CURSO
DE
Pos-GRADUAÇÃO
EM
D1RE1T0
¬
DANO
AMBIENTAL
DO
INDIVIDUAL
AO
COLETIVO
EXTRAPATRIMONIAL
JosÉ
RUBENS
MoRATo
LEITE
'
Orientador:
DR.
PAULO HENRIQUE
BLASI
Florianópolis
UNIVERSIDADE
FEDERAL
DE SANTA CATARINA
CENTRO
DE
CIENCIAS
JURIDICAS
CURSO
DE
PÓS-GRADUAÇÃO
EM
DIREITO
DANO
AMBIENTAL
DO
INDIVIDUAL
AO
COLETIVO
EXTRAPATRIMONIAL
Tese apresentada
ao curso de Pós-
Graduação
em
Direito,para
aobtenção
`
do
títulode
Doutor
em
Direito.JOSE
RUBENS
MORATO
LEITE
Orientador:
DR.
PAULO
HENRIQUE
BLASI
Florianópolis
CURSO DE Pos-GRADUAÇÃO
EM
DIREITO
A
TESE
.
DANO
AMBIENTAL
DO
INDIVIDUAL
AO
COLETIVO
EXTRAPATRIMONIAL
Elaborada por
JOSÉ
RUBENS
MoRATo
LEITE
E
aprovada por
todos osmembros
da
Banca
Examinadora,
foijulgada
para a obtenção
do
títulode
DOUTOR
EM
DIREITO.
Florianópolis, agosto
de
1999.BANCA
EXAMINADORA:
'Prof. Dr.
Paulo
Henriq
asi - PresidenteProf. Dr. Christian
Guy
Caubet
-Membro
Prof.
Dr.
Paulo Affonso
Leme
Machado
-Membro
Prof. Dr.Rogério
SilvaPortanova
-Membro
Pmf.Dr.Gi1bem›
D'Á
f ‹› -Membro
Orientador:
V
'H
'
Prof.
Dr.
Paulo
Henrique
SiCoordenador
do
Curso:
'Prof.
Dr.
Ubaldo Cesar
~~À
minha
esposa,Débora, e
meu
filho,Marcelo.
AGRADECIMENTOS
Esta
Tese não
se teria concretizado senão
tivesse apoio paraformação
da
Universidade Federalde
Santa Catarina e financeiroda
Capes
edo
CNPq.
Sou
gratoao
Prof. Dr. PauloHenrique
Blasi pelasempre
segura ecompetente
orientação;ao
Prof. Dr. JoséJoaquim
Gomes
Canotilho pelacolaboração
na
Faculdadede
Direitoda
Universidade deCoimbra;
ao Prof. Dr.Paulo
Alfonso
Leme
Machado,
meu
grande estimuladorna
pesquisado
direitoambiental.
Anoto
ainda,de
modo
especial, a colaboraçãodo
Dr.Álvaro
Luiz ValeryMirra, Dr.
Marcelo
Dantas, Prof. Dr.Moacyr
Motta
Silva, Prof. Lida Zandonadi, Emílio e EsteraMenezes,
do
corpo
docente edos
funcionáriosdo
Curso de Pós-Graduação
em
Direitoda
Universidade Federal de Santa CatarinaCom
carinho,lembro
o
apoio e a paciênciade
todos os familiares eamigos,
que
me
acompanharam
nessa experiência,ao
mesmo
tempo, dificil e gratificante.LEITE,
JoséRubens
Morato.Dano
ambiental:do
individualao
coletivoextrapatrimonial. Florianópolis, 1999.
350
p.Tese (Doutorado
em
Direito) -
Curso de
Pós
-
Graduação
em
Direito, Universidade Federalde
Santa Catarina, 1999. E
Palavras-chave: direito ambiental;
dano
ambiental; responsabilidade civil;dano
extrapatrimonial
ou
moral.RESUMO
'Cuida a
presenteTese de
estudodo
aspecto jurídicodo dano
ambiental,
com
vistas a investigar a sua reparabilidade,com
fundamento na
responsabilidade civil. ,Parte-se
da
dificilmissão do Estado
e, principalmente,do
Estado de
Direito, visando à proteção
ao
meio
ambiente, ressaltando que, para estaconsecução,
há
necessidadedo
sistema estar ancoradoem
princípiosque
seformam
pelo direito ambiental. -Faz-se
um
delineamentodo dano
ambientaldo
individual ao coletivo,procurando
inclusive perspectivar a possibilidade de aceitaçãodo dano
extrapatrimonial
ou moral
ambiental. Adentra-se nos principaismecanismos
jurisdicionaisde
tutela reparatória ambiental, sobretudona
ação civil pública,em
decorrênciada
lesãoou
ameaça
aomeio
ambiente.A
pesquisa traça parâmetros nas formas de reparaçãodo dano
ambiental,
com
realcena
recuperação,recomposição
ecompensação
ecológica.Por
fim,
procura-se evidenciar a importante função auxiliarda
responsabilidadecivil
por
dano ao meio
ambiente, destacandoa
necessidadede
trato específico ede
uma
verdadeira releiturado
direito, visando a adaptá-loa
um
sistemaque
LEITE,
JoséRubens
Morato.Daño
ambiental:
de
lo individual a lo colectivo extrapatrimonial. Florianópolis, 1999.350
p.Tese
(Doctoradoem
Derecho)
-Curso
dePosGraduacion en Derecho,
UniversidadeFederal
de
Santa Catarina, 1999. `RESUMEN
~La
presente Tesis de estudio trata del aspecto juridico deldaño
ambiental con. propósito de investigar su reparación,
con
base en laresponsabilidad civil.
Se
partede
la dificil misión delEstado
y, principalmente, delEstado
de Derecho, objetivando la protección del
medio
ambiente,observando que
para esta finalidad existe la necesidad
de
sustentarse en principiosque
seforman
en la base del derecho ambiental._
Para dicho objetivo, se realiza
una demarcación
deldaño
ambientalque
va de
lo individual a lo colectivo, intentando, incluso, considerar la posiblidadde
aceptacióndaño
extrapatrimonialo moral
ambiental. Se penetra en los principalesmecanismos
jurisdicionalesde
tutela reparatoria ambiental, principalmenteen
la acción civil pública,en
caso eventualde
lesión oamenaza
al
medio
ambiente.La
pesquisa traza parâmetros para lasfonnas
de reparación deldaño
ambiental,con
énfasisen
la reparación, recomposicióny
compensasión
ecológica. Finalmente, se trata,
en
esta investigaciónde
evidenciar laimportante función auxiliar del sistema jurídico
de
responsabilidad civilpor
daños
almedio
ambiente, destacando la necesidad del tratamiento específicoy
de una
verdadera relectura del derecho,con
la finalidadde
adaptarloa
un
sistemaque
tragauna
mayor
eficaciay
seguridad juridica.LEITE,
JoséRubens
Morato. EnvironmentalDamage
and
Perspective. Florianópolis, 1999,350
p. Thesis (Doctorate inLaw) -
PosGraduation
Law
Course, Federal Universityof
Santa Catarina, 1999.ABSTRACT
In the present Thesis, the juridical aspect of the enviromnental
damage
is studied in order to investigate its reparability,based on
the civilliability.
_
One
startsfrom
the difficult missionof
the State, mainly, the StateOf
Law,
aiming the protection of the environment.For
this purpose,one
has tobe
anchored
by
principlesformed
by
the envionmental law.The
environmentaldamage
is investigated within its individualand
collective aspects looking for the perspective of the acceptance
of
themoral
enviromnental
damage.
The main
juridicalmechanisms
used
for environmentalreparability are outlined, mainly the class action (ação civil pública),
which
can
be used once
the environment is threatened ordamaged.
The
research establishes parameters in theways
the environmentaldamage
canbe
repaired withemphasis
in its recuperation, recompositionand
echological compensation. Finally, the important auxiliar function of the civil
liability for
damaging
the environment, present in the juridical system, is put inevidence,
showing
theneed
fora
specific treatmentand
reinterpretationof
the law, aiming to adapt it to a systemwhich
bringsmore
efficiencyand
juridicalINTRODUÇAO
... .. 1CAPÍTULO
1:O
ESTADO
E
O
MEIO AMBIENTE
... .. 71.1.
A
crisedo
desenvolvimento
econômico
e omeio ambiente
... .. 71.2.
Estado
de
direitodo
ambiente:
uma
difícilmissao
... .. 121.3.
Estado
de
direitoambiental
... ..; ... .. 191.3.1.
Necessidade
de
uma
cidadania participativa e solidária -democracia
e justiçaambiental
... .. 191.4. Princípios estruturantes
do
Estado
de
direitoambiental
... ..32
1.5. Princípio
da
precaução
eatuaçao
preventiva ... ..34
1.6. Princípio
da
cooperação. ... .Ç ... ... .z ... ..40
1.7. Princípio
da
responsabilização...' ... .. 'Í\43J I .vvCAPÍTULO
2:CONCEITO
DE
MEIO AMBIENTE
... ._58
2.1.Meio
ambiente:
noções genéricas ... ..58
2.2.
Meio
ambiente
em
sentido jurídico ... _.67
fi”
~
2.3. Meio-ambiente
como
m_acrobem¿.' ... ... ._ 71 2.4.Meio
ambiente
ecologicamente
equilibradocomo
direitofundamental
... ... ..76
CAPÍTULO
szDANO
AMBIENTAL
... ..84
3.1.
Dano
ambiental: noções
genéricas e classificação ... _.84
3.2.
Dano
ambiental
no ordenamento
jurídico brasileiro ... _. 913.3.
Quadro
ilustrativode dano
ambiental
no
direito estrangeiro...96
3.4.
Dano
ambiental
e responsabilidade civilno
ordenamento
jurídico brasileiro ... _. 103
af
3.4.1.
Noções
geraissobre
responsabilidade jurídica ... _.103
3.4.2.
Da
responsabilidade clássicado
código civil brasileiro ... ._109
3.4.3.
Responsabilidade Objetiva
e LegislaçãoAmbiental:
`Evolução
... ... ._115
3.4.4.
Responsabilidade
civilpor
dano
ao
meio
ambiente
no âmbito da
Lei n. 9.605de
1998
... _.123
_ fé'
CAPÍTULO
4:DANO
AMBIENTAL
INDIVIDUAL
... ..129
4.1.
Dano
ambiental
individual,reflexo
ou
indireto e direitoz
de
vizinhança ambiental
... ... _.
133
4.2.
Ação
popular ambiental
... ..138
4.2.1. Direito subjetivos
fundamental
ecidadania
ambiental
individual ... _.138
4.2.2.
Origens
... ... __145
4.2.3.
Ação
popular
no ordenamento
jurídico brasileiro ... _.146
_ 4.2.4.
Aspectos
processuais ... ._150
4.2.4.1. Legitimidade ativa ... ._
150
4.2.4.2. Legitimidade passiva ... _.
154
4.2.4.3. Objeto e questões processuais ... ._ _157
4.2.4.4.
Pedido
e causade
pedir ... ._160
4.2.4.5. Liminar ... ... _. 163
f*
.
4.2.4.6.
A
coisa julgadana
demanda
popular ... ..163
4.2.4.7.
Aspectos
condenatóriosda
demanda
popular ... ._165
CAPÍTULO
5:DANO
AMBIENTAL COLETIVO
... ..166
5.1.
Condições para a
imputação da
tutela reparatória.
do dano
ambiental
... _.172
5.1.1.
Nexo
de
causalidade ... ..174
5.2.
Limite
da
tolerabilidade edo dano
ambiental
... ._186
5.3.
Omissão
edano
ambiental
... ..-. ... ..192
r:
5.4.
Responsabilidade
do
estado edano
ambiental
... ._194
5.5.
Excludentes
de
responsabilidadezcaso fortuito e força maior...198
5.6. Prescrição
do
dano
ambiental
... ..201
5.7. Efeitos transfronteiriços
da
poluição eo
dano
ambiental
... ..204
-
5¿8.
Da
reparação
do dano
ambiental
... ..206
2
...5.8.1.
Noções
genéricas ... ... ..206
5.8.2.
Formas
de
reparação
... ..207
5.8.3.
Reparação
integraldo
dano
ambiental
... ._212
5.8.4.
Fundos
para reparação
do
dano
ambiental
...214
518.55
Dificuldade
de
valoração
do
dano
ambiental
... ..218
5.8.6.
Algumas
condutas
jurisprudenciaisna
avaliaçaoda
reparação
... ..220
5.9.
Tutela
jurisdicionaldo
dano
ambiental
coletivo:ação
civil pública ... ..222
5.9.2. Interesse jurídico
ambiental
... ..227
5.9.2.1.
Noções
preliminares ... ., ... ..227
5.9.2.2. Interesses
ou
direitos difusos ... ..231
5.9.2.3. Interesses
ou
direitos coletivos ... ._233
5.9.2.4. Interesses
ou
direitos individuaishomogêneos
... ..234
5.9.2.5. Titulares ativos e passivos
da
tutela reparatóiia ambientalLegitimação ... ..
235
5.10.
Implicações
jurídicasda
conceituaçãodo
bem
ambiental
.... ..238
5.10.1.
Objeto
da
ação
... ... _.240
5.10.2. Inquérito civil público ... ..
244
5.11.
Foro competente
... _.248
5.12.
Liminares
emedidas
cautelares e antecipatórias ... ..251
5.13.
Termo
de
ajustamento
de
conduta
emeio
ambiente
... ..258
CAPÍTULO
6:DANO
EXTRAPATRIMONIAL
OU
MORAL
AMBIENTAL
... ..263
6.1.
Nomenclatura
e evolução ... ._263
6.2.
Aceitação
do dano
extrapatrimonialno
direito brasileiro ... ._267
6.2.1.
Tratamento
jurisprudencial antesda
Constituiçãoda
República Federativa
do
Brasilde
1988
... ..271
6.2.1.1.
No
Supremo
Tribunal Federal ... _.271
6.2.1.2. Constituição Federal de
1988
... ..274
6.2.2.
Tratamento
jurisprudenciala
partirda
constituiçao vigente ... ..
275
6.3.
Fundamento
legaldo dano
extrapatrimonialou
moral
“ambiental
... ..279
6.4.
Dano
extrapatrimonialambiental
e suasconexões
com
oTendências
atuais ... _.287
6.6.
Dano
extrapatrimonialambiental
Equiparação
ao
significadode dor
Algumas
hipóteses ... ._295
6.7. Dificuldades
de
reparação
do
dano
extrapatrimonial ... ..300
CONCLUSÃO
... ..REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
... ..... ..
305
A
presente pesquisaacadêmica
tem
por objeto formal atender as exigênciasdo
Colegiadodo Curso
dePós-Gaduação
em
Direitoda
UniversidadeFederal
de
Santa Catarina, sobrea
obrigatoriedadeda
entrega e defesade
teseoriginal, inédita e necessária, para a obtenção
do
títuloacadêmico de
Doutor
em
Direito.
A
temáticadano
ambiental
constitui-se,nos
dias de hoje,em
preocupação que
transcende aquela deum
Estado
isoladamente e passa a inserir-se
no
contexto de questões aserem
resolvidas a nível de globalização.Os
desastres ambientaisalcançam
efeitos transfronteiriços e atingem todacoletividade e seu ecossistema.
As
Nações
Unidas
têm
insistidona
necessidadede
uma
política ambiental globalizada,com
mecanismos
que
regulemo
dano
ambiental.
No
entanto, para fazer face aosdanos
ambientais, constata-seuma
política ambiental restrita
ao
âmbito decada Estado
internamente ede forma
heterogênea e parcial, trazendo
imenso
descompasso
com
a efetiva proteção aomeio
ambiente.Não
obstante os alertasa
respeitoda
questãodo dano
ambiental,não
se verifica urna expressiva diminuiçãoda
poluição e dos efeitos nefastos dosdesastres ecológicos.
Ao
que
tudo indica, esta dificuldade de controledo dano
ambientaltem
muitoa
vercom
a
racionalidadedo
desenvolvimentoeconômico
do
Estado oriundode
uma
sociedade de risco eindustrializada.Estas constituem algurnas razões
que
redundam
na
crise ambiental.Mencione-se que
a temática incide sobreum
campo
de
conhecimento
Em
sua configuração, odano
ambientaltem
um
perfilmultidimensional, atingindo concomitantemente
o
bem
jurídico ambiental e outros interesses jurídicos.O
sistema jurídico brasileiro protegeo
bem
jurídicoambiental
com
finalidade dúplice: a.no que
diz respeitoà
proteção e capacidade funcionaldo
ecossistema e b. visando a conservar a sua capacidadede
aproveitamento
humano.1
Estas caracteristicas, entre outras,
do dano
ambiental suscitam questõescomplexas nos
meios
jurídicosque visam
à proteçãodo
meio
ambiente, postoque
este foge-de longe
da
versão tradicionalde
dano.'
O
sistemade
responsabilidade civil tem,nos
últimos tempos,passado
por iniuneras transformações, procurando-se adequar a tutela
ao
bem
ambiental.A
introduçãoda
responsabilidade objetiva respectivamenteao
agente degradador, oriundada
teoriado
risco, por exemplo,confirma
esta tentativa de evolução.Porém, o
instrumental jurídicodo
sistemade
responsabilidade apresenta,em
alguns dos seus pressupostos recortados,
um
perfil individualista, voltado para as lides interindividuais. Este perfil,em
muitas situações, exigeum
poder
judiciáriocom
capacidadede
produzir respostasadequadas
e atingir resultados condizentescom
a tutela das lides ambientais, funcionandocomo
instrumento auxiliarà
proteção ambiental.
O
sistemada
lação civil pública (lei n.°7347/85), aliadoà
lei n.°6938/81 e aos ditames
do
artigo225 da
Constituiçãoda República
Federativado
Brasil, aperfeiçoaram a defesa jurisdicional
do
dano
ambiental e facilitaram aresponsabilização civil
do
degradador ambiental.Em
seu aspecto processual,o
sistema jurídico brasileirodetém
um
instrumentalavançado
para as lides ambientais.Contudo,
vários entraves, provenientesda complexidade
do
dano
l
convergência,
com
a finalidade de exigir reparaçãoda
lesão aomeio
ambiente. Justifica-se esta investigação,em
seu conteúdo, visando aos principaisproblemas
ligadosao
dano
ambiental- e discutir criticamente seus aspectosjurídicos. Evidentemente a responsabilização civil
do
poluidor funcionacomo
~instrumento auxiliar
de
proteçaodo dano
ambiental, pois ao tarefa principalcabe
ao
Estado, atravésdos
mecanismos
de
fiscalização e controle, apesardo
déficit existente quanto à proteção aomeio
ambiente. Note-se que, apesar desta atuaçãoauxiliar
de
responsabilização, é esta a única viade
acesso jurisdicional paraobrigar
o
poluidor a repararo
dano
ambiental.Sumariadas as principais justificativas
do porquê
desta investigação,afirma-se que o
objetivo geral destaTese
é analisar, juridicamente,de forma
pormenorizada, os diversos matizes
do dano
ambiental,do
individual ao coletivo. Inclusive, abordaro
tema
soba
perspectivada
aceitabilidadedo dano
extrapatrimonialou moral
ambiental.Os
objetivos específicosda Tese
são os seguintes: a. Analisar asprincipais barreiras
do
Estadocom
vistas a protegero meio
ambiente,procurando
demostrar a necessidade
da formação de
um
Estado de
Direito Ambiental, alicerçadoem
princípios estruturantes, entre os quais, o princípioda
responsabilizaçãodo
degradador ambiental; b. Evidenciarum
conceito jurídicode
meio
ambiente, proporcionando identificaçãodo
dano
ambiental, e classificá-lo,
buscando
respaldona
doutrina, sistema normativo brasileiro, e trazendoum
quadro ilustrativodo
direito estrangeiro sobreo
tema; c.Examinar o
sistemade
responsabilidade civil por
danos
ambientais e seus principais entraves,abordando,
também,
sucintamente, osmeios de
tutela jurisdicional ambiental; d.A
metodologia utilizadana
pesquisa é basicamenteo
processo indutivoe, eventualmente,
o
dedutivo,com
usoda
técnicade
pesquisa bibliográfica.No
que
concerne à coleta jurisprudencial, o objetivo exclusivo éo de
ilustrar tópicosespecíficos
da
Tese.Examinam-se
a doutrina eo
direito positivo,com
destaque:Responsabilidade Civil
por
Dano
Ambiental; Direito Ambiental; Princípiosde
Direito Ambiental; Direito Constitucional Ambiental; Direito Civil; Direito Processual; Leis esparsas incidentes sobre odano
ambiental.O
planode
trabalhoda Tese
se desenvolveem
seis capítulos.O
primeiro capítulobusca
fazerum
enquadramento de
Estado emeio
ambiente. Parte-se deuma
breve reflexão sobre a atuaçãodo
Estado ede
suasdiferentes ideologias,
observando
seumodo
de
agir, atravésdos modelos de
desenvolvimento
econômico,
para enfrentar a crise ambiental. Observa-seque
existe emergência
de novos
paradigmas de desenvolvimento,que
aindanão
seencontram
plenamente estabelecidos. Estuda-se a necessidade deo Estado de
Direito ser
ancorado
em
uma
Cartade
Princípios,que
tragamaior
justiça ambiental.O
capítulosegundo
procura adentrar nas incertezasde
significaçãode
meio
ambiente e formula-se, a partir dos textos normativos,um
conceito juridicode
meio
ambiente.O
intuito é elaborarum
conceito jurídicoque
sirvade base
para
a configuração de dano
ambiental.O
capítulo terceiro se destina a identificar e classificaro
dano
ambiental, partindoda
conceituação jurídicade meio
ambiente, apresentadano
capítulo anterior. Faz-se
uma
análise críticado dano
ambientalno
sistemajurídico brasileiro e fonnula-se, de
forma
ilustrativa,um
quadro comparativoda
lei brasileira
com
osmais
paradigmáticos textos normativos específicosdo
direitorealçando as principais diferenças e linhas gerais destes textos normativos.
Classificado e identificado
o
dano
ambiental,empreende-se
uma
análise das conseqüências desta lesividade, isto é, adentra-seno tema
da
responsabilidade,mais
especificamente,no
institutoda
responsabilidade civil pordanos
causadosao
meio
ambienteem
seu contexto legal.Examina-se
como
a responsabilidadecivil
adequou
sua versão clássica, intersubjetiva, à tutelados
interesses jurídicosambientais.
O
capítulo quarto tratado dano
ambiental individual,buscando
constatar as incidências entre a lesão ambiental eo
direito individual.Nesta
perspectivaexaminam-se
alguns instrumentos jurisdicionaisque
têm
como
alvoa
tutela
de
interesses individuais e, assim, aborda-se, sucintamente: a.A
açãode
vizinhança,em
uma
perspectiva ambiental; b.A
ação popular ambiental,com
vistas àconsecução de
um
direito subjetivo fundamental. 'O
capítulo quinto destina-sea examinar o
dano
ambiental coletivo ea
tutela jurisdicional coletiva, através
da
ação civil pública ambiental.Procuram-se
destacar, sinteticamente, as condições preliminares para
o
exercícioda
açãode
reparação
do dano
arnbiental,abordando
entravesdo
institutoda
responsabilidade, entre eles: a.
Nexo
de
causalidade; b. Limitede
tolerabilidade edano
ambiental; c.Omissão
edano
ambiental; d. Responsabilidadedo
Estado
edano
ambiental; d. Excludentesde
responsabilidades; e. Prescriçãodo
dano
zu
ambiental; e f. Efeitos transfronteiriços
da
poluiçao edo dano
ambiental.Também
focaliza-se a reparação
do dano
ambiental, considerando os seguintes temas: a.Formas
de reparação, isto é, restauração ecompensação
ecológica; b.Reparação
integral
do dano
ambiental; c.Fundos
para reparaçãodo dano
ambiental; d,2 Para uma
visão da Lei italiana e sua comparação com a Convenção de Lugano, vide: (Giampietro
processuais
da
ação civil pública ambiental, realçando os instnunentosprocessuais
que
tenham
enfoque preventivo e precaucional, evitandoa
perpetuação
do dano
ambiental e acautelando-seem
faceda
ameaça. pO
sexto capítulobusca
perspectivar e darfundamentação ao
dano
extrapatrimonialou moral
ambiental. Procura-se demonstrar a evolução paulatinado dano
extrapatrimonial, destacando-se a sua aceitabilidadeno
direito brasileiro.Examinam-se
asconexões
entre odano
extrapatrimonial ambiental eo
direitode
personalidade. Faz-se
uma
análisedo dano
extrapatrimonialdo
individualao
coletivo, passando-se pelo debate
de
sua incidência sobrea
pessoa fisica, jurídica e coletiva,em
busca
das tendências atuais. Analisa-se,também,
o
dano
extrapatrimonial ambientalcomo
elemento indispensávelde
um
valor equiparadoao
valordo
sentimentode
dor individual,embora
não
intrinsecamente este, poisligado a
um
bem
ambiental, indivisível,de
interessecomum,
solidário e relativoa
um
direitofimdamental
de
toda coletividade. Trata-se, ainda,de forma
sucinta,das dificuldades inerentes
à
reparaçãodo dano
extrapatrimonial ambiental.3
O
ESTADO
E
O
MEIO AMBIENTE
1.1.
A
Crisedo Desenvolvimento
Econômico
e oMeio Ambiente
'-Busca-se, de início, fazer
uma
brevereflexão
de caráter retrospectivo~ ~
com
uma
inserçao prospectiva sobre a atuaçaodo
Estado ede
suas diferentes ideologias, verificandoo
seumodo
de
agir para “enfrentar a crise ambiental4que
vive
a
sociedade. Procurar-se-á, ainda, fazeruma
abstração sobrea
necessidade de construirum
Estadomais
voltado para as questões ambientais, partindo dasdiversas formas
de
suaconcepção
historicamente configuradas.A
tomada de
consciênciada
crise ambiental é deflagrada,principalmente, a partir
da
constataçãode
que
as condições tecnológicas, industriais e fonnas de organização e gestõeseconômicas
da
sociedade estãoem
conflito
com
a qualidade de vida.Em
adição,Hardin
(1972, p. 50-61) destaca acoligação entre a crise ambiental e
o
crescimentodemográfico,
incluindo este último fatorcomo
elemento incompatívelcom
a
preservaçãoda
natureza.Um
posicionamento diante desta conflituosidade tendea
remodelar aforma de
desenvolvimento econômico,com
vistasa
integraro
bem
ambiental4
Entende-se por crise ambiental a escassez de recursos naturais e as diversas catástrofes a nivel planetário, surgidas a partir das ações degradadoras do ser humano na natureza. Para uma visão desta
crise, entre outros, observar o conhecido Relatório Brundtland:
THE
WORLD
COMISSION
ON
como
elemento deum
novo
modelo.Esta posição é ressaltada por Franco (1996, p. 14),
quando
tratado
desenvolvimento
econômico
e de crise ambiental:“E
é essa verificaçãode
pontos
negros,digamos
assim,de
equilíbrio entrea
atividadeeconômica
ea
qualidade
de
vida ea
ordenação
naturalque
vêm
colocarem
causa o
conceito tradicionalde
crescimentoque
a
revolução industrial implantou e que,de
algum
modo,
inspiroua
lógicados
sistemas capitalistas atéo nosso
século.”Verifica-se que, tanto as ideologias liberais
como
as socialistas,não
souberam
lidarcom
a crise ambiental, considerandoque
o
capitalismoindustrialista,
no
primeiro caso, eo
coletivismo industrialista,no
segundo,puseram
em
práticaum
modelo
industrial agressivo aos valores ambientaisda
comunidade.
H
Essencialmente, a crise ambiental configura-se
num
esgotamento dosmodelos de
desenvolvimentoeconômico
e industrial experimentados.De
fato,o
modelo
provenienteda
revolução industrial,que
prometiao
bem-estar para todos,não cumpriu
aquiloque
prometeu, pois apesar dos beneficios tecnológicos,trouxe, principalmente,
em
seu bojo, a devastação ambiental planetária e indiscriminada. (Benjamin, 1995, p. 83-84).Por
um
lado,o
modelo
capitalista,em
consideraçõespuramente
econômicas,
fincado
no
individualismo eno
mercantilismo, é agressivoao
meio
ambiente.De
outro,o
coletivismo igualmente,ou
atémais
agressivo, pois estebaseou-se
em
uma
economia de
escala, acreditouem
uma
unidadede
grandeescala,
porque
apostoumais
na economia
suja enão sofieu
as respostas diretasdos interessados, pela falta
de
um
contexto de liberdade. (Franco, 1996, p. 14).O
Estado de bem-estar marginalizou a questão social ambiental, pois, dirigidopor
políticasde
plenoemprego
e demaximização da
utilizaçãodos
fatoresda
produção, ignorou e deixou de desenharuma
politica ambientalcom
vistas à
melhor
qualidade de vida. *Pode-se deduzir
que
ambos
os sistemasforam
alicerçadosem
uma
visão clássica de desenvolvimento e crescimentoeconômico, frmdado
em
um
induslrialismo totalmente agressivo aos recursos naturais. Nestes
modelos,
aregra é o
acúmulo de
capital e aprodução
de riqueza, sendo ignorada apreservação dos recursos naturais,
como
elemento de uso limitado.Os
recursosnaturais
não
são contabilizadosem
seus sistemaseconômicos
e,como
conseqüência, a defesa
do
meio
ambiente eo
crescimentoeconômico
são vistoscomo
inconciliáveis e excludentes. (Milaré, 1995, p. 16). Trata-se,de
fato, deuma
racionalidadeeconômica
de curto prazo, orientada para aacumulação
decapital.
Em
síntese, este divórcio entre aconcepção de
atividadeeconômica
eambiente é, pois,
uma
incontestada crise ambiental.A
problemática ambientalquestiona os processos
econômicos
e tecnológicosque
estão sujeitosà
lógica demercado,
resultandoem
degradaçãodo
ambiente e prejudicando a qualidade devida. Pelo
que
sepode
depreender, a crise ambiental questiona a necessidadede
introduzir reformas
no
Estado, incorporandonormas
no
comportamento
econômico
e produzindo técnicas para controlar os efeitos contaminantes,com
o
propósito de dissolver as extemalidades sociais e ecológicas geradas pela racionalidade
do
capital. (Leif, 1994, p. 292-293).Fazendo
um
diagnósticoda
crise das três funçõeseconômico-
ecológicas
da
biosfera,ou
seja, a ofertade
recursos, assimilação de resíduos edisponibilização de serviços ambientais,
Pureza
(1998, p. 3) constataque
sãoinquietantes as previsões
concementes
à escassez destes recursos a curto prazo,levando
em
consideração as taxasde
consumo
atuais dos recursosnão
renováveis de importância estratégica, taiscomo
o
carvão,o
gás natural eo
petróleo,bem
como
dos
recursos naturais renováveis,que dão
sinaisde
decréscimo.Assevera o
/
ritmo de produção.
O
efeito estufa, associado à diminuiçãoda
camada
de
ozôniodenrmcia,
segrmdo
o autor,que
a crise ambiental éum
fenômeno
integrado dastrês
dimensões
referidas.Em
face aofiacasso do
desenvolvimentoeconômico
dos Estados eda
ameaça
de intensificaçãoda mencionada
crise, perglmta-se: quais as propostasalternativas
que
vão
sefonnando?
A
primeira destas éda
economia do
ambiente, que sefimda,
em
síntese,
no
cálculoeconômico
dosbens
ambientais.O
conceito desta proposta,segundo
Derani (1997, p. 106), éque
talmodelo
procura normatizaruma
economia
parauso de
mn
bem
e detenninar artificialmenteum
valor para aconservação de recursos naturais.
Afinna
a autoraque
estes são osmeios
encontrados para integrar os recursos naturais
ao
mercado. -E
Ao
que
parece, esta teoria conserva ainda liamecom
as teoriaseconômicas
clássicas,sem
propor urna rupturamaior
com
o
sistemade mercado,
como,
por exemplo,impor
restrições à escalade
consumo
existente.Uma
outra proposta é ado
desenvolvimento durável, sustentável,ecodesenvolvimento,
ou
seja, “satisfazeras
necessidadesdo
presentesem pôr
em
riscoa
capacidade das gerações
futurasde
terem suas próprias necessidades satisfeitas(WORLD
COMMISSION
ON
ENVIRONMENT
AND`DE`VELOPMENT,
1987, p. 8).` ?`
Esta proposta
ganhou maior
divulgação e pretende,como
resultadosmais
visíveis,uma
justiça intergeracional,em
que
uma
geraçãonão
tem
o
direitode desperdiçar aquilo
que
recebeu e meno§,aií1'da de degradar ecomprometer o
direito das gerações futuras,
no que
conceme
aos recursos ambientais.Por
outro lado,o
desenvolvimento duradourobusca
um
paradigma
diferenteda
racionalidadeeconômica
tradicional, representadaspor
duas preocupações básicasnão
inseridasna mencionada
racionalidade. Sustentado primeiramentena não
exclusãoda
geração futurano
seu contexto e,em
segundo
lugar,
na
consideraçãodo
valor intrínsecoda
natureza, desvinculando-sede
uma
visão antropocêntrica. H
Ressalta-se, entretanto, que,
na
prática, aindanão
setem
uma
aplicação significante ehomogênea
do
modelo
de
desenvolvimento duradouro, trazendo, assim, incertezas incompatíveiscom
as necessidadesda
sociedade atual.Beck
(1992, p. 2-8) enfatizaque
as incertezas são trazidas pelasociedade
de
risco (risk socity),em
fase de transição, advindada
sociedadeindustrial.
Beck
vê
uma
dimensão
perigosa parao
desenvolvimento,especialmente considerando a frmção
da
ciência edo
conhecimento.O
autor notaque
as conseqüênciasdo
desenvolvimento científico e industrial são o perigo eo
risco, trazendo a possibilidade de catástrofes e resultados imprevisíveis
na
dimensão
estruturanteda
sociedade.Estas incertezas, trazidas pela sociedade
em
transição ede
risco,afetam todas as áreas, inclusive
o
direito e,em
especial,o
direito ambiental,conforme nos
ensina Canotilho (1995, p. 233):“O
efeito irradiantedos
atosou procedimentos das
autoridades
nas
sociedadesde
risco ganha,por
isso,uma
dose relevante
de
atratividadena
teoriado
direito público.Em
vários domínios,mas
sobretudono
direitodo
ambiente,no
direito urbanístico,no
direitodos
consumidores, é patente
que
algumas
das
tradicionaisconstruções jurídicas se
vêem
hojeem
sérias dificuldadespara
captar satisfatoriamentea
complexidade
subjacenteà
imbricaçãodos
vários interesses convergentes,concorrentes
ou
contrapostos”.Há
que
se repensar e se aplicar imediatamenteum
modelo
de
desenvolvimento
que
leveem
consideração as gerações futuras euma
políticaque
de
incertezas,Ost
(1997, p. 304) alertaque
todos oscomponentes da
tragédiaparecem
estar inseridos:V
“a
enormidade das
questõesem
jogo,a
irreversibilidadedos processos
em
curso eo
constrangimento,quase
irreversível,
de
um
movimento
de
desenvolvimentoque
arrasta as
nações
num
consumo-sempre
acrescido,de
que
sabemos, contudo, conduzir
a
uma
ruptura decarga
do
sistema ecológico. E,
como
na
tragédia, os alertasnão
faltam,com
vista, seainda
há
tempo,a
invertero
movimento
e inventaruma
outraorigem
para
estamodema
históriado
dilúvio. ” _De
fato, vê-seque
a crise ambiental desta sociedade de risco,em
fasede
transição, é, de fato,o
esgotamentode
modelos
de
desenvolvimento, levados acabo
desdeo
iníciodo
século. (Vieira&
Weber,
1996, p. 18).1.2.
Estado
de
Direitodo Ambiente:
Uma
DifícilMissão
~
Desenhadas
as dificuldades encontradas pelo Estadona
sua direçãoao
desenvolvimento
econômico
e à crise ambiental, pergtmta-se: é possível construirum
Estadode
direitodo
ambiente? t,H
A
primeira resposta seriaque
émuito
dificil esta tarefaem
faceda
complexidade
dosproblemas
emergentes eda
situação de transiçãoque
enfrentaa sociedade, através
da
globalização ede
outrosfenômenos
emergentes.É
evidente o esvaziamentoda
capacidade regulatória de. Estado, tendoem
vista osnovos fenômenos
dedimensão
global e intensificaçãoda
pressão exercidapor
entidades
não govemamentais
de alcance transnacional.Esta situação de transição é
bem
desenhada
por Pureza (1998, p. 15):“Vivemos
um
tempo
de grandes
incertezas,que
balança
entrea
suposta eficáciade
um
modelo
de governação
global assentena
extensãodos
principios 'ide0
regulação
dominantes nas
sociedades nacionais ea
invençãode novos
modelos
que
enquadrem a
globalizaçãonuma'
lógica reguladora horizontal edemocrática. '”`
Em
horizonte defim
de século,na
reconfiguração das forças políticasde
um
mundo
marcado
por desigualdades sociais,empobrecimento
das maiorias, e pela degradação ambientalem
escala planetária, a construçãode
um
Estado
do
Ambiente,
pareceuma
utopia, porque sabeque
os recursos ambientais são finitos e antagônicoscom
aprodução
de capital eo
consumo
existentes.E
Nos
ensinamentos deSouza
Santoss (1994, p. 42),no
entanto, éuma
utopia democrática,“porque
a
transformação
a
que
aspirapressupõe
a
repolitização
da
realidade e o exercício radicalda
cidadania individual ecoletiva, incluindo nela
a
cartados
direitoshumanos
da
natureza”.E
mais, parasua realização,
há
necessidade deuma
“transformação
global,não
sódos
modos
de produção,
mas também
dosconhecimentos
cientzjicos,dos
quadros de
vida,das
formas
de
sociabilidade edos
universos simbólicos e pressupõe,acima
de
tudo,
uma
nova
relaçãoparadigmática
com
a
natureza,que
substituaa
relaçãoparadigmática moderna”.
De
início, é mister pontuar-se que, para fonnularum
Estadode
direitodo
ambiente, este,“além de
serum
Estado de
direitoó,um
Estado
democrático,um
Estado
social7, devetambém
modelar-secomo
Estado
ambiental”,conforme
5
Acrescentou-se o nome Souza Santos considerando que este autor é mais conhecido por esta designação, ciente que as normas de referência bibliográfica não prescrevem desta maneira.
6
“A
componente Estado dedireito e a componente do Estado democrático - não podem ser
separadas uma da outra.
O
Estado de direito e' democrático e só sendo-o, é que é Estado de direito(Canotilho, Moreira, 1993, p. 62)
7 “Sendo a
realização do Estado social
um
processo,um
caminhar no sentido de crescente justiçaalerta Canotilho. (1995, p. 22). Isto significa dizer que, para prevalecer
um
Estado de direito
do
ambiente,há que
contar-secom
todos -estes elementosinseparáveis e indispensáveis para sua configuração. (Cademartori, 1999, p. 32).
Ao
se discutirem valores ambientais e Estadode
direito ambiental, énecessário ponderar
que
os primeiros são tarefas prioritáriasdo
segundo, fundadosem
normas
constitucionais, e integrados“num
horizonte plural(diversificado e intrinsecamente concorrente
ou
conƒlituante) de princípios orieptadores ede
outrasnormas-fim, segundo
um
princípiode harmonização
ede concordância
prática,não
compatívelcom
quaisquerformas
de
reducionismo (Rangel, 1994, p. 20-22). Estas várias facetas
do Estado de
Direito
do Ambiente
severificam quando
se postula a discussãono
campo
do
plano
do ordenamento
político constitucional.Contudo, deve-se destacar
que
a eclosão denovos
direitos obriga osestudiosos .a pisar
no
plano constitucional, sabedores,conforme
leciona Canotilho(1998, p. 22),
“que
as instituições e os indivíduos estão hojemergulhados
numa
sociedade técnica, informativa e
de
risco,que
obrigao
jurista constitucionala
preocupar-se
com
o espaço
entrea
técnica eo
direito,de
forma
a
evitarque
esseespaço
se transformenuma
terrade
ninguém
jurídica”. Acrescentao
autor que,no
plano constitucional,há que
se prestarmais
atenção a certos problemas,como
“osdas
crisede
representação,da
envolvência dos direitosconstitucionais nacionais pelo
emergente
direito constitucional globalou
intemacional e pelo
já
vigente direito constitucional comunitário, eda erupção
de
novos
direitos e deveres (direitodo ambiente
e outros), intimamenterelacionados
com
a
liberdade e dignidadeda
pessoa_humana
ecom
os outrosseres
da comunidade
biótica (direitofimdamental
dos
seres vivos).Acrescentem-se
ainda
osproblemas
da
reinvençãodo
território conducentesà
releitura-das
obras
sobre federalismo e antifederalismo eà
sugestãode novos
democrático, então cada progresso nesse sentido se vai radicando como elemento adquirido do
fenótipos organizadores de
comunidades
supranacionais. (União Européia,Mercosul,
Nafia).”
Dada
a complexidade
dosproblemas
no
plano constitucional,convém
pontuar,
conforme
Bobbio
(1992, p. 63),“que
uma
coisa é falardos
novos
direitos ecada
vezmais
extensos, e justiƒicá-loscom
argumentos
convincentes;outra é garantir-lhes
uma
proteção efetiva”. 'No
casoda
proteção aomeio
ambiente os obstáculos são aindamaiores, pois a suas exigências
dizem
respeito auma
dimensão
planetária,ou
seja,
demandam
instrumentos à nível intemacionalou
intercomunitário enão
isoladamente
no
interiordo
Estadode
Direito (Bobbio, 1992, p. 63).Ao
que
parece,uma
intemacionalização das políticasde
crescimento poderia serum
instrumento para deter a perdado
patrimônio ambiental.(Moreno,
1992, p. 57-58). Observe-se,
porém, que
este instrumento levaria auma
transferênciade
soberania
dos
Estados,tomando-se
uma
árdua tarefaem
facedo
sistema vigente,na
sociedade organizada.ç
Não
obstante a inexistênciade
uma
política globalizada sobremeio
ambiente, é incontestável a proliferaçãode
tratados, declarações,convenções
intemacionais sobre proteção
do
meio
ambiente, fazendo nascerum
direitointernacional
do
ambiente,conforme
assevera Kiss. (1996, p. 77-141).Desta
forma, é
com
estas dificuldadesem
mente que
sedeve
continuarformulando
reflexões sobre
o Estado de
direitodo
ambiente.Construir
o
Estadodo
Ambiente,na
concepção da
tradição liberalde
Estado de direito, é
um
“minimalismo
ambiental”, pois tende a representar estecomo
um
problema de
direitoque
adiciona limites aos direitos, às liberdades egarantias.
Por
outro lado,moldar
esteEstado do Ambiente
sobuma
perspectiva intervencionista e planificatória, ancoradano
direito econômico,como
uma
questão
de
utilizaçãodo
bem
ambiental,pode
conduzir,como
diz Canotilho(1995, p. 73), “
a
uma
economia
coletivista e dirigista,a
pretextoda
defesados
sistemas ecológicos”.
Viu-se, anteriormente,
que
as experiências passadas pelo desenvolvimentodo
Estadonão conduziram
à proteção concretado
patrimônioambientalg.
Um
paradigma
do
desenvolvimento duradouro,'fundadoem
eqüidadeintergeracional e
uma
visão radicalmenos
antropocentrista, parecemelhor
condizente para a construção
do Estado de
direitodo
ambiente, postoque
é proveniente deum
diagnóstico das políticas anteriores e ineficazes.Ao
conceituaro
Estado Ambiental,no modelo
duradouro, Capella(1994, p. 248) diz: “ Neste
marco
surgeo
que temos
chamado
Estado
Ambiental,
que
poderíamos
definircomo a forma
de Estado que
sepropõe a
aplicaro
princípioda
solidariedadeeconômica
e socialpara
alcançarum
desenvolvimento sustentável, orientadoa
buscar
a
igualdade substancial entre os cidadãos,mediante o
controle jurídicodo
uso racionaldo patrimônio
patural”.Trata-se,
de
fato, deuma
mudança
profundaque
estáem
causa.Pureza
(1997, p. 28) observa
a
saturação já existenteno
Estado, querno
plano estruturalcomo
no
fimcional.A
incorporação constitucionalde
proteção aomeio
ambientee
promoção
de qualidade de vida,novos
direitos, dianteda
situaçãode
materialização incipiente
do
Estado, parece trazer conflituosidade entre estes e ostradicionais
fins
(direitos), taiscomo
plenoemprego,
crescimentoeconômico
emuitos outros.
Estes conceitos e
novos fins
(direitos)do
Estado,no
entanto,avançam
no
sentido de propormudanças
na forma de
desenvolvimento,com
baseem uma
nova
fónnula econômica, epropugnam
pelouso
racional e solidáriodo
patrimônio natural. '
i 8 Mateo (1991, p. 34 e ss. 49 e
ss.) relata com detalhes
um
diagnóstico da degradação ambiental, taiitono liberalismo, como no contexto socialista.
Bimfeld
(1997, p. 212) afinna: “Neste
sentido,a
principalmissão
do
Estado
ambiental consistiriaem
estruturar osmarcos
legaisque levam
à
vidaeconômica
para
um
objetivode
solidariedade substancial -A
aplicabilidadedo
modelo, todavia, sugere necessidade deum
maior
aprofundamento, principalmente,
no
que
concerneao
que
está para vir,quando
seprojeta para
um
desenvolvimento futuro e mediante as carências de tecnologia,visando a garantir a durabilidade
do
planeta.Godard
(1997, p. 264)9,com
muita
propriedade, assevera que' estas dificuldades
na implementação
do
Estado
Ambiental,
configurado
na forma de
desenvolvimento duradouro, aindapermanecem
no
estágiode
compromisso
em
fonnação. Vieira&
Weber
(1996, pi.20)
afirmam
que, apesarda
enorme
potencialidadedo
.modelo
de
desenvolvimento durável, suas limitaçõestêm
sido verificadas porum
volume
significantede
autores. ._
Desta
forma, tem-se apenasum
esboço
precário quanto aomodelo
a
ser seguido pelo
Estado
de direitodo
ambiente.Não
obstante,devem
serconsiderados os erros
do passado
paranão mais
levá-losem
argumentação.Neste
sentido, Canotilho (1995, p. 73-74) diz que, “se
queremos
um
Estado
de
direitodo
ambiente,devemos
terem
conta as experiências históricas e rejeitaras
explicações
monocausuais
num mundo
de
complexidade”.E
mais: “Não
~
existem, pois, instrumentos totalizantes
para
ediçaode
um
Estado
de direitodo
Ambiente”. '
Resta insofismável, nesta altura,
que o
Estado, levandoem
contaa
crise ambiental, tenha
passado
porenormes
exigências de transformações eque
já
começam
a ser inseridas,no
planodo ordenamento
constitucional,normas mais
compatíveis
com
esta tarefa.”Um
exemplo
típico (att. 225, Constituiçãoda
9Diz: “ Essas dificuldades não foram ainda solucionadas e torna-se necessário, sem dúvida, que nos
resignemos a ver a retórica do patrimônio natural e do desenvolvimento durável permanecer, ainda
por certo tempo, no estágio de compromisso em formação.”
1°
Neste sentido, Miranda (1994, p. 354- 355) destaca imia crescente inserção de normas
República Federativa
do
Brasil, 1988), que, condizentecom
a sensibilidadeda
crise ambiental, diz: “
Todos têm
direitoao meio ambiente
ecologicamenteequilibrado,
bem
deuso
comum
do
povo
e essencialà
sadia qualidadede
vida,impondo-se ao
Poder
Público e ài coletividadeo dever de
defendê-lopara
aspresentes e futuras
gerações”
(Brasil, 1990).Constata-se,
por
esta disposição constitucional,um
saltode Estado
tradicional de direito para
mn
Estado atento às necessidadesde
preservaro
meio
ambiente para as gerações futuras,
como
direito e deverde
todos.A
par dos avançosda
Constituiçãoda
República Federativado
Brasil, mister para atingiro Estado de
Direito Ambiental, faz-se mister várias outrasmudanças;
por exemplo,um
novo
sistemade
mercado
euma
redefiniçãodo
próprio direito
de
propriedade;um
novo
sistemade
mercado
que
privilegiemais a
qualidade de vida e o direito ecologicamente equilibrado.
Pureza (1994, p. 8-9) enfatiza:
“o
Estado
ambiental éum
quadro de mais
sociedade, mais.direitos '
e deveres individuais e
mais
direitos e deverescoletivos e
menos
Estado
emenos
mercantilização.Neste
novo
contexto,não
é prioritárioo
doseamento
entrepúblico e privado,
mas
simo
reforçoda
autonomia
(logo,dos
direitos edas
responsabilidades) individual e social frenteà
mercantilização eà
burocratização”.No
que
concerne à propriedade, constata-se, essencialmente, aindahoje,
uma
visão liberal individualista deum
direito de propriedade absoluto sobreos recursos naturais.
Há,
sem
dúvida, Luna transição a caminho, neste aspecto,que
parecedesembocar
na
função social ambiental. (Borges, 1999, p. 99/ 1 16).Neste
sentido,Benjamin
(1996, p. 40) diz:“Num
primeiromomento
histórico,
por
força do
Welfare State, reconhece-seuma
função
socialao
direitoproteger categorias
de
sujeitos,como
os trabalhadores.Mais
recentementeexige-se
que
a
propriedade
também cumpra
sua função
social ambiental,como
condição
para
seureconhecimento
pelaordem
jurídica”.A
1.3.
Estado
de
DireitoAmbiental
1.3.1.
Necessidade de
uma
Cidadania
Participativa e Solidária -Democracia
e Justiça
Ambiental
-Na
prática, Lunaconsecução do Estado
de Direito Ambiental só serápossível a partir
da
tomada
de
consciência globalda
crise ambiental,em
face dasexigências, sob
pena de
esgotamento irreversíveldos
recursos ambientais,de
Lunacidadania
modema
e participativa,que
será tratada a seguir. .De
fato, a concretizaçãodo Estado de
Direito Ambientalconverge
obrigatoriamente para
mudanças
radicais nas estruturas existentes da sociedadeorganizada.
E
não há
como
negarque a
conscientização globalda
criseambiental" exige
uma
cidadania participativa,que
compreende
uma
ação
conjuntado
Estado eda
coletividadena
proteção ambiental.Não
sepode
adotar luna visão individualista .sobre a proteção ambiental,sem
solidariedade e11
Significando consciência ambiental: “ Mais ou menos difiisamente, a consciência ambiental aponta
para a conjugação de quatro elementos; (i) o momento intelectual; (ii) o momento afietivo-existencial; (iii) 0 momento ético; (iiii) o momento voluntarista.
A
consciência destes momentos da consciênciaambiental é importante se quisermos ter uma compreensão razoável da própria formação da vontade
politica na área do ambiente.
O
momento intelectual aponta para 0 saber; o momento afetivo- existencial liga-se ao viver; o momento ético transporta-nos para o valer; o momento voluntarista exige o agir. Saber, viver, dar valor e agir, eis os verbos de consciência ambiental” (Vierhaus, 1994 apud Canotilho, 1998, p. 93-95).desprovida de responsabilidades difusas globais. Trata-se de
um
pensamento
equivocado
dizerque
os custosda degradação
ambientaldevem
ser repartidospor todos,
em
um
escala global,que
ninguém
sabe calcular. Esta visão é distorcida e leva ao esgotamento totaldos
recursos ambientais e a previsõescatastróficas. Portanto,
somente
com
amudança
para a responsabilização solidária e participativa dos Estados e dos cidadãoscom
os ideais de preservaçãoecológica é
que
se acharáuma
luzno
fim
do
túnel.Pimenta
(1994, p. 25),porém,
deixa claroque
estamudança
de
comportamento
éextremamente
dificultosa:p
~
“Nós nao sabemos
o
que estamos
a
fazer,mas
continuamos
a
fazerporque
é muito difícilmudar
eporque
entramos
no problema
das
responsabilidades difusas.O
meu
ganho
é individual, talcomo
o
éao
nívelde
cada
país.Esse eu
posso
qualifcá-lo.Quanto
aos
custos globaisdifusos, esses
são
repartidospor
todos enuma
escala temporalque
ninguém
sabe
calcular. Portanto,adotando
a
velha
máxima
-com
o
mal
dos
outrospasso eu
bem
-continuamos
a
fazero
que
estamos
a
fazer. Este éum
caminho
lógicoem
termos
individuais,mas
suicida,quando
analisadodeforma
global. ”V
Saliente'-se, entretanto,
que
mudanças
exigem
tarefas fundamentaisdo
Estado
na
proteção ambiental euma
política ambiental intercomunitária,significando
que
as transformaçõesnão
abandonam
por completoo Estado
Social,