PARÁFRASE DE ESTILO_____________________________________
Caras
«ME SIENTO CADA VEZ MAS SEXY» asegura Nicole Neumann.
Declaração da «modelo y actriz», «dueña de uno de los cuerpos más sensuales del país».
CARAS (Argentina), 22/03/00
Nosso amor não conhece o tédio, não sabe o que é rotina. Vivemos um sonho.
Declaração de Ulhiana, esposa de Cid Moreira, ex-apresentador do Jornal Nacional, à revista Caras, em reportagem de exposição de quartos, banheiro e sala do lar do casal.
CARAS (Brasil), 03/09/99
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ADRL&NE GALISTEU TRISTE COM O FIM DO CASAMENTO Ela se refugia no castelo de Caras para refletir
Caras, 27 de agosto de 1999’
CYNTHIA ARNO MOSTRA SUA MANSÃO Socialite paulistana vive em propriedade de 5 mil m2
Caras, 10 de setembro de 1999
A ARTE QUE YOGO MABE HERDOU
Filho de Manabu, ele revela seu estilo de viver e pintar
Na mansão do pai, em São Paulo, ele trabalha e vive em harmonia com a mulher e os filhos
Caras, 24 de setembro de 1999
Escolhidas aleatoriamente, assim se apresentam manchetes de reportagens da revista Caras brasileira, considerada nessas três edições ou em quaisquer outras, como deverá ser visto. Essa revista será observada nas relações estabelecidas pela paráfrase, polêmica e paródia de estilo. Vamos a ela, portanto.
Trata-se, em princípio, de uma totalidade que exibe uma vida obrigatoriamente feliz, em vitrinas de finas iguarias. Aí, casais, ora “vivem a rotina dos famosos
tartufaios”, tentando “localizar as raríssimas trufas”, recebendo aulas da “fina iguaria”
(Caras, 5 de novembro de 1999), ora viajam para lugares exóticos emblematizados pelo
castelo de Caras e, fotografados entre luz de velas, apresentam-se, nas legendas das fotos, em descrições como esta: Ótimo companheiro de viagem, Edison está sempre de bom humor Os dois (Edison e Irene Ravache) se hospedaram no Quarto do Rei, onde se atualizaram na Internet (Caras, 15 de outubro de 1999). Num esforço por parecer
perfeita e onipotente, para ser coerente com um mundo sempre de bom humor, em que poder significa ter, essa enunciação se pauta pela instalação da harmonia, ou da
supressão da falta entre os eleitos, os noticiáveis, os bem-sucedidos. Ler o que dizem à luz de velas, em tom sério, cônjuges que se atualizam na Internet no Quarto do Rei, constitui interessante exercício para apreender as estratégias de fazer-crer dessa enunciação, insistente em parecer tão pomposa.
Notemos como se constrói a totalidade, entre cujos núcleos temáticos está a ostentação de haveres, a supervalorização de bens materiais, expandido-se em percursos da vazão da privacidade e da exposição de um bem-estar obrigatoriamente contínuo.
Pensando em cultura, como domínio das coerções sociais, e natureza, como domínio de pulsões individuais, e partindo da oposição básica de significados contrários, cultura vs. natureza, em que, pela negação desses termos primeiros, cruzados em relação de contraditoriedade, temos outra oposição,
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não-natureza vs. não-cultura, que se visualizariam num quadrado semiótico,
encontramos nessa totalidade a axiologização positiva e eufórica apoiada na relação
cultura/não-natureza. No dicionário (Fernandes: 1999) pressupõe- se, ao simples, o
natural, o não-afetado, o modesto; também o simplório, o tolo, o ingênuo, que se opõe ao complexo e, acrescentamos nós, ao elaborado, ao astuto. Observando esta enunciação que, no discurso, faz rejeitar o simples, enquanto o natural, o não-afetado, o modesto, notamos que acaba por se firmar, ela própria, como simplória, por meio da estereotipia gasta e ostentada de um modo de dizer e de ser, que corresponde a um mesmo modo de usar repetidas figuras e temas, numa recorrência monocórdica do dizer e do dito.
Rejeitando as dimensões da trivialidade/ordinariedade, banalidade/simplicidade, como significado que, no discurso, se afasta do Bem a ser alcançado, aproxima-se,
paradoxalmente, da trivialidade e da banalidade pela negação das contradições humanas. Assim se figurativiza recorrentemente a vida íntima dos “famosos”.
Trata-se de simplicidade e banalidade astutas, porque estratégicas, ou seja, há um não-querer não ser simples e banal, que conflui com um querer- parecer simples e banal. Simplicidade e banalidade astutas, ainda, por manter em segredo as próprias estratégias no jogo do parecer e do ser. Dessa maneira se consolida a enunciação num enunciado, o qual mostra apenas a cara de determinado mundo, enquanto valoriza com brilho eufórico, por exemplo, um bolo coberto de pérolas e pedras preciosas para uma festa de réveillon.
A emergente Ariadne Coelho (31) fez questão de expor sua personalidade borbulhante em cada detalhe de sua festa de réveillon, realizada no luxuoso condomínio Golden Green, na Barra da Tijuca, Rio. Ao lado do marido, o empresário Jair Coelho (67), ela recebeu cerca de cem convidados com muito luxo e criatividade. Do bolo, decorado com pérolas e outras pedras preciosas, até a contratação de um show particular de 23 minutos — cinco a mais do que em
Copacabana —, passando pelo champanhe encomendado na vinícola francesa
Moët Chandon, cujo rótulo levava seu nome, tudo foi caprichosamente
planejado por Ariadne. “Passo de três a quatro meses pensando nos detalhes da
festa. Não é uma questão de ostentação e sim de capricho” (7 de janeiro de
2000).
Importa, nesse modo de ser no mundo, que fama e sucesso, construídos e
confirmados no dia-a-dia midiático, pautam-se por um olhar em que o máximo requinte parece ser naturalmente possível, como se apresenta também nesta manchete:
WILMA MAGALHÃES, A EMERGENTE DE BRASÍLIA QUE SERVE OURO NO JANTAR (Caras, 16 de julho de 1999)
em que, à foto de uma mulher serenamente afundada em espumas altas e brancas, numa banheira de mármore, ladeada de girassóis, rosas e flores silvestres, segue a legenda:
A dinâmica e polêmica empresária sempre toma um demorado banho com pé- talas de rosa ao retornar de suas viagens ao exterior.
Deixando falar alto a formação ideológica que crê e faz crer no talento
individual para alguém ficar rico, o que pressupõe falta de talento para quem se mantém pobre, o enunciado afirma:
Tudo em que Wilma investe dá certo. Seus negócios lhe trouxeram bons resultados e lhe permitem alguns requintes. Ela tem em sua garagem um BMW branco e um Mercedes-Benz C-36 prateado. Escolhe as roupas de acordo com a cor do carro. “Não ganhei dinheiro em loteria nem roubando e sim com meu
trabalho “, enfatiza, fazendo ressaltar a honestidade de sua fortuna. Em outubro,
ela inaugurará o Caffe Apache, no Soho, em Nova York. Em Brasília, é dona do Sétima Arte Café, de uma empresa de seguridade e de vários imóveis. Os maiores lucros, no entanto, vêm dos investimentos que faz em fundos de renda fixa. “Tenho experiência na área financeira. Fui caixa de banco e nos anos da
superinflação fazia bons negócios para meus clientes”
Na figura do funcionário subalterno, o caixa de banco, que se transforma em mega-empresário, está representado o percurso narrativo de um sujeito que passa da disjunção à conjunção com a riqueza, num programa de aquisição reflexiva do objeto de valor. Assim se fundamenta a estereotipia imaginária do trajeto do sucesso individual, ou de quem teve a competência para, cumprindo o dever de pequeno empregado da estrutura burocrática de uma empresa, aprender a fazer investimentos rendosos para si mesmo. Está aí emblematizada a cena enunciativa do eterno domingo feliz, recorrente no olhar que constrói apenas o topo da hierarquia social, preenchido, este, por atores cristalizados com o obrigatoriamente mesmo “estado de alma”. Está aí a figurativização da formação discursiva que fala pela revista, propondo a ascensão social como
competência de um sujeito que, para subir na vida, deve saber e querer simplesmente, pois é apenas daí que, supostamente, advém o poder. Recorrentemente premiado, esse sujeito pode e deve “rir à toa”.
Por meio de figuras confirmadoras da opulência, relacionadas a um saber fazer
dinheiro, pressuponente de um poder discursivizado como dom, detido por alguns
poucos privilegiados, implicita-se no enunciado, como argumento de autoridade a constituir os próprios atores, a posse de bens materiais e o sucesso. Assim legitimam-se lugares de quem fala e de quem escuta; de quem faz-fazer e de quem faz; isso, semana após semana, nessa totalidade
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corporificada em um estilo. Reflete-se e refrata-se dessa maneira um corpo ideológico construído, no discurso, por voz tautológica que afirma ser o dinheiro base do sucesso; e o sucesso, base para ter dinheiro. O mais, carrões e ouro na comida, por exemplo, vêm no rastro das glórias:
O casal Milton e Fortunée em frente aos carros da família: um Saab conversível turbo e um Renault Laguna.
É essa a visão de mundo, não só de uma classe social dominante, que pode, deve, quer e sabe viver com seus caprichos, como também é a visão de uma classe dominada, que, contentando-se com o partilhamento cognitivo e emocional do belo
conjunto Valentino ou do azul forte da piscina como fundo, conquistados na
efemeridade da leitura semanal, reproduz tais valores e os elege imaginariamente para si:
Vestindo um belo conjunto Valentino, Cyinthia mostra sua casa a partir da sala de convivência familiar que se abre para o jardim. (...) No jardim, restaurado
pelo paisagista Leo Laniado, ela relaxa, tendo o azul forte da piscina como fundo. Caminhando na ampla área verde, ela repõe as energias gastas no seu trabalho diário. (Caras, 10 de setembro de 1999)
O trabalho diário, relatado na seqüência da reportagem, é bom que se acrescente, constitui um espaço especial para cuidar da beleza das crianças até 12
anos. “Há um ano estou montando esse local que inclui um salão de cabeleireiros
divertido, agradável e atraente para a garotada”. Eis um mundo agradável, para aqueles que merecem, por dons inatos, dele participar, quer nos convencer esse discurso; e agradável também para aqueles que, olhando-o pela vitrina, imaginam dele participar. Vende bastante e regularmente essa revista, não nos esqueçamos: na edição de 11 de fevereiro de 2000, por exemplo, registra-se uma tiragem de 471.168 exemplares; na de 19 de janeiro de 2001, 403 372 exemplares; na do dia 02 de março de 2001, 409 960 exemplares.
Legitimam-se tais afazeres da fortuna e dos afortunados, também em receitas culinárias. Essa revista, que é publicação semanal da Editora Abril, São Paulo, apresenta invariavelmente, na penúltima página, a Cozinha de Caras, em que uma figura da alta sociedade descreve sua receita culinária preferida sob o título Minha
Receita. Corta essa página uma coluna à esquerda, com quatro centímetros de largura,
sob o título COZINHA DE CARAS, em letras brancas, sobre um retângulo de fundo
vermelho. Nessa coluna, é historicizada a receita que, recorrentemente, e em nome de uma tradição predominantemente européia ou norte-americana, ampara-se na cozinha internacional, como a antiga culinária francesa. E o caso do bouquet garni,
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por exemplo, que, para se definir como dois ou três galhos de salsinha, um galho de
tomilho e uma ou duas folhas de louro, recupera o uso na região de Provence,
legitimando tal uso pelo raro, pelo distante, pelo exótico, como compete à coerência da imagem-fim construída para a enunciação, pela totalidade enunciada. (Caras, 2 de julho de 1999).
Ao lado da coluna citada, no espaço restante da página, a diagramação apresenta, ao alto, a foto do prato encabeçando a reportagem; abaixo, divide-se o espaço em três colunas que, cortadas ao meio, resultam em seis: Saúde 1. É bom para; 2. É ruim para; 3. Ficha técnica; 4. Como se escolhe; 5. Como se prepara; 6. Minha receita. Essa
última subcoluna apresenta, no canto direito da página, em reprodução de foto três por quatro, o rosto da pessoa, a dona da receita. Tal diagramação, respeitada em todos os números da revista, não só organiza, como fixa um discurso já por si preso pelos procedimentos recorrentes de construção da isotopia actorial.
A propósito, no caso de Caras, para além da estereotipia actorial, pela qual se consolida o caráter de uma totalidade à medida que é (re)construído um estilo,
temáticos e figurativos da configuração interdiscursiva de uma totalidade. Cai a instabilidade e aumenta a estabilidade sintagmática de papéis que compõem o ator, o qual tende à necrose actorial por falta de circulação de novos papéis, o que também o constitui como um modo próprio de ser, O efeito de individualidade, assim construído, coerente com a expectativa enunciativa, no que diz respeito ao leitor “que compra”, também acaba por dar indicações do perfil do próprio leitor, como co-enunciador do estilo.
Fiquemos um pouco mais com a página de receitas culinárias de Caras, que registra, por exemplo, Semente de papoula, da banqueteira Adriana Carioba (16 de julho de 1999), Tomate-cereja, da designer Serpui Marie (13 de agosto de 1999), e em cujo verso se apresenta outra seqüência de receitas, da qual fazemos transcrições de fragmentos:
Canapès de viande des Grisons
Recorte as fatias de pão sem casca com cortador especial de sua preferência. Com a viande des Grisons, carne curada no gelo, originária do cantão suíço dos Grison (vende-se filé mignon), modele pequenas rosas. Reserve. Use o saco de confeitar para distribuir o queijo mascarpone sobre as fatias. Espalhe nelas a geléia de violeta. Coloque as rosinhas de carne. Polvilhe as sementes de papoula sobre os canapês (16 de julho de 1999).
Atum em chutney
Lave o mamão em água fria. Escorra em peneira fina. Reserve. Ferva 1/2 litro de água com bicarbonato. (...) Ponha papaia e échalote. Cozinhe até secar (1 de
outubro de 1999).
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Firmados percursos figurativos de requinte e de modismo, que se juntam ao percurso da elegância, aqui relacionada ao incomum, figurativizada nos ingredientes preciosos, expressa nos títulos em francês, encontramos, na narratividade da enunciação dessa totalidade, um sujeito que manipula outro para que este entre em conjunção com um objeto de valor, o valor do sucesso. Na superfície discursiva, fortalece-se o
exibicionismo, o poder do consumo, variações temáticas dos núcleos da ostentação e da opulência. Sob essa trama temática, pulsa a arena de conflitos sociais, aparentemente descaracterizados, entretanto, por ilusória confluência da classe dominante com a classe dominada, no aplauso previsto desta para aquela. Trata-se de uma enunciação que, astuta, apresenta-se repetitiva, num algoritmo narrativo, em que os mesmos papéis actanciais se deixam revestir dos mesmos papéis temáticos, na constituição dos mesmo atores, sustentados por essa megafesta, que o leitor espera. O mundo é a Ilha de Caras, o discurso não quer que esqueçamos. Potencializada a previsibilidade sintagmática dos acontecimentos de uma semana para outra, fazendo com que o evento, o paradigma, o novo, na verdade seja sempre o já-dito, promove esse semanário a manutenção de um modo Caras de ser no mundo: do enunciador e do enunciatário.
Um modo “magro” de ser enquanto corpo físico, é bom lembrar. E recorrente, em todos os números consultados de Caras, juntamente com a vazão de privacidade, que as socialites parecem permitir-se e desejar, exibindo-se deitadas nas suntuosas camas de seus dormitórios, ou ao lado de maravilhosas piscinas, ou posando dentro de seus ricos banheiros, a formação ideológica da ditadura da anorexia alimentar, que subentende o rigor do patrulhamento do peso, como testemunham estes fragmentos:
Ao contrário da maioria das mulheres, que luta contra a balança, a atriz carioca Isabel Guerón (24) convive com o problema do peso sob outra ótica, bem mais confortável. (...) A mignon Isabel atribui aos exercícios que faz desde a infância
a boa forma que exibe.
(Caras, 10 de setembro de 1999)
Monica Lewinsky (26) emagreceu, engordou, emagreceu novamente, fez dois anos de terapia e chorou suas mágoas em livros e entrevistas.
(Caras, 31 de dezembro de 1999)
A atriz Vera Fischer (48) realizou um desejo especial no último Natal do
milênio: ficar ainda mais bonita. (...) A atriz retirou no total três litros de gordura (em lipoaspiração) e gostou do resultado.
(Caras, 31 de dezembro de 1999)
Apresentadora (Carla Perez) aparece solteira, magra, e brinca com a Tiazinha.
(Caras, 6 de agosto de 1999)
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Diziam que meu corpo la melhorai e eu não acreditava. Achava que estavam querendo me consolar. (Luciana Gimenez - a boa forma depois da gravidez)
(Caras, 4 de fevereiro de 2000)
Preciso ficar em forma. Não sou mais nenhuma garotinha. (Mulher de Anthony Garotinho)
(Caras, 4 de fevereiro de 2000)
Gugu Liberato volta a ser uma criança na Flórida - O apresentador do SBT
experimenta os novos brinquedos e quebra a dieta.
(Caras, 8 de outubro de 1999)
Longe de se preocupar com as calorias, a atriz Maria Zilda era só sorrisos.
(Caras, 2 de março de 2001)
No exemplar do dia 31 de março de 2000, com sorriso tão largo quanto
“fabricado”, no contexto de pose de pernas cruzadas, blusa branca de algodão de decote baixo e aberta nos quatro primeiros ganchos, de maneira a exibir metade do seio
esquerdo, a manchete, relativa a uma mulher, tão emblemática dessa revista, quanto necessária à formação discursiva que fala pela dita revista, assim se expressa, antecedida pelo supertítulo:
Após 3 meses de namoro, apresentadora surpreende ADRIANE GALISTEU: “VOU ME CASAR”
Adriane Galisteu ou Xuxa, figuras sem as quais é difícil encontrar um exemplar de Caras, seguidas da constelação de mulheres similares, famosas porque ricas, ou ricas
porque famosas, construídas na previsibilidade que garante o estado durativo-contínuo de sucesso e satisfação, negam qualquer contradição que as possa individualizar como ser humano “de verdade”. Passam a constituir atores de um mundo não-natural, ou de ficção, construído “pela disposição intratextual do discurso”, como está em
Greimas/Courtés (1986: 88) que, ao falar sobre ficção, afirmam: “Trata-se de uma articulação descritiva única, singular, pertinente apenas para a determinação do conteúdo deste mundo (não-natural)”.
Tais figuras passam a constituir também um ator generalizado no modo do segredo e particularizado no modo da mentira. Dessa maneira, Adriane Galisteu não é Adriane Galisteu: é uma entidade pertencente à totalidade Caras. Como num conto maravilhoso, é a princesa sem nome; seu espaço é sem limites, nem índices de especificação; seu tempo, sem restrições nem cortes. Eis um ator aparentemente atemporal, cujo tempo parece ser o ontem, o hoje, o sempre,
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o tempo mágico do Era uma vez. Assim, pela aparente reprodução do “real”, o discurso cria outro mundo “real”, sustentado apenas no imaginário midiático, que nada perde em relação aos contos de fadas, recuperando destes o que têm de ficção.2 Obedecendo, entretanto, à coerência da ética da venalidade, implícita
e euforizada pela totalidade, podemos observar tais figuras emblemáticas como a cara da totalidade, pois, vendendo-se a si mesmas, fazem vender a revista,
realizando-se como logomarca empresarial.
Abstraídos, então, da vulnerabilidade humana, os famosos atingem o status de entidade que, para ser construída na seqüência narrativa do enunciado, apóia-se num programa narrativo de base, em que um sujeito, Si, manipula outro, S2, para que este entre em conjunção com um objeto, transformado em valor, o valor do sucesso.
Preenchem-se as casas dos actantes Si e S2 com famoso 1 e famoso 1, respectivamente, de maneira que diferentes papéis actanciais sejam recobertos pelo mesmo actante, ou seja, o destinatário é seu próprio destinador, cumprindo-se o programa de aquisição reflexiva. Na automanipulação, Si leva S2 a querer e dever entrar em conjunção com o valor do sucesso; S2 sabe, pode; performance realizada, sanção positiva, cognitiva e pragmática; esta última, aliás, figurativizada exemplarmente na fala da cantora “com seu sorriso generoso” que, em Caras, de 2 de março de 2001, consolida a coerência do papel do bem-sucedido: o ator, para quem prêmio significa prioritariamente carro,
apartamento e jóias; ou aquele que não sofre variações, muito menos crise de crenças;
aquele que continuamente deve ser; pode ser; crê dever ser; crê poder ser: rico, famoso, risonho, feliz. Para que sofrer?
ROBERTA MIRANDA
ALTO ASTRAL NA ILHA DE CARAS
“Os grandes prazeres já tive todos. Tenho carro, apartamento e jóias, agora o que me importa é o afeto e a troca entre as pessoas”
Assim o discurso mantém a diluição da pessoa e impõe a persona, de maneira que a família, se figurativizada, só aparenta a assepsia das relações. É essa,
aliás, a orientação dada pela totalidade, para que seja construído o ator bem- sucedido também afetivamente, o que nesse contexto significa aquele que tem
competência para parecer não sentir dor ou medo, estados ligados ao reconhecimento da falta. De tal sistema de coerções semânticas e sintáticas, emerge o papel
do ator esperto, definido nessa totalidade como aquele que quer, pode e sabe não parecer-sofrer. Do desejo contínuo e durativo de não parecer um sofredor, resulta