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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. OS ESCRITOS DE ELLEN GOULD WHITE: MANIPULAÇÃO MENTAL, CONTROLE COMPORTAMENTAL E VENERAÇÃO DO LÍDER. POR ALEXANDRE MEDEIROS. São Bernardo do Campo — 2019.

(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. OS ESCRITOS DE ELLEN GOULD WHITE: MANIPULAÇÃO MENTAL, CONTROLE COMPORTAMENTAL E VENERAÇÃO DO LÍDER. POR ALEXANDRE MEDEIROS. Tese apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Doutor, sob a orientação do Prof. Dr. Vitor Chaves de Souza.. São Bernardo do Campo — Junho de 2019.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA M467e. Medeiros, Alexandre Os escritos de Ellen Gould White: manipulação mental, controle comportamental e veneração do líder / Alexandre Medeiros -- São Bernardo do Campo, 2019. 233 f. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) --Diretoria de PósGraduação e Pesquisa, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Bibliografia Orientação de: Vitor Chaves de Souza. 1. White, Ellen Gould, 1827-1915 – Crítica e interpretação 2. Religião – História 3. Movimentos religiosos contemporâneos I. Título CDD 286.732.

(4) A tese de doutorado sob o título Os Escritos de Ellen Gould White: manipulação mental, controle comportamental e veneração do líder, elaborada por Alexandre Medeiros apresentada aos 18 do mês de junho de 2019, perante banca examinadora composta por: Dr. Vitor Chaves de Souza (Presitente, UMESP), Dr. Rui Josgrilberg (Aposentado - UMESP), Dra. Sandra Duarte (Titular, UMESP), Dra. Chie Hirose (Titular, Faculdades Integradas Campos Salles) e Dr. João Sérgio Lauand (Titular, Centro de Estudos Medievais Oriente e Ocidente – da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – CEMOROC - FEUSP).. Prof. Dr. Vitor Chaves de Souza ORIENTADOR E PRESIDENTE DA BANCA EXAMINADORA. Prof. Dr. Helmut Renders COORDENADOR DO PROGRAMA. PROGRAMA. Pós-Graduação em Ciências da Religião ÁREA DE CONCENTRAÇÃO. Linguagens da Religião LINHA DE PESQUISA. Teologias das Religiões e Cultura.

(5) AUTOBIOGRAFIA. Nasci em 07 de agosto de 1972, na cidade de Diadema em São Paulo, tenho 47 anos de idade. Sou casado com Marcia Saggio há 29 anos, tenho dois filhos, Salvatore e o Vincenzo, ambos com 17 anos. Minha formação inicia-se como Administrador de Empresas – UNIB/SP, Licenciado em Educação - FPSJ/SP, Especialista em Estudos Teológicos – UNASP/EC, Mestre em Ciências da Religião – UMESP/SBC e agora pleiteando o título de Doutor nesta instituição. Trabalho no ramo Educacional há quase 30 anos na Cidade de Diadema/SP. Hoje dentre diversas funções que ocupo na instituição de ensino, tenho sob minha responsabilidade a Diretoria Acadêmica do Centro de Estudos Júlio Verne, que envolve construção e aprimoramento de um método de ensino próprio, além da coordenação dos Projetos da UNESCO na mesma instituição – www.julioverne.com.br..

(6) Minha jornada acadêmica inicia-se efetivamente com maior intensidade em 2009, quando passei um ano numa imersão no Centro de Pesquisas Ellen G. White, na Universidade Adventista próximo a Campinas/SP, sob a orientação do Dr. Renato Stencel 1. Neste período entrei em contato com inúmeros livros e publicações da autora. Nos anos seguintes passei estudando o material que ali foi colhido. Neste período comecei a ler com maior intensidade os livros da líder carismática em mais de um idioma e mais de uma versão. No Mestrado em Ciências da Religião da UMESP/SP, me aprofundei na pesquisa sobre a Teologia da Libertação, principalmente com autores que me auxiliaram na área educacional. No percurso da pesquisa, estudei Rubem Alves que me forneceu as bases para a pedagogia da compaixão (ALVES, 2013) e Paulo Freire que me despertou sobre a pedagogia da conscientização (FREIRE, 1974). Autores que até hoje são meus referenciais na área de pesquisa educacional. Também me aprofundei nos estudos sobre religião e literatura, com enfoque em João Guimarães Rosa. Através das mãos do Dr. Jean Lauand, vieram a Poeta Adélia Prado e o filósofo Josef Pieper, pesquisas que me conduziram para a pedagogia da admiração (PIEPER, 2007). Entre pesquisas nas áreas de filosofia e literatura, religião e literatura, filosofia e educação, escrevi um breve artigo sobre a líder carismática Ellen G. White. Momento que meu orientador me indagou quais os motivos que minhas pesquisas tinham navegado para estas áreas. Informei que minha busca era por uma valorização da arte, do cotidiano e da beleza. Pois não suportava a demonização da arte, da beleza e do cotidiano que as seitas praticam. Jean Lauand me apresentou o livro Opus Dei: os bastidores. Não pude evitar as comparações com minhas pesquisas sobre liderança carismática. Decidimos que eu iria ampliar minhas pesquisas nesta direção. Esta decisão amadureceu e floresceu meu aprendizado sobre seitas dos últimos 16 anos. O primeiro passo foi revisitar as leituras dos textos da líder carismática do Movimento Adventista. Neste processo de aprofundamento e pesquisa foram lidos 57 livros da líder carismática, além de estudos antropológicos com os autores Charles Lindholm e Emerson Giumbelli, autores que me foram apresentados pelo Professor Leonildo Campos quando cursei sua disciplina Movimentos e Instituições Religiosos no Mestrado. Disciplina que muito me influenciou na construção da Tese Doutoral que lhes apresento. Além dos críticos das religiões Richard Dawkins e Christopher Hitchens, e o filósofo da Educação Jean Lauand. Neste percurso, como uma síntese de minha especialização e dos conteúdos aprendi-. 1. http://www.centrowhite.org.br/centro-white/equipe/.

(7) dos no Mestrado – UMESP, surge Os Escritos de Ellen Gould White: manipulação mental, controle comportamental e veneração do líder2.. 2. Preferencialmente utilizarei a primeira pessoa ao longo da TESE, por me sentir parte da pesquisa, pela vivência e história com os textos e com a instituição..

(8) Meu pai José Medeiros e Minha Professora Maria da Penha Ribeiro Ribas Cardone (In Memoriam).

(9) AGRADECIMENTOS. Minha esposa, melhor amiga e parceira de jornada Marcia Saggio; Meus filhos e amigos Salvatore Saggio Medeiros e Vincenzo Saggio Medeiros; Minha mãe Elsa Maria Pereira e Minha irmã Alexânia Medeiros; Minha sobrinha encantada Manuela Medeiros Goto; Meus grandes amigos e parceiros Jean Lauand e João Sérgio Lauand; Minha amiga e inspiração na educação Chie Hirose; Aos meus Professores da UMESP - Maria Leila Alves, Rui Josgrilberg, Leonildo Campos, Paulo Barrera, Sandra Duarte e Paulo Nogueira; Ao orientador e amigo Vítor Chaves e o coordenador Helmut Renders; A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES;.

(10) MEDEIROS, Alexandre. Os Escritos de Ellen Gould White: manipulação mental, controle comportamental e veneração do líder. São Bernanrdo do Campo, 2019. 233f. Tese. Doutorado em Ciências da Religião – Linguagens da Religião – Universidade Metodista de São Paulo, 2019.. SINOPSE. Esta pesquisa propõe-se a analisar visões de mundo em torno da espiritualidade e suas relações com o mundo. Explorarei através dos caminhos antropológicos propostos por Jack David Eller, as visões religiosas que consideram o mundo, o prazer, o cotidiano, a arte a beleza como inimigos a serem combatidos por uma ascética rígida e inflexível. Para tanto, focarei tematicamente - como tipo representativo – os discursos de Ellen G White. Neste caso, pesquisarei a base ―teórica‖ que circunda este discurso e que permite reger as comunidades que seguem a liderança carismática que (in)forma o movimento em questão. Tal suporte, r ecolheremos das análises dos antropólogos Charles Lindholm, Emerson Giumbelli e do filósofo da educação Jean Lauand, que possibilitam a compreensão em contexto mais amplo de propostas como de Ellen Gould White. Palavras-chave: White, Ellen – Crítica e interpretação. Religião - História. Novos Movimentos Religiosos..

(11) MEDEIROS, Alexandre. The Writings of Ellen Gould White: mental manipulation, behavioral control and veneration of the leader. São Bernanrdo do Campo, 2019. 233f. Thesis. Doctor Degree in Sciences of Religion - Languages of Religion - Methodist University of São Paulo, 2019.. ABSTRACT. This research intends to analyze worldviews around spirituality and its relations with the world. I will explore through the anthropological paths proposed by Jack David Eller, the religious views that regard the world, pleasure, daily life, art and beauty as enemies to be fought by rigid and inflexible ascetics. To do so, I will thematically focus - as a representative type - the speeches of Ellen G. White. In this case, I will investigate the "theoretical" basis that surrounds this discourse and that allows to govern the communities that follow the charismatic leadership that (in) form the movement or cult in question. Such support, we will gather from the analyzes of the anthropologists Charles Lindholm, Emerson Giumbelli and the philosopher of education Jean Lauand, that allow the co mprehension in broader context of proposals as of Ellen Gould White. Keywords: White, Ellen - Criticism and interpretation. Religion - History. New Religious Movements..

(12) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 15 CAPÍTULO I NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS: ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS E APORTES METODOLÓGICOS ....................................................................................................... 29 I.1 Seitas ou Novos Movimentos Religiosos: uma escolha metodológica ............................... 29 I.1.1 Carisma ........................................................................................................................... 30 I.1.2 Seitas .............................................................................................................................. 33 I.1.3 Novos Movimentos Religiosos - NMR ............................................................................. 36 I.2 Antropologia: as contribuições de uma área do conhecimento ........................................ 42 I.2.1 Antropologia: as contribuições para as Ciências da Religião. .......................................... 43 I.2.2 Antropologia: as contribuições para as linguagens da religião ........................................ 47 1.2.3 Antropologia: o líder carismático e o impacto de seu discurso ...................................... 49 I.2.4 Antropologia: diagnosticando o perfil do grupo religioso ............................................... 51 I.2.5 Antropologia: consequências e impactos sobre o indivíduo ........................................... 53 I.2.6 Antropologia: grupos desviantes e fundamentalismo ..................................................... 58 I.3 Considerações intermediárias do capítulo ...................................................................... 61. CAPÍTULO II: MILERISTAS E ADVENTISTAS: O EMBRIÃO HISTÓRICO DO ADVENTISMO DO SÉTIMO DIA E (DES)CAMINHOS DA IGREJA ............................................................ 63 II.1 Movimento Milerita: do reavivamento ao desapontamento .......................................... 64 II.1.1 Adventistas: a reconfiguração de um movimento .......................................................... 66.

(13) II.1.2 Adventistas do Sétimo Dia: organização e desenvolvimento ......................................... 68 II.1.3 Ellen G. White: entendendo a teologia profética do Adventismo .................................. 73 II.2 Caminhos e (des)caminhos: a Igreja Adventista do 7 º dia .............................................. 77 II.2.1 Ellen Gould White (1827-1915): Líder Carismática ......................................................... 80 II.2.2 Ellen Gould White: textos centrados no temor e inimizade com a cultura. .................... 81 II.2.3 Movimento Adventista: um perigo psicológico .............................................................. 85 II.2.4 Considerações intermediárias .................................................................................... 93. CAPÍTULO III: “ESTILO DE VIDA E CONDUTA CRISTÔ: RECONFIGURANDO O DISCURSO DO LÍDER CARISMÁTICO E DISCUTINDO O ADVENTISMO ............................................................. 98 III.1 Líder Carismático: manipulação psicológica e controle comportamental .......................101 III.2 Movimentos religiosos, líder e identidade: discutindo o Adventismo ............................111 III.2.1 Movimentos desviantes: o alçamento do líder carismático ........................................ 112 III.2.2 Novos Movimentos Religiosos: a construção de uma (nova) identidade .................... 114 III.2.3 Movimentos desviantes: a desconstrução do (ser) humano. ...................................... 119 III.3 Considerações intermediárias .....................................................................................124. CAPÍTULO IV: MOVIMENTOS RELIGOSOS DESVIANTES E O IMMUNIZATION: A ESCRAVIDÃO DO MEMBRO SECTÁRIO .................................................................................................. 127 IV.1 Movimentos religiosos desviantes: o lado obscuro ......................................................128 IV.1.1 Recado sobrenatural ou doença mental: visões ou alucinações ................................. 128 IV.1.2 Mensagem divina ou Sugestão mental: visões ou reproduções simbólicas ................ 133 IV.2 Immunization: a escravidão do membro sectário .........................................................137 IV.2.1 Imunização: conceito e práxis ..................................................................................... 138 IV.2.2 Proibido discordar....................................................................................................... 148 IV. 3 Considerações intermediárias ....................................................................................151. CAPÍTULO V: PROGRAMMING E DISCURSO DO LÍDER CARISMÁTICO: ISCAS E ARMADILHAS UTILIZADAS PELOS MOVIMENTOS DESVIANTES ............................................................................ 153 V.1 Programming: o impacto do discurso do líder carismático.............................................154 V.1.1 Seguidores: programados para desvalorizar a vida real ............................................... 156 V.1.1 Programming: técnicas de doutrinação ....................................................................... 160 V.1.3 Líder carismática: a programação dos membros.......................................................... 165.

(14) V.2 Máscaras sectárias: identificando as iscas e armadilhas utilizadas pelos movimentos desviantes .......................................................................................................................171 V.2.1 Identificando os riscos: as máscaras do aliciamento .................................................... 173 V.2.2 Máscara Escola ............................................................................................................ 173 V.2.3 Máscara Clínicas .......................................................................................................... 175 V.2.4 Máscara vegetarianismo .............................................................................................. 177 V.2.5 Máscara do clube de escoteiros ................................................................................... 179 V.2.6 Máscara Pequenos Grupos .......................................................................................... 181 V.3 Considerações intermediárias .....................................................................................184. CONSIDERAÇÕES FINAIS: UMA PROPOSTA DE CONTEMPLAÇÃO COMO FERRAMENTA DE PROFANAÇÃO, A PARTIR DE UMA ATITUDE CONTRA A SANTIDADE .................................................... 188 Profanação: uma nova dimensão .......................................................................................... 192 Ferramentas de profanação .................................................................................................. 195 Genius: atitude de profanação .............................................................................................. 201 Considerações das considerações: finais .............................................................................. 204. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA...................................................................................... 205.

(15) INTRODUÇÃO. ―Ao invés de tomar a palavra, gostaria de ser envolvido por ela e levado bem além de todo começo possível‖ (FOUCAULT, 2012, p.5). Segundo o Cientista da Religião, Dr. Leonildo Silveira Campos, em seu artigo Um surto religioso em Malacacheta. In: MARQUES, Luiz Carlos Luz (org.). Religiosidades Populares e Multiculturalismo, Recife/PE: UFPE, 2010, podemos identificar uma atitude desviante causada por Adventistas da Promessa (Grupo dissidente da Igreja Adventista do 7º. Dia) em Malacacheta/MG. Campos apresenta a tragédia ocorrida em 1955 na Fazenda São João da Mata em Minas Gerais. Quando um grupo de Adventistas da Promessa assassinou quatro (04) crianças, por estarem segundo suas crenças, possuídas pelo demônio. Da mesma forma o antropólogo Charles Lindholm, apresenta a tragédia ocorrida em 1993 na cidade de Waco no Texas/EUA. O grupo conhecido como ―davidianos‖ (advindos da Igreja Adventista do 7º. Dia), embeberam a casa que viviam com produto inflamável e praticamente se suicidaram num combate com a polícia local. O final foi trágico: 72 pessoas mortas (LINDHOLM, 1993). As associações anti-seitas francesas apresentam o drama de familiares na França que tem perdido os filhos para grupos sectários naquele país. Grupos anti-seitas tem se organizado para estudar movimentos sectários, buscando ferramentas para proteger desavisados de serem aliciados. O drama destas famílias é tão grande, que algumas destas associações, tem inclusive colocado espiões infiltrados nas seitas, para tentar resgatar membros que psicologicamente estão impossibilitados (GIUMBELLI, 2002). 15.

(16) O antropólogo Jack David Eller, demonstra que extremistas cristãos também provocam mortes e terror (ELLER, 2018). Diante destas e outras tragédias e danos que movimentos desviantes (GIUMBELLI, 2002, p. 63) tem causado para seus membros, amigos e familiares das vítimas e para a sociedade, percebo a necessidade de estudar esta temática em nosso país. Delimitarei minha pesquisa em torno dos escritos de Ellen Gould White3. Irei analisa-los a luz principalmente das Associações Anti-Seitas da França (GIUMBELLI, 2002), e das pesquisas de Charles Lindholm e Jean Lauand (LINDHOLM, 1993; LAUAND, 2005). Minha hipótese é que o modelo sob os quais os Novos Movimentos Religiosos (NMR) se constituem e funcionam são semelhantes. Ou seja, minha hipótese é que mesmo que cada Movimento Religioso tenha um ―novo discurso‖ (FOUCAULT, 2012, p. 23 e 24), eles se assemelham (de acordo com as associações anti-seitas francesas) na: Estrutura; Métodos; Funcionamento; Efeitos sobre os adeptos; Fins; construção de uma Ideologia; (GIUMBELLI, 2002, p. 98-99). Dentro desta tríade: estrutura – métodos – efeitos: minha hipótese continua: existe uma líder carismática e um Movimento ainda por estudar. De acordo com o antropólogo Charles Lindholm, o estudo de líderes carismáticos é, infelizmente, centrado na figura masculina. Isto é consequência dos relatos etnográficos que são quase sempre sobre líderes masculinos, e de uma perspectiva masculina dos modelos teóricos e populares do carisma. O estudo de mulheres carismáticas é uma tarefa que não tive a possibilidade de empreender, embora espere que meu trabalho forneça uma base para futuras pesquisas (LINDHOLM, 1993, p. 19).. Sendo a religião uma relação social entre dois mundos, ela requer um canal de ligação entre o humano e o sobrenatural (ELLER, 2018, 192). Evidentemente esta equação, Requer um agente, um ator ou intermediário humano [...] Fundamentalmente uma relação social entre humano e o não-humano, algumas pessoas precisam ocupar [este] lugar, como parceiro ou ponto de co ntato com o sobrenatural – um papel de poder e perigo, precisamente por causa do poder envolvido (ELLER, 2018, p. 192).. 3. A editora Adventista do Sétimo Dia, Casa Publicadora Brasileira – CPB organiza 45 livros de White como essênciais para uma Biblioteca. O autor leu para a presente Tese, os 45 livros indicados, mais 12. Portanto, o autor desta pesquisa se empenhou detidamente na leitura de 57 livros de White, por entender que neste material se encontra a essência do pensamento de White. Desta forma o que será apresentado aqui neste estudo, é a conciliação dos textos de Ellen Gould White, ao lado dos textos de autores que pesquisam novos movimentos religiosos, cultos e seitas.. 16.

(17) Estudarei este profeta, sua importância no surgimento e manutenção do grupo religioso, a influência e relevância para os membros deste grupo, os resultados dos conselhos e admoestações do profeta na vida e comportamento dos membros, e por fim, o impacto destes membros na sociedade (ELLER, 2018). A pesquisa partirá do procedimento hipotético-dedutivo de Karl Popper (cf. TARTUCE, 2006). A escolha deste caminho se dá em virtude da crítica popperiana ao método indutivo, seguindo as tendências da pesquisa em filosofia e ciências humanas (cf. TARTUCE, 2006, p. 27). Feita distinção do objeto de investigação e o método para a investigação, a natureza da tese se trata de uma pesquisa bibliográfica (cf. FONSECA, 2003, p. 32), uma vez que o trabalho será debruçado na investigação das ideias e diversas análises sobre o objeto de investigação proposto (cf. GIL, 2007), bem como com incidência na pesquisa ex-post-facto (cf. TARTUCE, 2006, p. 38) por haver a experiência anterior do presente pesquisador com o campo e os objetos (dando um tom de etnografia ao trabalho) e também o elemento críticoanalítico da interpretação dos eventos e das ideias em questão. (FONSECA, 2003, p. 32). Buscarei a partir das Ciências da Religião (FILORANO; PRANDI, 1999, p. 22), propor uma metodologia que tem por base a Antropologia (CAMURÇA, 2008, p. 27), como área de conhecimento (FILORANO; PRANDI, 1999, p. 209), que oferece um rico caminho à pesquisa de grupos religiosos desviantes ou perigosos (GIUMBELLI, 2002, p. 63). Para um maior aprofundamento nesta área, recorri ao antropólogo Dr. Jack David Eller. Professor associado emérito de Antropologia no Community College de Denver, nos Estados Unidos. Autor do importante compêndio introdutório Antropologia da Religião, publicado no Brasil pela Editora Vozes, na versão Digital eBook, Petrópolis/RJ, 2018. Cientes da diversidade religiosa existente no mundo hoje, sabemos que a antropologia segundo Eller, tem grandes tarefas na pesquisa religiosa (ELLER, 2018, p. 18). Resumindo a pesquisa será bibliográfica, utilizando como área de conhecimento a antropologia (ELLER, 2018), para analisar o discurso (JOSGRILBERG, 2017) da escritora americana Ellen Gould White (1827-1915), que possui aproximadamente 90 publicações em português incluindo livros, compilações, cartas e artigos4. Em inglês existem 128 livros publicados da escritora (DOUGLASS, 2001, p. 108). A editora Adventista do Sétimo Dia, Casa Publicadora Brasileira – CPB organiza 45 livros como essênciais para uma Biblioteca5.. 4 5. http://www.centrowhite.org.br/downloads/ebooks/ https://www.cpb.com.br/produto/detalhe/9947/colecao-mini-centro---ellen-g.-. 17.

(18) O autor desta pesquisa leu para a presente tese 57 livros, alguns mais de uma vez, em mais de uma versão e em mais de um idioma, por entender que neste material se encontra a essência do pensamento de Ellen Gould White6. Ellen White estava entre o grupo do advento (Guilherme Miller, batista que pregava a volta de Jesus em 1844) que lutava para reter sua fé e compreender seu desapontamento (depois que Jesus não voltou em 22/10/1844), até que através de visões proféticas recebidas por esta frágil menina, de 17 anos, de Portland - Maine/USA, o movimento tomou outro rumo. Embora de saúde débil, em dezembro de 1844, enquanto orava com quatro irmãs adventistas, sentiu o poder de Deus como nunca havia sentido antes, perdendo de vista o ambiente, ela parecia arrebatada acima da terra. Terminada a visão, o mundo lhe parecia escuro, mas logo ela e aqueles a quem relatou sua experiência ficaram convencidos de que Deus escolhera esse meio para consolar e fortalecer seu povo. O movimento foi fortalecido, o ânimo retornou aos que permaneceram fieis. As doutrinas da Igreja Adventista foram elaboradas. Ellen G. White (nome que passou a usar após seu casamento com Tiago White em 30/08/1846), diz que não podia compreender os textos em discussão e os problemas envolvidos. Ela escreveu: ―quando chegavam ao ponto onde diziam: não podemos fazer mais nada [...] o Espírito do Senhor se apoderava de mim, eu era arrebatada em visão e me era dada uma clara explicação das passagens que estavam sendo estudadas, com instruções sobre como deveríamos trabalhar e ensinar‖ (Apud SHWARZ; GREENLEAF, 2009, p. 51 e 34; 61-62). A americana Ellen Gould White escreveu cerca de 100.000 mil páginas de manuscritos em inglês a mão (DOUGLASS, 2001, p. 62). Ela produziu ao longo dos seus 70 anos de ministério profético, diversos conselhos e orientações para o movimento, que abrangem um amplo espectro de diferentes assuntos (TIMM, 2000, p. 1). A Casa Publicadora Brasileira é responsável pela impressão dos livros no Brasil e a Pacific Press Publishing Association é a responsável pela impressão nos Estados Unidos. De acordo com o Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia, o dom de profecia foi manifestado no ministério de Ellen G White (2008, p. 15). White é considerada pelo movimento como a Mensageira do Senhor (DOUGLASS, 2001).. white?gclid=EAIaIQobChMInKjCpoWW3wIVRIGRCh2bbA81EAAYASAAEgI_B_D_BwE – acessado em 14/03/2019. 6 Aqui vale uma curiosidade. Estudei e pesquisei no Centro White do Centro Universitário Adventista – UNASP/EC durante o ano de 2010, período que passei entre graduandos, pós-graduandos e mestrandos em Teologia Adventista. Perguntava informalmente aos estudantes e colegas quantos livros de Ellen White já haviam lido. Pouquíssimos haviam passado de 03 livros inteiros, a maioria havia lido apenas o Grande Conflito, outros não haviam lido inteiro nenhum, apenas fragmentos exigidos na universidade.. 18.

(19) Minha pesquisa sobre a autora iniciou-se com maior afinco em 2010 no Centro White de Engenheiro Coelho, interior de São Paulo. Sob a orientação do Dr. Renato Stencil7, responsável pela guarda e organização dos manuscritos de White no Brasil, foram pesquisadas diversas obras da autora. Reunirei nesta pesquisa as obras que julguei mais relevantes e que possuem a essência de seu pensamento. As obras abaixo relacionadas foram lidas e estudadas para que esta pesquisa existisse. Podemos classificar um primeiro grupo de escritos como ―obrigatórios‖ para um Adventista do 7º. Dia (fato que não acontece, mesmo entre pastores e ―mestres‖ da instituição, muitos não lêem tais obras). Estas obras são a hermenêutica bíblica utilizada pelos Adventistas do 7º. Dia. Está presente a criação divina, a queda do homem, o conflito entre o bem e o mal, o plano da salvação e a vida eterna. São elas: Patriarcas e Profetas (2003); Profetas e Reis (1996); O Desejado de todas as nações (2004); História da Redenção (2003); O Grande Conflito (2004); The Great Controversy (2005); Parábolas de Jesus (2007); Atos dos Apóstolos (1999). Estas primeiras obras são consideradas as norteadoras do Movimento Adventista do 7º. Dia, são elas que dão o tom no movimento. Seguidas por outras obras não menos importantes, inclusive mais populares, mas que ficam periféricas. Estão entre as principais obras de proselitismo do movimento: Caminho a Cristo (2010); O Grande Conflito, Edição Condensada (2007); Eventos Finais (2004); A vida de Jesus (2001); No deserto da tentação (2002); Temos um terceiro grupo que vão nortear os lares adventistas, a educação de filhos e as escolas adventistas em geral (mesmo entre os que não lêem, seguem as orientações ensinadas por outros – ou pelo menos deveriam). Apesar de ser classificado como obras que auxiliam as famílias, é um material extremamente doutrinário, é a porta de entrada para a manipulação psicológica e o controle de comportamento: Orientação da criança (1996); Fundamentos da Educação Cristã (1996); Educação (1997); Conselhos aos professores, pais e estudantes (2000); O Lar Adventista (2003); Vida em família (2001); Medicina e Salvação (2008); Conselhos sobre saúde (2007); Conselhos sobre regime alimentar (2002); A ciência do bom viver (1997); Temperança (2005); Testemunho sobre conduta sexual, adultério e divórcio (2005); Conselhos sobre mordomia (2001);. 7. Professor Dr. Renato Stencil é teólogo e doutror em Educação pela Universidade Metodista de Piracicada; Professor do curso de Teologia na graduação e pós-graduação no UNASP/EC.. 19.

(20) Um quarto grupo que trata do ―proselitismo‖, não no sentido de ser um material para ser usado nesta prática. É na verdade um material de formação de pessoas que ensina aliciar, doutrinar e buscar novos membros: Evangelismo (1997); Serviço Cristão (2003); Obreiros evangélicos (2007); Outro grupo que segue são os testemunhos, conselhos, regras e diretrizes, tanto para os membros como para a organização. É aqui que o controle comportamental, a manipulação psicológica e a imunização estão presentes. É aqui onde toda a doutrinação está presente com maior ênfase: Verdade sobre os Anjos (2005); Beneficência Social (1996); Vida e Ensinos (1988); Primeiros Escritos (2003); Conselhos sobre escola sabatina (1996); Mensagens Escolhidas I (1985); Mensagens Escolhidas II (2000); Mensagens Escolhidas III (2007); Testemunhos Seletos I (1984); Testemunhos Seletos II (1985); Testemunhos Seletos III (1985); Testimonies for the church I (1948); Testimonies for the church II (1948); Testemunhos para a igreja III (2002); Testimonies for the church VI (1948); Testimonies for the church VIII (2006); Testimonies for the church IX (1948); Mente caráter e personalidade I (2001); Mente caráter e personalidade II (2002); Conselhos para a Igreja (2007); Paulo: O Apóstolo da fé e da coragem (2004); Visões do Céu (2004); Vida no Campo (2004); A Igreja Remanescente (2000); Santificação (2001); Música: sua influência na vida do cristão (2005); Meditações diárias: Perto do Céu (2013); Meditações diárias: Jesus meu modelo (2008); Também foram separadas algumas obras para serem consultadas (ou seja, não foram lidas na íntegra): Meditações diárias: Cristo Triunfante (2002); Testimonies for the church IV (1948); Testimonies for the church V (1948); Testemunhos para a igreja VII (2005); Testemunhos para a igreja IX (2006); O maior discurso de Cristo (1999); Testemunhos para ministros (2008). É importante frisar que o discurso será analisado, partindo do meu referencial teórico, baseado nas associações anti-seitas francesas (GIUMBELLI, 2002). Estas associações possuem estudos para classificarem os movimentos religiosos que são psicologicamente perigosos e que possuem no cerne: inimizade com o mundo, com a cultura, com a sociedade. O pressuposto adotado nesta pesquisa seguindo as associações anti-seitas francesas é que movimentos desviantes (GIUMBELLI, 2002, p. 63), são grupos cujos métodos e ações atacam a dignidade, e ou a liberdade humana, destruindo o indivíduo, a família e a sociedade. As ferramentas utilizadas por estes movimentos são a manipulação e desestabilização mental, desestabilização psicológica e bombardeio ideológico (GIUMBELLI, 2002, p. 98-99).. 20.

(21) O referencial teórico seguirá o conhecimento adquirido pelas associações antiseitas francesas, de que os movimentos sectários e ou desviantes (GIUMBELLI, 2002, p. 63), independentemente da sua institucionalização, continuam seguindo um modus operandi8 muito similar. Estes movimentos seguem cegamente os conselhos e orientações do líder carismático (LUNDHOLM, 1993), impondo uma carga pesada de manipulação mental e controle comportamental (LAUAND, 2005). Desta forma, estes movimentos, independente da religião que professam, aproveitam o status de religião e da liberdade religiosa, para camuflarem suas antigas técnicas sectárias (GIUMBELLI, 2002). Para alicerçar o referencial empreendi importante pesquisa sobre as associações anti-seitas francesas, recorrendo aos estudos antropológicos de Emerson Giumbelli (2002). Giumbelli é Professor Associado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, atuando no Departamento de Antropologia e no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (1992), mestrado e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995 e 2000). É co-editor da revista Religião e Sociedade. Dedica-se à Teoria Antropológica, Antropologia da Religião e Antropologia da Modernidade, atuando principalmente nos seguintes temas: religião e modernidade, símbolos religiosos e espaços públicos, laicidade. Autor dos livros "Símbolos Religiosos em Controvérsias" (2014), "O Cuidado dos Mortos: uma história da condenação e legitimação do espiritismo" (1997). Co-organizador dos livros "Secularisms in a Postsecular Age? Religiosities and Subjectivities in Comparative Perspective" (2017), "Religiões e temas de pesquisa contemporâneos: diálogos antropológicos" (2015), "Religión, Cultura y Política en las Sociedades del Siglo XXI" (2013) e "A Religião no Espaço Público" (2012). A obra escolhida para ser utilizada nesta pesquisa será: O fim da religião: dilemas da liberdade religiosa no Brasil e na França (2002). Neste importante livro em que o autor realizou suas pesquisas no Brasil e na França, ele compara Movimentos Neopentescostais x Sects e Cults. Conduzindo principalmente suas pesquisas no sentido como são vistos e tratados estes movimentos na sociedade francesa, se debruçando sobre as controvérsias em torno da Cientologia, Seita Moon, Hare Khrishna, Templo do Povo, Ramo Davidiano, Família e muitos outros. Levando ao debate principalmente o drama de familiares que ―perdem‖ seus. 8. Sabrina Bittencourt, ativista anti-seitas, que mapeava o modus operandi dos líderes carismáticos. A quem ela chamava de psicopatas e predadores religiosos. Carta Capital https://www.cartacapital.com.br/sociedade/sabrina-bittencourt-a-mulher-que-desmascarou-joao-de-deus/ acessado em 06/02/2018. 21.

(22) queridos para movimentos desviantes (GIUMBELLI, 2002, p. 63). Sua pesquisa penetra as associações anti-seitas, como a Union Nationale de Associations de Défense des Familles et de I‘Individu Victimes de Sectes – UNADFI9. Estas associações que iniciaram seus trabalhos no final dos anos oitentas, receberam regulamentação e apoio governamental mais efetivo entre 2000 e 2005. Contam ainda com voluntários nas áreas de: psiquiatria, psicologia, direito, sociologia, filosofia e outros. Trabalham principalmente no auxílio aos familiares de vítimas e ex. adeptos de seitas e cultos. Esta obra demonstra quanto o Brasil se encontra despreparado e carente de pesquisas, informação e formação nesta área, e o quão na frente os franceses estão. As associações anti-seitas descobriram que a forma mais eficiente de combater os movimentos desviantes (GIUMBELLI, 2002, p. 63) é a informação, possibilitando prevenir os desavisados contra as iscas de aliciamentos destes movimentos. A obra de Giumbelli será importantíssima e me auxiliará a partir destas associações, a detectar como se constrói, como funciona e quais os aspectos da estrutura sectária que são construídas a partir dos ensinamentos dos líderes carismáticos. Apesar de Giumbelli não empregar juízo de valor na sua pesquisa, na obra O fim da religião, ele deixa claro na primeira parte, que na França existe um cuidado e uma grande preocupação social, acadêmica, jurídica e governamental, em apoiar as vítimas de movimentos religiosos. Em compensação na segunda da parte do mesmo livro, ele mostra que no Brasil não existe nenhuma preocupação jurídica, governamental ou acadêmica, com a temática sectária. Bem como, nenhuma proteção, interesse ou apoio as vítimas de movimentos sectários. Giumbelli mostra que no Brasil às vítimas destes movimentos, que buscaram ajuda na justiça brasileira, não obtiveram sucesso nas suas ações judiciais10. Após a leitura da obra, percebi o quão abandonado e desconsiderado são as vítimas destes movimentos no Brasil. Tanto pela justiça e governo, como pela academia, que diferente da França, não empreende pesquisas sobre os perigos destes movimentos. Portanto a base sobre o tema da manipulação mental será advindo desta pesquisa. Para sustentar o referencial teórico, encontrei no filósofo Jean Lauand (USP) uma rica pesquisa sobre controle comportamental dos movimentos religiosos desviantes, seitas ou. 9. http://www.unadfi.org/ - acessado em 01/02/2018. Processo n. 16.211, 30ª.Vara Cível do Rio de Janeiro; Ex fiel da Igreja Universal do Reino de Deus, solicita uma indenização por danos morais e reembolso dos bens (móveis e imóveis) doados para igreja; A justiça dá ganho de caso para Igreja Universal, por não encontrar dolo. Para se ter uma ideia palavras como Lavagem Cerebral não puderam ser aceitas no processo, tiveram que ser substituídas por extorsão; Uma outra vítima que entrou com uma ação na justiça, solicitando devolução dos bens doados para Igreja Universal, voltou para a Igreja no meio do processo, e assinou uma declaração que havia doado os bens por livre escolha (GIUMBELLI, 2002, p. 329 e 331-332).. 10. 22.

(23) cultos. Lauand, doutor em Filosofia da Educação (USP), recebeu o título de Livre Docente da Universidade de São Paulo. Professor Titular Sênior do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP; Prof. Investigador da Universitat d'Alacant (Espanha) - IVITRA (Institut Virtual Internacional de Traducció); Membro da Euro-Mediterranean Academy of Humanities, Social Sciences and Education, sediada na Università degli Studi Suor Orsola Benincasa (Nápoles); Prof. Investigador e Pesquisador Emérito do Instituto Jurídico Interdisciplinar da Univ. do Porto; Membro No. 68 (correspondente) da Real Academia de Letras de Barcelona (Reial Acadèmia de Bones Lletres); Editor de Studia Iberica et Americana, revista da California State University – Fullerton; Fundador e Presidente do CEMOrOc Centro de Estudos Medievais-Oriente e Ocidente USP (FE-EDF) e editor de revistas internacionais; Membro da Comissão Científica Internacional da Cátedra Infante Dom Henrique (Fac. Letras Univ. Lisboa / Univ. Aberta / Apca / FCT/ IAC); Autor, desde o No.1, da coluna Filosofia e Linguagem da Revista Língua Portuguesa; Autor de livros e artigos publicados em mais de 20 países e traduzidos em mais de 15 idiomas. Sua obra Best Seller no Brasil: Opus Dei: os bastidores (2005). Esta obra será utilizada nesta pesquisa, por contar com um grande arcabouço de informações de acadêmicos que viveram mais de 30 (trinta) anos dentro de movimentos sectários. Conhecem profundamente as técnicas e estratégias, não porque lhe contaram, mas porque viveram e mergulharam nas profundezas das seitas. Nesta obra, Jean Launad que viveu em regime sectário de 1968 até 2003, conta com depoimentos de outros dois ex-membros sectários: O cardiologista Dario Fortes Ferreira, nascido em 1958 em São Paulo, graduou-se pela Escola Paulista de Medicina em 1977, viveu na seita Opus Dei de 1976 até 1981. Marcio Fernandes da Silva, nascido no interior de São Paulo em 1972, graduou-se pela Escola Politécnica da USP em 1994 e pelo Largo São Francisco – USP em 1990. É Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP, membro sectário de 1982 até 1990. Sua pesquisa rica em depoimentos de vítimas desmonta a ideia de que as seitas são movimentos periféricos, que nascem à margem das instituições, e que quando recebem reconhecimento e se institucionalizam, perdem sua faceta desviante e fanática. O Opus Dei que é reconhecido pelo Vaticano, instituição da Igreja Católica Romana, continua sendo extremamente danosa e perigosa. A obra apresenta as estratégias de aliciamento e proselitismo, mas sua principal ênfase é no sutil ―discurso imunizado‖ das instituições sectárias. Jean Lauand desvenda a técnica de manipulação psicológica e controle comportamental, mostrando 23.

(24) como pessoas inteligentes, bem formadas, podem ser aliciadas, e como se tornam escravas (psicologicamente falando) dos Novos Movimentos Religiosos. Esta obra será de grande importância, pois demonstra internamente os meandros do funcionamento de um movimento de fanáticos. Traz à baila as lavagens cerebrais e despersonalização dos indivíduos envolvidos, os métodos inescrupulosos de proselitismo e aliciamento de novos membros e principalmente, como estes movimentos vêem as mulheres e as destroem psicologicamente. A obra de Jean Lauand será fundamental para demarcar os impactos do discurso do líder carismático na vida dos membros. A pesquisa de Lauand fornecerá os mecanismos para se exercer o controle comportamental sobre os membros dos movimentos religiosos. Para completar meu refencial teórico para esta pesquisa, busquei a pesquisa sobre liderança carismática do antropólogo Charles Lindholm. Lindholm nasceu em 1946 no estado de Minnesota/EUA. Realizou pesquisa no Paquistão, Afeganistão, Sri Lanka, Índia e outros. Permaneceu até 1990 no Departamento de Antropologia de Harvard, atualmente se encontra no Departamento de Antropologia da Universidade de Boston. Autor de nove (09) livros, e mais de 70 (setenta) publicações. Possui obras traduzidas para o espanhol, turco, chinês, árabe e português. Utilizaremos nesta pesquisa a obra em inglês: Charisma (2002) e a versão em português, Carisma: Êxtase e perda de identidade na veneração ao líder (1993); Especificamente nesta obra ele aborda os acontecimentos como os da Alemanha nazista de Hitler, os distúrbios americanos de Charles Mason, Jim Jones e David Koresh (Vernon Howell mudou legalmente seu nome para David Koresh em 15 de maio de 1990). Ele oferece exemplos terríveis do tipo de poder que exerce um líder carismático sobre um grupo ou mesmo sobre um país inteiro. Neste trabalho Lindholm analisa a condição e a experiência do carisma na sociedade ocidental, buscando desvendar o sentido de sua aparente irracionalidade. O autor segue o fio das teorias filosóficas, sociológicas e psicológicas centrais na tradição ocidental. Os estudos de casos escolhidos para análise em sua obra – nos quais a experiência carismática chega a um paroxismo destrutivo – trazem de forma contundente a reflexão para a sociedade contemporânea. Desta pesquisa buscarei o perfil do líder carismático, as técnicas por eles utilizadas, e os mecanismos empreendidos. Nas considerações finais, introduzi uma proposta de profanação dos ideais sacralizados pelos movimentos religiosos. Para isso utiliei Altíssima Pobreza: Regras monásticas de vida, São Paulo/SP: Boitempo (1ª. Edição da versão iBook) de 2014 e Profanações, São Paulo/SP: Boitempo (1ª. Edição da versão iBook) de 2007, do polêmico filósofo da atualidade, Giorgio Agamben. Agamben nasceu na Itália em de 1942, graduou-se na Universidade de 24.

(25) Roma em 1965, lecionou em importantes instituições, como o Collège International de Philosophie em Paris, também ministrou nas renomadas Universidade de Verona e Universidade de Arquitetura de Veneza, ambas na Itália. Tornou-se em 2003 Distingyished Professor da New York Universiy, cargo que renunciou em protesto. Em 2006 ganhou o Prix Européen pelo conjunto de sua obra (AGAMBEN, 2007, p. 95). A pesquisa academicamente é importante porque no Brasil não se tem dado a devida atenção aos riscos e perigos em torno dos movimentos sectários, pelo contrário o atual entendimento de “Novos Movimentos Religiosos” (GUERREIRO, 2006 e 2013; MARIANO, 2013), tem suavizado o real perigo destes grupamentos. Não pretendo com esta pesquisa pressupor que todos movimentos religiosos são seitas. Antes, sabendo que os exageros e extrapolações dos credos religiosos nascem da margem para o centro, tentaremos identificar a condição antropológica de sujeitos e grupos que, como uma válvula de escape, acabam tornando características de uma religiosidade os traços do radicalismo, fanatismo e despotismo religioso. Nesta direção a pesquisa é inédita por se tratar de temática que envolve um grupo religioso de alcance mundial, de grande expressão no Brasil, principalmente através de escolas, universidades, hospitais, clínicas de vida saudável, restaurantes vegetarianos, editoras e canais de televisão. Neste sentido Richard Dawkins aponta que as instituições organizadas e poderosas, agem livremente protegidas por trás do véu da liberdade religiosa (DAWKINS, 2007). Sendo assim esta tese seguirá o conselho das associações anti-seitas da França, buscando reuir o maior número de características sectárias da instituição em questão, pois para os franceses a melhor forma de precaver o envolvimento com os movimentos religiosos ou cults é a informação (GIUMBELLI, 2002). E por último justifico pesquisar uma líder carismática mulher, uma vez que os discursos de líderes carismáticos masculinos é quase uma unanimidade (LINDHOLM, 1993, p. 19). Neste sentido a pesquisa aqui proposta atenderá a sociedade como ferramenta de formação e informação contra grupos sectários, alertando sobre as estratégias, os métodos, as práticas, as consequências, os danos psicológicos e os perigos que correm os que aderem a estes movimentos sectários. ―Quando não se consegue derrubar a hipótese, tem-se sua corroboração; segundo Popper, a hipótese se mostra válida, pois superou todos os testes‖ (cf. TARTUCE, 2006, p. 27). Minha experiência com o grupo inicia-se efetivamente em 2002, quando iniciei minhas leituras doutrinárias do grupo em questão. Além das leituras dos escritos da líder carismática, me embrenhei profundamente em todos os meandros do grupo. Convivendo com os membros nas mais diversas áreas da vida. Passando praticamente por todas as funções e atribuições do 25.

(26) grupo que estou pesquisando. O aprofundamento com maior intensidade ocorreu em 2009, quando passei um ano numa imersão acadêmica no Centro de Pesquisas Ellen G. White, na Universidade Adventista próximo a Campinas/SP, sob a orientação do Dr. Renato Stencel 11. Neste período em que pesquisei a História do Adventismo, entrei em contato com inúmeros livros e publicações da líder carismática, inclusive alguns manuscritos raros, como um sermão escrito por White em 188812 ou anotações de um diário do período em que Ellen G White estava na Austrália em 189213, ou ainda uma carta endereçada a siter Hastings em 184914. Material que ali foi colhido, estudado e pesquisado. Além disto, a partir desta data passei a estudar o tema com maior profundidade. Ao longo destes anos, li diversas obras desta líder, em mais de uma versão, em mais de um idioma, totalizando até o momento 57 livros lidos da líder carismática. Este ex-post-facto (cf. TARTUCE, 2006, p. 38), aplicados a partir das Ciências da Religião15 (CAMURÇA, 2008), através das ciências antropológicas (FILORANO; PRANDI, 1999, p. 204-221), me conduziram para levar em consideração aspectos que de outra forma seriam ignorados ou passariam despercebidos, mas que são extremamente interessantes e importantes para a pesquisa (ELLER, 2018, p. 59). Pois uma das razões que embasam a escolha antropológica é que nele se Estuda o comportamento social, geralmente em suas formas institucionalizadas como a família, os sistemas de parentesco, a organização política, os procedimentos jurídicos, os cultos religiosos e similares, além das relações que se estabelecem entre essas instituições; estuda -as referindo-se tanto às sociedades contemporâneas quantos às histórias (FILORANO; PRANDI, 1999, p. 209). Um dos aspectos presentes nestas instituições, que precisam ser levados em consi-. deração na presente pesquisa é a linguagem. Que adquire grande importância no universo religioso. ―Pronunciar o epíteto divino, proferir a palavra mágica, cantar o encantamento –. 11. http://www.centrowhite.org.br/centro-white/equipe/ WHITE, Ellen G. Sermon in Iowa, Sabbath, December 1, 1888 - https://egwwritings.org/?ref=en_Ms131888.2&para=4628.7 , acessado em 18/10/2018 – 1888. 13 WHITE, Ellen G. Diary Written in Preston, Australia, 1892 - https://egwwritings.org/?ref=en_Ms201892&para=5740.5 , acessado em 18/10/2018 – 1892. 14 WHITE, Ellen G. Letter to Sister Hastings, 1849 - https://egwwritings.org/?ref=en_Lt2-1849.1&para=2805.7 – acessado em 18/10/2018 – 1849. 15 Uma das características das Ciências da Religião é a “interdisciplinaridade”, e visa estudar “as crenças e práticas religiosas e suas consequências para a vida humana e a sociedade. É um método multidisciplinar que utiliza métodos e insights da História, Sociologia, Antropologia e outras disciplinas acadêmicas” (CAMURÇA, 2008, p. 25). 12. 26.

(27) fazer estas coisas muda a realidade‖ (ELLER, 2018, p. 242). Em outras palavras, o ator que profere a linguagem religiosa, ganha maior importância se este for um ―canal‖ de comunicação entre deus e os homens, ou seja, o ―porta-voz‖, aquele que rompeu ―a barreira entre as duas dimensões e, por isso, podem interagir com ambas‖ (ELLER, 2018, p. 172). Estas ―palavras mágicas‖, faladas ou escritas, litúrgicas ou sapienciais (ELLER, 2018, 194), quando proferidas pelo ―porta-voz‖ divino (ELLER, 2018, 172), ainda que não descreva nada, ainda que não cause nenhuma mudança, causará ―impacto [...] nos ouvintes‖ (ELLER, 2018, p. 241). Grupos que seguem Bíblia, Alcorão, Vedas, Livros dos Mortos dos Egípcios, Livro dos Mórmons de Josef Smith, Livro da Cientologia de Ron Hubbard (ELLER, 2018, p. 170-171), ou ainda as 100.000 páginas dos Adventistas do 7º. Dia de Ellen G. White (DOUGLASS, 2001, p. 108), acreditam que as palavras ali escritas são a verdade absoluta. Desta forma, as palavras ali contidas são (para grupos que os adotam) um ―projeto simbólico‖ da religião a ser seguida e vivida (ELLER, 2018, p. 143). Afinal, as religiões desenhadas no ―livro‖ são o resultado da relação entre o Profeta e o divino. ―Por profeta queremos entender aqui o portador de um carisma puramente pessoal, o qual, em virtude de sua missão, anuncia uma doutrina religiosa ou um mandado divino‖ (WEBER, 2012, p. 303). Paratanto, no Capítulo 1 – Novos movimentos religiosos: aspectos antropológicos e aportes metodológicos, pesquisarei qual nomenclatura está mais carregada conceitualmente de sentido para se pesquisar um grupo ou movimento desviante, fanático e perigoso. Buscarei demonstrar que esta escolha não é só uma opção, mas uma construção metodológica. Também demonstrarei os caminhos utilizados na construção e escolha da metodologia de pesquisa a partir da antropologia, demonstrando as aproximações com meu referencial teórico. No Capítulo 2 – Mileristas e Adventistas: o embrião histórico do Adventismo do Sétimo Dia e (des)caminhos da igreja, analisarei historicamente os Adventistas do Sétimo Dia. Primeiramente os mileritas, antecessores do Adventismo, posteriormente o Adventismo no coração do movimento e em seguida, a reconfiguração do movimento em Adventismo do Sétimo Dia. Num momento final, buscarei entender a construção teológica para adequar biblicamente Ellen G. White, e a partir daí, dar o status ao movimento, de igreja bíblica do tempo do fim. Minha intuição é que é impossível separar os Escritos Proféticos de Ellen G. White do Adventismo do Sétimo Dia. Pretendo analisar, ainda, comparativamente os movimentos e fanatismos religiosos: abusos na regulamentação da vida do fiel; exclusão da cultura e do mundo fora da organização; caráter ―revelado‖ absoluto da doutrina do fundador, profetisa ou líder. 27.

(28) No Capítulo 3 – “Estilo de vida e conduta cristã”: reconfigurando o discurso do líder carismático e discutindo o Adventismo, demonstrarei que a Igreja Adventista do 7º. Dia, continua utilizando o discurso da fundadora do movimento. O intuito é evidenciar que o movimento utiliza uma nova roupagem para continuar reproduzindo o discurso sectário da líder carismática do século 19. Além disso, procurarei destacar o papel atribuído ao líder, a construção da identidade dos membros e a desconstrução do humano neles. No Capítulo 4 – Movimentos religosos desviantes e o immunization: a escravidão do membro sectário, estudarei o ministério profético de Ellen G. White e suas supostas visões do céu. Proporei neste capítulo uma análise que pode muito bem ser aplicado para qualquer outro suposto movimento sectário que se utilize dos mesmos mecanismos para sua autopreservação. Buscarei demonstrar que o movimento não serve a Deus, a Igreja e a sociedade, mas serve-se de Deus, da Igreja e da sociedade. O assunto abordado será o abuso psicológico, a manipulação do comportamento do membro e a pretensão do líder de falar em nome de Deus. Apresento a imunização como ferramenta essencial de manipulação mental. Por fim, no Capítulo 5 – Programming e discurso do líder carismático: iscas e armadilhas utilizadas pelos movimentos desviantes, os pontos em destaque são o papel de porta voz de Deus atribuído ao líder e a consequente intransigência dos seguidores, que deve corajosamente se opor ao mundo. O objetivo final será identificar as armadilhas utilizadas pelas seitas ou movimentos desviantes no aliciamento de novos adeptos. Buscarei demonstrar que a informação é o modo mais eficaz de prevenção contra esses métodos. As condiderações finais, Uma proposta de contemplação como ferramenta de profanação, a partir de uma atitude contra a santidade, procuram não apenas sintetizar a tese enquanto fruto de uma pesquisa doutoral, como também oferecer um salto criativo e laboral de um pesquisador em resposta dialética ao problema proposto e trabalhado. As considerações finais nascem da indignação com as religiões de regras e normas, buscando uma tentativa de profanação. Esta profanação do sagrado, advinda da contemplação devolve a alegria, o divertimento, a beleza e o riso, que foram sacrificados e consagrados no altar da santidade.. 28.

(29) CAPÍTULO I NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS: ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS E APORTES METODOLÓGICOS. I.1 Seitas ou Novos Movimentos Religiosos: uma escolha metodológica Emerson Giumbelli16 realizou suas pesquisas sobre movimentos religiosos controversos na França. Quando lá chegou, se deparou com a designação: Seitas. Esta categoria. 16. O Antropólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Emerson Giumbelli, em suas pesquisas na França para sua Tese de Doutoramento, na obra O fim da Religião, colheu um vasto material sobre como as associações anti-seitas francesas pensam o tema. O importante para esta pesquisa é o modus operandi das seitas apontada por estas associações. Na primeira parte da obra, Giumbelli aponta todas as pesquisas das associações anti-seitas francesas, bem como toda mobilização na França dos ex.adeptos, familiares de adeptos, jornalistas, juristas, acadêmicos, psiquiatras, políticos e outros, na luta contra os danos causados pelos movimentos religiosos. Na segunda parte, Giumbelli demonstra que no Brasil (ao contrário da França), ex.adeptos e vítimas de seitas, não possuem qualquer apoio jurídico, governamental ou legal. Giumbelli inclusive apresenta alguns casos de vítimas que entraram com ações na justiça brasileira para reaver bens doados para Igreja, outros solicitando indenização por danos causados pelos movimentos. Mas por falta de compreensão jurídica de nomenclaturas como lavagem cerebral, manipulação psicológica e outras, as instituições religiosas ganharam os processos (GIUMBELLI, 2002, p. 329 e 331-332). Independentemente do que pensa Giumbelli sobre os movimentos sectários, os resultados apresentados na totalidade da obra O fim da Religião, é um ri-.

(30) estava em jornais e revistas de grande circulação, além de documentários televisivos. O termo Seita também estava presente em: romances, peças de teatro, histórias em quadrinhos. Sem contar que o pesquisador do tema, como escreve Giumbelli, facilmente perceberia que nas bibliotecas francesas qualquer um ao buscar a temática em livros ou jornais, perceberia que a palavra chave para busca de movimentos desviantes é: Les Sects. Ou seja, Seitas (GIUMBELLI, 2002, p. 63). Naquele país de acordo com Giumbelli, as Seitas são quase sempre um problema ou um perigo, eventualmente um flagelo. Mesmo em textos de que se esperaria um enfoque mais equilibrado, domina uma conotação francamente acusatória [...] Les Sectes (GIUMBELLI, 2002, p. 64).. Este capítulo pretende expor o contexto histórico e os fundamentos sociológicos do termo. Etimologicamente, a palavra Seita está vinculada a duas raízes: secta, maneira de viver, e sectum, grupo constituído em ruptura com a Igreja. Na França as expressões ainda ganham destaque como: Seitas totalitárias, Seitas perigosas, Seitas manipuladoras, Seitas destrutivas, Seitas abusivas, Seitas sectárias (GIUMBELLI, 2002, p. 65). Neste momento da pesquisa, proponho uma reflexão sobre o tema Seitas, e mais, considerar a escolha francesa: Les Sectes (GIUMBELLI, 2002, p. 64), olhando para a história da temática na construção de uma nova nomenclatura: Novos Movimentos Religiosos - NMR. A pergunta que faço é: será necessário ao pesquisador esquecer a expressão Seitas e adotar NMR? E por fim, qual nomenclatura está mais carregada conceitualmente de sentido para se pesquisar um grupo ou movimento desviante, exclusivista e perigoso? Para responder estas e outras questões se faz necessário viajar para os primórdios da sociologia e as primeiras caracterizações de carisma e Seitas até Novos Movimentos Religiosos. Ricardo Mariano e Silas Guerriero nos auxiliarão neste processo.. I.1.1 Carisma. De acordo com Maria das Dores Campos Machado, ―desde o surgimento da Sociologia, os pensadores vêm enfrentando o desafio de interpretar o fenômeno religioso e suas. quíssimo material para entendermos a distância entre um país que resolveu pesquisar as seitas em todas as áreas do conhecimento, e o Brasil, que ainda resiste em pesquisar criticamente os movimentos desviantes (GIUMBELLI, 2002, p. 63).. 30.

(31) consequências para a vida social, mas os dois clássicos que mais contribuíram para a constituição de um campo de conhecimento específico sobre religião foram Durkheim e Weber‖ (MACHADO, 2003, p. 205). Para Ricardo Mariano, estes ―fundadores da sociologia‖, Foram os que mais se dedicaram a investigar os fenômenos religiosos e seu impacto sociocultural e econômico. Ambos estabeleceram forte associação entre modernidade e declínio da religião no Ocidente europeu (MARIANO, 2003, p. 233).. Segundo Charles Lindholm, Max Weber ―foi o primeiro a introduzir o termo carisma na sociologia, o primeiro a tentar analisar o conteúdo interior da personalidade carismática, o primeiro a afirmar que o carisma implica em uma relação entre o grande homem e seus seguidores, e o primeiro a inserir o carismático em um contexto social‖ (LINDHOLM, 1993, p. 39). De acordo com Max Weber: Denominamos carisma uma qualidade pessoal considerada extracotidiana (na origem, magicamente condicionada, no caso tanto dos profetas quanto dos sábios curandeiros ou jurídicos, chefes de caçadores e heróis de guerra) e em virtude da qual se atribuem a uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos ou, pelo menos, extracotidianos específicos ou então se a torna como enviada por Deus como exemplar e, portanto, como líder (WEBER, 2012, p. 158).. Weber analisa duas formas distintas de carisma: O carisma institucional e o carisma pessoal (LINDHOLM, 1993, p. 39-40). A primeira forma, ―o carisma institucional [...] dá uma aura de poder sagrado a qualquer indivíduo detentor do direito de usar um paramento episcopal, ou sentar no trono real [...] O carisma [aqui] é uma força para legitimação das instituições e de indivíduos poderosos‖ (LINDHOLM, 1993, p. 39-40). Vejamos mais. Segundo Max Weber: Denominam-se sacerdotes os funcionários de uma empresa permanente, regular e organizada, visando à influência sobre os deuses [...] Disti ngue-se os sacerdotes como capacitados por seu saber específico, sua doutrina fixamente regulada e sua qualificação profissional, daqueles que atuam em virtude de dons pessoais (carisma) e da prova destes milagres e revelação pessoal, isto é, de um lado, os magos e, de outro, os profetas (WEBER, 2012, p. 294).. A segunda forma de carisma é o carisma pessoal, ―uma qualidade extraordinária de uma pessoa, independentemente do quanto essa qualidade é verdadeira‖ (LINDHOLM, 1993, 40). Sendo assim ―o carisma desse tipo é revolucionário e criativo, correndo em épocas 31.

(32) de crise social, abrindo caminho para um novo futuro‖ (LINDHOLM, 1993, p. 40). Para Max Weber este pode ser um Profeta. Ou seja, Por profeta queremos entender aqui o portador de um carisma puramente pessoal, o qual, em virtude de sua missão, anuncia uma doutrina religiosa ou um mandado divino. Não queremos distinguir fundamentalmente entre o profeta que anuncia de novo uma revelação antiga (de f ato ou suposta) e aquele que reivindica para si uma revelação totalmente nova, isto é, entre o renovador e o fundador de uma religião. Ambas as coisas podem estar entrelaçadas (WEBER, 2012, p. 303).. De acordo com Charles Lindholm, carisma pessoal, para Max Weber, ―só pode existir em relação a seus seguidores, que o adoram. Assim Weber é obrigado [...] a pensar por que a personalidade carismática pode atrair discípulos, e é nesse ponto que formula suas principais contribuições‖ (LINDHOLM, 1993, p. 41). Segundo Maria das Dores Campos Machado, Max Weber ―tratava as crenças religiosas como um sistema de significados que deveria ser compreendido a partir dos sentidos atribuídos pelos próprios sujeitos que a elas aderiam‖. Para ela, Weber ―diferenciou a magia da religião e priorizou as fases iniciais da criatividade religiosa, utilizando as comparações para destacar as múltiplas visões de mundo das grandes civilizações‖. Ou seja, Weber na compreensão de Machado estava ―interessado primordialmente na relação entre doutrina e conduta‖. Tanto é que ela diz que Weber ―privilegiou a análise dos grupos religiosos na tentativa de compreender as relações entre os interesses materiais e ideais com as crenças religiosas‖ (MACHADO, 2003, p. 205). Ao refletir sobre as religiões, Weber encontra o carisma (WEBER, 2012, p. 158), e consequentemente chega aos ―movimentos carismáticos‖ (LINDHOLM, 1993, 40). Max Weber identifica que nestes movimentos as pessoas não seguem mais as instituições, mas o líder (WEBER, 2012, p. 158). Ou seja, de acordo com Charles Lindholm, estas pessoas, não obedecem mais aos costumes ou à lei; em vez disso, os seguidores se submetem às exigências imperiosas de uma figura heroica, cujas ordens não são legitimadas pela lógica, nem pela posição do herói em qualquer hierarquia estabelecida, mas somente pelo poder de comando do indivíduo carismático (LINDHOLM, 1993, p. 40).. Weber percebe que estes movimentos se separavam da igreja instituída e da sociedade (WEBER, 2004, p. 289-290), o que ele nomeou de Seitas (WEBER, 2004, p. 243).. 32.

(33) I.1.2 Seitas. Como vimos, ao introduzir o carisma nas reflexões sociológicas, Max Weber ―estudou os conceitos Seita e Igreja‖. Sendo que ―sua principal análise de Seita, em contrapartida com a Igreja, teve como ponto central as rupturas do cristianismo no Ocidente, em especial o protestantismo ascético‖ (GUERRIERO, 2006, p. 31). Weber, ao estabelecer seus conceitos de Carisma (2012, p. 303) e Seita (2004, p. 243), identifica segundo Lindholm, que ―o carismático [...] só pode existir, em relação a seus seguidores, que o adoram‖ (LINDHOLM, 1993, p. 41). De acordo com Silas Guerriero, Weber identificou que ―o principal atributo de Seita é o de ser uma comunidade voluntária de eleitos. Outra característica importante é seu tamanho, pois apenas a comunidade local poderia julgar, a partir de um exame pessoal, sobre a qualificação ou não de um de seus membros. Isso só poderia se dar em comunidades relativamente pequenas17‖ (GUERRIERO, 2006, p. 31). Para Guerriero outro ponto identificado por Weber que caracteriza uma Seita, ―diz respeito ao esforço empreendido na manutenção da pureza da comunhão com o sagrado, exigindo disciplina extremamente severa, muito mais rigorosa que a de qualquer Igreja. Weber percebeu que nas Seitas protestantes só eram admitidas pessoas cujo modo de vida parecesse eticamente qualificado. Assim, a Seita, ao contrário da Igreja na qual nasce, supõe um certificado de qualificação ética para a pessoa‖ (GUERRIERO, 2006, p. 31). Para Silas Guerriero, podemos contar ainda com Enerst Troeltsch 18, contemporâneo de Weber, para talvez buscarmos uma maior compreensão no que se refere ao uso sociológico dos termos Seita e Igreja. A Igreja promove a estabilidade e ordem social. Sua atuação abrange toda a sociedade, não distinguindo classe social; porém, para garantir. 17. O movimento Adventista do Sétimo Dia, que possui mais de 18 milhões de seguidores no mundo, conta com mecanismo sistematizado de controle das atividades dos membros. Semanalmente os membros são sabatinados aos sábados pela manhã. É feito um controle das horas dedicadas a comunhão pessoal e horas dedicadas ao movimento, controle do envolvimento missionário dos membros. Importante frizar que este mecanismo é aplicado nas classes de escola sabatina de crianças, adolescentes, jovens e adultos. A primeira parte destas classes é uma verificação detida, mapeando através de formulário padronizado, de todas as atividades dos membros, inclusive a periodocidade diária de cultos e orações em família. Este mecanismo de controle é tão poderoso, que os dados geram relatórios sobre como está cada igreja local do movimento. https://www.youtube.com/watch?v=zYRYnw8c_D4 – acessado em 01/03/2019. 18 Mostrando a cumplicidade no uso dos conceitos entre Max Weber e Enerst Treltsch. Weber diz: o conceito de Seita aqui usado foi empregado quase ao mesmo tempo e – suponho – independentemente de mim, [...] Troeltsch [...] que aceita-o e entra em minúcias a respeito (WEBER, 2004, p. 243).. 33.

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