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CAPÍTULO III: INTERTEXTUALIDADE E ESTILO

Em fins do século XV, escavações feitas em Roma nos subterrâneos das Termas de Tito trazem à luz um tipo de pintura ornamental até então desconhecida. Foi chamada de grottesca, derivado do substantivo italiano grotta (gruta). (...) Essa descoberta surpreendeu os contemporâneos pelo jogo insólito, fantástico e livre das formas vegetais, animais e humanas que se confundiam e transformavam entre si. Não se distinguiam as fronteiras claras e inertes que dividem esses “remos naturais” no quadro habitual do mundo: no grotesco, essas fronteiras são audaciosamente superadas.

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INTERTEXTUALIDADE______________________________________

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Temos visto que, em qualquer texto, a voz do outro dialoga com a voz do um, de maneira que o sujeito da enunciação não é único, mas dialógico. Por falar em estilo, lembramos, primeiro, que o eu pressuposto a uma totalidade de enunciados, para ser

uno, apóia-se em regularidades no modo de fazer e de ser, que constituem o fato formal,

depreensível por meio do percurso gerativo do sentido, instrumento aplicado à totalidade enunciada. Tal fato, como unidade do estilo, formaliza-se, por sua vez, enquanto relação: do conteúdo com a expressão e vice-versa; do nível semio-narrativo com o discursivo e vice-versa; da enunciação com o enunciado e vice-versa, o que supõe duplicidade na própria constituição. O fato de estilo, além de unidade formal, é também considerado diferencial, o que supõe outra relação, dessa vez com seu exterior; trata-se, nesse caso, da relação discursiva de semelhança, que funda diferenças entre o

eu da enunciação e o outro. O estilo é constitutivamente dialógico.

Neste capítulo, avançaremos do diálogo constitutivo do estilo, para observar o diálogo mostrado entre estilos e, quando dizemos mostrado, referimo-nos ao outro perceptível no fio do discurso e na expressão do texto. Por conseguinte, o discurso a ser examinado, que mostra o outro na manifestação textual, de certa forma representa e reproduz a polifonia textual, ou a possibilidade de “entrever muitas vozes” num texto, por isso dito polifônico, “por

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oposição aos textos monofônicos, que escondem os diálogos que os constituem”, aproveitando para nós o que diz Barros (1994: 5-6). A estratégia referida de esconder

ou “deixar entrever” vozes, estas, naturalmente constituintes do discurso, relaciona-se a “procedimentos discursivos que se utilizam em textos, por definição, dialógicos” (idem: ibidem). Tal estratégia constrói o simulacro do discurso mais autoritário, ou menos.

Considerou-se discurso autoritário aquele em que se abafam as vozes dos percursos em conflito, em que se perde a ambigüidade das múltiplas posições, em que o discurso se cristaliza e se faz discurso da verdade única, absoluta, incontestável (idem: ibidem)

Esse dialogismo declarado dos textos polifônicos, em que é assumida a polêmica da “inter (in)compreensão dos discursos”, tomando agora expressão de Maingueneau (1984: 109), opõe-se ao dialogismo abafado dos textos aparentemente monofônicos, que parecem silenciar o conflito eu/outro, escondendo, nesse caso, a própria vulnerabilidade constitutiva do discurso. Dessa maneira, “deixar entrever” ou não o outro, assumir ou aparentemente silenciar a duplicidade discursiva, prende-se à heterogeneidade

constitutiva de todo e qualquer discurso, aquela que não se mostra na superfície textual e que também costuma ser considerada intertextualidade.

Entretanto, não nos prenderemos aqui à intertextualidade assim considerada; iremos ao encalço da outra, a que poderíamos, por homologia à heterogeneidade mostrada, chamar intertextualidade mostrada, mas a que restringimos a designação de intertextualidade propriamente dita. A heterogeneidade mostrada, repetimos, é aquela em que o outro é deliberadamente mostrado pelo um, seja por ser imitado no discurso, seja por ser materializado na expressão textual. Procurar-se-á então entender como e por que um estilo, construído sobre outro, mostra esse outro e, ao fazê-lo, mostra o próprio direito, ou seja, o mundo de crenças que o constitui enquanto eu, e o próprio avesso, ou seja, as crenças do outro, enfrentamento sem o qual o eu não se constitui; mas tudo

“acessível na aparência lingüística”, como diz Maingueneau (1984: 25). Trata-se de “formas de ‘heterogeneidade mostrada’, que inscrevem ‘o outro’ no fio do discurso —

discurso direto, aspas, formas interpretativas ou explicativas, discurso indireto livre, ironia”, como diz Authier-Revuz (1984: 98). A autora acrescenta à maneira marcada de mostrar o outro na superfície textual, outra, a não-marcada, que representa, “pelo contínuo, (...) a retomada do outro”, contando com a “diluição, a dissolução do outro no

um, de onde este último pode sair enfaticamente confirmado, mas também pode perder-

se” (idem: 108). Ao falar em intertextualidade, é desta última maneira de apresentar a heterogeneidade que falamos, ou seja, do outro mostrado, mas diluído no um, o

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que resulta numa heterogeneidade mostrada e não-marcada. Assim é que vamos refletir sobre um estilo que imita outro.

Reportamo-nos ao espaço, como ainda diz Authier-Revuz (idem:ibidem), “onde o outro é dado a reconhecer sem marcação unívoca”, entre cujos exemplos, aliás, a autora cita “pastiche e imitação”. Partimos do princípio de que a imitação de um estilo por outro realiza-se por meio do discurso segundo, que imita o estilo de referência. No diálogo explícito entre estilos, não se suporá ausência de conflitos entre o que imita e o outro imitado, mesmo porque, se o discurso segundo incorpora constitutivamente o outro enquanto enfrentamento necessário de crenças e valores, o primeiro também se constitui pelo mesmo enfrentamento com o segundo, o que é próprio ao diálogo de todo e qualquer discurso, seja ele mostrado ou não.

A presença do outro no um, fenômeno de heterogeneidade, a qual constitui todo e qualquer discurso, por isso chamada heterogeneidade constitutiva, como vimos observando, desde que consideramos o ator da enunciação de uma totalidade,

concomitantemente um uno e um duplo, fundamenta então a busca do outro mostrado no um, que supõe um outro depreensível da expressão do texto. Ao analisar a

intertextualidade entre estilos, ratificamos a nossa busca da heterogeneidade que se apresenta “visível” na aparência do discurso, a mostrada e acidental, que

deliberadamente acolhe a constitutiva e essencial ao discurso.

Os estilos mostradamente heterogêneos consolidam-se, por conseguinte, em um tipo de discurso que, longe de ocultar a intersecção eu/outro, que os constitui, mostram- na deliberadamente. É assim que serão observadas a paródia, a estilização, a paráfrase e a polêmica de estilo. Havemos por bem confirmar a perspectiva que nos orienta,

fundamentada no dialogismo bakhtiniano. Ora, diz o próprio Bakhtin (1988a: 33-35): “compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros signos já conhecidos”; ou: “os signos só podem aparecer em um terreno interindividual”; ou: “não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social)”; ou (1981:

172): “as relações de reciprocidade com a palavra do outro no contexto vivo e concreto não têm caráter estático mas dinâmico”.

A intertextualidade estilística será observada em homologação à intertextualidade entre textos, esta, considerada como “a retomada consciente, intencional, da palavra do outro, mostrada, mas não demarcada no discurso da variante”, conceito desenvolvido em trabalho nosso (2002). Depreensível do fio do texto, mostrada, mas não marcada, é assim a heterogeneidade que também fundamenta a intertextualidade entre textos, como, por exemplo, o poema Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, que faz uma paródia de Chapeuzinho

Vermelho, de Perrault. A intertextualidade entre textos pode remeter à intertextualidade

entre estilos, se observada, na leitura, a relação unus/totus/ nemo. Importa destacar, entretanto, que se trata de heterogeneidade mostrada, mas não-marcada, porque não circunscreve a palavra do outro com indicações, como emprego de aspas, ou letra tipo itálico. Neste último caso, em que a palavra do outro está apontada e delimitada, a heterogeneidade é mostrada e marcada (cf. Authier-Revuz, 1982: 84). Na

intertextualidade aqui cotejada, são desfeitas fronteiras ou linha divisória entre o eu e o

outro que, embora não- marcado, não deixa de emergir à luz do texto que o imita.

Compete mais alguns esclarecimentos. A intertextualidade considerada não necessariamente como fenômeno de heterogeneidade mostrada é conceito que subjaz, por exemplo, a pesquisas realizadas em outras áreas de estudo, como a literatura comparada. A relação entre textos, aí, durante muito tempo se ateve a estudos de influências e fontes, delegando a estas, as fontes, o status de modelo original, no qual o novo se espelharia, ou “privilegiando o pólo ativo da ação de influir”, como diz Nitrini (1997: 169), sendo que nas influências, o movimento do sentido “remonta do receptor ao emissor” (idem: ibidem). Vê-se, aí, que a “teoria da intertextualidade”, considerada como “renovação dos estudos de literatura comparada, a partir da segunda metade do século XX”, como também diz Nitrini (1997: 157-158), “foi recebida por muitos comparatistas como instrumento eficaz para injetar sangue novo no estudo dos conceitos de ‘fonte’ e de ‘influência”. Refere-se Nitrini aos estudos de Julia Kristeva que, “para chegar à elaboração do conceito de intertextualidade, (...) apóia-se em

reflexões e proposições de Bakhtin”, ou seja, segundo Nitrini, avança Kristeva para além da consideração de influências e fontes, e propõe uma “teoria totalizante do texto, englobando suas relações com o sujeito, o inconsciente e a ideologia” (idem: ibidem). Enfatiza, então, Nitrini, que, na observação da relação entre textos, está recuperado, sob o conceito de intertextualidade, o dialogismo bakhtiniano. Perrone-Moisés (1998: 93), por sua vez, acusando na literatura comparada “uma concepção da história que é a do século XIX; uma história linear e seqüencial, diacrônica e causalista”, apoiada numa “lógica de causa e efeito, de antes e de depois, de origem e de derivações”, critica a “valorização da ‘fonte” e a “desvalorização da ‘influência”. Converge também a autora para o dialogismo bakhtiniano e para “a teoria da intertextualidade”, proposta por Kristeva, como perspectivas desestabilizadoras de pensamentos cristalizados, como o da propriedade e da originalidade. “A questão de quem disse primeiro toma-se inessencial” (idem: 95).

Observa-se entretanto que em tais estudos de literatura comparada são mantidas e interpretadas como limites teóricos e práticos do próprio conceito de intertextualidade, as especificidades entre as chamadas “intertextualidade explícita” e “implícita”. Diz Nitrini haver possibilidades de

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leituras interessantes e esclarecedoras de obras literárias (que) podem ser feitas, levando-se em consideração a intertextualidade explícita. Em contrapartida, a intertextualidade implícita revela-se tão problemática e delicada quanto o conceito de influência (1997: 167).

Quando fala em intertextualidade explícita, certamente a autora se encaminha a textos como a paródia, que mostram o outro, discursivizado num texto-base ou num hipotexto, remetendo, então, à heterogeneidade mostrada; quando fala em

intertextualidade implícita, certamente se encaminha à heterogeneidade constitutiva do discurso, esta, que, segundo Maingueneau (1984: 31) é entendida como o

heterogeneidade constitutiva como o “primado do interdiscurso” (idem: 30) e a

heterogeneidade mostrada como “a prática hipotextual (que) constitui um procedimento deliberado” (idem: 33).

Tentaremos, ao (re)construir a intertextualidade entre estilos, ver até que ponto, como e por que a dissensão constitutiva do discurso se mostra entre totalidades

imitadas, reconstruindo, portanto, a heterogeneidade constitutiva na mostrada. Aquela será então confirmada como interdiscursividade ou simplesmente intertextualidade não- mostrada; esta, como intertextualidade propriamente dita. Lembramos que, nesta última, o outro, mostrado sem rupturas na expressão do um, deve ser buscado desde as

profundezas da construção do sentido, ou seja, participa da isomorfia

expressão/conteúdo, própria da construção do texto. “O Outro não deve ser considerado

como uma espécie de ‘envelope’ do discurso” (Maingueneau, 1984: 31).

Maingueneau (idem: 25), generalizando a heterogeneidade mostrada, isto é, não a distinguindo da marcada, assim comenta os “dois modos de presença do outro no discurso”, a heterogeneidade mostrada e a constitutiva:

A primeira (a mostrada) é acessível aos dispositivos lingüísticos, na medida em que ela permite serem apreendidas seqüências delimitadas que marcam

claramente a alteridade (discurso indireto livre, autocorreções, palavras entre aspas etc...). A segunda (a constitutiva), ao contrário, não se deixa apreender por marcas visíveis: as palavras, os enunciados de outrem estão aí tão intima- mente ligados ao texto, que não podem ser apreendidos por uma sondagem lingüística

stricto sensu.

Confirmando então que a heterogeneidade mostrada implica a constitutiva, não sendo a recíproca verdadeira, lembramos que ler uma variante intertextual é

compartilhar o prazer de desvendar o outro no um, esse outro que se mostra, mas não se circunscreve, não se marca; é seguir pistas dadas pelo texto para, numa negociação enunciativa sutil, preencher incompletudes e desfazer ambigüidades. Ao leitor da variante é permitida, além da cumplicidade

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com o enunciador, a confirmação do poder de co-enunciador, já que essa variante se organiza não só para a decifração, como também para o trabalho interativo e

cooperativo, mais instigante que aquele dos textos “comuns”, porque, na intertextualidade, o outro se mostra. Ler um enunciado cuja heterogeneidade é

mostrada, é, portanto, “enxergar” o corpo do outro no um. Assim se deve apresentar a intertextualidade estilística, compreendida como a imitação de um estilo por outro. Essa imitação pode ocorrer por captação, como é o caso da estilização e da paráfrase de estilo, ou por subversão, como é o caso da paródia e da polêmica, também de estilos.

Intertextualidade e estilo

Homologada, portanto, à intertextualidade entre textos, e ambas, por sua vez, homologadas às relações de sentido estabelecidas pelo quadrado semiótico greimasiano, temos, para a intertextualidade estilística, a articulação lógica das relações de sentido também representadas pelo quadrado semiótico. Entretanto, antes de “olhar” para ele, rememoremos: primeiro, que uma relação lógica entre dois termos A/não-A, ou S 1/S2, pode constituir um eixo semântico de oposição ou de contrariedade entre pólos, apoiado na própria relação de diferença, que constitui o sentido; depois, que cada um desses termos pode, por negação, gerar outros, numa relação de contraditoriedade, ou seja, Si’ e S2’; depois, ainda, que outra relação de sentido é estabelecida, S2’ISl e Sl’/S2, termos

relacionados por uma operação de asserção, resultante numa complementaridade de sentido, em que se firmam duas dêixis: uma positiva e uma negativa. Para a

intertextualidade entre estilos, temos:

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Landowski (1992: 181) nos dá fundamentos para tais reflexões sobre intertextualidade e estilo e o faz, ao postular a “atividade estratégica” e respectivas “situações de confronto” do sujeito enunciador com o outro. Landowski fala em “dois tipos de relações cogitáveis” entre dois actantes: a da contradição e a da contrariedade e, como decorrência, a da complementaridade.

Importa que a enunciação do estilo, realizada na totalidade de um dizer e dito, construída na e pela totalidade enunciada, delimita-se com o não-eu por fronteiras tornadas permeáveis. Verificar como a intertextualidade estilística se constrói no vai-e- vem que acaba por diluir fronteiras de totalidades, mostrando a ambigüidade do dizer e do dito, é meta a ser perseguida. Partindo do enunciado, que se apóia na relação de pressuposição recíproca com a enunciação da totalidade de discursos, figurativizada, esta, por meio de um ator, acreditamos poder constatar, por meio da observação do movimento intertextual, a própria unicidade e o efeito de individualidade da totalidade, de maneira a se confirmarem fronteiras justamente pela (re)construção da sua

porosidade. Como imitar, para captar ou subverter, o que não é unus, supondo um totus e, portanto, um nemo? Uma bola de brinquedo não seria jogada para cá e para lá, não fora ela uma grandeza inteira. A intertextualidade, sustentando a heterogeneidade constitutiva, corroborando o outro na constituição do eu, remete, pela exibição do não-

centro, ao centro, ou à unicidade do próprio estilo.

Para a intertextualidade estilística, começaremos por observar a paráfrase de estilo. A revista brasileira Caras será cotejada com a revista Caras argentina, para, depois, ser observado como se posiciona HOLA!, espanhola, nessa rede intertextual.

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