornecedor demonstrar a veracidade e a correção da mensagem publicitária.
4. Princípio da Fundamentação da Publicidade.
O fornecedor tem que manter em seus arquivos os dados fáticos e técnicos que dão sustentação àquela mensagem publicitária. Não basta alegar a verdade. O fornecedor tem que ter a comprovação dessa verdade. Por exemplo, o veículo motor 2.0 faz 12 km por litro de combustível, na cidade, o fornecedor tem que ter em seus arquivos o respaldo técnico e fáticos, dessa informação.
Mas, por que determinados produtos, como o cigarro, são tolerados e não proibidos pela legislação? E também, se a publicidade de cigarro é proibida, por que a de bebidas continua?
No tema bebidas alcoólicas, cigarros, agrotóxicos e medicamentos, há uma legislação especial, lei 9294/96. Todas as frases de advertência que há no cigarro, hoje, são fruto dessa lei especial, mas ela é falha no tocante à publicidade das bebidas e isso se enquadra no CDC por este ser uma lei geral; então, por mais que a lei 9294 falhe, ainda assim temos que aplicar a lei geral que é o CDC.
Mostraremos que a publicidade das bebidas se enquadra perfeitamente no conceito de publicidade enganosa por omissão e no conceito de publicidade abusiva.
5. Princípio da Contrapropaganda.
Quando uma publicidade enganosa ou abusiva é veiculada, os danos são evidentes e muitas vezes não podem ser reparados, mas a contrapropaganda tem objetivo de minimizar esses danos.
A contrapropaganda consiste na obrigação, imposta a tal fornecedor, de veicular uma nova publicidade sem os vícios da enganosidade ou da abusividade.
Como por exemplo, uma a montadora não consegue comprovar fática e tecnicamente, o que foi publicado no exemplo anterior, tem a obrigação de usar o mesmo veículo de informação para divulgar que aquilo que foi veiculado anteriormente era enganoso. Para que essa contrapropaganda surta efeito é imprescindível que seja feita nas mesmas proporções da publicidade enganosa ou abusiva, ou seja, no mesmo horário, no intervalo do mesmo programa, no mesmo tempo, pois, se não, não teria eficácia alguma essa contrapropaganda.
Publicidade Enganosa
São duas as espécies: por comissão ou por omissão. Por comissão:
O fornecedor afirma algo que não é real. Exemplo, veículo 2.0 num trânsito como o de SP faz 20 km/litos de combustível.
O fornecedor deixar de informar dado essencial sobre o produto ou serviço. Exemplo, nunca ouvimos uma publicidade de bebida alcoólica que fala que é a bebida é uma droga psicotrópica e que afeta a psiqê do consumidor?
Publicidade Abusiva
É a publicidade antiética e que fere os valores sociais do consumidor. Temos que perceber, que a publicidade enganosa se relaciona com o produto ou serviço. Já a publicidade abusiva leva em consideração a repercussão da publicidade perante os valores sociais do consumidor.
Exemplo de publicidade enganosa e abusiva: o veículo 2.0 com um casal e o homem sai e declara que o carro faz mais de 20 km/l na cidade e quando abre a câmera o casal se trata de um padre e uma freira. Isso fere os valores sociais.
O CDC dá exemplos de publicidade abusiva no artigo 37, 2º.
Abusiva é a publicidade discriminatória, profissional, sexual, religiosa, que incite a violência do homem contra o homem, do homem contra o animal, a que explora o medo ou a superstição, a que se aproveita da dificuldade de julgamento e da experiência da criança, a que diz respeito a valores ambientais.
O que o consumidor pode fazer contra esse tipo de publicidade?
O consumidor pode, desde a tutela individual, busca uma obrigação de fazer, de retirar essa publicidade do ar, pode invocar os órgãos de defesa do consumidor. Se ele se sentiu afetado, ferido, pode pedir reparação de danos morais, quer individual quer coletivo.
Temos ainda como exemplo de publicidade abusiva, aquela que é capaz de induzir o consumidor a se comportar de uma forma prejudicial ou nociva à saúde ou segurança. É o caso da publicidade das bebidas alcoólicas que estimulam um comportamento prejudicial à saúde do consumidor.
Vídeo 5 - Proteção Contratual nas Relações de Consumo: Princípios específicos:
1. Princípio do rompimento com as tradições privatistas do Código Civil.
Para contextualizar esse princípio temos que voltar à nossa primeira aula. Lembremos do conteúdo histórico da necessidade de defesa do consumidor. Tínhamos num primeiro momento uma revolução industrial que trouxe um grande número de pessoas aos centros urbanos, aumento da procura por novos produtos e serviços. Num segundo momento, uma revolução tecnológica num momento pós segunda guerra mundial e atualmente uma era de informatização, era globalizada. Passou-se a prezar a quantidade em detrimento da qualidade. Antigamente, no conceito clássico de produção, fornecedor e consumidor sentavam e discutiam o material a ser utilizado num determinado produto, as cláusulas contratuais de um determinado contrato. Isso tudo existia antes dessas modificações econômicas e sociais. Com esse movimento de prezação da quantidade em detrimento da qualidade, defeitos começaram a surgir e o direito da época não era suficiente para regulamentar e para tutelar esse tipo de consumidor, ou seja, o código civil de 1916 falava em Pacta sunt Sevanda, obrigatoriedade do que foi pactuado. Isso não é condizente com essa nova realidade nas relações de consumo, porque se temos uma cláusula abusiva e o consumidor é capaz e está no pleno gozo de suas faculdades mentais, ele não pode dispor do direito de excluir uma cláusula abusiva de um contrato de consumo. Logo, não vigora mais o pacta sunt servanda, logo rompimento com as tradições privatistas do CC.
A oferta no CC é um convite à oferta e pode prevalecer, muitas vezes, aquilo que foi ofertado, ou a oferta pode ser revogada a qualquer momento? Não, a oferta vincula o fornecedor, e se ela o vincula, temos, mais uma vez, o rompimento com as tradições privatistas do CC.
Um último exemplo, para ilustrar bem esse princípio. Falamos, que em regra, no CC temos uma responsabilidade subjetiva. No CDC a responsabilidade como regra é objetiva, ou seja, mais um exemplo de rompimento com as tradições privatistas do CC.
Portanto, nós que conhecemos o direito clássico civil, temos que analisar o CDC com uma nova visão, uma visão diferenciada daquela que é ensinada nas relações privatistas.
Isso vai muito da análise do fornecedor. Vimos que o fornecedor é aquele que coloca um produto ou desempenha um serviço no mercado de consumo com habitualidade na atividade fim.
Então, eu, Antonio, se vou vender um computador, e eu não sou vendedor de computadores, não posso ser considerado fornecedor, pois não existe habitualidade. A este caso deve ser aplicado o CC porque simplesmente vendi de forma esporádica um computador a uma outra pessoa. Se essa mesma relação for feita entre fornecedores, aplica-se o CC no tocante ao direito da empresa.
Portanto, são duas relações que devem ser analisadas; uma envolvendo relação jurídica de consumo, que se aplica o CDC e outra envolvendo relações entre particulares ou entre fornecedores, que é aplicado o CC. No CDC, no tocante à proteção contratual temos o rompimento com as tradições privatistas do CC. Pacta sunt servanda não existe, ela é nula de pleno direito e será retirada do contrato de consumo, mesmo que o consumidor não queira pois ele não pode dispor desse direito, pois estamos diante de uma norma de ordem pública.
2. Princípio da conservação dos contratos.
Já trabalhamos na segunda aula. Falamos que em razão deste princípio, concluímos que o CDC traz prerrogativas ao consumidor mas não é um código arbitrário, e não o é porque se for possível manter o contrato de consumo vigente, ainda que haja a exclusão de uma cláusula abusiva, porque ela é nula de pleno direito, assim devemos fazer. temos, num primeiro momento prezar pela preservação do contrato de consumo (artigo 51. 2º, CDC) que trata de forma explícita o princípio da conservação do contrato de consumo. De forma implícita, o artigo 6º, parágrafo 5º, CDC, fala que é possível modificar cláusulas desproporcionais e é possível revisar cláusulas excessivamente onerosas e se isso é possível, quero implicitamente preservar o contrato de consumo.
Mas, aqui nós temos a teoria da imprevisão? Revisar cláusula excessivamente onerosa é a aplicação da teoria da imprevisão? Não, não é. pois a teoria da imprevisão exige a imprevisibilidade que tornou a obrigação excessivamente onerosa.
Mas, na década de 90, a aquisição de veículos importados com base no dólar, quando subiu o dólar ficou uma prestação excessivamente onerosa para o consumidor.
Quando falo em artigo 6º, parágrafo 5º, não falo em teoria da imprevisão e sim na teoria do rompimento da base objetiva do negócio jurídico.
Pela a teoria do rompimento da base objetiva do negócio jurídico, basta ocorrer o fato que torna a obrigação excessivamente onerosa. Aumento do dólar, é um fato que torna a obrigação onerosa, então vamos revisar esse contrato, de leasing, por exemplo. Aqui no CDC não analiso se houve a previsibilidade ou não. E é por isso que não se aplica a teoria da imprevisão, pois se aplicasse eu teria que analisar a imprevisibilidade. 3. Princípio da Transparência.
O fornecedor em que informar sobre as características sobre a qualidade, as características, o preço dos produtos ou serviços, mas não apenas isso.
No tocante à transparência contratual, falamos do artigo 46 do CDC – “contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não lhes for dado conhecimento prévio de seu contudo, ou se os respectivos instrumentos forem redigidos de forma a dificultar a compreensão do seu artigo, do seu sentido e do seu alcance.
Portanto, a transparência no tocante à proteção contratual diz que não vai obrigar o consumidor se ele não teve a prévia oportunidade de conhecer as cláusulas contratuais. Ou mais, se essas cláusulas não foram redigidas de maneira a tornar inteligível o conteúdo do contrato, não é possível obrigar esse consumidor a nada.
É muito comum, quando falamos em contrato de consumo, em contrato de adesão, aquelas letrinhas pequenas, que para serem lidas devemos usar lupa. Ou mesmo, a publicidade fala uma coisa e desmente tudo em baixo e ainda alegam que deram a informação.
4. Princípio da interpretação favorável ao consumidor (artigo 47 CDC)
Se a cláusula contratual traz alguma dúvida, ela deve ser interpretada de maneira mais favorável ao consumidor.
5. Princípio da Vinculação Pré Contratual.
É importante que saibamos, que vincula, não só a oferta, não só o contrato, mas também, o pré contrato, ou seja, um recibo, um compromisso de compra e venda, estes vinculam o fornecedor do produto ou do serviço colocado à disposição no mercado de consumo. É muito importante que guardemos os recibos pois eles valem como meio de prova pois, com ele podemos obrigar o fornecedor a cumprir o que foi acordado. Podemos e devemos. É o que fala o artigo 48 do CDC.
Estes foram os princípios específicos da proteção contratual. Contratos de Consumo.
Contrato de adesão (artigo 54).
É aquele cujas cláusulas foram elaboradas pelo fornecedor ou foram aprovadas previamente pela autoridade competente. É aquele que já vem pronto e o consumidor só adere assinando.
Existe o contrato de fornecimento público de energia elétrica , mas ele nunca foi visto pois as suas cláusulas foram aprovadas previamente pelo poder concedente. Muitas vezes o poder público não presta diretamente um serviço; ele delega a execução a um particular, aí temos a prestação indireta do serviço pelo poder público, mas ele previamente, aprova aquelas cláusulas contratuais, ou seja, o valor da tarifa, quando terá reajuste. As agências reguladoras acompanham a execução de um serviço público.
Características.
1. No contrato de adesão o consumidor não elabora nenhuma cláusula contratual, ou não modifica substancialmente o contrato de consumo, porque tais cláusulas foram elaboradas pelo fornecedor ou aprovadas previamente pelo poder público.
Mas, se o consumidor inserir uma cláusula contratual neste contrato de adesão, desnaturaria o contrato? Ele deixaria de ser de adesão? Não. O fato do consumidor modificar de forma não substancial não desnatura o contrato. O CDC deixa bem claro, no artigo 54 que isso é possível.
Partindo do princípio de que o consumidor já pega o contrato pronto, existe alguma previsão no CDC que exija que o contrato de adesão tenha alguma formatação que impossibilite que o consumidor seja lesionado? Sim tem. E as próximas características evidenciam tais previsões.
2. Cláusula Resolutiva.
É possível a cláusula resolutiva no contrato de adesão, desde que em favor do consumidor. Essa é uma das proteções do consumidor.
A cláusula resolutiva é uma cláusula que permite resolver o contrato, acabar o contrato. Ou seja, o consumidor pode decidir não querer mais aquele contrato. O fornecedor não tem essa liberdade, pois pelo princípio da oferta, se ele ofertou vinculou-se e terá de fornecer.
3. o contrato de adesão deve ser redigido com termos claros, ostensivo e legíveis. E se tem alguma cláusula que delimita algum direito do consumidor, essa cláusula, essa cláusula tem que vir em destaque.
O contrato de seguro de veículo quando fala que o acidente ocorreu em razão de o condutor estar embriagado, a seguradora não se responsabiliza pelos eventuais prejuízos. Essa cláusula não basta vir em negrito, no contrato, tem que vir com uma fonte diferenciada, um tamanho maior, ou seja, no meio das letrinha pequenas, essa informação tem que estar em destaque. Essa cláusula tem que chamar a atenção pois é uma regra que delimita o direito do consumidor.
Caso hajam tais cláusulas, serão consideradas abusivas e portanto, nulas de pleno direito. É como se não estivessem escritas e no caso da seguradora do veículo, ela tem que indenizar.
Nas compras a domicílio, feitas na porta da casa, telemarketing, ou mesmo pela internet, dão ao consumidor o direito do arrependimento no prazo de 7 dias. Este prazo é chamado de PRAZO DE REFLEXÃO. Para o consumidor analisar se aquele negócio foi bom para ele. É um prazo que evita a compra feita por impulso. Se a compra é feita dentro do estabelecimento comercial não posso exigir esse prazo de reflexão.
Há situações em que mesmo a compra sendo feita dentro do estabelecimento, o vendedor, por falta de mostruário, lhe mostra o produto pelo computador e lhe entrega um outro diferente. Será que nesse caso não seria possível a utilização do prazo de reflexão de 7 dias? Pode sim.
Esse prazo de reflexão é contado da data de entrega do produto ou do fim da execução do serviço.
As ofertas relâmpago de supermercados , também são formas de fazer com que o consumidor compre por impulso e em tese poderíamos usar o prazo de 7 dias de reflexão.
Cláusulas contratuais abusivas (rol exemplificativo no artigo 51)
Art. 51 – Cláusula abusiva é nula de pleno direito entre outras as cláusulas contratuais referentes a fornecimento de produtos e serviços que ...ai vem o rol.
Podem ser retiradas do contrato para que o contrato seja conservado pelo princípio do CDC. Mas a cláusula é nula de pleno direito.
Exemplos:
I – as que impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços, ou implique renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre fornecedor e consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada em situações justificáveis. É possível a limitação da indenização? Nós falamos que um dos princípios é a efetiva prevenção e reparação de danos. Só que a questão aqui é uma exceção à regra. Se o consumidor é pessoa jurídica é possível sim essa limitação da indenização em situações excepcionais. Por exemplo, uma microempresa vai comprar computadores. Prefere a garantia de 3 anos e não de 1 ano e um eventual prejuízo o fornecedor paga pela metade a indenização.
Outro exemplo de cláusulas abusivas é aquela que envolve prestações exageradas que coloquem o consumidor em posição de maior inferioridade. Por exemplo, assinatura de telefone, tem que pagar? Se a pessoa não usa para ligar e só usa para receber ligação, precisa pagar a assinatura? É legítima essa cobrança? Já tem súmula do STJ determinando a legitimidade da assinatura mesmo que a pessoa não disque.