DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
BRUNA GARZELLA MICHAEL
UMA, UMA E O TERCEIRO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DA RELAÇÃO MÃE-FILHA
SANTA ROSA 2016
DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
BRUNA GARZELLA MICHAEL
UMA, UMA E O TERCEIRO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DA RELAÇÃO MÃE-FILHA
(As Três Idades da Mulher – Gustav Klimt, 1905)
SANTA ROSA 2016
UMA, UMA E O TERCEIRO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DA RELAÇÃO MÃE-FILHA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, UNIJUÍ, como requisito parcial para obtenção do grau de Psicóloga.
Orientadora: Profa. Me. Iris Fátima Alves Campos
SANTA ROSA 2016
DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
BRUNA GARZELLA MICHAEL
UMA, UMA E O TERCEIRO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DA RELAÇÃO MÃE E FILHA
BANCA EXAMINADORA:
_____________________________________ Profa. Me. Iris Fátima Alves Campos
_____________________________________ Profa. Me. Kenia Spolti Freire
À Alice e Susana pela transmissão da feminilidade.
Aos meus pais, Alice e Plinio, por possibilitarem que eu buscasse as respostas para as minhas perguntas.
À minha orientadora, professora Iris Fátima Alves Campos, por acolher minhas elaborações, pela transmissão da escrita e cuidado com as palavras.
À professora Kenia Spolti Freite por aceitar o pedido de avaliar esta monografia. Ao Gustavo Henrique Maronez, pelo amor.
Aos meus irmãos Susana, João Carlos e Marcelo, pois sei que posso contar com vocês.
À Sula, pelas preciosas conversas e as trocas durante todo o percurso de graduação.
Aos amigos do início, do fim e do meio Elvis, Matheus e Pedro pelas associações na salinha.
Às companheiras deste percurso Taila, Juliane, Ana Paula e Bianca por compartilharem tantos momentos comigo, pela troca de ideias, pela parceria na organização da formatura, e principalmente, pela amizade.
Aos professores pela transmissão, em especial aos meus supervisores de estágios: Simoni Antunes Fernandes, Nilson Heidemann e Janete Teresinha de Aquino Goulart, pois com vocês eu pude construir uma posição ética.
Aos professores Kenia Spolti Freire, Cristian Giles e Gustavo Héctor Brun, seus ensinamentos fizeram base para a elaboração deste trabalho.
À Alessandra, Bruna, Belisa, Carhla e Tatiane pelo laço de amizade de longa data e por compreenderem minha ausência, vocês são especiais!
Aos meus sobrinhos/afilhados Enzo e Miguel, pela ternura, sorrisos e histórias. À Marcele Homerich pela escuta que possibilitou esta escrita entre outras (des)construções.
Não é uma questão de quantidade de amor, cuja medida, aliás, seria bem difícil estabelecer. O que conta é a qualidade do espaço deixado entre mãe e filha e a maneira como ele poderá ser habitado.
(ELIACHEFF; HEINICH, 2004, p. 35)
Onde quer que eu vá Levo em mim o meu passado E um tanto quanto do meu fim Todos os instantes que vivi estão aqui Os que me lembro e os que esqueci Carrego minha morte E o que da sorte eu fiz O corte e também a cicatriz.
(Rita Lee - Meio fio)
Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu. (Goethe citado por Freud, [1913] 1996, p. 165)
Na presente monografia propomos a pesquisa e escrita referente a relação mãe-filha. Apresentamos como problemática central a especificidade desta relação: o fato de a mãe ser ao mesmo tempo objeto de amor e espelho de identificações. O objeto desse estudo é a relação mãe e filha ilustrada no romance “Uma duas”, da escritora e jornalista Eliane Brum, cujas personagens apresentam uma relação extrema de amor e ódio. A metodologia utilizada foi pesquisa em psicanálise. No primeiro capítulo propomos pensar o a relação mãe e filha e o desenvolvimento sexual da menina, tal como Freud propunha, entendendo que a menina tem uma relação pré-edipica com a mãe, sendo esta o primeiro objeto de amor da filha, e também seu modelo identificatório. O segundo capítulo intitulado “O corpo que habito”, tem como fundamento os conceitos de Lacan de alienação e separação para refletir a indifenciação de corpos entre mãe filha, que resulta em identidades fundamentadas a partir do corpo uma da outra. Outros elementos abordados neste capítulo são a transmissão geracional e o fracasso da separação entre mãe e filha. No terceiro capítulo abordamos a transmissão da feminilidade e levantamos a hipótese da escrita como um terceiro que produz uma relação de alteridade entre mãe e filha, possibilitando a elaboração das vivências e o luto da relação que outrora tiveram.
INTRODUÇÃO ... 10
1 A RELAÇÃO MÃE E FILHA E O DESENVOLVIMENTO SEXUAL FEMININO .... 12
2 O CORPO QUE HABITO ... 25
3 O TERCEIRO: ALTERIDADE NA RELAÇÃO MÃE-FILHA ... 37
3.1 A feminilidade e o dom de transmitir o nada ... 37
3.2 A escrita como elaboração ... 43
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 53
INTRODUÇÃO
“Pensamentos são reais”, disse John a Sid. “Palavras são reais. Tudo que é humano é real, e às vezes sabemos coisas antes que aconteçam, mesmo sem ter consciência disso. Vivemos no presente, mas o futuro está dentro de nós a todo momento. Talvez seja isso escrever, Sid. Não é registrar eventos do passado, mas fazer as coisas acontecerem no futuro”. 1
A escolha de pesquisar e escrever sobre um determinado tema diz de uma questão que se coloca como enigma ao pesquisador, algo a ser decifrado. A relação mãe e filha é um universal do feminino, não há como ser mulher e não ter tido uma mãe, um substituto desta, ou mesmo primitivamente, sem ter nascido de um útero. Que relação é essa que marca a vida de uma mulher de forma tão precisa e que faz movimentar a palavra?
“Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre” (BRUM, 2011, p. 14), não podemos negar a potência destas palavras, bem como, a potência da mãe aos olhos da filha. Essa mãe que tudo sabe é responsabilizada pela filha pelo que acontece a esta, inclusive pela “falha” anatômica: a ausência do pênis. Freud chamou a relação mãe e filha de catástrofe, já Lacan a nomeou de devastação. Parece ser unânime a concepção de que esta relação é tortuosa e necessita de cada uma muita habilidade.
A feminilidade não se coloca para uma menina como algo de fácil acesso, e não é a única possibilidade para a sua sexualidade, existem também a via que leva a inibição da vida sexual e a via da masculinidade. Tornar-se mulher é uma construção ao longo da vida, e necessita do auxílio da mãe, através de sua proximidade (alienação, identificação) e seu distanciamento (separação, diferenciação).
A partir da metodologia de pesquisa em psicanálise, esta escrita tem como objetivo levantar questões acerca da relação mãe e filha, tendo como referência as considerações trabalhadas por Freud, Zalcberg, Ribeiro, e outros autores que se dedicaram a pensar sobre esta relação. Para colaborar com a nossa investigação, propomos a análise de fragmentos do romance “Uma duas” da escritora e jornalista
1 Citação retirada do Texto “Riscos e tempos” (RICKES, 2007, p. 65) In: ______. COSTA, Ana; RINALDI, Doris (orgs.). Escrita e psicanálise. Rio de Janeiro: Cia de Freud: UFRJ, Instituto de Psicologia, 2007.
Eliane Brum, cujas personagens têm muito a dizer sobre sua relação. Lembrando que esta é uma relação, e não um universal para todas as relações entre mãe e filha.
Como assinala Soler (2005, p. 91) “Uma coisa é fato: da mãe de quem se fala à mãe que fala, a distância é grande”, da mesma forma, da filha de quem se fala à filha que fala... Ora, as construções que criamos para os personagens que compõe a nossa ficção são da maior criatividade, fantasia e realidade se misturam resultando na verdade do sujeito. É com essa verdade que trabalhamos.
Maria Lúcia e Laura (mãe e filha) escrevem sobre suas vidas como se disso dependessem suas existências. Nós fazemos empréstimo de suas palavras ao longo deste trabalho:
No primeiro capítulo abordamos a relação mãe e filha e o desenvolvimento sexual feminino, a partir da concepção freudiana da relação pré-edípica entre mãe e filha, da mãe como primeiro objeto de amor e modelo identificatório da menina.
No segundo capítulo tratamos da problemática de indiferenciação entre mãe e filha, a partir dos conceitos lacanianos de alienação e separação, bem como da transmissão geracional e do fracasso da separação entre mãe e filha. Entendemos que “Não é por falta de amor, mas o excesso de amor, que pode ser prejudicial aqui, e que clama por um efeito de separação necessário” (SOLER, 2005, p. 94).
Já no terceiro capítulo abordamos a transmissão da feminilidade, bem como a hipótese da escrita como um terceiro na relação mãe e filha, possibilitando a elaborações das vivências, e o luto da relação que mãe e filha outrora tiveram a partir de uma posição de alteridade de ambas.
Seguimos na direção que Auster nos aponta e pensamos a escrita como produtora da possibilidade de fazer as coisas acontecerem no futuro, de movimentar o desejo, e de criação de um si mesmo.
1 A RELAÇÃO MÃE E FILHA E O DESENVOLVIMENTO SEXUAL FEMININO
“Quer machucar a mãe com suas unhas até vê-la sangrar, quer quebrar uma unha no osso da mãe. E logo o remorso, o maldito remorso que sempre vem como uma gastura no estômago. Sua gastrite tem nome e sobrenome e um dia se chamou útero”. (BRUM, 2011, p. 16)
Todos fomos habitantes de um útero, e pode haver quem não tenha, ainda, se questionado sobre os efeitos da relação com a mãe, mas como nos indica Eliacheff e Heinich (2004) o assunto que mais circula entre rodas de mulheres é “a mãe”. “É que o tema é um universal feminino: é verdade, nem todas as mulheres são mães, e nem todas as mães têm filhas; mas todas as mulheres têm uma mãe” (p. XIII). As relações entre mães e filhas são longe de serem iguais, a dinâmica é subjetiva, mas existem pontos da trajetória entre duas mulheres que são notoriamente identificados na maioria das duplas.
Esse ser que deseja um bebê, que o gera, que o acolhe no nascimento, que o educa, que está presente durante toda a vida, ou não, desperta sentimentos ambivalentes na vida de uma menina. Além dessa polaridade amor-ódio, a mãe – com a qual a menina se identifica, e muitas vezes sente-se igual, ou como uma extensão – provoca situações e vivências sem igual para a filha.
Algumas meninas conseguem passar por aquilo que poderíamos chamar de desenvolvimento “normal”, chegando a vida adulta sem muitos danos dessa relação. Outras são afetadas negativamente pela relação com a mãe durante toda a vida, onde a mãe torna-se um empecilho, e a menina quando poderia tornar-se mulher cristaliza-se na posição de filha. Escristaliza-se é o caso de Laura filha de Maria Lúcia, do romance “Uma duas” (2011) da escritora e jornalista Eliane Brum. Maria Lúcia e Laura, mãe e filha personagens do livro, ajudarão a pensar e discorrer sobre essa relação à qual todas as mulheres têm algo a falar.
“Uma duas” traz as instigantes e fortes narrativas de duas mulheres, mãe e filha, que utilizam a escrita - cada uma a sua maneira - como uma forma de expor seus sentimentos, angústias, histórias, entre outros.
Para Eliacheff e Heinich (2004, p. XIV):
(...) a ficção autoriza a generalização e a transmissão, possibilitando um compartilhamento a distância. Dar-se conta do indizível, informulável e até
impenetrável que vivemos, é experimentar um laço com outrem, um possível compartilhamento desses fracassos relacionais que nos isolam, uma possível conexão com experiências plurais ou até coletivas. É o que nos dão, cada uma em seu campo, a empatia da ficção e a racionalização da teoria – ambas se alimentando reciprocamente.
Laura, a filha, e Maria Lúcia, a mãe, quando escrevem não o fazem porque sabem algo e querem deixar um legado para a humanidade. Elas escrevem porque há algo dentro delas, que precisam externar, há uma força interior que as impele a escrever, algo da ordem da urgência que o escrever alivia. Porém, mesmo que ao escrever elas não tenham a menor intensão de deixar um legado, um conhecimento, um saber qualquer aos outros sujeitos, ambas vão trilhando letra a letra, palavra a palavra, uma a uma um saber que lhes é próprio da relação mãe e filha, e acima de tudo, um saber sobre si mesmas:
Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever eu vou quebrando essa criatura esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra. (BRUM, 2011, p. 69)
Freud na conferência sobre a feminilidade de 1933 diz que a primeira distinção que um ser humano faz ao deparar-se com outro, é se o outro é macho ou fêmea e que conseguiria fazê-lo com tranquilidade devido a anatomia dos sexos. A percepção da diferença anatômica provoca consequências psíquicas distintas para meninos e meninas.
O menino, que supõe uma “genitália idêntica (masculina) em todos os seres humanos” (FREUD, [1905] 1996, p. 184), ao ver o órgão genital feminino imagina que o pênis foi tirado dela, pois, “não pode deixar de convencer-se da ausência de um pênis numa criatura assim semelhante a ela própria” (FREUD, [1924] 1996, p. 197). Dessa forma, o menino se vê diante da possibilidade de ele também perder o pênis, ou seja, ser castrado.
A visão da menina do órgão sexual masculino revela uma falta, a falta do pênis, “ela sabe que não tem e gostaria de tê-lo” (FREUD, [1925] 1996, p. 285). A menina sente inveja do pênis, e consequentemente deseja ser um menino:
A diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos do sexo masculino e feminino no estádio que estivemos considerando é uma consequência
inteligível da distinção sexual anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí envolvida; corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que simplesmente foi ameaçada. (FREUD, [1925] 1996, p. 289)
O complexo de Édipo, que se dá por volta dos 4-5 anos, tem diferenças importantes no que se refere aos sexos feminino e masculino. Para o primeiro, a conflitiva edípica é uma formação secundária, sendo o complexo de castração seu antecessor. O segundo, por outro lado, alcança a dissolução do complexo de Édipo pelo complexo de castração. “Enquanto, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do complexo de castração” (FREUD, [1925] 1996, p. 289).
A castração na menina possibilita três caminhos de desenvolvimento: a inibição da vida sexual, a masculinidade, e a feminilidade:
A primeira leva ao afastamento da sexualidade em geral. Assustada pela comparação com os meninos, a garota fica insatisfeita com seu clitóris, renuncia a atividade fálica e, com isso, à sexualidade mesma, assim como boa parte de sua masculinidade em outros campos. A segunda direção consiste em se apegar, com teimosa autoafirmação, à masculinidade ameaçada; a esperança de voltar a ter um pênis mantém viva até uma época incrivelmente tardia, é transformada em objeto de vida, e a fantasia de apesar de tudo ser um homem prossegue, com frequência, atuando em longos períodos da vida. Também esse “complexo de masculinidade” da mulher pode resultar em manifesta escolha homossexual do objeto. Apenas um terceiro desenvolvimento, bastante sinuoso, vem a dar na definitiva configuração feminina normal, que toma o pai por objeto e, assim, alcança a forma feminina do complexo de Édipo (FREUD, [1931] 2010, p.378-379).
Nesse tempo de mudanças na vida da menina, a castração é o ponto nodal da sua sexualidade. Num primeiro momento, a menina vive de forma ativa, ou seja, vive de forma masculina a sua sexualidade, obtendo prazer pela masturbação do clitóris, bem como pelos desejos sexuais em relação a mãe. Acontece que, percebendo o aparelho sexual masculino, a menina se vê em desvantagem, magoa-se e renuncia a satisfação fálica, e também o amor pela mãe. “O afastamento em relação à mãe não ocorre de uma só vez, pois a menina vê sua castração inicialmente como uma desgraça pessoal, só aos poucos a estende a outros seres femininos, por fim também à mãe” (FREUD, [1933] 2010, p.282).
Freud ([1925] 1996) situa algumas consequências psíquicas na menina da inveja do pênis: o sentimento de inferioridade, o ciúme, o afrouxamento da relação com a mãe, e a intolerância à masturbação. O sentimento de inferioridade que invade
a menina, como uma “ferida narcísica” (FREUD, [1925] 1996, p. 287) na medida em que ela supera a ideia de uma punição para si mesma, passa a entender essa condição como um universal, partilhando do desprezo dos homens pelo gênero feminino e procura ser como um homem.
O autor, sobre o ciúme, diz que não é algo único das mulheres, porém, acredita que possa desempenhar um papel mais significativo no psiquismo das mulheres do que dos homens, “isso se deve ao fato de ser enormemente reforçado por parte da inveja do pênis deslocada” (FREUD, [1925] 1996, p. 287). A masturbação do clitóris seria uma atividade masculina, e a sua supressão mostra-se necessária para o desenvolvimento da feminilidade:
Não pode ser outra coisa senão o sentimento narcísico de humilhação ligado à inveja do pênis, o lembrete de que, afinal de contas, esse é um ponto no qual ela não pode competir com os meninos, e que assim seria melhor para ela abandonar a ideia de fazê-lo. Seu reconhecimento da distinção anatômica entre os sexos força-a a afastar-se da masculinidade e da masturbação masculina, para novas linhas que condizem com o desenvolvimento feminino. (FREUD, [1925] 1996, p. 288)
Quanto ao afrouxamento da relação da menina com o seu primeiro objeto de amor, a mãe, observa-se que esse encontra sua justificativa na fantasia de que a mãe, pessoa que a trouxe ao mundo, seria a responsável pela falta de pênis da filha. Freud ([1933] 2010) diz que a evolução normal da menina é mais difícil e complicada que a do menino, pois compreende duas tarefas a mais: a mudança de objeto de amor da mãe para o pai e a passagem da zona principal de prazer do clitóris para a vagina.
Dois fatos chamaram a atenção de Freud na análise de mulheres. O primeiro refere-se a sua forte ligação com o pai, bem como, em uma fase anterior “uma exclusiva ligação com a mãe, igualmente intensa e apaixonada” (FREUD, [1931] 2010, p. 372). O segundo fato mencionado por Freud é a subestimação do tempo de duração desse vínculo entre mãe e filha:
Em alguns casos ele ia até os quatro em um deles até os cinco anos de idade, ou seja, cobria a maior parte do primeiro florescimento sexual. Então foi necessário admitir a possibilidade de que um certo número de mulheres se detém na original ligação com a mãe e jamais se volta realmente para o homem. (FREUD, [1931] 2010, p. 373)
A ligação entre mãe e filha anterior a entrada no complexo de Édipo, Freud ([1931] 2010) nomeia como fase pré-edípica da mulher e diz que essa fase assume
uma importância até então ignorada pela psicanálise. Sendo o complexo de Édipo para a menina o “resultado final de um longo desenvolvimento; não é destruído, mas sim criado por influência da castração...” (FREUD, [1931] 2010, p. 379).
Na história Maria Lúcia e Laura essa ligação pré-edípica é muito explícita:
Na cama de casal onde deveria dormir o meu pai, mas em que dormia eu. Quando meu pai chegava do trabalho, o sol entrando pelos furos da persiana, encontrava no caminho para o corpo da minha mãe a minha carne enroladinha. Ela tem pesadelos, dizia ela. Fui obrigada a trazê-la para a nossa cama. Não sei precisar quando ele desistiu. Apenas passou a dormir primeiro no sofá azul da sala, um dia se transferiu para a minha cama estreita, e estava feito. (BRUM, 2011, p. 33)
Trazer os filhos para dormir na cama do casal é assunto corriqueiro nos consultórios psicológicos. Os motivos para tal ato são os mais diversos, mas aqui duas questões se colocam: o prazer oriundo da relação entre mãe e filha, e o afastamento do terceiro: o pai. Retornaremos a este tema adiante.
Para Freud ([1931] 2010) muitos fenômenos da sexualidade feminina encontram-se na fase pré-edípica: “Há muito notamos, por exemplo, que muitas mulheres escolhem o marido conforme o modelo do pai, ou o põem no lugar do pai, mas repetem com ele, no casamento, a má relação que tiveram com a mãe” (p. 380). Freud ([1933] 2010) diz que a segunda metade da vida de uma mulher é acompanhada da luta contra o marido, da mesma forma que na primeira metade era da luta contra a mãe.
Os homens lhe provocavam desprezo em Laura:
Eu sentia uma pena profunda. Sempre tive esse sentimento pelos homens todos depois dele. Sentia que podia tocar a fragilidade do meu pai com a ponta dos dedos, mas nunca tive coragem de vencer a distância estabelecida desde sempre entre nós. De algum modo eu sabia que meu pai era uma vítima fatal de minha mãe. E como eu era carne prolongada dela, ele era uma vítima também de mim. (BRUM, 2011, p. 35)
Freud ([1931] 2010, p. 387) questiona-se: “o que solicita da mãe a menina? De que tipo são suas metas sexuais no tempo da exclusiva relação com a mãe? A matriz sexual da criança com sua mãe, configura-se como as primeiras vivências sexuais e têm caráter passivo: “ela é amamentada, nutrida, limpada, vestida e ensinada a fazer tudo que deve” (FREUD, [1931] 2010, p. 388).
Segundo o autor, uma parcela da libido da menina continua situada a essas experiências passivas, com toda satisfação relacionada, porém, outra parcela da libido dirige-se a conversão da passividade em atividade. O brincar, para o Freud, assume para a criança a característica importante de viver ativamente o que outrora sofreu de forma passiva:
No seio materno, ser amamentado é substituído por mamar ativamente. Em outros aspectos, criança se contenta ou com a autonomia, isto é, com o êxito em realizar ela própria o que até então era feito com ela, ou com a repetição ativa de suas vivências passivas, ao brincar ou realmente faz da mãe o objeto, ante o qual desempenha o papel de sujeito ativo. (FREUD, [1931] 2010, p. 388)
Freud ([1931] 2010) menciona que a menina acusa ter sido seduzida pela mãe, uma vez que suas primeiras e talvez mais fortes sensações de prazer sejam oriundas do cuidado higiênico da mãe para com a criança. O autor diz que a menina gosta dessas sensações e chega a pedir que as repita, pois esse mesmo ato pode ser entendido pela filha como um ato de cuidado, de amor, pode também, ser entendido e sentido como algo invasivo, como se esse corpo que deveria ser seu é usurpado pela mãe.
Nas palavras de Laura:
Desta vez ela estava furiosa. Queria mais. Minha rendição completa, meu sangue circulando nas veias dela. (...). Demorei apenas um instante para entender o que ela queria de mim quando me mostrou um seio grande e duro como toda ela. Um seio branco que eu achei bonito e aterrorizante como toda ela. Que cheirava sabão como toda ela. Gosto de pensar que fui obrigada, mas sei que parte de mim, a parte que renego em mim, desejou aquele seio. (BRUM, 2011, p. 40)
É interessante que Laura se dê conta que também sente prazer e como diz “deseja aquele seio”, o seio da mãe. Percebe-se que “a filha torna-se com efeito tão dependente da mãe quanto esta o é da filha” (ELIACHEFF, HEINICH, 2004, p. 42). Porém, a simetria entre as gerações é enganosa, a mãe por ser ascendente possui o controle da relação com a criança, sua estrutura:
A mãe age, a filha sofre e, em seguida, por sua vez, esforça-se para manter intacta essa estrutura relacional que, ela teme, seja a condição essencial do vínculo com a mãe, quando na verdade é apenas uma modalidade de vínculo. E sempre que essa estrutura estiver ameaçada pelo surgimento de um terceiro – marido, amante, outro filho, ou qualquer outra paixão –, a filha
assumirá a responsabilidade por sua perpetuação, apesar de tudo. (ELIACHEFF, HEINICH, 2004, p. 42-43)
Logo em seguida podemos perceber a ambivalência de sentimentos de Laura em relação a mãe quando ela diz:
Quando meu pai chegou do trabalho eu ainda mamava o não leite que me envenenaria por toda a vida. Com nojo, com desejo. Sem conseguir escapar nem dela, nem de mim. (BRUM, 2011, p. 40).
A ambivalência é uma característica universal dos sentimentos, sendo “absolutamente impossível ter grande amor por alguém sem que um ódio talvez igualmente grande se apresente, ou vice-versa” (FREUD [1931] 2010, p. 386). Se a filha não conseguir se afastar da mãe, seu caminho para a feminilidade fica prejudicado. “O caminho para o desenvolvimento da feminilidade fica aberto para a menina, desde que não seja limitado pelos resíduos da superada ligação pré-edípica com a mãe” (FREUD, [1931] 2010, p. 392).
Nas palavras de Maria Lúcia:
(...) Laura, como uma galinha, nunca vai muito além do quintal. Sempre cisca perto de casa, perto de mim. Laura é um pintinho que não vira galinha. Não pode nem ir para a panela. (BRUM, 2011 p. 79)
Laura é menina que não virou mulher. A história do nome de Laura vale ser mencionada:
Se eu pudesse, nem mesmo teria colocado o nome de Laura. Para mim seria filha. Mas o pai dela disse que era mais uma de minhas loucuras, e que não era permitido registrar com o nome de filha. Naquela época, eu ainda o escutava, e então dei o nome de Laura, que era o nome de uma galinha de uma história infantil que uma escritora chamada Clarice Lispector escreveu pouco antes de ela nascer. Nunca mais li nada dessa autora, mas senti a compulsão de comprar esse livro ao vê-lo na vitrine da livraria quando estava grávida e pressentia que seria uma menina. A vida íntima de Laura. Não me parecia um conto para crianças, mas ecoava a estranheza daquela criatura dentro de mim, me comendo por dentro por nove meses. Não lembro quem disse, mas isso é um filho. “Aquele que entra em minha casa e não veio de fora”. E se for uma filha, mais tenebroso ainda. (BRUM, 2011, p. 72)
Segundo Zalcberg (2003, s/p) “Ao receber um nome, abre-se a possibilidade para a criança de ter acesso a uma identidade particular a partir da qual poderá situar-se no registro simbólico, na família, na sociedade”. Ora, a vida íntima de Laura situar-se mistura com a da mãe, num dentro e fora que não diz de uma diferença.
Por que mais tenebroso se for uma filha? Ribeiro (2009, p.31), alicerçada pela teoria freudiana, lança uma hipótese a respeito da hostilidade da filha para com a mãe: “A mudança de sentido – da intensa paixão para hostilidade – deve-se a tentativa de diferenciação psíquica entre mães e filhas? Será preciso odiar a mãe para se apartar e, fazendo uso da hostilidade, desidentificar-se?”.
Para a autora, hostilidade utilizada como um recurso psíquico de diferenciação pode, igualmente, “aprisionar pelo ódio, transformando-se numa tentativa naufragada de separação entre mãe e filha”. Nesse sentido, a relação da mãe e filha não está de fora da ambivalência de sentimentos citada por Freud, e é marcada por amor e ódio, que sem equilíbrio, aprisiona ambas.
Cortar um corpo-extensão da mãe é uma tentativa de cortar a própria mãe, corta-se dela na busca por uma separação:
Nunca pude me acostumar com seus cortes. Cada vez que ela se rasga com aquele canivete, meu coração encolhe. Vários centímetros. É quando tenho certeza de que a amo porque temo perdê-la. E, ao contrário do que ela pensa, não temo perdê-la porque não teria mais ninguém para atormentar. Apenas queria que ela não precisasse se cortar. Sei que ela não vai à praia porque seu corpo bonito é uma paisagem de cicatrizes. Pequenas cicatrizes difíceis de explicar. Ou compridas, mas finas, Não como as cicatrizes de cirurgias, que todos perdoam. Eu não entendo porque ela faz isso. E só a deixei partir porque temia que um dia o corte fosse definitivo. (BRUM, 2011, p. 79)
Seguindo as ideias de Freud sobre a ambivalência de sentimentos da filha para com a mãe e de Ribeiro sobre a necessidade sentida pela filha de se diferenciar da mãe psiquicamente, somos levados a perceber que a hostilidade da menina em relação a mãe pode ocasionar uma passagem de objeto de amor, da mãe para o pai.
Como se dá a passagem do objeto de amor? Freud ([1931] 2010) cita uma série de fatores que levam a essa passagem: o ciúme de irmãos e o pai; a ausência de meta no amor, sendo impossível o alcance de sua total satisfação, dando lugar a um comportamento hostil; e o efeito da castração, onde a menina responsabiliza a mãe por tê-la criado sem pênis:
O afastamento em relação à mãe ocorre sob o signo da hostilidade, a ligação materna acaba em ódio. Um ódio assim pode se tornar conspícuo, e durar por toda a vida. Mais tarde pode ser cuidadosamente sobre-compensado; via de regra, uma parte dele é superada, enquanto outra parte persiste. (FREUD, [1933] 2010, p. 275-276)
É a partir da castração que podemos compreender, também, a mudança de zona erógena na menina. “O homem tem apenas uma zona sexual diretora, um órgão sexual, enquanto a mulher tem dois: a vagina, que é propriamente feminina, e o clitóris, que é análogo ao membro masculino” (FREUD, [1931] 2010 p. 376).
Ao descobrir a diferença anatômica, a menina tende a abandonar a masturbação do clitóris, propriamente masculina, bem como abandona a mãe e dirige-se ao pai. Assim, “Ao abandonar a masturbação clitoridiana, a garota renuncia a alguma atividade. A passividade predomina, a virada para o pai é realizada principalmente com a ajuda de impulsos instituais passivos” (FREUD, [1933] 2010, p. 284).
Quando a inveja do pênis acarreta uma potência de inibição da masturbação clitoridiana e esta não quer cessar, inicia-se uma violenta tentativa de libertação, onde a menina assume o lugar da mãe deposta e manifesta sua grande insatisfação com seu órgão sexual. O ato de masturbação do clitóris, depois de tempo suprimido, pode ainda, manifestar interesse, o qual, Freud ([1933] 2010) interpreta como uma defesa contra uma tentação temida: “Manifesta-se na simpatia por pessoas a que são atribuídas dificuldades semelhantes inscreve-se entre os motivos para contrair casamento, podendo mesmo determinar a escolha do parceiro de vida ou de amor” (FREUD, [1933] 2010, p. 284).
Para Freud ([1933] 2010) se a menina consegue abandonar a masturbação está renunciando a uma parcela de atividade. O predomínio da passividade possibilita que a menina se volte ao pai, indo em direção à feminilidade. Segundo o autor, o desejo com que a menina vai em direção ao pai é, provavelmente, o desejo pelo pênis que a mãe não lhe deu, e a menina imagina recebê-lo do pai.
A feminilidade só encontra lugar quando “o desejo pela criança substitui o desejo pelo pênis, ou seja, quando a criança, conforme uma velha equivalência simbólica, toma o lugar do pênis” (FREUD, [1933] 2010 p. 284). Segundo Freud na fase fálica a menina já tinha desejado um bebê, notoriamente percebido nas brincadeiras com bonecas. Porém, alerta que nesse tempo, a brincadeira dizia de uma identificação com a mãe, na tentativa de realizar ativamente o que viveu de forma passiva:
Ela brincava de mãe, e a boneca era ela mesma; podia fazer com o bebê tudo o que a mãe costumava fazer com ela. Só com a emergência do desejo do
pênis o bebê-boneca torna-se um bebê do pai, e, a partir de então, o alvo mais forte do desejo feminino. (FREUD, [1933] 2010, p. 284-285)
Sobre o primeiro objeto de amor, situando o complexo de Édipo no menino “vemos a criança ligada afetivamente a genitor do sexo oposto, enquanto na relação com o de mesmo sexo predomina a hostilidade” (FREUD, [1931] 2010, p. 372). Ou seja, a mãe é o primeiro objeto de amor do menino e o pai seu rival.
A situação da conflitiva edípica na menina é diferente: “Seu primeiro objeto de amor foi também a mãe, certamente. Mas como ela acha caminho até o pai? Como, quando e por que ela se desprende da mãe?” (FREUD, [1931] 2010, p. 372). A menina afrouxa a relação com a mãe porque percebe que não é possível viver apenas com o que a mãe dá, e a situação ainda se complica, existe algo que a mãe não pode lhe dar: o falo.
Laura conta que não conseguia aceitar a possibilidade de viver sem a presença do pai. Quando conseguia escapar de sua mãe ia ver seu pai construir o mundo de madeira, alumínio, papelão e retalhos com as mãos:
Era um mundo de brinquedo, mas eu não podia brincar. Minha mãe dizia que meu pai não gostava que mexessem no mundo dele. E meu pai nunca disse outra coisa. Nunca disse nada. Só um dia, quando terminou de construir a ponte sobre o fosso do castelo, ele se alterou. Era mesmo bonito aquele castelo medieval. Me chamou duas oitavas acima de sua voz costumeira. Laura. Venha cá. Como um ratinho eu emergi da minha toca e dei uns passos hesitantes até a mesa de sua oficina. Venha ver. Ao me aproximar, ele me botou no colo. Olha, esse é o seu castelo. Fiz para você nunca esquecer que é uma princesa. Mas só levante a ponte se tiver certeza das boas intenções de quem entra. Minha cabeça se esvaziou. Mais tarde eu intuiria que aquilo era felicidade. (BRUM, 2011, p. 35)
O que caracteriza a entrada da menina no complexo de Édipo é a transferência do desejo de bebê-pênis para o pai. A mãe passa, então, de objeto de amor para a rival, pois “recebe do pai tudo que a menina cobiça dele” (FREUD, [1933] 2010, p. 285). A entrada da menina no complexo de Édipo tem, então, um duplo objetivo:
Se a menina renuncia à satisfação ativa dirigida inicialmente à mãe – a primeira tarefa lhe cabendo para tornar-se mulher – não seria somente visando voltar-se para o pai, mas, sobretudo, para afastar-se da mãe, para poder deixa-la. Essa separação com a mãe, a constituir a segunda tarefa à menina em seu processo de tornar-se mulher, também não se mostrará tarefa fácil. (ZALCBERG, 2003, s/p):
Segundo a autora, para que a menina consiga sair do relacionamento exclusivo com a mãe ela precisa demandar algo ao pai. Como mencionado anteriormente, a menina pede ao pai um filho, filho equivalente ao pênis. Essa demanda é simbólica, não realizável, mas que deve permanecer no desenvolvimento sexual até que a menina tenha condições de fazer a renúncia.
O que pode acontecer quando a menina não sente por parte do pai que há uma sustentação de seu desejo em ter um filho? Um caso freudiano que serve de exemplo é o da “jovem homossexual”:
Uma bela e inteligente jovem de dezoito anos, pertence a uma família de boa posição, despertara desprazer e preocupação em seus pais pela devotada adoração com que perseguia certa “dama da sociedade” cerca de dez anos mais velha que ela própria. (...) Não se preocupava mais com os estudos, não se interessava por funções sociais ou prazeres de moça e mantinha relações apenas com algumas amigas que podiam auxiliá-la na questão ou servir-lhe de confidentes. (FREUD, [1920] 1996, p. 151)
Freud relata como de grande importância nesse caso, o fato de a jovem, em seu comportamento, adotar um posicionamento masculino, “apresentava a humilde e sublime características do amante masculino, a renúncia a toda satisfação narcísica e a preferência de ser o amante e não o amado” (FREUD, [1920] 1996, p. 158).
Freud descreve que no período em que a moça estaria elaborando sua demanda de amor e desejo ao pai, a mãe engravida. Zalcberg (2003) diz que a menina, decepcionada pelo pai não ter sustentado a demanda, busca mostrar ao genitor de que forma um homem deveria amar uma mulher. Dessa forma, a menina passa por uma mudança extrema em sua posição subjetiva: “em vez de continuar sendo a que pede um dom ao Outro, a adolescente passa a ocupar o lugar desse Outro: a que oferece. A jovem quer mostrar ao pai como se deve amar uma mulher: amá-la pelo que ela não tem” (ZALCBERG, 2003, s/p).
Se para o pai o relacionamento da filha com a dama era inadmissível, por outro lado, a mãe não parecia se importar. Freud ([1920] 1996, p. 161) diz que:
(...) as mães com filhas em idade próxima de casar geralmente se sentem embaraçadas em relação a elas, e as filhas capazes de sentir pelas mães uma mescla de compaixão, desprezo e inveja, que em nada contribui para aumentar sua ternura com elas.
O autor continua seu texto dizendo que a mãe da jovem homossexual via na filha uma rival, favorecia os demais filhos em prejuízo da moça, impunha limites na
sua liberdade, bem como a vigiava impossibilitando uma relação mais próxima entre filha e pai.
Era também assim com Laura:
Meu pai se levantava, vestia suas calças marrons de ficar em casa, abria a geladeira e aquecia o prato que ela deixava. Minha mãe estava lá, mas não vinha. Eu sentava na outra ponta da mesa de fórmica da cozinha e ficava olhando-o comer. Ele mastigava muitas e muitas vezes cada bocado e um dia me explicou que era preciso mastigar 98 vezes de cada vez, para ajudar o estômago na digestão da comida e manter a saúde. Fiquei aliviada. Então era por isso que ele não conversava comigo. Eu nem mesmo queria que ele falasse. Não sei se foi aí que começou, mas sempre tive medo das palavras. Das pronunciadas. Preferia ficar ali, compartilhando o silêncio do meu pai. Não durava muito. Minha mãe aparecia na porta da cozinha com olhos acusadores e arranjava algo para eu fazer longe dele. Ele não discutia. Acho que meu pai desistiu de mim antes mesmo de eu nascer. (BRUM, 2011, p. 34)
Segundo Freud ([1920] 1996) em sua mudança de posição subjetiva, a jovem acolheu a mãe como objeto de amor no lugar do pai. E a dama da sociedade, ocupava o lugar de mãe substituta, com quem a moça teria possibilidade de um vínculo amoroso. Ainda, existe mais um motivo para a mudança de posição:
(...) um motivo de ordem prática para essa mudança, derivado de suas relações reais com a mãe, que serviu como um novo ganho [secundário] à sua doença. A própria mãe ainda ligava grande valor às atenções e à admiração dos homens. A jovem, tornando-se homossexual e deixando os homens para a mãe (noutras palavras, ‘se retirando em benefício’ dela) poderia afastar algo que até então fora parcialmente responsável pela antipatia da mãe. (FREUD, [1920] 1996, p. 162)
Percebe-se, a partir dessas observações, o quanto a relação pré-edípica da menina com sua mãe tem resquícios na sexualidade adulta da filha. Nesse caso de forma negativa, pois a filha não consegue fazer-se valer de sua sexualidade sem referir-se a mãe, como se elas disputassem algo em comum. Além de um modelo identificatório, a mãe da jovem homossexual marcou a vida pré-edípica da filha de tal forma que não há como fugir de sua onipotência.
Laura aposta na aliança com o pai, na tentativa de fugir da onipotência da mãe:
Eu queria que a história acabasse ali. Queria dizer ao meu pai que deveríamos correr para dentro do castelo e deixar minha mãe de fora. Tem jacarés neste fosso?, perguntei. Tem uns jacarés bem grandes, com dentes afiados. Se alguém tentar atravessar o fosso, os jacarés vão comer essa pessoa? Vão estraçalhá-la, ele garantiu. Os jacarés comem os homens maus. E também as mães, eu pensei. (BRUM, 2011, p. 35)
Tal como no caso da jovem homossexual, o pai de Laura não conseguiu sustentar o desejo da filha:
Não sei por quanto tempo ela esteve lá. Na porta da oficina. Os olhos de lâmpada de interrogatório policial. Venha até nosso castelo, eu queria dizer. Mas no fundo eu sabia que minha mãe comeria todos os jacarés, como nos comia vivos um por dia. Agarrei a mão do meu pai. Vamos fugir para dentro do castelo, eu disse. Disse de verdade. Só nós dois, agora. Mas meu pai já não era o cavalheiro andante com o coração de leão. Ele temia o dragão negro. Apenas disse. Vá com a sua mãe. Eu soube ali que estávamos perdidos. Deixa seu pai trabalhar em paz, ela disse. E para ele. Está na hora de você se aprontar para o trabalho. (BRUM, 2011, p. 39)
A filha estava entregue para ser devorada pelos jacarés, ou se quiser, pode chama-los, também, de mãe.
2 O CORPO QUE HABITO
“Escrevo na esperança de que as palavras me libertem do sangue. Do corpo da mãe. Mas e se não existir eu além dessa mistura de carnes de mãe e de filha? Me sinto deslizar para o buraco negro do corpo dela, cega e minha faca esgrima no ar”. (BRUM, 2011, p. 16)
Existem ditados populares como “filho de peixe, peixinho é”, “a fruta não cai muito longe da árvore”, “tal mãe, tal filha” que dizem de uma condição de semelhança entre duas pessoas, geralmente, de uma mesma família. A similaridade com alguém é necessária para a subjetivação, para a construção da identidade.
Embora a formação de nossa identidade seja fundamentada em traços que tomamos de outros sujeitos há a necessidade de compreensão da diferença entre o eu e o outro, de um semelhante e não igual. Existem sujeitos que se confundem nessa dimensão eu e outro, e não conseguem fazer essa distinção, uma incapacidade de demarcar a diferença, uma separação. Para Eliacheff e Heinich (2004) a filha apresenta uma especificidade na relação com a mãe, pois, esta além de ser sua genitora é também sua semelhante, ambas são mulheres.
Em seu ensino, Lacan ([1964] 1998) propõe dois conceitos estruturais para a constituição psíquica do sujeito, que chamou de operações de causação do sujeito: a alienação e a separação.
Trata-se do vel da primeira operação essencial em que se funda o sujeito. (...) pois não se trata nada menos que essa operação que podemos chamar de
alienação. (...) Esta operação segunda é tão essencial de ser definida quanto
a primeira, porque é aí que vamos ver despontar o campo da transferência. Eu a chamarei, introduzindo aqui meu segundo termo, a separação. (p. 199-202)
Por alienação entende-se a condição do recém-nascido em relação ao desejo e aos significantes do Outro, ou seja, a mãe. Zalcberg (2003, s/p) diz que:
(...) a alienação, como um processo de constituição do sujeito, resulta do seu desconhecimento fundamental quanto à verdade de seu ser. Essa alienação também existe no registro do imaginário, pela dependência da criança do que se desenrola no outro com o qual ela entra em contato desde o início da vida. A criança depende, de início, do assentimento do outro para reconhecer-lhe um corpo.
Já a separação vem num segundo momento, opera no vínculo entre mãe e criança possibilitando que a última saia da posição de dependência total do agente materno.
Segundo a autora, a articulação entre essas duas operações da constituição, alienação-separação, apresenta formas particulares na constituição da menina. Para a autora, a alienação da menina com o desejo da mãe possui uma certa continuidade, “essa espécie de alienação ao desejo do outro materno traz dificuldades de uma filha separar-se da mãe, erigindo um desejo próprio, podendo ser dito seu” (ZALCBERG, 2003, s/p).
Zalcberg (2003) nos indica que a mãe situada como o Outro, não está numa condição de sujeito, comportando vários aspectos determinantes para o bebê: “elevada à categoria de Outro, não é este Outro. Ela apenas o encarna” (s/p). Essa alienação ao Outro é fundamental para o desenvolvimento do psiquismo, porém, é chegada a hora que o sujeito percebe que o “Outro não existe enquanto tal” (ZALCBEG, 2003, s/p).
Lacan ([1964] 1998) escreve sobre o conceito de separação:
Separare, separar, irei logo ao equívoco de se parare, se parer, em todos os
sentidos flutuantes que tem em francês, tanto também vestir-se quanto defender-se, munir-se do necessário para se pôr em guarda, e irei mais longe ainda, no que autorizam os latinistas, ao se separe, ao engendrar-se de que se trata no caso. Como, desde este nível, o sujeito terá que se procurar? – aí está a origem da palavra que designa em latim o engendrar. Ela é jurídica, como aliás, coisa curiosa, em indo-europeu, todas a palavras que designam
pôr no mundo. A própria palavra parturição se acha originar-se numa palavra
que, em sua raiz, não quer dizer outra coisa senão procurar um filho para o marido, operação jurídica, e, digamos logo, social. (p. 202-203)
A separação compreende o “parto do sujeito”, quando a criança engendra-se, põe-se no mundo, um mundo que só o pai pode oferecer, mas que necessita que a mãe faça um endereçamento da filha ao pai, dar ao pai uma filha e vice-versa. Além disso, o pai é quem trará para a criança algum significado sobre o significante materno: “é essa a função simbólica fundamental do pai: trazer significado para o significante do desejo da mãe, até esse momento vivido como enigma” (ZALCBEG, 2003, s/p).
Aludindo ao ensinamento de Lacan, Zalcberg (2003) diz que pela lógica do significante, um significante precisa se referir a outro significante para que seja possível uma significação. O desejo da mãe, como significante primordial (S1), necessita ser substituído por outro significante (S2), o significante do pai de nomeação
do desejo da mãe. “Até que o pai possa ajudá-la a lidar com essa questão, fornecendo algum significado para o desejo materno, a criança procura oferecer à mãe o objeto que esta supostamente deseja” (s/p). Além disso, a criança identifica-se com o objeto de desejo da mãe em uma tentativa de ser amado.
Nas palavras de Lacan ([1964] 1998, p. 207):
É no intervalo entre esses dois significantes que vige o desejo oferecido ao balizamento do sujeito na experiência do discurso do Outro, do primeiro Outro com o qual ele tem que lidar, ponhamos, para ilustrá-lo, a mãe, no caso. É no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela diz, do que ela intima, do que ela faz surgir como sentido, é no que seu desejo é desconhecido, é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito.
Zalcberg (2003, s/p) propõe que a “entrada simbólica do pai nessa relação mãe-criança proíbe-a de continuar nessa posição submissa ao desejo da mãe (...) ele nomeia o objeto de desejo da mãe: o falo”. Ora, uma vez nomeado, o desejo da mãe deixa de ser um enigma para a filha. Para a autora, é essa nomeação do desejo do Outro que emancipa a criança da alienação materna, lança-a, ao mesmo tempo, a questão sobre o seu ser, uma vez que perde a condição de ser o falo da mãe.
Antes de Laura, Maria Lúcia havia gerado, dado à luz e assassinado quatro filhos:
É um filho, você vai ter um filho. Um bebê saudável pra gente poder amar. Eu não compreendia. Como eu poderia? E um dia aquela coisa me arrebentou e saiu de mim. Em casa, porque o ratinho tinha medo não sei do quê. (...) E me lembro de ter me surpreendido de estar viva quando acabou. Olhei para o monstrinho sanguinolento e tive tanto nojo. Era um ratinho também. Constatei que tinha aquela coisa no meio das pernas e um dia iria tentar se enfiar em mim como o pai dele. O monstrinho júnior se arrastava sobre meu corpo e queria sugar os meus seios. O monstrinho pai dizia que eu precisava deixar, mas eu não deixei. Não mesmo. Aquela coisa já tinha me sugado por dentro uma eternidade e, agora que saiu, queria me sugar pelo lado de fora. (...) Quando ele saiu para trabalhar, e eu tive forças para me arrastar, peguei o pedaço de carne e afoguei na privada. Sim, eu fiz isso. E nunca me arrependi. Só descobri que estava absolvida quando li uma reportagem de Laura sobre depressão pós-parto. Não me importei. E nunca me senti culpada por isso. Fiz outras três vezes. (...) O último eu mesma enterrei no quintal. Quando ele voltava para casa, plantava uma árvore por cima, para marcar o lugar. Como se isso o absolvesse do crime de ter enfiado um bicho dentro de mim. Um ipê amarelo, uma primavera, uma quaresmeira e um limoeiro. (BRUM, 2011, p. 141-142)
O que o pai quer dizer ao plantar uma árvore no lugar onde enterrou seus filhos? Talvez tenha sido uma tentativa de dizer do desejo de ter filhos e de tê-los todos vivos. “Eram doces aqueles limões, mas o bobão nunca tomava a minha
limonada” (BRUM, 2011, p. 142), o pai não devorava os filhos. Para o pai o limite de si mesmo com o corpo dos filhos estava claro.
Maria Lúcia não tinha conhecimento sobre sexualidade. Sem a presença da mãe e com um pai que não falava muito, nem mesmo a deixava sair de casa, aprendeu fazendo. Sua relação com o marido também não era nada convencional, simplesmente ela abriu as portas de casa e ali ele ficou. Nas suas palavras:
Uma vez só eu perguntei. Por que eu? Ele me olhou com uns olhos de corça, e só naquele momento eu reparei que tinha olhos bonitos. Porque alguém precisava cuidar de você. E eu queria cuidar de alguém. (BRUM 2011, p. 114)
Maria Lúcia diz que a criança que acabara de nascer era um ratinho, assim como o pai tinha “aquela coisa no meio das pernas, o pênis, e que iria querer se enfiar nela assim como o pai. Questionamos se a aceitação do nascimento de Laura tenha sido porque ela como menina, não tinha a possibilidade de “se enfiar” na mãe, assim como o pai, e como os irmãos no imaginário da mãe. Em contrapartida, nesse suposto imaginário, há a construção de que a filha, enquanto menina, poderia ter o mesmo destino da mãe:
A verdade é que amei Laura. Apesar de tudo. E a salvei de mim mesma por amor. Era isso o que eu fazia muito mais tarde, quando dava o meu peito e quase fui parar na cadeia. Eu tentava compensar. Era por isso que não gostava de ver o pai dela por perto porque eu sabia que o podia acontecer quando ele se esgueirava pelas paredes como um rato. Eu não queria nenhum ratinho cinzento nem de cor alguma se enfiando na cama da minha filha. (...) O que quero dizer é que não é porque a gente não saiba como fazer as coisas do jeito certo que a gente não ame. (BRUM, 2011, p. 144)
Um elemento ainda não mencionado que merece destaque para pensarmos a indiferenciação entre mãe e filha é a relação de Maria Lucia com sua mãe, ou seja, a avó de Laura:
Bem ou mal só sei que tive vida quando vejo Laura carregando suas cicatrizes pela casa. E eu tive uma vida. E não tive uma mãe. Talvez seja por isso que eu não tenha sido uma boa mãe. Eu nunca soube o que uma mãe deve fazer. A minha morreu no parto. No meu parto. (BRUM, 2011, p. 80)
Maria Lúcia nos diz de uma falta de referência materna, de um não saber sobre a maternagem. “Transmitir a vida implica aceitar tê-la recebido do pai e da mãe tal como são, tal como foram” (ELIACHEFF, HEINICH, 2004, p. 256), assim, se o corpo
da mãe morre ao nascer do seu, é possível tornar-se mãe? Que marcas esta cena deixou no psiquismo de Maria Lúcia? O corpo da mãe morta será carregado por toda a vida? E de um corpo marcado pela morte, é possível a vida? Ainda, que falta fez a Maria Lúcia o corpo da mãe? Que dor carregou pela dor da mãe, que morreu quando ela nascia?
Para aquelas que não conheceram a mãe (morte, abandono, adoção) e que se tornam mães, essa ausência às vezes se torna obsedante, pela dor e saudade que provoca; mas o fato de pensar ou repensar nisso é inevitável, e talvez desejável. Entre o anúncio da gravidez e o nascimento da criança, seja qual for o lugar que o pai ocupe, há uma especificidade da relação mãe-filha: ela concerne ao reconhecimento da dívida de vida por parte da filha, à transmissão por parte da mãe e, para ambas, à redefinição dos lugares geracionais, abrindo uma possibilidade de reajuste de uma em relação à outra, graças a chegada de um terceiro cujo lugar está marcado simbolicamente – mas nem sempre fácil de respeitar, nem para uma nem para outra. (ELIACHEFF, HEINICH, 2004, p. 263)
Zalcberg (2003, s/p) diz que “a relação de uma mãe com sua filha guarda sempre uma marca da sua relação com a própria mãe”. Por morrer no parto a avó de Laura deixa Maria Lúcia no vazio de referência do feminino e da maternagem. A maternagem não é situada somente no nível biológico “de transmissão da vida: é também transmissão de uma identidade de mãe” (ELIACHEFF, HEINICH, 2004, p. 246).
Ainda, a mãe de Maria Lúcia deixou-lhe a morte, que se atualiza no destino de todos os que nasceram do ventre de Maria Lúcia. Laura, apesar de ser presenteada com a vida, vive-a colada com a mãe, como uma extensão dela. Que vida é possível quanto não se tem espaço para existir enquanto sujeito, separado da mãe?
Há aí uma falha na transmissão. Como ser mãe sem ter tido a presença da mãe? Maria Lúcia construiu sua maternagem a partir dos elementos que tinha. Porém, a falha na transmissão também pode ocorrer quando a mãe recusa que a filha tenha um filho.
Segundo Eliacheff e Heinich (2004) os motivos que levam a mãe a colocar um entrave na maternidade da filha tem diversas razões: preservação do nome da família, em casos de nascimentos ilegítimos; medo do envelhecimento e de tornar-se avó; e a vontade de manter certa dominação sobre a filha, que deve continuar nessa condição: “Manter a qualquer preço a filha em estado de “filha”, de modo que conserve intacta a relação delas: é o que parece animar a mãe na recusa radical de que a filha possa ter um filho” (p. 253). Cada nascimento reposiciona a geração anterior:
Em termos mais gerais, é para a falha de transmissão, que coloca as crianças em perigo de não sobreviver, ou de não nascer, que nos alerta Chapeuzinho
Vermelho, na interpretação Yvonne Verdier mencionada na introdução: risco
de que a cada geração, cada mulher não consiga ocupar devidamente seu lugar cedendo-o para a seguinte; e que quando núbeis as netas sejam devoradas pela avó quando a mãe as manda ao seu encontro, dando a entender que cada uma tem a sua vez, pois, se é tempo da filha tornar-se mulher, é tempo da mãe se tornar avó e de a avó se preparar para a morte. (ELIACHEFF; HEINICH, 2004, p. 254)
Para a autora a dívida simbólica com o pai é o preço a pagar por ter passado pela castração, já “a dívida com a mãe paga-se diferentemente, ou com o próprio corpo ou com o corpo de sua criança, em uma tentativa de se separar da mãe” (s/p). Uma irmã para que a mãe se fusionasse a ela e deixasse Laura livre, seria uma resolução possível?
No dia que abri o primeiro sorriso na minha barriga, logo depois do prazer vigoroso do corte, iniciou em mim uma dor excruciante. Como se alguém enfiasse duas mãos grandes dentro do meu corpo e abrisse com elas as minhas costelas. Achei que sairia de mim um bebê, uma irmã gêmea e monstruosa como uma história que ouvi uma amiga contar uma vez numa roda de crianças, alto o suficiente parra eu escutar do canto onde me escondia no recreio. Uma prima de uma tia descobrira um feto ao fazer uma cirurgia de apêndice. Uma irmã gêmea, segundo o médico, que não tinha se desenvolvido e ali restara até aquele dia. (...) Começou ali. Como tudo em mim, meu corpo aberto por uma literalidade, à faca. Mas o que sairia dali, agora que já estava feito? Eu desejava e temia. A outra filha escondida, e que minha mãe aspirada com seu faro de bicho. Se eu entregasse outra, será que ela me deixaria viver fora dela? (...) O sangue escorria no vão das minhas pernas. Procurei minha irmã gêmea no chão do quarto, mas só havia aquele sangue grosso, quase negro. Enfiei os dedos como um animal cheirei e lambi. E era quente e tinha um gosto diferente do meu. Nesse instante minha mãe abriu a porta e me viu no chão com os dedos encanados. Eu matei sua outra filha de novo, eu queria dizer. Sua filha boa. O monstro era eu. Mas tive medo de falar. Seu olhar desceu pelo meu corpo e estancou nas minhas pernas. Ela abriu a boca. Não num sorriso, mas num esgar. E disse. Então agora você é mulher. O parto, afinal, era o meu. (BRUM, 2011, p. 90-91)
Laura não tinha uma irmã para entregar à mãe onipotente, mas nascia ali uma possibilidade de transitar por uma nova vida, agora como mulher:
Dias depois os cabelos começaram a crescer de novo em minha cabeça. Não mais castanhos, como antes, mas vermelhos. Não alaranjados, como os de tantas ruivas. Mas vermelhos. Não mais lisos, mas em cachos. Fortes. Não há ninguém com o cabelo assim na minha família, minha mãe acusou. (...) Eu amei meu cabelo desde o primeiro fio. E nunca deixei ninguém, nem mesmo ela, cortar. (BRUM, 2011, p. 93)
Segundo Ribeiro (2009) o fracasso da separação entre mães e filhas pode ser transmitido entre as gerações. Com o nascimento de uma filha menina, a mãe revive
de forma intensa a sua trajetória nos caminhos da feminilidade. A dupla “mãe-filha que estava no palco da geração anterior, é novamente atualizado; as violentas ambivalências podem durar gerações” (p. 54).
Talvez não seja possível encontrar palavras mais claras do que as de Laura, ao fazer mais ou menos as mesmas perguntas:
Será que a morte da mãe é a vida da filha? Será que a vida da mãe é a morte da filha? Naquele tempo eu já sabia que não havia espaço para nós duas na mesma vida, no mesmo corpo. Uma de nós precisava morrer. E eu queria viver. (BRUM, 2011, p. 134)
Maria Lúcia também diz algo sobre a vida:
Ainda me parece incrível que alguém como Laura tenha saído de dentro de mim, que qualquer coisa viva tenha saído de dentro de mim. E mesmo Laura quando saiu de mim, saiu sem som. O médico achou que estava morta. Porque lhe dava tapas cada vez mais fortes, e ela não reagia. O médico a espancava, e ela não reagia. Mas a enfermeira garantiu que ela respirava. O médico então achou que ela tinha algum retardo mental e me disse isso com muito tato depois que ela abriu os olhos sem um gemido. Mas eu sabia o que ele não poderia saber. E ali comecei a desconfiar que ela era minha. Minha criatura. Uma dinastia de mulheres destinadas a viver sem palavras. (BRUM, 2011, p. 88)
Podemos notar que Laura só foi identificada como filha no momento em que um traço de semelhança entre as duas, a ausência de palavras, se apresenta. Mesmo viva, Laura é tocada por um traço que é morte:
Então veio Laura. Mas eu não sabia que era Laura. E passei a gravidez inteira fingindo não notar a barriga. Mas na hora de ela nascer, ela não nascia. Comecei a ficar sem ar e arroxear. O ratinho cinzento teve que me levar para o hospital. E foi lá que Laura nasceu sem emitir som. Quando voltamos para casa, o homenzinho disse que se eu a matasse seria presa, porque ela estava registrada. E naquela gravidez eu tinha saído de casa porque tive vontade de me mostrar para as pessoas, não sei por quê. Queria que elas me vissem. Eu não tinha medo de ser presa porque sabia que não era errado. Era a minha filha, não era? Eu podia fazer com ela o que bem entendesse. Não era na barriga dele que ela tinha crescido nem era dele que ela tinha se alimentado. Quando o homenzinho foi para o trabalho me implorando para não fazer nada de mal, eu levei Laura até a privada para afoga-la. E quando enfiava a cabeça dela dentro da água, ela não berrou como os outros. Laura me olhou. Só me olhou. E aí eu preciso confessar que senti uma coisa diferente. De algum modo aquele monstrinho sabia quem eu era. E eu não pude. Queria, mas não pude. Abracei-a com cuidado e fiquei lá, no chão do banheiro, me balançando para frente e para trás. Foi lá que que o pai dela nos encontrou. E sua alegria quase me fez afogá-la de novo. Mas eu sabia que não conseguiria. Acho que era amor, mas só soube o nome muito tempo depois. (BRUM, 2011, p. 143)
O que Maria Lúcia viu nos olhos de Laura?
A única palavra que eu quis escrever, nascida do meu desejo. Sim, porque você não nasceu porque o seu pai se enfiou dentro do meu corpo paralisado. Você nasceu quando olhou para mim, e eu me vi no seu olhar. E desejei que você vivesse. Você é tudo o que eu sinto de vivo em mim agora que morro. Laura. (BRUM, 2011, p. 146)
Maria Lúcia viu a si mesma. Será que ela já havia se visto nos olhos de alguém antes? Nos olhos da mãe sabemos que não. Maria Lúcia diz:
Laura Laura Laura, se eu não puder olhar para você como vou saber que existo? Foi isso que aconteceu ali, na privada, quando você olhou para mim. Ninguém tinha olhado para mim antes. Não como você, Laura. E todos esses anos em que atormentei você e fiz quase tudo errado, o que eu queria era só que você continuasse me olhando para que eu pudesse saber que existo, que tinha um corpo e que podia viver. (BRUM, 2011, p. 145)
Segundo John (2015, p. 54) “É preciso adotar os filhos biológicos. Isso não se dá automaticamente por tê-los carregado no ventre. Há sempre um trabalho, para cada sujeito, em maior ou menor grau, de poder construir um mito de origem”.
Laura nasceu do desejo, mas desejo de que? O que uma mãe deseja da/para a filha? Para Eliacheff e Heinich uma mãe deseja para a sua filha aquilo que não recebeu de sua própria mãe: “O que você acredita me dar, é para você mesma que você dá por não ter recebido da sua própria mãe; por isso não posso nem recebê-lo, nem retribuir” (p. 269).
Não são raros os casos de pais que são excluídos das vidas de suas filhas, seja por uma ausência real, ou porque a mãe não permite uma aproximação muito significativa. Eliacheff e Heinich (2004) vão falar em incesto platônico para se referir a essa exclusão do terceiro:
Numa relação mãe/filha do tipo incestuoso, é o pai que está excluído. Também aí, é porque a mãe não se dirige mais a ele para ocupar seu lugar genealógico que a relação pode ser qualificada de incestuosa. Para isso, basta não deixar “um lugar para o pai”, segundo o título dado por Aldo Naouri a um de seus livros. Basta, por exemplo, contentar-se em “desejar” a criança sem desejar o pai, ou que seu próprio pai seja então destronado num psiquismo materno em que só há um lugar para dois... Basta, em outras palavras, reduzir o pai ao papel de genitor, ou mesmo de gameta como na inseminação artificial com doador (que, lembraremos, continua proibida na França para mulheres solteiras). (p. 36)
De acordo com Tavares (1999) as mulheres ficam fascinadas diante do pediatra, do pedagogo, do psicanalista, pois, o saber de tais profissões a iludiriam de que não precisariam de um pai para seus filhos: “A ciência vem assim a prometer um saber que permitiria prescindir o saber paterno. Eis que surge uma mãe que não precisaria de um pai, ou seja, surge a mãe de proveta” (p. 72).
Segundo a autora, uma onda de mães politicamente corretas tomou conta do país na década de 90, salvando as histórias infantis, como por exemplo, o final da história da chapeuzinho vermelho, e alerta: “Mas aqui surge o impasse, se escaparmos do lobo mau, qual lugar nos restará? Será que não acabaremos, nós mesmos, na barriga da mamãe?” (p. 73).
Soler (2005) aponta a mãe ou seu substituto como o único vínculo estável na vida da criança:
Daí uma configuração se torna muito comum: uma mãe com seu filho ou filhos, acrescida, vez por outra, de um homem – ou uma série de homens que se sucedem –, ao qual se dá o nome de “companheiro da mamãe”. Obviamente, as configurações concretas são múltiplas e variadas, mas a mobilidade dos laços sociais e amorosos dá ao cara-a-cara da criança com a mãe um peso novo na história, o qual não pode deixar de ter consequências subjetivas. (p. 88)
Na trama de “Uma duas” o pai, vai embora:
Meu coração batia no estômago desde que meu pai me abandonara. Batia com ódio. Em seguida disparava de arrependimento. Meu pai tinha sido derrotado primeiro, mas a culpa era minha. Era eu que tinha de ter cuidado do meu pai. E eu tinha fracassado. (BRUM, 2011, p. 55)
O pai havia sido derrotado primeiro, por quem? Pela mãe? E se o pai foi o primeiro, a segunda seria a filha?
Na relação entre mãe e filha, a expressão do incesto platônico é muito banal, devido ao fato de serem do mesmo sexo: “uma se torna o espelho da outra, e a outra, a projeção narcísica da primeira, num vínculo que favorece a confusão identitária em detrimento de uma reciprocidade do vínculo” (ELIACHEFF e HEINICH, 2004, p. 40).
Se prestarmos atenção nas palavras que a autora utiliza “espelho”, “projeção”, “confusão” seguimos em direção a um caminho que só pode fracassar. Uma relação que não tem espaço para mais ninguém e para mais nada que não diga respeito a dupla, no mínimo merece ser questionada:
Aí, com efeito, a “negatividade” do amor assume a forma, mais paradoxal ainda, da admiração e da devoção sem limites, sustentadas por uma identificação que, ao mesmo tempo que permite à mãe furtar-se a seu próprio destino de mulher, entrava o de sua filha, impedindo-a de ser outra coisa senão a filha de sua mãe. (ELIACHEFF e HEINICH, 2004, p. 46)
Podemos perceber com Laura que a relação com a mãe não deixa espaço para a construção de uma identidade própria. O cordão umbilical era curto demais, impossibilitando uma diferença entre os corpos das duas:
Eu não tinha nada mais para esperar. Quando vagava me batendo pelas paredes da casa como um daqueles cachorros que tem uma corda presa ao pescoço que os paralisa depois de alguns passos. No meu caso não era uma corda, mas um cordão umbilical. Aos poucos eu não conseguia mais distinguir entre o meu corpo e o dela. (BRUM, 2011, p. 55)
Segundo Zalcberg (2003) o futuro da criança depende de a mãe reconhecer a filha como um ser, um corpo, separado de si. Se a mãe não for capaz de dar à filha um corpo imaginário, é provável que continuará entendendo o corpo da criança como uma extensão do seu:
Se a mulher não pode assumir seu corpo inteiramente na base da imagem especular é porque, quando confrontada com o outro imaginário, a mãe, ela se manteve em suspenso, em sofrimento, em face de um espelho inacabado, daí a importância que a constituição de uma imagem que funda sua identificação especificamente feminina passa a ter para a mulher. (...) A mãe só terá condições de conceber esse reconhecimento do corpo feminino à filha, de acolhê-lo e ajudar a filha a constituir-se uma identificação feminina, se ela própria tiver se reconciliado com o seu e tiver constituído uma identificação feminina para si. (s/p)
A confusão de corpos e de identidades não poderia ser melhor exemplificada que pela parte do corpo que representa, para a grande maioria das mulheres, a feminilidade: o seio.
Uma noite minha mãe apareceu ao lado da minha cama e perguntou se eu queria voltar a dormir com ela. Eu não queria mais, mas, como tudo com ela, eu acabei aceitando a mão que ela me estendia porque era isso que eu fazia. Estava escuro ainda mas a lua entrava pelos furos das persianas, e, filtradas por essa luz, nos olhamos por algum tempo. Eu baixei meus olhos até seus seios. E depois olhei para os meus que começavam a apontar na camisola. Será que minha mãe queria mamar nos meus seios?
Eu queria que ela mamasse. E eu queria mamar. Mas nós duas tivemos medo. E passamos a dormir juntas com os seios entre nós. Afinal, havia algo que nós desejávamos. E essa era a tensão daquela casa com as palavras que não podiam ser ditas. Nessa época eu odiava minha mãe com um ódio diferente. O corpo que nunca foi meu era cada vez mais o dela. Eu me sentia suja. (...) Alguns dias depois eu acordei naquela cama e não reconheci mais