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Academic year: 2021

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O PROCESSO DE MUNDIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO:

Políticas educacionais na social-democracia conservadora no Brasil e na Venezuela

Adriana Almeida Sales de Melo

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RESUMO

O processo de mundialização da educação é investigado como elemento de uma nova fase de internacionalização e acumulação capitalistas, conduzida hegemonicamente pelos sujeitos políticos coletivos que assumem o projeto neoliberal de sociabilidade, especialmente o FMI e o BM, condutores das reformas estruturais e da redefinição das políticas educacionais para a América Latina e Caribe, no Brasil e na Venezuela. Apesar das diferenças históricas e geopolíticas, Brasil e Venezuela foram submetidos ao mesmo processo de mundialização da educação, desenvolvendo ações políticas educacionais semelhantes, apresentando um movimento de ampliação da socialização da política, com reações propositivas quanto à participação social nesse processo.

Palavras-chave: Mundialização – Políticas educacionais – Brasil – Venezuela. ABSTRACT

The education’s mundialization process is investigated as an element of a new internationalization and accumulation capitalists phase, driven hegemonically by the collective political subjects that assume the neoliberal project of sociability, especially IMF and BM, drivers of the structural reforms and of the redefinition of the educational politics for Latin America and Caribbean, in Brazil and in Venezuela. In spite of the historical differences and geopolitics, Brazil and Venezuela they were submitted to the same process of mundialization of the education, developing similar educational political actions, presenting a movement of enlargement of the socialization of the politics, with propositives reactions as for the social participation in that process.

Keywords: Mundialization - educational Politics - Brazil - Venezuela.

1 INTRODUÇÃO

O projeto neoliberal se realizou nos países em desenvolvimento, nos anos 90, justificando e legitimando políticas de ajustes econômicos e estruturais, conduzidas pelo FMI e pelo BM, no sentido de uma maior internacionalização do capitalismo, no sentido da mundialização do capital.

A região denominada de América Latina e Caribe sofreu, nesta época, um aprofundamento do processo de restrição do desenvolvimento e crescimento, tanto econômico quanto social e, também, de restrição de crescimento científico e tecnológico,

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obrigando os países desta região a se adequarem a uma posição marginal no sentido de sua criação e produção.

A reprodução ampliada do capital exigiu destes países uma ‘inserção competitiva’ num mundo em processo de ‘globalização’, o que se deu, no entanto, com a intensificação de investimentos externos diretos, num processo de multinacionalização predatório, dirigindo os mercados nacionais para uma maior abertura, privatização e desregulamentação, aprofundando o processo de exportação de produtos primários de baixa intensidade científica e tecnológica, e transformando estes países em prestadores de serviços, mercado consumidor, mercado de mão-de-obra barata e transferidores de dinheiro a título de pagamento da dívida externa e de suas renegociações, para os países centrais.

2 CARACTERÍSTICAS DA MUNDIALIZAÇÃO NOS ANOS DE 1980

A concentração cada vez mais intensa do capital nos países desenvolvidos centrais, calcada na descentralização da produção, também provocou, concomitantemente, um aprofundamento das condições de exploração do trabalho e de aumento do desemprego como forma de manter crescentes as taxas de lucro dos empréstimos e investimentos do capital privado internacional. A ‘refuncionalização’ do Estado se realizou tanto no sentido de uma maior racionalização e eficiência estrutural, quanto na redução do gasto social público; tanto significou a privatização de empresas e órgãos públicos estatais quanto a desresponsabilização do Estado com as atividades relativas ao bem-estar social, inclusive em suas funções essenciais de saúde e educação. Este movimento resultou na precarização da qualidade de vida nestes países, com o aumento das condições de pobreza e miserabilidade.

O processo de ‘aceitação e implantação’ do movimento de ‘ajuste, por meio de reformas, para o crescimento’, dirigido principalmente pelo FMI e BM para a América Latina e Caribe, teve como direção central específica - como continuidade das agendas de liberalização do comércio, desregulamentação e privatização - a reforma do Estado. Este processo também significou uma mudança de rumo ideológico no próprio sentido da internacionalização capitalista dirigido aos países em desenvolvimento, dando uma nova dimensão à relação entre o Estado e a sociedade.

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3 A MUNDIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO: políticas sociais entre as novas funções do estado nos anos de 1990.

No final do século passado, os organismos internacionais que fazem a defesa e realizam a conservação do processo histórico contraditório e excludente de mundialização do capital (conduzido desde os anos 70 pelo FMI e BM para os países em desenvolvimento), tenderam a atribuir novos valores à ação dos países, dos Estados-nações, reforçando sua dimensão soberana, mas apenas como instâncias responsáveis, tanto por seu próprio sucesso neste processo de mundialização do capital, quanto responsáveis por manter funções básicas de segurança, conservação da propriedade privada, saúde e educação.

Entre as ‘novas funções do Estado’, preconizadas especialmente pelo BM, estaria a recuperação desta soberania, com ênfase nos seus processos de ‘governação’, isto é: a capacidade de dirigir, administrar e induzir demandas econômicas e sociais, que estaria diluída entre vários sujeitos sociais que não fariam parte exclusivamente do governo, que seriam as ONGs e agências transnacionais. Em outras palavras, organizações sociais restritas e não necessariamente representativas, locais e internacionais, estariam assumindo instâncias de resolução dos conflitos sociais.

A ‘governação’ é a proposta estratégica de conformação ético-política da ‘nova social-democracia’ - a social-democracia da ‘terceira via’- assumida como discurso pelas instâncias que representam mundialmente o projeto neoliberal em defesa do capital, representam as condições de continuidade das reformas neoliberais, que têm sido consolidadas nos países da América Latina e Caribe a partir dos anos 80.

As principais características desta nova fase de acumulação capitalista incluem: a) a incorporação do conhecimento como força produtiva principal do modo de produção social, processo que se consolida de forma concentrada nos países desenvolvidos, incluindo aí os acordos de cooperação tecnológica, provocando um aprofundamento da marginalização dos países subdesenvolvidos; b) fortalecimento do capital privado e enfraquecimento da esfera pública como movimento de reprodução ampliada do capital, aprofundando a dependência econômica entre os países; c) desemprego e mudanças nas necessidades de qualificação para o trabalho associadas ao desmonte das políticas sociais, como movimento de reprodução ampliada do trabalho; d) intensificação das políticas de “formação de consenso”, associadas à captação de recursos e às políticas de empréstimo de agências financeiras internacionais, estabelecendo novas condicionalidades na formulação de políticas para as regiões e países.

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Nesta época, a partir dos anos 80, as políticas educacionais também seguiram estes movimentos da mundialização do capital. Proclamada como área fundamental a ser desenvolvida nas ações para a redução da pobreza nas regiões subdesenvolvidas, a educação também sofre mudanças nas condicionalidades para empréstimos do FMI e do BM, no sentido tanto de sua uniformização, quanto na importância dada à eficiência e eficácia dos seus projetos e programas.

Conduzida principalmente pelo FMI e pelo BM, associado à UNESCO, é construída uma agenda de formulação e realização de políticas educacionais para a América Latina e Caribe.

Esta agenda, centrada no programa de Educação para Todos, provocou uma uniformização das políticas educacionais na nossa região, tendo sido implantada paulatinamente e concomitantemente em nossos países.

Do ponto de vista das agências de empréstimos internacionais, a educação é eleita como eixo principal para as políticas de redução da pobreza, associada à vocação dos países subdesenvolvidos de consumir ciência e tecnologia: combinação de argumentos que resulta numa condução política educacional que privilegia o investimento na educação que vai preparar para o trabalho simples, focalizada principalmente para a população entre 7 e 15 anos (cada país tem uma faixa etária e uma denominação diferente para o ensino fundamental regular).

Estes direcionamentos acabaram por causar danos nefastos na direção das políticas educacionais dos nossos países, diminuindo os investimentos na educação pública, bem como contribuindo para o desmonte dos sistemas educacionais de nossa região.

O programa de Educação para Todos, desde seu planejamento inicial, é um programa amplo de redirecionamento e condução política educacional para a América Latina e Caribe, de caráter restritivo e profundamente excludente, tendo também contribuído para estimular a privatização competitiva no campo educacional, restringindo e seccionando os vários níveis de ensino, acabando também por restringir à população o próprio acesso ao conhecimento.

Foi principalmente nos anos de 1990, que se realizaram, no contexto de redirecionamento das reformas neoliberais dirigidas aos países em desenvolvimento, em especial para a América Latina e Caribe, as mudanças políticas educacionais, no contexto da mundialização do capital, no Brasil e na Venezuela, conduzidas principalmente pelo BM e pela UNESCO, nos movimentos de implantação do programa de ‘educação para todos’ nestes países.

A despeito das profundas diferenças históricas nacionais, o programa de Educação para Todos se implantou como um programa hegemônico de homogeneização e redirecionamento de políticas educacionais para a América Latina e Caribe.

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A escolha do Brasil e Venezuela para a investigação de formações sociais concretas onde este processo de reformas políticas educacionais se realizou – como elemento do projeto neoliberal de sociedade e de educação – fundamentou-se especialmente nas suas diferenciações históricas nacionais.

Estes dois países passaram por formas distintas de aprofundamento da ocidentalização, entre os anos 80 e 90 e, no entanto, a agenda de continuidade e homogeneização das reformas políticas educacionais da UNESCO/BM foi mantida e realizada.

4 A MUNDIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

No Brasil, o projeto neoliberal começou a ser implementado em 1990, tendo sido redirecionado em 1995 com uma condução social-democrata até os dias de hoje. O processo de ‘refuncionalização do Estado’, implantado deste 1995, deu início a um novo dimensionamento entre as esferas pública e privada no país.

A conformação das políticas educacionais brasileiras ao processo de mundialização da educação envolveu sérios conflitos entre o MEC – associado aos seus parceiros principais, como o CONSED, a UNDIME e a CNTE, principalmente nos anos 90 – e a sociedade civil organizada em torno do Fórum em Defesa da Escola Pública na LDB e mobilizada nos Congressos Nacionais de Educação.

Estes embates expressaram a direção e o ritmo que tomaram as políticas educacionais no Brasil dos anos 90, no conflito entre o projeto neoliberal de sociedade e de educação – desde os anos 90 com uma face social-democrata, na defesa do programa de Educação para Todos – e o projeto democrático de massas, na defesa da educação pública de qualidade para todos, para todos os níveis.

5 A MUNDIALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NA VENEZUELA

A Venezuela enfrentou o processo de implantação do neoliberalismo uma década mais cedo que no Brasil. A crise financeira do início dos anos 80 foi um dos elementos que provocou a formação da Comissão para a Reforma do Estado (COPRE) já em 1984, instituindo o processo de reforma do Estado cujos lemas principais eram a retomada do crescimento e o aprofundamento das instâncias democráticas.

A partir de 1989, com Carlos Andrés Perez como presidente, assumindo a política de ajuste econômico do FMI, tem início o processo de consolidação do projeto neoliberal na Venezuela, interrompido por forte resistência da população em 1992 e

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renovado no período de 1994 a 1998 com a eleição de Rafael Caldera, que deu prosseguimento às políticas de ajustes e reformas do FMI/BM.

A agenda do programa de Educação para Todos seguiu as recomendações do IX Plano da Nação (1995-1999), em que a educação segue sendo um elemento central no eixo da redução da pobreza, processo apoiado pelo MINED, pela Igreja e empresários leigos de ensino. No entanto, também nesta época, diversos sujeitos políticos coletivos se articulam, realizando ações propositivas contra o projeto neoliberal de sociedade e de educação, na defesa da educação pública para todos em todos os níveis, e da instituição do ‘estado docente’ como um estado social de direitos sociais, como o Conselho Nacional de Educação e a Federação Venezuelana de Mestres.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conversar, investigar e discutir sobre o presente, analisando formações sociais concretas nas quais vivemos, torna-se uma tarefa necessária se queremos planejar, num sentido amplo, nosso futuro.

Tornar claro, esclarecer que educação queremos para os nossos países latinoamericanos hoje e construir um projeto de educação, pensando “concretamente, como pode a educação escolar contribuir para a reconstrução da soberania nacional, com a

socialização da riqueza, do poder e do saber” (NEVES, 2002, p. ) em nossos países,

significa também assumir a luta pela construção do projeto de uma nova sociabilidade, de um projeto democrático de massas em meio a todas as contradições sociais que vivemos hoje sob o capitalismo.

A mundialização do capital, como uma nova fase no processo de internacionalização do capital, aprofunda e consolida de novas formas a desigualdade social, a super-exploração do trabalho, as práticas de extermínio e a exclusão social, entre as classes sociais e também entre os países e regiões de nosso planeta. O discurso da globalização como forma integrada e harmoniosa de desenvolvimento e crescimento capitalistas, associado à realização do projeto neoliberal de sociedade e de educação, conduziram o processo excludente da mundialização do capital desde os anos 80.

No entanto, este processo de mundialização da educação, que pressupõe vocações produtivas regionais, se realiza de forma concomitante, mas profundamente diferenciada em cada país, enfrentando a resistência de diversos sujeitos políticos coletivos.

O processo de mundialização da educação, como parte do processo de mundialização do capital, tem efeitos restritivos e seletivos nas políticas educacionais dos países de nossa região.

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Por um lado, tivemos grandes ganhos nos anos 90, em relação à necessidade de se implantar ações com uma maior continuidade – planejadas para ultrapassar a dimensão das gestões governamentais em seus diversos níveis – e à exigência de uma maior eficiência e eficácia, incluindo a necessidade de se ampliar a discussão sobre a necessidade da avaliação contínua das políticas educacionais. Nos anos 90, houve uma ampliação da participação popular nas decisões e realizações das políticas educacionais, fruto também de intensa resistência da sociedade civil organizada, tornando mais expressiva a participação de diversos sujeitos políticos coletivos.

Por outro lado, esta uniformização em que se fundamentam as reformas educacionais conduzidas pelo FMI e pelo BM/UNESCO provocaram um desmonte dos sistemas educacionais locais, restringindo e redirecionando as nossas políticas educacionais para a educação fundamental pública regular

Assim como o projeto neoliberal não apresenta uma uniformidade, mas um pluralismo de tendências ao qual devemos estar atentos (COUTINHO, 2000), também o projeto democrático de massas representa uma grande diversidade de sujeitos políticos coletivos com propostas educacionais diferenciadas. Contribuir para a construção deste projeto democrático de massas significa também priorizar a análise histórica de nossas formações sociais concretas.

Enfim, tomar uma posição de conformação ou simplesmente de resistência ao projeto de sociabilidade neoliberal, sem o esforço de sua análise, discussão e crítica, é seguir pautando-se pela sua agenda.

Esta investigação pretendeu trazer elementos para a crítica e a superação do projeto neoliberal, procurando também tornar visíveis algumas das contribuições da resistência da sociedade civil organizada para a construção do projeto democrático de massas de sociedade e de educação nos nossos países.

REFERÊNCIAS

COUTINHO, Carlos Nelson. Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo. São Paulo: Cortez, 2000.

MELO, Adriana A. Sales de. A mundialização da educação. Consolidação do projeto neoliberal na América Latina. Brasil e Venezuela. Maceió: EDUFAL, 2004.

NEVES, Lúcia M. W. Brasil ano 2000: uma nova divisão do trabalho na educação. 2. ed., São Paulo: Cortez, 2002.

Referências

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