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Aula 1

1. Comente a importância da profa. Sílvia Lane para a Psicologia Social no Brasil e na América Latina? Resp.: Ela foi uma das responsáveis pelo início do movimento crítico no interior dessa disciplina e, juntamente com outros, por introduzir, nessa região, os princípios fundamentais da Psicologia Sócio-Histórica e da Psicologia Social Comunitária.

2. Quais as críticas mais importantes à Psicologia e à Psicologia Social que, durante a década de 70, produziram um forte movimento de busca por alternativas teórico-práticas no campo dessas disciplinas?

Resp.:

(a) Uma crítica à orientação positivista dessas disciplinas, o que correspondia à pretensão de neutralidade científica, à tendência ao afastamento da realidade material e concreta em função da artificialidade do laboratório;

(b) Uma crítica à orientação individualista de sua abordagem, o que implicava a descontextualização social, histórica e cultura dos fenômenos de que tratava, o compromisso com uma ideologia liberal, a ineficácia de seus métodos e técnicas para o estudo e intervenção sobre fenômenos mais complexos que aqueles concernentes aos processos intrapsíquicos.

3. Quais eram as necessidades epistemológicas e metodológicas que desafiavam os psicólogos sociais brasileiros na busca por uma alternativa à Psicologia Social dominante?

Resp.:

(a) Epistemológicas: superação da idéia de neutralidade científica; superação da dicotomia indivíduo e sociedade; produção de conhecimento conectado à realidade concreta de uma sociedade em suas particularidades; produção de conhecimento socialmente relevante;

(b) Metodológicas: superação da dicotomia entre pesquisa e intervenção; superação da dicotomia entre subjetivo e objetivo; superação dos modelos laboratoriais.

4. Aponte qual a direção tomada pela Psicologia Social brasileira e latino-americana no processo de sua transformação – em nível epistemológico – e explique suas razões e suas conseqüências!

Resp.: A direção tomada , em termos epistemológicos, foi a da historicização de suas teorias e práticas assim como dos fenômenos estudados. As razões dessa transformação podem ser encontradas no

descontentamento com a Psicologia norte-americana, que oferecia modelos universalizantes de para a explicação do comportamento – sendo essa o motivo de sua ineficácia – e, com isso, orientava práticas de pesquisa e intervenção descontextualizadas no Brasil e na América Latina. A principal conseqüência desse movimento foi compromisso social pela transformação da realidade na atividade acadêmica e profissional. 5. A rejeição, por psicólogos brasileiros e latino-americanos, do modelo de ciência positivista deixou uma lacuna epistemológica e metodológica nas suas formas de produção de conhecimento. Que outro modelo veio a preencher essa lacuna?

Resp.: O modelo materialista histórico-dialético. 6. Por que o materialismo histórico marxista se apresentava como uma alternativa interessante para os psicólogos brasileiros no contexto de sua busca por uma nova Psicologia Social?

Resp.:

(a) O modelo explicativo materialista histórico-dialético sustentava a idéia de um vínculo necessário entre o conhecimento e a dinâmica social (cultura, política, economia). Por isso, oferecia possibilidade de superação da idéia de neutralidade científica;

(b) Oferecia também a possibilidade de apreensão do homem em sua relação dialética com a sociedade concreta de que fazia parte. Isso representava a possibilidade de superação da dicotomia indivíduo-sociedade;

(c) Por fim, esse modelo permite compreender a inserção da prática profissional do psicólogo num processo de constante e inevitável transformação histórica. Isso oferecia a possibilidade de compreensão da conexão entre pesquisa e prática, e a possibilidade de produção de um conhecimento vinculado à transformação social.

7. Quais foram os principais efeitos dessa Psicologia Social Crítica sobre a construção do conhecimento em Psicologia no Brasil e na América Latina?

Resp.:

(a) A desnaturalização dos fenômenos psicológicos, isto é, a rejeição da idéia segundo a qual os fenômenos psicológicos são fenômenos naturais e universas e sua substituição pela idéia segundo a qual esses mesmos fenômenos são produzidos pela cultura local, pela sociedade em sua relação com a história;

(b) A compreensão do papel dos fenômenos psicológicos na produção e organização das relações

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sociais, isto é, a ênfase sobre fenômenos propriamente psicossociais;

(c) A crítica da orientação individualizante da Psicologia brasileira e das técnicas hegemônicas nesse campo;

(d) Por fim, todas essas conseqüências produziram conjuntamente as condições de surgimento de um novo projeto de compromisso social para a Psicologia brasileira e latino-americana.

8. Qual o procedimento metodológico que essa nova Psicologia Social acabou privilegiando em seus meios de produzir conhecimento?

Resp.: A pesquisa participante, pois se constitui como um procedimento de pesquisa que leva em consideração a inserção do pesquisador no devir social, a inevitabilidade da transformação do fenômeno estudado no momento em que se o estuda, e a necessidade de orientação consciente, crítica e ética da pesquisa e da intervenção do psicólogo.

9. Qual foi a grande contribuição da Psicologia Sócio-Histórica soviética (Vygotsky, Luria, Leoniev) na construção da Psicologia Social Crítica no Brasil e na América Latina?

Resp.: Operacionalização no interior da ciência psicológica dos conceitos da filosofia marxista e a criação de conceitos fundamentais à teoria em Psicologia Social Sócio-Histórica, como consciência, atividade e mediação simbólica.

10. Em que consiste o compromisso social da Psicologia segundo o que propõe a Psicologia Sócio-Histórica brasileira?

Resp.: Esse compromisso decorre do fato de que toda a prática profissional e acadêmica do psicólogo está inserida numa dinâmica social particular e, nessa mesma medida, produz sobre ela os seus efeitos. Ora, se os efeitos da prática do psicólogo têm esse alcance, essas que são conseqüências sociais de sua ação retornam sobre ele como exigências éticas inescapáveis. O compromisso social do psicólogo, portanto, consiste em ser consciente das conseqüências sociais de suas ações, conhecendo contexto social de sua ação em suas diversas incidências (cultura, política, econômica, etc.) e, por fim, na disposição à transformação social dessa mesma realidade pela direção consciente de sua ação e prática.

11. “...o elitismo que marcou os primeiros tempos vem sendo paulatinamente contrarrestado por um movimento, ainda tendencial e ainda longe de reverter o quadro da profissão, mas crescente, de expansão dos serviços do psicólogo para camadas mais amplas da população.

“Esse crescimento está associado a dois processos interdependentes: a introdução sistemática do psicólogo no campo do bem-estar social (sobretudo, mas não exclusivamente, no da saúde pública), num movimento contraditório, e a presença crescente do psicólogo nas organizações do chamado ‘terceiro setor’ voltados para a área do bem-estar social” (Yamamoto, 2007, p. 33-34)1.

Com base no texto acima, responda aos itens que se seguem!

(a) Em que consiste o elitismo a que o autor se refere? Por que a Psicologia era (é) elitista? O que explica essa tendência à deselitização?

(b) A que o autor se refere com a expressão “camadas mais amplas da população”? Que parcela da população o serviço do psicólogo tem passado a atender? De que modo o serviço do psicólogo tem se expandido?

(c) Por que o autor afirma ser um movimento contraditório a introdução do psicólogo no campo do bem-estar social, no âmbito da saúde?

Resp.:

(a) Esse elitismo se refere ao fato de que os serviços prestados pelo psicólogo, a forma de prestação desses serviços, inclusive as técnicas usadas pelo psicólogo, eram voltadas para o atendimento de uma elite social e econômica no Brasil. Essa característica da Psicologia brasileira se devia à importação teorias e práticas concebidas em outros países, onde ela se desenvolveu em contanto com uma população com características sociais e econômicas semelhantes às da elite brasileira. Além disso, o modelo de atendimento que deu forma à identidade profissional do psicólogo no Brasil foi o modelo do profissional liberal, que prestava um serviço individual e privatizado, portanto, um serviço caro. Duas são as causas da deselitização progressiva da Psicologia, uma interna e outra externa.

A primeira delas concerne ao surgimento de um movimento crítico no interior da Psicologia, que denunciava a descontextualização de sua prática e sua conseqüente alienação. Esse movimento propunha um novo compromisso social para a Psicologia, a transformação das condições de existência da maior parte da população brasileira, que é oprimida, isso implica o compromisso com a transformação da situação econômica, social e política da sociedade brasileira, isto é, da realidade concreta dessa sociedade.

A segunda causa concerne ao processo histórico que levou à crise do modelo liberal de atendimento do psicólogo, isto é, o empobrecimento da classe média brasileira – maior parte da clientela dos serviços psicológicos – durante a década de 80,

1

Yamamoto, O. H. (2007). Políticas sociais, ‘terceiro setor’ e ‘compromisso social’: perspectivas e limites do trabalho do Psicólogo. Psicologia & Sociedade, 19(1), 30-37.

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associado ao aumento da oferta de serviços pelo incremento do número de profissionais. Esse período de forte instabilidade econômica pressionou os psicólogos à pluralização de sua identidade profissional, levando-os à aproximação com o modelo do trabalhador assalariado, principalmente no campo da saúde (herdeiro da prática clínica do psicólogo).

(b) Com o encolhimento da classe média brasileira, o psicólogo se viu pressionado a buscar clientela em outras camadas da população, isto é, a ampliação da parcela da população atendida por seus serviços. A população mais acessível ao psicólogo foi a população mais pobre, por meio dos serviços públicos de saúde, isto é, por meio de sua inserção nos serviços públicas de saúde sustentados pela política de bem-estar social no Brasil.

(c) A contradição a que o autor se refere ao fato de que, ao mesmo tempo em que uma crise econômica produzia a crise do modelo liberal de atendimento do psicólogo, a mesma crise levava a falência a frágil e incipiente política de bem-estar social brasileira. Isto é, o psicólogo se vê empurrado ao serviço público de saúde no exato momento em que esse serviço se acha em crise. O psicólogo parece estar se tornando um profissional do bem-estar social justamente no momento em que a idéia de política de bem-estar social está sendo repensada e substituída.

Aula 2

12. Em que processos se pode localizar a origem do pensamento segundo a proposta marxista?

Resp. O mundo das relações sociais concretas, cuja principal mediação é o trabalho.

13. Qual é a categoria fundamental da filosofia dialética da história?

Resp. A contradição.

14. Explique a afirmação segundo a qual Marx concebe a história desde uma perspectiva materialista e dialética! Resp.: Ora, para Marx a história não corresponde a uma coleção de acontecimentos que se sucederam ao longo do tempo, mas a um processo de constante transformação das condições materiais da existência humana, dos arranjos de suas relações sociais. Essa transformação se deve, ao mesmo tempo, a própria ação produtiva do homem (por isso é materialista), a qual sempre pode ser localizada nos pólos de uma estrutura de contradição (por isso é dialética). Por exemplo, para o capitalismo essa contradição se manifesta entre capital e trabalho.

15. Cite e comente alguns dos principais conceitos oferecidos pelo materialismo histórico que aparelharam

a construção de uma nova Psicologia Social no Brasil e na América Latina?

Resp.:

(a) O conceito de mediação, que consiste na idéia segundo a qual a relação do homem com o mundo e com a realidade é indireta e tem na interação social, no trabalho, na linguagem, etc., os termos médios dessa relação;

(b) O conceito de totalidade, que corresponde à idéia segundo a qual somente se pode conhecer a realidade propriamente humana pela compreensão das diversas mediações entre ele e o seu mundo, e isto implica a necessidade de reflexão simultânea sobre toda a rede complexa dessas diversas mediações, como uma totalidade indecomponível;

(c) O conceito de consciência, fenômeno fundamental à compreensão da realidade distintamente humana, cuja origem é a mesma da vida social, cujas características e movimentos têm determinado o rumo da história e que, finalmente, está na origem da capacidade humana de transformação das condições de sua própria existência; (d) A lógica dialética, princípio metodológico de grande importância para o entendimento do processo de origem de todos os fenômenos no interior da história humana e de seu próprio movimento de transformação constante; (e) O conceito de trabalho, que corresponde à mediação fundamental pela qual a realidade humana, assim como sua transformação, se torna inteligíveis.

(f) O conceito de ideologia, corresponde a um fenômeno de adulteração da consciência pelo que se opera o ocultamento da realidade e é produzido no interior de relações sociais de dominação.

16. Para Marx, a realidade, em sua concretude, não se apreende imediatamente, mas em função de suas mediações. Qual é a principal mediação em sua teoria? Resp.: O trabalho.

17. Em que consiste a idéia de trabalho no pensamento marxista?

Resp.: O trabalho consiste na ação pela qual o homem cria e transforma as condições materiais de sua própria existência, pelo que ele toma consciência de sua própria ação e seus efeitos sobre o mundo e pelo que, assim, se humaniza.

18. Para Marx, o que distingue o trabalho como ação propriamente humana da ação de outros animais? Resp.: A intencionalidade.

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19. De que modo trabalho e consciência estão relacionados segundo a proposta marxista?

Resp.: É na medida em que o homem transforma as condições de sua própria existência, pelo trabalho, e que reconhece no resultado de seu trabalho a si mesmo como agente de transformação, que se torna capaz de assumir o controle sobre a sua ação. A consciência consiste nessa possibilidade de controle e de transformação intencionalmente planejada das próprias condições de existência humana.

20. Qual o sentido que esta afirmação assume no pensamento marxista: “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem”?

Resp.: Para Marx, as transformações que constituem a história são efeito da ação de homens concretos, as quais têm como seu campo as relações sociais concretas. É neste sentido que os homens é que fazem a história. No entanto, a ação desses homens afeta o mundo de suas relações sociais sob as condições que lhes são dadas num determinado momento da história, isto é, sob circunstâncias determinadas, condições materiais de sua ação, contingências que eles não escolheram, mas que limitam as possibilidades e o alcance de suas ações. Por isso, não fazem a história como querem.

21. Qual a principal conseqüência, segundo o pensamento marxista, da divisão social do trabalho em trabalho material e trabalho intelectual?

Resp.: A consciência e, por conseguinte, o pensamento são conseqüências diretas do trabalho, e essa divisão determina uma quebra do vínculo direto entre pensamento (o trabalho intelectual) e trabalho (o trabalho material ou trabalho propriamente dito), de modo que distorce o pensamento, sob tais condições, sofre uma distorção em sua relação distanciada com a realidade. A conseqüência dessa divisão, portanto, é a inversão da relação entre pensamento e realidade, fazendo com que a realidade (relações sociais) seja percebida como fruto da representação e não o contrário, que é a verdade dessa relação.

22. Explique o processo de alienação, segundo a concepção marxista!

Resp.: Assim como a consciência está intimamente relacionada ao trabalho, é na medida em que o trabalho se torna limitado em suas exigências mentais que o homem se vê dele alienado. Isto é, quando o homem é expropriado dos meios de seu trabalho, quando o próprio trabalho se torna empobrecido e fragmentado, é anulada a possibilidade de que o homem reconheça sua ação e a si mesmo no resultado de seu trabalho, sendo, portanto, tolhida a relação entre trabalho e consciência. Sob a vigência do sistema de produção capitalista, o trabalho é transformado em mercadoria, numa coisa, e

assim se perde de vista a capacidade do trabalho para transformar a realidade. Com isso, o próprio homem é desumanizado, transformado em coisa, alienado. 23. Qual a relação entre alienação e ideologia?

Resp.: A alienação do trabalho e da consciência do trabalhador são condições necessárias ao surgimento e eficácia da ideologia, sendo também, e dialeticamente, a ideologia que sustenta a eficácia do processo de alienação.

24. Qual a relação entre divisão social do trabalho e ideologia?

Resp.: Uma das condições necessárias ao surgimento da ideologia é que o pensamento se liberte de sua relação direta com o processo de produção material. Essa operação somente é possível a partir do momento em que se institui a divisão social do trabalho em intelectual e material. O trabalho intelectual, por estar desconectado da produção material, produz um pensamento que inverte o sentido da realidade concreta, e esta é a origem da ideologia. Por outro lado, a ideologia, dialeticamente, legitima a divisão social do trabalho.

25. Qual a relação entre ideologia e modo de produção? Resp.: A relação entre a ideologia e os modos de produção é plural e complexa, tendo em vista que, em primeiro lugar, a origem da ideologia é a forma como um certo modo de produção (o capitalismo, por exemplo) arranja as relações sociais em seu interior. Por outro lado, a operação realizada pela ideologia é a dissimulação das contradições internas desse mesmo modo de produção.

26. Segundo Marilena Chauí, “a ideologia não é um processo subjetivo e consciente, mas um fenômeno objetivo e subjetivo involuntário, produzido pelas condições objetivas da existência social dos indivíduos” (2001, p. 73). Com base nesta afirmação, explique (a) a exata origem da ideologia, (b) de que modo a ideologia se constitui como um fenômeno “objetivo” e (c) de que modo se constitui como um fenômeno subjetivo involuntário!

Resp.:

(a) Estas “condições objetivas da existência social dos indivíduos” correspondem à organização social da atividade produtiva (o trabalho e as relações sociais em que está inserido) e às contradições que ela comporta, sendo esta a origem da ideologia.

(b) A ideologia, um sistema de pensamento que representa os interesses da classe dominante e escamoteia a relação de dominação, se materializa nas instituições que constituem uma determinada cultura,

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em relação direta com o sistema de produção em que está inserida. Estas instituições constituem a dimensão objetiva da ideologia.

(c) A ideologia, segundo a concepção marxista, mobiliza representações e sentidos que operam invertendo o sentido da realidade concreta, por causa de sua relação apenas indireta com a produção material. Sendo assim, ela engendra, no pensamento, uma espécie de falsa consciência, sendo, portanto, involuntária a criação e adesão à ideologia.

27. Em que sentido se pode dizer que a ideologia é algo objetivo?

Resp.: Em função de que ela se materializa no mundo humano sob a forma de instituições, pelo que se apresenta como algo aparentemente independente da ação e da história humanas.

28. Em que sentido se pode dizer que a ideologia é algo subjetivo?

Resp.: A ideologia se constitui como um conjunto de representações e de sentidos, e é desse modo que a sua operação efetiva se dá no âmbito dos fenômenos mentais.

29. Quais são as condições necessárias para o surgimento da ideologia?

Resp.: (a) Divisão social do trabalho em material e intelectual; (b) alienação; (c) luta de classes e uma classe dominante que projete seus interesses no plano das idéias como interesses coletivos.

30. Quais são as quatro dimensões pelas quais J. B. Thompson (1995) propõe que se analise as diversas teorias acerca da ideologia?

Resp.: A dimensão em que se opõem teorias que se orientam pela tomada da ideologia como um fenômeno negativo ou pejorativo, e as teorias que se orientam pela tomada da ideologia como fenômeno neutro. Por outro lado, a dimensão em que se opõem teorias que se orientam pela tomada da ideologia como um fenômeno objetivo, e as teorias que se orientam pela tomada da ideologia como fenômeno dinâmico.

31. Levando-se em conta a classificação das teorias sobre ideologia analisadas por Thompson (1995), o qual propõe que elas podem ser organizadas segundo a sua orientação negativa ou neutra e material ou dinâmica, explique o sentido que cada uma das classes de ideologia!

Resp.:

(a) A classe de teorias em que a ideologia aparece como fenômeno neutro e objetivado apresenta a idéia segundo a qual a ideologia seria algo como uma cosmovisão ou um “modo que ver o mundo”. Sendo a cosmovisão algo disseminado na cultura e sem relação com luta de classes ou qualquer forma de dominação, a ideologia assim concebida é um fenômeno sem conseqüências negativas e, como cosmovisão é algo que necessariamente se materializa em instituições (por exemplo, a cosmovisão científica), se trata de um fenômeno material.

(b) A classe de teorias em que a ideologia aparece como fenômeno neutro e dinâmico apresenta a idéia segundo a qual a ideologia seria algo como um conjunto de práticas sociais que estruturam o sentido que a realidade assume para um determinado grupo. Desse modo, a ideologia seria, por exemplo, o conjunto de idéias sobre o mundo atualizadas pela prática educativa escolar, ou pelas relações sociais no interior da convivência familiar, etc.

(c) A classe de teorias em que a ideologia aparece como fenômeno negativo e objetivado apresenta a idéia segundo a qual a ideologia uma ilusão da consciência alienada, cuja função é sustentar relações de dominação, e que é mantida pelo suporte material das instituições sociais. Essa é a concepção de ideologia que Marx e Engels parecem ter desenvolvido na “Ideologia alemã”. Assim, o conjunto das leis, o sistema político, a filosofia, por exemplo, em certa sociedade, na medida que representam dissimuladamente os interesses de uma classe dominante e servem à manutenção das relações de dominação em que se originam, se constituem como ideologia.

(d) A classe de teorias em que a ideologia aparece como fenômeno negativo e dinâmico apresenta a idéia segundo a qual a ideologia se constitui como efeito da ação de formas simbólicas inseridas no interior de práticas sociais, cujo efeito é a criação e/ou sustentação de relações sociais assimétricas. A ação dessas formas simbólicas opera, na verdade expropriação de poder. Essa é a teoria de J. B. Thompson, de particular interesse para a Psicologia Social brasileira e latino-americana.

32. Quais são as principais vantagens para a Psicologia Social apresentadas pela abordagem de Thompson ao estudo da ideologia em relação a outras abordagens? Resp.: Virtude crítica, capacidade heurística, contextualização do fenômeno da prática social e histórica de pessoas e grupos reais e identificáveis. 33. Como Thompson define ideologia?

Resp.: Estratégias de produção de sentido, por meio do acionamento de formas simbólicas, de modo a estabelecer e/ou sustentar relações de dominação.

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34. Leia o texto abaixo e responda, em seguida, o que se pede!

“A empregabilidade significa um conjunto de competências e habilidades necessário para uma pessoa manter-se colocada em uma empresa. Significa a capacidade de conquistar e manter de maneira sempre firme e valiosa. E como a natureza do emprego está mudando rapidamente, essa capacidade deve incluir flexibilidade e inovação da pessoa para acompanhar essa mudança irresistível. O emprego está se tornando temporário, parcial, fugidio e passageiro. Mais do que isso: multifuncional, flexível e mutável.

“...

“As empresas também abandonaram a postura paternalista de garantia de emprego eterno que predominou durante décadas a fio. Antes, a carreira exigia dedicação, lealdade e garra para galgar patamares da hierarquia da empresa. Em troca, a empresa oferecia um emprego vitalício até a aposentadoria e cuidava da carreira do empregado como se ele fosse seu dependente. Com a nova visão do mercado e do trabalho, houve uma profunda mudança no contrato de trabalho e, em conseqüência, a quebra do vínculo trabalhista, desestabilizando a relação entre empresa e empregado. Agora, a peteca está nas mãos de cada funcionário. Depende de cada um a administração de sua carreira e das condições pessoais de sobrevivência e crescimento nessa luta incessante. É o autogerenciamento da carreira. Com a necessidade de funcionar com estruturas enxutas e simples, mas com o mesmo nível de qualidade e de produtividade, o emprego tende a reduzir-se cada vez mais e as pessoas que nele permanecerem terão suas funções e atividades modificadas para acompanhar a evolução do mercado. A competitividade está exigindo de cada pessoa um incessante investimento em sua carreira e em sua preparação e qualificação profissional”.2

Análise de charges, comerciais e trechos de textos literários brasileiros.

Este texto apresenta uma descrição do conceito e do fenômeno da empregabilidade. Considerando a teoria marxista sobre o sistema de produção capitalista, que se sustenta sobre a contradição entre capital e trabalho, (a) analise o sentido assumido pela empregabilidade no contexto dessa contradição e (b) como ela se relaciona à ideologia!

Resp.:

(a) O processo que deu lugar à idéia de empregabilidade foi a crise do emprego, o que, por sua vez, se constitui como mais uma forma de agravamento da contradição entre capital e trabalho.

2 Chiavenato, I. Talento e empregabilidade. Acessado em 29 de agosto

de 2009, disponível em

http://www.prh.ufma.br/apostilas/3chiavenato_talento.pdf.

Lembremos que, no sistema de produção capitalista, a força de trabalho é transformada em mercadoria. Em função disso, a empregabilidade pode ser reinterpretada como a capacidade de um trabalhador de agregar valor a si mesmo, ou a sua própria força de trabalho, pela qualificação. Em primeiro lugar, esse é um processo que intensifica a reificação do homem, a sua transformação em coisa. Em segundo lugar, é um processo de intensificação da exploração do trabalho, pois a responsabilidade pela qualificação, pela qual se agrega valor à força de trabalho, que antes era atribuição da empresa (o treinamento), é transferida para o trabalhador, se constituindo em mais uma quantidade de trabalho não pago (qualificação é trabalho, se pensarmos que ela é mais um componente do processo produtivo).

(b) Além disso, a própria forma que assumiu a idéia de empregabilidade, assim como o seu contexto discursivo, se constitui como mais uma forma de dissimulação da contradição entre capital e trabalho que é a sua verdadeira realidade.

O texto acima o revela na medida em que apresenta a escassez de postos de trabalho e o aumento das exigências sobre a força de trabalho como resultado de um processo natural de desenvolvimento da economia, além disso, um processo inescapável e irreversível. Desse modo, apresenta a economia como algo autônomo e independente da ação humana, quando, na verdade, a economia nada mais é que o conjunto das relações sociais no contexto da produção. Isto é, a economia é ação humana, não se realizaria não fosse essa ação e, por isso, compete somente ao homem transformá-la. Na medida em que o texto dissimula as decisões, as escolhas, a ação de quem detém a posse dos meios de produção, dissimula, por conseguinte, o fato de que o trabalhador encarregado de gerenciar a sua própria carreira faz parte de uma relação assimétrica de poder, em que ele se insere como dominado.

Aula 6

35. O que significa dizer que a linguagem é um instrumento?

Resp.: Em sua dimensão instrumental, a linguagem oferece ao homem a possibilidade de ampliação de suas capacidades de transformação do mundo que ele habita. 36. De que modo a linguagem oferece condições para o surgimento da consciência?

Resp.: É a representação de objetos ausentes, por meio da linguagem, que liberta o homem no tempo e no espaço, e lhe permite agir sobre um mundo imaterial. Isso lhe permite a antecipação de sua própria ação, assim como lhe permite fazer de sua própria ação objeto de seus pensamentos. Assim, sua ação se torna reflexiva, e é desse modo que a linguagem está ligada à consciência.

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37. Quais são as conseqüências mais importantes do surgimento da linguagem na história filogenética humana?

Resp.: O surgimento concomitante das funções psicológicas superiores.

38. Qual é a principal função da linguagem na vida humana?

Resp.: A mediação simbólica ou semiótica de sua relação com o mundo material e social.

39. Como acontece o surgimento da linguagem na história ontogenética humana?

Resp.: As relações sociais anteriores ao surgimento do sujeito são, desde sempre, mediadas pela linguagem e é sob essa mediação que alguém entra no mundo propriamente humano. Ao entrar nesse mundo, toda a ação daquele que será um sujeito é objeto de atribuição de sentido pelo outro social. Com isso, o sentido disponibilizado à criança é por ela apropriado para o controle de sua própria ação, sendo, aos poucos, internalizado.

40. Segundo a concepção de Vygotsky, qual a relação entre pensamento e linguagem?

Resp.: São dois fenômenos que têm diferentes origens genéticas, mas que, a partir de um certo momento, se cruzam e se tornam indissociáveis.

41. Qual a importância das interações sociais para a constituição da subjetividade segundo Vygotsky? Resp.: As relações sociais constituem o campo em que a linguagem ganha existência e operatividade, e é no interior desse campo que cada indivíduo entra em contato com ela e dela se apropria. Nesse processo, tem lugar o surgimento da consciência, sob as determinações do mundo social que é a sua condição. Assim, os processos sociais são constitutivos da subjetividade humana.

42. Qual a unidade fundamental, segundo Vygotsky, para o estudo da relação entre pensamento e linguagem? Resp.: É o significado. O campo do significado é aquele onde se encontram e se tornam indissociáveis a linguagem e o pensamento no psiquismo do sujeito. 43. O que significa a afirmação de Bakhtin segundo a qual a natureza do signo é dialógica?

Resp.: Significa que o signo somente tem existência, ou seja, somente produz sentido, no interior de situações concretas de interação social.

44. Qual a relação entre signo e ideologia?

Resp.: Sendo o signo lingüístico portador, por excelência, da dialogia inerente ao sentido e sendo a dialogia do signo lingüístico a marca, na linguagem, de sua origem e função no interior das relações sociais, é também no signo lingüístico que essas relações sociais ganham existência mental. A ideologia é a reprodução, no mundo mental, das relações sociais concretas de dominação; sua natureza é semântica e, portanto, sígnica.

45. Explique a afirmação segundo a qual a consciência individual, por meio da ligação entre pensamento e linguagem, é o palco onde fenômenos propriamente sociais, como interesses e valores, ganham uma outra forma de vida, a vida subjetiva!

Resp.: A consciência se constitui como o lugar de existência subjetiva do sentido. Sendo o sentido anteriormente um fenômeno social e, posteriormente, internalizado, o que tem existência social por meio do sentido, como interesses e valores, pela operação de internalização, ganha existência subjetiva. É na consciência onde isso se opera.

46. Considerando o texto de Chiavenato sobre a empregabilidade, acima aludido, analise que tipo de estratégia simbólica, segundo a proposta metodológica de Thompson (1995), é ali empregada!

Resp.: A estratégia acima empregada é a Dissimulação. Essa Dissimulação opera pela ocultação do vínculo entre as exigências do mercado de trabalho sobre o trabalhador e a ação e as escolhas dos empregadores. Esse efeito se consegue pela despersonalização do novo modo de encarar o mercado de trabalho. No texto se diz, por exemplo, “Com a nova visão do mercado e do trabalho, houve uma profunda mudança no contrato de trabalho e, em conseqüência, a quebra do vínculo trabalhista, desestabilizando a relação entre empresa e empregado”. Ora, essa nova visão não é atribuída a ninguém e, no entanto, é certo que não se trata da visão do trabalhador. É apresentada como uma nova tendência da economia, ou do próprio mercado, sempre relacionada a uma entidade abstrata, mas nunca é relacionada à escolha ou decisão do empregador. Portanto, o que essa despersonalização da origem das novas exigências sobre a força de trabalho dissimula é, (a) por um lado, sua origem nos interesses do capitalista, interesses que forçam o trabalhador a um movimento extra de trabalho, pela qualificação; (b) por outro lado, dissimula o fato de que o domínio do capitalista sobre o trabalhador depende da existência de um exército reserva de trabalhadores, para manter baixo o valor da força de trabalho e diminuir o poder de barganha do trabalhador. Isso é conseguido na medida em que o próprio trabalhador é responsabilizado por seu desemprego, isto é, sua falta de qualificação.

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