UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Faculdade de Educação
ADRIANA PAES LEME PAIVA GOMES
ONDE ESTÁ O HERÓI?
PROCESSO DE CRIAÇÃO CORPORAL COM
ADOLESCENTES NO CONTEXTO EDUCACIONAL
CONTEMPORÂNEO
CAMPINAS 2020
ADRIANA PAES LEME PAIVA GOMES
ONDE ESTÁ O HERÓI?
PROCESSO DE CRIAÇÃO CORPORAL COM
ADOLESCENTES NO CONTEXTO EDUCACIONAL
CONTEMPORÂNEO
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutora em Educação, na área de concentração Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte.
Orientador: ADILSON NASCIMENTO DE JESUS
ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA TESE DEFENDIDA PELA ALUNA ADRIANA PAES LEME PAIVA GOMES, E ORIENTADA PELO PROF. DR. ADILSON NASCIMENTO DE JESUS
CAMPINAS 2020
Agência(s) de fomento e nº(s) de processo(s): CAPES, código de financiamento 001 nº do Proc.: 88881.133313/2016.01
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas Biblioteca da Faculdade de Educação
Rosemary Passos - CRB 8/5751
Gomes, Adriana Paes Leme Paiva, 1978-
G585o GomOnde está o herói? : processo de criação corporal com adolescentes no contexto educacional contemporâneo. / Adriana Paes Leme Paiva Gomes. – Campinas, SP : [s.n.], 2020.
GomOrientador: Adilson Nascimento de Jesus.
GomTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação.
Gom1. Corpo. 2. Mito. 3. Memória. 4. Imaginação. 5. Teatro. 6. Dança. 7. Arte e educação. I. Jesus, Adilson Nascimento de, 1962-. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Where is the hero? : body creation process with teenagers in the contemporary educational context.
Palavras-chave em inglês: Body Myth Memory Imagination Theater Dance Art education
Área de concentração: Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte Titulação: Doutora em Educação
Banca examinadora:
Adilson Nascimento de Jesus Renata Bittencourt Meira Ana Elvira Wuo
Jussara Corrêa Miller
Verônica Fabrini Machado de Almeida Data de defesa: 04-08-2020
Programa de Pós-Graduação: Educação Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a) - ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0001-5748-186X
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO
TESE DE DOUTORADO
ONDE ESTÁ O HERÓI?
PROCESSO DE CRIAÇÃO CORPORAL COM
ADOLESCENTES NO CONTEXTO EDUCACIONAL
CONTEMPORÂNEO
Autora: Adriana Paes Leme Paiva Gomes
COMISSÃO JULGADORA: Adilson Nascimento de Jesus Renata Bittencourt Meira Ana Elvira Wuo
Jussara Corrêa Miller
Verônica Fabrini Machado de Almeida
A Ata da Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/ Sistema de Fluxo de Dissertação/ Tese e na Secretaria do Programa da Unidade.
AGRADECIMENTOS
Esta trajetória de pesquisa completa seu sentido de direção e significado através da gratidão a tantos que colaboraram direta e indiretamente para esta realização. Por isso, primeiramente, agradeço à minha mãe e ao meu pai (in memoriam), que me permitiram possibilidades de estudo para que que eu pudesse construir minhas próprias escolhas e mergulhar onde a vida me faz pulsar com uma força particular, na Arte. E, em respeito a esta importante dimensão da vida, agradeço igualmente às musas das Artes, responsáveis por inspirar histórias e afetividades em meu corpo sensível. Aos meus antigos e novos amigos, agradeço as boas conversas e auxílios específicos.
Assim também, agradeço aos adolescentes participantes desta pesquisa e que contribuíram para seu desenvolvimento. Aos professores que fizeram diferença em minha jornada de conhecimentos neste doutoramento, como Prof. Dr. Adilson Nascimento de Jesus, Profa. Dra. Verônica Fabrini e Prof. Dr. Wenceslau de Oliveira, os quais muito contribuíram a exemplo do exame de qualificação. Acrescento também as professoras da banca de defesa, Renata Bittencourt Meira, Ana Elvira Wuo, Jussara Miller e, novamente, Verônica Fabrini que somaram em suas percepções e sugestões.
Por fim, agradeço o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – código de financiamento 001 –, pela concessão de uma bolsa de estudos para um estágio no exterior junto à Universidade de Paris 10 (França), sob a supervisão da Profa. Dra. Graça dos Santos. Esse, assim como outros investimentos em pesquisa brasileira, quando considerados na pluralidade de suas áreas de conhecimento, podem, de fato, agregar à formação humana e técnica do/da pesquisador/pesquisadora e de seus envolvidos/envolvidas, fortalecendo uma educação emancipadora e qualitativa em nosso país.
RESUMO
A pesquisa intitulada Onde está o herói? Processo de criação corporal com adolescentes no contexto educacional contemporâneo se destina à realização artística através de um processo estético-pedagógico de sensibilização corporal associado a jogos teatrais e ações dramáticas em diálogo com temas universais presentes em mitos (ELIADE, 2007; BRANDÃO, 2004). Buscando relações entre a memória e a imaginação, tem como objetivo central a criação cênica do personagem herói (ROSENFELD, 2012; CAMPBELL, 2007; JUNG, 2002) em corpos adolescentes (COUTINHO, 2009). Assim, faz parte desta prática como pesquisa (CABRAL, 2003) aqui denominada narratese, o exercício de acolher, estimular, observar, organizar e refletir como os adolescentes participantes estão vivenciando a imagem simbólica do herói na contemporaneidade, ou seja, como o personagem central de jornadas errantes, repleta de aventuras, perigos e descobertas vêm sendo imaginado por este público a partir de seu corpo em processo para a cena. Para tanto, a proposta se alinha à função pedagógica do mito (CAMPBELL, 2001) e a uma atitude lúdica e criativa de um corpo que experimenta, joga e constrói por meio do contato sensível com múltiplas instâncias de si mesmo e do outro dentro do espaço expressivo da arte, fundamentada aqui pela produção de conhecimento no teatro (BOAL, 1997; SPOLIN, 1992; KOUDELA, 2011; BARBA, 2012) e na dança (LABAN, 1978; VIANNA, 2005; MILLER, 2007; 2012) do século XX e XXI.
ABSTRACT
The research entitled Where is the hero? Body creation process with teenagers in the contemporary educational context is aimed towards an artistic acomplishment through a process of body awareness concerning theatrical play and dramatic actions and related to the universal themes present in myths (ELIADE, 2007; BRANDÃO, 2004). As we seek for relations between memory and imagination, the central goal of the project is the scenic creation of the hero character (ROSENFELD, 2012; CAMPBELL, 2007; JUNG, 2002) in adolescent bodies (COUTINHO, 2009). Like this, it is part of this practice as research (CABRAL, 2003) here called narratese, the exercise to welcome, stimulate, observe, organize and reflect on how the participating adolescents are experiencing the symbolic image of the hero in contemporary times, that is, to analyse how the central character of wandering journeys, replete adventures, challenges and discoveries have been imagined by this audience from their bodies on the scene. Therefore, the proposal is aligned with the pedagogical function of the myth (CAMPBELL, 2001) and with a playful and creative attitude of a body that experiences, play and builds through the sensitive contact with multiple instances of itself and the other within the expressive space of art, grounded here by the production of knowledge in the theater (BOAL, 1997; SPOLIN, 1992; KOUDELA, 2011; BARBA, 2012) and dance (LABAN, 1978; VIANNA, 2005; MILLER, 2007; 2012 ) in the 20th and 21st century.
LISTA DE IMAGENS
Imagem 1 – Desenho personalizado de Ayá ... 67
Imagem 2 – Desenho personalizado de Uiauo ... 69
Imagem 3 – Desenho personalizado de Aíia ... 71
Imagem 4 – Desenho personalizado de Aua ... 73
Imagem 5 – Desenho personalizado de Eiy ... 75
Imagem 6 – Desenho personalizado de Iea ... 77
Imagem 7 – Desenho personalizado de Oão ... 84
Imagem 8 – Desenho personalizado de Aiea (D) ... 86
Imagem 9 – Desenho personalizado de Io ... 88
Imagem 10 – Desenho personalizado de Auíio ... 90
Imagem 11 – Desenho personalizado de Aiea (G) ... 97
Imagem 12 – Desenho personalizado de Eeo ... 99
Imagem 13 – Desenho personalizado de Eie ... 101
Imagem 14 – Desenho personalizado de Iao ... 103
Imagem 15 – Desenho personalizado de Yuui ... 105
Imagem 16 – Desenho personalizado de Aeie ... 107
Imagem 17 – Desenho personalizado de Iee ... 109
Imagem 18 – Perfil amazona ... 127
Imagem 19 – Perfil protetor-justiceiro ... 129
Imagem 20 – Perfil guerreiro-protetor ... 130
Imagem 21 – Perfil guerreiro do Ar ... 132
Imagem 22 – Perfil guerreiro da Terra ... 133
Imagem 23 – Perfil defensiva ... 135
Imagem 24 – Perfil caçadora ... 136
Imagem 25 – Perfil capoeirista ... 138
Imagem 26 – Perfil invencível ... 139
Imagem 27 – Perfil misteriosa ... 141
Imagem 28 – Perfil bipolar ... 142
Imagem 29 – Perfil sombria ... 144
Imagem 31 – Perfil lutador sonhador ... 147
Imagem 32 – Perfil vingador ... 148
Imagem 33 – Perfil cozinheiro-protetor ... 150
Imagem 34 – Perfil guerreira da Terra ... 151
Imagem 35 – Cena I: O chamado ... 154
Imagem 36 – Cena II: A recusa e a crise pelo chamado ... 154
Imagem 37 – Cena II: A recusa e a crise pelo chamado ... 155
Imagem 38 – Cena II: A recusa e a crise pelo chamado ... 155
Imagem 39 – Cena II: A recusa e a crise pelo chamado ... 156
Imagem 40 – Cena IV: O início do desconhecido ... 156
Imagem 41 – Cena IV: O início do desconhecido ... 157
Imagem 42 – Cena V: Confrontos ... 157
Imagem 43 – Cena VI: Imersão no abismo ... 158
Imagem 44 – Cena VI: Imersão no abismo ... 158
Imagem 45 – Final das cenas: Agradecimentos ... 159
Imagem 46 – Agradecimento final ... 159
Imagem 47 – Minutos antes de entrar em cena ... 162
Imagem 48 – Cena III: Encontro com mestres e guias ... 163
Imagem 49 – Cena II: A recusa e a crise ao chamado ... 163
Imagem 50 – Cena V: Confrontos ... 164
Imagem 51 – Cena V: Confrontos ... 164
Imagem 52 – Agradecimento ao público ... 165
Imagem 53 – Apresentação dos personagens (versão contemporânea) ... 168
Imagem 54 – Apresentação de personagens (versão contemporânea) ... 168
Imagem 55 – Apresentação de alguns personagens (versão contemporânea) ... 169
Imagem 56 – Final do evento ... 169
Imagem 57 – Apresentação oral sobre o curso artístico ... 170
Imagem 58 – Apresentação de alguns personagens (versão antiga)... 171
Imagem 59 – Momento final da apresentação (versão antiga) ... 171
Imagem 60 – Cena III: O encontro com guias e mestres ... 172
Imagem 61 – Cena IV: O início do desconhecido ... 173
Imagem 63 – Ensaio fotográfico de Lavínya ... 174
Imagem 64 – Ensaio fotográfico de Laura ... 174
Imagem 65 – Ensaio fotográfico de Milena ... 175
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 12
2 CORPO EM CENA: AVENTURA NARRATIVA ... 16
2.1 A arqueira: o chamado para a aventura ... 24
2.2 Os adolescentes: o chamado para a aventura ... 36
2.3 A preparação: auxílio sobrenatural ... 45
2.4 A máscara: a passagem pelo primeiro limiar ... 63
2.5 O jogo criador: o ventre da baleia ... 110
2.6 O rito teatral: o caminho das provas ... 125
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 181
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...186
APÊNDICES ... 189
APÊNDICE A – MATERIAIS DE PRODUÇÃO GERAL ... 189
APÊNDICE B – MATERIAIS DA ESTREIA NO TEATRO IFG (2014) ... 190
APÊNDICE C – TEXTO DE LOCUÇÃO IN OFF PARA AS CENAS ... 198
APÊNDICE D – TRILHA SONORA DAS CENAS ... 199
APÊNDICE E – FOLDER DE DIVULGAÇÃO DO TEATRO IFG ... 200
APÊNDICE F – MATERIAIS DO FESTIVAL DE ARTES (2014) ... 201
APÊNDICE G – MATERIAL DO EVENTO SECITEC (2015) ... 203
APÊNDICE H – QUESTIONÁRIO QUALITATIVO 1 (2014/1) ... 204
APÊNDICE I – QUESTIONÁRIO QUALITATIVO 2 (2015/1) ... 205
APÊNDICE J – NOVAS CRIAÇÕES (2015) – CROQUIS FEMININOS ... 206
APÊNDICE K – DESENHOS PERSONALIZADOS DOS/DAS PERSONAGENS ... 209
APÊNDICE L – APRESENTAÇÃO PARA A QUALIFICAÇÃO (2016) ... 211
APÊNDICE M – TEASER EM MP4 PRODUZIDO PARA QUALIFICAÇÃO ... 214
APÊNDICE N – SLIDE SHOW EM MP4 PARA A QUALIFICAÇÃO ... 220
APÊNDICE O – ESTÁGIO NO EXTERIOR (2017) – SEMINÁRIOS UNIVERSIDADE DE PARIS 10 (FRANÇA) E UNICAMP (BRASIL) EM 2019 ... 237
1 INTRODUÇÃO
Desde minha infância, tenho vívida na memória fortes imagens sonhadas que suscitam diálogos com minha consciência e que, ao longo das fases da vida, possibilita-me uma relação mais aproximada com o campo do inconsciente, afirmado em minha dinâmica de ser e fazer no mundo. Por isso, considerando minha trajetória de experiências, estudos e realizações na área da arte, da espiritualidade e da educação, construo maneiras de integrar o sonho – matéria-prima tão poderosa e criativa – ao meu fazer profissional de artista cênica, pesquisadora e educadora teatral.
Nessa perspectiva, convido você a caminhar por um terreno onírico repleto de possibilidades de olhar. Ponto de partida desta trajetória, cuja narrativa de pertencimento se constitui de conhecimentos sensíveis sobre si e o outro. Um sentido poético de realização, onde o corpo entra em cena com toda força, pulso e valor que lhe é inequívoco, delineado aqui como fonte de aprendizagem dentro de um processo de educação estética.
Vamos ao sonho:
Estou em uma fila, dentro de um espaço fechado e de ambiência sacra, uma espécie de templo. Minha vez está para chegar, mas a angústia e inquietação já estão manifestadas em sensações de desconforto e recusa em participar daquilo que parecia uma cerimônia em consagração a algo desconhecido. A cada passo adiante, essas sensações vão crescendo e avisto um altar habitado por uma cobra em movimento no entorno de um cálice. Cada um que passasse por ela deveria beijá-la. Olho para isso e começo a repetir incomodamente: Não vou fazer isso! Então, começo a olhar em volta, no desejo de encontrar uma saída daquele ambiente, pois sinto-me na iminência de tornar-me prisioneira dali. Enquanto busco uma saída, um bebê-menino aparece. Parece ter pouco mais de um ano de idade, caminhando animado como se estivesse aprendendo a andar. Sorridente, ele me mostra uma porta de saída. Me entusiasmo, o sigo e saio dali. No entanto, logo que saio e estou a uma pequena distância, vejo à frente e à direita, um guardião que parece me esperar diante uma porta estreita, alongada e de onde emana muita luminosidade. Já à minha esquerda, vejo outra parte compondo o cenário: Uma sala de estar fechada por vidros e totalmente ocupada por jovens com um perfil excessivamente sexualizado, voltados para uma televisão ligada. Ao vê-los, paro, me
ponho a chorar e, com o corpo todo voltado para onde havia acabado de sair, me prostro no chão em posição de entrega.
Esta narrativa sonhada trouxe-me algumas incompreensões até emergir o pensamento de que há mais mistérios na vida do que se pode indagar. Mas, alguns destes mistérios hão de poder revelar-se na fenda forte e fulgurante de um novo despertar, numa busca de sentidos sensíveis para o corpo. História própria, nunca vivida, mas possível de ser construída por meio do diálogo com imagens, encantamentos, ideias representáveis, belezas e incômodos, ficções profundamente conectadas com um desconhecido potente, podendo se fazer presentes em muitos espaços-corpo dentro e fora, na latência de uma expressão. Sonho também é criação.
Nesse caminho, o artístico confundi a razão e ganha imaginação, abrindo e traçando, como que em linhas curvas de um desenho contínuo, o rumo do porvir. Uma liberdade que se faz na responsabilidade de desdobrar uma outra história, em que personagens cheios de vida a pulsar, podem escolher se entram ou não em uma aventura errante, no exercício de inventar uma representação própria. Única e intransferível, repleta de significações enraizadas no corpo. Jogo com o invisível, a desvelar a matéria dizível no músculo e na pele onde habita poesia.
Ser pedra...planta...pluma...pipa. Movimentos de devir na beleza de ser o que se é. Um ato de amor. Amor próprio. Amor próprio do corpo. Amor pelo próprio corpo. Amor que transborde em todo corpo, corpo-terra. E, ainda que essa terra seja envolta, revolta, marcada e devastada pela História em seus inúmeros contextos temporais, ela também merece receber a generosidade da chuva, de uma boa chuva de verão para voltar a nascer, crescer e se fazer presença em tempos de tanta ausência de si, tempos de terra devastada. Será capaz ser o que se quer fazendo amor consigo até chegar no outro, naquele que também desejar tornar-se outro corpo, terra habitada?
Querer criar. Transformar grão em poesia. Caminho de sementeira. Personagem que semeia, planta e cuida para ver nascer e sentir que Sol, chuva e ventania possam inspirar, expirar e transpirar um jogo criador consigo e o outro. Então, para contar como transformar uma terra devastada em uma terra habitada, decido aproximar as principais influências e confluências dessa trajetória, culminando na concepção de um corpoiesis – neologismo para a ideia de um corpo que cria em Arte.
Sendo assim, eis a jornada poética: a primeira personagem inicia seu chamado através de um sonho. Ao acordar, um enigma instaura-se, nascendo uma vontade de
desvendá-lo. Um processo. Uma lúdica e séria aventura, em que uma arqueira chamada Aeiaa encontra-se com um grupo de adolescentes que participam duplamente como personagens dessa narrativa. Movimentos pulsantes como um vivo coração provocando sentidos, presenças e cenários perpassados por um mesmo desejo, o de produzir conhecimento sensível e poético em si e de si.
E, na força pululante desse encontro, surge uma imagem que motivará perguntas e possibilidades de resposta:
Onde está o herói? Morto, vivo? Quem é o herói? Um herói mítico, poético. Mora na memória e na imaginação.
Deseja criação no tempo de agora. Há perigos e peripécias a viver.
Transformar-se em terra fértil. Corporificar-se na criatividade. Arte de estar um outro no corpo. Personagem ficcional em rito teatral.
Alinhada nessa direção, a produção textual deste percurso é aqui denominada narratese, isto é, trata-se de uma narração poetizada do processo de criação corporal com os adolescentes envolvidos nesta qualidade de pesquisa. Sua estrutura compõe-se de 01(um) capítulo contendo 07 (sete) partes em correspondência metafórica com etapas da trajetória literária do herói - A partida e a iniciação.
A primeira parte, ‘A Arqueira: O chamado para a aventura’, apresenta a primeira personagem desta história com suas características e missão a cumprir. A segunda parte, ‘Os adolescentes: O chamado para a aventura’, contextualiza a situação de pesquisa, informando o local, o público e as condições do ambiente. A terceira parte, ‘A preparação: Auxílio sobrenatural’, fundamenta os temas-conceito, a saber, o corpo, o mito, a memória e a imaginação para a cena. A quarta parte, ‘A máscara: A passagem pelo primeiro limiar’, delimita a construção da personagem no corpo adolescente. A quinta parte, ‘O jogo criador: O ventre da baleia’, considera a personagem em jogo com
o outro e a criação de narrativas corporais com ênfase na linguagem não-verbal. A sexta parte, ‘O rito teatral: O caminho das provas’, consagra as resultantes desta jornada de criação artística, ou seja, as apresentações cênicas em diferentes formatos e cidades do Estado de Goiás e as considerações finais, que encerram esta aventura narrativa.
2 CORPO EM CENA: AVENTURA NARRATIVA
Esta aventura narrativa afirma-se em uma das quatro necessidades básicas humanas abordadas por Campbell (2001) e que se compõe do ato de narrar. Dessa consideração, organizei os conteúdos desta pesquisa em um formato que contemplasse tanto a dimensão intelectual quanto a dimensão sensível do percurso, característica deste processo de pesquisa em que a criação é o aprendizado. Assim, a proposta foi sendo alinhada à necessidade e vontade de contar uma história sobre o encontro inédito entre personagens em trajetória de criação artística. Algo como uma partilha de partidas poéticas sobre o corpo cênico.
Por isso, encontrei e construí uma maneira particular de abordar essa história dando-lhe a forma de uma narratese, ou, a narração do processo de pesquisa onde o centro de força é a imagem simbólica do personagem herói (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007; CAMPBELL, 2007; 2001; JUNG, 2002), considerada em seus atravessamentos corporais. Então, a estrutura textual foi organizada por meio de um jogo dialógico entre uma narradora e sua personagem em contato com outros personagens. A narradora (grafia em cor azul) representa a minha voz de pesquisadora e a personagem Aeiaa (grafia em cor laranja), representa a minha voz de artista, cujo perfil é o de uma caçadora de conhecimentos. Ela, a arqueira, encontrará com um grupo de adolescentes (grafia em cor
roxa) em uma comunidade distante e com eles viverá uma aventura animada.
Aventura que se faz no exercício de friccionar realidade e ficção no sentido de uma escrita criativa sobre o processo de realização artística com adolescentes de um contexto educacional. Através de uma abordagem qualitativa, a metodologia de pesquisa fundamenta-se na criação-pesquisa (JAPIASSU, 2005), isto é, em experimentações e experiências estético-pedagógicas do artista-docente, segundo referências bibliográficas específicas (BOAL,1997; KOUDELA, 2011; SPOLIN, 2012; BARBA, 2012; LABAN, 1978; VIANNA, 2005; MILLER, 2007, BAUSCH, 2007; OSTROWER, 2008).
Acrescido desses parâmetros, há o conceito de mito (BRANDÃO, 2004; ELIADE, 2007; KELEMAN, 2001) e sua função pedagógica (CAMPBELL, 2001) como orientação inerente desta narrativa, mediada pela relação metafórica com etapas da estrutura literária do herói: A partida e a iniciação (CAMPBELL, 2007). Os demais conteúdos registrados que dão suporte a essa prática como pesquisa (CABRAL, 2003), estão vinculados aos instrumentos metodológicos – vídeos, fotos, relatórios,
questionários, diários de bordo, cadernos de estudos – e na ação da memória com a imaginação pessoal.
Nesta perspectiva, faz-se importante registrar também um brevíssimo histórico de conhecimentos acadêmicos iniciados na Licenciatura em Artes Cênicas – ênfase em Teatro – até este momento de doutoramento. Uma trajetória que foi se estabelecendo em minha atuação profissional como artista-docente, desde o ano de 2003, em instituições privadas e públicas de educação básica, técnica e superior brasileiras, assim como no terceiro setor em uma organização não governamental (ONG). Essas experiências profissionais ocorreram em cidades do estado de Minas Gerais, São Paulo e Goiás.
Nos anos finais da graduação na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), meu interesse pela pesquisa artística se voltou para a temática ‘Corpo do ator’, quando realizei um trabalho de conclusão de curso intitulado ‘A poética corpóreo-sensorial no trabalho de treinamento do ator’. Nessa monografia busquei elucidar minha relação de proximidade entre o treinamento físico e a ação poética, vivida por mim e observada em dois processos artísticos – montagem cênica da obra ‘Santo Inquérito’ de Dias Gomes e oficina cênica com alunos do estágio supervisionado na UFU. Os efeitos dessa práxis me entusiasmaram tanto que mudei para Campinas no dia seguinte em que terminei minha licenciatura para dar continuidade aos estudos numa pós-graduação na Unicamp.
Na condição de aluna especial no Instituto de Artes (IA), realizei disciplinas muito interessantes que proporcionaram estudos e experimentações agregadoras entre arte, ciência e tecnologia. Um percurso que se estruturou como aluna regular da Faculdade de Educação (FE) em um mestrado voltado ao tema ‘Corpo e mito no processo criativo’. Nessa dissertação, relacionei o contato sensível e aprofundado com dois mitos (Gaia e Adônis), alguns conceitos da psicologia profunda de Jung (símbolo, arquétipo, imagem arquetípica, sonhos) e uma série de experiências corporais (dança, teatro, cerâmica, desenho e sonho) para construir um caminho de conhecimento artístico em teatro-dança, culminando em um espetáculo-solo intitulado ‘Mulher: Memória Viva’.
Já nesta pesquisa de doutorado, o desafio perpassou o tema ‘Corpo, mito e arte na educação’, somada à experiência profissional em mais de 15 anos na área de teatro-educação para diferentes faixas etárias. A exemplo de minha atuação no Instituto Federal de Educação desde o ano de 2011 como professora substituta (Campus Goiânia) e a partir de 2013 como professora efetiva (Campus Aparecida de Goiânia), realizei a
dimensão prática deste doutoramento entre os anos de 2014 e 2015, conforme aprovação de parceria entre a Faculdade de Educação (FE) da Unicamp (SP) e o Instituto Federal de Goiás (IFG), conferida pelo edital 016/2013 da GEPEX/IFG. O público específico e a modalidade envolvida foram 17 adolescentes com idade entre 14 e 17 anos, estudantes do ensino médio técnico integrado em tempo integral dos cursos de Química, Edificações e Agroindústria.
Por consequência dessa trajetória de estudos, experimentações e atuação profissional, foi possível verificar em minha produção de conhecimento, uma ressonância entre os pilares do ensino e da pesquisa. Isso confirma-se em minha proposta de ensino-aprendizagem teatral para essa modalidade, dentro da qual a orientação para o fazer cênico tem como tema ‘Literatura e Cena’. Assim sendo, apresento a estrutura desta história sobre o corpo em processo de criação artística.
Título
DA TERRA DEVASTADA À TERRA HABITADA
Onde
Numa terra distante, dentro de uma comunidade envolta por vegetações cultivadas, selvagens e de atmosfera misteriosa.
Quem
Narradora – Personagem representada pela contadora da história. Ela situa a ação da personagem alegórica, estabelecendo uma ponte com seu pensamento acadêmico.
Arqueira Aeiaa – Personagem alegórica com perfil de uma caçadora de conhecimentos. Praticante espiritual de arco e flecha. Mestre em teatro-educação. Tem como missão desvendar um mistério vindo do mundo dos sonhos.
Águia – Animal de poder celestial de Aeiaa. Sempre por perto, auxilia a arqueira em sua missão.
Serpente – Animal oracular. Mensageira telúrica da arqueira.
Adolescentes – Aprendizes-criadores de personagens heroicos com perfis representativos de um/uma caçador/caçadora; protetor/protetora; dominador; vingativo; guerreiro/guerreira; lutador/lutadora; justiceiro/justiceira; feiticeira. Cada um deles escolherá se aceita ou não o chamado para aventurar-se através do próprio corpo em cena, decidindo suas características psicofísicas e sua missão.
Habitantes da comunidade – Moradores com perfis variados que tem como função enriquecer passagens desta narrativa.
O que
A personagem Aeiaa sonha. Ao acordar, percebe uma inquietação. Algo se move como flecha em jogo com o arco, tracejando no espaço uma pergunta mobilizadora.
‘Qual é o significado da forte imagem do sonho onde aparece um grupo de adolescentes?’
Diante disso, há uma aceitação ao chamado para a sua aventura, onde Aeiaa segue em busca de pistas para desvendar o mistério em questão. Ao chegar em uma comunidade construída em meio a uma floresta com campos cultivados, ocorre um encontro com o inesperado: ela encanta-se pela imagem de um outro que também está nela.
‘Eu vi um Arqueiro. Ele me viu.’
Um efeito espelhado acaba por refletir outras questões que mobilizam o corpo a criar um caminho de aprendizagem sensível e poético. Ao aproximar-se daquela comunidade e conhecer um grupo de adolescentes, a arqueira descobre uma personagem ancestral enraizada na memória do corpo, que também a habita, assim como nos corpos daqueles adolescentes. Desenrola-se assim um curso de criação teatral envolvido por um processo de ampliação da consciência, ou, um processo de empoderamento corporal de si de forma lúdica e artística.
Como
A escrita desta história é organizada por meio de uma analogia com partes da saga mítico- literária do herói. Adiante, segue um resumo dos principais acontecimentos que compõe as partes desta narração poetizada sobre o processo de criação corporal com adolescentes no contexto educacional contemporâneo, aqui denominada de narratese. A nomeação de cada parte metaforizada (em negrito) está à frente da expressão literal (sem negrito) denominada por Campbell (2007).
Considerando a estrutura da saga do herói, constituída por 03 grandes etapas - a partida, a iniciação e o retorno -, nessa pesquisa foi possível realizar as cenas que constituem a primeira etapa ‘A partida’ e a primeira cena da etapa ‘A iniciação’. Esta estrutura literária heroica proporcionou também que fosse estabelecida uma relação metafórico-dialógica com as ações concretas do processo corporal com os(as) adolescentes, orientando esta prática como pesquisa na concepção de uma narratese.
Nesse jogo dinâmico e imprevisível entre os aspectos do tangível – o concreto – e do intangível – o etéreo (a memória, a imaginação) –, as materialidades dessa pesquisa foram sendo configuradas e reconfiguradas conforme as necessidades e possibilidades do caminhar naquele contexto, confirmada no exercício de experiência sensorial e cinestésica a que concerne um fazer artístico de abordagem qualitativa e fundamentado em uma educação somática do corpo.
Por isso, a seguir, é possível verificar as sinalizações dos conteúdos abordados em cada uma das partes que compõe essa jornada textual, estabelecendo, de forma particular, certa consonância com a experiência corporificada, onde envolvendo mestre e aprendizes nesta específica narrativa sobre o corpo em processo de criação, demarcada pela dimensão artístico-pedagógica.
A arqueira: O chamado para a aventura.
A narradora apresenta sua personagem contendo suas características psicofísicas; seu chamado, recusa, crise e aceitação; a afirmação de sua missão, seu rito iniciático e sua partida.
Os adolescentes: O chamado para a aventura.
A chegada da arqueira em uma comunidade distante; o encontro com um arqueiro; a composição do curso de criação artística; o chamado para a aventura dos adolescentes; a definição do grupo participante; a deflagração da pergunta central desta pesquisa; a adaptação ao espaço, ao contexto, ao tempo de duração e às condições climáticas; introdução a conceitos e procedimentos do curso aos adolescentes.
Este primeiro estágio da jornada mitológica – que denominamos aqui “o chamado da aventura” – significa que o destino convocou o herói e transferiu-lhe o centro de gravidade do seio da sociedade para uma região desconhecida. Esta fatídica região dos tesouros e dos perigos pode ser representada sob várias formas: como uma terra distante, uma floresta, um reino subterrâneo, a parte inferior das ondas, a parte superior do céu, uma ilha secreta, o topo de uma elevada montanha ou um profundo estado onírico. Mas, sempre é um lugar habitado por seres estranhamente fluidos e polimorfos, tormentos inimagináveis, façanhas sobre-humanas e delícias impossíveis. O herói pode agir por vontade própria na realização da aventura, como fez Teseu ao chegar à cidade de seu pai, Atenas, e ouvir a horrível história do Minotauro; da mesma forma, pode ser levado ou enviado para longe por algum agente benigno ou maligno, como ocorreu com Ulisses, levado Mediterrâneo afora pelos ventos de um deus enfurecido, Posêidon. A aventura pode começar como um mero erro, como ocorreu com a aventura da princesa do conto de fadas; igualmente, o herói pode estar simplesmente caminhando a esmo, quando algum fenômeno passageiro atrai seu olhar errante e leva o herói para longe dos caminhos comuns do homem. (CAMPBELL, 2007, p. 66)
A preparação: Auxílio sobrenatural.
Conceitos sobre corpo, mito, memória, imaginação e criatividade; etapa de sensibilização corporal; exercício escrito de lembrar e de imaginar; leitura e debate sobre mitos; conversa sobre aspectos simbólicos e interpretativos dos temas envolvidos nas histórias selecionadas.
Para aqueles que não recusam o chamado, o primeiro encontro da jornada do herói se dá com uma figura protetora (que, com frequência, é uma anciã ou um ancião), que fornece ao aventureiro amuletos que o protejam contra as forças titânicas com que ele está prestes a deparar-se. (...) Entre os índios americanos do sudoeste, a personagem favorita que desempenha esse papel benigno é a Mulher-Aranha – uma pequena
senhora, com aparência de avó, que vive debaixo da terra. (...) Essa figura representa o poder benigno e protetor do destino. A fantasia é uma garantia – uma promessa de que a paz do Paraíso, conhecida pela primeira vez no interior do útero materno, não se perderá, de que ela suporta o presente e está no futuro e no passado (é tanto ômega quanto alfa) e de que, embora a onipotência possa parecer ameaçada pela passagem de limiares e pelos despertares da vida, o poder protetor está, para todo o sempre, presente ao santuário do coração, e até imanente aos elementos não familiares do mundo ou apenas por trás deles. Basta saber e confiar, e os guardiães intemporais surgirão. (CAMPBELL, 2007, p. 74,75, 76)
A máscara: A passagem pelo primeiro limiar.
A experiência de criar a/o personagem; ideias sobre imitação e criação; sustentação da/do personagem; repetição e transformação das ações características da/do personagem; sonhos, percepções e sensações corporais.
Tendo as personificações do seu destino a ajudá-lo e a guiá-lo, o herói segue em sua aventura até chegar ao “guardião do limiar”, na porta que leva à área da força ampliada. Esses defensores guardam o mundo nas quatro direções – assim como em cima e embaixo -, marcando os limites da esfera ou horizonte de vida presente do herói. Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança e, além da proteção da sociedade, perigo para o membro da tribo. (...) As regiões do desconhecido (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, etc.) são campos livres para a projeção de conteúdos inconscientes (...) (...) o sentido do primeiro aspecto do guardião do limiar, o aspecto de proteção. É melhor não desafiar o vigia dos limites estabelecidos. E, no entanto, somente ultrapassando esses limites, provocando o outro aspecto, destrutivo, dessa mesma força, o indivíduo passa, em vida ou na morte, para uma nova região da experiência. (...) A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer. (CAMPBELL, 2007, p. 82, 83 e 85)
O jogo criador: O ventre da Baleia
Mergulho no desconhecido; caminhos de experiências com regiões desconhecidas; recusa e crise do/da personagem em ações dramáticas; corpo em jogo com o outro; embates internos (incômodos, alívios, dúvidas, medo, euforia, reflexões, estranhezas, prazeres) e externos (jogo e luta com o outro); construção de narrativas
corporais; exaltação dos cinco sentidos e cinestesia corporal; construção de narrativas corporais; cenas com o invisível.
A ideia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero, ou ventre da baleia. O herói, em lugar de conquistar ou aplacar a força do limiar, é jogado no desconhecido, dando a impressão de que ele morreu. (...) Os Zulus contam a história de duas crianças e sua mãe, que foram engolidas por um elefante. Quando a mulher chegou ao estômago do animal, “viu grandes florestas e enormes rios e muitas terras altas; de um lado, havia muitas rochas; e muitas pessoas que tinham construído sua cidade ali, e muitos cães e muito gado; tudo ali, dentro do elefante.”(...) O ventre da baleia, e a terra celeste, que se encontra além, acima e abaixo dos limites do mundo, são uma só e mesma coisa. (...) Ilustram o fato de o devoto, no momento de entrar num templo, passar por uma metamorfose. Sua natureza secular permanece lá fora; ele a deixa de lado, como a cobra deixa a pele. Uma vez no interior do templo, pode-se dizer que ele morreu para a temporalidade e retornou ao Útero do Mundo, Centro do Mundo, Paraíso Terrestre. (...) realizaram sobre os próprios corpos o grande ato simbólico. (CAMPBELL, 2007, p. 91-93)
O rito teatral: O caminho das provas
Morte simbólica; passagem pelo imponderável, escuro, misterioso, transitório e transformador; cenas com o invisível; ensaio das cenas; produção dos figurinos e indumentárias; montagem; apresentações; encerramento do processo artístico-pedagógico.
Tendo cruzado o limiar, o herói caminha por uma paisagem onírica povoada por formas curiosamente fluidas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de provas. Essa é a fase favorita do mito-aventura. (...) E assim é que se alguém – em qualquer sociedade – assumir por si mesmo a tarefa de fazer a perigosa jornada na escuridão, por meio da descida, intencional ou involuntária, aos tortuosos caminhos do seu próprio labirinto espiritual, logo se verá numa paisagem de figuras simbólicas (podendo qualquer delas devorá-lo). (...) No vocabulário dos místicos, este é o segundo estágio do Caminho, o estágio da “purificação do eu”, em que os sentidos são purificados e tornados humildes” e as energias e os interesses, “concentrados em coisas transcendentais”; ou, no vocabulário mais moderno: trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação das imagens infantis do nosso passado pessoal. (CAMPBELL, 2007, p. 102; 105)
2.1 A arqueira: o chamado para a aventura
A narradora apresenta sua personagem na terceira pessoa do singular:
A Arqueira é uma “imagem arquetípica da caçadora, ligada ao aspecto espiritual do ritual da caça e da espiritualidade de culturas antigas. Do latim Arcus. Do Francês Flèche, de origem Germânica.” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2007, p. 159).
Trata-se de uma representação material de uma ideia modelar ancestral, o arquétipo, isto é, ideias inatas expressadas através de imagens simbólicas repletas de valores culturais coletivos e individuais em dinâmica relação de sentidos, isto é, de direção e significado.
Essa personagem – palavra considerada em sua dupla acepção, ou seja, tanto no feminino quanto no masculino –, veio do Oriente, mas peregrina pelo Ocidente. Seu perfil é o de uma caçadora de conhecimentos de hábitos predominantemente nômades, mas também exercita e aprecia o cultivo da terra. Muito observadora, adora desafios. Tem grande bondade de coração. Seu nome é Aeiaa, uma referência à sua descendência indígena. A atividade do arco e flecha1 é sua prática espiritual, e como um instrumento de caça, transmite muitos significados.
É mestra na Arte-educação do corpo sensível, referenciada numa perspectiva somática.
“Soma” não quer dizer “corpo”; significa “Eu, o ser corporal”. [...] O soma é vivo; ele está sempre se contraindo e distendendo-se, acomodando-se e assimilando, recebendo energia e expelindo energia. Soma é pulsação, fluência, síntese e relaxamento – alternando com o medo e a raiva, a fome e a sensualidade. (HANA apud MILLER, 2012, p. 13)
Corpo soma em interface com a linguagem do teatro e da dança, em busca de aprofundamento da própria percepção em dinâmica relação com o intangível, combinado
1 “O arco está associado a aspectos de tensão e distensão, arremesso, reunindo energia primordial e energia
psíquica. Tensão de onde brota nossos desejos ligados ao nosso inconsciente. Também é arma de exorcismo, atirando flechas na direção dos quatro pontos cardeais. A flecha simboliza penetração, chuva fertilizante, ruptura da ambivalência, tempo orientado. Símbolo de unificação de decisão e de síntese. Intuição fulgurante. Em sentido místico, destino, busca pela união divina. Rapidez e retidão. Através dela, o próprio caçador/a se projeta e se lança sobre a presa. O tiro com arco é, a um só tempo, função nobre, função de caçador, exercício espiritual”. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007, p. 74).
aos cinco sentidos corporais – tato, olfato, paladar, audição e visão – e à cinestesia – percepção do corpo no espaço de maneira afinada – para a cena. Nas palavras de Barba (2012, p.103), cinestesia é a “percepção interior que todos nós temos dos movimentos do próprio corpo, ou de suas partes, através da sensibilidade muscular”.
Levando essa perspectiva em consideração, Miller (2012, p.13) conceitua que
A educação somática consiste em técnicas corporais nas quais o praticante tem uma relação ativa e consciente com o próprio corpo no processo de investigação somática e faz um trabalho perceptivo que o direciona para a autorregulação em seus aspectos físico, psíquico e emocional.
Nessa consideração, a ideia de um corpo cênico pode ser entendida numa práxis de preparação afetiva e técnica, cujo personagem é construído e colocado em jogo e em situações dramáticas objetivando uma experiência estética. Soma-se a essa perspectiva de olhar, a ideia de um corpo dilatado, que “se refere a um estado de corpo diferenciado, com elevada percepção corporal, podendo evidenciar-se uma dilatação do corpo no sentido sensorial e plástico através do movimento e da ação cênica.” (BARBA & SAVARESE, 2012, p. 52)
É por meio dessas concepções e considerações acima, que a arqueira se orienta para seu processo de corporificação, cuja caracterização se compõe de uma vestimenta simples, de algodão rústico, carregando consigo uma bolsa em que leva sementes de girassóis Já sua caracterização é composta por uma vestimenta simples, de algodão rústico, carrega consigo uma bolsa em que leva sementes de girassóis e outros atributos de poder como uma pedra preciosa, um manto com capuz, um jarro com água e alimentos desidratados. Seu animal-guia é uma águia. Uma personagem guardiã cuja “agudeza de sua vista, faz da águia um ser clarividente ao mesmo tempo que psicopompo” (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2007, p. 24).
Nesse processo de dar corpo à sua personagem, sua construção nasce de suas melhores referências, isto é, baseia-se em uma pluralidade de personagens representativos e que, nesta particularidade, localiza-se principalmente numa trajetória da cultura ocidental, dentro da qual entende-se as relações de diálogos entre os períodos da antiguidade arcaica, clássica, o moderno e o contemporâneo. Suas expressões são
encontradas especialmente na mitologia2 indígena e grega através da oralidade – voz, canto, contação de histórias –, assim também na literatura, artes corporais, visuais e audiovisuais, a exemplo de esculturas, histórias em quadrinhos (HQs), desenhos animados como em imagens oníricas vindas da dimensão inconsciente na forma de sonhos.
Aliás,
Os sonhos são investigações, explorações do significado. (...) nos proporcionam uma pista sobre as propensões que estamos desenvolvendo. Parte da iluminação resultante de vivermos à maneira quântica, consiste em prestar atenção nos estados oníricos. (...) são de fato, relatos correntes de nossa vida de significados (GOSWAMI, 2018, p. 195).
Isso significa dizer que essa materialidade3 onírica consiste nos registros de memórias da vida psíquica que habita cada indivíduo, englobando potências energéticas, experiências passadas, esquecidas e/ou recordadas também pelo coletivo. Por isso, as imagens que aparecem nessas narrativas sonhadas, quando tem caráter arquetípico, tornam-se símbolos com alto valor de orientação, fornecendo uma grande referência dentro de um processo de amadurecimento multidimensional.
A exemplo desta pesquisa, as imagens de orientação de Aeiaa se manifestam numa variedade de representações simbólicas como GAIA, Deusa grega associada à imagem da Terra, da mãe universal, sendo que dela tudo provém e é criado; ADÔNIS, divindade oriental da vegetação, presente na cultura ocidental como um caçador de grande força e beleza, cuja simbologia está ligada aos ritos da agricultura, do movimento cíclico da semente que morre para nascer transformada; VÊNUS, a Deusa romana da fertilidade, do amor e da beleza, e amante do caçador Adônis; ATENA, Deusa grega guerreira da paz, da justiça, da inteligência, da razão, do equilíbrio apolíneo, do espírito criativo, presidindo as artes, a literatura, a filosofia; BATMAN, herói humanizado da cultura moderna mundial associado a um perfil de justiceiro anônimo com hábitos noturnos; e MULHER MARAVILHA, heroína ocidental da cultura moderna norte-americana,
2 “Mitologia é a música. É a música da imaginação, inspirada nas energias do corpo”. (CAMPBELL,
2001, p.23).
3 Materialidade, segundo Ostrower (2001, p. 33) “(...) Permanecendo o modo de ser essencial de um
fenômeno e, consequentemente, com isso delineando o campo da ação humana, para o homem as materialidades se colocam numa plano simbólico visto que nas ordenações possíveis se inserem modos de significação”.
associada à imagem arquetípica da amazona, presente nas tradições indígenas e representada pela imagem de uma caçadora da terra.
Assim dá início à sua história durante uma noite de sono profundo, na qual ela sonha uma história muito antiga conversando com o tempo presente. Logo que acorda, a personagem com um perfil de uma arqueira percebe um enigma a ser descoberto. Um sonho-enigma, ou seja, uma narrativa vinda do inconsciente com um conteúdo misterioso e desafiador, desdobrado na forma de uma pergunta. Narrativa cheia de aventura, aquela que é “em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido (CAMPBELL, 2001). Já sob o ponto de vista literário, a aventura é a condução de uma narrativa em que um autor debruça seu imaginário cultural na invenção de si e do mundo. Sob o ponto de vista cênico, a aventura corresponde à trajetória de realização de uma história dramatizada.
Um chamado vindo do mundo dos sonhos, onde a motivação está na busca por conhecimentos poéticos– derivado de poieis, palavra derivada do grego e significa fazer, criar (BURNIER, 2001) – sobre o corpo para a cena, dando início a uma pergunta que envolve outros/outras personagens nessa história cênica.
‘Qual é o significado da forte imagem do sonho no qual aparece um grupo de adolescentes cercados por vidros em uma sala com televisão?’
O curso do sonho é quase sempre imprevisível. A lógica dos eventos é fluida, errática em comparação com a realidade. A sucessão de imagens se caracteriza por descontinuidade e cortes abruptos que não experimentamos na vida desperta. Nos sonhos um personagem ou lugar pode se transformar em outro com incrível naturalidade, revelando o poder de transmutação das representações mentais. O encadeamento entrecortado dos símbolos determina um tempo caracterizado por lapsos, fragmentações, condensações e deslocamentos, gerando camadas de significado múltiplas e até mesmo díspares. O arco de possibilidades do sonho é vastíssimo, beirando o insólito, o inverossímil e o caótico. (RIBEIRO, 2019, p.14)
Nesse movimento vindo do inconsciente, seu propósito – missão e objetivo atribuído ao personagem em questão – começa a delinear-se ao dizer sim a esta busca. Ela é expressa pelo desejo de desvendar ideias sobre uma narrativa onírica intrigante, onde há um rito seguido de uma imagem inesperada de um grupo de adolescentes. Uma narrativa criadora. Campo fértil de conhecimentos sensíveis sobre si e o mundo.
Assim, a personagem Aeiaa, faz a partida para sua missão no desejo entusiasta do devir, caminhando em estradas de chão batido e cheiro de chuva exalado nas folhagens. Terreno natureza. Momento de preparação, exercício da primeira etapa da trajetória desta personagem simbólica em que é necessário a organização de materiais e a orientação de guias e mestres que auxiliarão na sua jornada.
Por isso, ela consagra seus objetos de poder, afinal são instrumentos fundamentais que Aeiaa irá conhecer em meio a uma trilha coberta de grandes árvores centenárias, alimentando-se do que há de mais precioso para ela: Uma criativa-vida. Essa ideia corresponde às palavras de Keleman (2001, p.42) quando esclarece, em diálogo com Campbell que “estar fisicamente presente em nossa vida é estar numa terra animada. Viver como uma imagem é estar numa terra devastada”.
Assim, ao aceitar o chamado iniciado por um sonho-enigma, essa primeira personagem da história ritualiza, por meio de uma dança cantada, sua sagração à natureza. Acompanhada por seu animal-guia, ela se encontra com seu mestre, recebe orientações, atributos e objetos de poder e proteção, já que as etapas desta jornada são imprevisíveis, manifestando-se em uma dinâmica própria.
E, sobre seus objetos de poder, ela tem sabido dar valor, apreço ao seu diamante intransferível e protegido por seu manto mágico verde-oliva para abrigo e habilidades. Chamada de pedralma, refere-se à ideia de um objeto-corpo energético em constante lapidação, repleto de potência criadora e de onde emana as cores dos ventos úmidos depois das chuvas de verão. Assim, ela prepara-se para adentrar uma mata desconhecida. Será a pedra furta-cor sua bússola?
Olha só quem chega! A águia em seu voo magistral. Aeiaa, a Arqueira, acena com a cabeça em cumprimento saudoso. A águia pousa em uma pedra arredondada e ali aguarda sua companheira de longa viagem. A caçadora sente-se melhor agora que sua guia chegou. E continua seu preparo. Pedra, manto, bolsa com frutos secos, grãos, charque e jarro d’água. Arco e flecha e sementes de girassóis. Um instante de reza atenta e o próximo passo protegido pelos pés cobertos de couro e fé marcam a trilha errante. Só falta o vento trazer um ar de sementeira – uma inspiração – para pousar na terra molhada de querência. Misto de tensão e expectativa.
A personagem Aeiaa inicia sua trajetória na primeira pessoa do singular:
Numa terra distante, árida, ensolarada, cheia de relevos e vegetações inicia-se minha caminhada. Quando chove, faz arco-íris, deixando a paisagem bela e fértil. Assim vou, a passos firmes e igualmente incertos, adentrando esta mata como cão em busca de uma presa, farejando o que há pela frente com vontade e atenção. De repente, passo por uma gruta que me chama, inspirando meus sentidos para olhar dentro daquela passagem úmida e funda. Paro para ver, sinto o cheiro e deixo uma marca para que minha amiga águia saiba de mim ali.
Entro na caverna. Ouço água pingando dentro e refrescando tudo, inclusive a chama em meus olhos ávidos por novidade. Tenho receio, mas vou lenta e observando tudo ao redor. Sinto o cheiro de plantas orvalhadas e vejo-as crescendo nas pedras da gruta. A pele, já úmida, vai trazendo uma sensação diferente, um tanto incômoda, escorregadia. O chão está firme em partes e movediço em outras.
De repente, ouço um sibilar que vai aumentando com a sensação de aproximação. Paro, olho para todos os lados para saber de que lado vem o som. Vem da frente-fundo daquele ambiente escuro. Puxo meu arco e flecha e o posiciono para cima. O sibilar aumenta e logo consigo ver que se trata de um grande animal rastejante: Uma Serpente! Vem vindo ela com a certeza de que encontrou sua presa: Eu!
De pronto, percebo que estou invadindo sua casa e que não quero estar ali para zombá-la, e sim em busca de orientação. Então, guardo meu arco e flecha e pego meu diamante. Afasto-me lentamente ao ponto de conseguir projetar o objeto mineral entre a luz do Sol vinda do lado de fora e as gotas de água suspensas no ar daquela gruta. Quando consigo este alinhamento, a grande Serpente se levanta em posição de ataque, mas fica parada onde está, sem prosseguir ao meu encontro, já que sua atenção é capturada pelo feixe de luz que salta da fusão entre pedra, sol e orvalho. Ela permanece estática e concentrada, assim como eu. Olhamo-nos e a luz amplia a visão daquele espaço com abertura para vários lados. Ficamos assim por instantes dilatados, petrificadas com tamanha claridade e solidez que se revelava para ambas. Em seguida, ela abre sua enorme boca e dali sai um sopro caloroso e ondulado vindo ao encontro do efeito prisma, deixando as cores mais vivas do que nunca.
Dessa alquimia, surgem vozes femininas emanando frases oraculares em meus ouvidos:
“Tenha em mente que o tempo é seu amigo. Afaste-se daquilo que corrói sua alma. A paz chegará para aquele que se entregar a ela.
Você tem meu apoio e orientação.
Siga a trilha conforme a vontade de seu coração. A prática do bem comum é tortuosa. A fé auxilia no caminho de sua criação”.
Instante dilatado. Túnel de vozes vindas de um sopro divinatório, poderoso e transformador. Deixo um punhado de sementes de girassóis no chão como oferenda e saio, caminhando de costas, mantendo luz e gratidão pela orientação. Saio com um brilho e uma força no olhar até então desconhecidos. Minha águia-guia ecoa de longe seu grunhido magistral. Agora sei, ela é fêmea e me vislumbra do alto de ciprestes envergando suas enormes asas, como um balanço de bambu adulto que, verga e volta, canta e dura por mais tempo do que se pode imaginar.
Assim continuo o caminho, podendo agora ver uma claridade entre as grandes árvores e arbustos da paisagem. No caminho, vou coletando galhos secos para mais tarde fazer minha fogueira e poder descansar em proteção. Horas passam até que encontro um lugar para um abrigo. Lenhas e gravetos reunidos formam uma bela fogueira. Fricção com um tanto de mato seco para a fagulha se animar. Atenção, tensão e fogo, começa a espalhar. Como é belo fazer acontecer uma fogueira.
Assim é minha primeira noite dentro de uma floresta desconhecida. Me alimento de frutos e carne seca e tão logo me ponho a descansar, dormir e sonhar. Passado um tempo (suspiro profundo seguido de sobressalto), acordo perplexa com um sonho (aquele descrito na introdução). Fico instantes olhando para o fogo que necessita de mais lenha. Num átimo, retomo a respiração como que saída de um mergulho profundo sem escafandro. Pego mais lenha e a águia aproxima-se, trazendo um pergaminho em suas garras. Retiro-o com calma e leio o texto enigmático vindo de um não sei onde, longe. Nele, há imagens e inscrições bem antigas sobre uma cerimônia iniciática de grupos anteriores aos gnósticos, denominados ofitas, os quais cultuavam serpentes como parte de um ritual de incorporação de conhecimentos secretos. Na cerimônia, todos os
aventureiros deveriam beijar a serpente para consagrar-se a uma nova etapa, dentro da qual era oferecida ensinamentos sobre os mistérios da existência nesta Terra.
Enquanto isso, labaredas se agitam, transbordando faíscas de luz ao redor daquele ambiente sagrado-profano. A madrugada está sonora e em breve irá amanhecer, marcando novos passos na trilha cercada de ideias impensadas. Ouço pássaros gorjeando aqui e ali, por toda parte suaves cantos começam a sussurrar nos meus ouvidos. Minha amiga-águia permanece ali como um totem de visão serena e vigilante, firme e protetora. Ponho-me a sentar a seu lado e vem uma vontade de cochilo, já que breve raios de Sol e ventos cessarão a fogueira, marcando a hora de partir.
Novos sons de pássaros matinais, me trazem o despertar. Todos querentes de alimento, incluindo o ronco do meu estômago. Trago comigo frutas desidratadas, castanhas, pão e carne seca. Reponho energias e sigo adiante. Enquanto ando, levo também a imagem-enigma do sonho que me guia. E nesta bagagem, a pergunta tilintante deseja ser desvelada: O que significa aquela imagem da narrativa do sonho? (Silêncio tracejado por muitos pássaros cantantes)
A busca por uma resposta vem e vai, traça e sai como num jogo de criança, brincando de esconde-esconde. Juntando fagulhas, mato seco, atrito e ar, quero fazer uma nova fogueira para aquecer meus pensamentos. Opa! Um som diferente se aproxima. Parecem galhos e folhagens aquecendo a brincadeira. Vem vindo alguém. Melhor me esconder. Onde, com quem e o que está para acontecer?
Um senhor passa pela estrada levando consigo vários objetos que mais parecem amuletos. Com ar bondoso e senil, ele aprecia a estrada com paciência e amorosidade. Sinto que posso me aproximar e conversar um pouco. Saio de trás de uma árvore e entro na trilha, tentando um cumprimento formal.
Bom dia! - Ele não fala, mas acena suavemente a cabeça com uma suave piscada de olho. Pergunto-lhe se conhece a região e se por ali há alguma cidadela para buscar repouso e alimentos. Ele segue seu passo suave, em silêncio, até que faz uma pausa, olha para trás e completa:
O que você está procurando mesmo? - Me silencio e não consigo dizer. Ele continua: - Há cidades possíveis e incríveis no caminho em que percorremos, resta saber mesmo qual é o propósito que te levará até lá.
Mais muda do que nunca, junto-me a ele, andando atenta a todos os detalhes que exalam de sua presença filosofal. De repente, ele pára e eu também. Ele me olha
fundo nos olhos e eu quase não respiro de tanta curiosidade que pulula dentro de mim. Ele repousa uma de suas bolsas adornadas por mandalas e retira dali uma peça de roupa: Uma saia. Uma saia?! Pergunto-me sem ter a menor ideia sobre o que aquilo quer dizer. Ele diz: - Semeie suas sementes no entorno desta saia e dance para o céu e a lua. Isso há de clarear seus pensamentos e próximos passos.
De meu espanto noturno – o sonho –, vem outro que me deixa assim novamente, em espanto diurno – o presente. Agradeço-o com a boca aberta e a atenção perplexa. Não entendo nada, mas recebo. Guardo o presente e aquelas palavras cheias de curiosas e possíveis intenções, me perguntando em silêncio: Como ele sabe que levo sementes comigo?
Sinto que acabara de me encontrar com um mago-sábio. Abro minha bolsa para guardar meu presente e, em uma soprada de vento breve, olho adiante e aquele senhor já não está mais ali. Sinto que havia de continuar a andar naquela trilha enquanto muitas perguntas povoavam meus pensamentos. Olho para cima e minh’águia lança seu som lancinante, me lembrando que está junto a mim, sobrevoando a mesma paisagem noutra dimensão.
À frente, caminho e ouço sons de água corrente. De pronto, cessam as perguntas e vem a afirmação: Quero banhar-me nesta água! Sigo atenta ao som que aumenta conforme meus passos. É uma cachoeira! Me animo. Os olhos brilham de alegria e encantam meu caminhar. Devo descer e pegar uma pequena trilha à minha esquerda. Vou contente, sentindo a brisa que penetra nos poros da pele trazendo frescor também aos pelos. Euforia e calma n’alma. Versos transpassam-me:
Na minha história tem água doce e água do mar, Tem água que passa e que deseja ficar.
Não sei o que devo escolher. Sei que quero mover-me,
Em ambas.
Respiração profunda e calma vai deixando o corpo cada vez mais leve na breve visita abençoada e alva. Chego em um lugar circular. Coberto de samambaias e flores, vejo um paredão que dá fundo a uma forte e impetuosa cachoeira. É chegada a
hora de nadar. Sorte, tem um lago para banhar-me. Umidade no corpo todo. Chovo junto com a queda verdejante cheia de cores e desejos.
Dispo-me e aceno com um assovio para que minh’águia permaneça a postos, no platô ao alto daquela bela imagem em ação. Só falta eu pular! Instante de som, fúria e torpor! Estar em uma cachoeira é momento de agradecer a alegria de estar viva. Momento com o tempo de estar, contemplando o presente nessas águas fortificantes e curadoras da natureza.
Palavra é pouca para traduzir a emoção que vem e vai de você, ó Rainha das Águas! Me deito e deleito o agora. A queda d’água vai amenizando a inquietação dos pensamentos e a musculatura toda vai ganhando energia, preenchendo as outras partes desse mesmo todo, desse mesmo corpo, meu.
Água acompanhada de Sol. Paz indecifrável, alegria inigualável. Mergulho, jogo água no vento, desenho arco-íris, brinco como uma criança que descobre um novo corpo... No músculo, pulsa sua sabedoria ancestral. Água-oráculo-da-terra. Agradeço-te em ação de devoção. E me emociono ao perceber que este contato eleva meus melhores sentimentos. Digo em silêncio:
Tu, Rainha das Águas, guia-me como mãe zelosa. Abraço-me e sinto abraçada por vós.
Instante espiritual. Rito de consagração. Tempo dilatado. Divina atmosfera. Energia incomparável. O Sol vai suavizando sua presença e com ele vem o desejo de me aquecer numa pedra acolhedora. Pedra quente, corpo molhado, canto de pássaros, ventos brincando na pele dos pelos ouriçados. Transpiração ao Sol cálido e benevolente em tarde de solo úmido. Momento de existir no silêncio todo preenchido de natureza. Grande fonte de animação, de meditação, de estar em casa, na casa primordial (BACHELARD, 2001).
Descanso agora, danço depois. E meus sentidos e percepção, elevados, deixam os sons e a respiração profunda fluir pelo corpo até chegar na alma. Mais uma, outra e mais outra. O vento vai povoando cada vez mais meu templo-tempo e a luz em feixes atravessa o cenário, tracejando sombras e indicando o pôr-do-sol. Minhas melhores fotografias da memória. Casamento com o infinito. Alquimia do dia. Transmutação de cores e corpos. Hora de preparar-me para dançar. Avisto minh’águia acima, no platô-palco onde escolho ritualizar.
Roupas, atributos, proteções e paz nesta despedida solar e início de novo patamar. O céu e a lua. Brilho cheio de mistério azul-acinzentado. Ação de entrega. Posição de semente. Recolho meus pertences e caminho em direção àquele platô, acima de meus olhos, aos pés de minha águia. Ao chegar no alto, agradeço com um carinho leve nas macias penas de minha águia-guia, reconhecendo sua presença, apoio e orientação.
Limpo uma área circular para preparar o chão da sagração. Pequenos gravetos e folhas servem de desenho para este espaço sagrado, círculo mágico. Acrescento no meio dele a saia aberta, a abertura da cintura está livre e a outra, circundada com as sementes de girassóis. Termina o preparo, ungindo em seu entorno água salgada retirada da carne seca que agora é banhada de água doce da cachoeira.
Hora d’águia vigiar o horizonte enquanto me sento na cintura aberta da saia e deixo o corpo contar o que há para desvelar. Começa: Balanço de ninar. Pêndulo que vai e vem. Temperança. Esperança. Movimento na constância. O balanço vai aumentando até me convidar a rodar, rodar de lá para cá, passando por todo o desenho circular, movendo-me no eixo e o redor dele. Giro, giro, giro sem perder a noção de estar. Braços que se doam ao céu e se entregam à terra. Movimento repetido e ondulado vem costurar em ziguezague os braços desta dança, transformando o movimento na delicadeza de uma teia de aranha a tecer sua abóbada celeste no crepúsculo-alimentar. Teia suspensa no ar, holografia tracejada no corpo...espaço todo. As linhas percorrem, transpassam toda a magia do campo coberto de mistérios. O vento bate vindo da direção leste e meu corpo é como a aranha que teceu, sem perceber, as linhas de força de seu imã. O que vai pousar nesta teia?
Os fios desta abobadada teia tocam as sementes de girassóis e um calor vem junto em todo o corpo, de baixo para cima, de cima para baixo. Continua ziguezagueando e me fazendo rodar novamente. Substância viscosa e fluída. Saia a bailar, alquimia no ar. O vento vai aumentando a presença como num redemoinho, a rodar, rodar, rodar, até transmutar, varrendo o que precisa e mantendo o imprescindível. Abre a terra para o grão entrar. Entra, mistura e acrescenta o que tiver para doar. Nessa hora ritual onde o tempo se alarga, vem um transpirar, descendo nos fios daquele tear-todo, até encontrar com os novos “sóis”, os giras-sóis.
A saia também quer lugar, merece e sabe dançar, e cantar com os Deuses do Ar! Corpo treme, treme e jorra suor. Água volta a abraçar terra e grão. Um tempo renasce na alegria do ser que é único e joga com muitos. Vem de mim para o outro. Traz o do
outro que há em mim. Um vai e vem de ar, no ar, ação do ar, ação de doar, doação. A alquimia acontece no ato de doar-se ao mistério da vida, generosa e pulsante feito coração. Meu corpo ferve e cora, na coragem de estar, participar e acordar o que há em mim e para além de mim.
Como é possível sentir um mundo! Mundo a plantar. Parte, torce, vive, verga, morre e volta... Canta a força do canto-casa. Terra vibra vida a comemorar. Instante sopro traz uma frase seguida de canto, uma força de despertar. É na comunidade onde devo me encontrar!
“Canto alto Para os Deuses.
Não sei se sou água, terra, fogo,ar
Mas em ti, Divindade etérea, minha alma quer saudar Para encantar e se encantar:
Beleza de ser.
Canta alto que o ciclo há de continuar. Minha vida dá mil voltas, aqui, lá e acolá. Nela habita a alegria de mudar e ver mudar.
E que a paz e a alegria se encontrem juntas Daqueles com quem comungar. Canto alto, canto para consagrar Sua presença em meu despertar”.
O ritmo do canto vai diminuindo e o crepúsculo chega, acalmando a caldeira que transita dentro de mim. A respiração intensa está no corpo todo, vibrando nas vísceras, no olhar e nas nuances das cores. Uma serenidade vem de presente neste ritualizar. Ponho-me em posição de entrega, como uma semente doada à terra para ser plantada. Uma dança para o indizível na cena dizível toda cheia de desejo.
Minha águia me olha, abre suas grandes asas e voa alto com seu som pungente, buscando sua dimensão mais conhecida. Visto a saia, desfaço aquele palco como uma trabalhadora em seu ofício, encerrando mais um dia de seu cotidiano, animada pela próxima cena, novo ato com a eternidade.