Ana Paula Santana Jo˜ao Filipe Queir´o
´
ALGEBRA LINEAR E GEOMETRIA ANAL´ITICA
(vers˜ao de 2003)Indice
0. Os n´umeros complexos . . . 3
Apˆendice: Hist´oria dos n´umeros complexos . . . 7
1. Matrizes 1.1 Generalidades . . . 10
1.2 Opera¸c˜oes com matrizes . . . 12
1.3 Inversa de uma matriz quadrada . . . 16
1.4 Transposi¸c˜ao de matrizes . . . 17
1.5 Matrizes elementares . . . 21
2. Sistemas de equa¸c˜oes lineares 2.1 Generalidades . . . 24
2.2 O algoritmo de elimina¸c˜ao de Gauss . . . 26
2.3 O algoritmo de Gauss-Jordan para invers˜ao de matrizes . . . 37
3. Determinantes . . . 41
4. O espa¸co Rn, subespa¸cos, dimens˜ao 4.1 Subespa¸cos . . . 58
4.2 Dependˆencia e independˆencia linear . . . 64
4.3 Base e dimens˜ao . . . 67
4.4 Mudan¸ca de base . . . 73
4.5 Caracter´ıstica e nulidade de uma matriz . . . 74
4.6 Soma e soma directa de subespa¸cos . . . 80
5. ˆAngulos e distˆancias em Rn 5.1 Produto interno em Rn . . . 82
5.2 Projec¸c˜ao ortogonal sobre um subespa¸co . . . 86
5.3 M´ınimos quadrados . . . 93
5.4 Complemento ortogonal de um subespa¸co . . . 99
5.5 Determinantes e volumes de paralelip´ıpedos . . . 100
5.6 Produto externo em R3 . . . 101
7. Espa¸cos vectoriais
7.1 Corpos . . . 111
7.2 Espa¸cos vectoriais . . . 112
7.3 Subespa¸cos . . . 115
7.4 Dependˆencia e independˆencia linear . . . 119
7.5 Base e dimens˜ao . . . 121
7.6 Mudan¸ca de base . . . 127
8. Transforma¸c˜oes lineares 8.1 Generalidades . . . 129
8.2 Representa¸c˜ao matricial de transforma¸c˜oes lineares . . . 135
8.3 Equa¸c˜oes com transforma¸c˜oes lineares . . . 143
9. Valores pr´oprios e vectores pr´oprios 9.1 Valores pr´oprios e vectores pr´oprios de transforma¸c˜oes lineares . . . 144
9.2 Valores pr´oprios e vectores pr´oprios de matrizes . . . 145
9.3 Matrizes diagonaliz´aveis . . . 148
9.4 O caso das matrizes sim´etricas reais . . . 154
9.5 Curvas e superf´ıcies do 2o grau . . . 156
10. Espa¸cos vectoriais com produto interno . . . 167
0
Os n´
umeros complexos
Os conjuntos de n´umeros mais conhecidos e habituais s˜ao os seguintes: o conjunto dos
n´umeros naturais
N = {1, 2, 3, . . .}, o conjunto dos n´umeros inteiros
Z = {. . . , −3, −2, −1, 0, 1, 2, 3, . . .}, o conjunto dos n´umeros racionais
Q =nm
n : m, n ∈ Z, n 6= 0
o
e o conjunto dos n´umeros reais, para o qual usaremos o s´ımbolo R. Tem-se a seguinte cadeia de inclus˜oes:
N ⊂ Z ⊂ Q ⊂ R .
Exemplos de n´umeros reais que n˜ao s˜ao racionais s˜ao √2 , √3 , e e π . A melhor maneira de “visualizar” o conjunto R ´e pensar nos pontos de uma recta, o “eixo real”. Marcando no eixo dois pontos para representar os n´umeros 0 e 1, obt´em-se uma corres-pondˆencia perfeita entre R e o conjunto dos pontos do eixo.
0 1 α
R
Supor-se-˜ao conhecidas as propriedades b´asicas destes n´umeros.
No s´eculo XVI, a prop´osito da descoberta da f´ormula resolvente das equa¸c˜oes do 3o grau, “descobriu-se” um novo conjunto de n´umeros contendo R. Essa hist´oria ´e recordada em apˆendice.
O novo conjunto de n´umeros ´e o conjunto dos n´umeros complexos C = {a + ib : a, b ∈ R}
onde i satisfaz i2 = −1. As opera¸c˜oes com n´umeros complexos realizam-se tratando-os
como n´umeros como os outros e usando as propriedades habituais das opera¸c˜oes, bem como a igualdade i2 = −1. Assim, por exemplo,
(a + ib) + (c + id) = (a + c) + i(b + d) (a + ib)(c + id) = (ac − bd) + i(ad + bc) .
Estas opera¸c˜oes gozam das mesmas propriedades alg´ebricas que as correspondentes no conjunto dos n´umeros reais: comutatividade, associatividade, distributividade da mul-tiplica¸c˜ao relativamente `a adi¸c˜ao.1 Os n´umeros complexos 0 = 0 + i0 e 1 = 1 + i0 s˜ao
elementos neutros para, respectivamente, a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao. O inverso do n´umero complexo a + ib 6= 0 ´e
a
a2+ b2 + i
−b a2+ b2 .
Note-se que todos os n´umeros reais s˜ao tamb´em n´umeros complexos (s˜ao aqueles em que b = 0), pelo que a cadeia de inclus˜oes acima referida pode ser completada:
N ⊂ Z ⊂ Q ⊂ R ⊂ C .
A melhor maneira de “visualizar” o conjunto C ´e pensar nos pontos de um plano, o “plano complexo”. Tra¸cando no plano um sistema de dois eixos perpendiculares, e identificando o n´umero complexo a + ib com o ponto de coordenadas (a, b), obt´em-se uma correspondˆencia entre C e o conjunto dos pontos do plano.
C
.a + ib
0 a
ib
Se pensarmos na f´ormula resolvente para equa¸c˜oes do 2o grau, vemos que, com a introdu¸c˜ao dos n´umeros complexos, qualquer equa¸c˜ao do 2o grau com coeficientes reais tem solu¸c˜ao em C: o aparecimento de ra´ızes quadradas de n´umeros negativos deixa de ser problema. Por exemplo, a equa¸c˜ao x2− 2x + 5 = 0 tem as solu¸c˜oes 1 + 2i e 1 − 2i.
Mas pode dizer-se muito mais: com a introdu¸c˜ao dos n´umeros complexos, qualquer equa¸c˜ao de qualquer grau, com coeficientes reais ou mesmo complexos, tem solu¸c˜ao em
1 Uma diferen¸ca b´asica entre R e C ´e que no conjunto dos n´umeros complexos n˜ao existe uma rela¸c˜ao
de ordem < compat´ıvel com as opera¸c˜oes, isto ´e, satisfazendo, para quaisquer z1, z2, w ∈ C, as implica¸c˜oes
C. Este ´e o conte´udo do chamado Teorema Fundamental da ´Algebra, demonstrado pela
primeira vez de forma completa por Gauss em 1799.2
Do Teorema Fundamental da ´Algebra tira-se uma importante conclus˜ao: um polin´omio com coeficientes reais ou complexos pode sempre escrever-se como produto de factores de grau 1:
anxn+ an−1xn−1+ · · · + a1x + a0 = an(x − α1)(x − α2) . . . (x − αn)
(α1, α2, . . . , αn s˜ao as ra´ızes do polin´omio).
O conjunto C ´e portanto muito rico do ponto de vista alg´ebrico. Vamos ilustrar essa riqueza mostrando que, dado n ∈ N, qualquer n´umero complexo n˜ao nulo tem n ra´ızes de ´ındice n em C. Antes disso, introduzimos mais alguma terminologia.
Seja z = x+ iy ∈ C. Chamamos a x parte real de z e escrevemos x = Re z. Chamamos a y parte imagin´aria de z e escrevemos y = Im z. Se x = 0 dizemos que z ´e imagin´ario
puro. O conjugado de z ´e z = x − iy. O m´odulo de z ´e o n´umero real n˜ao negativo |z| = px2+ y2. (A fun¸c˜ao m´odulo em C estende a fun¸c˜ao m´odulo conhecida em R.)
Geometricamente, |z| ´e a distˆancia do ponto z do plano complexo `a origem (isto ´e, ao ponto 0).3
Seja z um n´umero complexo n˜ao nulo, identificado com um ponto do plano. `A medida do ˆangulo que a semi-recta que vai de 0 para z faz com a parte positiva do eixo real chamamos argumento de z (nota¸c˜ao: arg z). Cada n´umero complexo z 6= 0 tem uma infinidade de argumentos, diferindo uns dos outros por m´ultiplos inteiros de 2π.
©©©© ©©©© ©©©* z 0 θ
Ponhamos |z| = r. Seja θ um argumento de z. Ent˜ao Re z = r cos θ e Im z = r sen θ e podemos escrever
z = r(cos θ + i sen θ).
2 Para provar este teorema, s˜ao necess´arios conhecimentos de An´alise que est˜ao para al´em do 1o ano
da Universidade. Note-se que o teorema apenas afirma a existˆencia de solu¸c˜oes. A determina¸c˜ao delas para cada equa¸c˜ao ´e um problema diferente.
Esta ´e a chamada forma polar ou trigonom´etrica de z, por oposi¸c˜ao `a forma alg´ebrica
z = x + iy. Para cos θ + i sen θ usa-se por vezes a abreviatura cis θ.4
Calculando o produto de dois n´umeros complexos escritos na forma trigonom´etrica tem-se
(r1cis θ1)(r2cis θ2) = r1r2cis(θ1+ θ2)
(verifique). Segue-se a seguinte f´ormula para as potˆencias de um n´umero complexo: (r cis θ)n = rncis(nθ) , n ∈ N
(“f´ormula de De Moivre”).
Daqui tira-se que, sendo z = r cis θ e n ∈ N, z tem n ra´ızes de ´ındice n. O racioc´ınio ´e o seguinte. Vamos procurar os n´umeros complexos w que satisfazem wn = z.
Escreva--se w na forma trigonom´etrica, w = ρ cis φ. Ent˜ao, pela f´ormula de De Moivre, temEscreva--se
ρncis(nφ) = r cis θ donde
ρn = r e nφ − θ = 2kπ, k ∈ Z
o que ´e equivalente a
ρ = r1/n e φ = θ + 2kπ
n , k ∈ Z .
Ent˜ao w pode tomar exactamente os seguintes valores:
r1/ncis µ θ + 2kπ n ¶ , k = 0, 1, . . . , n − 1.
(Em princ´ıpio dever´ıamos escrever k ∈ Z mas facilmente se vˆe que as ra´ızes s´o tˆem n valores distintos, que se obtˆem dando a k os valores indicados.)
4 Note-se que, se se tiver r cis θ = r0cis θ0, ent˜ao r = r0 mas, quanto aos argumentos, s´o se pode
Apˆ
endice: Hist´
oria dos n´
umeros complexos
Como se disse, foi no s´eculo XVI, a prop´osito da descoberta da f´ormula resolvente das equa¸c˜oes do 3o grau, que se “descobriram” os n´umeros complexos. Recorda-se aqui essa hist´oria.
A equa¸c˜ao a resolver ´e a seguinte:5
x3+ bx + c = 0.
Os matem´aticos italianos do s´eculo XVI que trataram deste assunto tiveram a ideia de escrever a inc´ognita x na forma x = u + v, com u e v n´umeros a determinar. Ora, como
(u + v)3 = u3+ 3u2v + 3uv2+ v3,
tem-se, passando tudo para o primeiro membro,
(u + v)3− 3uv(u + v) − (u3+ v3) = 0.
Comparando com a equa¸c˜ao proposta, vˆe-se que, se se encontrarem n´umeros u e v satis-fazendo as condi¸c˜oes
−3uv = b e − (u3+ v3) = c , ent˜ao x = u + v ser´a uma solu¸c˜ao da equa¸c˜ao.
Da primeira condi¸c˜ao tira-se v = − b
3u. Substituindo v por este valor na segunda condi¸c˜ao obt´em-se
−u3+ b
3
27u3 = c ,
o que ´e o mesmo que
u6+ cu3− b3
27 = 0 .
Ora isto, que ´e uma equa¸c˜ao do 6o grau em u, ´e de facto uma equa¸c˜ao do 2o grau em u3,
que se sabe resolver:
u3 = −c ± r c2 + 4 b3 27 2 = − c 2 ± r c2 4 + b3 27. Escolhendo para u3 por exemplo o valor
u3 = −c 2 + r c2 4 + b3 27,
5 Se se conseguir resolver uma equa¸c˜ao desta forma consegue-se resolver qualquer equa¸c˜ao do 3o grau:
primeiro, se o coeficiente de x3 n˜ao for 1, podemos dividir ambos os membros por esse coeficiente o que
n˜ao altera as solu¸c˜oes da equa¸c˜ao; segundo, se o coeficiente de x2, chamemos-lhe a, n˜ao for 0, procede-se
a uma mudan¸ca de inc´ognita substituindo x por y − a
3. N˜ao ´e dif´ıcil ver que na nova equa¸c˜ao assim
obtida, em que a inc´ognita ´e y, e que continua a ser de grau 3, o coeficiente de y3´e 1 e o coeficiente de
y2´e 0. As solu¸c˜oes da primeira equa¸c˜ao podem obter-se das da segunda simplesmente subtraindo-lhes a
de −(u3+ v3) = c tira-se v3 = −c 2 − r c2 4 + b3 27. E vem, finalmente, x = 3 s −c 2 + r c2 4 + b3 27 + 3 s −c 2 − r c2 4 + b3 27 o que ´e o mesmo que
x = 3 v u u t−c 2 + s ³ c 2 ´2 + µ b 3 ¶3 + 3 v u u t−c 2 − s ³ c 2 ´2 + µ b 3 ¶3 .
Esta ´e a f´ormula resolvente encontrada no s´eculo XVI por del Ferro, Cardano e Tartaglia.
Algum tempo depois da descoberta da f´ormula, outro italiano, Bombelli, aplicou-a `a equa¸c˜ao
x3− 15x − 4 = 0.
Note-se que esta equa¸c˜ao tem a solu¸c˜ao x = 4, como se vˆe imediatamente. Mas a f´ormula resolvente d´a x = 3 q 2 +√−121 + 3 q 2 −√−121 .
Aparece aqui a raiz quadrada de um n´umero negativo, o que torna a express˜ao sem sentido. Mas Bombelli teve um “pensamento louco” (nas suas pr´oprias palavras) e fez contas com essas ra´ızes como se elas existissem, e usando as propriedades habituais das opera¸c˜oes com n´umeros.
Como 121 = 112, dever´a ser √−121 = 11√−1, pelo que 3 q 2 +√−121 = 3 q 2 + 11√−1 e 3 q 2 −√−121 = 3 q 2 − 11√−1 .
Como entre os radicandos das ra´ızes c´ubicas p3
2 + 11√−1 e p3
2 − 11√−1 s´o h´a uma
diferen¸ca de sinal, ocorreu a Bombelli que essas ra´ızes c´ubicas se possam tamb´em escrever na forma 3 q 2 + 11√−1 = a + b√−1 e 3 q 2 − 11√−1 = a − b√−1
com a e b n´umeros reais. E, de facto, das condi¸c˜oes ¡
a + b√−1¢3 = 2 + 11√−1 e ¡a − b√−1¢3 = 2 − 11√−1
tira-se, fazendo os c´alculos usando as propriedades habituais das opera¸c˜oes com n´umeros (e tamb´em (√−1)2 = −1), que a = 2 e b = 1 s˜ao solu¸c˜oes poss´ıveis, isto ´e,
¡
(Exerc´ıcio: fa¸ca os c´alculos que comprovam isto.) Ent˜ao 3 q 2 + 11√−1 = 2 +√−1 e 3 q 2 − 11√−1 = 2 −√−1
e vem, para a solu¸c˜ao da equa¸c˜ao,
x = 2 +√−1 + 2 −√−1 = 4 .
Portanto, trabalhando com estas quantidades imagin´arias — as ra´ızes quadradas de n´umeros negativos — Bombelli chegou a um resultado real correcto.
A partir deste epis´odio, os n´umeros da forma a + b√−1, com a e b reais — designados
por n´umeros imagin´arios, nome que continuou at´e hoje, embora seja mais vulgar chamar--lhes n´umeros complexos — passaram a ser usados nas mais variadas quest˜oes e aplica¸c˜oes da Matem´atica, e foram-se impondo pela sua utilidade.
Durante mais de dois s´eculos, a quest˜ao da natureza dos n´umeros complexos — que n´umeros s˜ao estes ao certo? — permaneceu um pouco misteriosa. (A partir do s´eculo XVIII, com Euler, tornou-se habitual usar a letra i para designar √−1.) S´o durante o
s´eculo XIX foram apresentadas respostas satisfat´orias para essa quest˜ao e foram justifi-cadas as propriedades destes n´umeros. Como? Definindo os n´umeros complexos `a custa de entidades conhecidas — por exemplo, como pontos num plano ou, o que ´e quase a mesma coisa, como pares ordenados de n´umeros reais — sendo as opera¸c˜oes definidas da maneira conveniente. Depois mostra-se que as opera¸c˜oes gozam das propriedades desejadas e que no conjunto h´a um subconjunto que ´e uma “c´opia” dos n´umeros reais.
1
Matrizes
1.1 Generalidades
Ao longo dos primeiros cap´ıtulos deste texto, trabalharemos com n´umeros reais. Prati-camente tudo o que veremos ´e tamb´em v´alido, sem altera¸c˜ao, para n´umeros complexos, mas em geral s´o faremos referˆencia ao caso dos n´umeros reais. Por vezes, em vez da palavra “n´umeros”, tamb´em se usa “escalares”.
Defini¸c˜ao 1.1 Chama-se matriz do tipo m × n sobre R (ou C) a todo o quadro
que se obt´em dispondo mn n´umeros segundo m linhas e n colunas
A = a11 a12 . . . a1n a21 a22 . . . a2n ... ... ... ... am1 am2 . . . amn .
Os n´umeros aij dizem-se os elementos da matriz.
Para cada i e j, aij ´e o elemento de A situado na linha i e coluna j. Tal elemento
´e tamb´em referido como o elemento de A na posi¸c˜ao (i, j), ou apenas por elemento
(i, j) de A.
Uma matriz diz-se real ou complexa consoante os seus elementos forem n´umeros reais ou complexos.
O conjunto de todas as matrizes do tipo m × n sobre R representa-se por Mm×n(R).
Usamos a nota¸c˜ao Rm para M
m×1(R).
´
E costume usarem-se letras mai´usculas para designar matrizes. Exceptua-se o caso das matrizes-coluna, isto ´e, matrizes s´o com uma coluna, para as quais, frequentemente, se utilizam letras min´usculas.
A matriz A da defini¸c˜ao pode tamb´em ser apresentada na forma A = [aij]m×n, ou
simplesmente A = [aij] se o tipo for conhecido do contexto ou n˜ao for importante na
quest˜ao que esteja em estudo. Exemplo 1.1 Sejam A = · 1 2 7 −5 3 8 ¸ ; B = 0 −2 71 2 3 12 5 8 e u = 24 9 .
A matriz A ´e uma matriz real do tipo 2 × 3. Dizemos, portanto, que A ∈ M2×3(R).
O elemento de A na posi¸c˜ao (2, 1) ´e −5 . B ´e uma matriz real 3 × 3 e u ´e uma matriz-coluna pertencente a R3.
Na defini¸c˜ao seguinte registamos terminologia e nota¸c˜oes b´asicas relativas a matrizes.
Defini¸c˜ao 1.2 1. Duas matrizes A = [aij] e B = [bij] ∈ Mm×n(R) s˜ao iguais se
aij = bij, para i = 1, . . . , m, j = 1, . . . , n.
2. A ∈ Mm×n(R) diz-se quadrada de ordem n se m = n, e rectangular se
m 6= n.
3. Os elementos diagonais de A = [aij] ∈ Mn×n(R) s˜ao a11, a22, . . . , ann.
A sequˆencia ordenada (ou n-uplo) constitu´ıda por estes elementos diz-se diagonal principal de A. O n-uplo constitu´ıdo pelos elementos da outra diagonal recebe o nome de diagonal secund´aria.
4. Seja A = [aij] quadrada. A diz-se triangular superior se aij = 0 quando
i > j, triangular inferior se aij = 0 quando i < j, e diagonal se aij = 0
quando i 6= j.
5. A matriz identidade de ordem n, In, ´e a matriz diagonal, de ordem n, com
os elementos diagonais iguais a 1.
In= 1 0 . . . 0 0 1 . . . 0 ... ... ... ... 0 0 . . . 1 . ´
E usual denotar-se o elemento (i, j) de In por δij. Assim, δij toma o valor 1
se i = j, e 0 se i 6= j. Chamaremos “s´ımbolo de Kronecker” a δij.
6. A matriz nula m × n ´e a matriz m × n cujos elementos s˜ao todos iguais a zero. Representa-se por 0m×n, ou simplesmente por 0 se o tipo estiver claro
do contexto.
7. Sendo A = [aij]m×n, define-se −A = [− aij]m×n.
8. Sendo A uma matriz, uma submatriz de A ´e uma matriz que se obt´em por supress˜ao de linhas e/ou colunas de A.
Exemplo 1.2 As matrizes · 1 2 7 −5 3 8 ¸ e · a 2 7 −5 b 8 ¸ s˜ao iguais se a = 1 e b = 3.
Estas duas matrizes s˜ao rectangulares, enquanto a matriz A =
10 5 −78 2 3
15 6 5
´e quadrada de ordem 3. Os elementos diagonais de A s˜ao 10, 2 e 5, a sua diagonal principal ´e (10, 2, 5) e a sua diagonal secund´aria ´e (−7, 2, 15) .
As matrizes 1 2 −70 2 1 0 0 −2 , 1 0 07 3 0 5 0 5 e 2 0 00 2 0 0 0 7
s˜ao, respectivamente, triangular superior, triangular inferior e diagonal. As matrizes · 10 −7 15 5 ¸ e 5 −72 3 6 5
s˜ao exemplos de submatrizes de A=
10 5 −78 2 3
15 6 5
.
1.2 Opera¸c˜
oes com matrizes
Defini¸c˜ao 1.3 Sendo A = [aij] , B = [bij] ∈ Mm×n(R) e α ∈ R, define-se:
1. A + B como sendo a matriz do tipo m × n cujo elemento (i, j) ´e aij + bij.
Assim A + B = [aij + bij]m×n.
2. αA como sendo a matriz do tipo m × n cujo elemento (i, j) ´e α aij. Tem-se
ent˜ao αA = [α aij]m×n. Exemplo 1.3 Sendo A = · 1 0 −6 −2 1 8 ¸ e B = · 10 3 8 1 6 4 ¸ , tem-se A + B = · 11 3 2 −1 7 12 ¸ e 1 2A = · 1 2 0 −3 −1 1 2 4 ¸ .
Teorema 1.1 Sejam A, B e C matrizes em Mm×n(R). Ent˜ao verifica-se:
1. (A + B) + C = A + (B + C) (associatividade da adi¸c˜ao). 2. A + B = B + A (comutatividade da adi¸c˜ao).
3. A + 0 = 0 + A = A (0 ´e elemento neutro da adi¸c˜ao).
Demonstra¸c˜ao. Apenas demonstramos a primeira destas propriedades, deixando as restantes como exerc´ıcio.
Sejam A = [aij] , B = [bij] , C = [cij] ∈ Mm×n(R) . Sejam D = (A + B) + C = [dij]
e E = A + (B + C) = [eij] . Note-se que D e E s˜ao matrizes m × n. Por outro lado, da
defini¸c˜ao de adi¸c˜ao de matrizes, tem-se dij = (aij+ bij) + cij e eij = aij+ (bij+ cij). Mas
a associatividade da adi¸c˜ao em R diz-nos que estas duas somas s˜ao iguais. Logo, dij = eij
para i = 1, . . . , m, j = 1, . . . , n, e portanto D = E.
Teorema 1.2 Sejam A e B matrizes em Mm×n(R) e α, β ∈ R. Ent˜ao verifica-se:
1. α(A + B) = αA + αB. 2. (α + β)A = αA + βA. 3. (αβ)A = α(βA). 4. 1A = A.
Demonstra¸c˜ao. Demonstremos a propriedade 3, sendo as restantes deixadas como exerc´ıcio. Seja A = [aij] ∈ Mm×n(R) e α, β ∈ R. Ent˜ao (αβ)A e α(βA) s˜ao matrizes
do mesmo tipo e o elemento (i, j) de (αβ)A ´e (αβ)aij. Como α, β e aij s˜ao elementos
de R, da associatividade da multiplica¸c˜ao em R, sabemos que (αβ)aij = α(βaij). Mas o
segundo membro desta igualdade n˜ao ´e mais que o elemento (i, j) de α(βA). Como i e j s˜ao quaisquer, obtemos a igualdade das matrizes consideradas.
Defini¸c˜ao 1.4 Sendo A = [aij] ∈ Mm×n(R) e B = [bij] ∈ Mn×p(R), define-se AB
como sendo a matriz do tipo m×p cujo elemento (i, j) ´e ai1b1j+ai2b2j+· · ·+ainbnj.
Assim AB = " n X k=1 aikbkj # m×p .
Como se pode ver pela defini¸c˜ao, o produto AB da matriz A pela matriz B apenas est´a definido se o n´umero de colunas de A for igual ao n´umero de linhas de B. Neste caso o n´umero de linhas da matriz AB ´e igual ao n´umero de linhas de A e o n´umero de colunas ´e igual ao de B. O elemento de AB situado na linha i e coluna j obt´em-se a partir da linha i de A e da coluna j de B: . . . .ai1 ai2 . . . ain . . . . . . . b1j . . . . . . b2j . . . ... ... ... . . . bnj . . . = . . .. . . ai1b1j + ai2b2j. . .+ . . . + ainbnj . . .. . . . . . . . . . . . .
Vemos assim que:
1. a linha i de AB se obt´em multiplicando a linha i de A pela matriz B; 2. a coluna j de AB se obt´em multiplicando a matriz A pela coluna j de B;
3. AB obt´em-se multiplicando a matriz A pelas colunas de B, ou multiplicando as linhas de A pela matriz B.
Exemplo 1.4 1. Sejam A = · 1 2 7 9 3 8 ¸ e B = 5 4 38 0 6 1 2 9 . Ent˜ao AB = · 1 × 5 + 2 × 8 + 7 × 1 1 × 4 + 2 × 0 + 7 × 2 1 × 3 + 2 × 6 + 7 × 9 9 × 5 + 3 × 8 + 8 × 1 9 × 4 + 3 × 0 + 8 × 2 9 × 3 + 3 × 6 + 8 × 9 ¸ = · 28 18 78 77 52 117 ¸
Note-se que neste caso o produto BA n˜ao est´a definido, visto o n´umero de colunas de B ser diferente do n´umero de linhas de A.
2. Sejam A = £ 3 1 5 ¤ e B = 27 4 . Ent˜ao AB =£ 3 × 2 + 1 × 7 + 5 × 4 ¤ =£ 33 ¤; e BA = 2 × 3 2 × 1 2 × 57 × 3 7 × 1 7 × 5 4 × 3 4 × 1 4 × 5 = 21 7 356 2 10 12 4 20 . 3. Sendo A = · 1 2 −1 −2 ¸ e B = · 4 −6 −2 3 ¸ , tem-se AB = · 0 0 0 0 ¸ ; BA = · 10 20 −5 −10 ¸ .
Exerc´ıcio 1.1 Designe-se por cj a coluna j de Am×n, j = 1, . . . , n. Dada a matriz-coluna
x = x1 x2 .. . xn ,
verifique que Ax = x1c1+ x2c2+ . . . + xncn. Dizemos que Ax ´e uma combina¸c˜ao linear
das colunas de A.
Note-se que, uma vez que AB se obt´em multiplicando A pelas colunas de B, podemos concluir que as colunas de AB s˜ao combina¸c˜oes lineares das colunas de A.
Teorema 1.3 Sejam A,A0∈M
m×n(R), B,B0∈Mn×p(R), C∈Mp×q(R) e α∈R. Ent˜ao tem-se:
1. A0 = 0, 0A = 0 , AIn = ImA = A.
2. (AB)C = A(BC) (associatividade da multiplica¸c˜ao).
3. A(B + B0) = AB + AB0, (A + A0)B = AB + A0B (distributividades do produto
em rela¸c˜ao `a adi¸c˜ao). 4. α(AB) = (αA)B = A(αB). 5. AB = 0 6⇒ (A = 0 ou B = 0).
6. (AB = AB0 e A 6= 0) 6⇒ B = B0, e tamb´em (AB = A0B e B 6= 0) 6⇒ A = A0.
7. A multiplica¸c˜ao de matrizes n˜ao ´e comutativa.
Demonstra¸c˜ao. Demonstremos a propriedade 2. As outras ficam como exerc´ıcio (note que as propriedades 5 e 7 seguem do exemplo 1.4).
Sejam A = [aij] ∈ Mm×n(R), B = [bij] ∈ Mn×p(R) e C = [cij] ∈ Mp×q(R). Ent˜ao
(AB)C e A(BC) s˜ao ambas matrizes do tipo m × q. Da defini¸c˜ao de produto sabemos que o elemento (i, j) de AB ´e
n
X
k=1
aikbkj. Assim, o elemento (i, l) de (AB)C ser´a p X t=1 Ã n X k=1 aikbkt ! ctl.
De modo an´alogo, o elemento (i, l) de A(BC) ´e
n X k=1 aik à p X t=1 bktctl ! .
Utilizando as propriedades distributiva da multiplica¸c˜ao em rela¸c˜ao `a adi¸c˜ao, associativa da multiplica¸c˜ao e da adi¸c˜ao e comutativa da adi¸c˜ao em R, tem-se
n X k=1 aik à p X t=1 bktctl ! = n X k=1 p X t=1 aik(bktctl) = p X t=1 n X k=1 (aikbkt)ctl = p X t=1 à n X k=1 aikbkt ! ctl.
Observa¸c˜ao. Da associatividade do produto de matrizes conclu´ımos que n˜ao temos que nos preocupar com parˆenteses quando lidarmos com mais de dois factores. Em particular, fica bem definido o significado da express˜ao Ak, onde A ´e uma matriz quadrada e k ∈ N.
Exerc´ıcio 1.2 Prove que o produto de duas matrizes triangulares superiores (resp. infe-riores) da mesma ordem ´e ainda uma matriz triangular superior (resp. inferior). A que s˜ao iguais os elementos diagonais do produto neste caso?
Exerc´ıcio 1.3 Sejam A e B matrizes m × n. Prove que, se Av = Bv para todo o vector coluna n × 1 v, ent˜ao A = B.
(Sugest˜ao: O que conclui se v for uma das colunas da matriz In?)
Exerc´ıcio 1.4 (Produto por blocos.) Sejam A m × n e B n × p duas matrizes. Suponhamos que as particionamos em “blocos” (ou submatrizes) assim
A = A11 A12 . . . A1s A21 A22 . . . A2s .. . ... . .. ... Ar1 Ar2 . . . Ars , B = B11 B12 . . . B1t B21 B22 . . . B2t .. . ... . .. ... Bs1 Bs2 . . . Bst ,
de forma que, para todos os poss´ıveis valores de i, j, e k, o n´umero de colunas de Aik seja
igual ao n´umero de linhas de Bkj. Mostre que, ent˜ao, o produto AB se pode calcular do
seguinte modo (note-se que o n´umero de colunas de blocos de A ´e igual ao n´umero de linhas de blocos de B): AB = Ps k=1A1kBk1 Ps k=1A1kBk2 . . . Ps k=1A1kBkt Ps k=1A2kBk1 Ps k=1A2kBk2 . . . Ps k=1A2kBkt .. . ... . .. ... Ps k=1ArkBk1 Ps k=1ArkBk2 . . . Ps k=1ArkBkt .
( Sugest˜ao: Talvez ajude come¸car por considerar o caso s = 2, r = t = 1.)
1.3 Inversa de uma matriz quadrada
Dado um n´umero n˜ao nulo, real ou complexo, podemos falar do seu inverso multiplica-tivo. O que se passar´a com matrizes?
Defini¸c˜ao 1.5 Seja A uma matriz quadrada de ordem n. Dizemos que A ´e invert´ıvel
se existir uma matriz X, quadrada de ordem n, tal que AX = XA = In.
Teorema 1.4 Seja A uma matriz quadrada de ordem n. Ent˜ao existe no m´aximo uma
matriz X quadrada de ordem n tal que AX = XA = In. (Nestas condi¸c˜oes X diz-se a
inversa de A e representa-se por A−1.)
Demonstra¸c˜ao. Sejam X e Y matrizes quadradas de ordem n tais que AX = XA = In
e AY = Y A = In. Ent˜ao Y = Y In = Y (AX) = (Y A)X = InX = X. Logo, existe no
Exemplo 1.5 A matriz ·
1 2 1 1
¸
´e invert´ıvel, sendo a sua inversa a matriz · −1 2 1 −1 ¸ . De facto tem-se · 1 2 1 1 ¸ · −1 2 1 −1 ¸ = I2 e · −1 2 1 −1 ¸ · 1 2 1 1 ¸ = I2.
Teorema 1.5 Sejam A e B matrizes quadradas de ordem n invert´ıveis. Ent˜ao AB ´e
invert´ıvel e (AB)−1 = B−1A−1.
Demonstra¸c˜ao. (AB)(B−1A−1) = A(BB−1)A−1 = AI
nA−1 = AA−1 = In. De modo
an´alogo, (B−1A−1)(AB) = B−1(A−1A)B = B−1I
nB = B−1B = In. Podemos assim
concluir que AB ´e invert´ıvel e a sua inversa ´e B−1A−1.
Exerc´ıcio 1.5 Generalize o resultado do teorema anterior para mais do que duas matrizes.
Adiante estudaremos m´etodos para determinar se uma matriz quadrada ´e ou n˜ao invert´ıvel, e, no caso afirmativo, calcular a sua inversa.
1.4 Transposi¸c˜
ao de matrizes
Defini¸c˜ao 1.6 Dada uma matriz A = [aij] do tipo m × n, define-se a
trans-posta de A como sendo a matriz AT = [b
ij], do tipo n × m, onde bij = aji, para
i = 1, . . . , n, j = 1, . . . , m. A matriz A diz-se sim´etrica se A = AT.
Observa¸c˜oes. 1. Os elementos da coluna i de AT s˜ao precisamente os da linha i de A,
para i = 1, . . . , m.
2. Uma matriz ´e sim´etrica se e s´o se for quadrada e forem iguais os elementos situados em posi¸c˜oes sim´etricas relativamente `a diagonal principal.
Exemplo 1.6 A transposta da matriz A = · 1 2 0 1 5 3 ¸ ´e a matriz AT = 1 12 5 0 3 . A matriz 3 2 52 1 7 5 7 9
´e sim´etrica, mas a matriz
3 1 52 1 7 5 7 9
j´a o n˜ao ´e, uma vez que os elementos nas posi¸c˜oes (1, 2) e (2, 1) n˜ao s˜ao iguais.
Proposi¸c˜ao 1.1 A transposi¸c˜ao de matrizes goza das seguintes propriedades:
1. (AT)T = A;
2. (A + B)T = AT + BT;
3. (αA)T = αAT, sendo α um n´umero;
4. (AB)T = BTAT;
5. (Ak)T = (AT)k, sendo k um n´umero natural;
6. Se A for invert´ıvel, AT tamb´em ´e, tendo-se (AT)−1 = (A−1)T.
Demonstra¸c˜ao. As propriedades 1, 2, 3 e 5 ficam como exerc´ıcio. Provemos 4 e 6. Sejam
A = [aij] e B = [bij] , dos tipos m × n e n × p , respectivamente. Ent˜ao BTAT e (AB)T
s˜ao do tipo p × m. Sendo bki e ajk os elementos (i, k) e (k, j) de BT e AT, respectivamente,
tem-se que o elemento (i, j) de BTAT ´e n X k=1 bkiajk = n X k=1
ajkbki, que ´e o elemento
(i, j) de (AB)T, para i = 1, . . . , p, j = 1, . . . , m.
Seja agora A = [aij] invert´ıvel de ordem n. Ent˜ao, usando a propriedade 4, tem-se
AT(A−1)T = (A−1A)T = IT
n = In e (A−1)TAT = (AA−1)T = InT = In.
Logo (AT)−1 = (A−1)T.
Exerc´ıcio 1.6 Seja A uma matriz m×n. Prove que as matrizes ATA e AAT s˜ao sim´etricas.
Dˆe um exemplo que mostre que estes dois produtos podem ser diferentes, mesmo que A seja quadrada.
Exerc´ıcio 1.7 Prove o seguinte:
1. A soma de duas matrizes sim´etricas da mesma ordem ´e ainda uma matriz sim´etrica. 2. O produto de duas matrizes sim´etricas da mesma ordem ´e uma matriz sim´etrica se e
s´o se as duas matrizes comutarem.
3. A inversa de uma matriz sim´etrica invert´ıvel ´e tamb´em sim´etrica.
Exerc´ıcio 1.8 Seja M = ·
A B C D
¸
uma matriz particionada em blocos. Mostre que
MT = · AT CT BT DT ¸ .
Defini¸c˜ao 1.7 Uma matriz quadrada diz-se ortogonal se for invert´ıvel e a sua
inversa coincidir com a sua transposta.
Exemplo 1.7 A matriz AT = " √ 2 2 − √ 2 2 √ 2 2 √ 2 2 # ´e ortogonal.
Exerc´ıcio 1.9 Mostre que:
1. O produto de duas matrizes ortogonais ´e ainda uma matriz ortogonal. 2. A inversa de uma matriz ortogonal ´e tamb´em uma matriz ortogonal.
3. Uma matriz real 2 × 2 ´e ortogonal se e s´o se for de uma das duas seguintes formas: · cos θ −sen θ sen θ cos θ ¸ , · cos θ sen θ sen θ − cos θ ¸ , θ ∈ R.
Exerc´ıcio 1.10 Seja A n × n e designemos por v1, . . . , vn as suas colunas. Prove que A ´e
ortogonal se e s´o se, para i, j = 1, . . . , n, se tiver vT
ivj= δij.
Defini¸c˜ao 1.8 Uma matriz n × n diz-se uma matriz de permuta¸c˜ao se tiver as
mesmas linhas que a matriz identidade In mas n˜ao necessariamente pela mesma
Exemplo 1.8 As matrizes 0 1 00 0 1 1 0 0 e 0 1 01 0 0 0 0 1
s˜ao matrizes de permuta¸c˜ao. Que trocas se efectuaram sobre as linhas de I3 para as obter?
Exerc´ıcio 1.11 Mostre que toda a matriz de permuta¸c˜ao ´e ortogonal.
Exerc´ıcio 1.12 Seja A = ·
B C
0 D
¸
uma matriz particionada em blocos com B e D quadradas. Mostre que, se A for ortogonal, ent˜ao B e D tamb´em s˜ao ortogonais e C = 0.
Defini¸c˜ao 1.9 Sendo A = [aij]m×n uma matriz complexa, define-se a conjugada
de A como sendo A = [aij]m×n. Escrevemos A∗ = AT. A matriz A diz-se herm´ıtica
se A = A∗.
Observa¸c˜oes. 1. Os elementos da coluna i de A∗ s˜ao precisamente os conjugados dos da
linha i de A, para i = 1, . . . , m.
2. Uma matriz ´e herm´ıtica se e s´o se for quadrada e forem conjugados os elementos situados em posi¸c˜oes sim´etricas relativamente `a diagonal principal.
Exemplo 1.9 A conjugada de A = · 1 2 + i 5 + 3i 4i ¸ ´e a matriz A = · 1 2 − i 5 − 3i −4i ¸ . Tem-se A∗= · 1 5 − 3i 2 − i −4i ¸
. Esta matriz n˜ao ´e herm´ıtica, mas a matriz
·
1 3−i 3+i 7
¸
j´a o ´e.
Proposi¸c˜ao 1.2 As matrizes complexas gozam das seguintes propriedades:
1. (A∗)∗ = A;
2. (A + B)∗ = A∗+ B∗;
3. (αA)∗ = αA∗, sendo α um n´umero complexo;
4. (AB)∗ = B∗A∗;
5. (Ak)∗ = (A∗)k, sendo k um n´umero natural;
6. Se A for invert´ıvel, A∗ tamb´em ´e, tendo-se (A∗)−1 = (A−1)∗.
1.5 Matrizes elementares
Dedicamos agora a nossa aten¸c˜ao a uma classe especial de matrizes, as matrizes ele-mentares, que aparecer˜ao no estudo dos sistemas de equa¸c˜oes lineares. Para estudarmos esta classe de matrizes ´e ´util conhecer certo tipo de opera¸c˜oes sobre as linhas de uma matriz, ditas opera¸c˜oes elementares, que passamos a definir:
1. Substitui¸c˜ao de uma linha da matriz pela sua soma com um m´ultiplo de outra. 2. Troca entre si de duas linhas da matriz.
3. Multiplica¸c˜ao de uma linha da matriz por um n´umero diferente de zero.
Defini¸c˜ao 1.10 Chama-se matriz elementar de ordem n a toda a matriz que se
obt´em de In por aplica¸c˜ao de uma opera¸c˜ao elementar `as suas linhas.
Obtemos assim trˆes tipos de matrizes elementares de ordem n: 1. Para i 6= j e α ∈ R temos a matriz
Eij(α) = 1 0 . . . 0 . . . 0 . . . 0 0 1 . . . 0 . . . 0 . . . 0 ... ... ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 1 . . . α . . . 0 ... ... ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 0 . . . 1 . . . 0 ... ... ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 0 . . . 0 . . . 1 .
Eij(α) obt´em-se de In adicionando `a linha i a linha j previamente multiplicada por
α. Assim Eij(α) difere da matriz identidade apenas pelo elemento (i, j), que ´e α
(se α = 0, tem-se Eij(α) = In).
2. Para i 6= j, temos a matriz
Pij = 1 0 . . . 0 . . . 0 . . . 0 0 1 . . . 0 . . . 0 . . . 0 ... ... ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 0 . . . 1 . . . 0 ... ... ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 1 . . . 0 . . . 0 ... ... ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 0 . . . 0 . . . 1 .
3. Finalmente, para α ∈ R n˜ao nulo e 1 ≤ i ≤ n, temos a matriz Di(α) = 1 0 . . . 0 . . . 0 0 1 . . . 0 . . . 0 ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . α . . . 0 ... ... ... ... ... ... 0 0 . . . 0 . . . 1 .
Di(α) obt´em-se de In multiplicando a linha i por α.
As matrizes Pij s˜ao matrizes de permuta¸c˜ao especiais (obtidas de In pela troca de
duas linhas).
Exemplo 1.10 As matrizes seguintes s˜ao exemplos de matrizes elementares de ordem 3 :
E21(5) = 1 0 05 1 0 0 0 1 ; P13= 0 0 10 1 0 1 0 0 ; D2(8) = 1 0 00 8 0 0 0 1 .
Exerc´ıcio 1.13 Seja A ∈ Mm×n(R), i 6= j e α ∈ R. Mostre que:
1. Eij(α)A ´e a matriz que se obt´em de A adicionando `a linha i a linha j previamente
multiplicada por α.
2. Pij(α)A ´e a matriz que se obt´em de A trocando a linha i com a linha j.
3. Di(α)A ´e a matriz que se obt´em de A multiplicando a linha i por α.
Em resumo, se E for uma matriz elementar, EA ´e a matriz que se obt´em de A aplicando-lhe `as linhas as mesmas opera¸c˜oes elementares que foram aplicadas `as linhas de Impara obter E. Mostre ainda que um resultado an´alogo ´e v´alido para o produto
AE, reflectindo-se agora o efeito da multiplica¸c˜ao nas colunas de A: AE ´e a matriz
obtida de A aplicando-lhe `as colunas as mesmas opera¸c˜oes elementares que foram aplicadas `as colunas de In para obter E.
Exerc´ıcio 1.14 Generalize 2. e 3. do exerc´ıcio anterior provando que, se A for uma matriz
m × n, se tem o seguinte:
1. Multiplicar A `a esquerda por uma matriz de permuta¸c˜ao P equivale a efectuar em A as mesmas trocas de linhas feitas em Impara obter P . Qual ser´a o efeito de multiplicar
A `a direita por uma matriz de permuta¸c˜ao?
2. Multiplicar A `a esquerda por uma matriz diagonal de elementos diagonais µ1, . . . , µm
equivale a multiplicar a primeira linha de A por µ1, a segunda linha por µ2, etc.
Multiplicar A `a direita por uma matriz diagonal de elementos diagonais µ1, . . . , µn
Exerc´ıcio 1.15 Seja 1 ≤ j ≤ n − 1, e defina-se Ej como sendo o seguinte produto de
matrizes elementares Ej+1,j(αj+1,j)Ej+2,j(αj+2,j) · · · En,j(αn,j).
1. Mostre que se tem
Ej = 1 0 . . . 0 0 0 . . . 0 0 1 . . . 0 0 0 . . . 0 .. . ... . .. ... ... . .. ... 0 0 . . . 1 0 0 . . . 0 0 0 . . . αj+1,j 1 0 . . . 0 0 0 . . . αj+2,j 0 1 . . . 0 .. . ... . .. ... ... ... . .. ... 0 0 . . . αnj ... ... . . . 1 .
2. Mostre que se tem
E1E2· · · En−1= 1 0 0 . . . 0 α21 1 0 . . . 0 α31 α32 1 . . . 0 .. . ... ... . .. ... αn1 αn2 αn3 . . . 1 .
3. Como pode observar, a matriz E1E2· · · En−1 obt´em-se imediatamente das matrizes
E1, E2, · · · , En−1, sem necessidade de c´alculos. Verifique que o mesmo n˜ao se passa
com En−1· · · E2E1, matriz para cujos elementos n˜ao existe uma express˜ao simples a
partir dos elementos das matrizes Ej.
Exerc´ıcio 1.16 Prove que as matrizes elementares Eij(α), Pij e Di(β), onde β 6= 0, s˜ao
invert´ıveis e tem-se
2
Sistemas de equa¸c˜
oes lineares
2.1 Generalidades
Os sistemas de equa¸c˜oes lineares constituem hoje um relevante tema de estudo devido `a sua importˆancia em Matem´atica Aplicada. Muitos problemas, por exemplo, nas ´areas de Engenharia conduzem `a necessidade de resolver sistemas de equa¸c˜oes lineares.
Os sistemas de equa¸c˜oes lineares ligados a quest˜oes de Matem´atica Aplicada podem ter um elevado n´umero de equa¸c˜oes e inc´ognitas. N˜ao se pode portanto pensar em resolvˆe-los “`a m˜ao”. O que se faz ´e usar computadores para esse efeito, n˜ao aplicando “f´ormulas” mas sim utilizando algoritmos, isto ´e, sequˆencias organizadas de passos que conduzem `a solu¸c˜ao ou solu¸c˜oes.
Neste cap´ıtulo estudaremos o mais importante algoritmo geral para resolver sistemas de equa¸c˜oes lineares, o algoritmo de elimina¸c˜ao de Gauss, e veremos como a linguagem das matrizes permite descrevˆe-lo de forma muito simples e abreviada.
Para sistemas muito grandes e de tipos especiais h´a outros algoritmos mais econ´omicos do que o algoritmo de elimina¸c˜ao de Gauss. Esses algoritmos tˆem em geral um n´umero infinito de passos e s˜ao estudados em disciplinas mais avan¸cadas.
Defini¸c˜ao 2.1 Uma equa¸c˜ao linear nas inc´ognitas x1, . . . , xn ´e uma equa¸c˜ao do
tipo
a1x1+ . . . + anxn= b
onde a1, . . . , an e b s˜ao n´umeros. A b costuma chamar-se segundo membro ou
termo independente da equa¸c˜ao.
Um sistema de equa¸c˜oes lineares ´e uma colec¸c˜ao finita de equa¸c˜oes lineares
(todas nas mesmas inc´ognitas) consideradas em conjunto. Um sistema gen´erico com m equa¸c˜oes e n inc´ognitas
a11x1+ . . . + a1nxn= b1 a21x1+ . . . + a2nxn= b2 . . . am1x1+ . . . + amnxn = bm
apresenta-se abreviadamente na forma Ax = b onde A = a11 a12 . . . a1n a21 a22 . . . a2n ... ... ... ... am1 am2 . . . amn , x = x1 x2 ... xn , b = b1 b2 ... bm .
A ´e a matriz do sistema, x ´e a matriz-coluna das inc´ognitas e b ´e a matriz-coluna dos segundos membros ou, abreviadamente, o segundo membro do sistema.
Defini¸c˜ao 2.2 Uma solu¸c˜ao de um sistema de equa¸c˜oes lineares nas inc´ognitas
x1, . . . , xn ´e uma sequˆencia ordenada (α1, . . . , αn) de n´umeros tais que as
substi-tui¸c˜oes xi = αi, i = 1, ..., n, transformam todas as equa¸c˜oes do sistema em
iden-tidades verdadeiras. Uma solu¸c˜ao tamb´em se pode apresentar na forma de uma matriz-coluna n × 1: α1 α2 ... αn .
Resolver um sistema de equa¸c˜oes lineares ´e determinar todas as suas solu¸c˜oes ou
provar que n˜ao existe nenhuma.
Um sistema de equa¸c˜oes lineares que tenha pelo menos uma solu¸c˜ao diz-se poss´ıvel (determinado se s´o tiver uma, indeterminado se tiver mais do que uma). Um sistema de equa¸c˜oes lineares que n˜ao tenha nenhuma solu¸c˜ao diz-se imposs´ıvel.
Exemplo 2.1 Considere o sistema de equa¸c˜oes lineares ½
2x1+ 5x2 = 3
4x1+ 9x2 = 7 .
A matriz do sistema ´e
· 2 5 4 9 ¸ , enquanto que x = · x1 x2 ¸ e b = · 3 7 ¸ s˜ao, respec-tivamente, as matrizes-coluna das inc´ognitas e dos segundos membros. Este sistema ´e poss´ıvel determinado, sendo a sua solu¸c˜ao
· 4
−1
¸
.
O exemplo seguinte ´e de novo de um sistema poss´ıvel determinado. Qual a sua solu¸c˜ao?
x1+ 2x2 = 1 4x1 + 3x2 = 3 5x1 + 5x2 = 4 . O sistema ½ 2x1+ 4x2 = 12 4x1+ 8x2 = 24
´e poss´ıvel indeterminado, com solu¸c˜ao
·
6 − 2α
α
¸
, para qualquer α ∈ R ; mas
½
2x1+ 4x2 = 5
4x1+ 8x2 = 7
j´a ´e um sistema imposs´ıvel.
Defini¸c˜ao 2.3 Um sistema em que os segundos membros das equa¸c˜oes s˜ao todos
iguais a 0 diz-se homog´eneo. Note-se que um sistema homog´eneo ´e sempre poss´ıvel
(possui sempre, pelo menos, a chamada solu¸c˜ao nula).
Defini¸c˜ao 2.4 Dois sistemas com o mesmo n´umero de equa¸c˜oes e de inc´ognitas
dizem-se equivalentes se tiverem exactamente as mesmas solu¸c˜oes.
Teorema 2.1 Seja Ax = b um sistema de equa¸c˜oes lineares, com A m × n. Seja E uma
matriz m × m invert´ıvel. Ent˜ao, o sistema EAx = Eb ´e equivalente ao sistema Ax = b.
Demonstra¸c˜ao. Claramente, qualquer solu¸c˜ao do sistema Ax = b ´e tamb´em solu¸c˜ao do sistema EAx = Eb. Reciprocamente, seja u uma solu¸c˜ao do sistema EAx = Eb. Tem-se EAu = Eb. Multiplicando `a esquerda ambos os membros desta igualdade por E−1,
obtemos Au = b, isto ´e, u ´e solu¸c˜ao do sistema Ax = b.
2.2 O algoritmo de elimina¸c˜
ao de Gauss
Um m´etodo geral de resolver sistemas de equa¸c˜oes lineares ´e o chamado algoritmo de
elimina¸c˜ao de Gauss. Este algoritmo consiste numa sequˆencia de passos “elementares”
que transformam o sistema dado num sistema muito f´acil de resolver.
Um passo elementar do m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss consiste na adi¸c˜ao membro a
membro a uma equa¸c˜ao de um m´ultiplo de outra, de forma que, na equa¸c˜ao obtida, seja
nulo o coeficiente de certa inc´ognita. Com isto dizemos que se “eliminou” essa inc´ognita da equa¸c˜ao.
Para exemplificar, consideremos o sistema Ax = b com A = [aij] m × n. Ent˜ao,
supondo a116= 0, a adi¸c˜ao `a segunda equa¸c˜ao da primeira multiplicada por −
a21
a11
elimina a inc´ognita x1 da segunda equa¸c˜ao (verifique).
Os passos elementares s˜ao conduzidos de maneira a eliminar a inc´ognita x1 de todas
as equa¸c˜oes a partir da segunda — para o que ´e necess´ario ter-se a11 n˜ao nulo —, depois
eliminar a inc´ognita x2 de todas as equa¸c˜oes a partir da terceira — para o que ´e necess´ario
ter-se a0
22 (o novo coeficiente de x2 na segunda equa¸c˜ao) n˜ao nulo —, etc. Este processo
repete-se at´e n˜ao ser poss´ıvel continu´a-lo mais. Os n´umeros a11, a022, ... chamam-se os
pivots da elimina¸c˜ao.
Teorema 2.2 Cada um destes passos elementares do m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss
transforma um sistema noutro equivalente.
Demonstra¸c˜ao. Basta observar que cada passo elementar do tipo descrito corresponde a multiplicar ambos os membros do sistema (escrito na forma matricial) por uma matriz elementar do tipo Eij(α) e que estas matrizes s˜ao invert´ıveis.
Sempre que surja um zero na posi¸c˜ao em que devia estar um pivot, procura-se resolver o problema mediante a troca dessa equa¸c˜ao com a que se lhe segue. Se tamb´em essa tiver um zero na posi¸c˜ao em causa tenta-se a seguinte, etc. Se nenhuma troca resolver o problema, o pivot passa a ser procurado entre os coeficientes da inc´ognita seguinte.
´
E ´obvio que uma troca na ordem das equa¸c˜oes transforma um sistema noutro equiva-lente. Isso tamb´em se pode concluir observando que uma troca de duas equa¸c˜oes entre si corresponde a multiplicar ambos os membros do sistema (escrito na forma matricial) por uma matriz elementar do tipo Pij e que estas matrizes s˜ao invert´ıveis.
Deste processo resulta um novo sistema, digamos Ux = c, equivalente ao sistema original, e cuja matriz U, que ´e ainda m × n, tem uma forma especial, a que se costuma chamar matriz em escada:
Defini¸c˜ao 2.5 Uma matriz diz-se uma matriz em escada se satisfizer as seguintes
condi¸c˜oes:
i) Se o primeiro elemento n˜ao nulo numa linha est´a na coluna j, ent˜ao a linha seguinte come¸ca com pelo menos j elementos nulos.
ii) Se houver linhas totalmente constitu´ıdas por zeros, elas aparecem depois das outras.
Exemplo 2.2 Exemplos do aspecto de uma matriz em escada (os s´ımbolos • representam
os pivots): • ∗ ∗0 • ∗ 0 0 • , • ∗ ∗ ∗ ∗ ∗ ∗ 0 0 • ∗ ∗ ∗ ∗ 0 0 0 • ∗ ∗ ∗ 0 0 0 0 0 0 • 0 0 0 0 0 0 0 , • ∗ ∗ 0 • ∗ 0 0 0 0 0 0 . As matrizes A = · 2 5 0 0 0 6 ¸ , B = 1 50 2 0 0 e C = 3 7 0 4 0 1 5 2 0 0 0 6 0 0 0 0 0 0 0 0
s˜ao matrizes em escada. A matriz A tem pivots 2 e 6, os pivots de B s˜ao 1 e 2 e os de C s˜ao 3, 1 e 6. As matrizes 1 5 00 0 6 0 0 2 , 1 0 5 70 0 6 2 0 0 2 4 e 2 3 00 0 0 0 0 1
Com a obten¸c˜ao de uma matriz em escada U termina a parte “descendente” do m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss. Neste momento verifica-se se o sistema obtido, Ux = c, ´e poss´ıvel, isto ´e, se n˜ao h´a equa¸c˜oes com o primeiro membro nulo e o segundo n˜ao nulo.
Se o sistema for poss´ıvel, resolve-se “de baixo para cima” (parte “ascendente” do algoritmo), se necess´ario obtendo algumas inc´ognitas — aquelas que est˜ao a multiplicar por pivots — em fun¸c˜ao das outras.
`
As primeiras inc´ognitas chamamos inc´ognitas b´asicas, e `as outras, que podem tomar qualquer valor em R, chamamos inc´ognitas livres. Se houver inc´ognitas livres, o sistema ´e indeterminado. Se s´o houver inc´ognitas b´asicas, o sistema ´e determinado.
O que governa o m´etodo de elimina¸c˜ao ´e a matriz A do sistema, e podemos olhar para os sucessivos passos do algoritmo como respeitando apenas `a matriz: o primeiro passo consiste em adicionar `a segunda linha a primeira multiplicada por −a21
a11
, etc.
Defini¸c˜ao 2.6 A caracter´ıstica de A — abreviadamente, car(A) — ´e o n´umero de
pivots que aparecem quando se aplica a A o m´etodo de elimina¸c˜ao. Equivalente-mente, car(A) ´e o n´umero de linhas n˜ao nulas da matriz em escada U produzida pelo algoritmo de elimina¸c˜ao aplicado a A. Uma matriz quadrada A n × n diz-se
n˜ao-singular se tiver caracter´ıstica n. Se car(A) < n, a matriz A diz-se singular.
Exemplo 2.3 Considere as matrizes A, B e C do exemplo anterior. Tem-se car(A) = 2,
car(B) = 2 e car(C) = 3.
Exemplo 2.4 Considere a matriz A =
1 11 3 23 2 8 12
. Apliquemos a A o m´etodo de
elimina¸c˜ao de Gauss. Come¸camos por adicionar `a segunda e terceira linhas de A a primeira linha multiplicada por −1 e −2, respectivamente. A matriz resultante ser´a A0 =
1 1 20 2 1 0 6 8
. Esta matriz n˜ao ´e ainda uma matriz em escada. Prosseguimos
adicio-nando `a terceira linha de A0 a segunda linha multiplicada por −3. A matriz que obtemos
´e a matriz em escada U =
1 1 20 2 1 0 0 5
. Tem-se car(A) = 3 (pois h´a trˆes pivots : 1, 2 e 5) e A ´e n˜ao-singular. Considere-se agora B = 1 1 22 6 6 2 2 4
. Adicionando `a segunda e terceira linhas de B
a primeira linha multiplicada por −2 obtemos a matriz em escada U =
1 1 20 4 2 0 0 0
. H´a
O algoritmo de elimina¸c˜ao de Gauss pode ser descrito de forma muito abreviada usando a linguagem das matrizes:
Consideremos o sistema Ax = b, e denotemos por Ux = c o sistema obtido ap´os a parte descendente do algoritmo. Suponhamos primeiro que n˜ao houve necessidade de trocas de linhas.
O efeito das sucessivas opera¸c˜oes elementares aplicadas a A pode ser descrito pela multiplica¸c˜ao sucessiva de A, `a esquerda, por matrizes elementares do tipo Eij(α), onde os
n´umeros α s˜ao os “multiplicadores” usados na elimina¸c˜ao. Designemos por M o produto de todas essas matrizes elementares. Ent˜ao M ´e uma matriz triangular inferior com elementos diagonais iguais a 1 (ex. 1.2), e tem-se MA = U. Como as opera¸c˜oes levadas a cabo com o segundo membro do sistema foram precisamente as mesmas, tem-se Mb = c. Designemos M−1 por L (donde A = LU e b = Lc). Sendo a inversa de M, a matriz
L ´e igual ao produto das matrizes Eij(−α) pela ordem inversa `aquela em que as matrizes
Eij(α) figuram em M. Ent˜ao, dos exerc´ıcios 1.15 e 1.16 (primeira igualdade), sabe-se que
L ´e uma matriz triangular inferior com elementos diagonais iguais a 1 e os elementos sob a
diagonal de L s˜ao precisamente os sim´etricos dos “multiplicadores” usados na elimina¸c˜ao, cada um na posi¸c˜ao em que figura na respectiva matriz elementar. (E, portanto, a matriz
L ´e muito f´acil de escrever.)
Exemplo 2.5 Considere-se o sistema Ax = b, onde A = 1 11 3 23 2 8 12 ´e a matriz considerada no Exemplo 2.4, e b = −21 −12
. J´a vimos como obter uma matriz triangular
superior U por aplica¸c˜ao do m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss a A. Utilizando matrizes elementares, este processo pode ser descrito do seguinte modo:
U = E32(−3)E31(−2)E21(−1)A =
1 1 20 2 1 0 0 5
.
Efectuando as mesmas opera¸c˜oes ao segundo membro do sistema, obtemos c = E32(−3)E31(−2)E21(−1)b = −31 −5 . A matriz L ser´a
L = [E32(−3)E31(−2)E21(−1)]−1 = E21(1)E31(2)E32(3) =
1 0 01 1 0 2 3 1 , e tem-se A = LU e b = Lc.
Se houver necessidade de trocas de linhas, a ´unica diferen¸ca ´e que o algoritmo deve ser visto como aplicado, n˜ao a A, mas a P A, onde P ´e uma matriz de permuta¸c˜ao (P ´e o produto das matrizes de permuta¸c˜ao correspondentes `as v´arias trocas de linhas feitas na matriz durante o algoritmo), e ao segundo membro P b.
Exemplo 2.6 Aplique-se o algoritmo de elimina¸c˜ao de Gauss ao sistema Ax = b, onde
A = 24 126 −22 −6 −12 −10 .
Ao adicionarmos `a segunda e terceira linhas de A a primeira multiplicada por −2 e 3, respectivamente, obtemos a matriz
E31(3)E21(−2)A = 2 60 0 −62 0 6 −4 .
O passo seguinte seria utilizar o elemento (2, 2) como pivot, mas este elemento ´e zero. Temos que trocar entre si as linhas 2 e 3 desta matriz. Este passo ´e equivalente a trocar estas linhas em A antes de termos iniciado o processo de elimina¸c˜ao, isto ´e, a fazer a elimina¸c˜ao n˜ao em A mas na matriz P2,3A. Teremos ent˜ao (aten¸c˜ao `as novas matrizes
Eij(α) ) E31(−2)E21(3)P2,3A = 2 60 6 −42 0 0 −6 .
Esta j´a ´e uma matriz em escada, a matriz U desejada. Tomando L = [E31(−2)E21(3)]−1=
E21(−3)E31(2), temos P2,3A = LU.
Regressando ao sistema Ax = b, teremos que efectuar no segundo membro as mesmas trocas de linhas que foram efectuadas em A, ou seja, iremos trabalhar n˜ao com Ax = b mas com o sistema equivalente P2,3Ax = P2,3b.
Note que n˜ao ´e necess´ario iniciar o processo de elimina¸c˜ao de cada vez que precisar de efectuar uma troca de linhas. Pense quais ser˜ao as altera¸c˜oes que tais trocas implicam na matriz L que est´a a ser constru´ıda.
Resumindo, temos:
Teorema 2.3 (Factoriza¸c˜ao LU.) Sendo A m × n arbitr´aria, existe uma matriz de
per-muta¸c˜ao P tal que P A se pode factorizar na forma LU, onde L ´e triangular inferior com elementos diagonais iguais a 1 e U ´e uma matriz em escada. Os elementos sob a diagonal de L s˜ao os sim´etricos dos “multiplicadores” usados no m´etodo de elimina¸c˜ao aplicado a A, e U ´e a matriz produzida pelo algoritmo (e portanto o primeiro elemento n˜ao nulo em cada linha n˜ao nula de U ´e um pivot).
No caso quadrado n × n n˜ao-singular, U ´e triangular superior, com os elementos diagonais n˜ao nulos (s˜ao os n pivots).6
Podemos agora apresentar a descri¸c˜ao matricial do algoritmo de elimina¸c˜ao de Gauss.
Comecemos pelo caso de sistemas com matrizes quadradas n˜ao-singulares.
Algoritmo. Resolu¸c˜ao do sistema Ax = b com A n × n n˜ao singular: 1o passo) Factoriza¸c˜ao P A = LU.
2o passo) Resolu¸c˜ao do sistema Lc = P b (para achar o novo segundo membro c). 3o passo) Resolu¸c˜ao do sistema Ux = c.
Exemplo 2.7 Retomemos o sistema Ax = b considerado no Exemplo 2.5. Temos A = 1 11 3 23 2 8 12 e b = −21 −12
. J´a conhecemos a decomposi¸c˜ao LU de A:
A = 1 0 01 1 0 2 3 1 1 1 20 2 1 0 0 5 .
Passemos ent˜ao ao segundo passo do algoritmo: resolu¸c˜ao do sistema triangular inferior
Lc = b. c1 = 1 c1 + c2 = −2 2c1 + 3c2 + c3 = −12
Este ´e um sistema poss´ıvel determinado com solu¸c˜ao c =
−31
−5
.
6No caso n˜ao-singular, uma variante desta factoriza¸c˜ao LU ´e a chamada factoriza¸c˜ao LDU , que se
obt´em da outra escrevendo U como produto de uma matriz diagonal — onde os elementos diagonais s˜ao os pivots — e uma matriz triangular superior com os elementos diagonais iguais a 1. Exemplo:
· 2 3 4 11 ¸ = · 1 0 2 1 ¸ · 2 3 0 5 ¸ = · 1 0 2 1 ¸ · 2 0 0 5 ¸ · 1 3 2 0 1 ¸ .
Resta-nos agora resolver, por substitui¸c˜ao ascendente, o sistema triangular superior Ux = c: x1 + x2 + 2x3 = 1 2x2 + x3 = −3 5x3 = −5 ⇐⇒ x1 = 4 x2 = −1 x3 = −1
A solu¸c˜ao do sistema inicial Ax = b ´e ent˜ao x =
−14
−1
.
Exemplo 2.8 Seja agora A =
24 126 −22
−6 −12 −10
, a matriz da matriz considerada no
Exemplo 2.6. Pretendemos resolver o sistema Ax = b, onde b =
−1022
58 .
Sabemos que P2,3A tem a decomposi¸c˜ao LU
P2,3A = −3 1 01 0 0 2 0 1 2 60 6 −42 0 0 −6 .
Para calcular o novo segundo membro c temos de resolver o sistema Lc = P2,3b. Ora
P2,3b = −1058 22 , logo Lc = P2,3b ⇐⇒ c1 = −10 −3c1 + c2 = 58 2c1 + c3 = 22 ⇐⇒ c = −1028 42 . Agora Ux = c ⇐⇒ 2x1 + 6x2 + 2x3 = −10 6x2 − 4x3 = 28 − 6x3 = 42 ⇐⇒ x = 20 −7 .
A solu¸c˜ao de Ax = b ´e ent˜ao x =
20
−7
.
Exerc´ıcio 2.1 O objectivo deste exerc´ıcio ´e avaliar o custo computacional do m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss. Seja dada uma matriz A n × n n˜ao-singular. Vai-se aplicar a A o m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss com o objectivo de resolver o sistema Ax = b mediante a sua transforma¸c˜ao num sistema triangular U x = c.
1. Quantas adi¸c˜oes, multiplica¸c˜oes e divis˜oes ´e necess´ario efectuar para passar de A para
U ? (R.: n(n23−1),n(n23−1),n(n−1)2 .)
2. E para passar de b para c? (R.: n(n−1)2 ,n(n−1)2 , 0.)
3. E para resolver o sistema U x = c? (R.: n(n−1)2 ,n(n−1)2 , n.)
Exerc´ıcio 2.2 Suponha que disp˜oe de um computador cujo processador consegue fazer, num segundo, 100000 opera¸c˜oes (uma “opera¸c˜ao” = uma adi¸c˜ao + uma multiplica¸c˜ao + uma divis˜ao). Quanto tempo de c´alculo do processador exigiria a resolu¸c˜ao, pelo m´etodo de elimina¸c˜ao de Gauss, de um sistema 100 × 100? E de um 1000 × 1000?
Passemos agora a sistemas com matrizes quaisquer. Vale a pena estudar separada-mente o caso dos sistemas homog´eneos, que, recorde-se, s˜ao sempre poss´ıveis.
Defini¸c˜ao 2.7 Sendo A ∈ Mm×n(R), o conjunto das solu¸c˜oes do sistema Ax = 0,
designado por N(A), diz-se o n´ucleo ou espa¸co nulo de A.
Algoritmo. Resolu¸c˜ao do sistema Ax = 0 com A m × n:
1o passo) Determina¸c˜ao da matriz em escada U. Seja car(A) = r.
2o passo) No sistema Ux = 0, que ´e equivalente ao primeiro, separam-se as inc´ognitas
em b´asicas (correspondentes `as colunas com pivots, que s˜ao em n´umero de r) e livres. Se n˜ao houver inc´ognitas livres, o sistema ´e determinado: s´o tem a solu¸c˜ao nula.
3o passo) Para cada inc´ognita livre, d´a-se o valor 1 a essa inc´ognita livre e 0 `as restantes,
e resolve-se o sistema (com r equa¸c˜oes) resultante. As n − r colunas n × 1 assim obtidas geram o conjunto N(A) das solu¸c˜oes (isto ´e, qualquer solu¸c˜ao ´e combina¸c˜ao linear dessas n − r).
Teorema 2.4 Um sistema homog´eneo com mais inc´ognitas do que equa¸c˜oes ´e
indetermi-nado.
Demonstra¸c˜ao. Seja o sistema Ax = 0, onde A ´e m × n e m < n. Seja car(A) = r. Como r ≤ m (porque o n´umero de pivots n˜ao pode exceder o n´umero de linhas), tem-se
r < n e portanto h´a necessariamente inc´ognitas livres (em n´umero de n − r).
Exemplo 2.9 Apliquemos este algoritmo `a resolu¸c˜ao do sistema homog´eneo
A = −2 −2 −4 −62 4 6 8 4 8 12 8 x1 x2 x3 x4 = 00 0 .
Adicionando `a segunda e terceira linhas de A a primeira linha multiplicada por 1 e −2, respectivamente, obtemos a matriz em escada
U = 2 4 60 2 2 82 0 0 0 −8 .
Tem-se car(A) = 3. As colunas de U com pivot correspondem `as inc´ognitas x1, x2 e x4.
Ser˜ao portanto estas as inc´ognitas b´asicas, ficando x3 como inc´ognita livre.
D´a-se o valor 1 `a inc´ognita x3 e resolve-se, por substitui¸c˜ao ascendente, o sistema
3 × 3 resultante: 2x1 + 4x2 + 8x4 = −6 2x2 + 2x4 = −2 − 8x4 = 0 ⇐⇒ x1 = −1 x2 = −1 x4 = 0 . Assim −1 −1 1 0
ser´a uma solu¸c˜ao de Ax = 0 . As restantes solu¸c˜oes ser˜ao combina¸c˜oes
lineares desta, isto ´e,
N(A) = −α −α α 0 : α ∈ R .
Para o estudo de sistemas quaisquer, interessa o seguinte resultado, que diz que o conjunto completo das solu¸c˜oes de um sistema poss´ıvel Ax = b se pode obter a partir de uma solu¸c˜ao particular e do conjunto N(A) das solu¸c˜oes do sistema homog´eneo Ax = 0: