UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo
CINTHYA COLIGE CARDOSO
ILUSTRAÇÃO DA HISTÓRIA DA ARQUITETURA MEDIADA POR
REALIDADE AUMENTADA: REPRESENTAÇÃO E ANÁLISE
GRÁFICA DO PROJETO E DO EDIFÍCIO
CAMPINAS 2020
ILUSTRAÇÃO DA HISTÓRIA DA ARQUITETURA
MEDIADA POR REALIDADE AUMENTADA:
REPRESENTAÇÃO E ANÁLISE GRÁFICA DO
PROJETO E DO EDIFÍCIO
Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, para obtenção do título de Mestra em Arquitetura, Tecnologia e Cidade, na área de Arquitetura, Tecnologia e Cidade.
Orientador: Prof. Dr. Daniel de Carvalho Moreira
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA CINTHYA COLIGE CARDOSO E ORIENTADA PELO PROF. DR. DANIEL DE CARVALHO MOREIRA.
ASSINATURA DO ORIENTADOR
______________________________________
CAMPINAS 2020
URBANISMO
ILUSTRAÇÃO DA HISTÓRIA DA ARQUITETURA MEDIADA
POR REALIDADE AUMENTADA: REPRESENTAÇÃO E
ANÁLISE GRÁFICA DO PROJETO E DO EDIFÍCIO
Cinthya Colige Cardoso
Dissertação de Mestrado aprovada pela Banca Examinadora constituída por:
Prof. Dr. Daniel de Carvalho Moreira
Presidente e Orientador/Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo
Prof. Dra. Simone Helena Tanoue Vizioli
Universidade de São Paulo – Instituto de Arquitetura e Urbanismo
Prof. Dra. Ana Regina Mizrahy Cuperschmid
Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo
A Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação e na Secretaria do Programa da Unidade.
Agradeço aos meus pais, Wilson e Doraci, por me apoiarem em tudo o que decidi fazer e me incentivarem a persistir nos meus sonhos.
Ao meu irmão Gabriel, por torcer sempre pelo meu sucesso e dar suporte técnico sempre que necessário.
Ao Pedro, por querer realizar meus sonhos e transformá-los em nossos, e por estar ao meu lado até nos momentos mais difíceis, sempre presente.
À Ana Paula, Alexandre, Carlos Eduardo, Debora, Bruno, Mariela, Renata e Ruth, pelo suporte técnico e emocional ao longo desses anos.
Ao meu orientador, Daniel, pela confiança, suporte e diversas oportunidades na área acadêmica desde a graduação.
[...] formar um museu imaginário da arquitetura e fazê-lo circular mundo afora.
A representação do edifício arquitetônico é pauta de discussão entre arquitetos desde o século XIX, dada sua importância para a compreensão de uma sociedade ou de uma época. Esta modalidade de representação possibilita interpretar fatos históricos, sociais, intelectuais, técnicos, estéticos e até mesmo figurativos. A compreensão dessa forma de representação é um exercício constante de repertório, registro e documentação do edifício histórico e tem se tornado cada vez mais realística graças ao desenvolvimento tecnológico e às novas formas de registro gráfico, que extrapolam o tão consagrado plano do papel. Neste aspecto de uma nova forma de representação é possível destacar trabalhos que foram desenvolvidos com o auxílio tanto da Realidade Virtual quanto da Realidade Aumentada. O objetivo deste trabalho foi apresentar modelos 3D de três edifícios presentes no livro História Global da Arquitetura, da autoria de Francis D. K. Ching, Mark M. Jarzombek e Vikramaditya Prakash, que possuem a cúpula como elemento arquitetônico comum. Para o cumprimento de tal objetivo, este trabalho lançou mão do recurso de Realidade Aumentada mediado por um dispositivo com câmera, acesso à internet e marcadores. Os modelos 3D desenvolvidos foram temáticos, conceituais e embasados nas análises de diferentes formas de representação gráfica de outros edifícios. Análises estas realizadas por autores consagrados na literatura como Clark e Pause, Simon Unwin, Francis Ching, Geoffrey H. Baker e Antony Radford, Selen Morkoç e Amit Srivastava. Como resultado, o trabalho obteve um acervo de modelos 3D que, mediados por Realidade Aumentada, permitiram a compreensão de características relevantes dos edifícios estudados, bem como a comparação das soluções adotadas pelos projetistas em diferentes contextos e épocas.
Palavras chave: arquitetura, abóbadas, representação gráfica, desenho arquitetônico, realidade aumentada.
of architectural works has been a central topic of discussion among architects since the nineteenth century. This modality of graphic representation enables the interpretation of historical, social, intellectual, technical, aesthetic, and even figurative facts. Mastery of this form of representation is acquired through a constant exercise on repertoire, and it is also important for historical building documentation, which has become increasingly realistic in recent years due to technological advances and novel techniques of graphic representation that go beyond the well-known paper framework. In this context, one must highlight the representation of architectural objects aided by the novel technologies of Virtual Reality and Augmented Reality. This paper aims to present 3D-models from three buildings that have the dome as a common architectural element from those presented in the book Global History of Architecture, by Francis D. K. Ching, Mark M. Jarzombek, and Vikramaditya Prakash. For this objective, this work has used the Augmented Reality as resource aided by a camera device, internet access and markers. The developed 3D-models were thematic, conceptual and based on analyses of different graphical representation of other buildings. These analyses were proposed by well-known authors such as Clark and Pause, Simon Unwin, Francis Ching, Geoffrey H. Baker and Antony Radford, Selen Morkoç and Amit Srivastava. As result, this work obtained a 3D-model collection that, aided by Augmented Reality, have enabled comprehension of relevant characteristics of each presented building and comparison of the different solutions adopted by the designers at different times and contexts as well.
Figura 2: Baker - análises da Villa Savoye também em perspectiva ... 38
Figura 3: elementos básicos da análise de Ching ... 45
Figura 4: elementos modificadores da arquitetura ... 46
Figura 5: elementos de análise de diagramas de Clark e Pause ... 49
Figura 6: análise gráfica da antiga sacristia em Florença – p.44 ... 50
Figura 7: Panteão romano ... 63
Figura 8: Basílica de Santa Sofia ... 65
Figura 9: Basílica de São Pedro ... 68
Figura 10: principais hardwares que fazem a leitura em RA ... 71
Figura 11: modelo desenvolvido no Glitch ... 85
Figura 12: leitura do arquivo inicial através do Three.js ... 86
Figura 13: teste com iluminação no Three.js ... 87
Figura 14: cópia do link do “assets” ... 88
Figura 15: teste de visualização do panteão romano ... 88
Figura 16: exemplos de BarCodes matriz 3x3 utilizadas ... 89
Figura 17: exemplos de cartas criadas para a interface em RA ... 91
Figura 18: teste realizado com o modelo 3D de estrutura do Panteão ... 92
Figura 19: fluxograma de desenvolvimento do trabalho ... 92
Figura 20: planta, corte e elevação do Panteão romano ... 93
Figura 21: diagramas 2D elaborados para o Panteão romano ... 94
Figura 22: desenhos base Panteão romano ... 95
Figura 23: conversão de escalas do desenho do Panteão romano ... 96
Figura 24: desenho em AutoCAD do Panteão romano ... 96
Figura 25: aplicação do sistema de coordenadas com medidas ... 97
Figura 26: adequação dos desenhos 2D para 3D do Panteão romano ... 98
Figura 27: modelagem da semiesfera - parte 3D ... 98
Figura 28: planta, corte e elevação da Basílica de Santa Sofia ... 99
Figura 29: diagramas 2D elaborados para a Basílica de Santa Sofia ... 100
Figura 30: desenhos base para a Basílica de Santa Sofia ... 101
Figura 31: desenho em AutoCAD da Basílica de Santa Sofia ... 102
Figura 35: desenho base para a Basílica de São Pedro ... 105
Figura 36: desenho em AutoCAD da Basílica de São Pedro ... 106
Figura 37: modelagem em SketchUp da Basílica de São Pedro ... 106
Figura 38: modelo 3D de escala para o Panteão ... 109
Figura 39: modelo 3D de luz natural para o Panteão ... 110
Figura 40: modelo 3D de geometria para o Panteão ... 111
Figura 41: modelo 3D de forma para o Panteão ... 112
Figura 42: modelo 3D de hierarquia para o Panteão ... 113
Figura 43 modelo 3D de simetria para o Panteão ... 114
Figura 44: modelo 3D de estrutura para o Panteão ... 115
Figura 45: modelo 3D de circulação para o Panteão ... 116
Figura 46: modelo 3D de repetição/ritmo para o Panteão ... 117
Figura 47: modelo 3D de escala para a Basílica de Santa Sofia ... 118
Figura 48: modelo 3D de análise climática para a Basílica de Santa Sofia .. 119
Figura 49: modelo 3D de geometria para a Basílica de Santa Sofia ... 120
Figura 50: modelo 3D de forma para a Basílica de Santa Sofia ... 121
Figura 51: modelo 3D de hierarquia para a Basílica de Santa Sofia ... 122
Figura 52: modelo 3D de eixos e simetria para a Basílica de Santa Sofia.... 123
Figura 53 modelo 3D de estrutura para a Basílica de Santa Sofia ... 124
Figura 54: modelo 3D de circulação para a Basílica de Santa Sofia ... 125
Figura 55: modelo 3D de repetição/ritmo para a Basílica de Santa Sofia ... 126
Figura 56: modelo 3D de escala para a Basílica de São Pedro ... 127
Figura 57: modelo 3D de análise climática para a Basílica de São Pedro .... 128
Figura 58: modelo 3D de geometria para a Basílica de São Pedro ... 128
Figura 59: modelo 3D de adição das formas ... 129
Figura 60: modelo 3D de hierarquia para a Basílica de São Pedro ... 130
Figura 61: modelo 3D de eixos e simetria para Basílica de São Pedro ... 130
Figura 62: modelo 3D de estrutura para a Basílica de São Pedro ... 131
Figura 63: modelo 3D de circulação para a Basílica de São Pedro ... 132
Figura 64: modelo 3D de repetição/ritmo para a Basílica de São Pedro ... 133
Quadro 2: aspectos formais abordados por Baker ... 30
Quadro 3: metodologia de análise gráfica arquitetônica proposta por Baker .. 34
Quadro 4: condicionantes da arquitetura segundo Unwin ... 39
Quadro 5: componentes primários da arquitetura segundo Unwin ... 39
Quadro 6: composições arquitetônicas básicas segundo Unwin ... 42
Quadro 7: elementos modificadores da arquitetura segundo Unwin ... 43
Quadro 8: interação entre elementos básicos e modificadores segundo Unwin ... 43
Quadro 9: elementos de análise de Ching ... 46
Quadro 10: 7 naturezas de um edifício arquitetônico segundo Ching ... 47
Quadro 11: eixos temáticos segundo Ching ... 48
Quadro 12: temas e diagramas de Clark e Pause ... 50
Quadro 13: temas e diagramas de Radfor, Morkoç e Srivastava ... 55
Quadro 14: comparação das principais características das cúpulas das obras ... 62
Quadro 15: plantas para o projeto da Basílica de São Pedro ... 67
Quadro 16: desenvolvedores de softwares de Realidade Virtual ... 69
Quadro 17: navegadores compatíveis com RA ... 71
Quadro 18: principais frameworks atuais de RA ... 72
Quadro 19: principais softwares/aplicativos de RA sem programação ... 73
Quadro 20: comparação entre temas abordados pelos autores ... 77
Quadro 21: comparação entre temas comuns abordados pelos autores ... 78
Quadro 22: possibilidades de livros de referência ... 79
Quadro 23: ordem dos tópicos abordados ao longo do texto ... 82
Quadro 24: descrição das imagens apresentadas junto ao texto e ordem ... 83
Quadro 25: comparação entre temas constantemente abordados no livro... 83
Quadro 26: intervalos de BarCodes escolhidos para cada edifício ... 90
Quadro 27: modelos 3D e respectivos marcadores do Panteão ... 133
Quadro 28: modelos 3D e respectivos marcadores da Basílica de Santa Sofia ... 137
2D – Duas dimensões; 3D – Três dimensões; Barcode – código de barras; glTF – GL Transmission Format;
GPS – Global Positioning System ou Sistema de Posicionamento Global; HTML - Hypertext Markup Language ou Linguagem de Marcação de Hipertexto;
QR Code – Quick Responde Code ou código de resposta rápida; RA – Realidade Aumentada;
1. INTRODUÇÃO ... 19 2. JUSTIFICATIVA ... 21 3. OBJETIVO ... 22 3.1 Objetivo geral ... 22 3.2 Objetivos específicos ... 23 4. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... 23
4.1 Difusão e reprodução arquitetônica... 23
4.2 Análise gráfica ... 24
4.2.1 Design Strategies in Architecture – an approach to the analysis of form – Geoffrey Baker ... 25
4.2.2 A análise da arquitetura – de Simon Unwin ... 39
4.2.3 Arquitetura – forma, espaço e ordem – de Francis Ching ... 44
4.2.4 Precedentes em arquitetura – de Roger Clark e Michael Pause .... 48
4.2.5 Os elementos da arquitetura moderna – de Radford, Morkoç e Srivastava ... 53
4.3 A cúpula como elemento arquitetônico ... 60
4.4 O Panteão romano ... 62
4.5 A Basílica de Santa Sofia ... 64
4.6 A Basílica de São Pedro ... 66
4.7 Realidade Virtual ... 69 4.8 Realidade Aumentada ... 70 4.8.1 WEB VR / WEB AR ... 73 4.8.2 A-FRAME... 73 4.8.3 AR.JS ... 74 4.8.4 Glitch ... 74 5. METODOLOGIA ... 75
5.3 Desenvolvimento e viabilidade por Realidade Aumentada ... 84
5.3.1 Opção 1 - Desenvolvimento e modelagem via Glitch e A-Frame ... 85
5.3.2 Opção 2 - Desenvolvimento e importação via Three.js ... 86
5.3.3 Opção 3 - Desenvolvimento do código via Glitch e A-Frame... 87
5.3.4 O código ... 89
5.3.5 Hospedagem em servidor próprio ... 92
6. RESULTADOS ... 93
6.1 Análise 2D do Panteão romano ... 93
6.2 Modelagem 3D do Panteão romano ... 94
6.2.1 Desenho do Panteão romano ... 94
6.2.2 Modelagem do Panteão romano em SketchUp ... 97
6.3 Análise 2D da Basílica de Santa Sofia ... 98
6.4 Modelagem 3D da Basílica de Santa Sofia ... 101
6.4.1 Desenho da Basílica de Santa Sofia ... 101
6.4.2 Modelagem da Basílica de Santa Sofia em SketchUp ... 102
6.5 Análise 2D da Basílica de São Pedro ... 103
6.6 Modelagem 3D da Basílica de São Pedro ... 104
6.6.1 Desenho da Basílica de São Pedro ... 105
6.6.2 Modelagem da Basílica de São Pedro em SketchUp ... 106
6.7 Elaboração dos modelos conceituais ... 107
6.7.1 Modelos 3D do Panteão ... 108
Modelo 3D para entorno ... 108
Modelo 3D para escala ... 109
Modelo 3D para análise climática ... 109
Modelo 3D para eixos e simetria ... 113
Modelo 3D para estrutura ... 114
Modelo 3D de circulação ... 115
Modelo 3D para repetição/ritmo ... 116
6.7.2 Modelos 3D da Basílica de Santa Sofia ... 117
Modelo 3D para entorno ... 117
Modelo 3D para escala ... 117
Modelo 3D para análise climática ... 118
Modelo 3D para geometria ... 119
Modelo 3D para forma ... 120
Modelo 3D para hierarquia dos espaços ... 121
Modelo 3D para eixos e simetria ... 122
Modelo 3D para estrutura ... 123
Modelo 3D de circulação ... 124
Modelo 3D para repetição/ritmo ... 125
6.7.3 Modelos 3D da Basílica de São Pedro ... 126
Modelo 3D para entorno ... 126
Modelo 3D para escala ... 126
Modelo 3D para análise climática ... 127
Modelo 3D para geometria ... 128
Modelo 3D para forma ... 129
Modelo 3D para hierarquia dos espaços ... 129
Modelo 3D para eixos e simetria ... 130
Modelo 3D para estrutura ... 131
7. CONCLUSÕES ... 144
8. REFERÊNCIAS ... 146
9. APÊNDICES ... 151
9.1 Apêndice A: primeiro código desenvolvido com Glitch e A-Frame ... 151
9.2 Apêndice B: segundo código desenvolvido com Glitch e A-Frame ... 152
9.3 Apêndice C: quinto código desenvolvido com Glitch e A-Frame ... 153
9.4 Apêndice D: cartas para impressão e visualização dos modelos desenvolvidos para o Panteão ... 160
9.5 Apêndice E: cartas para impressão e visualização dos modelos desenvolvidos para a Basílica de Santa Sofia ... 163
9.6 Apêndice F: cartas para impressão e visualização dos modelos desenvolvidos para a Basílica de São Pedro... 166
1. INTRODUÇÃO
A arquitetura está diretamente ligada a um povo e uma época e reflete todas as relações sociais, econômicas e tecnocientíficas pelas quais a sociedade passa (NAVARRETE, 1998). Por isso, é tão relevante que arquitetos e construtores se preocupem em registrar seus esboços, projetos e obras construídas. Os textos, desenhos e fotografias possuem um papel fundamental na compreensão arquitetônica e são de suma importância para a criação de um repertório dos projetistas, desenvolvimento de projetos educacionais e/ou registro de edifícios históricos, além de fazer com que a arquitetura circule ao redor do mundo.
Segundo Smith (1996, apud GRIZ, CARVALHO e PEIXOTO, 2007) os primeiros registros encontrados de egipcios e assírios, por exemplo, representavam sempre um ângulo único da figura, enquanto que os primeiros desenhos que apresentam sombras foram registrados pelos gregos. Já a forma de representação em perspectiva à mão como é conhecida atualmente tem o seu primeiro registro com Filippo Bruneleschi no século XV, desenhos estes que ajudavam na percepção de proporções da edificação (GRIZ, CARVALHO e PEIXOTO, 2007), ainda no século XV, com o surgimento da imprensa, textos e, posteriormente os desenhos, foram amplamente difundidos.
Desde a época da popularização da imprensa até a disseminação da cultura digital, os impressos eram os principais vetores de comunicação, porém com a cultura digital os dados e informações começaram a ser transmitidos de uma nova forma, apresentando assim, novas maneiras de visualizar o mesmo edifício, antes impresso de forma permanente em papel (CARPO, 2001).
A partir da metade do século XX, com o surgimento dos computadores, começaram o desenvolvimento dos primeiros protótipos para auxiliar tanto o desenho quanto o desenvolvimento de projetos. Na década de 60 surgiram os primeiros softwares e com eles as ferramentas CAD - Computer Aided Design1 - e um protótipo
de touchpad. Através dos desenhos em CAD foi possível acelerar o processo de projeto, permitindo modificações de forma mais rápida e eficaz. Já na década de 70
1 CADAZZ. CAD software - history of CAD CAM. Disponível em: <
começou-se a desenvolver os primeiros desenhos 3D com auxílio de computador. As décadas de 80 e 90 foram marcadas respectivamente pela popularização do computadores pessoais e posteriormente da internet. Já o início do século XXI foi marcado pela popularização de recursos como a Realidade Virtual e a Realidade Aumentada, que, apesar do princípio de desenvolvimento datar da década de 50, foram – e ainda são - amplamente difundidos e tem ganhado destaque com a quantidade de novos recursos e possibilidades de desenvolvimento, permitindo novas formas de interação entre o modelo virtual e o usuário.
Ao contrário do que se possa sugerir, a escrita de um profissional que se apresenta ao mundo por meio de imagens, croquis, volumes, linhas e cortes não é algo menor, secundário, que só se realiza quando a tarefa central, a espinha dorsal do ofício - o projeto - é interditada.
A força do texto, - e isso inclui suas fotografias e desenhos - tem um motivo óbvio: a natureza do objeto arquitetônico é a imobilidade. Assim, a arquitetura no papel, por escrito, dos atuais
coffe-table books aos panfletos e tratados, tudo isso
desempenha esse papel crucial: formar um museu imaginário da arquitetura e fazê-lo circular mundo afora.
(RUBINO; GRINOVER, 2009, p.21 e 22) A comunicação do arquiteto ocorre principalmente por meio de imagens, croquis, volumes, linhas e cortes e nem por isso é algo menor, mas sim caminha junto aos textos. Os arquitetos modernos, por exemplo, utilizaram muito o poder da comunicação com a finalidade de criar um vocabulário novo e mudar o modo de falar sobre a arquitetura (RUBINO; GRINOVER, 2009).
Ainda no modernismo os arquitetos começaram a representar diferentes desenhos partindo de conceitos abstratos e amparados pela geometria e desenho clássico, inaugurando assim o que hoje é chamado de representações através de diagramas (FANTINATO, 2018).
Tais questões vão de encontro ao que afirma Fontenelle (2018), que defende a exploração gráfica da representação arquitetônica em sua totalidade, buscando representar toda a complexidade do edifício e, desenvolvendo e avaliando, as diferentes formas de representação de ideias e conceitos em diferentes escalas. Segundo o autor, o avanço tecnológico e o desenvolvimento de novas técnicas
construtivas implicaram diretamente na produção arquitetônica e na forma de representação de uma época.
Segundo Silva e Vizioli (2013 apud VELOSO, 2011), a criatividade e a capacidade de produção estão diretamente ligadas à percepção e pensamento do homem e as ferramentas disponíveis. Assim como as formas de desenhar e pensar estão diretamente ligadas a um estilo e à uma época (HEWITT, 1984).
2. JUSTIFICATIVA
É necessário o homem se habituar a compreender o espaço e isso só se tornará possível através da difusão de formas coerentes de estudos do edifício e a melhor forma de se compreender é através do percurso in loco (ZEVI, 2009), porém, nem todos os estudantes ou amantes da arquitetura terão a oportunidade de visitar um determinado edifício, sem contar nas obras não mais existentes, portanto, se faz necessário pensar em alternativas que viabilizem a compreensão do edifício arquitetônico.
Existem diversas possibilidades que viabilizam a compreensão do edifício e, com o auxílio da tecnologia, elas se tornam mais próximas e acessíveis. Zevi (2009), defende em sua obra que a forma mais próxima do percurso in loco é o cinema, que, através de uma câmera, tem a capacidade de apresentar o deslocamento sucessivo dos campos visuais. Vale ressaltar que a publicação de Zevi é anterior à computação gráfica como é conhecida e difundida hoje. Os arquitetos sempre fizeram uso dos recursos de desenho com a mesma finalidade deste tipo de representação, principalmente após o Renascimento, quando começaram a utilizar a perspectiva como uma das principais formas de representação do edifício como um todo.
A cinematografia está entrando na didática, e é preciso ter em mente que, quando a história da arquitetura for ensinada mais com o cinema do que com os livros, a tarefa da educação espacial das massas será amplamente facilitada (ZEVI, 2009, p.51).
Os construtores, com o passar dos anos, possuem o desafio de criar obras cada vez maiores, sempre superando as anteriores e por isso é de suma importância
criar um repertório construtivo que apresente soluções já realizadas com a finalidade de embasar soluções que ainda serão criadas. Nesse aspecto do repertório é possível ir além e citar o fato de que a tecnologia é um grande aliado, tornando mais rápida a criação de diversas opções ou até mesmo a simulação e análise de soluções. Só é possível inovar conhecendo bem as soluções que já foram aplicadas e como se cada uma delas se comportou em determinada situação. O objetivo deste repertório é proporcionar confiança ao construtor e projetista, permitindo assim a inovação (ADDIS, 2009).
Outra forma de compreensão do projeto que vem sendo empregada desde meados do século XX é a análise projetual, dentre as muitas formas de análise, será destacado nesse trabalho a análise gráfica (BELTRAMIN, 2015).
Ao longo deste trabalho serão apresentadas tecnologias que podem contribuir para os estudos do edifício histórico, dentre elas a RV e a RA, sendo o foco da análise a RA. Serão apresentados também os principais conceitos que podem contribuir para uma análise sistemática da edificação, buscando auxiliar não só na documentação, mas também na compreensão do edifício e até mesmo no ensino de arquitetura. O trabalho será realizado através do estudo de alguns dos principais autores de livros que apresentam uma série de princípios de análise gráfica de edificações distintas e são eles: Clark e Pause, Simon Unwin, Francis Ching, Geoffrey H. Baker, Radford, Morkoç e Srivastava e da comparação de três edifícios históricos e seus principais conceitos arquitetônicos.
3. OBJETIVO
3.1 Objetivo geral
O presente trabalho teve como objetivo analisar e discutir a forma de representação da descrição textual referentes a algumas edificações históricas, compreender a necessidade de expressar graficamente as características e os conceitos apresentados ao longo do texto e assim, como forma de complementar a descrição textual. A RA foi a tecnologia escolhida para representar a síntese de princípios de análise da arquitetura, expressando de forma sintética o raciocínio arquitetônico projetual com a finalidade de facilitar a compreensão e divulgação dos
resultados da pesquisa exploratória com análise bibliográfica e explicativa com estudos aplicados (GIL, c2017).
3.2 Objetivos específicos
Para chegar ao objetivo principal será necessário pontuar e discutir algumas questões complementares e são elas:
- Discutir as formas de representação do texto descritivo arquitetônico, mapear e avaliar se apenas com o que é apresentado no texto é possível compreender a edificação e seus conceitos, além de avaliar se os desenhos que acompanham o texto são suficientes para tal compreensão, identificando na descrição arquitetônica quais variáveis são majoritariamente representadas através de desenho arquitetônico, quais desenhos são necessários, quais conceitos são melhor representados através de fotos e quais não são representadas no estudo proposto;
- Revisar o conceito de análise gráfica com base nos principais autores da área, categorizar, exemplificar e comparar os conceitos apresentados e identificar os níveis de abstração;
- Elaborar estudos para teste e viabilização de uma nova forma de representação do edifício e seus principais conceitos com o auxílio de RA.
4. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
4.1 Difusão e reprodução arquitetônica
Para Zevi (2009), é necessário discutir e repensar a forma na qual a arquitetura é difundida, bem como os estudos referentes a ela. A forma de difusão comumente utilizada pelos arquitetos é a representação gráfica através do desenho de plantas, cortes, elevações ou até mesmo fotografias. Tais formas de expressão apresentam as seguintes características:
- Planta: forma de representação abstrata passível de receber diversas camadas de informações, podendo representar tanto o interior, quanto o exterior, porém não consegue representar a dimensão volumétrica dos espaços.
- Fachada: é uma vista ortográfica seccional de duas ou até três dimensões que podem ser representadas através da hierarquia de linhas, permite também a representação dos materiais empregados e, quando empregada a sombra, pode trazer informações em uma terceira dimensão, porém também não permite a compreensão de uma obra como um todo.
- Corte: é uma vista ortográfica seccional na qual se representam as divisões internas do espaço arquitetônico a partir de um ou mais planos de secção. Permite a compreensão dos espaços, hierarquias e seus usos. Permite uma compreensão volumétrica, mas ainda não da totalidade do edifício.
- Fotografia: consegue representar três dimensões e dar uma noção de escala, porém não representa a essência espacial ou conceitos empregados e por sempre ser tirada a partir de um único ângulo, não consegue apresentar o conjunto completo da edificação.
Dentro das formas de representação anteriormente apresentadas é possível realizar o que se chama de análise gráfica, que consiste em reunir diversos documentos de uma edificação (podendo ser plantas, cortes, elevações e fotografias) além de croquis iniciais, esboços conceituais etc e identificar e elaborar formas de representar determinados conceitos que auxiliaram nas tomadas de decisões projetuais.
4.2 Análise gráfica
A análise gráfica consiste no estudo analítico de princípios formais e funcionais através de desenhos, sejam eles de esboços ou técnicos, que representam uma determinada obra arquitetônica. Essa análise tem como objetivo traduzir a essência da lógica projetual, bem como peculiaridades de determinados conceitos arquitetônicos. Segundo Ching (2007), a representação gráfica da arquitetura é a tradução da integração harmoniosa de partes integrantes de um todo complexo e unificado.
Ela é obtida a partir da avaliação da geometria e seus princípios, por sua vez obtida através da simplificação e sistematização dos contornos ou dos volumes da edificação e resulta em diagramas que traduzem a organização arquitetônica e aspectos subjacentes a essa organização, buscando compreender o mote e o desenrolar do processo projetual.
Segundo Unwin (2013), é de suma importância a criação de um repertório arquitetônico através da compreensão de conceitos, elementos de composição, dentre outros, pois a riqueza da arquitetura está justamente em visualizar e entender os detalhes. Por isso foram escolhidos cinco das principais publicações em análise gráfica que foram utilizadas como referência de análise das edificações escolhidas. Um breve resumo de cada análise e forma de apresentação pode ser visto a seguir:
4.2.1 Design Strategies in Architecture – an approach to the analysis of form – Geoffrey Baker
Baker (c1996) considera a arquitetura uma forma de expressão cultural e o arquiteto um dos principais responsáveis por materializar esta cultura. Levando em consideração tal papel, Baker propõe alguns temas nos quais considera o papel da arquitetura como materializador de conceitos. Tais conceitos e seus respectivos exemplos podem ser vistos no Quadro 1.
Quadro 1: conceitos abordados por Baker
TEMA CONCEITO EXEMPLO
Forças do lugar
Considera questões de topografia e paisagismo, transferindo um caráter próprio a cada lugar.
Genius Loci
Considera questões culturais e ambientais, propiciando a sensação de pertencimento ao usuário do espaço.
Natureza
Defende a natureza como fonte de energia para apreciar a arte e identificar
sua origem.
Arte
Considera a arte como mediadora entre homem e natureza, sendo assim a
base para a evolução e desenvolvimento.
Arte como símbolo
Considera a arte como forma de manifestação dos sentimentos
Poesia Considera uma forma de apropriação poética da terra.
Significado de uso
Considera a arquitetura uma forma de resposta às necessidades do homem.
Arquitetura primitiva
Considera a forma básica da necessidade e conhecimento técnico
de morar.
Arquitetura vernacular
Compreende a arquitetura que se desenvolve de acordo com as condições do lugar como economia e cultura.
Arquitetura monumental
Compreende a arquitetura que visa deslumbrar e tem um alto teor simbólico.
Arte superior Considera edificações que transmitem teoria através de sua forma própria.
Cultura
Considera a educação e informação de um determinado grupo e em como tais conceitos se manifestam na arquitetura.
Status
Considera a arquitetura como uma forma de identificar e estratificar a população.
Programa e lugar
Considera a arquitetura como resultado de forças tanto internas quanto
Orientação e identidade
Considera a mobilidade como potencial força e consequente definição dos
espaços.
Movimento
Conceito essencial para a criação de percursos através da arquitetura, compreendendo pontes, rampas, escadas, elevadores etc.
Vistas
É a força resultante do movimento através da arquitetura e que propicia uma visualização de um determinado
elemento ou paisagem.
Estrutura
Considera a estrutura para além da finalidade estrutural, como meio de expressão de uma cultura ou estilo.
Geometria
Considera composições matemáticas entre os elementos que compõem a
arquitetura.
Fonte: da autora (2019) com base em Baker (c1996)
Além de apresentar alguns conceitos arquitetônicos, Baker (c1996) apresenta também alguns aspectos formais da arquitetura, como pode ser visto no Quadro 2.
Quadro 2: aspectos formais abordados por Baker
TEMA CONCEITO EXEMPLO
Tensão e harmonia
Considera a energia que o arquiteto quer passar a quem vivencia o espaço. Isso
pode ser obtido através de ritmo, unidade ou simetria.
]
Permanência e harmonia
Considera os aspectos simbólicos da arquitetura e utiliza recursos como
Harmonia através da geometria
Considera a organização geométrica dos volumes e espaços criados através de
linhas, superfícies, ritmo e harmonia.
Design geométrico
Considera a geometria como norteadora dos espaços criados. Essencial no
resultado.
Estática centroide
Considera a simetria radial como norteadora dos espaços. É uma organização que transmite serenidade e
equilíbrio, muito utilizada na arquitetura islâmica.
Dinâmica linear
Considera o eixo como norteados da organização espacial. Cria a sensação de tensão e energia, muito presente na
Dinamismo
Considera as formas e ordenações compositivas entre diferentes geometrias
e como contribuem para o volume final.
Forças
Considera espécie de eixos invisíveis ao longo dos quais os principais elementos
se organizam. São os elementos de tensão que contrapõe aos elementos de
harmonia.
Organização Considera a divisão dos espaços, as entradas e a circulação entre eles.
Complexidade e
contradição Considera formas e ornamentos.
Dinâmica e energia da forma
Considera formas futuristas, construtivistas ou expressionistas e em como isso resulta na criação de espaços
e bordas.
Fonte: da autora (2019) com base em Baker (c1996)
Diante de um repertório de conceitos culturais e representativos da arquitetura e de aspectos formais, Baker (c1996) propõe uma metodologia para realização de análise gráfica arquitetônica com o objetivo de reconhecer fatores decisivos na etapa projetual dos edifícios. O autor ainda ressalta que é importante considerar fatores culturais, tecnológicos e econômicos do contexto da obra. Ele ainda defende o diagrama como uma potente ferramenta de análise, podendo ser o principal ato do projeto.
Diagrams: are selective, are about clarity and communication, reveal the essence, are often simple, separate out issues so as to comprehend the complex, make geometric articulation explicit, can quantify the energy in both site and concept, allow a degree of artistic licence, can have a vitality of their own, can explain form and space better than words or photographs. (BAKER c1996. p. 66)
A metodologia de análise de Baker (c1996) pode ser dividida em duas partes: a primeira diz respeito a aspectos urbanos, que corresponde a uma leitura do contexto da paisagem no qual a obra está inserida (e que posteriormente serão chamadas de
Genius Loci e forças do lugar), e a segunda parte que corresponde a aspectos
organizacionais da edificação. Tais temas estão presentes no Quadro 3.
Quadro 3: metodologia de análise gráfica arquitetônica proposta por Baker
FOCO TEMA CONCEITO EXEMPLO
Urbano Topografia
Considera diferenças entre níveis e aspectos naturais
como vales e rios.
Urbano Rotas
Considera os caminhos existentes para chegar ao
edifício.
Urbano Eixos de
circulação
Considera as entradas e fluxos e intensidades para
Edificação Lajes transformadas
Considera os planos criados pelos projetistas, espaços vazios para entrada de luz e
circulação entre eles, por exemplo.
Edificação
Forma genérica e específica
Considera a forma inicial para o projeto e os desdobramentos que fazem
dessa forma única ou específica para um
determinado uso.
Edificação Malha ou grid
Considera uma malha de horizontais e verticais (podendo ser anguladas) que
norteiam a disciplina e organização dos espaços.
Edificação Massas e superfícies
Considera as formas básicas geométricas que compõem a
edificação e como elas articulam entre si.
Edificação
Forma centróide ou
linear
Considera uma direção única que canaliza a energia da edificação. A centróide dá a sensação de estabilidade, enquanto a linear dá sensação de atividade. Edificação Dinâmica da forma Considera o raciocínio compositivo das formas, permeando desde o conceito
de ponto até a formação de figuras geométricas
completas.
Edificação Organização em core
Considera a organização de todo um sistema ao redor de
uma única estrutura.
Edificação Sistema linear
Considera a organização ao longo de um eixo, trazendo
ritmo à composição.
Edificação Sistema axial
Remete à arquitetura antiga na qual há uma simetria bilateral e uma hierarquia de
Edificação
Sistema radial ou escalonado
Derivado da organização centróide, cria elementos que
se organizam de forma sequencial e escalonada ao
redor de um ponto.
Edificação Sistemas interligados
Considera a relação entre dois ou mais volumes.
Edificação Distorções formais
Considera a distorção de formas genéricas.
Fonte: da autora (2019) e Baker (c1996)
Os modelos de análise de Baker (c1996) levam em consideração temas mais abrangentes como a forma, a cultura e o contexto no qual a edificação está inserida. O desenvolvimento desta metodologia de análise e deu origem a uma segunda obra, que coloca em prática alguns dos princípios de análises desenvolvidos na obra Design
Strategies in Architecture em algumas obras do arquiteto franco-suíço Le Corbusier.
Em sua obra Le Corbusier – uma análise da forma (1998) Baker apresenta diversas obras segundo seus princípios interpretativos. Tais análises ocorrem tanto em
esquemas da planta quanto em perspectivas do edifícios, como pode ser observado nas Figura 1 e Figura 2.
Figura 1: Baker - análises da Villa Savoye em planta
Fonte: Baker (1998)
Figura 2: Baker - análises da Villa Savoye também em perspectiva
Fonte: Baker (1998)
Beltramin (2015) identifica três fatores básicos na análise de Baker: condições do lugar, requisitos funcionais e cultura, além de apresentar três frentes de
interpretação: a primeira técnica e artística, a segunda diz respeito à forma e a última sendo a análise arquitetônica.
4.2.2 A análise da arquitetura – de Simon Unwin
As análises propostas por Unwin (2013) abordam conceitos da concepção do edifício e interferências do lugar no qual a edificação está inserida. Segundo Unwin (2013), as condições que determinam o desenvolvimento da arquitetura podem ser chamadas de principais condicionantes da arquitetura e podem ser vistos no Quadro 4.
Quadro 4: condicionantes da arquitetura segundo Unwin
TEMA CONCEITO
Terreno Área com a qual o edifício se relaciona. Espaço acima Responsável por emoldurar o edifício.
Gravidade Responsável por manter a arquitetura conectada ao terreno.
Luz Meio de visualização da arquitetura. Tempo Meio de experimentação da arquitetura.
Fonte: da autora (2019)
Cada obra arquitetônica possui componentes primários básicos condicionantes e a forma de apresentação dos elementos ocorre tanto de forma textual quanto por esquemas genéricos podem ser verificados no Quadro 5.
Quadro 5: componentes primários da arquitetura segundo Unwin
TEMA CONCEITO REPRESENTAÇÃO
Área de terreno definida Espaço de terra destinado ao projeto, independentemente do tamanho.
Área elevada ou plataforma Área elevada em relação à linha natural do terreno.
Área rebaixada ou vala Área rebaixada em relação à linha natural do terreno.
Marco Elemento de destaque e identificação de um lugar.
Foco Elemento que concentra a atenção dos usuários.
Barreira Elemento de separação entre ambientes, seja físico ou não.
Cobertura Abrigo de intempéries, divide a arquitetura do céu e necessita de apoio.
Pilares de apoio ou colunas Elementos verticais responsáveis por suportar a cobertura.
Percursos Elementos pelos quais os usuários se deslocam.
Pontes Elementos que se sobrepõe a outros e os supera.
Aberturas - Portas
Elementos que auxiliam na transposição entre um ambiente e outro, ou entre
interno e externo.
Aberturas - Janelas
Elementos que permitem a passagem de luz e ar, bem como a conexão visual
Aberturas - paredes de vidro
Elementos que permitem transpor barreiras, incidência de luz e passagem de ar, além de permitir a conexão visual.
Tirante ou cabo suspenso Elemento capaz de suportar uma cobertura ou plataforma.
Fonte: da autora com base em Unwin (2013)
Além dos elementos básicos, Unwin (2013) pontua alguns elementos que criam formas rudimentares quando combinados, que constituem em maneiras distintas de organizar os elementos arquitetônicos entre si, criando uma noção primária de espaços e de como as formas articulam entre si para criação de tais espaços. Os elementos propostos pelo autor podem ser vistos no Quadro 6.
Quadro 6: composições arquitetônicas básicas segundo Unwin
TEMA CONCEITO
Fechamento Barreiras que se encontram e criam um espaço enclausurado. Cela Elemento em separado dos demais, criando um isolamento. Edícula De arquitetura simples, junção de colunas que recebem uma cobertura. Escada Série de plataformas organizadas de maneira a transpor alguma barreira. Estante Distribuição vertical de plataformas de modo a organizar o espaço.
Fonte: da autora (2019)
Unwin ainda afirma que todos os elementos básicos podem sofrer modificações de determinadas condicionantes que podem ser vistas no Quadro 7.
Quadro 7: elementos modificadores da arquitetura segundo Unwin
TEMA CONCEITO
Luz Pode ser natural ou artificial e permite a melhor percepção do espaço, também está
relacionada a questões de conforto do usuário.
Cor Encontrada em parceria com o elemento “luz”, permite destaque e identificação de lugares Temperatura Pode ou não estar associada ao elemento “luz”, a humanidade emprega a arquitetura como
um recurso para se proteger tanto do calor quanto do frio. Ventilação Junto da temperatura e umidade identificam o clima de um lugar.
Som Elemento que pode ser potencializado ou minimizado através da arquitetura, permite também a identificação de uma determinada atividade que ocorra no ambiente.
Odor Elemento resultante de ocupação ou atividade específica realizada em um determinado ambiente.
Textura e tato Propriedades sensitivas que auxiliam na identificação do lugar.
Escala Se refere ao tamanho de algo relativo ao usuário, seu emprego de forma equivocada pode prejudicar o uso do espaço.
Tempo Os efeitos do tempo sobre a arquitetura podem ser naturais ou provocados, pode ser o tempo do passar dos anos ou o tempo de percurso do usuário no espaço arquitetônico.
Fonte: da autora (2019)
Para Simon Unwin (2013) a complexidade arquitetônica é resultado da interação dos elementos básicos com os elementos modificadores, sendo os mais comuns apresentados como resultado da interação entre os elementos básicos formadores da arquitetura e seus modificadores, conforme pode ser observado no
Quadro 8.
Quadro 8: interação entre elementos básicos e modificadores segundo Unwin
TEMA CONCEITO
Elementos que desempenham a mesma função
Muitas vezes condicionada ao uso do lugar. Uma determinada cobertura pode também ser um espaço de circulação.
Aproveitamento de espaços preexistentes
Trata de estabelecer relações com elementos já existentes e que possam potencializar o uso do espaço.
Tipos de lugares primitivos Elementos de baixa complexidade e que são voltados ao uso. Exemplo: lareira, cama, altar etc.
Arquitetura como arte de emoldurar, estruturas e
demarcar
Definição de limites e espaços.
Templos e cabanas Metáfora para usos e crenças humanas. Geometrias reais Lugares e elementos que existem.
Geometria ideal Envolve aspectos abstratos dos elementos reais.
4.2.3 Arquitetura – forma, espaço e ordem – de Francis Ching
Ching (2007) faz suas análises arquitetônicas buscando uma compreensão sob uma ótica sistêmico-estrutural. O autor também considera importante a análise arquitetônica com a finalidade de enriquecer o repertório de projeto. Sendo a arquitetura como meio de solução de problemas.
Ele inicia a sua análise ressaltando algumas características do desenho de projeto desde conceitos como ponto, reta e plano até suas consequências no desenvolvimento do desenho arquitetônico como simetria, hierarquia, pauta, repetição e transformação.
Para Ching (2007) o projeto pode ser organizado por eixos principais (linhas) e a partir de cada um deles surgem formas e espaços, resultando em uma simetria. Esses, por sua vez, estabelecem uma hierarquia entre si. Elementos mais característicos podem ser recorrentes e estabelecer um ritmo dentro do projeto.
Quando são visíveis aos olhos no papel ou no espaço tridimensional, esses elementos se tornam forma com características de matéria, formato, tamanho cor e textura. À medida que experimentamos essas formas em nosso ambiente, devemos ser capazes de perceber em sua estrutura a existência dos elementos primários do ponto, da reta, do plano e do volume. (CHING, 2016. p.2)
Sua análise começa apresentando os elementos primários que são conceituais (Figura 3), mas ao longo do texto e dos desenhos tornam-se elementos do projeto arquitetônico. Nesse aspecto se enquadram ponto, reta, plano e volume.
Figura 3: elementos básicos da análise de Ching
Fonte: Ching (2007)
Já a forma e suas características como tamanho, cor, textura, posição e orientação são analisadas como pré-projeto. É da análise da forma que saem as primeiras volumetrias obtidas através de operações como adição, subtração, sobreposição e articulação, Figura 4. Posterior à análise de volume é apresentada a organização espacial obtida pelo estabelecimento dos eixos de circulação, tanto vertical quanto horizontal e os acessos. Ao final são analisadas e classificadas 7 naturezas conforme Quadro 9.
Figura 4: elementos modificadores da arquitetura
Fonte: Ching (2007)
Quadro 9: elementos de análise de Ching
TEMA CONCEITO DIAGRAMA
Eixo Reta que divide formas ou espaços de forma simétrica ou equilibrada.
Simetria Distribuição de formas ou espaços equivalente em relação a um eixo.
Hierarquia Destaque de um elemento em relação aos demais.
Ritmo Movimento que segue um determinado padrão.
Referência Elemento que reúne e organiza espaços.
Transformação Alterações de elementos diante de contextos sem a perda da identidade.
Fonte: da autora com base em Ching (2007)
Quanto à organização espacial e tomadas de decisões na etapa projetual, Ching (2007) apresenta 7 naturezas ou questões que devem ser consideradas durante o processo de projeto. Quais questões podem ser observadas no Quadro 10.
Quadro 10: 7 naturezas de um edifício arquitetônico segundo Ching
TEMA CONCEITO
Espaço Relações, hierarquia.
Estrutura Forma, cor, textura e proporção.
Delimitação Superfícies, arestas e aberturas.
Movimento Acessos, caminhos.
Tecnologia Soluções de conforto.
Programa de necessidades Resposta às necessidades do usuário.
Contexto Entorno, implantação.
Fonte: da autora (2019)
E a formação e análise gráfica dos espaços pode ser realizada partindo da análise desde os conceitos de ponto, reta e plano, também propostos por Baker (c1996) até princípios de organização formal. Os 7 eixos temáticos podem ser observados no Quadro 11.
Quadro 11: eixos temáticos segundo Ching
TEMA CONCEITO
Elementos primários Ponto, reta, plano e volume.
Forma Composição, coerência, cor, textura, orientação, posição.
A forma e o espaço Volume, escala, limites.
Organização Relação entre espaços.
Circulação Movimento através do espaço.
Proporção e escala Harmonia, tamanho, quantidade, grau.
Princípios ordenadores Composição - eixos, simetria, hierarquia, ritmo, referência e transformação. Fonte: da autora (2019)
O objetivo do trabalho de Ching é apresentar como a arquitetura sempre pode ser analisada de forma conotativa, através de seus planos, volumes, seu espaço físico. Mas lembra que há vários aspectos denotativos que podem trazer mais significado à obra (aspectos como os apresentados por Unwin, 2013).
4.2.4 Precedentes em arquitetura – de Roger Clark e Michael Pause
Os autores Roger Clark e Michael Pause, em seu livro Precedents in
Architecture: analytic diagrams, formative ideas, and partis (1996) desenvolvem a
análise de projetos arquitetônicos de diferentes naturezas através de diagramas 2D bem claros e objetivos, que apresentam, principalmente, a relação entre os elementos arquitetônicos. Para compreensão de tais diagramas há uma legenda criada pelos autores e que pode ser observada na Figura 5.
Figura 5: elementos de análise de diagramas de Clark e Pause
Fonte: Clark e Pause (1996)
Como exemplo, uma dessas análises pode ser observada nas Figura 6. Foi escolhida mausoléu dos Médici na Igreja de San Lorenzo do arquiteto Brunelleschi em Florença, na Itália, por justamente apresentar a cúpula como elemento arquitetônico, mesmo elemento em comum aos estudos exploratórios selecionados para o presente trabalho.
Figura 6: análise gráfica da antiga sacristia em Florença – p.44
Fonte: Clark e Pause (1996)
Na primeira folha de análise os autores apresentam algumas breves informações do edifício, como nome do arquiteto, nome da edificação, localização e ano da construção, na sequência há um mapa com a inserção urbana, dois cortes, elevação principal e planta. Na segunda página eles elaboram a análise gráfica que são análises sintéticas que utilizam principalmente formas simplificadas cujos temas e suas respectivas representações podem ser observadas no Quadro 12.
Quadro 12: temas e diagramas de Clark e Pause
TEMA CONCEITO DIAGRAMA
Estrutura Pilares, vigas e paredes e seus padrões, regularidade e complexidade.
Luz natural Filtragem, bloqueio e reflexão.
Concentração Volumetria.
Da planta ao corte
Planta como gerador da forma, cortes e elevações como geradores de percepção do
espaço.
Da circulação à área útil
Elementos estáticos e dinâmica de uso/circulação.
Da unidade ao
Do repetitivo ao único
Elementos múltiplos ou únicos que compõem o espaço.
Geometria
Forma em planta e dos sólidos que compõem a volumetria – tamanho, proporção, forma e
localização.
Simetria e
equilíbrio Balanço e equilíbrio conceitual.
Aditivo e
subtrativo Cor, volume e materiais.
Partí Formas básicas tomadas como partido em planta.
Fonte: da autora (2019) e imagens Clark e Pause (1996)
4.2.5 Os elementos da arquitetura moderna – de Radford, Morkoç e Srivastava
Os autores da obra The Elements of Modern Architecture – Understanding
Contemporary Buildings (Os elementos da arquitetura moderna em tradução livre)
propõe um guia visual de análise de 50 edifícios construídos entre 1950 e 2010. As análises levam em consideração fatores físicos, sociais, culturais e do contexto no qual a obra se insere e com o objetivo de complementar materiais que vão desde descrições até desenhos, fotografias, guias virtuais em RV e visitas in loco.
A maior crítica apresentada pelos autores diz respeito ao fato de que as obras arquitetônicas mais famosas são repetidamente registradas, fotografadas e desenhadas sempre da mesma forma, dificilmente há um diagrama que explicita um conceito ou que faça uma análise do contexto urbano da edificação, por exemplo. A representação da arquitetura costuma abordar campos distintos de representação e que cria um distanciamento entre o contexto real e a produção de imagens. Nesse aspecto, os autores vão de encontro ao que afirma Zevi (2009), dizendo que nada substitui a experiência sensorial de visitar o local.
Segundo Radford, Morkoç, Srivastava (2014, apud BRUTON e RADFORD, 2012), é preciso entender, discutir e refletir o passado para compreender e construir o futuro e as novas tecnologias tem apresentado e desenvolvido uma nova forma de explorar os trabalhos anteriores.
Desenhos são mais precisos e concisos que textos quando se trata de arquitetura. Croquis e diagramas são utilizados como principal forma de registro para trabalhos futuros em arquitetura e são muito utilizados para registrar o processo de projeto. Rever esses registros de obras já construídas pode auxiliar a compreender conceitos ou situações pensadas pelo arquiteto no momento do projetar, mas que não
fica tão evidente na obra já edificada ou em seus desenhos técnicos. Um edifício bem projetado trará soluções e benefícios tanto para o espaço interno criado, quanto para o contexto imediato no qual está inserido.
As análises sobre o edifício podem ser divididas em três grandes grupos temáticos e são eles:
- Lugar: se preocupa com a localização física do edifício, como as soluções projetuais respondem a questões do meio ambiente como insolação, ventilação, ruídos, flora, fauna e qual é a relação estabelecida com o entorno próximo;
- Pessoas: se preocupa com questões que envolvem a interação entre as pessoas e o edifício podendo destacar as entradas, as formas de acesso, a forma e função do edifício, o perfil do usuário, questões ergonômicas e de mobiliário, questões de conforto, vistas criadas a partir de determinadas áreas, além de poder envolver questões culturais como religião e simbolismo.
- Tecnologia: envolve questões de tectônica da arquitetura como as soluções estruturais, os materiais escolhidos, os detalhes e a setorização do edifício a partir desses materiais e métodos construtivos.
Os autores analisam 50 obras modernas e que não possuem um padrão fixo de análise, seguem apenas os três grupos temáticos e expressam de maneiras distintas determinadas características da edificação, podendo ser um mapa de localização, grids de organização, croquis compositivos, análises geométricas, diagramas de iluminação, setorização, circulação, perspectivas internas ou externas a depender de cada caso. Os diagramas são desenhados em preto com destaque em vermelho para o conceito principal que aborda. Todos as obras apresentadas são antecedidas por um texto explicativo sobre a obra e um mapa com a localização no mundo e no país. Exemplos das análises realizadas podem ser vistas no Quadro 13.
Quadro 13: temas e diagramas de Radfor, Morkoç e Srivastava
TEMA CONCEITO DIAGRAMA
Contexto urbano
Considera o entorno próximo construído e a apresentação é feita em planta ou elevação com entorno.
Programa arquitetônico
Apresenta a solução proposta para o programa de necessidades dos usuários e como os espaços se organizam para responder ao
programa solicitado.
Forma e materialidade
Destaca elementos formais que podem ser técnicas construtivas que resultam em uma determinada forma
icônica;
Análise climática Realiza análise de insolação e ventilação.
Representatividade cultural
Considera a cultua local e alguns símbolos que a caracterizam.
Experiência do usuário
Apresenta algumas perspectivas que o usuário teria ao conhecer o espaço
analisado.
Composição formal
Apresenta a solução compositiva com linhas e formas básicas diante da
topografia, bem como apresenta escala humana para dimensionar.
Circulação Apresenta trajetos possíveis dos usuários no espaço analisado.
Materialidade - texturas
Apresenta diferentes materiais do edifício através de texturas.
Iluminação Apresenta uma análise de iluminação complementando a análise climática.
Cobertura
Apresenta a solução formal encontrada para a cobertura ou a
“casca” da edificação.
Eixos
Apresenta a forma de eixo escolhida e como os elementos se organizam
ao longo ou ao redor dele.
Sistema de grid
Apresenta um sistema de grid inicial que serviu como base organizacional
do espaço e localização de elementos arquitetônicos.
Acessos Destaca os acessos dos usuários do espaço.
Hierarquia de espaços
Representa quais espaços são centrais e quais são secundários
quanto ao uso e solução arquitetônica.
Vistas Representa as vistas pensadas para os usuários de dentro da edificação.
Operações volumétricas
Decompõem o conjunto da edificação em formas geométricas tridimensionais simples e mostra como eles se organizam entre si.
Método construtivo Apresenta as soluções construtivas e estruturais do edifício.
Elementos de destaque (vertical)
Apresenta elementos de destaque na forma vertical.
Fonte: da autora (2019) com base em Radford, Morkoç, Srivastava, 2014
Analisar é uma forma de projetar e projetar é um processo investigativo de testes e proposições que devem levar em consideração os três aspectos levantados anteriormente (lugar, pessoas e tecnologia), criando assim um desafio crítico intelectual. O objetivo maior é poder complementar a compreensão de um edifício, principalmente se for possível visualizar a análise enquanto percorre a edificação, permitindo não só compreender melhor o trabalho proposto, como comparar com outras soluções projetuais já pensadas ou projetadas (RADFORD, MORKOÇ, SRIVASTAVA, 2014).
4.3 A cúpula como elemento arquitetônico
Geometricamente a cúpula pode ser resumida como um arco que foi rotacionado ao redor do eixo vertical. Historicamente a cúpula foi muito utilizada a partir do império romano, sendo aplicados em edifícios de caráter institucional como os banhos termais e o Panteão romano.
O Panteão romano não foi a primeira cúpula em concreto do império romano. Já havia registros de cúpulas na região de Pompéia, por exemplo, porém nenhuma tinha a grandiosidade do Panteão. A obra foi concebida em concreto com o objetivo de não ser danificado por incêndios, como aconteceu com a estrutura anterior que era em madeira. Essa edificação possui uma solução estrutural única que consiste em reduzir o peso da estrutura em concreto utilizando agregados distintos e mais leves à medida que ganha altura, a segunda solução consiste em utilizar a modelagem em caixotões que diminuem de tamanho também conforme a altura e, por fim, a alteração de espessura do concreto que diminui em direção ao topo, sendo finalizado por um óculo de cerca de 8,9m de diâmetro. As paredes de sustentação são largas, porém ocas e escondem duas abóbadas de berço (ou de cisalhamento) que auxiliam no descarregamento da estrutura (ADDIS, 2009, p.51-60).
A Basílica de Santa Sofia tal como é conhecida hoje foi projetada entre os anos de 532-533 e construída entre 535 e 537. A solução estrutural empregada foi a colocação de duas semicúpulas laterais que funcionam como contrafortes que sustenta o peso estrutural exercido pela cúpula, além da cúpula ser sustentada por quatro grandes arcos que servem como abóbadas de cisalhamento. A cúpula original foi destruída por terremotos que atingiram a região ao longo do tempo, mas sempre foi reconstruída (ADDIS, 2009, p.66-69).
A Catedral de Santa Maria del Fiore, também conhecida como Catedral de Florença, e projetada por Filippo Brunelleschi no início do Renascimento. A construção foi iniciada em 1425 e terminada após a morte de Brunelleschi em 1536. A cúpula, de base octogonal e casca dupla, vence um vão de 42m entre paralelos e que utiliza duas finas cascas de tijolos com estruturas em viga de alvenaria que chegam a ter 2m de espessura na base (ADDIS, 2009, p.119-125).
Em 1590 Michelangelo projeta a cúpula da Basílica de São Pedro com base em um modelo matemático. A solução foi uma cúpula de casca dupla, assim como a da Catedral de Santa Maria del Fiore, e possui três cintas concêntricas de ferro forjado
na base para evitar que a estrutura abra. Em 1680 foram identificadas várias fissuras na estrutura, que recebeu esforço estrutural através no qual foi triplicado o número de cintas. Foi a partir dessa obra que os modelos matemáticos passaram a fazer parte dos cálculos também na fase de projeto (ADDIS, 2009, p.226-232).
A Catedral de São Paulo, em Londres, projetada e construída por Cristopher Wren entre os anos de 1675 e 1710, possui um vão de 33m e a solução estrutural empregada é a mesma da Catedral de Santa Maria del Fiore e da Basílica de São Pedro: transfere os esforços para anéis de ferro forjado que se encontram na base da cúpula, aonde os estorços são maiores e ela tende a abrir (ADDIS, 2009, p.204-206). A partir de 1840 houve uma popularização do uso de ferro fundido ou forjado na construção civil. No que diz respeito a cúpulas, a primeira cúpula de estrutura em ferro teve foi a do mercado de trigo de Paris (Halle au Blé), que possuía uma cúpula em madeira que foi destruída em um incêndio e, entre 1808 e 1813 François-Joseph Bélanger propõe a construção de uma estrutura em nervuras de ferro fundido e anéis concêntricos de ferro forjado e a vedação em cobre, que posteriormente foi substituída por vidro na década de 1880. A localização da indústria da manufatura de ferro foi determinante para o uso do material, como foi o caso da nova Catedral de Santo Isaque, em São Petersburgo, na Rússia, em 1835 com 24m de diâmetro e, posteriormente, o Capitólio dos Estados Unidos, em Washington, construído entre 1856 e 1863. Na sequência foram desenvolvidas estruturas de sustentação como as treliças espaciais que permitiam vencer grandes vãos (Fachwerk im Raume) e tem como exemplo a cobertura do mercado de Leipzig, projetado por August Föppi. No final da década de 1910 Bauersfeld, Franz Dischinger e Ulrich Finsterwalder construíram as primeiras abóbadas de berço com casca de concreto armado (ADDIS, 2009, p. 295 – 297 e 439).
Mais recentemente, com a popularização e incorporação de técnicas de modelagem digitais e cálculos estruturais, tornou-se possível criar cúpulas com materiais extremamente leves (como membranas e estruturas metálicas, por exemplo) e capazes de vencer enormes vãos. Como exemplos pode-se citar a cúpula de Izumo, no Japão, construída em 1992 e com um diâmetro de 140m, e a cúpula de do Milênio (Millenium Dome), em Londres, com 320m de comprimento (ADDIS, 2009, p.581-582). Uma breve comparação entre as obras com cúpula escolhidas para o presente trabalho pode ser observada no Quadro 14.
Quadro 14: comparação das principais características das cúpulas das obras OBRA ANOS DE CONSTRUÇÃO PERÍODO HIST./ ESTILO ARQUIT. VÃO (m) ALTURA DO CHÃO (m) MATERIAL
PANTEÃO 114-123 Clássico + clássico 43,3 43,3 Casca única em caixotões em concreto/cimento SANTA SOFIA 532-537 Imp. Bizantino + arquitetura islâmica 30 55 Alvenaria em tijolos e estrutura em pedras, asbestos e chumbo BASÍLICA DE SÃO PEDRO 1590 Renascimento + Barroco 42,5 137
Casca dupla em alvenaria de tijolos com reforço em
tirantes e cintas Fonte: da autora (2019)
4.4 O Panteão romano
A edificação original do Panteão romano foi proposta pelo político Marco Vipsiano Agrippa em 27a.C (BRUSCHINI, 2006). Um incêndio destruiu a construção original no ano de 80d.C e a reconstrução foi idealizada durante o império de Domiciano (que durou de 81 a 96) mas só foi construído entre os anos de 114 (governo de Trajano) e 123 (governo de Adriano) por arquiteto desconhecido. O edifício tal como é conhecido atualmente é apenas parte de um complexo maior edificado e posteriormente destruído (JONNES, 2014) e pode ser visto na Figura 7. No ano de 608 o imperador bizantino Flávio Focas Augusto, conhecido como Focas, cedeu o espaço ao Papa Bonifácio IV, que foi responsável por transformar o espaço em uma igreja cristã e batizou o espaço de Santa Maria e os Mártires. Adentrar o Panteão romano é uma maneira de compreender a magnificência da Roma antiga. No Renascimento passou a abrigar a tumba de dos pintores Rafaello e Annibale Carracci, do compositor Arcangelo Corelli e do arquiteto Baldassare Peruzzi (BRUSCHINI, 2006) e na época da monarquia italiana recebeu Vitor Emanuel ll, Humberto I e sua esposa Margarida de Saboia.