PROGRAMA NACIONAL DE
PREVENÇÃO DE ACIDENTES
2009-2016
Direcção-Geral da Saúde
Proposta de Programa
PREVENÇÃO DE ACIDENTES
2009-2016
Direcção de Serviços de Promoção e Protecção da Saúde
Divisão de Saúde no Ciclo de Vida e em Ambientes Específicos
ISBN:
Acidentes/ Promoção da Segurança/ Comportamentos de Risco/ Promoção da Saúde/ Prevenção e Controlo / Serviços de Saúde
Coordenação
Gregória Paixão von Amann, Chefe de Serviço de Saúde Pública
(conforme Despacho do Sr. Director-Geral da Saúde, do dia 13 de Dezembro de 2007)
Direcção-Geral da Saúde/Direcção de Serviços de Promoção e Protecção da Saúde/Divisão de Saúde no Ciclo de Vida e em Ambientes Específicos
Colaboradores
Dr.ª Emilia Nunes, Directora de Serviços da Direcção de Serviços de Promoção e Protecção da Saúde Dr.ª Maria João Quintela, Chefe da Divisão de Saúde no Ciclo de Vida e em Ambientes Específicos Prof. Doutor Carlos Silva Santos, Coordenador do Programa de Promoção da Saúde Ocupacional Dr.ª Judite Catarino, Chefe de Serviço de Saúde Pública, Direcção de Serviços de Informação e Estatística Enf.ª Ana Cristina Bastos, em representação do Alto Comissariado da Saúde
Dr.ª Teresa Contreiras, em representação do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge Dr.ª Helena Clemente, em representação da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária Arquitecto José Manuel Santos, em representação da Autoridade para as Condições de Trabalho Dr.ª Sandra Nascimento em representação da Associação para a Promoção da Segurança Infantil
Editor:
Direcção-Geral da Saúde, Alameda D. Afonso Henriques, 45, 1049-005 Lisboa. http://www.dgs.pt/ Arranjo Gráfico: GvA Impressão: V Tiragem:
1. Introdução
1
1.1. Acidentes: um problema de saúde pública
1
1.2. Acidentes no Mundo
7
1.3. Acidentes na Europa
9
1.4. Acidentes em Portugal
11
1.4.1. Acidentes de viação
13
1.4.2. Acidentes domésticos e de lazer
15
1.4.3. Acidentes de trabalho
17
2. Visão, princípios e eixos estratégicos
21
2.1. Visão
21
2.2. Princípios21
2.3. Eixos estratégicos23
3. Finalidade e objectivos25
3.1. Finalidade25
3.2. Objectivos25
4. Horizonte temporal27
5. População-alvo27
6. Estrutura de coordenação e implementação
28
6.1. Estrutura nacional
28
6.2. Estrutura regional
28
7. Parceiros/Recursos
28
8. Áreas de intervenção estratégica
29
9. Acções para a operacionalização do Programa
31
9.1. Capacitação
31
9.2. Crianças e jovens
36
9.6. Espaços de jogo e recreio e instalações desportivas
54
9.7. Local de trabalho
59
9.8. Casa
62
9.9. Segurança rodoviária
65
9.10. Produtos e serviços
69
9.11. Sistema de informação integrado
72
10. Cronograma de execução das acções
75
11. Monitorização do Programa
77
11.1. Indicadores de avaliação
77
12. Financiamento
81
1.
Introdução
1.1. Acidentes: um problema de saúde pública
Os acidentesi são a quarta causa de morte mais comum na Europa. No entanto,
existem, hoje, estratégias preventivas que já provaram ser eficazes na redução de um problema de saúde pública, em grande parte, evitável.
Nas últimas décadas, a necessidade de prevenir os acidentes e promover a segurança assumiram tal relevância, que a Organização Mundial da Saúde e a Comissão Europeia avocaram a si uma liderança activa na sua defesa. Para isso, tiveram em conta os Relatórios1,2 sobre a magnitude dos acidentes intencionais e não intencionais,
e a evidência científica sobre o potencial de prevenção que as intervenções de saúde pública possibilitam.3
O reconhecimento da importância deste problema está expresso na aprovação de várias Recomendações e Resoluções em diversas Assembleias Mundiais da Saúde, Assembleias-Gerais das Nações Unidas e no Parlamento Europeu, nas quais, se apela aos países, para priorizarem nas suas políticas nacionais, programas efectivos e sustentáveis de prevenção dos acidentes.
No ano de 2005, a OMS, através do Comité Regional para a Europa, aprovou a Resolução EUR/RC55/10, sobre Injuries in the WHO European Region: Burden,
challenges and policy response,4 na qual, chama a atenção para a dimensão dos
acidentes e para os seus custos na Região Europeia.
Este documento, descreve, ainda, os desafios que se colocam ao sector da Saúde e propõe uma abordagem de saúde pública para a promoção da segurança, a redução dos acidentes e das suas consequências.
i«Acidentes» segundo a Classificação Internacional das Doenças – 10.ª Edição (CID-10) estão agrupados no
Capitulo XIX, sob a designação de «Lesões, envenenamentos e algumas outras consequências de causas externas». Segundo as suas causas, subdividem-se em: 1) «Acidentes» (códigos V01-X59 da CID-10 que correspondem aos acidentes de viação, afogamentos, quedas, intoxicação, sufocação, etc. e 2) «lesões autoprovocadas intencionalmente» (códigos X60-X84), «agressões» (códigos X85-Y09) e «eventos cuja intenção é indeterminada e outros» (Y10-Y98). Os primeiros são, vulgarmente, designados por Acidentes não intencionais e os segundos por Acidentes intencionais, denominações que utilizaremos neste documento.
Segundo a OMS, ao sector da Saúde, cabe um papel fundamental na resolução deste problema. Para reforçar essa intervenção, aprovou a Resolução EUR/RC55/R9 sobre
Prevention of Injuries in the European Region5, que destaca a necessidade de uma
actuação na prestação de cuidados e no apoio à vitima, mas também, na priorização da prevenção dos acidentes inserida numa estratégia de saúde pública.
O sector da Saúde, ao priorizar nas suas politicas a prevenção dos acidentes, deverá garantir o envolvimento de parceiros de outros sectores, políticos, económicos e da sociedade em geral, no desenvolvimento de estratégias de prevenção, intervenção e reabilitação.
Para isso, os programas de prevenção de acidentes deverão estar em articulação com outros programas e estratégias nacionais, que concorram para os mesmos objectivos e contribuam para a implementação das Resoluções da Assembleia Mundial. Na Resolução aprovada pelo Comité Regional da OMS é solicitado ao seu director que: (a) Apoie os Estados-Membros nos seus esforços para reforçarem a prevenção dos acidentes e para elaborarem programas de acção nacionais;
(b) Identifique e divulgue boas práticas na prevenção dos acidentes;
c) Apoie os responsáveis nacionais e o desenvolvimento de colaboração com outras redes de peritos e de profissionais;
(d) Apoie a capacitação, ao nível técnico e político, a fim de dar robustez às iniciativas sobre acidentes, incluindo a investigação, a prática baseada na evidência e a avaliação;
e) Preste apoio técnico para a melhoria do tratamento pré-hospitalar e da assistência às vítimas de acidentes;
f) Promova o desenvolvimento de parcerias e a colaboração com a União Europeia e outras organizações internacionais.
No ano de 2007, a reunião do Conselho da União Europeia de 31 de Maio, aprovou uma Recomendação6 (2007/C164/01) sobre prevenção de lesões e a promoção da
segurança, na qual, teve em conta a magnitude do problema que os números dos acidentes revelam:
(a) Todos os anos, cerca de 235.000 cidadãos da Comunidade Europeia morrem em consequência de um acidente ou de violência;
(b) Os acidentes e as lesões são a principal causa de morte entre as crianças, os adolescentes e os jovens adultos;
(c) Muitos sobreviventes de lesões graves ficam a sofrer de incapacidades para o resto da vida. Os acidentes e lesões são uma das principais causas de incapacidade crónica entre os jovens, contribuindo para uma enorme perda de anos de vida saudável;
(e) Em média, as lesões contribuem com cerca de 6.800.000 hospitalizações, que correspondem a 11 % do total das hospitalizações na União Europeia;
(f) As lesões representam um enorme encargo financeiro para os sistemas de saúde e de protecção social, estão na origem de cerca de 20 % das baixas por doença e constituem um dos principais factores de redução da produtividade;
(g) O risco de lesões não está distribuído de forma homogénea pelos Estados-Membros, nem pelos grupos socioeconómicos. Existem variações em função da idade e do sexo. O risco de morrer de um acidente não intencional é cinco vezes maior no Estado-Membro que apresenta a taxa de lesões acidentais mais elevada;
(h) Ao contrário do que acontece com muitas outras causas de doença ou de morte prematura, as lesões podem ser evitadas se as condições de vida, os produtos e serviços que utilizamos e os comportamentos que adoptamos forem mais seguros. Existem medidas de prevenção de acidentes, de eficácia largamente comprovada, que ainda não são de aplicação generalizada em todos os países;
(i) Na sua maioria, as medidas de prevenção revelaram-se eficazes, porquanto as vantagens da prevenção são largamente superiores aos custos de intervenção;
(j) Algumas áreas, como a rodovia e o local de trabalho, têm tido progressos importantes. No entanto, outras áreas, como os acidentes domésticos, os acidentes resultantes da prática de desporto e lazer, e as intervenções preventivas dirigidas para as crianças e as pessoas idosas, necessitam de maior atenção;
(k) Está devidamente fundamentada a associação entre o consumo de álcool e de substâncias psicotrópicas com o aumento do número de lesões e acidentes;
(l) A morte prematura e a incapacidade, temporária ou definitiva, são um enorme prejuízo para qualquer sociedade e, cada lesão evitável será, sempre, uma lesão inaceitável perante os parâmetros científicos actuais.
As duas Recomendações aprovadas, pela OMS5 e pela Comissão Europeia6,
receberam um forte impulso para a sua implementação quando o Parlamento Europeu e o Conselho da Europa adoptaram a decisão conjunta n.º 1350/2007/EC, em 23 de Outubro de 2007, na qual se comprometem a apoiar, no âmbito do Programa de Acção Comunitário no Domínio da Saúde (2008-13) as politicas dos Estados Membros que contribuam para a redução dos acidentes.7
Nas últimas duas décadas, estudos aprofundados sobre os acidentes, nomeadamente, sobre as suas causas e as suas consequências, provaram que existem muitas formas de intervenção eficazes.
A revisão bibliográfica dos estudos publicados, permite-nos, hoje, por em evidência alguns factores de risco fortemente correlacionados com os acidentes, em geral, e com alguns acidentes, em particular.
Dos factores de risco comuns a todos os acidentes destacam-se as condições socioeconómicas e residência numa zona carenciada. Os acidentes com crianças são, ainda, influenciados pelo desemprego dos pais.8 A actuação sobre os factores
socioeconómicos permite reduzir desigualdades sociais, definir políticas orientadas para a equidade e conhecer a dimensão e a localização do problema.
A evidência científica, também vem demonstrando que, a existência de legislação, de regulamentos e de normas e a fiscalização da aplicação das mesmas, permitem reduzir os acidentes e contribuem para a assumpção de condições, comportamentos e práticas mais seguras, ao mesmo tempo que limitam a exposição ao risco.
As mudanças relacionadas com o ambiente urbano e rodoviário, a segurança dos produtos, a educação cívica e o desenvolvimento de competências, assim como a qualidade dos cuidados médicos são intervenções comprovadamente eficazes.
A prevenção dos acidentes, baseada numa intervenção de saúde pública é mais útil quando combina: estratégias de mudança dos ambientes, respostas dirigidas para os grupos mais vulneráveis e quando canaliza os resultados da investigação para a intervenção comunitária. As estratégias de saúde pública têm um enorme potencial de prevenção de acidentes e de ganhos em saúde. Permitem reduzir o número de mortos, a severidade das lesões e o impacto das suas consequências.
O sucesso das intervenções depende de uma abordagem intersectorial e interdisciplinar e do envolvimento activo dos parceiros, a todos os níveis.
Áreas como o ambiente, a justiça, a administração interna, a segurança social, o trabalho, a construção civil, os transportes, as autarquias, entre muitos outros, têm um importante papel a desempenhar numa estratégia de prevenção de acidentes.
Estudos de avaliação da eficácia, permitem-nos quantificar os ganhos económicos resultantes das intervenções de prevenção dos acidentes.
Assim, 1€ gasto em detectores de fumos, permite poupar 69€ em cuidados de saúde; 1€ gasto num sistema de retenção para crianças, permite poupar 29€ em cuidados de saúde; 1€ gasto na melhoria da segurança rodoviária, permite poupar 3€ em cuidados de saúde; 1€ gasto em aconselhamento pediátrico, permite poupar 10€ em cuidados de saúde; 1€ gasto em serviços de prevenção de intoxicações, permite poupar 7€ em cuidados de saúde.9,10
O Relatório de Progresso da implementação da Resolução da OMS5 sobre prevenção das lesões e promoção da segurança, na Região Europeia, realizado no ano de 2008, destaca que foram alcançados grandes progressos, mas, que o sector da Saúde, necessita de se comprometer cada vez mais com a generalização de programas de prevenção que utilizem estratégias efectivas, alcancem maior cobertura populacional, promovam a colaboração com outros sectores e construam parcerias multisectoriais sustentáveis.11
Em 2009, a decisão da Comissão Europeia, de 23 de Fevereiro (2009/158/CE), sobre a adopção do Plano de Trabalho para a aplicação do segundo Programa de Acção Comunitária no domínio da Saúde (2008-2013), colocou a «prevenção de lesões» nas áreas temáticas elegíveis para financiamento. A decisão apela à criação de redes de boas práticas nas áreas prioritárias, identificadas na Recomendação do Conselho: segurança das crianças e dos adolescentes, segurança das pessoas idosas e dos utentes da estrada mais vulneráveis; prevenção de lesões na prática desportiva, nas actividades de lazer e das lesões causadas por produtos e serviços.
Em Portugal, na última década, os esforços desenvolvidos por diversas instituições e organizações conduziram a uma clara melhoria nos números da sinistralidade grave, especialmente por acidentes de viação. Paralelamente, medidas legislativas, aumento da segurança de produtos, normalização dos equipamentos, entre outras, contribuíram, também, para a diminuição da gravidade dos acidentes.
No Ministério da Saúde, o Plano Nacional de Saúde (2004-10)12faz um diagnóstico de
acidentes e as suas consequências, como uma importante causa de morbimorbilidade, ao longo de todo o ciclo de vida.
O documento Health in Portugal 2007,13 publicado no âmbito da Presidência
Portuguesa da União Europeia, destaca os acidentes e as suas consequências como um grave problema e uma das principais causas de morte prematura, morbilidade e incapacidade num elevado número de cidadãos.
As orientações do Plano Nacional de Saúde apontavam para o desenvolvimento de um Programa de Acção sobre prevenção de acidentes. As estratégias deveriam privilegiar uma abordagem intersectorial, uma intervenção preventiva, com incidência sobre settings prioritários e, uma prestação de cuidados optimizada numa rede de trauma e de reabilitação.
Apesar das melhorias observadas nos últimos 20 anos, os acidentes, sejam eles de viação, domésticos e de lazer ou de trabalho, continuam entre as principais causas de morte e incapacidade.
No âmbito da reestruturação dos serviços de saúde, a recente publicação do Decreto-lei n.º 81/2009 de 2 de Abril,ii sobre os princípios de organização dos serviços de
saúde pública, destaca a necessidade de uma intervenção fundamentada em áreas essenciais à melhoria do nível de saúde da população, através do reforço das funções de vigilância e investigação epidemiológica, prevenção da doença, defesa, protecção e promoção da saúde, bem como à avaliação do impacte dos programas de saúde na comunidade. Este quadro legislativo poderá ser uma alavanca, fundamental, para gestão, o desenvolvimento, a implementação e a avaliação do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes, na nova orgânica dos Agrupamentos de Centros de Saúde.
1.2. Acidentes no Mundo
A Organização Mundial da Saúde, constituída por 193 Estados Membros, agrupados em seis regiões - África, Américas, Sudeste Asiático, Europa, Mediterrâneo Oriental e Pacífico Ocidental, possue características e estadios de desenvolvimento muito diferentes.
Com base nos dados do Relatório Global Burden of Injuries, 20021 peso dos acidentes
na taxa de mortalidade é bem evidente. No Mundo, estima-se que morrem, por ano, cinco milhões de pessoas devido a acidentes, correspondendo a uma taxa de mortalidade de 83,7 por 100.000 habitantes.1
Os acidentes concorrem com 9% para o total de mortes e com 12% para as doenças com eles relacionados. Os acidentes de viação são, no conjunto das mortes por todo o tipo de acidentes, a primeira causa de morte. Acresce que, nos próximos anos, as doenças relacionadas com os acidentes terão tendência para aumentar.
Quadro 1. Principais causas de morte no Mundo (2002)
Posição 0-4 Anos 5-14 Anos 15-29 Anos 30-44 Anos 45-59 Anos ≥60 Anos Todas as idades
1.
CondiçãoPerinatal Respiratórias Infecções HIV/SIDA HIV/SIDA Doença Isquémica do coração Doença Isquémica do coração Doença Isquémica do coração
2.
InfecçõesRespiratórias Acidentes de viação Acidentes de viação Tuberculose Cerebrovascular Doença Cerebrovascular Doença Cerebrovascular Doença
3.
Doença diarreica HIV/SIDA Condições maternas Acidentes de viação HIV/SIDA D. Pulmonar Obstrutiva crónica Infecções Respiratórias4.
Doenças dainfância Afogamentos Violência auto infligida Condições maternas Tuberculose Respiratórias Infecções HIV/SIDA
5.
Malária Doenças da infância Tuberculose Isquémica do Doença coração D. Pulmonar Obstrutiva crónica Cancro da traqueia, brônquios e pulmões D. Pulmonar Obstrutiva crónica6.
Anomaliascongénitas Queimaduras interpessoal Violência Violência auto infligida
Cancro da traqueia, brônquios e
pulmões
Diabetes Mellitus Condição Perinatal
7.
HIV/SIDA Tuberculose Infecções Respiratórias interpessoal Violência Cirrose Doença Cardíaca Hipertensiva Doença diarreica8.
Malnutrição Malnutrição Afogamentos Cerebrovascular Doença Acidentes de viação Cancro do Estômago Tuberculose9.
Sífilis Meningite Queimaduras Respiratórias Infecções Violência auto infligida TuberculoseCancro da traqueia, brônquios e
pulmões
10.
Meningite Leucemia Violência pos-guerra Cirrose Cancro do Estômago Cancro do cólon e do recto Acidentes de viação11.
Afogamentos congénitas Anomalias Isquémica do Doença coração
Envenenamen-tos Cancro do Fígado Nefrite e Nefrose Doenças da infância
12.
Acidentes deviação Quedas Envenenamen-tos Queimaduras Respiratórias Infecções outras demências D. Alzeimer e Diabetes Mellitus
13.
Tuberculose Envenenamen-tos Quedas Violência pos-guerra Diabetes Mellitus Cirrose Malária14.
Perturbaçõesendócrinas interpessoal Violência Leucemia Afogamentos Cancro da Mama Cancro do Fígado Doença Cardíaca Hipertensiva
15.
Queimaduras Leishmaniase Reumática do Doença coraçãoCancro do Fígado Doença Cardíaca Hipertensiva Cancro do Esófago Violência auto infligida
Da análise da mortalidade por acidentes, no Mundo, verifica-se que mais de 90% das mortes ocorrem em países de baixos e médios rendimentos.1
Segundo as Regiões da OMS, o Sudeste Asiático e o Pacífico Ocidental tem o maior número de mortes por acidente. Na Região Europeia, os países de baixos e médios rendimentos têm, também, as mais altas taxas de mortalidade por acidentes.
Segundo o género, globalmente, a mortalidade por acidentes de viação é três vezes maior nos homens que nas mulheres, com excepção da mortalidade por queimaduras, cuja taxa é mais alta nas mulheres do que nos homens.
Segundo o grupo etário, os dados sugerem que a maior parte das mortes por acidentes ocorre em populações com idades compreendidas entre 15 e os 44 anos. Este grupo contribui com mais de 50% para as taxas de mortalidade relacionadas com os acidentes, no Mundo.
As crianças com menos de 5 anos de idade representam 25% das mortes por afogamento e cerca de 15% das mortes relacionadas com queimaduras, em todo o Mundo.
Em 2005, em resposta ao Relatório World report on road traffic injury prevention2 a
Assembleia Mundial da Saúde aprovou a Resolução A/RES/60/514 e, em 2008, a
Resolução A/RES/62/24415 Improving global road safety, apelando ao reforço do
compromisso dos Estados Membros com a segurança rodoviária.
O Relatório Mundial sobre Prevenção dos Acidentes Rodoviários - World report on
road traffic injury prevention foi o primeiro documento conjunto da OMS e do Banco
Mundial, do qual emergiu uma grande preocupação sobre o impacto do tráfego rodoviário na saúde e no desenvolvimento.
Em 2008, a OMS e a UNICEF publicaram o World Report on Child Injury Prevention, no qual destacam a magnitude, os factores de risco e o impacto dos acidentes nas crianças, chamando a atenção para a prevenção e recomendando estratégias eficazes de redução dos acidentes no grupo etário de menos de 19 anos.16
Segundo o Director-Geral da OMS, na sua mensagem do Dia Mundial da Saúde 2004, subordinado ao tema, Acidentes e Segurança Rodoviária, … «as lesões de causa
rodoviária serão o factor que mais irá contribuir para a carga global de doenças e lesões em todo o mundo».17
1.3. Acidentes na Europa
Na Região Europeia, os acidentes, independentemente de serem intencionais ou não, são a quarta causa de morte, depois das doenças cardiovasculares, das neoplasias e das doenças respiratórias.
Na Europa, constituída por 27 países, os acidentes intencionais e não intencionais, foram responsáveis por 257.252 mortes por ano, numa média de três anos consecutivos (2003-05). Os acidentes não intencionais contribuíram para 68% das mortes e os intencionais para 32%. Por dia, morrem 700 pessoas devido a acidente.18
A taxa média de mortalidade por acidentes é de 5,2%, apresentando grandes disparidades na Região. Num estudo realizado com o apoio da Comissão Europeia, o Reino Unido apresentava a taxa de mortalidade mais baixa (3,5%) e a Lituânia a mais alta (12,6%). Portugal apresentava uma taxa de mortalidade por acidentes de 5,0%.18
Na Europa, entre 2003-05, as principais causas de morte por acidentes, em todos os grupos etários, foram o suicídio (24%) seguido pelos acidentes de viação (21%), as quedas (19%), as intoxicações (4%), os afogamentos (3%) e as queimaduras (2%).18
Quadro 2: Principais causas de morte na Europa (entre 2003-2005)
Posição < 1 Ano 1-4 Anos 5-14 Anos 15-24 Anos 25-60 Anos ≥60 Anos Todas as idades
1.
Condição perinatal Lesões e envenenamen-tos Lesões e envenenamen-tos Lesões e envenenamen-tos Neoplasias Doença do aparelho circulatório Doença do aparelho circulatório2.
congénitas Anomalias congénitas Anomalias Neoplasias NeoplasiasDoença do aparelho
circulatório Neoplasias Neoplasias
3.
Sintomas e sinais maldefinidos Neoplasias Doenças do sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Doença do aparelho circulatório Lesões e envenenamen-tos Doenças do aparelho Respiratório Doenças do aparelho Respiratório
4.
Doenças do sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Doenças do sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Anomalias congénitas Sintomas e sinais mal definidos Doenças do aparelho digestivo Doenças do aparelho digestivo Lesões e envenenamen-tos5.
envenenamen-Lesões e tos Doenças infecciosas e parasitárias Doença do aparelho circulatório Doenças do sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Sintomas e sinais mal definidos Sintomas e sinais mal definidos Doenças do aparelho digestivo6.
Doenças do aparelho Respiratório Sintomas e sinais mal definidos Doenças do aparelho Respiratório Perturbações mentais Doenças do aparelho Respiratório Lesões e envenenamen-tos Sintomas e sinais mal definidos7.
infecciosas e Doenças parasitárias Doenças do aparelho Respiratório Doença s endócrinas, metabólicas e nutricionais Doenças do aparelho Respiratório Doenças do sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Doença s endócrinas, metabólicas e nutricionais Doença s endócrinas, metabólicas e nutricionais Fonte: Injuries in the European Union (Summary 2003-2005). Publicado pela EuroSafe. IDB. KfV, 2007Os acidentes são uma das principais causas de anos de vida perdidos, de perda de produtividade, de consumo de serviços de saúde e de um grau significativo de incapacidade. A nível Europeu representam 14% da carga da doença expressa em DALYsiii.19Os acidentes de viação contribuem com 2,7% do total de DALYs, segundo
o Global Burden of Disease, 2004, da OMS.
Até aos 60 anos, os acidentes contribuíram para 18% da totalidade dos óbitos registados na Europa. Analisados segundo os grupo etário, o grupo dos 15-24 anos, contribuiu com 65%18 constituindo os acidentes de viação metade dos casos fatais.
Existe, igualmente, diferença entre os sexos, representando o sexo masculino, três quartos (66%) de todas as mortes por acidentes.
As crianças são particularmente vulneráveis aos acidentes. Segundo os estudos realizados na Europa, por cada criança que morre por acidente, 50 são internadas com traumatismos graves e 800 são tratadas nos serviços de urgência.20
Segundo o European Report on Child Injury Prevention,21 no ano 2004, morreram
cerca de 42.000 crianças e jovens, entre os 0-19 anos de acidentes não intencionais, na Região Europeia.
Na Europa, em 2004, o perfil dos acidentes no grupo etário de menos de 19 anos era o seguinte: os acidentes de viação foram a principal causa de traumatismos cranio-encefálicos e vertebro-medulares, estimando-se que tenham morrido 16.400 crianças e jovens.
Os afogamentos foram a segunda causa de morte sendo responsáveis por 5.000 óbitos por ano, neste grupo etário. As intoxicações foram a terceira causa de morte, tendo sido responsáveis por 3.000 mortes entre os 0-19 anos. As queimaduras foram responsáveis por 1.700 mortes e por grave alteração da imagem física de crianças e jovens. As quedas mataram mais de 1.500 crianças até aos 19 anos.
Em números absolutos, os acidentes fatais nas pessoas com mais de 65 anos percorrem todo o espectro de causas, no entanto, as quedas são o problema mais frequente, neste grupo etário.
Os acidentes consomem cerca de 10% dos recursos hospitalares. Os internamentos devidos a acidentes, na EU27, foram cerca de 7 milhões.
Mais de 6.000 acidentes de trabalho fatais são registados, todos os anos, na EU 27.18
1.4. Acidentes em Portugal
Em Portugal, em 2006, os acidentes, intencionais e não intencionais, foram a quinta causa de morte, representando 4,5% do total de óbitos ocorridos (4606), depois das doenças do aparelho circulatório (32%), dos tumores (22,2%) e das doenças do aparelho respiratório (11,3%).22
Quadro 3. Principais causas de morte (Portugal, 2006)
Posição < 1 ano 1-4 Anos 5-14 Anos 15-24 Anos 25-44 Anos 45-59 Anos ≥60 Anos Todas as idades
1.
Afecções originadas no período Perinatal Lesões e envenena-mentos Lesões e envenena-mentos Lesões e envenena-mentos Lesões e envenena-mentos Neoplasias Aparelho circulatório Aparelho circulatório (32993)2.
Malformações congénitas Malformações congénitas NeoplasiasSinais, sintomas e afecções mal
definidas
Neoplasias Aparelho
circulatório Neoplasias Neoplasias (22709)
3.
Sinais, sintomas e afecções mal definidas Neoplasias D Sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Neoplasias Infecciosas e D. parasitárias Sinais, sintomas e afecções mal definidas D. Aparelho respiratório Sinais, sintomas e afecções mal definidas (12702)4.
D. Aparelho respiratório Sinais, sintomas e afecções mal definidas Sinais, sintomas e afecções mal definidas D Sistema Nervoso e órgãos dos sentidos Aparelho circulatório Lesões e envenena-mentos Sinais, sintomas e afecções mal definidas D. Aparelho respiratório (11512)5.
D Sistema Nervoso e órgãos dos sentidos D Sistema Nervoso e órgãos dos sentidos D.Endócrinas circulatório Aparelho D. Aparelho digestivo D. Aparelho digestivo Endócrinas D.
Lesões e envenena-mentos (4606)
6.
Infecciosas e D. parasitárias D. Infecciosas e parasitárias Malformações congénitas D. Aparelho respiratório D. Aparelho respiratório D. Aparelho respiratório D. Aparelho digestivo
D. Endócrinas (4518)
7.
envenena-Lesões e mentos D. Aparelhorespiratório circulatório Aparelho
D. Infecciosas e parasitárias D Sistema Nervoso e órgãos dos sentidos D. Infecciosas e parasitárias D. Ap. Genito-urinário D. Aparelho digestivo (4309)
8.
Endócrinas D. Endócrinas D. D. Aparelho respiratório Endócrinas D. Endócrinas D. Endócrinas D.Lesões e envenena-mentos D. Ap. Genito-urinário (2566) Fonte: INE/DGS, 2008
De acordo com os elementos estatísticos do INE, em 2006, os acidentes não intencionais (2390) contribuíram, globalmente, com 2,3% para o total de óbitos ocorridos, representando, no entanto, até aos 44 anos, 16% das causas de óbitos. No conjunto dos óbitos de causa externa,iv 52% foram acidentes de causa não
intencional. Neste grupo de causas, segundo o género, 73% dos acidentes não intencionais ocorreram no sexo masculino e 27% no sexo feminino.
Os óbitos por acidentes não intencionais (V01-X59), segundo o grupo etário, tinham a seguinte distribuição: até aos 19 anos, representavam 6% (144 óbitos); dos 20-44
anos, 30% (716); dos 45-64 anos, 23% (540); dos 65-74 anos, 14% (340) e no grupo etário de mais de 75 anos, 27% (650 óbitos).22
Entre os anos 2000 e 2006, o número de óbitos ocorridos nos grupos etários dos 0-19 anos e de mais de 65 anos, segundo «todas as causas de óbitos», «todo o tipo de acidentes» e por «acidentes não intencionais», teve a seguinte evolução:
Quadro 4. Evolução das causas de morte no grupo etário dos 0-19 anos
Óbitos (0-19 anos)v 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Todas as causasvi 1557 1409 1345 1129 1053 961 902
Todos os acidentesvii
(intencionais e não intencionais) 376 427 395 320 321 276 216
Acidentes não intencionaisviii
(de viação, afogamentos, quedas, etc.) 224 322 343 274 272 197 144
Quadro 5. Evolução das causas de morte no grupo etário de 65 e mais anos
Óbitos (Mais de 64 anos) 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Todas as causas 83.536 83.435 84.976 87.953 82.208 87.588 82.767 Todos os acidentes
(intencionais e não intencionais) 1803 1868 2102 2274 2143 1927 2075 Acidentes não intencionais
(de viação, afogamentos, quedas, etc.) 974 1213 1461 1614 1212 905 990
A morbilidade hospitalar, no Serviço Nacional de Saúde, analisada a partir da base de dados dos Grupos de Diagnóstico Homogéneos (GDH), após agrupamento das patologias, de acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), permite-nos constatar que, no ano de 2006, o número de doentes saídos, por «todos os acidentes» foi de 6,6% (72.152). Estes valores correspondem a todos os internamentos nos hospitais públicos do território continental, cuja causa estava relacionada com acidentes.
Os acidentes (intencionais e não intencionais) e as suas consequências, no ano de 2006, contribuíram para 9.556 internamentos hospitalares de crianças e jovens até aos 19 anos, 33.209 de adultos entre os 20-64 anos e de 29.387 de pessoas com mais de 65 anos.
A demora média de internamento foi de 9,5 dias, com um acréscimo do tempo médio, à medida que o grupo etário sobe.ix
v Fonte: INE, Estatísticas da Saúde. Publicadas em «Elementos Estatísticos. Informação Geral Saúde» Direcção-Geral da Saúde
dos anos 2000 a 2006.
vi Lesões, envenenamentos e outras consequências de causas externas Capítulos I a XIX da CID-10 vii Capítulo XIX da CID-10
viii Códigos V01 a X59 do Capítulo XIX da CID-10
1.4.1. Acidentes de viação
Múltiplos factores contribuem para a sinistralidade rodoviária, nomeadamente, o estado das estradas, o parque automóvel, os comportamentos e a saúde dos condutores.
Da análise da estatística dos acidentes de viação, recolhidos pela Direcção-Geral de Viação (até 2006)23 e pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (a partir de
2007)24 verifica-se que o número de mortos e de feridos graves por acidente de viação
tem diminuído, significativamente.
Segundo o Relatório do Observatório da Segurança Rodoviária, da ANSR, no ano de 2008, ocorreram 33.613 acidentes, dos quais resultaram 44.709 vítimas.24
As consequências destes acidentes traduziram-se em 776 vítimas mortais, 2606 feridos graves e 41.327 feridos leves.
Ao longo do ciclo de vida verificamos que, com a idade, o número de vítimas mortais aumenta, apresentando um «pico» entre os 20-24 anos, voltando a subir, novamente, a partir dos 65 anos.
Segundo a natureza, 52% dos acidentes com vítimas mortais foram devidos a colisão, 32% a despiste e 16% a atropelamento, dos quais resultaram 41%, 43% e 16% dos mortos, respectivamente.
Segundo a localização, 71% dos acidentes com vítimas mortais ocorreu dentro das localidades e 29% fora das mesmas, dos quais resultaram, 47% e 53% dos mortos, respectivamente.
Segundo a categoria dos utentes, a percentagem de mortos em veículos ligeiros foi de 51%; em veículos motorizados de duas ou três rodas, foi de 21% e em veículos pesados foi de 2%. No ano de 2008, 18% dos mortos foram peões e 5% ciclistas. A estatística da sinistralidade rodoviária não pode ser vista, exclusivamente, pelo número de mortos que gera. É importante olhar, também, para os acidentes que provocaram vítimas.
Em Portugal, no ano de 2008, 43.933 pessoas sofreram ferimentos na sequência de um traumatismo não fatal, relacionado com um acidente de viação.
A percentagem de feridos graves, resultantes de acidentes com veículos ligeiros foi de 49%; com veículos de duas rodas a motor, 24%; com peões, 20%; com velocípedes, 4% e com veículos pesados, 2%.
Segundo o grupo etário, a percentagem de feridos graves, entre os 18-24 anos, foi de 17% e entre os 25-34 anos de 10%.
Entre 1989 e 2008 houve melhorias significativas na mortalidade por acidentes de viação. As estatísticas da sinistralidade fora das localidades melhoraram, assim como no grupo etário dos jovens. Pelo contrário, dentro das localidades e com os condutores de velocípedes houve um agravamento do número de acidentes.
Entre 2001 e 2008, Portugal teve uma redução de 47% nas vítimas mortais/milhão de habitantes.
Em Portugal, a taxa de mortalidade padronizada devido a acidentes de trânsito com veículos a motorx, em 2006, foi de 9,1%
000. Segundo as Regiões de Saúde, o Norte
teve uma taxa mortalidade padronizada de 6,2%000, a Madeira, 11%000, os Açores e a
Região Centro tiveram 11,2%000, o Algarve teve 13,6%000, Lisboa e Vale do Tejo,
14,1%000 e o Alentejo, 16,2%000.22
Os acidentes de viação têm várias causas, algumas bem conhecidas e documentadas. Entre elas, destaca-se o excesso de velocidade, o não cumprimento do código da estrada e o consumo de bebidas alcoólicas. No entanto, outras causas, igualmente importantes de acidente são: o uso de determinados medicamentos, a diminuição da acuidade visual, situações de fadiga (relacionadas, por exemplo, com o trabalho por turnos ou a condução durante mais de duas horas sem descansar) podendo, todos elas, diminuir as capacidades de atenção, concentração, reflexos, capacidades visuais, raciocínio e de coordenação motora.25
A dimensão do problema, em termos de morbilidade e incapacidade resultante dos acidentes é uma área que requer estudos mais aprofundados.
Em Portugal, a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária, coordenada pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária compreende um conjunto de acções dirigidas para dez áreas de intervenção prioritárias: 1) condutores de veículos de duas rodas a motor, 2) condutores de automóveis ligeiros, 3) peões, 4) sinistralidade dentro das localidades, 5) condução sob o efeito de álcool e substâncias psicotrópicas, 6)
velocidade, 7) dispositivos de segurança, 8) socorro às vítimas, 9) infra-estrutura e 10) veículos.
A operacionalização da Estratégia, através de acções concertadas de promoção da segurança rodoviária, do reforço da fiscalização pelas forças de segurança e das alterações previstas no ambiente rodoviário têm, entre outros, o grande objectivo de diminuir o número de mortos por acidentes de viação, até 2015.
Segundo a OMS, uma das razões pelas quais os acidentes de viação não recebem a resposta adequada é porque a segurança rodoviária é, frequentemente, tratada como um assunto de transportes e não de saúde pública.
A maior parte das lesões provocadas pela circulação rodoviária, designadas de acidentes, podem ser prevenidas. “O êxito da prevenção depende do compromisso de
todos os sectores pertinentes, quer públicos, quer privados (saúde, transportes, educação, finanças, polícia, legisladores, fabricantes, fundações e meios de comunicação social, entre outros), no sentido de tornar a segurança uma realidade”.xi
1.4.2. Acidentes domésticos e de lazer
No âmbito da designação Acidentes Domésticos e de Lazer cabem todos os
acidentes registados durante os tempos livres da população (ocorridos em casa, em práticas desportivas, em períodos de lazer ou diversão), acidentes com crianças na escola, na rua, etc.26
Os acidentes domésticos são muito comuns. Mesmo com todo o cuidado, há objectos e situações que representam risco e podem provocar acidentes. Para as crianças e para as pessoas idosas, todas as divisões da casa podem representar um enorme risco.
Acidente Doméstico E de Lazer - Informação Adequada" (ADELIA) é a designação
portuguesa para o sistema de monitorização, vigilância e registo dos acidentes domésticos e de lazer, registados numa amostra de 41 unidades de saúde com serviços de urgência, hospitais e centros de saúde, cuja coordenação cabe ao Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.27
Quadro 6: Evolução do número de acidentes domésticos e de lazer, entre 2002 e 2005 Número de
Acidentes ocorridos Acidentes estimados Número de Taxa de Incidência %o
2002 20.925 559.000 54
2003 38.882 653.000 62
2004 35.797 594.000 57
2005 32.300 578.000 55
Segundo o Relatório ADELIA28 referente ao ano 2006, num universo de 23.079
acidentes, verifica-se que: até aos 14 anos ocorreram 49% dos Acidentes Domésticos e de Lazer (ADL), dos 15 aos 64 anos, 37%; e depois dos 65 anos ocorreram 14% dos acidentes.
Nas pessoas com mais de 65 anos os acidentes foram três vezes mais frequentes nas mulheres do que nos homens.
O local de ocorrência mais frequente de ADL é a “casa” (52%), especialmente, para as crianças até aos 4 anos e as pessoas idosas com mais de 75 anos. O segundo local de maior frequência de acidentes é a “escola/instituição” (21,1%), nomeadamente, no grupo etário dos 5 aos 19 anos. A «área de transportes»xii com uma frequência de
8,2% é referida como um local de ocorrência, sistemática, de acidentes em todos os grupos etários.
No momento do acidente, as actividades mais referidas foram: nas categorias “lazer”xiii
(33,9%), especialmente até aos 14 anos de idade; na categoria “doméstica”xiv (5,7%)
sobretudo a partir dos 35 anos de idade; na categoria “exercício físico” (9,4%) principalmente no grupo dos 10 aos 20 anos, sendo ainda referida em menor percentagem a categoria “actividade vital”xv.
O mecanismo da lesão mais referido foi a “queda” (65%), com uma incidência maior nos grupos etários extremos, em especial nos indivíduos com mais de 75 anos, nos quais, 88% dos acidentes registados se devem a esta causa.
Segundo o género, destaca-se o aumento mais da percentagem de acidentes por “quedas”, nas mulheres, a partir dos 45 anos.
xii Área de Transporte: passeio, pista de bicicleta, auto-estrada, estrada rural, estrada urbana, cais, rua, estação. xiii Actividade de Lazer: brincar, hobby, actividade lúdica
xiv Actividade doméstica: cozinhar, limpar, tratar de crianças. Compras, jardinagem xv Actividade vital: comer, dormir, higiene pessoal
O tipo de lesão mais frequente foi a “concussão, contusão e hematoma”, que representaram 52% dos registos, seguida da “ferida aberta” (15%). As partes do corpo mais afectadas foram os “membros” (58,9%), seguidas da “cabeça” (32,2%).
Nas crianças, para além das quedas, destacam-se os afogamentos, queimaduras, intoxicações, asfixia e, nas pessoas idosas, as queimaduras e as feridas incisas.
Os grupos etários extremos, crianças e pessoas idosas, são os mais atingidos pelos Acidentes Domésticos e de Lazer e os que têm internamentos hospitalares mais prolongados.
O tempo médio de internamento aumenta, exponencialmente, com a idade, sendo, em média, de 11 dias nas pessoas com mais de 75 anos.
Segundo o Relatório ADELIA, do ano de 2006, o encaminhamento mais frequente das pessoas vitimas de acidente doméstico e de lazer foi a alta sem referenciação (83%), tendo, no entanto, 5,7% sido referenciado para consulta e 4,3% para internamento. Os ADL têm um impacto fortemente negativo na sociedade, em termos de mortalidade e morbilidade, de custos psicológicos e emocionais das vítimas e familiares, para além de implicarem uma enorme alocação de recursos humanos e materiais na área da saúde.
Segundo um estudo realizado na Holanda, por cada criança que morre por acidente doméstico e de lazer, 160 são internadas por traumatismos e 2.000 são assistidas na urgência.29
1.4.3. Acidentes de trabalho
Acidente de trabalho é um acontecimento inesperado e imprevisto derivado do
trabalho ou com ele relacionado, do qual resulta uma lesão corporal, uma doença ou a morte, de um ou vários trabalhadores (de acordo com as definições da revisão do Código do Trabalho).
Relativamente aos acidentes de trabalho mortais, Portugal, apesar de acompanhar a tendência Europeia de descida, apresenta, no conjunto dos países, a maior taxa de mortalidade (3,2%oooo) por acidente de trabalho.18
Em Portugal, os acidentes de trabalho são monitorizados pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, a partir da informação recolhida pelo Instituto de Seguros de Portugal, que valida e trata os dados
constantes das participações remetidas às Companhias de Seguros, referentes ao momento de ocorrência do acidente e, dos mapas de encerramento do processo, à data do termo, ou um ano após a ocorrência do acidente.
No ano de 2006, ocorreram 237.392 acidentes de trabalho dos quais resultaram 253 mortes de trabalhadores e 173.254 dias de ausência ao trabalho.
Segundo o grupo etário, entre os 25-34 anos ocorreram 27% dos acidentes de trabalho e em igual percentagem entre 35-44 anos. Entre os 45-54 anos ocorreram 20% e antes dos 25 anos, 13%.30
Quadro 7: Acidentes de Trabalho, por grupo etário, em 2006 * Acidentes de Trabalho Total Até 24 anos 25-34 anos 35-44 anos 45-54 anos 55-64 anos >65 anos Ignorado Total 237392 31302 64196 63264 48036 20981 2672 6941 Não mortais 237139 31282 64158 63199 47961 20939 2661 6939 Mortais 253 20 38 65 75 42 11 2
% de Acidentes não mortais 13% 27% 27% 20% 9% 1% 3%
% de Óbitos 8% 15% 26% 30% 17% 4% 1%
Fonte: Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social.
*Não estão incluídos os acidentes ocorridos na Administração Pública com subscritores da Caixa Geral de Aposentações, assim como os acidentes de trajecto.
A maior percentagem de acidentes de trabalho ocorreu entre os 25 e os 44 anos, sendo a maior percentagem de acidentes mortais deu-se ente os 45-54 anos. Até aos 24 anos ocorreram 13% de acidentes e 8% dos óbitos, relacionados com os acidentes de trabalho.31
Da distribuição dos acidentes de trabalho por sector de actividade económica, constata-se que foi nas “Indústrias transformadoras” e na “Construção” que mais acidentes ocorreram, 31,5% e 21,8% do total de acidentes.
No entanto, face à população exposta ao risco foi nas «Pesca» e nas “Indústrias extractivas” que a sinistralidade laboral teve mais impacto. A taxa de incidência dos acidentes mortais na “pesca” e nas “Indústrias extractivas” foi respectivamente de 92,9 e 17,1 acidentes por cada 100.000 trabalhadores.
Muitos dos acidentes de trabalho poderiam ter sido evitadas se tivesse havido uma abordagem preventiva a montante das actividades que estiveram na sua origem. A segurança no trabalho é uma abordagem que, partindo da identificação dos perigos e da avaliação dos riscos profissionais, visa a protecção da integridade física e
psicológica dos trabalhadores, através da adopção de medidas de natureza técnica e organizacional.
A sensibilização e a formação dos trabalhadores para a segurança e a saúde no trabalho, é essencial para a prevenção de acidentes laborais, no entanto, estas medidas não dispensam a adopção de normas específicas, inerentes às actividades desenvolvidas e aos postos de trabalho em questão.
Os custos directos e indirectos dos acidentes e trabalho são elevadíssimos, quer para os trabalhadores acidentados e respectivas famílias, quer para as empresas, quer para a sociedade no seu todo.
Avaliar os riscos de acidente de trabalho e implementar as respectivas medidas de prevenção e de protecção do trabalhador, são, quer na perspectiva dos trabalhadores, quer dos empregadores, aspectos essenciais para tornar os locais de trabalho mais seguros e saudáveis.
Diversos factores podem contribuir para a ocorrência de acidentes de trabalho, como, por exemplo, o excesso de tempo de trabalho, o trabalho por turnos, a fadiga, a precariedade laboral, ou a ingestão de álcool ou de substâncias psicotrópicas.
Tendo presente toda a problemática da sinistralidade laboral, a Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho 2008-2012, aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros, de 12 de Março de 2008, configura um quadro global da política da prevenção de riscos profissionais e de promoção do bem-estar no trabalho, para o horizonte temporal estabelecido.
A Estratégia Nacional define dois eixos fundamentais para o desenvolvimento de políticas de segurança e saúde no trabalho: 1) no que se refere às políticas públicas, preconizando o seu desenvolvimento de forma coerente e eficaz, resultado da articulação entre os vários departamentos da Administração Pública, que funcionem como motor de mobilização da sociedade em torno de uma questão social e económica fundamental para a coesão social, que diz respeito à sociedade no seu todo; 2) no que se reporta à promoção da segurança e saúde nos locais de trabalho, enquanto pressuposto de uma melhoria efectiva das condições de trabalho.
Resumindo:
No conjunto dos óbitos por acidentes não intencionais, os acidentes de viação, destacam-se em termos de magnitude, tanto de mortes, quanto de feridos.
Os adultos jovens apresentam-se como vítimas importantes de acidente de viação e de trabalho, facto que, evidencia não só um dano social, mas também, perdas relevantes na população activa.
As crianças em idade escolar e as pessoas idosas são grupos especialmente vulneráveis aos acidentes, nomeadamente, os domésticos, de lazer e de viação. Da mesma forma, as pessoas com deficiência são vítimas de acidentes porque o meio físico não está, com frequência, adaptado às suas necessidades.
Nestes grupos as quedas e os atropelamentos têm elevados custos, em termos individuais, familiares, sociais e de saúde, com internamentos hospitalares prolongados.
O impacto das mortes por acidentes pode ser analisado através do indicador relativo aos Anos de Vida Potencialmente Perdidos. Por incidirem com elevada frequência no grupo de adolescentes e adultos jovens, os acidentes são responsáveis pelo maior número de anos de vida perdidos.
O impacto económico dos acidentes pode ser medido, directamente, por meio dos gastos hospitalares com internamentos, inclusivé em unidades de terapia intensiva e dias de permanência geral, cuidados de reabilitação e custos psicológicos.
Quanto à morbilidade por acidentes e ao seu impacto a médio e longo prazo, é ainda insuficiente o conhecimento disponível, seja ao nível nacional, regional ou mesmo local.
Muitos dos acidentes poderiam, ser evitados com medidas simples, mas extremamente eficazes.
Para 2020, as projecções da OMS colocam os acidentes intencionais e não intencionais como a terceira causa de morte, a seguir às doenças cardiovasculares e à depressão.32
2.
Visão, princípios e eixos estratégicos
2.1. Visão
O Programa Nacional de Prevenção de Acidentes visa assegurar a promoção da saúde e da segurança, a prevenção dos acidentes e a melhoria dos cuidados à vítima, através de estratégias de redução das desigualdades em saúde e de acções específicas sobre os determinantes das lesões e dos traumatismos não intencionais.
2.2. Princípios
O Programa Nacional de Prevenção de Acidentes assenta numa abordagem de saúde pública dirigida para a promoção da segurança e a prevenção dos acidentes. Os princípios da promoção da saúde e o desenvolvimento de estratégias centradas no cidadão, implicam, inovar na forma de intervir em cuidados de saúde primários, dando clara prioridade à promoção da segurança baseada no paradigma salutogénico.
As políticas e as estratégias de prevenção dos acidentes implicam um envolvimento de vários sectores, várias disciplinas, vários actores, mas principalmente, necessitam do envolvimento activo da comunidade, sem a qual, a melhoria dos indicadores de saúde não terão sustentabilidade.
Uma abordagem sistémica da prevenção dos acidentes implica ter em consideração os diferentes factores que se encontram na sua génese.
Numa lógica de planeamento, a programação das acções terá, necessariamente, que ter em conta a epidemiologia do fenómeno, os recursos disponíveis, as prioridades identificadas e uma avaliação, que tem que ser consequente com a definição de novas estratégias e prioridades.
A aplicação destes princípios ao desenho de um programa de prevenção dos acidentes combina, pois, uma intervenção assente em quatro etapas:
1) Definição do problema, o que implica conhecer a sua dimensão;
2) Identificação dos factores de risco e de protecção, o que inclui conhecer as causas dos acidentes, os grupos mais expostos e os indivíduos mais vulneráveis;
3) Desenvolvimento de estratégias de promoção da segurança e de prevenção dos acidentes direccionadas para as comunidades e para os seus problemas, o que requer «olhar» para os ambientes em que as pessoas vivem, os riscos que correm e as oportunidades de prevenção que se apresentam;
4) Implementação generalizada do Programa, com coberturas populacionais alargadas e disseminação das boas práticas, num efeito de “bola de neve” que favoreça a investigação, o financiamento e a replicação das intervenções.33
Esta abordagem da saúde pública, independentemente do sector envolvido na prevenção doa acidentes, permite uma intervenção programada, uma avaliação e monitorização das acções desenvolvidas.
O modelo faz parte das estratégias de intervenção da OMS e é recomendado pela Comissão Europeia para a prevenção dos acidentes, na Europa.
A OMS e a Comissão Europeia, ao colocarem os acidentes na agenda política dos Ministros da Saúde, forneceram aos Estados Membros elementos teóricos, instrumentos técnicos e materiais de advocacia que servirão de guia desenvolvimento do quadro conceptual do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes, que agora se descreve.34
1
Definição do problema Identificação dos factores de
2
risco e de protecção3
Desenvolvimento de estratégias de promoção da
segurança e prevenção dos acidentes
4
Implementação generalizada do Programa
2.3. Eixos estratégicos
A complexidade dos acidentes requer acções a todos os níveis e com todos os sectores. O papel do sector da Saúde e da Saúde Pública é central na disseminação da informação, na capacitação e na consciencialização dos cidadãos para o problema, mas também, na recolha de informação, no fornecimento de cuidados e no apoio à vítima.
Para que possa responder a todos os desafios, o Programa Nacional de Prevenção de Acidentes desenvolve-se em dez eixos estratégicos:
1. Reforçar a acção comunitária na promoção da segurança e na prevenção dos acidentes, através da aplicação de uma abordagem de saúde pública à problemática das lesões não intencionais.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para os determinantes dos acidentes, em particular para os determinantes sociais, que contribuem para a redução das desigualdades, nomeadamente socioeconómicas e de género e, para as áreas prioritárias destacadas na Resolução do Conselho:6 segurança das crianças e dos
adolescentes, das pessoas idosas e dos utentes da estrada mais vulneráveis; prevenção de lesões no desporto, no lazer e de lesões causadas por produtos e serviços, tendo em conta o seu impacto na saúde e a eficácia das medidas preventivas.
2. Capacitar os profissionais para a promoção da segurança, a prevenção dos acidentes e o desenvolvimento de aptidões para gerir o risco.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para a formação de profissionais de saúde, de educação e de todas as outras áreas que concorram para a promoção da segurança e a prevenção dos acidentes ao longo de todo o ciclo de vida e nos ambientes onde as pessoas vivem, estudam e trabalham.
3. Defender a criação de condições ambientais favoráveis à segurança.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para as modificações dos factores ambientais que modelam os estilos de vida e os comportamentos e influenciam a segurança do ambiente, físico e urbano, em que vivemos, trabalhamos e nos divertimos.
4. Reorientar os serviços de saúde para a prestação de cuidados de qualidade à vítima e o apoio às necessidades dos indivíduos e das comunidades.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para a disponibilidade de uma assistência eficiente sempre que ocorre um acidente, cuidados e serviços de reabilitação que aumentem as possibilidades de sobrevivência e reduzam a incapacidade, bem como redes de recuperação e de apoio às famílias das vitimas.
5. Acção intersectorial para a promoção da segurança e da saúde, abrindo o diálogo com os sectores sociais, económicos, políticos e outros.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para cooperação inter-serviços e a utilização eficaz das possibilidades de desenvolver e/ou potenciar acções conjuntas de prevenção dos acidentes e de promoção da segurança.
6. Legislar, regulamentar e normalizar.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para a definição das competências sobre segurança dos vários sectores e para a adopção de medidas legislativas ou regulamentos que condicionam comportamentos de risco, como por exemplo a condução sob o efeito do álcool, a obrigatoriedade de adoptar medidas de protecção ou outras práticas seguras.
7. Investigação epidemiológica sobre os acidentes
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para o desenvolvimento de instrumentos de análise que permitam colmatar lacunas na informação disponível.
8. Avaliar o impacto das acções no nível de saúde das populações.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para a utilização de instrumentos de avaliação do impacto das medidas de prevenção, aplicadas em diferentes ambientes, nos ganhos em saúde da população.
9. Monitorizar os progressos e a implementação do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes.
Neste eixo, as acções deverão ser dirigidas para a criação de indicadores e de observatórios sobre a evolução das tendências do Programa ao longo do seu período de vigência.
10. Cooperar com organizações internacionais, nomeadamente a OMS e a
3.
Finalidade e objectivos
3.1. Finalidade
Fazer da Europa um lugar seguro é o desafio que se coloca, hoje, a todos os países
europeus.
Em Portugal, os acidentes são uma vastíssima área de intervenção, alocada a várias entidades, todas elas com competências e acções relevantes na prevenção dos mesmos.
O papel do sector da Saúde vai da liderança, à intervenção, à defesa do bem-estar dos cidadãos. No seu papel de líder, cabe-lhe estabelecer uma plataforma de prevenção dos acidentes baseada numa abordagem de saúde pública que permita reduzir uma das principais causas de mortalidade, morbilidade e incapacidade, com custos directos e indirectos em cuidados e serviços de saúde. Na intervenção, o sector da Saúde está activo nas redes de trauma, no socorro à vítima, no tratamento e na reabilitação física e social. Para a advocacia do bem-estar dos cidadãos necessita de recolher e analisar toda a informação que lhe permita influenciar outros sectores e as politicas nacionais.
O Programa Nacional de Prevenção de Acidentes, ao estabelecer uma plataforma conceptual e operacional de intervenção, tem como finalidade:
Contribuir para a promoção da segurança e a redução dos acidentes e do seu impacto na população em geral e nos grupos especialmente vulneráveis, assegurando o acesso equitativo a cuidados de saúde às vítimas e às suas famílias
.
3.2. Objectivos
O presente Programa tem como principal objectivo:
Contribuir para os ganhos em saúde, através da redução dos factores de risco de acidentes, sejam eles, domésticos, de lazer, de viação ou de trabalho e do aumento dos factores de protecção, sejam eles, de natureza individual ou colectiva.
Especificamente, o Programa tem como objectivos:
1. Contribuir para a redução da mortalidade, da morbilidade e da incapacidade por acidentes não intencionais;
2. Recolher, analisar e divulgar a informação sobre acidentes não intencionais através de um sistema de informação integrado;
3. Promover projectos de intervenção no ciclo de vida sobre promoção da segurança e prevenção dos acidentes, dirigidos a crianças e jovens, adultos, pessoas idosas e pessoas com deficiência, assim como para os ambientes escolares, domésticos, de desporto, de lazer e de trabalho;
4. Promover o desenvolvimento de projectos, de acções e de iniciativas que contribuam para a redução dos factores de risco de acidentes não intencionais, nomeadamente, segurança de produtos e serviços, segurança rodoviária, condução sob o efeito do álcool, de substâncias psicotrópicas e/ou de medicamentos;
5. Promover a capacitação de profissionais de saúde, de serviços prestadores de cuidados de saúde e de profissionais de outros sectores;
6. Reforçar a capacidade técnica e organizacional dos serviços de saúde para enfrentar o problema dos acidentes, em termos de prevenção e de intervenção ao longo de todo o ciclo do trauma, desde a fase pré-hospitalar, hospitalar, reabilitação e apoio à vítima e sua família;
7. Promover sinergias, com outros programas nacionais, do Ministério da Saúde ou não, que contribuam para a prevenção dos acidentes e a promoção da saúde e da segurança;
8. Apoiar acções de entidades nacionais competentes, desenvolvidas por si ou por instituições ou organizações envolvidas na prevenção dos acidentes;
9. Cooperar com organizações nacionais e internacionais em matérias de segurança de produtos e serviços, consideradas prioritárias;
10. Promover a investigação sobre a eficácia das medidas de intervenção e a implementação de abordagens baseadas na evidência;
11. Identificar, divulgar e partilhar boas práticas, a nível nacional, entre diferentes sectores de actividade e entre países;
12. Constituir uma plataforma de trabalho, articulado, entre ministérios, organizações não governamentais e comunidades, que têm actividades na área da promoção da segurança e da prevenção dos acidentes, maximizando o alcance das intervenções e reduzindo as duplicações desnecessárias.
4.
Horizonte temporal
O Programa Nacional de Prevenção de Acidentes terá um horizonte temporal de 8 anos, isto é, de 2009 a 2016.
A primeira fase terá a duração de 2 anos, acompanhando o Plano Nacional de Saúde que decorre até 2010. Esta primeira fase corresponde, também, ao primeiro momento de avaliação.
A segunda fase decorrerá até 2016, acompanhando o horizonte do Programa.
5.
População - alvo
A população ou grupo-alvo do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes varia segundo o tipo de intervenção.
Assim:
As actividades de prevenção universal dos acidentes destinam-se à população em geral, já que todos podem ser vítimas de acidentes. Serão de média ou curta duração e as suas componentes contemplam a informação e o desenvolvimento de competências preventivas;
As actividades de prevenção selectiva dos acidentes são dirigidas a grupos ou segmentos da população com características específicas, identificadas como de maior risco para os acidentes, como é o caso das crianças, das pessoas com deficiência e das pessoas idosas, em particular dos que vivem em piores condições socioeconómicas;
As actividades de prevenção indicada são dirigidas aos indivíduos com comportamentos de risco, que apresentam atitudes problemáticos, como é o caso, por exemplo, da condução sob o efeito do álcool ou de substâncias psicotrópicas.
6.
Estrutura de coordenação e implementação
6.1. Estrutura nacional
Um programa com a transversalidade do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes, para que possa ser cabalmente implementado, desenvolvido e avaliado, requer uma liderança competente e uma equipa técnica de apoio.
Essa liderança ou Coordenação Nacional do Programa deverá ser suportada pelos organismos centrais do Ministério da Saúde, nomeadamente, a Direcção-Geral da Saúde, competindo-lhe coordenar, acompanhar e avaliar, a nível nacional, o desenvolvimento do Programa e os ganhos em saúde por ele gerados.
A Coordenação Nacional do Programa deverá ser coadjuvada por uma Comissão Técnico-Consultiva, que inclua os parceiros com competência na matéria e um representante da área da Saúde Pública de cada Região de Saúde, os quais deverão reunir regularmente, para garantir a prossecução dos objectivos estratégicos do Programa.
A Coordenação Nacional deverá assegurar a ligação às estruturas europeias com competência na área dos acidentes, nomeadamente, a OMS e a Comissão Europeia.
6.2. Estrutura regional
Para a execução do Programa ao nível regional e local deverá ser designado pelos Serviços de Saúde Pública de âmbito Regional um responsável pela coordenação, implementação e avaliação do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes na respectiva Região, o qual, tem assento na Comissão Técnico-Consultiva da Coordenação Nacional do Programa.
Ao nível de cada Unidade de Saúde Pública deverá ser identificado um ponto de contacto, para a implementação do Programa em cada Agrupamento de Centros de Saúde (ACES).
7.
Parceiros/Recursos
A nível Ministerial, todos que estão relacionados com esta temática, nomeadamente: Ministérios da Administração Interna, da Justiça, do Trabalho e da
Agência Portuguesa do Ambiente, Comissão de Segurança de Bens e Serviços de Consumo, entre outros.
Serão ainda, parceiros, Organizações Não Governamentais, Associações Profissionais ou outras, relacionadas com os acidentes não intencionais.
8.
Áreas de intervenção estratégica
O enquadramento os acidentes no contexto Europeu, nomeadamente, o Global Status
Report on Road Safetyxvi e o Relatório de acompanhamento da implementação da
Resolução EUR/RC/R9 Prevention of Injuries in the WHO European Regionxvii e a
estatística nacional disponível reforçam a necessidade de implementar programas nacionais dirigidos para as seguintes áreas estratégicas de intervenção:
PROGRAMA NACIONAL DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES
Capacitação
Capacitação dos profissionais e dos serviços de saúde Capacitação dos cidadãos
Capacitação de outros sectores profissionais
Crianças e jovens Adultos Pessoas Idosas Intervenção no ciclo de vida P e s s o a s c o m d e f i c i ê n c i a Intervenção em ambientes específicos Casa Creche Jardim-de-infância Escola Espaços desportivos e de jogo e recreio Local de trabalho Espaços desportivos e de lazer Casa Residências para pessoas idosos Intervenção sobre factores de risco
Segurança rodoviária, em especial dos utilizadores mais vulneráveis, os peões
Condução sob influência do álcool, substâncias psicotrópicas e medicamentos
Segurança de produtos e serviços
Informação Criação de um sistema de informação integrado
xvihttp://www.euro.who.int/violenceinjury/injuries/20080229_1
O Programa Nacional de Prevenção de Acidentes operacionaliza-se, através das acções necessárias para a consecução da política de promoção da segurança e prevenção dos acidentes inerente às competências do Ministério da Saúde.
No âmbito do Programa, as acções serão dinamizadas e executadas pelos serviços de saúde, integrados na administração directa do Estado e dos organismos integrados na sua administração indirecta, os quais, prosseguem as suas atribuições nas áreas da: saúde pública e promoção da saúde, prestação de cuidados de saúde, redução dos riscos, reabilitação, investigação, monitorização e vigilância epidemiológica.
O desenvolvimento das acções deverá ser integradas num Plano de Comunicação que criará um fluxo de informação coordenado, que permita colocar a temática dos acidentes na agenda dos decisores, com uma constante disseminação de boas práticas sobre promoção da segurança e prevenção dos acidentes, no domínio do público.
Numa lógica de boa gestão do Programa, há que ter em conta, os projectos existentes e a possibilidade de os integrar e potenciar, sejam eles desenvolvidos por parceiros institucionais ou não.
Considerando, a necessidade de promover a diversificação de intervenções e de intervenientes, que contribuam para a consecução do Programa, sempre que se justifique serão feitos Concursos, Acordos de Cooperação e Protocolos que favoreçam a dinamização e a execução de acções do mesmo.
As acções do Programa Nacional de Prevenção de Acidentes, do Ministério da Saúde, pretendem, ainda, contribuir para a implementação dos documentos estratégicos da Organização Mundial da Saúde e da Comissão Europeia, na senda da execução das suas Decisões e Recomendações.20