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O estilo nos
O estilo nos
textos
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História em quadrinhos, mídia, literatura
Norma Discini
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Copyright © 2004 Norma Discini
Diagramação: Denis Fracalossi
Revisão: Maitê Carvalho Casacchi
Capa: Antonio Kehl
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (Cv)
(Câmara Brasileira do Livro, si’, Brasil)
_______________________________________________________________________ Discini, Norma
O estilo nos textos: historia em quadrinhos, mídia, literatura / Norma Discini. 2. ed. — São Paulo : Contexto, 2004. 1— Bibliografia
ISBN 85-7244-231-6 1. Estilística 2. tilo Literário 3. Teo
1. Título 03-1494 CDD-809
_______________________________________________________________________ índice para catálogo sistemático:
1. Estilo: Análise: Literatura 809 Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei.
____ 2004
Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA CONTEXTO (Editora Pinsky Ltda.) Diretor editorial Jaime Pinsky.
Rua Acopiara, 199 — Alto da lapa
05083-110 — São Paulo — SP p,x: (11) 3832 5838 Mx: (11) 3832 1043 [email protected] www.editoracontexto.com.br Passe o mouse ▼ D D.. Source Source
Foram mantidos os números de páginas originais ( em vermelho ) para facilitar a citacão de trechos em pesquisas e trabalhos acadêmicos.
fixam em boa luz corpos pendentes no escuro giro. Têm nomes os alfinetinhos, mas um apenas pode representar todos: José Luiz Fiorin, meu mestre
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APRESENTAÇÃO
APRESENTAÇÃO
• O que é o estilo nos textos? É o algo-a-mais acrescentado à expressão ordinária, o belo e o raro desviantes de uma norma, suposto grau zero de expressividade?
• O que fazer para reconhecer um estilo? Identificar expressões estilísticas que, como pontos de luz, destacam-se de um fundo opaco?
• O que tem e o que não tem estilo?
O estilo não é o algo-a-mais, o belo, o raro, o desvio. O estilo é o homem. Sim,
O estilo é o homem, se pensarmos na imagem de um sujeito, construída por uma
totalidade de textos que se firma em uma unidade de sentido. O estilo é o homem, se pensarmos em um “indivíduo” que, com corpo, voz e caráter, é construção do próprio discurso. O estilo é o homem, se pensarmos na imagem de um sujeito que, depreendida dos textos, supõe saberes, quereres, poderes e deveres ditados por valores e crenças sociais; um eu fundado no diálogo com o outro. O estilo é o homem, se, para homem, for pensado um modo próprio de presença no mundo: um ethos.
Para reconhecer um estilo, o olhar analítico não buscará as ditas expressões
estilísticas, supostos átomos expressivos espalhados num conjunto de textos. Para
descrever um estilo, a análise procurará reconstruir quem diz pelo modo de dizer, o que supõe a observação de uma mesma maneira de valorizar valores. Ao identificar tais apreciações moralizantes, da responsabilidade de um sujeito que, inscrito no discurso sem dizer eu, é tido como mera construção de dada formação social, a análise
identificará o ethos. O estilo é um conjunto de características da expressão e do conteúdo que criam um ethos.
Para reconhecer um estilo, o olhar analítico identificará a recorrência do que é dito, circunscrita a um fato formal, que supõe a constância de uma estrutura. A partir do que é dito, o analista reconstruirá o sujeito do dizer por meio do exame de estratégias discursivas, que se fundam em um modo próprio de ser e de sofrer emoções e paixões vistas também como efeito de sentido do próprio discurso. A análise do estilo observará então, para aquém da expressão textual, mecanismos de construção do sentido, os quais acabam por dar indicações de quem é o próprio sujeito pressuposto; esse sujeito, ao mesmo tempo único e duplo, O estilo são dois homens.
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Visto assim, como singular e como plural, o estilo será aqui analisado em jornais, em revistas, em histórias em quadrinhos e na literatura. Visto ainda na dimensão da intertextualidade, como construção deliberada sobre outra totalidade, o estilo se apresentará com possibilidade de mostrar o próprio direito e o próprio avesso. Importa desconsiderar a oposição estilo vs.
ausência de estilo. Tudo tem estilo, para uma estilística discursiva, que parte
do estilo para reconstruir o homem.
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SUMÁRIO
SUMÁRIO
INTRODUÇÃOA tradição retórica e estilística 11 Rifaterre, Hjelmslev e o estilo 21 À guisa de hipótese 27
CAPÍTULO 1: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Unus, totus et nemo 31
Para uma análise de estilo 36
Análise de um estilo: um jeito Garfleld de ser no mundo 43 Estilo e heterogeneidade 67
Estilo e simulacro: breve vista sobre heterônimos pessoanos 71 CAPÍTULO II: ESTILO E TOTALIDADES
A imprensa dita séria e a imprensa dita sensacionalista 117
A imprensa dita séria: Folha de S. Paulo e O Estado de S.Paulo 153 CAPÍTULO III: INTERTEXTUALIDADE E ESTILO
Intertextualidade 223 Paráfrase de estilo 229 Paródia de estilo 252 Polêmica de estilo 268 Estilização de estilo 314 CONCLUSÃO 331 BIBLIOGRAFIA 339 9
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INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma. (Manoel de Barros)
Sem falar, a princípio, em estigma, marca, cicatriz ou sinal, como defini-se estilo? Aquele a mais que se sobrepõe a uma expressão, dando a ela um sentido novo? Um ponto de brilho na trivialidade da frase? Um desvio, portanto, em relação a uma norma-zero de expressividade? Perguntaríamos ainda: como se depreende o estilo de um texto? Seria por meio da observação de unidades lingüísticas, supostas expressões
estilísticas, que se oporiam às não-estilísticas, no raso linear da manifestação do
sentido?
Mas estaria Manoel de Barros sendo metonímico, quanto ao estigma,
de maneira que a própria cicatriz comporia o homem e seu estilo? Então, “o estilo é o homem”, lembrando Buffon? E quanto ao paradoxo sugerido, norma/anormal da
expressão? Como, ainda, juntaríamos a tais idéias, a máxima bakhtiniana de que “o
estilo são dois homens”?
Para tentar responder a essas perguntas, comecemos por visitar a tradição dos estudos estilísticos. Tomemos como ponto de partida a retórica aristotélica e, depois, suas retomadas pelas estilísticas do século XX.
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A TRADIÇÃO RETÓRICA E ESTILÍSTICA_____________________
A TRADIÇÃO RETÓRICA E ESTILÍSTICA_____________________
Importa dar ao estilo um ar estrangeiro, uma vez que os homens admiram o que vem de longe e que a admiração causa prazer (Aristóteles) 1
Menos a prescrição implícita no ensinamento de Aristóteles, e mais o ar referido interessa ao rumo escolhido por nós. Trata-se de um ar que acaba por emergir do
próprio discurso enunciado e remete ao modo de ser do “orador”, o sujeito da
enunciação. Por meio desse ar, o “orador” faz crer em si, como sendo um estrangeiro, sem dizer para a “platéia”: Sou estrangeiro, notaram?. Esse ar é o próprio estilo.
O ar de estrangeiro, transformado, então, em objeto de desejo, é construído na retórica, numa “receita” para um modo ideal de dizer. A admiração
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do outro, sanção positiva, deve constituir reforço para que esse modo de dizer não seja pontual. Na ênfase ao modo de dizer está um ponto de apoio para um conceito de estilo que vise à relação entre enunciado, o texto, e enunciação, o eu construído pelo próprio texto inteiro. A enunciação, lembremos, é instância linguística, sempre pressuposta no enunciado. Aí também está a base para um conceito de estilo, que vise à relação entre o dito e o dizer; no caso, de uma totalidade de discursos.
Na tradição dos estudos estilísticos, a relação enunciado/enunciação nem sempre foi buscada adequadamente, perdendo-se, muitas vezes, nos labirintos de uma crítica literária, em que a pré-existência de um autor “real” ou empírico podia ser referência indicativa da escolha destas ou daquelas expressões estilísticas, supostas marcas de gosto ou preferência pessoal, constituintes do estilo. Essa relação esvaiu-se, na maioria dos estudos estilísticos, ora na consideração do estilo como um desvio em relação a uma certa norma, grau zero de expressividade, ora na consideração do estilo como escolha entre alternativas de expressão, ora na consideração do estilo como conjunto de
características individuais, ou coletivas, ora nas prescrições para a construção de um bom estilo. Despontava, deste último caso, uma outra norma para o estudo do estilo,
aquela do bem escrever, para a qual a própria Retórica, aliás, forneceu subsídios, enquanto doadora das prescrições ou regras. No Livro Terceiro dessa obra, Aristóteles fala, por exemplo:
Da beleza do estilo (Capítulo II); Da frieza do estilo (Capítulo III); Da correção do estilo (Capítulo V);
Dos meios de dar ampliação ao estilo (Capitulo VI); Da conveniência do estilo (Capítulo VII);
Do ritmo oratório (Ritmo e estilo) (Capítulo VIII);
Das duas espécies de estilo (Estilo coordenado e estilo periódico) (Capítulo IX); Dos meios de tornar o estilo pitoresco (Capítulo XI);
Do estilo próprio de cada gênero (Capítulo XII).
Assim a Retórica, “onde tudo depende da imaginação, e que tem em vista o ouvinte” (p. 206), postulando que o importante não é ser verdadeiro, mas parecer verdadeiro, sugerindo, portanto, um simulacro de uma enunciação pressuposta num enunciado, acabou sendo herdada, ou pelas qualidades de estilo que enuncia, ou pelo
ornamento, raiz das figuras de retórica e suposta razão de ser do próprio estilo. A
postura normativa, que separa o bom do mau estilo, corre paralela ao conceito de estilo enquanto desvio de uma certa norma, ou estilo enquanto
ornamento, que é o mesmo que pensar em estilo enquanto
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um invólucro de expressividade daquilo que é despido de expressão. O efeito estilístico é visto, nesse caso, enquanto afastamento daquilo que é ordinário e comum, ou seja, a norma, ou, como vimos, o grau zero da expressão. O que é do estilo se opõe, portanto, àquilo que não o é, perpetuando a oposição estilo VS. falta de estilo; no desvio, o estilo; na norma, a falta de estilo. Restringindo- se a uma estilística que é apenas a da
expressão textual, quando não se restringe, ela própria, à dimensão da frase, tal
perspectiva do estilo enquanto desvio acabou, durante muito tempo, por circunscrevê-lo às ditas figuras de retórica, passando a própria retórica a ser entendida apenas como
ornamento.
É bom rever tais perspectivas estilísticas. Acreditamos que, dialogando com elas, podemos propor algo novo para o conceito de estilo, contribuindo, quem sabe, para aumentar a inteligibilidade do próprio estilo. Verificamos a importância da perspectiva do desvio, que conflui com a da escolha, e que perpassa a Estilística dita lingüística e aquela dita literária. Na primeira, está a corrente representada por Charles Bally; na segunda, a representada por Leo Spitzer, Dámaso Alonso, Raul Castagnino, Wolfang Kayser.
Lembremos que Charles Bally toma a Estilística da tradição retórica e o faz, propondo uma relação com a Lingüística. Nas obras Précis de Stylistique: esquisse d
une métode fondée sur 1 ‘étude du français moderne (1905), Traité de stylistique française (1909) e Le langage et la vie (1913) reflete sobre os aspectos afetivos da
língua, onde estariam as ditas expressões estilísticas. Distinguindo o conteúdo
intelectivo da linguagem, do conteúdo afetivo, ou o lingüístico, do estilístico, “examina os meios pelos quais o sistema impessoal da língua (estudado por Saussure) é
convertido na matéria viva da fala humana”, segundo comentário de Martins (1989: 4): Ele (Bally) foi o primeiro a distinguir com precisão o conteúdo lingüístico do conteúdo estilístico, a informação neutra, do suplemento subjetivo a ela acrescentado, mostrando que um mesmo conteúdo pode ser expresso de diferentes modos.
Importa que há um certo consenso de que Bally funda uma nova tradição, a do estudo dos valores expressivos do vocabulário, das classes de palavras, das construções sintáticas, para fundamentar a dita estilística descritiva, de raízes saussurianas, que se opõe à estilística idealista (genética) como diz Yvancos (1988: 20).
Paz Gago (1993: 15), por exemplo, ao se queixar do ecletismo no emprego do termo Estilística, sob o qual “se agruparam inúmeros trabalhos das mais diversas orientações e tendências, de modo que se converteu em um saco de gato em que cabia quase tudo: desde estudos de retórica, preceptivas tradicionais ou manuais sobre a arte de escrever”, além dos “estudos literários”, confirma o mérito de Bally em opor sua Estilística ao estudo dos estilos
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individuais, afastando-se, portanto, da Literatura. Ainda, ao fazer a delimitação histórica da Estilística, esse autor (1993: 16) situa
Précis de Stylistique, de Charles Bally, subtitulado com uma marca paratextual
muito oportuna: esquisse d ‘une méthode, esboço de um método fundado sobre o estudo do francês moderno.
É, aliás, tentando responder a vozes como a de Paz Gago, na consideração que ele faz do objeto da Estilística, e na consideração dela enquanto método e não enquanto ciência, bem como nas reflexões sobre a contribuição que a Semiótica pode dar a esse campo de pesquisa, que também pretendemos trabalhar. Vejamos algumas ilustrações desses pensamentos do autor:
Dentro do paradigma semiótico, a estilística nunca conseguiu nem a necessária reformulação metodológica para sua aplicação, apesar de sua avançadíssima orientação pragmática de origem, nem um estatuto claro.
(...)
O estilo é objeto adequado de uma ciência ou teoria do estilo, inexistente até o momento, mas não o é da Estilística e muito menos se já a definimos como método de crítica literária.
É evidente que todo texto tem estilo, não apenas os literários, como também os
textos periódicos, publicitários, ideológicos ou ensaísticos; orais ou audiovisuais; religiosos e filosóficos... No simples ato cotidiano de ler a imprensa, facilmente fazemos distinções entre a forma de escrever de um
jornalista determinado que gosta dos usos coloquiais, que costuma reproduzir os diálogos da gente da rua e termina, assim, por ser mais direto em sua Linguagem jornalística particular, frente às colaborações muito mais polidas e literárias de Lázaro Carreter na terceira página do jornal madrilenho ABC, ou a um despacho de agência, puramente informativo, no qual a forma é bastante neutra, pois se pretende uma objetividade na qual não intervenha uma manipulação subjetiva, tanto semântica como formal, por parte do redator da notícia. Neste sentido falamos de estilos diferentes para nos referir a artigos da imprensa e damos nossa própria avaliação sobre eles: estilo direto e coloquial, literário e culto, estilo neutro... (1993: 17, 24).
Voltando a Bally, destacamos sua importância nos estudos feitos no Brasil sobre estilo. Refletindo sobre os procedimentos lingüísticos, reunidos em sincronia, e dando destaque aos fenômenos afetivos, ou da sensibilidade, fundando, portanto, “a estilística da expressão linguística” como afirma Martins (1989: 4), permite-nos esse autor entender o ponto de vista de outros estudiosos do estilo, como Lapa (1970: 30-32) que propõe, por exemplo, uma orientação para o aprendiz do estilo:
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Vejamos estas quatro frases: a) O pobre homem morreu cheio de sofrimento. b) Às dez horas, o patifório esticava o pernil c) O estadista expirou com o
pensamento no seu país. e) Faleceu ontem o Sr. Antônio dos Santos Abreu. No primeiro exemplo, morreu é o termo usual (...) que contém idéia geral, menos
expressiva, por assim dizer. No segundo exemplo, pasmamos do atrevimento da expressão; sentimos imediatamente que esticar o pernil é um termo da gfria popular, que evoca esferas inferiores da população. No terceiro exemplo,
expirar aparece-nos como um vocabulário literário, só usado nos livros. Enfim,
no último exemplo, faleceu dá-nos a impressão de um meio burocrático, jornalístico. A palavra, que tem um caráter eufemístico, é empregada em estilo
correto, cerimonioso, levemente afetado.
Uma das coisas que melhor denunciam o aprendiz de estilo é o desconhecimento desta lei importante, que consiste em empregar as palavras que condigam com o ambiente psicológico ou social.
Uma idéia menos expressiva se opõe a uma mais expressiva. Trata-se de um estudo do estilo que se pauta pela atenção a tais recursos expressivos da língua, supostamente restritos à escolha de sintagmas, palavra ou frase, e articuladores dos significados a mais na dimensão palpável de uma frase. Fazem eco a essa voz Gladstone Chaves de Mello e Mattoso Câmara Júnior, sendo que este último, pelo elenco de tais sintagmas “expressivos”, juntava instrumentos para aprimorar o entendimento dos recursos de individuação de estilo de um autor. Como exemplo, está o estudo do
emprego do discurso indireto livre em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (Câmara, 1977: 25-41), em que Câmara parece prognosticar, no romance, o estilo enquanto recorrência de procedimentos, enquanto totalidade, pois fala, no final de tal estudo, de tal procedimento de construção de sentido, chamado processo lingüístico, “como traço sistemático (destaque nosso) do romance moderno”, para cujos “caracteres na obra de nosso maior romancista” o autor gostaria de ter chamado a atenção. Em outra obra (1978: 53), entretanto, Câmara fala da pátina emotiva ao se referir a sofisticações
estilísticas pontuais de determinados poetas brasileiros, como Alphonsus de Guimarães
e Raimundo Correia. Isso, após ter feito em outra obra (1968: 168), a seguinte afirmação:
O estudo do estilo é essencialmente matéria da estilística. Quando um indivíduo se caracteriza permanentemente por traços gramaticais excepcionais, que não carreiam um intento de expressividade, isto é, não visam a manifestar ou transmitir emoção, não se têm fatos de estilo, mas idioleto. (...)
Os dois campos mais propícios à caracterização linguística pelo estilo são o do vocabulário e o da sintaxe. Naquele, a expressividade recorre a arcaísmos e neologismos; dá preferência a uma entre outras palavras mais ou menos
sinônimas, guiando-se pela estilística fônica e por conotações usuais ou mesmo um tanto subjetivas; lança mão da metonímia e da metáfora. Neste, procede a uma escolha entre as construções sintáticas que a norma lingüística permite.
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Note-se que o estilo em grande parte depende da intenção da obra, e um escritor pode variar de estilo de uma obra para outra. Por outro lado, escritores com as mesmas tendências estéticas apresentam muitos traços estilísticos comuns, e assim se tem o estilo de uma escola literária ou de uma época.
Na verdade, o que resulta como recorrente é a posição do analista, que busca encontras nas expressões da expressividade as marcas de um estilo, colhidas em pontos de determinado enunciado. Mantém-se a dicotomia conteúdo lingüístico vs. conteúdo
estilístico, para a qual o uso da língua, que ultrapassa um plano considerado intelectivo,
ou se desvia desse plano, é que constitui o estilo. Cumpre sempre, e paralelamente, investigas a intenção do autor, ao eleger determinada expressão, procedimento este convergente com a outra estilística, a literária, da qual falaremos oportunamente. Essa eleição ou escolha, aliás, confluente com o conceito de estilo enquanto desvio,
apresenta, com Possenti (1988: 195-197) uma retomada da mesma postura analítica: Penso que deverá ser este traço - a escolha como fruto de trabalho - a opção que
devo tomar para a configuração do estilo. (...)
Então, se o locutor busca, dentre os possíveis, um dos efeitos que quer produzir em detrimento de outros, terá que escolher dentre os recursos disponíveis, terá que “trabalhar” a língua para obter o efeito que intenta. E nisto reside o estilo. No como o locutor constitui seu enunciado para obter o efeito que quer obter. Possenti ilustra suas afirmações com o verso de Vinícius de Moraes, Meu tempo é
quando, em que o “quando” produz, pelo inusitado, porém não novo sintaticamente, um
efeito poético e o faz para firmar a noção de estilo:
No que concerne à sintaxe propriamente dita, podem-se mencionar
investimentos estilísticos sobre recursos não destinados, na gramática, a produzir os efeitos que assim produzem.
Essa tendência de reconhecimento de traços estilísticos naquilo que está
mascado, quer pela carga afetiva, quer pelo inusitado, passando, portanto, o expressivo a significar em oposição ao não-expressivo, tendência confluente com a perspectiva do desvio, como já foi dito, confirma um dos modos de herdar a Arte Retórica. Cremos
poder haver outros.
Aristóteles (384 a.C—322 a.C) pode ser ponto de partida e de chegada para novas reflexões sobre o estilo, que visem não apenas ao que o texto diz. Considerando, por exemplo, as partes componentes do sistema retórico, a inventio (o conteúdo, de onde se extraem provas e argumentos relacionados ao tema); a dispositio (a maneira de organizas ou planejar as diferentes partes do discurso); a elocutio (as escolhas da expressão que se adequarão ao conteúdo ) e
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a actio (a execução ou atualização do discurso, que supõe timbre voz e entonação, pausa e ritmo), sabemos que é na elocutio que se consideram instaladas as bases do estilo. A
elocutio “é o estilo ou as escolhas que em ser feitas no plano da expressão para que haja
adequação forma / conteúdo”, afirma Mosca, (1999: 28-29) que, na mesma fonte, encerra tais comentários, citando a memória, ou a retenção do discurso e, apoiando-se em Quintiliano, fala da técnica possível para essa retenção, por meio de processos
mnemônicos, referindo-se, ainda, à estrutura do discurso, à sua coerência interna,
como mecanismo auxiliar para tal memória:
Pode-se dizer que ainda hoje esses passos propostos pela Retórica Antiga constituem procedimentos importantes para a consecução de um trabalho bem
composto e de boa qualidade (grifo nosso).
Observando a insistência no juízo de valor sobre o estilo, no trabalho bem
composto e de boa qualidade, afirmamos que talvez se possam retomar as partes
componentes do sistema retórico numa proposta de conceituação de estilo que junte
inventio, dispositio, elocutio, actio e também memoria. Essa proposta apóia-se no
princípio de que a linguagem humana constrói mundos; de que a propriedade da linguagem é indissociável do homem; de que, como diz Benveniste (1995: 286), “é na
linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito”; ou de que a “subjetividade” “é ego que diz ego”. Assim sendo, o sujeito que faz, ou que é
determinado estilo, pode ser (re)construído numa totalidade de discursos enunciados. Estamos num percurso inverso ao demonstrado, pois vamos do estilo ao sujeito.
pressuposta ao enunciado, ou sujeito da enunciação, desdobrado em enunciador e enunciatário, assim considerados efeito de sujeito, em se tratando de estilo, devem parecer ser contínua e durativamente os mesmos, ainda que pressupostos a mais de um enunciado. Inventio, dispositio, elocutio, actio, e até a memória, coligir-se-iam, dessa maneira, nas estratégias do sujeito que, em tais circunstâncias, faz crer ser uno. Astúcias e persuasão. Lembremos, aliás, Aristóteles:
É pelo discurso que persuadimos, sempre que demonstramos a verdade ou o que
parece ser verdade, de acordo com o que, sobre cada assunto, é suscetível de persuadir (p. 35).
Pensamos no estilo como o modo próprio de dizer de uma enunciação, única, depreensível de uma totalidade enunciada. Essa perspectiva faz com que as relações de sentido convirjam recorrentemente para um centro que, longe de mostrar um sujeito empírico, cria o próprio sujeito. Por isso afirmamos
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que o ato singular de dizer emerge do dito, também em se tratando de totalidade, O centro, o referencial interno, remete, porém, à exterioridade do próprio estilo, pois só por oposição ao externo, o interno significa. O que é, por sinal, a exterioridade do estilo, senão o outro, pelo qual se constitui o um? Esse outro, além do tu instituído
intersubjetivamente, o que é, senão a própria situação de comunicação?
Vejamos como Aristóteles, alertando para a necessidade de adequação do discurso à situação de comunicação, acaba por distinguir o dito do modo de dizer, no trecho citado a seguir, do Livro Terceiro, da Arte Retórica:
Comparando uns aos outros (estilo escrito e estilo das discussões), os discursos escritos parecem acanhados nos debates, ao passo que os discursos dos oradores, mesmo se causam boa impressão quando proferidos, parecem obras de profanos quando os tomamos nas mãos e os lemos, O motivo é que estes últimos
discursos têm seu lugar próprio no debate. Pela mesma razão, os discursos que se prestam à ação oratória, quando esta é suprimida, não surtem o mesmo efeito e parecem demasiado simples. Por exemplo, os assíndetos e as freqüentes repetições da mesma palavra são justamente censurados no discurso escrito, embora nos debates os próprios oradores a eles recorram, pois são meios próprios da ação. É forçoso, portanto, mudar a expressão para traduzir a
mesma idéia (p. 243).
Sob o teto da retórica clássica, observamos, então, o estilo enquanto ethos. Ora, é quando procura remediar todo excesso, dando orientações voltadas, por exemplo, para o evitamento de períodos muito longos, como também a fuga daqueles muito curtos, ou para falar palavras duras, atenuando expressões faciais, que Aristóteles ainda uma vez e, implícitamente, nos dá subsídios, para pensar em estilo enquanto ethos; esse ethos de
justa medida, que se opõe a um ethos de exageros, ou de gritos. Deve haver uma
recorrência no modo de ver, sentir, captar, reconstruir, enfim, a “realidade”, no que diz respeito a uma enunciação que forja um ethos, um estilo. Deve haver uma coerência interna num conjunto de discursos, uma permanência de modos, objetos e meios, estes, que constituem critérios distintivos da própria mímese aristotélica, proposta na Arte
Poética. Deve haver um crer e um fazer crer que fundam uma previsibilidade
reconhecível.
mas a verossimilhança, que não é mera cópia, mas um fazer representativo do mundo e dos objetos, estes entendidos por Aristóteles como ações, fábulas e mitos, deve apontar para o referente interno, construído no e pelo enunciado, que é o que deve interessar no estudo do estilo, como representação de qualquer referente “real”; o “autor” de um conjunto de obras, por exemplo.
A Semiótica apóia-se na mímese, ao projetar um instrumento metodológico, que (re)constrói o sentido dos textos. Aliás, os textos, convém acrescentar, são aqui
considerados não apenas na manifestação sensível, na aparência
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seja ela qual for, mas na imanência, nas profundezas da geração do sentido que, assim, pode ser iluminado, ainda que apenas em uma das múltiplas faces. Esse instrumento auxiliar de análise, fluxo de uma Semiótica narrativa e discursiva, é modelo de
previsibilidade do sentido, visto este como construção do discurso, visto, enfim, como efeito de sentido. Esse instrumento é a ferramenta necessária para garimpar o estilo em uma totalidade de discursos enunciados. Assim sendo, buscar-se-á o sentido, em princípio, como relação: do nível fundamental, com o narrativo, deste, com o discursivo; desses três níveis componentes do conteúdo ou da imanência discursiva, com a manifestação ou com a expressão e a aparência; sempre de uma totalidade. Como a totalidade supõe o mais de um e a relação parte/todo, deve resultar de tal
procedimento analítico um fato formal de estilo, fundado pela previsibilidade depreensível da totalidade. Uma forma do conteúdo, acoplada a uma forma da expressão, numa relação de isomorfia, constituem a invariante do sentido de um conjunto de textos, explicitada por meio do percurso gerativo do sentido. Assim pode ser entendido o enunciado de estilo de uma totalidade: abstrata, generalizada e
mimeticamente.
Mas, poderá o estilo circunscrever-se ao sistêmico, ao estático? Onde ficariam as instabilidades, que fazem a luz significar apenas em situação de confronto com as trevas, ou o eu significar apenas na relação dialógica com o tu? Importa não perder de vista essas perguntas. É bom ressaltar, entretanto, a herança advinda da Retórica e da
Poética para falar em estilo, tomando, como arcabouço, o percurso gerativo como
mímese da construção do sentido. Aliás, a própria narratividade, representação
espetacular do fazer do homem no mundo, nível intermediário entre o fundamental e o discursivo, em que relações abstratas se transformam em valores, por estar em junção com sujeitos, funda-se, ela própria, numa atividade mimética.
Observaremos, por enquanto, que esse modo de herdar a Retórica pode
representar algum avanço em relação à estilística da expressão, a descritiva, bem como em relação à estilística do indivíduo, a genética, podendo, quem sabe, versar sobre todo e qualquer estilo, não apenas o literário; isso, sem deixar de retomar a estilística
literária, ou da fala, conhecida como idealista, psicológica e genética. Falemos um pouco dessa estilística, que é considerada idealista, pois se apóia na filosofia idealista de Benedetto Croce e de Karl Vossler; psicológica, porque busca a psicologia do
escritor; genética, porque pretende chegar à gênese ou origem da obra literária.
Essa ciência do estilo, que vê seu objeto, o estilo, como criação lingüística individual e, portanto, como fato da fala, ao fixar-se no estilo literário, privilegia a intuição do autor, em confluência com a do leitor, propagando o dom especial para uma leitura de descobertas, fundamentada por tais intuições. Desse encontro, intermediado por marcas estilísticas reconhecíveis, como construções
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sintáticas não-usuais, escolhas lexicais singulares, revelar-se-ia o sentido de um estilo
traços estilísticos localizáveis pontualmente no texto e diretamente relacionados à alma
do criador. É bom que se acrescente que essa crítica evolui nessa observação de marcas estilísticas pontuais, passando a considerar o desvio, não mais como expressão de estados da alma, mas como um traço estrutural, formal, que se submete a um princípio ordenador, a intenção do autor “Desde os anos vinte e até a entrada da década de quarenta, a crítica spitzeriana se caracterizará por este componente psicológico que nunca abandonará”, afirma Paz Gago (1993: 56), que assim complementa:
Inserido no ambiente freudiano e não alheio às contribuições de seu mestre e colega Vossler, (Spitzer) concebe o estilo como uma manifestação externa de algo interno, da personalidade do autor, razão pela qual sua análise desemboca em uma espécie de diagnóstico psicológico sobre os escritores. (...)
Seu ponto de partida quer ser lingüístico. Uma leitura atenta de uma obra
literária deve fazer emergir certos detalhes formais que o crítico considera como inovações estilísticas: termos, construções sintáticas, frases que resultam inéditas em relação à língua comum ou em relação à língua literária da época são
interpretadas como desvios, fatos lingüísticos que se apartam do uso normal da linguagem, inovando-o. (...)
Os traços de estilo localizados, esses fatos lingüísticos desviados que chamaram a atenção do leitor e do crítico, estariam em relação de causa-efeito com as idéias ou sentimentos predominantes na mente do escritor, o que Spitzer denomina, em terminologia mentalista, os “centros afetivos” de sua alma. Essa postura analítica, à qual interessa a pessoa empírica do escritor, chegando a conclusões do tipo psicológico, a partir de dados textuais, vê o estilo como expressão da “visão de mundo” de um autor, interpreta traços estilísticos como particularidades psíquicas e propõe, como método, a cuidadosa, sensível e repetida leitura da mesma obra e de outras obras do mesmo autor, até que se verifique a gênese de tal obra, enraizada na alma do criador. Mantém-se a oposição expressões estilísticas vs.
expressões não- estilísticas, como instrumento de análise. Nessa oposição, implícita-se
a idéia de estilo enquanto desvio de uma norma, grau zero de expressividade.2
Falemos um pouco também de outra estilística, considerada “do desvio”: aquela proposta por Pierre Guiraud (1978) e também chamada de estatística. Nela, por
exemplo, o desvio em relação ao emprego de um determinado vocabulário é
reconhecido por métodos estatísticos aplicados a um conjunto de textos. Tais estudos de estatística lexical, dando indicações de freqüências de uso, levantando ocorrências e recorrências, constituem uma interessante busca de objetividade de análise, sem deixar de atentar para os
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gêneros do discurso, o que, de certa forma, acaba por se reportar à situação de comunicação. Vem ao nosso encontro, pois não desconsideraremos o gênero como instrumento para a identificação do estilo. Vejamos o que diz Guiraud (1978: 22) a respeito:
A noção de gênero é, efetivamente, inseparável daquela de estilo. A cada gênero correspondem modos de expressão necessários e rigorosamente definidos, que determinam não somente a composição, como também o vocabulário, a sintaxe, as figuras, os ornamentos.
relação enunciado/enunciação no estudo do estilo, distanciando-se de uma proposição do estilo como unus. Vejamos, por exemplo, como Daniel Delas, em prefácio a obra de Rifaterre (1971: 10) se refere a tais pesquisas estatísticas:
Elas (as pesquisas estatísticas de estilo) podem indicar as freqüências, as co-ocorrências e os contextos a partir dos quais é possível remontar, de maneira mais segura que Spitzer, ao etymon ou às obsessões do autor, e também precisar os campos semânticos e as colocações específicas de um escritor.
Todavia, um estudo de léxico ou de vocabulário, por mais consciente que seja da concatenação sintagmática, é forçado a limitar-se a unidades lingüísticas que são ao mesmo tempo infra-estilísticas e transestatísticas; infra-estilísticas porque são elementos constitutivos do material estilístico, transestatísticas porque tais elementos se organizam no sistema de um texto (orações, frases, parágrafos etc) que eles estruturam; enfim, é colocar entre parênteses o espaço textual, noção que não se deve dissociar da noção de estilo.
O léxico, ponto de confluência do conteúdo com a expressão, não deve ser descartado para a análise de um estilo, seja qual for a natureza dessa expressão. Deve, sim, ser considerado como subsídio para o reconhecimento da organização das figuras “do mundo” que, enfeixadas em núcleos, fazem mais visíveis, mais audíveis, mais acessíveis, enfim, idéias e ponto de vista instrínseco a uma totalidade.
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RIFATERRE, HJELMSLEV E O ESTILO_______________________
RIFATERRE, HJELMSLEV E O ESTILO_______________________
Falemos agora de Michael Rifaterre. Esse autor, com Essais de Stylistique
Structurale, em que se inserem, como foi visto, comentários de Daniel Delas,
desenvolve estudos de estilo que propõem uma estilística estrutural, na medida em que leva em conta, não uma norma gramatical, que postula o certo e o errado, nem uma norma, grau zero de expressividade, que opõe o estilo ao não-estilo, mas uma norma do próprio texto.
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Deixando de pensar em desvio como infração ao correto, ou como a
expressividade a mais, significado raro ou não-freqüente, deixando de lado, portanto, as idiosssincrasias lingüísticas, vistas como emprego retórico, que se oporiam a uma certa linguagem de base, Rifaterre firma a preocupação, sem dúvida já levantada por Spitzer, com a necessidade de elaborar um método de análise estilística a partir de critérios
objetivos. Antes de Spitzer, sempre é bom lembrar, a análise do estilo se restringia à crítica literária, de forte cunho biográfico. Segundo esse crítico, a suposta revelação do sentido de um estilo, específica do etymon de um escritor, vem por meio do próprio texto, por meio de uma unidade lingüística, não podemos negar. Pesa, entretanto, para nós, a imagem sempre pressuposta de um autor empírico, apriorístico ao enunciado e confluente com os estalos da intuição.
Retomando Delas (Rifaterre, 1971: 22-23) vemos que “cada obra tem um sistema de organização estrutural particular, mesmo que este se inscreva num conjunto mais amplo”, observação, esta, antecipada pelo seguinte comentário:
A noção estrutural de variante e invariante - tal como elaborou Rifaterre,
propondo um modelo capaz de servir para pequenas e grandes unidades, para palavras agrupadas e textos - ignora essa dicotomia (estilística e semiótica, aqui
apresentada como a análise da narrativa) que é mais terminológica que metodológica.
A invariante resulta na unidade estilística, no pattern, reflexo de um sistema, o estilístico, deduzível com o auxilio de uma análise formal. Apoiado na recorrência da leitura de vários informantes, que devem apontar no texto inevitavelmente o que lhes chama a atenção, quer positiva quer negativamente, o analista detectará tais reações verbalizadas, registrando-as, sem se preocupar jamais com o conteúdo delas, mas apenas com sua ocorrência. O que é imprevisível, contrastivo, e que chamará a atenção do leitor, faz parte dos estímulos do texto, que estão por trás das respostas do
informante. A recorrência destes contrastes alarmantes diagnosticados pelo leitor é produto de uma invariância, o pattern estilístico.
A invariância das variâncias, trazidas à luz pelas leituras recorrentes: assim poderia ser resumida a originalidade estilística, segundo Rifaterre. Fica confirmado o desvio de uma norma do texto. São curiosos trechos de Rifaterre, como estes:
Primeiro, a unidade estilística, em seguida, o alarme da atenção do leitor. Deduz-se que a investigação estilística deverá utilizar informantes. Estes nos fornecerão reações ao texto: por exemplo, um nativo dotado da consciência da linguagem-objeto lerá o texto e o estilísta recolherá suas reações. Os segmento do texto que enusam suas reações, o informante os qualificará tanto de belos como de não-estéticos, de bem ou de mal escritos, de expressivos ou sem
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atrativos; o analista utilizará essas caracterizações como simples índices de elementos da estrutura pertinente. O analista não se preocupará se elas são justificadas ou não no plano estético. (...)
O grupo de informantes utilizados para cada estímulo ou para uma seqüência estilística inteira será chamado arquileitor (1971: 42-46).
Interessante que esse percurso, do leitor ao texto, que pressupõe um movimento anterior, do texto ao leitor, na construção do próprio texto, percurso este apontado por Rifaterre e respaldado pelos comentários de Daniel Delas, preocupa-se, como método de análise estilística que se prende ao que é pertinente ao texto, em não se perder na
subjetividade do leitor, naquilo que ela representa de “seu gosto, sua filosofia, ou aquilo
que ele crê saber do gosto, da filosofia ou das intenções do autor” (1971: 46). Ao explicar o que é o arquileitor, dizendo o que ele não é, ou sei a, uma média estatística ou comum, no sentido de medíocre, diz Daniel Delas:
Arquileitor não apresenta nenhum desses inconvenientes e conserva do leitor comum apenas a atitude (...): como o leitor comum, ele decifra o texto
progredindo na mesma direção da seqüência verbal, da esquerda para a direita, do início para o fim. O arquileitor é uma soma de leituras, e não uma média. Nada mais é que um instrumento para assinalar os estímulos de um texto. A eliminação do conteúdo da reação dos leitores é essencial: protege contra as classificações preconcebidas (como a da retórica), faz com que o levantamento seja trans-histórico, transideológico (...). Posso ser acusado de substituir o autor e o texto pelo leitor e sua psicologia: do autor só resta o texto e, quanto ao leitor, é certo que suas reações são processos psicológicos, mas o arquileitor só conta
por aquilo que as provoca (grifo nosso), isto é, os componentes do texto (1971:
46-47).
Explicando que o método não se resume na utilização do arquileitor, sendo esta apenas uma primeira fase, heurística, seguida por uma fase hermenêutica, em que se incluem os valores subjacentes a toda leitura, ressalta o autor que “esta interpretação será feita a partir do conjunto dos fatos pertinentes, e não a partir de um texto filtrado pela subjetividade do leitor”. Acrescenta:
Os fatos pertinentes de estilo, sendo coletados do começo ao fim do texto, serão
registrados pelo analista do conjunto somente nos pontos onde converge a atenção de n leitores, críticos, analistas etc. (...)
Como importam apenas as formas realmente ativadas em contexto e que se impõem conseqüentemente à percepção, será mais exato não falar simplesmente de
exaustividade, mas também de pertinência. O problema que uma obra longa parece dever produzir é mais aparente que real: o analista determina rápido as constantes da
escritura do texto. Estas constantes não são fatos estatísticos, mas estruturas (grifo
nosso) (1971: 47).
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Propondo um leitor participante da construção do estilo de uma obra, pois acaba admitindo que “(ele, o leitor) é o alvo conscientemente escolhido pelo autor” (1971: 41), Rifaterre converge para o leitor cooperativo, conceito de leitura como co-enunciação, firmado pela Análise do Discurso de linha francesa. Propondo tais fatos estilísticos, que não são estatísticos, mas estruturais, enfeixados por uma invariância das variâncias, Rifaterre converge para os fundamentos hjelmslevianos, da forma do
conteúdo e da forma da expressão. Para conceituar estilo devemos, portanto, assumir pontos de convergência com esse autor de uma estilística estrutural.
Fizemos referência a fundamentos hjelmslevianos, sobre forma do conteúdo e forma da expressão, para conceituar o estilo. Esclarecemos que Hjelmslev, do qual Greimas é herdeiro, dá-nos respaldo para, por meio da análise de totalidades, atingir alguma conceituação de estilo, ou para procurar construir algum conhecimento por meio da análise empírica de textos. Nesse sentido, trabalharemos indutivamente. Mas, já que, concomitante a hipóteses, fundamenta-se, aqui, a própria prática da análise, a qual busca entranhar-se sentido adentro, trabalharemos também dedutivamente. Importa que
estejamos alertas para o fato de que, para tais procedimentos, e como pedem as hipóteses do nosso trabalho, impõe-se um vasto e variado corpus para análise. Se a natureza do corpus, pela extensão e variedade próprias, pode prejudicar a exaustividade de análise, pode, porém, contribuir, tanto para a verificação da eficácia do instrumento
metodológico adotado, como para, quem sabe, a construção de um esboço de generalidades teóricas.
Voltemos a Hjelmslev (1954: 45-46), quando estabelece a “doutrina” da
glossemática.3 O autor caracteriza tal “ciência da linguagem” por meio destes quatro
traços particulares:
1°, aquele de recomendar como único adequado, um procedimento analítico (dito também como dedutivo) (...), e de considerar a síntese (ou descrição das
unidades pelas partes que a compõem, ou, para melhor dizer, pelas suas funções interiores geradoras), como pressupondo a análise; 2°, aquele de insistir sobre a forma, até aqui negligenciada em favor da substância; 3°, aquele de querer compreender na forma lingüística aquela do conteúdo, e não apenas aquela da expressão; e, em conseqüência destes princípios, 4°, aquele de considerar a linguagem, no sentido comumente adotado pelos lingüistas, como um caso particular de um sistema semiótico, isto é, de um sistema que comporta planos diferentes e, no interior de cada plano, urna diferença entre forma e substância (exceção feita à ausência de substância, tal como se pode constatar no caso de um sistema construído).
Hjelmslev verdadeiramente nos autoriza a, para falar em estilo, empiricamente (re)construir a significação de uma totalidade de discursos, descendo às profundezas da construção de tais discursos e considerando, ainda, as dependências
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do que é desvelado pela catálise. Falamos, a princípio, da discretização do sentido, dada pelo percurso gerativo, aplicado a totalidades. Mas importa dar destaque à catálise, para que compreendamos a continuidade na construção do sentido, subjacente a essa
discretização, dada pelos níveis. Perguntamos, então: não é o sentido, de acordo com tais princípios, reconstruído por meio de níveis? No nível fundamental não está o sentido mais geral e abstrato, para o qual são convocados universais, como vida/morte, de maneira que valores são valorizados como do Bem ou do Mal? No nível narrativo, não se distâncializam as relações de sentido do nível fundamental, de maneira que se institua um sujeito, que só se justifica enquanto tal, pela falta, ou pela busca de um objeto, assim considerado objeto de valor? No nível discursivo, em que se consolidam as relações estratégicas do eu com o enunciado, do eu com o não-eu, não se consumam as relações de sentido projetadas desde as profundezas do percurso? Ora, impossível não observar, para além da discretização do sentido, própria da segmentação em níveis, uma dependência entre esses níveis, ou uma função, que “preenche as condições de uma análise”, tomando para nós palavras de Hjelmslev (1975: 137). Há, portanto, um
continuum subjacente ao percurso gerativo; nele, repousa a catálise: “registro de coesões
através do câmbio de uma grandeza por outra com respeito à qual há uma substituição” (1975: 140). Esse continuum dará subsídios para que entendamos a unidade de um estilo.
Hjelmslev, portanto, procurando estabelecer “as categorias semânticas utilizadas em cada língua ou cada estado de língua, para constituir significados”; “comparando estados de línguas diferentes ou línguas distintas”; tentando estabelecer uma “tipologia de base semântica das línguas”, “enunciava a possibilidade de uma semântica estrutural diacrônica e de uma semântica estrutural contrastiva”, como esclarece Fiorin. 4
Hjelmslev (1975: 8-9) orienta-nos para um ponto de vista imanente no estudo do estilo e dá-nos o seguinte alerta:
A procura de uma tal constância concêntrica e global se chocará inevitavelmente com uma certa tradição humanista que, sob diversas formas, até agora
predominou na lingüística. Em sua forma extremada, esta tradição nega a priori a existência da constância e a legitimidade de sua procura. Esta tradição quer que os fenômenos humanos, contrariamente aos fenômenos da natureza, sejam singulares, individuais, não podendo portanto nem ser submetidos, como os da natureza, a métodos exatos, nem ser generalizados. (...)
Em todo caso, parece legítimo propor a priori a hipótese de que a todo processo corresponde um sistema que permite analisá-lo e descrevê-lo através de um número restrito de premissas.
Abrindo parênteses para reminiscências, lembramos que o saudoso Prof. Ignácio Assis Silva, em suas aulas, insistia que Hjelmslev “desmotiva a forma”, e Brøndal “motiva a forma”, permitindo, este último, introduzir a “corporalidade
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na concepção da frase” e refletindo sobre a intencionalidade de um sujeito e sobre a dicotomia discurso (intenção) vs. língua (sistema). Brøndal será visto no Capítulo 1. Cumpre observar que buscaremos nos achegar à dimensão sensível da enunciação, em que um actante-sujeito se reveste de um corpo e de um caráter, para que se configure o estilo. Firmamos o propósito de entender o estilo como um fato linguageiro, integrado a determinados valores ideológicos os quais, como discurso, ele, o estilo, assume. Só assim se entenderá o corpo, que é uma presença no mundo.
Mas o próprio Hjelmslev (1954: 48) aguça nosso olhar sobre o estilo, não apenas como uma invariância, mas também como variâncias, ou melhor, na relação entre elas, já que, segundo o autor, a substância, relacionada às variâncias, manifesta a forma, relacionada às invariâncias. Não se perderá de vista, ainda, o próprio conceito de transformação da própria substância em forma, o que deve fundamentar uma idéia de uma unidade virtual de sentido, que aguarda realização numa totalidade, para que se cumpra um estilo, como veremos no Capítulo 1. Reuniremos Hjelmslev com Brøndal.
Desde o momento em que se (...) procede à análise científica da “substância”, esta “substância” torna-se forçosamente, por sua vez, uma “forma”, de um grau diferente, é verdade, mas uma “forma” não obstante, cujo complemento é ainda uma “substância” (Hjelmslev, 1954: 56).
Encarando o estilo como efeito de sentido, produzido no e pelo discurso, reconhecido pelo fazer interpretativo de um enunciatório, cúmplice de um sujeito da enunciação, para que, juntos, construam um efeito de individuação, propomos inicialmente que venha, da recorrência formal das relações na construção do
significado, o resultado da própria individuação. Mas propomos também refletir sobre estilo, como construção de um sujeito por uma totalidade de discursos.
O estilo deverá ser tratado, então, como fenômeno do conteúdo mais a expressão, não podendo restringir-se a fenômenos da textualização. O fato de estilo deverá, em princípio, ser considerado uma unidade formal do discurso, que se depreende pela comparação de vários textos de uma mesma totalidade de discursos. Desse fato de estilo deverá despontar um eixo sintático-semântico comum, que se deve apresentar em todos os níveis do percurso gerativo do sentido.
Falando em conteúdo e expressão, bem como na relação de pressuposição mútua entre eles, não mais deverá interessar a manifestação textual em si mesma, nem
tampouco amostras de sintagmas expressivos, colhidos aqui, lá e acolá, num e noutro texto, como particularidades idiossincráticas, átomos considerados determinantes de um estilo. Não mais deverá interessar a psicologia de um escritor, para entender um estilo, mas as astúcias de uma enunciação
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que monta um simulacro e, por meio da expressão escolhida, constrói uma voz própria, com um tom definido, que, por sua vez, implica um modo de habitar o espaço social. Pretendemos, assim, falar, por exemplo, de uma voz de uma imprensa dita séria, oposta a uma voz de uma imprensa dita sensacionalista e, ao fazê-lo, deveremos remeter a representações sociais dessa voz, que, por seu turno, também deve possuir um corpo. E assim que pretendemos herdar o que sugeriu Aristóteles, ao propor um ar, para um estilo.
Nosso trabalho deve justificar-se, também, pela esperança de que possam surgir manuais de estilística cujos capítulos não se restrinjam à emotividade e expressividade; à denotação e conotação; às funções da linguagem; às figuras, enquanto desvios
estilísticos, à escolha estilística, às virtudes e vícios do estilo, como é o caso de
exemplar examinado, de recente publicação, representativo de uma retomada da tradição estilística apresentada, com absoluta circunscrição a ela.5 Queremos novos ares.
Firmando, portanto, como objetivo primeiro aumentar a inteligibilidade do estilo, por meio dos instrumentos dados pela semiótica greimasiana, pretendemos desfazer a dicotomia estilística lingüística vs. estilística literária, propondo uma descrição de estilo, que deve responder, quem sabe, à citação dos próprios Greimas/ Courtés (1989: 350), que assim se expressam sobre procedimentos estilísticos:
Termo da estilística que designa a “maneira de operar” do enunciador no
momento da produção do discurso, o procedimento estilístico é reconhecível - ao
menos intuitivamente — num determinado nível de superfície do texto. Essa
noção retoma, por sua conta, as antigas figuras de retórica, ao mesmo tempo que as liga à instância da enunciação. A ausência de procedimentos de
reconhecimento dessas maneiras de operar, assim como a de qualquer descrição estrutural que permita o estabelecimento de uma taxionomia, tem sido até agora a razão principal do fracasso da estilística.
Nosso intento é, enfim, provar que é possível descrever um estilo, como modo de presença no mundo, tendo, como apoio teórico, a semiótica greimasiana. Para tanto, partiremos da descrição de totalidades de discursos enunciados, buscando, no dito, um modo próprio de dizer. A conceituação de estilo deve emergir da descrição e, na
descrição, ser confirmada. Apesar de ter conhecimento de que nos deveria bastar, nessa empreitada, o desejo de somente apresentar um jeito novo de ler estilo, tentamos adiantar algumas hipóteses referentes à conceituação do próprio estilo.
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À GUISA DE HIPÓTESE______________________________________
À GUISA DE HIPÓTESE______________________________________
Estilo é efeito de individuação dado por uma totalidade de discursos enunciados. A totalidade estilística oscila entre as grandezas: unus, totus e
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nemo, homologações dos universais quantitativos propostos por Brøndal, no estudo da
Essa unidade é recortada pela leitura, do que se supõe que o efeito de individuação, suporte do efeito de sujeito de uma totalidade, supõe uma relação intersubjetiva, entre enunciador e enunciatário, desdobramentos do sujeito da enunciação, e pressuposições de “autor” e “leitor”. Por tais procedimentos, observar-se-á que, no estilo, o todo está nas partes, já que o unus, unidade integral, pressupõe o nemo, unidade partitiva, e ambos se relacionam ao totus, totalidade integral. O esclarecimento de tais conceitos consta da abertura do Capítulo 1 que, tendo como ponto de partida os universais quantitativos fundamentados nas reflexões brøndalianas, procura deduzir e confirmar o conceito de estilo a partir de análises de um corpus variado, que inclui histórias em quadrinhos e a heteronímia pessoana.
O estilo apóia-se num fato formal, enquanto potencialidade de sentido, dada pela recorrência de um fazer, depreensível da totalidade de discursos enunciados. Deve-se utilizar, como já dissemos, o percurso gerador do sentido, para atingir o fato formal de estilo, que (re)constrói o efeito de individuação de uma totalidade, por níveis de (re)construção do sentido: nível fundamental, nível narrativo, nível discursivo. É na imanência discursiva, portanto, que se buscará o estilo, como efeito de individuação de uma totalidade, ou seja, o estilo está no conteúdo de uma totalidade discursiva, sendo este conteúdo considerado na sua isomorfia com a expressão.
Deve-se buscar o estilo na configuração interdiscursiva de uma totalidade de discursos enunciados. Essa configuração interdiscursiva reúne núcleos temáticos e figurativos, em tomo dos quais gravitam variações temáticas e figurativas, na confirmação de um estoque de figuras e temas de uma totalidade. Esse estoque potencializa o sujeito da enunciação de um estilo, não somente como determinado repertório, deduzível de uma totalidade, mas como modo específico de usar tal repertório. Assim, entende-se o estilo como um percurso do objeto (o enunciado) ao sujeito (da enunciação). O sujeito da enunciação de uma totalidade de discursos,
instância lingüística pressuposta a uma totalidade de discursos enunciados, realiza-se no ator da enunciação, actante discursivo.
Cumpre ao analista de estilo (re)construir o ator da enunciação de uma totalidade de discursos. Para tanto, esse ator será observado na recorrência de um fazer e na
recorrência de um ser, o que indica o seu aspecto, ou seu modo de ser, O analista de estilo procurará reconhecer o rumo tímico de uma totalidade, o que significa reconhecer como a foria, desdobrada em disforia, valor do Mal, e euforia, valor do Bem, modifica ou modaliza os quereres e os não-quereres de um sujeito em relação ao mundo.
Para entender o estilo, deve-se prender à imagem-fim do ator da enunciação de uma totalidade de discursos enunciados. Essa imagem-fim, simulacro reflexivo,
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ou seja, imagem construída do ator para si mesmo, é também um simulacro hétero-construído, supondo a visão que tenho do outro, bem como a visão que penso que o
outro tem de mim. Essa imagem-fim, orientada pelo rumo tímico de uma totalidade,
segue então um contínuo na construção do efeito de individuação, mas esse contínuo se apóia num descontínuo, ou seja, nos níveis do percurso gerativo do sentido, O estilo, portanto, fundamenta-se num simulacro, e é reconstruído por outro: o percurso gerativo do sentido que, por meio da narratividade e do discurso, reconstrói a geração do sentido da totalidade, para aumentar a inteligibilidade dessa mesma totalidade.
Só se entende o estilo, portanto, se se observa o centro, o fechamento da totalidade de discursos enunciados, circunscritos aos seus limites, de onde emerge o efeito de diferença. Para a diferença, entretanto, não se perde de vista o diálogo do estilo com seu exterior, o não-centro, que é a heterogeneidade constitutiva, inerente a todo estilo. Mas o estilo apresenta também a possibilidade de ser apresentado com
vinculação à heterogeneidade mostrada. Podemos então analisar a intertextualidade estilística, o que será feito no Capítulo III. Nesse capítulo, veremos que,
compreendendo a intertextualidade estilística como a imitação de um estilo por outro, seja por captação, como é o caso da paráfrase e da estilização, seja por subversão, como é o caso da paródia e da polêmica, podemos proceder à análise de: paráfrase de estilo; paródia de estilo; polêmica de estilo e estilização de estilo, para o que serão reunidos textos da mídia impressa e da literatura brasileira. Importa, para a análise da
intertextualidade estilística, observar a relação entre o enunciado e a enunciação, tanto no estilo considerado de base, como nas retomadas intertextuais. Para isso, será observada a maneira como se imita o enunciado e se capta ou subverte enunciado e enunciação do estilo de base. Assim se entenderá, tão somente como sentido reconstruído por meio do conteúdo e da expressão, a tipologia proposta para a
intertextualidade estilística. Assim também não se perderá de vista que o sentido se dá pela diferença, também em se tratando de estilo.
O estilo também decorre de uma leitura homogeneizadora do mundo, inerente ao efeito de individuação de uma totalidade de discursos enunciados. Tal leitura é
identificável, na análise de um estilo, por meio da observação do modo recorrente da referencialização da enunciação no enunciado, o que, por sua vez, supõe uma unidade de avaliações e interpretações “moralizantes” sobre o próprio mundo reorganizado pela totalidade. Essa leitura homogênea deve ser buscada na totalidade enunciada, da qual se depreende, como dissemos, o ator da enunciação. Esse ator, aliás, deve ser buscado em todo e qualquer unus recortado pela leitura, uma vez que se trata de um sujeito
dissimulado e simulado na totalidade de discursos enunciados, aguardando a
reconstrução do leitor que, ao fazê-lo, encontra o prazer renovado da identificação do outro, à medida que se identifica a si próprio.
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Assim sendo, deveremos provar que estilo é ethos, é corpo, é voz, é caráter de uma totalidade, sendo que o corpo da totalidade enunciada remete ao corpo do ator da enunciação. E no Capítulo II que deveremos “enxerga?’ estilo em jornais, recortando partes da totalidade, como a oposição entre a imprensa dita séria vs. a imprensa dita
sensacionalista, a partir de um olhar sobre primeiras páginas de jornais de grande
circulação nacional. A isso sucederá outro recorte: dentro da imprensa dita séria,
deveremos identificar outros estilos, com diferentes vozes e tons, com diferentes corpos, como os dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado. Se mantivéssemos a oposição dada pela tradição dos estudos estilísticos, de estilo vs. não-estilo, ou de estilo como desvio de uma norma, considerada na superficialidade da expressão textual, não poderíamos encetar tais análises. Ou não poderíamos, seguindo pistas dadas pela totalidade de enunciados, avizinhar-nos de um “indivíduo”, constituído, ele próprio, por um modelo de anormalidade, o que o faz ser uma singularíssima pessoa, cujos contornos devem ser cortados pelo leitor. Toma, douto,; esta tesoura e corte minha singularíssima pessoa (Augusto dos Anjos).
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NOTAS_____________________________________________________
NOTAS_____________________________________________________
1. Arte Retórica, Livro Terceiro, Capítulo TI, p. 208.
2. Interessante esta observação encontrada em Mosca (1999: 37-38): “Quando se trata de figura, muito discutível é a questão do grau zero que equivaleria teoricamente à inexistência de desvio, mas que na realidade é uma construção artificial e não pode se confundir com nenhum tipo de discurso, como muitas vezes se intenta fazer. O grau zero da retórica praticamente não se dá nem no discurso científico, que dele procura se
aproximar, nem tampouco na chamada linguagem comum, que não é domínio exclusivo da denotação. Sobre o linguajar cotidiano, ficou conhecida a afirmação de Dumarsais
(Traité des Tropes, 1730), segundo a qual se fazem mais tropos num dia de mercado
que numa solene tribuna.”
3. “A palavra glossemática foi criada por Luís Hjelmslev, conforme o grego
glossa, língua, para designar a teoria lingüística que se daria, conforme o ensino de E de
Saussure, a língua como fim em si, não como meio. A glossemática implica uma crítica rigorosa da lingüística anterior: esta seria transcendente, fundar-se-ia em dados
exteriores à própria língua. (...) A ciência da linguagem que quer ser a glossemática, ao contrário, é imanente, concentra-se na língua considerada como unidade fechada em si própria, uma estrutura sui generis; procura constantes que não sejam extralingüísticas; quer determinar o que é comum a todas as línguas humanas, quaisquer que sejam, e o que faz com que, através de diversas flutuações, uma língua permaneça idêntica a si mesma” (Dubois et alii, 1993: 309).
4. A fonte dessas informações, em material xerocopiado, corresponde à palestra dada por Fiorin na abertura da Jornada 1: “Semiótica, ensino e aprendizagem”, realizada na PUC / SP, em 16/05/1997, como evento do Centro de Pesquisas Sociossemióticas,
5. Refemo-nos à obra A estilística, de José Lemos Monteiro. São Paulo: Ática,
1991.
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CAPÍTULO 1: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
CAPÍTULO 1: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Ninguém faz vários quadros, mas somente um, que se persegue durante toda a vida através das diferentes telas. ( Salvador Dalí )
Comecemos por apresentar o que será desenvolvido neste capítulo.
Estilo é recorrência de traços de conteúdo e de expressão, que produz um efeito de sentido de individualidade.
Elementos implicados:
a) o estilo é apreensível numa totalidade; b) o estilo é um fato diferencial;
c) o efeito de individualidade permite a construção do ator da enunciação; d) o ator da enunciação manifesta-se por um ethos (um caráter, que pressupõe um corpo e uma voz);
e) o estilo é um modo recorrente de referencialização da enunciação no enunciado;
f) o estilo constrói-se sobre outro estilo e, por isso, mostra seu direito e seu avesso.
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UNUS, TOTUS ET NEMO______________________________________
UNUS, TOTUS ET NEMO______________________________________
Ao falar em estilo, falamos em unidade e em totalidade; unidade, porque há um sentido único, ou um efeito de individuação; totalidade, porque há um conjunto de discursos, pressuposto à unidade. Unidade e totalidade são universais quantitativos.
Brøndal (1986: 12-13) reflete sobre tais conceitos, trazendo-os para o campo da Lingüística, e o faz em artigo intitulado Omnis et totus.1 Escolhendo, então, “como
ponto de partida omnis et totus”, para discutir a totalidade, e visando a contribuir para o estudo da “etimologia dessas palavras”, afirma:
Os termos mais gerais que designam a totalidade são, em nossas línguas, os pronomes indefinidos: enquanto pronomes, designam objetos puros (isto é, sem qualidades), enquanto indefinidos, sublinham o caráter indeterminado ou quantitativo desses objetos. Eles se opõem, então, de um lado, aos nomes, substantivos
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e adjetivos (sempre qualitativos), de outro, aos pronomes pessoais e demonstrativos.
Prossegue Brøndal, incluindo como
simples pronomes indefinidos, as palavras seguintes, que parecem formar (...)
as três séries que se apresentam:
1° unus - solus - totus (três integrais: dois extremos e um intermediário);
2° nemo (com o neutro nihil) - quis (...) - alius - omnis (quatro pontos,
simbolizados aproximadamente por: O, 1+ a,∞ );
3° ullus - quidam (duas zonas que se poderia chamar “negativa” e “positiva”).
Para o estudo do estilo, enquanto totalidade, tomaremos apenas a primeira e a segunda séries; da primeira, dita integral, os termos-extremo: unus e totus; da segunda, dita numérica ou aritmética, os termos-extremo: omnis e nemo.
Na primeira série (integral) trata-se de grandezas inteiras, consideradas à parte
(unus) ou em bloco (totus).
(...) Na segunda série (numérica ou aritmética) opera-se por subtração e por
adição: de quis/quid (cf. inglês one) desce-se até nemo/nihil (cf. no), sobe-se para alius/aliud (cf. other) até omnis/omne (cf. ali) (Brøndal, 1986: 13). Observemos mais uma reflexão de Brøndal (1986: 15) sobre totus e omnis:
Totus, termo integral, correlativo de unus e - secundariamente - de solus (...)
exprime uma totalidade como negação da unidade independente. Ele destaca a absorção dos indivíduos isolados numa massa indivisível. Um todo neste sentido é concebido como um bloco inteiro onde as partes são indistintas ou dominadas.
Omnis, termo numérico, correlativo de nemo e ao mesmo tempo de alius e
indiretamente de quis, designa, ao contrário, uma totalidade mais cambiante ou diferenciada. Ele exprime a reunião de indivíduos num grupo ou numa
comunidade. As partes componentes são reconhecíveis, de um lado, como reais
(...), de outro lado, como constituintes de um conjunto.
Por que ir a tais fontes? Tomemos um suposto conjunto de discursos: a imprensa dita séria, que significa em oposição à dita sensacionalista. Temos aí duas totalidades, dois unus, pensando em grandezas discretas, opondo-se cada qual àquilo que ela não é. Podemos, ainda, recortar a imprensa dita séria, em duas outras totalidades, ou dois
unus: os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Estaremos, então,