UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
MARIANE HENZ
DELINQUÊNCIA JUVENIL E LAÇO SOCIAL
IJUÍ, 2019
MARIANE HENZ
DELINQUÊNCIA JUVENIL E LAÇO SOCIAL
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia
Orientadora: Profª. Mª. Flávia Flach
IJUÍ, 2019
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
DEPARTAMENO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO - DHE CURSO DE BACHARELADO EM PSICOLOGIA
ORIENTADORA: Ma. Flávia Flach
MARIANE HENZ
COMPONENTES DA BANCA
_______________________ Ma. Flávia Flach
_______________________ Ma. Daiane Raquel Steiernagel
IJUÍ, 2019
RESUMO
O trabalho discorre acerca do tema “delinquência juvenil e laço social”, consta de uma revisão de literatura, embasado em autores que corroboram essa temática sob um viés psicanalítico. A pesquisa aborda a questão da adolescência, elencando brevemente suas diferentes formas de concepção ao longo dos tempos, bem como, suas principais características e os diversos desdobramentos psíquicos que ocorrem nessa fase da vida, com o intuito de pensar como o adolescente é visto e inserido na sociedade contemporânea. Da mesma forma, enfoca os aspectos psíquicos e sociais que permeiam a delinquência, aprofundando algumas temáticas essenciais, como a função paterna, o discurso capitalista, a faceta simbólica da violência e a exclusão social, entendidos enquanto propulsores dessa problemática.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 6
1. ADOLESCÊNCIA: UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL E UMA FASE PSÍQUICA CONSTITUTIVA ... 8
2. A DELINQUÊNCIA E O DISCURSO CAPITALISTA ... 20
CONCLUSÃO ... 32
INTRODUÇÃO
A presente pesquisa desenvolve teoricamente algumas questões ligadas à delinquência juvenil e ao laço social, através de autores que trabalham essas ideias pela via da psicanálise. O interesse em aprofundar essa temática surgiu da prática de estágio na ênfase de “Psicologia e Processos Sociais”, que se deu no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Ijuí, onde o projeto de intervenção esteve voltado para os adolescentes em conflito com a lei, que cumpriam medida socioeducativa de prestação de serviço à comunidade (PSC) . A abordagem desse tema no âmbito da psicologia se faz essencial, pois é uma área que está eticamente comprometida com a promoção e preservação dos direitos humanos, lutando pela eliminação de quaisquer fatores que venham afetar os mesmos. Sendo assim, a questão que norteia todo o estudo é a seguinte: pode a delinquência juvenil ser considerada um sintoma social?
A fim de buscar respostas para essa questão, o trabalho foi dividido em dois capítulos. No primeiro capítulo, intitulado “Adolescência: uma construção social e uma fase psíquica constitutiva”, buscou-se discorrer sobre os diferentes modos de organização que existiram na sociedade e, gradualmente, foram sofrendo transformações, influenciando na constituição psíquica dos cidadãos. Nesse sentido, tomamos a adolescência enquanto uma fase psíquica constitutiva da vida humana, que nem sempre existiu, sendo oriunda das modificações ocorridas no laço social. No capítulo, trabalharemos o conceito “adolescência”, bem como a história existente por detrás do mesmo, destacaremos as características psíquicas dessa fase, especialmente a questão do reconhecimento e dos conflitos existentes, bem como, o modo de enfretamento dos mesmos, por parte dos adolescentes e de seus pais, enfatizando também, as alterações provocadas na configuração familiar a partir do adolescer de um (uma) filho (a). Para além disso, entenderemos de que forma a sociedade atual se porta frente a esse período da vida, considerando que a mesma se vê orientada pelo discurso capitalista, que não promove laço social entre as pessoas, pelo contrário, acaba criando processos de exclusão que afetam especialmente os adolescentes que lutam por reconhecimento social.
Já no segundo capítulo, que tem como título “A delinquência e o discurso capitalista”, desenvolvemos a questão desse discurso que atualmente organiza a vida em sociedade e está intimamente atrelado ao consumismo, colocando a felicidade como um imperativo social. Trataremos a respeito do desamparo e da violência gerados pelos processos de exclusão. A “delinquência”, trabalhada pela ótica psicanalítica, nos propõem pensar essa problemática enquanto ligada a instauração do Nome-do-Pai. Para tanto, nos aprofundaremos nesse conceito,
buscando compreender como se opera a metáfora paterna, sua importância na constituição psíquica do sujeito a partir das três instâncias: real, simbólico e imaginário. Falaremos também sobre o declínio da função paterna na atual sociedade, partindo do pressuposto das recorrentes modificações nas configurações familiares que se presentifica com o passar do tempo.
1. ADOLESCÊNCIA: UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL E UMA FASE PSÍQUICA CONSTITUTIVA
A fase da vida denominada “adolescência” nem sempre existiu em nossa sociedade, sendo, portanto, considerada fruto do social. Com o passar do tempo, várias foram as formas de organização da sociedade, as quais repercutiram diretamente no modo de vida das pessoas. Enquanto alguns costumes foram se modificando, novas concepções e ideias de vida foram sendo construídas. Assim, a adolescência foi criada para designar um determinado período da vida, que logo passou a ser objeto de estudo para diferentes áreas, dentre elas, a psicologia. Psiquicamente é entendida enquanto pertencente ao processo constitutivo do sujeito, possuindo características próprias. Por isso, escrever sobre a história, o conceito e as especificidades da adolescência são de suma importância para esse trabalho de pesquisa.
Segundo Grossman (2010), na Idade Média, não eram consideradas as particularidades entre crianças e adultos, o que nos faz pensar que a adolescência surge a partir da Modernidade. Em um primeiro momento, o indivíduo era considerado criança, enquanto dependia de um outro para sobreviver, no momento que demonstrasse o mínimo de independência, automaticamente, era reconhecido como adulto. “A infância era entendida como um período de passagem logo ultrapassado [...]. As pinturas medievais traduzem essas crenças e sentimentos; as crianças são representadas como adultos em miniatura, sem nenhuma diferença de traços ou expressões” (Ibid., p. 48). A autora cita três aspectos que, na passagem da Idade Média para a Modernidade, modificaram a forma do homem ver a si mesmo e se relacionar com os demais:
O primeiro aspecto foi o novo papel do Estado, que passou a interferir e exercer controle do espaço social e da ordem pública, legando à comunidade um tempo maior para a dedicação às atividades particulares. O segundo fato foi o desenvolvimento da alfabetização e dos livros, incentivando o gosto pelo privado e pela solidão. O terceiro acontecimento foi o estabelecimento de novas religiões ao longo dos séculos XVI e XVII, que exigiam dos fiéis uma devoção mais íntima (Ibid., p. 48).
Para além desses três aspectos, o modo de funcionamento das famílias também sofreu modificações. Seus membros passaram a cultivar o afeto, fazendo com que a mesma não fosse considerada apenas uma unidade econômica, como era anteriormente. O Estado e a Igreja retomaram a responsabilidade do sistema educativo, o que resultou na criação de colégios destinados as pessoas entre 10 e 25 anos de idade. Ainda, segundo a mesma autora, ao longo do século XVIII, ideias Iluministas perseveraram na realização de uma renovação pedagógica com o estabelecimento de novas práticas, que afirmavam a onipotência da educação na modelagem dos indivíduos. Já o século XIX foi marcado pelo fortalecimento dos Estados
Nacionais, pela recolocação dos papéis sociais das crianças e das mulheres, pelo avanço da industrialização e pela organização das formas de trabalho. Paralelo a isso, a infância passou a ser considerada um momento privilegiado da vida, dando espaço para a troca de amor e carinho dos pais para com seus filhos. A partir daí, surge a adolescência como uma fase da vida posterior à infância.
Ainda, segundo Grossman (2010), com o surgimento da modernidade, a adolescência se torna sinônimo de crises e conflitos, ou seja, era “[...] reconhecida como um momento crítico da vida, temida como uma fase de potenciais riscos para o indivíduo e para a sociedade, uma real “zona de turbulência e contestação” [grifo da autora] (Ibid., p. 48). Por conseguinte, esse período da vida passa a ser objeto de estudo e interesse para a área da medicina e da educação. No decorrer do século XX, se torna portadora de características próprias e detentora de um estatuto legal e social, levando muitos pesquisadores a encará-la legitimamente como um problema. Após muitas reviravoltas, hoje, século XXI, o adolescente é considerado um sujeito falante e desejante, cidadão de direitos, mas também de deveres.
Costa (2004) salienta que o modo de organização da vida em sociedade também sofreu alterações ao longo dos tempos. Primeiramente, a sociedade tradicional estava alicerçada por laços que evidenciavam a família, pois reinava o patriarcado, o qual não poderia ser interrogado, além do mais, a ocupação de cada pessoa na comunidade era estabelecida de acordo com sua filiação. Com o advento da modernidade, houve a queda desse formato de organização e a possibilidade de questionamento sobre o lugar que cada pessoa ocupava na sociedade. Consequentemente, o adolescente pode ser denominado como uma figura moderna, justamente por ser um indivíduo que indaga sua filiação e anseia construir seu próprio lugar no social.
Afim de compreender o significado do termo “adolescência”, recorremos ao dicionário Aurélio, no qual consta que se trata de um “[...] período da vida humana que começa com a puberdade e vai, aproximadamente, dos 12 aos 20 anos: é quando ocorrem as mudanças corporais e psicológicas que separam a criança do adulto” (FERREIRA, 2011, p. 54). Já de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei nº. 8.069 de 13 de julho de 1990, entendemos como criança a pessoa até doze anos de idade incompletos e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade incompletos.
Para além da faixa etária, inúmeros outros fatores também caracterizam essa fase. Para Clerget (2004), fatores biológicos, psicológicos e sociológicos podem estar associados: o crescimento e a transformação sexuada resultantes do bombardeamento de hormônios retratam os processos biológicos; psicologicamente, o adolescente terá de lidar com o crescimento real
do corpo, com seus ideais e todas as imposições que se fazem presentes nesse período; os fatores sociológicos, se apresentam pelas políticas públicas que precisam dar conta de suprir os anseios e necessidades dos jovens. Assim, para a autora, esse período se caracteriza pela mudança de comportamento, além das mudanças físicas que se somam às mudanças de personalidade. As modificações de suas condutas, resultam também no enfrentamento aos próprios pais.
Ao pensarmos essa fase a partir da constituição psíquica do sujeito, concordamos com Rassial (1997) quando salienta que “é inicialmente do vazio do ser, da pretensão da Lei e da vacuidade do saber que se inaugura esse tempo de recapitulação e de inauguração” (p. 9-10) que chamamos de “adolescência”. Recapitulação, por que para assumir um lugar no social, enquanto sujeito de seu próprio discurso e de suas próprias escolhas, o adolescente precisa se apropriar das marcas constitutivas que lhe foram inscritas por aqueles que, em um primeiro momento, lhe acolheram no mundo. Pois, ao nascer, a criança é um ser indefeso e necessita que um Outro1 garanta suas necessidades básicas de sobrevivência, principalmente abrigo e alimento. Esse Outro que acolhe em um primeiro momento, ocupa o lugar denominado de Grande Outro, entendido como sendo “[...] o conjunto de significantes que marcam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais [...]” (QUINET, 2012, p. 24).
A Mãe, Outro primordial cujo poder era dar ou recusar à criança a satisfação de suas necessidades, torna-se – primeira encarnação imaginária do Outro simbólico – aquela que lhe dá o significante-um de sua identidade, que marca com um traço, tirado de seu olhar e de sua voz, o lugar de sujeito no mundo (RASSIAL, 1999, p. 46).
Backes (2004) propõem a ideia de que todos aqueles que ocupam para a criança o lugar de Outro, funcionam como espelho para ela. Ou seja, “o adulto “desenha”, ou escreve com significantes uma imagem que o pequeno ser vai assumindo, pela via da identificação. Por isso, esse outro que se ocupa do bebê no início da vida também é chamado outro especular, ou outro imaginário, por fornecer uma imagem” (Ibid., p. 31-32). Essa relação entre o eu e o outro, a psicanálise lacaniana nomeou de estádio do espelho2. Ao perpassar pelo estádio do espelho, a criança percebe que, para além de uma pele, também é portadora de um corpo. Tal corpo é
1 O “Outro” aqui está posto como “lugar onde a psicanálise situa, além do parceiro imaginário, aquilo que,
anterior e exterior ao sujeito, não obstante o determina [...] de início, a ênfase foi posta no lugar e na função daqueles em relação aos quais é formado o desejo da criança: mãe, pai [...] a criança constitui seu eu, com toda uma dimensão de desconhecimento, através dos mecanismos de identificação com a imagem do outro [...]” (CHEMAMA, 1995, p. 156).
2 “Deve-se compreender a fase do espelho como uma identificação, isto é, a transformação produzida em um
sujeito, quando ele assume uma imagem” (CHEMAMA, 1995, p. 58). Ressalta-se que “[...] no triunfo da assunção da imagem do corpo no espelho, é que a criança, carregada pela mãe, cujo olhar a olha, vira-se para ela como para lhe pedir que autentifique sua descoberta. É o reconhecimento de sua mãe: ‘Sim és tu, Pedro, meu filho’, que com um ‘és tu”, dará um “sou eu’” (Ibid., p. 58).
subjetivado pela linguagem advinda do Outro Primordial, que lhe dá o estatuto de sujeito na cadeia significante. Essa identificação especular, apenas se torna possível, pelo olhar e pela voz da mãe - ou por aquela pessoa que cumprir a função materna - que através da palavra, confirmam a existência da criança enquanto sujeito. Ao longo desse processo, a criança estabelece uma relação entre seu mundo interno e a realidade externa, sendo o estádio do espelho, sustentáculo dessa relação entre o eu especular e a realidade social. Ressalta-se que essa relação é mediada pelo discurso, portanto, “[...] o sujeito é, não o agente da linguagem, mas seu efeito, e a linguagem, por sua vez, é efeito do lugar do Outro” (COSTA, 2004, p. 34). Nessa primeira relação dual entre a mãe3 e o bebê, este se vê como objeto de desejo desse Outro, o que não se efetiva, pois ele logo percebe que a mãe deseja outra coisa: o falo4. Para que o corte simbiótico seja feito, espera-se que um terceiro entre nessa relação, fazendo cumprir a chamada metáfora paterna. Segundo Chemama (1995), tal metáfora, consiste na criança perceber que a mãe deseja outra coisa (falo) para além do objeto parcial (filho/filha), se estabelece a presença-ausência da mãe, mostrando para a criança quem, de fato, faz a lei. “[...] Mas é pela palavra da mãe que é feita a atribuição do responsável pela procriação, palavra que só pode ser o efeito de um puro significante, o nome-do-pai, de um nome, no lugar do significante fálico” (Ibid., p. 136). Isso possibilita a internalização simbólica da lei pela criança, transformando-a em sujeito desejante e tirando-a da posição de objeto causa do desejo. “É porque existe um significante do Nome-do-Pai que pode haver castração5, isto é, operação que limita e ordena o desejo do sujeito” (Ibid., p. 159). Vale ressaltar que:
Essa Lei não precisa ser sustentada necessariamente pelo pai, o genitor. Trata-se de um significante, que representa para a mãe a lei que proíbe que ela possa usar a criança como seu objeto de desejo, assim como, fazendo com que a criança perceba, que a mãe também está submetida a uma lei que a ultrapassa. O Nome-do-Pai é um significante estruturador de todos os significantes que constituem o inconsciente como discurso do Outro (QUINET, 2012, p. 28).
A mãe é quem vai possibilitar e sustentar a entrada do Nome-do-Pai na sua relação com o filho (a). É através da passagem pelo complexo de édipo que a criança se estrutura enquanto sujeito. Tal complexo consiste em três tempos: no primeiro, o bebê,
3 O termo “mãe” se refere a função materna e não propriamente a mãe genitora.
4 “Se a palavra pênis fica reservada ao membro real [...]” (ROUDINESCO, 1998, p. 221) para a Psicanálise “[...]
a palavra falo, derivada do latim, designa esse órgão mais no sentido simbólico [...]” (Ibid., p. 221), enquanto representante do desejo, ou seja, objeto causa de desejo.
5 “Evidentemente, essa castração não é uma mutilação no real” (CHEMAMA, 1995, p. 159). Aqui o termo
“castração” se refere “[...] a privação da mãe, porque esta não possui o falo simbólico, com o qual a criança tinha antes se identificado. Na lógica da teoria freudiana, é por ter constatado a falta na mãe que surge, na criança, a questão de sua própria castração” (Ibid., p. 159).
independentemente do sexo, se vê enquanto sendo o falo materno; em um segundo momento, acontece a proibição do incesto através da entrada do pai simbólico na relação dual mãe/criança, tirando-a da posição de objeto de desejo materno; por último, o pai real, ou seja, o pai portador do falo, capta o desejo da mãe. Consequentemente, o menino se identifica com ele, enquanto possuidor do falo; já a menina, se identifica com a mãe, vê-se castrada e se coloca a buscar o falo.
Ao perpassar pelo complexo de édipo, o filho (a) percebe que o pai6 ocupa o lugar de mestre, pois supõem que ele sabe sobre o desejo da mãe. Segundo Rilho (2004), a criança ao ser barrada a ocupar o lugar de objeto de gozo7 materno, alimenta inconscientemente a esperança de receber o falo como herança do pai, como sinal de amor do pai para com o filho, resultando no reconhecimento de sua filiação. Todavia, com a entrada do Nome-do-Pai na relação mãe-criança, o sujeito passa falar em nome próprio, reconhecendo suas características particulares, não necessitando mais da voz e do olhar da mãe para ter a confirmação do seu eu. Mas, para que a metáfora paterna funcione e o complexo de édipo se efetive verdadeiramente, a mãe precisa sustentar imaginariamente o lugar do pai para a criança, ou seja, a mãe precisa supor a existência desse terceiro na relação.
Porém, todo esse arranjo familiar é desmontado na adolescência. Com a queda do alicerce especular, a consistência parental imaginária constituída pelo Outro se desfaz, colocando em causa as interrogações sobre o ser. Por isso, segundo Rassial (1999), essa fase é mediada por uma crise exemplar, que evoca a modificação corporal, obrigando o sujeito a construir uma nova identidade a partir de uma outra posição, onde tanto o Outro como o objeto possuem um novo valor psíquico. Enquanto o Outro do lactante era a figura materna e o Outro8 do édipo era sustentado pelos pais, o Outro do adolescente está ligado, imaginariamente, ao Outro sexo. Ao longo do adolescer “[...] o Outro parental é afetado em seu valor, o sujeito está ameaçado em sua identidade e os objetos não são indenes: eles estão divididos entre o sujeito e o Outro, o que não deixa de afetar sua qualidade, neste momento de reativação das pulsões sexuais infantis” (Ibid., p. 50). Essa fase rompe com o que a infância tinha organizado do laço familiar. Para o autor, a necessária simbolização do olhar e da voz, enquanto objetos, reatualiza
6 O termo “pai” se refere a função paterna.
7 “Lacan estabelece [...] uma distinção essencial entre o prazer e o gozo, residindo este na tentativa permanente
de ultrapassar os limites do princípio de prazer. Esse movimento, ligado à busca da coisa perdida que falta no lugar do Outro, é causa de sofrimento; mas tal sofrimento nunca erradica por completo a busca do gozo” (ROUDINESCO, 1998, p. 300).
8 A expressão “Outro do édipo” está se referindo àqueles que, ocupam o lugar de grande Outro para o sujeito, no
período referente ao complexo de édipo, onde a relação da criança é permeada por aqueles que cumprem a função materna e paterna.
o estádio do espelho, possibilitando ao sujeito se apropriar deles, bem como do significante fálico que o produziu. Com efeito, o adolescente deve se reconhecer enquanto sujeito do próprio discurso, deixando de ser sintoma do desejo parental, para assim encarar sua própria responsabilidade sexual. Mas, para que essa passagem da identificação familiar para a identificação social de fato se efetive, é indispensável a validação da inscrição do Nome-do-Pai, ou seja, da metáfora paterna.
Levado em conta que a adolescência traz consigo uma demanda de remanejamento dos ideais paternos inicialmente impostos, entendemos que o pai da criança não é o mesmo do adolescente. Rassial (1997) nos diz que, enquanto a criança lida simbolicamente com a morte do pai edípico9, “[...] o adolescente descobre em um segundo tempo que esse pai, que se parece com ele, é mortal, no real, de uma morte “sem causa”, e que essa transmissão se ordena como perda” (p. 15, grifo do autor). O pai deixa de ser o único representante da ordem simbólica, e destituído do seu lugar, se iguala ao filho, enquanto “[...] garantidor provisório e parcial da permanência do Nome na cadeia dos significantes” (Ibid., p. 15).
O adolescente deve se confrontar para além de uma morte da imagem, com o fato de que o sujeito não se define apenas em ser [...] mas em ter, na medida que ali se desenrola uma dinâmica da perda do ser. A adolescência é o momento em que a criança, tomando a medida do tempo, que é de transformar o sintoma em sujeito, apropria-se como sintoma do sintoma que ele já é no desejo dos pais e que lhe reenviam como seu signo (Ibid., p. 17).
Na adolescência a desqualificação dos outros parentais é considerada estruturante, pois o adolescente precisa se reinventar enquanto sujeito do próprio desejo. Ao mesmo tempo que ele busca se apropriar de uma nova imagem que aos poucos vai ganhando forma, também denuncia o envelhecimento dos pais no real do corpo. Clerget (2004) esclarece que, nessa idade os filhos costumam sentir vergonha dos mesmos e isso se mostra um tanto doloroso. Pois, ao mesmo tempo que os atacam, atingem a si mesmos, sob todos os aspectos com os quais estabelecem identificação com eles. “O luto das imagens parentais é acompanhado como num espelho, pelos pais, do luto por seu filho pequeno” (Ibid., p. 56). Quanto a isso, Rassial (1997) faz uma ressalva, enquanto os filhos tornam-se adultos, os adultos tornam-se velhos, isso significa que uma falha estrutural se apresenta para o adolescente, mas também para as figuras parentais, no sentido de que, ambos precisam reinventar seus lugares. Contudo, ao mesmo tempo que o adolescer provoca uma pane no sujeito adolescente, obrigando-o a se reconstruir
9 Pai castrador, pai que possui o falo que supostamente completa a mãe, representante da lei, que impede o
enquanto pessoa adulta, também desafia os pais a reinventar o seu lugar no laço familiar, afinal, seus filhos logo mais assumirão uma maternidade ou paternidade. Nesse sentido, podemos pensar que as modificações oriundas da adolescência são sinônimas de uma turbulência. Para Clerget (2004), “as tensões se apresentam ao mesmo tempo internas (psíquicas) e externas (conflitos com a família e o corpo social)” (p. 14).
A passagem à idade adulta implica tomar distância dos pais. Não se trata tanto de deixá-los fisicamente, mas de fazer luto das imagens parentais que se trazem dentro de si. Este afastamento necessário é sustentado pela pressão social, mas sobretudo por fatores individuais. A percepção que têm sobre os adultos em geral e de seus pais, em particular, se renova. De resto, o acesso do adolescente a uma genitalidade do tipo adulto torna ameaçadores, para ele, os laços afetivos e físicos que mantinham com os pais (Ibid., p. 42)
Cabe ao adolescente, lidar com o luto do pai da infância, pois é nessa etapa de vida que o mesmo se torna decepcionante. Conforme Rassial (1997), a tomada de consciência sobre a cadeia geracional, apresenta-lhe a finitude de todos, inclusive do outro paternal. Além disso, Rilho (2004) diz que se o pai é mortal, assim como todos o são, ele não ocupa mais um lugar de exceção, como ocupava ao longo da trajetória infantil. “Neste sentido, muitos atos através dos quais o adolescente arrisca a sua vida são, antes de mais nada, uma espécie de confirmação de que a morte é uma lei que atinge a todos, independentemente do desejo” (Ibid., p. 211). A autora complementa ainda que, as figuras parentais não representam mais a base que sustenta o saber, pelo contrário, estes enquanto donos do saber sobre as coisas, caem de sua função.
Rassial (1997) afirma que é característico do adolescente ser “insolente” e “responder”. Ser insolente no sentido de “[...] afirmar sua solidão, até mesmo reivindica-la, separando-se do jogo social [...]” (p. 81). Pois bem, a sociedade geralmente reconhece a criança e o adulto, o adolescente é aquele que está fora do lugar. “E todos entendem que na insolência do adolescente há um mal-estar que se projeta no exterior, um ‘não estar bem na sua pele’ que vem dizer-se [...] é efetivamente o momento em que esses sentimentos negativos com relação a si mesmo [...] são projetados no exterior” (Ibid., p. 81). Já o adolescente que responde, é aquele que reconhece que existem outros discursos para além do discurso parental, que até então ditava o saber, e ele denuncia isso, através de suas interrogações e controvérsias, pois já não aceita facilmente tudo que lhe é imposto como verdade. Dessa forma, passa a buscar respostas para suas perguntas fora do laço parental, legitimando a passagem do laço familiar para o laço social. É em meio a esse panorama, que o adolescente se junta aos outros iguais, no intuito de encontrar um lugar onde possa se sentir acolhido e o reconhecido.
Pode-se dizer então, que a turma de amigos constitui, nessa fase da vida, um ponto de segurança, no qual o adolescente vai se prender para suportar todas as pressões, mudanças e angústias que a idade evidencia. Clerget (2004) entende que o grupo aparece enquanto instância de identificação, onde o saber está contido e pode ser experenciado de alguma forma, “na verdade a turma vai ocupar o lugar que a família tinha [...]. O adolescente tem necessidade de um duplo para existir” (Ibid., p. 44-45). Frente a essa nova estrutura identificativa, não há espaço para o adulto, ou seja, os pais ficam do lado de fora.
Em virtude da demanda de diferenciação do adolescente com seus pais, as gírias exercem uma função importante, pois representam uma barreira frente a língua materna. Segundo Rassial (1997) “[...] a gíria tem o papel de uma língua intermediária [...] organizando, o grupo em torno de um segredo” (p. 23). Assim, o grupo pode ser compreendido enquanto uma comunidade particular, que compartilha: aparências semelhantes, estilos de vestimentas, marcas na pele, piercings, códigos, entre várias outras características. Isso dá indícios de que os filhos não sustentam mais o ideal que os pais lhes projetaram, ao contrário, evidenciam a construção de um novo ideal, dos quais os próprios adolescentes são protagonistas.
No texto “Psicologia de grupo e análise do ego”, Freud (1921) aponta a concepção de Le Bom (1855, apud, FREUD, 1921) ao falar da mente grupal. Segundo esse conceito, a formação de um grupo faz com que os indivíduos, por mais dessemelhantes que sejam, constituam uma “[...] espécie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de maneira muito diferente daquela pela qual cada membro dele, tomado individualmente, sentiria, pensaria e agiria, caso se encontrasse em estado de isolamento” (Ibid., p. 79-80). Ou seja,
O grupo [...] é um ser provisório, formado por elementos heterogêneos que por um momento se combinam, exatamente como as células que constituem um corpo vivo, formam, por sua reunião, um novo ser que apresenta características muito diferentes daquelas possuídas por cada uma das células isoladamente (Ibid., p. 80).
Para além disso, Le Bom (1855, apud, FREUD, 1921) acredita que, com a formação de uma mente coletiva, as pessoas passam a apresentar características novas que, individualmente, talvez não apresentassem. Isso pode acontecer por três fatores: quando os membros estão unidos, adquirem um sentimento de poder, fazendo com que a responsabilidade se perca, pois, as ações não correspondem apenas a uma pessoa, remetendo a um anonimato, desfazendo certas resistências, deixando o inconsciente mais livre para se manifestar. A segunda característica seria o contágio, ou seja, o sentimento de pertencimento, de igual forma de pensar, é tão forte, que os indivíduos são capazes de deixar de lado seu interesse pessoal,
para alavancar o interesse coletivo, eles simplesmente agem sem pensar; já o terceiro fator diz de um estado de fascinação, causado por um sentimento de completo pertencimento, de um desvanecimento da consciência. Por conseguinte, o autor salienta ainda, uma semelhança entre a mente grupal e a vida mental dos povos primitivos, que viviam ordenados por seus instintos.
Um grupo é impulsivo, mutável e irritável. É levado quase que exclusivamente por seu inconsciente. Os impulsos a que um grupo obedece, podem, de acordo com as circunstâncias, ser generosos ou cruéis, heroicos ou covardes, mas são sempre tão imperiosos, que nenhum interesse pessoal [...] pode fazer-se sentir [...]. Não pode tolerar qualquer demora entre seu desejo e a realização do que deseja. Tem um sentimento de onipotência: para o indivíduo num grupo a noção de impossibilidade desaparece (Le Bom 1855, apud, FREUD, 1921, p. 84).
McDougall (1920 apud FREUD, 1921) diz que os indivíduos pertencentes a um grupo compartilham “[...] algo em comum uns com os outros, um interesse comum num objeto, uma inclinação emocional semelhante numa situação ou noutra e [...] certo grau de influência recíproca” (p. 91). Portanto, todo o exposto por Freud a partir das contribuições de Le Bom e McDougall, pode ser facilmente encontrado nas turmas adolescentes, que funcionam como uma válvula de escape para as angústias oriundas do adolescer. Juntos, sentem-se iguais, apesar de suas diferenças. As gírias, as vestimentas, os anseios compartilhados, resultam literalmente na mente coletiva, proposta por Le Bom. O sentimento de completo pertencimento, faz com que, apesar de ocuparem um não lugar perante o social, sintam-se fortes o suficiente para lidarem com isso. Muitas vezes, os adolescentes, tomados pelas aspirações da grande maioria, deixam inconscientemente suas resistências de lado e, para se sentirem verdadeiros membros, agem com tamanha irresponsabilidade. Se é próprio do adolescente confrontar os limites que lhe são impostos, o grupo vem no sentido de dar vasão para isso.
Ao longo do tempo, a maneira do jovem enfrentar essa passagem turbulenta da vida sofreu alterações, bem como, a sociedade também modificou sua forma de lidar com isso. Um exemplo claro desse fato, são os ritos de passagem, que em tempos anteriores, marcavam a passagem da criança para o mundo adulto e hoje já não se fazem mais presentes de modo tão marcante. A carência de simbolização frente a passagem adolescente, faz com que ele absorva no real, tudo que lhe é imposto pela sociedade (GIONGO, 2004). Por não ser nem criança e nem adulto, ocupa um não lugar perante o social, como já dito anteriormente, ficando a margem.
O adolescente, ao encarar esse lugar fora-de-lugar numa sociedade que acima de tudo preza pela autonomia e liberdade em relação ao lugar paterno, passa a ser contemplado e admirado como lugar de exceção pelo mundo adulto. É indiscutível, nos dias de hoje, a idealização da juventude, seus valores e signos, seja através de uma educação
que visa à independência, ou da busca de um corpo jovem, ou mesmo do estilo jovem de ser e vestir (RILHO, 2004, p. 216).
A respeito dessa idealização da juventude, tem autores que entendem a adolescência enquanto referência que compõem o ideal contemporâneo. Atualmente, ser idoso é sinônimo de doença, ser adulto está fora de moda, a adolescência representa a vitalidade que todos gostariam de ter e por isso é alvo de inveja. Os traços adolescentes marcam o sujeito, assim como é doloroso abandonar o corpo de criança, o envelhecer confronta o sujeito com uma imagem que ele também não está preparado para se apropriar. As cirurgias plásticas, muitas vezes, aparecem como uma alternativa de tamponar as imperfeições que a idade faz questão de escancarar no corpo. Porém, ao mesmo tempo que o adolescente se mostra invejado, também se apresenta insuportável frente aos olhos dos mais velhos. Soma-se aí, mais um motivo que torna essa fase da vida deslocada, fazendo dos jovens receptáculos de negativas projeções, não lhes dando um lugar no social.
Consequentemente, o adolescente situa-se à parte da engrenagem social, como uma peça que não consegue se encaixar perfeitamente, é aquele que está sempre em busca de um lugar onde possa ser reconhecido enquanto pertencente ao mecanismo que retrata a vida humana. Aparentemente, visto como excluído perante a lei e as instituições, “[...] o adolescente pode fundar, no jogo legal de sua exclusão, no que ele deixa de simbolização impossível, a razão de uma outra lei, aquela do ‘bando’ ou da ‘seita’, em que se mede a relação entre o limite e o período, duplo aspecto da adolescência” (RASSIAL, 1997, p. 14).
Seguindo essa linha de pensamento, podemos concordar com Calligaris (2000), quando diz que a vocação do adolescente se direciona para o risco e para a transgressão, sendo que a própria formação do grupo adolescente é, de certo modo, transgressiva. Pois, por não ser reconhecido dentro do pacto social, busca sua aceitação de forma paralela. Conforme Giongo (2004), “[...] os adolescentes lêem [sic], nas entrelinhas do discurso adulto, seus desejos recalcados e tentam coloca-los em cena na busca por reconhecimento” (p. 97).
Diante deste não lugar, desta condição à margem – e aqui nos deparamos com a aproximação à condição de “marginal” com que o adolescente é, muitas vezes, identificado e/ou se identifica – só resta ao sujeito procurar aqueles que estão numa situação semelhante. [...] “Ser, ou não ser” adolescente confere algum lugar a um sujeito à margem da condição de ser. É possível ser reconhecido e, a partir daí, reconhecer-se enquanto adolescente através de determinados atos compartilhados, constituídos e testemunhados pelo grupo (Ibid., p. 91).
Com efeito, podemos considerar a adolescência como uma fase que denuncia o modo de organização da sociedade contemporânea. Coutinho (2004) salienta que o adolescente, além
de se deparar com a falência dos ideais parentais que lhe asseguravam o status de sujeito no mundo, acaba se confrontando com uma sociedade que não lhe oferece referenciais estáveis “[...] que lhes possibilitem apropriar-se do laço social, sem com isso abrir mão de sua singularidade e de seu desejo” (Ibid., p. 110). Na busca por reconhecimento, ele acaba se confrontando com um mundo marcado pelo imediatismo, onde o que interessa é o aqui e o agora, e a individualidade é enfatizada pelo consumismo, sendo que o ato de comprar o produto que é lançamento no mercado, garante uma boa aparência exterior. Isso significa dizer que a pessoa é valorizada pelo que tem, materialmente, e não pelo que é, singularmente.
A relação criança e adulto é permeada pela cultura do consumo, na qual a felicidade se iguala à posse de bens materiais. Os objetos que se possui são projeções do eu e a imagem é algo que chama atenção e define posições sociais. As coisas e os objetos que possuímos demarcam relações sociais, definem o estilo pessoal, hierarquizam e discriminam grupos. Aquilo que possuímos diz quem somos, mostrando nossos gostos, interesses e estilo de vida. Mesmo que o acesso ao consumo seja restrito, pois depende da condição social, o referencial é o mesmo (SALLES, 2005, p. 39).
O consumismo, a mídia e as tecnologias direcionam as pessoas para um excesso de prazer e liberdade, o que resulta numa completa falta de limites, ou seja, em um não estabelecimento de leis e regras. Isso nos dá indícios de que a sociedade vivencia uma decadência da função paterna, o que significa dizer, que não se tem uma lei que consiga limitar, ou até mesmo parar o desenvolvimento acelerado que o mundo vem vivenciando. Tal decadência, também se presentifica na relação dos pais com seus filhos. Segundo Salles (2005), “as relações de autoridade e os valores sociais e morais estão sendo questionados e revistos [...] o que se reflete nas atitudes dos pais e dos educadores. Os pais se encontram confusos [...] não sabendo mais [...] se devem ou não impor disciplina aos filhos” (p. 39). Contudo, frente a diminuição da autoridade e do controle dos pais, os jovens desfrutam de um excesso de autonomia e liberdade. Paralelamente, existe a propagação do culto à beleza, à aparência e à erotização, prevalecendo a necessidade de conservação da juventude enquanto ideal social, o que faz postergar o envelhecimento, como já foi discutido anteriormente. Concordamos com a autora, quando salienta que “há, hoje, um imaginário social de juventude que leva os pais a abandonarem sua autoridade e disfarçar sua idade [...]” (Ibid., p. 39). A juventude é atualmente uma fase da vida invejada, alvo da mídia e do mercado consumidor.
Segundo Quinet (2012), o discurso capitalista que organiza o laço social contemporâneo, reduz o sujeito a mero consumidor. Tal discurso, “[...] efetivamente, não promove o laço social entre os seres humanos: ele propõe ao sujeito a relação com um gadget, um objeto de consumo curto e rápido” (Ibid., p. 57, grifo do autor). Portanto, torna-se
indispensável ser consumidor para pertencer ao pacto social. Pensando no adolescente, pertencer a essa realidade pode lhe conceder um reconhecimento frente ao social, garantindo-lhe um lugar de destaque. Mas, para adquirir os produtos, é preciso pagar um preço e nem todos possuem condições financeiras para isso. Assim, aqueles que não conseguem arcar com os custos, tentam garantir sua existência no mundo por outras vias, uma delas é a delinquência.
Todos buscam de alguma forma consumir, para aqueles que possuem condições financeiras este processo é mais simples, porém para a classe mais pobre o consumo não é tão fácil, e muitas vezes acabam-se buscando meios alternativos para se conquistar o produto desejado, aumenta o número de furtos, buscam através da violência conseguir o que desejam (POLON, 2011, p. 7).
Todos aqueles que não possuem uma boa condição financeira e não conseguem sustentar essa engrenagem, são automaticamente descartadas, tornando-se invisíveis perante o social, ou seja, fazem parte do grupo dos excluídos. Nesse sentido, somos levados a concordar com Quinet (2012) quando salienta que o discurso capitalista “[...] não forma propriamente laço social, ele segrega – daí a proliferação dos sem: terra, teto, emprego, comida, etc” (Ibid., p. 58). Ou seja, o capitalismo divide a sociedade e o seu resultado são as desigualdades e as exclusões sociais. De acordo com Sawaia (2001), a exclusão pode ser entendida como:
[...] Processo complexo e multifacetado, uma configuração de dimensões materiais, políticas, relacionais e subjetivas. É processo sutil e dialético, pois só existe em relação à inclusão como parte constitutiva dela. Não é uma coisa ou um estado, é processo que envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros. Não tem uma única forma e não é uma falha do sistema, devendo ser combatida como algo que perturba a ordem social, ao contrário, ele é produto do funcionamento do sistema (Ibid., p. 9).
Dessa forma, ao pensarmos o adolescente que se encontra em uma condição de desigualdade ou exclusão, devemos levar em conta que ele já carrega uma invisibilidade desde sua infância. Consequentemente, o consumismo tende a dificultar ainda mais essa realidade, resultando no que Rosa (2004) nomeia de desamparo social, impedindo que essas pessoas tenham acesso à educação, saúde, segurança, entre outros direitos e segmentos sociais. A autora associa o desamparo social a ideia de “violência simbólica”, descrita por Pierre Bourdieu (1975 apud ROSA, 2004), “[...] que perturba e submete os sujeitos ao discurso social dominante, promovendo sua adesão aos fundamentos da organização social que lhes atribui lugares marginais. Adesão seguida de conformismo e-ou [sic] irrupções de violência” (p. 148). Retomaremos mais a fundo as ideias desse autor no próximo capítulo.
2. A DELINQUÊNCIA E O DISCURSO CAPITALISTA
No presente capítulo, nos aprofundaremos na questão do desamparo e da violência gerados, na maioria das vezes, pela exclusão social. Trabalharemos o conceito de Nome-do-Pai, para, a partir desse, compreender o delinquente imerso no discurso social capitalista, bem como seus possíveis desdobramentos.
A questão do desamparo social, introduzida no capítulo anterior, está intimamente ligada aos processos de exclusão, que podem ser entendidos como resultantes do capitalismo, que tem o consumismo como ordenador social. Rosa (2016), a fim de aprofundar seu entendimento acerca da condição de desamparo, recorre a Freud, que discorre sobre o mesmo na sua obra “Conferência XXXII, angústia e vida pulsional” em meados de 1932-1933. Segundo a autora, tal condição acompanha o sujeito desde o nascimento, pois, como vimos anteriormente, o bebê humano chega ao mundo em uma condição de completo desamparo, necessitando que o Outro o acolha e garanta sua sobrevivência. Ao longo de sua constituição, a pessoa tece algumas bordas de proteção contra a angústia e o trauma. “Mas a marca do desamparo está sempre presente retomando à dimensão trágica da existência, ao vazio estrutural que habita o sujeito [...]” (Ibid., p. 47). A autora apresenta ainda o conceito de desamparo discursivo, onde o sujeito é remetido a essa condição, através do discurso social e político.
Quando há desqualificação de seu discurso, soma-se ao desamparo social do sujeito, o desamparo discursivo; ou seja, ele é inteiramente culpabilizado por sua condição social plurideterminada [sic]. Sem endereçamento possível ao Outro, o sujeito silencia, sendo lançado ao não senso e à dificuldade de reconhecer, ele mesmo, seu sofrimento, sua verdade, seu lugar no laço social e no discurso (ROSA, 2016, p. 47).
Essa condição afeta o sujeito fazendo com que ele se depare com uma condição traumática, a qual, pela ótica da teoria freudiana, “[...] refere-se àquela experimentada como um excesso de tensão vindo do exterior, aliado a uma falta de recurso do sujeito para responder a tal excesso” (Ibid., p. 47). Nesse sentido, a autora toma a dimensão traumática como uma desorganização subjetiva que pode ocorrer por duas vias: pela diminuição dos recursos necessários para elaboração do trauma ou pela constante exposição a situações violentas. Nos aprofundaremos nesse último ponto.
Para tanto, retomamos o conceito de “violência simbólica”, já introduzido anteriormente, que de acordo com Silva e Oliveira (2017):
[...] Representa uma forma de violência invisível que se impõe numa relação do tipo subjugação-submissão, cujo reconhecimento e cumplicidade fazem dela uma violência silenciosa que se manifesta sutilmente nas relações sociais e resulta de uma
dominação cuja inscrição é produzida num estado voltado para um conjunto de ideias e juízos tidos como naturais (Ibid., p. 165).
A violência simbólica é aquela que se encontra enraizada no modo de vida do povo, fazendo com que seus opressores a perpetuem de forma inconsciente e os oprimidos a vivenciem como sendo algo normal. Segundo os mesmos autores, tal violência, “[...] se funda na fabricação contínua de crenças no processo de socialização, que induzem o indivíduo a se posicionar no espaço social seguindo critérios e padrões do discurso dominante” (Ibid., p. 165). Atualmente, o discurso que orienta a vida em sociedade é o capitalista que, como já mencionado, não promove laço social, mas sim perpetua a segregação, oriunda de um excesso de gozo. Nesse sentido, para existir é preciso consumir e portar determinados objetos. Portanto, a alienação a essa condição discursiva, pode ser considerada uma violência simbólica, pois mesmo que o sujeito não se dê conta, ele está constantemente buscando adquirir tais objetos, tornando-o assujeitado a esse discurso. Segundo Conte (2005), essa “[...] violência difusa, negada, invisível e silenciosa produz um retorno no real de mais violência, de desamparo e de ódio” (p. 87). Isso explica o fato de muitas pessoas ocuparem o lugar da exclusão, bem como, da marginalidade.
Desde as contribuições da psicanálise, sabemos que aquilo que não é simbolizado retorna no real, premissa que nos leva a pensar que a violência presente no comportamento juvenil poderia estar respondendo ao empobrecimento das formas de enunciação na cultura. Parece que na ausência de significantes que possam representar o sujeito frente ao Outro, os estados-limite como os atos delinquentes, o uso de drogas e a valorização extrema das aparências acabam funcionando como formas de inscrição. Nesse sentido, a violência é um dos modos de a juventude atual se representar [...] (GURSKI, 2012, p. 78).
De acordo com Conte (2005), a violência é uma característica da vida social, através da qual, busca-se soluções para os conflitos que não se resolvem pelo diálogo. Rilho (2004), entende que “[...] a chamada ‘crise de autoridade’ surge como a responsável ante cada iminência de rompimento do laço social, levando à produção de um reforço da lei ou do legislador. A lógica sustentadora de tal raciocínio seria a seguinte: se há conflito, é porque falta lei ou falta pai” (p. 201). Consequentemente, a falta de limites toma conta da população. Os pais que não dão conta de controlar seus filhos, passam essa responsabilidade para a escola, a qual também se vê falha recorrendo ao conselho tutelar, e assim por diante. O próprio mundo virtual, no qual todos estão imersos, preza pela total liberdade, possibilitando as pessoas serem o que elas quiserem, sem barreiras limítrofes. Isso nos convoca a discorrer sobre a instauração da lei através da função simbólica exercida pela função paterna.
Como já citado anteriormente, nos primórdios da vida em sociedade reinava o patriarcado, ou seja, o pai era visto como soberano, portanto, chefe de casa. De acordo com Julien (1991), através dessa concepção, a definição de pai, não advém dos laços consanguíneos, mas do ato de posse sobre uma criança, ou seja, a paternidade é uma auto referência, como todo ato de soberania. Por volta do século XVIII, esse modelo é substituído pela fraternidade, assim se deixa de lado a ideia de que a sociedade deriva do poder paterno entendendo-se que acontece justamente o contrário, no sentido de que é o poder que advém dela. Já partir do século XIX, quando a criança passa a ser vista enquanto sujeito de direitos, o pai é aquele que cumpre papéis e realiza tarefas. Nesse sentido, “é pai aquele que se ocupa, realmente, da criança, isto é: aquele que responde pelos seus direitos – direitos não somente para manter a vida, mas para entrar no mundo da cultura e para se integrar na sociedade dos adultos” (Ibid., p. 42, grifo do autor). Assim, o século XX, é marcado pela ascensão de um novo pai, um educador, que cuida da criança com afeto.
Psiquicamente, o pai cumpre uma função essencial para a constituição do sujeito. Como já citado, a instauração do Nome-do-Pai para a criança é intermediada por quem cumpre a função materna. Sabe-se que em um primeiro momento a criança se entende como sendo o falo, ou seja, objeto de desejo que completa a mãe. Porém, de acordo com Silva e Altoé (2018), desde o início, mãe e criança estão submetidas à uma lei maior que as ultrapassa, que seria a linguagem. Posteriormente, “é preciso que a mãe funde o pai como mediador da lei, como aquilo que está para além dela e de seu capricho, instituindo um terceiro, para que o sujeito em constituição ultrapasse essa posição inicial de sujeição ao Outro” (Ibid., p. 334). Assim, entendemos o pai como aquele que detém o desejo da mãe, privando a criança de ser causa do desejo dela. Segundo Quinet (2012), a metáfora paterna possibilita a inclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro, articulando a entrada do sujeito no campo simbólico.
A escrita “Nome-do-Pai”, com aspas e maiúscula, que Lacan propõe para conceitualizar a função, aponta para uma apresentação que não dá predominância ao nome sobre o pai ou, vice-versa, ao pai sobre o nome. [...] O conjunto reforça de tal forma a unidade entre Nome e Pai que se assemelha a um nome próprio. Disso resulta que o nome é aquilo que é próprio do pai como nome, como nomeado e como nomeante. Ao dizer “você é meu filho”, não apenas nomeia filho à criança que teve com sua mulher, como faz com que seu desejo perca o anonimato. Com isso, introduz a criança na filiação e, assim, direciona a proibição do incesto que sempre é com a mãe para ambos, para a menina e para o menino (FLESLER, 2012, p. 45).
Psicanaliticamente, o pai existe a partir de três instâncias: real, simbólico e imaginária. Entenderemos melhor cada uma delas.
O pai simbólico, é aquele instaurado como “nome” pela mãe. Em princípio a mãe é total para a criança, ela não se distancia, está sempre ali. Aos poucos, em virtude do crescimento do filho, a mãe presente, também se mostra ausente, pois para além de ser mãe ela também é mulher e exerce uma profissão no mundo. A partir disso, a criança passa se questionar sobre seu lugar no desejo materno. Segundo Julien (1991), essa enigmática do desejo da mãe, funda um lugar terceiro ocupado pelo pai, fazendo com que o significante do desejo da mãe seja substituído pelo significante Nome-do-Pai, é a efetivação da metáfora paterna. É importante salientar que não precisa necessariamente existir um pai, mas sim, alguém ou alguma coisa que funcione como substituto do desejo da mãe, tirando a criança desse lugar de objeto fálico, que em um primeiro momento, ela ocupava. Para Chemama (1995), o pai simbólico é aquele que remete a lei sendo que o interdito é proferido em Nome-do-Pai. Portanto, ele é apresentado pela mãe, é quem promove a castração e possibilita a ordenação do desejo para o sujeito. Nesse sentido, concordamos com Julien (1991), quando afirma que “[...] o Nome-do-Pai é a inscrição, pela mãe, do significante de sua falta” (Ibid., p. 58).
Diferentemente do pai simbólico, o pai imaginário, é aquele criado pela criança. Segundo Chemama (1995), a esse pai está atribuída a castração/privação da mãe, ou seja, se a mãe não possui o falo, com o qual a criança havia se identificado em um primeiro momento, o pai é quem o possui, portanto, o pai é visto como potente. Imaginariamente, segundo Julien (1991):
A criança fomenta, forja uma Imagem [sic] paterna de alta estatura, de forte status, uma bela estátua! Volta-se para esta imagem, digna de ser admirada, e se apóia [sic] em alguns traços provenientes desse herói de desenho animado, personagem da literatura ou, simplesmente, na escola, entre os educadores. É preciso que o pai encarne uma parte dessa autoridade [...] (Ibid., p. 56, grifo do autor).
O pai real é simplesmente o da realidade, quase que o espermatozoide. Para o mesmo autor, “[...] o pai real é o real do pai, seja o que é esperado, muito pouco, como impossível de saber relativo a verdade da paternidade” (Ibid., p. 59, grifo do autor). Conforme Lacan (1972 apud JULIEN, 1991) o real é “o impossível para demonstrar a verdade no registro de uma articulação simbólica, não para dizer o verdadeiro, mas para demonstrá-lo através de um saber articulável” (p. 59).
[...] É aquele que permite que a criança tenha acesso ao desejo sexual [...]. Por isso, é conveniente que o pai real possa provar que possui o triunfo mestre, o pênis real: o interdito não poderá fazer o sujeito passar a uma posição sexuada, a não ser que a mãe, proibida para ele, só o seja porque o pai a possui, e não porque a sexualidade em geral seja uma atividade vulgar ou inconveniente (CHEMAMA, 1995, p. 159).
A respeito desses três diferentes registros da paternidade, Joël Dor (1991), resumidamente, entende que o pai imaginário ocupa o lugar de imago, ou seja, representação de um personagem, que se constrói de forma inconsciente, a partir das primeiras relações estabelecidas entre sujeito e ambiente. Para o mesmo autor, a entrada do indivíduo no campo simbólico, apenas é possível, na medida que os protagonistas da triangulação edípica – pai, mãe, criança – estão submetidos a um quarto elemento: o falo. “Enquanto tal, o falo constitui assim o centro da gravidade da função paterna, que vai permitir a um Pai [sic] real chegar a assumir a sua representação simbólica” (Ibid., p. 18). Ou seja, o falo possibilita que o pai simbólico possa existir a partir do pai real através do pai imaginário. O pai, nada mais é, do que “[...] uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (Ibid., p. 14, grifo do autor). Portanto, a substituição do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai, constitui a chamada metáfora10 paterna.
Nesse sentido, buscamos entender a delinquência enquanto intimamente ligada à essa função simbólica da função paterna. A fim de nos aprofundarmos nesse tema, recorremos ao psicanalista Melman (1992), que a entende como fruto de uma falha na instauração da lei simbólica. Segundo ele, o termo “delinquência” deriva de “delinquo”, que significa faltar com seus deveres e de “linquo”, que seria deixar cair, abandonar. Em outras palavras poderíamos dizer que algo com relação ao dever não foi cumprido com o delinquente. Por isso, “as condutas do delinquente são simbólicas de uma falta, e de uma falta essencial, uma vez que é a falta do acesso ao objeto que conta [...] trata-se de uma falta de acesso ao objeto que comanda o gozo, isto é, ao falo” (Ibid., p. 44).
Ao entendermos a delinquência enquanto decorrente de uma falha na inscrição da lei simbólica, somos levados a pensar que, para este sujeito, a instauração/efetivação da função do Nome-do-Pai encontra-se problematizada, o que dificulta a incorporação da autoridade e das leis, bem como, do reconhecimento de sua filiação. Consequentemente, o delinquente se depara com uma dificuldade de integração na ordem simbólica, bem como, com a impossibilidade de acesso ao objeto fálico, ao que não lhe deixa outra saída, que não seja pelo rapto, pela apreensão e/ou pela violação. Enfim, é por essas vias que o indivíduo consegue se relacionar com o falo. Por isso, Melman (1992) entende que:
Os atos cometidos pelos delinqüentes [sic] são quase sempre altamente simbólicos [...]. Trata-se sempre de uma tomada de posse daquilo que lhes falta. [...] seja pela escolha de sua aparência, seja na apropriação de um objeto pela violência, para eles é
uma necessidade adquirir essa insígnia que não lhes foi transmitida pela filiação simbólica (Ibid., p. 59).
Seguindo as ideias propostas pelo autor, entende-se que na hora do ato o delinquente encontra-se quase que em um estado crepuscular, ou seja, é como se no momento do agir não existe sujeito e sim um ser buscando adentrar na cadeia simbólica. Porém, a posse do objeto jamais será satisfatória, fazendo com que o ato aconteça repetidas vezes. A fim de manter sua subjetividade, o delinquente se utiliza do mecanismo da denegação11, isto é, ele nega sua responsabilidade no ato, por isso é comum que ele utilize a expressão “não fui eu”. Para o mesmo autor o delinquente é irresponsável:
[...] Ele não age de modo algum dentro do que empenharia uma responsabilidade do sujeito, uma vez que se trata, ao contrário, de um esforço (vão) para fazer com que haja sujeito, um esforço de fazer-se a si mesmo. Sabemos o quanto está presente no delinqüente [sic] a preocupação de se fazer um nome, de se fazer reconhecer: “sim, é alguém” [...] (MELMAN, 1992, p. 54).
Segundo o mesmo autor, a denegação “[...] é vivida pelo sujeito como uma falta em relação ao Outro, pois ele, enquanto delinqüente [sic], não tem lugar, não tem asilo neste grande Outro. Portanto [...] é vivida como a introdução de uma falta no grande Outro [...]” (Ibid., p. 48-49). Na verdade, a introdução da falta no Outro, através da negação do ato, faz com que ele consiga se dar conta da sua própria condição faltante. Melman (1992), salienta que essa condição se apresenta ao sujeito por diferentes razões, das quais pontuamos algumas: podem ser de origem neurótica, ligadas à uma recusa do próprio indivíduo de inscrever-se totalmente na cadeia de gerações; pode advir de uma certa recusa paterna de efetivar sua função ou de um obstáculo apresentado pela mãe; por motivos culturais, em virtude de pertencer a uma cultura diferente daquela do meio no qual se está inserido; ou por razões da ordem social, quando o pai real é desprovido de referência fálica, não conseguindo introduzir seu produto na cadeia simbólica. Esse último ponto interessa para nossa discussão, portanto, o abordaremos mais a fundo.
Nesse sentido, quando as estruturas sociais estão pautadas no real, o poder também se configura dessa forma. Assim, de acordo com Melman (1992), “o objeto mesmo, o objeto que conta, cessa de ser simbólico para tornar-se nada mais do que um objeto real. O pai vai assim
11 Segundo Danziato (2012), o termo em alemão é chamado de “Verneinung” evocando “[...] a ideia de negar
rebatendo algo com um não, tal como dizer não, ou simplesmente responder com um não” (Ibid., p. 38). Para além disso, o autor salienta que “a Verleugnung tem um sentido linguístico de ser uma negação que permanece ambígua entre a verdade e a mentira, como por exemplo, quando se nega a própria presença: ‘mandar dizer que não está presente’” (Ibid., p. 38).
estar privado de todas as suas incidências simbólicas para valer somente em sua realidade” (p. 47). Seguindo as ideias do autor, o pai despojado de carga simbólica, será assegurado por instâncias policiais, educativas, correcionais ou judiciárias, as quais podem ser entendidas como estruturas reais, que de certa forma, apresentam a lei no real para o infrator. Isso significa dizer que quando o pai simbólico, de alguma forma falha, a pessoa carece do signo que lhe dá o estatuto de sujeito no laço social. Por isso, o delinquente enquanto aquele que carece de referências simbólicas, busca através de seus atos, o encontro com uma lei real, no intuito de ser reconhecido como sujeito.
Com todo o exposto, podemos pensar que o delinquente, de certa forma, encontra-se excluído do laço social, ou seja, ele pertence à esfera pública enquanto indivíduo, mas algo lhe falta para poder se afirmar definitivamente enquanto sujeito. Para Tavares (2004), ele realiza atos que possuam “[...] um valor simbólico, na tentativa de obter o reconhecimento como sujeito no discurso social. Procura que este ato, que se torna significante para seu meio pelo fato de se situar fora da lei (o que paradoxalmente implica reconhecê-la), funde seu lugar de sujeito” (Ibid., p. 49). A fim de obtermos uma compreensão mais aprofundada dessa relação entre o infrator e o laço social, somos conduzidos a discorrer brevemente sobre o discurso que atualmente organiza esse laço, que é o discurso capitalista, já citado anteriormente.
Para tanto, recorremos aos autores Badin e Martinho (2018), que ao retomarem as proposições lacanianas, enfatizam a existência de cinco discursos: discurso do mestre, da histérica do analista, do universitário e o capitalista, sendo que apenas esse último será por nós aprofundado. Os autores explicam que todos os discursos são formados por quatro elementos: S1 (poder), S2 (saber), a (objeto mais-de-gozar12), $ (sujeito). Tais elementos se organizam em quatro lugares: agente, outro, verdade e produção, que podem ser situados na seguinte fórmula:
Fórmula 1- quatro lugares dos discursos AGENTE OUTRO
VERDADE PRODUÇÃO Fonte: QUINET (2012)
O agente (dominante) organiza a produção discursiva, domina o laço social, é o que movimenta o discurso. O outro (dominado) é aquele a quem o discurso se dirige; é necessário à execução, precisa do agente para se constituir. A produção é o efeito do discurso. A verdade sustenta o discurso, é o lugar necessário para ordenar a função da fala (Ibid., p. 143).
É importante salientar que os elementos dos discursos mudam de posição, mas os lugares são sempre fixos. Para melhor compreendermos o discurso capitalista, primeiramente, situamos a sua fórmula, com o intuito de visualizarmos como os quatro elementos se organizam nos quatro lugares respectivamente:
Fórmula 2 – fórmula do discurso capitalista $ S2
S1 a
Fonte: QUINET (2012)
Como já é sabido, de acordo com esse discurso, o reconhecimento do sujeito é oriundo da posse de determinados objetos – gadgets - que representam um valor fálico, além de serem munidos de uma promessa de felicidade, sendo que seu alcance é um dos objetivos de vida de todo ser humano. Mas, embasados nas teorizações freudianas, compreendemos que a realização total de tal objetivo se mostra impossível. Uma explicação para isso, diz respeito ao fato de toda pessoa ser marcada, desde o nascimento, por sentimentos de desamparo, perdas e faltas, as quais são consideradas inerentes a sua condição vital. Esses mal-estares do sujeito, advém dos seus processos psíquicos constitutivos.
A castração pode ser tomada como um desses processos que, como já trabalhada anteriormente, marca psiquicamente a perda de um objeto – o falo, deixando o sujeito faltoso e desamparado, pois, além da criança deixar de ser o falo que completa a mãe, ela também se percebe como não detentora desse objeto, visto que o pai, enquanto função, é quem o tem.
No lugar dessa perda, podemos situar a função do objeto a. Lacan nos ensina como o sistema capitalista se articula à nossa falta fundamental gerada pela castração e, dessa forma, parte para a proposta do discurso capitalista em tentar iludir o sujeito a tamponá-la. Este discurso altera a definição do objeto a como objeto perdido, passando a oferecer objetos que visam à completude (BADIN; MARTINHO, 2018, p. 151).
Seguindo as ideias de Badin e Martinho (2018), todo sujeito, iludido pela possibilidade de completude e banhado pelo mal-estar oriundo da castração, se vê seduzido pelo discurso capitalista, que promete tamponar sua falta através de seus objetos de consumo. Então, ao mesmo tempo que o sujeito satisfaz seu gozo usufruindo os gadgets, o mercado consumista vende esses objetos e imediatamente fabrica algo novo, no intuito de substituir o produto que a pessoa acabou de adquirir. Isso faz com que a falta seja recolocada ao sujeito, afinal, aquilo que ele acabou de comprar não deu conta de satisfazê-lo, e juntamente com esse sentimento vem a oferta de um novo produto que promete completa-lo. Dessa forma, o objeto de consumo “[...] não visa à supressão das necessidades do consumidor, pelo contrário, tendem a deixá-lo na falta.
Essa verdade, porém, fica escondida por trás das promessas de felicidade vendidas junto aos objetos” (Ibid., p. 152). Com isso, as pessoas se lançam em uma busca insaciada e infinita por esses gadgets – objetos de consumo - que na verdade irão apenas forjar uma completude, que jamais será alcançada. Nesse sentido, retomando a fórmula, banhado por esse discurso: o sujeito ($) é considerado mero consumidor; o poder (S1) corresponde ao capital; o saber (S2) é dado pela ciência e o objeto mais-de-gozar (a) seria o gadget.
Fórmula 3 – lugares na fórmula CONSUMIDOR CIÊNCIA CAPITAL GADGET Fonte: QUINET (2012)
Com efeito, essa estrutura evidencia o motivo pelo qual tal discurso não promove laço social e sim segrega o sujeito. A inversão das setas demonstra a não relação que o sujeito estabelece com o gadget, “isso significa que o sujeito comanda e o objeto a, por sua vez, pode também comandar o sujeito, fazendo um circuito fechado [...] este discurso propõe ao sujeito a relação com um gadget, um objeto de consumo curto e rápido [$ - a]” (BADIN; MARTINHO, 2018, p. 149).
Pode-se verificar assim, quais os efeitos que este discurso provoca no sujeito. O sujeito é comandado pelos produtos produzidos pelo saber científico e tecnológico. Os objetos a produzidos pela ciência (gadgets), atuam num fluxo repetitivo no qual quanto mais se consome, mais há o aumento da insatisfação. Há neste discurso algo que circula: promessa de gozo, insatisfação (porque os gadgets não satisfazem plenamente), produção de novas mercadorias. Os mais-de-gozar só fazem aumentar a falta de gozar (Ibid., p. 153).
Imerso nessa ordenação social, o infrator, movido por seu anseio de pertencimento e reconhecimento, nem sempre consegue consumir os objetos fálicos do capitalismo e, diante do fracasso com relação ao alcance do seu objetivo, acaba buscando por meio de formas alternativas sua validação. Uma estratégia típica desses jovens, já apresentada e trabalhada no capítulo anterior, é a formação de grupos.
[...] A impossibilidade de encontrar a legitimação na sociedade [...] leva os sujeitos a constituírem grupos com suas próprias regras, num circuito fechado onde as representações sociais ficam excluídas. Seus participantes encontram nestas cápsulas grupais o reconhecimento e a legitimação que a sociedade lhes negou. Este é o caso das gangues, da máfia e do tráfico de drogas onde há leis próprias que dispensam as leis da polis. (TAVARES, p. 49-50).
Com isso, podemos pensar que o delinquente é excluído do laço social por uma via de mão dupla: tanto pela falha na instauração do pai simbólico, como pela não adequação ao
discurso contemporâneo. Consequentemente, concordamos com Tavares (2004), quando salienta que a própria sociedade conduz os jovens a adotarem uma posição marginal, diante da sua tentativa de encontrarem um lugar no mundo, devido a propagação do anonimato e da dispersão impostas pela vida urbana, das restrições no mercado de trabalho e do acesso aos bens de consumo que são supervalorizados. Portanto, a formação das gangues enquanto uma comunidade que se encontra, literalmente, a margem da sociedade como um todo, podem ser entendidas enquanto resultantes do seu próprio modo de organização. Retomamos a ideia de Rassial (1999), quando este diz que:
[...] As práticas delinquentes dos bandos adolescentes fazem função semelhante às tribos primordiais, constituindo ponto de referência de uma outra dimensão do sujeito [...] as sociedades fundadas na transmissão oral preservavam os ritos de iniciação o espaço do não-lugar da adolescência, produzindo, com isso, uma forma de o sujeito apaziguar-se com traços inéditos [...] na ausência das práticas ritualísticas, os jovens parecem adolescer delinquindo e consumindo objetos como uma das formas de elaborar as intensas mudanças que sofrem (apud GURSKI, 2012, p. 80).
Contudo, em virtude do imediatismo fruto da sociedade contemporânea, bem como do excesso de prazer e da falta de limites oriunda da propagação do consumismo, entendemos que, assim como o delinquente, a sociedade como um todo vivencia, atualmente, um fracasso da função paterna. Tal fracasso pode ser oriundo das mudanças ocorridas na configuração familiar, deslocando o domínio do saber. Para tanto, recorremos a Mead (1979 apud QUINTELLA, 2014), que segundo, distinguiu três tipos distintos de cultura no que tange as formas de configurações familiares ao longo dos tempos, seriam elas: a cultura pós-figurativa, a co-figurativa e a pré-co-figurativa. Buscamos entender cada uma delas.
Na cultura pós-figurativa, havia uma intensa valorização dos saberes advindos dos antepassados, em que a figura do sábio ancião percorria as configurações e valores que eram transmitidos de geração em geração entre os membros da família. Na cultura co-figurativa, a figura do adulto na família se destacava, caracterizando-se pela reciprocidade e pela troca do saber com o jovem. Já na cultura pré-figurativa, prevalece o chamado “mito do poder jovem”, ou seja, nessa configuração familiar o jovem é quem detém do poder por saber sobre as tecnologias que movem o mundo, o que caracteriza uma tirania dos filhos sobre os pais. Atualmente, podemos salientar que essa última se mostra preponderante, pois os filhos estabelecem uma posição de poder sobre os pais, os quais não conseguem mais afirmar sua autoridade (MEAD, 1979 apud QUINTELLA, 2014).
Consequentemente, o saber é deslocado, sequencialmente: dos pais para os filhos, da religião para a ciência. Isso se explica pelo fato de o discurso capitalista ser permeado pelo