116
A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA EM BRASÍLIA (1973-1974): UTOPIA, MEMÓRIA E PRESENTE
Eduardo Rizzatti Salomão*
RESUMO
Às margens do lago Paranoá, repousam as ruínas das fundações da edificação que acolheria a transferência da Escola Superior de Guerra (ESG) do Rio de Janeiro para Brasília. De autoria do arquiteto Sergio Bernardes, o projeto arquitetônico, adotado nos anos 1970, visava atender ao propósito de reintegrar a renomada instituição brasileira de estudos estratégicos de políticas de defesa ao centro do poder político nacional. Com essa intenção, a nova sede almejava inserir a ESG no ambiente acadêmico do Distrito Federal ao situá-la nas proximidades da Universidade de Brasília (UnB). Patrimônio abandonado às intempéries, o cimento moldado pela concepção de Bernardes sobreviveu por décadas para provocar perguntas e se deparar com a presente retomada da ambição da criação de uma sede da ESG em Brasília. Este artigo apresenta os resultados da pesquisa sobre a memória e o passado de experiência dos acontecimentos que levaram a condenação do projeto de Bernardes. O problema que norteou o estudo é a tentativa de compreensão das razões que conduziram ao cancelamento das obras, inserindo, nessa discussão, reflexões sobre o lugar que as ruínas ocupam na história e na memória nacional.
Palavras-chave: Escola Superior de Guerra (ESG). Brasília. Utopia. Memória. THE BRAZILIAN WAR COLLEGE IN BRASILIA (1973-1974): UTOPIA, MEMORY AND
PRESENT ABSTRACT
On the shores of Lake Paranoá, lie the ruins of the foundations of the building that would receive the transfer of the Brazilian War College (ESG) from Rio de Janeiro to Brasilia. The architectural project, which was adopted in the 1970s, was designed by the architect Sergio Bernardes and aimed at reintegrating the most renowned Brazilian institution of strategic defense policy studies into the center of national political power. The new headquarters also aimed to insert the ESG into the academic environment of the federal district by placing it near the University of Brasília (UnB). Heritage abandoned to the elements,
____________________
* Doutor em História Social pela Universidade de Brasília (UnB). Membro do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra (ESG). É professor de História e integra o Quadro Complementar de Oficiais (QCO) do Exército Brasileiro. Contato: [email protected]
117 the cement molded by Bernardes’ conception survived for decades to provoke questions and to face the present resumption of the ambition of the creation of an ESG headquarters in Brasilia. This article presents the results of the research on memory and the past experience of the events that led to the condemnation of Bernardes’ project. The problem that motivated to the study is the attempt to understand the reasons that led to the cancellation of the works, inserting in this discussion reflections on the place that the ruins occupy in national history and memory.
Keywords: Brazilian War College (ESG). Brasília. Utopia. Memory.
LA ESCUELA SUPERIOR DE GUERRA EN BRASÍLIA (1973-1974): UTOPÍA, MEMORIA Y PRESENTE
RESUMEN
A las márgenes del lago Paranoá, reposan las ruinas de las fundaciones de la edificación que acogería la transferencia de la Escuela Superior de Guerra (ESG) de Rio de Janeiro a Brasilia. De acuerdo con el arquitecto Sergio Bernardes, el proyecto arquitectónico, adoptado en los años 1970, pretendía atender el propósito de reintegrar a la más renombrada institución brasileña de estudios estratégicos de políticas de defensa al centro del poder político nacional. Con esta intención, la nueva sede pretendía insertar la ESG en el ambiente académico del distrito federal al situarla cerca de la Universidad de Brasilia (UnB). Patrimonio abandonado a las intemperies, el cemento moldeado por la concepción de Bernardes sobrevivió por décadas para provocar preguntas y encontrarse con la presente reanudación de la ambición de la creación de una sede de la ESG en Brasilia. Este artículo presenta los resultados de la investigación sobre la memoria y el pasado de experiencia de los acontecimientos que llevaron a la condena del proyecto de Bernardes. El problema que orientó el estudio es el intento de comprender las razones que condujeron a la cancelación de las obras, insertando en esa discusión reflexiones sobre el lugar que las ruinas ocupan en la historia y en la memoria nacionales. Palabras clave: Escola Superior de Guerra (ESG). Brasilia. Utopía. La memoria.
1 INTRODUÇÃO
Em Brasília, às margens do lago Paranoá, repousam estruturas em concreto e aço, com curvas e linhas elegantes que aguçam a imaginação do visitante. Conhecidas na capital federal como “ruínas da UnB”, pelo fato de se localizarem nas proximidades da Universidade de Brasília (UnB) e estarem tomadas pela vegetação e abandonadas à ação das intempéries, os alicerces degradados oferecem testemunho do projeto de edificação de uma nova sede para a Escola Superior de Guerra (ESG).
118
Nascida da concepção do arquiteto Sérgio Bernardes e encomendada durante a presidência de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), o projeto arquitetônico visava atender aos desígnios de integrar a ESG ao ambiente acadêmico da capital federal e situá-la no centro do poder político nacional. O testemunho das ruínas provoca inúmeras perguntas, entre elas, a de inquirir sobre as razões do abandono do projeto e mesmo o lugar que essa decisão ocupa na história e na memória nacionais. O desafio envolve uma obra não concretizada, resquício de uma edificação sonhada a testemunhar a decisão pelo cancelamento de um projeto ambicioso em termos arquitetônicos e quiçá políticos.
Pesavento (2003), ao discutir a aproximação da Arquitetura e do Urbanismo com a História, pela identificação com o tema da cidade, e reconhecer a elaboração de planos e projetos como utopias do espaço como realidade a construir, ressalta a natureza criadora a testemunhar a vontade dos homens de certa época:
Como utopias urbanas, projetuais, arquitetônicas, sonhos de cidades ideais, desejo de construção de um mundo inteiramente outro, os projetos podem enquadrar-se naquele enquadrar-sentido que deu Walter Benjamin para a utopia: libertação de energias criadoras que dão asas ao pensamento e revelam os sonhos de uma época. Mesmo que nunca saiam do papel, que não se tornem realidade, as utopias projetuais são testemunho de uma vontade, de uma intenção e de um desejo, todos históricos e datados, concebidos pelos homens de uma época. (PESAVENTO, 2003, p. 114).
As ruínas da edificação de uma nova sede para a ESG se afirmam como utopia projetada no planalto central, a evidenciar a vontade criativa e a ambição de um arquiteto e das lideranças políticas que atuaram pela aprovação da proposta. Sua força e expressividade ganham realce pela adoção do projeto e início das obras, cujas fundações oferecem testemunho de uma concepção visionária. Patrimônio inacabado, abandonado às intempéries, o cimento moldado pela concepção de Bernardes sobreviveu por mais de quatro décadas para provocar perguntas e se deparar com a retomada da ambição da criação de uma sede da ESG em Brasília, com propósito diverso do projeto original ao não prever a mudança da sede principal da cidade do Rio de Janeiro.
As obras, abandonadas em meados dos anos 1970, integraram a paisagem brasiliense, pelo que são e pelo que poderiam vir a ser, como sugere a vista aérea da antiga obra na Asa Norte do Plano Piloto da capital federal (Figura 1).
119 Figura 1 - VISTA AÉREA DAS “RUÍNAS DA UNB”
Fonte: GOOGLE MAPS, 2019.
Balizando a compreensão teórica aqui adotada sobre a relação entre história e memória, Pierre Nora afirma que “Os lugares de memória são, antes de tudo, restos. A forma extrema onde subsiste uma consciência comemorativa numa história que a chama, porque ela a ignora” (NORA, 1993, p. 12-13). Por não ter ocupado o papel a ele destinado, o projeto da ESG na capital federal não comemora a concretização de um propósito, impondo-se antes como recordação material da interrupção abrupta da vontade criativa e política – e, como ruína, nega-se ao esquecimento ao ser chamada pela história a prestar depoimento.
Pensar o assunto promove reflexões sobre o patrimônio histórico e a arquitetura vanguardista, mesmo aquela que não se tornou realidade, e as ambições acadêmicas e políticas ligadas aos projetos de defesa. Do esboço do projeto ao contrato para execução na urbs brasiliense, decisões ministeriais foram tomadas, alterou-se o ambiente econômico e político. Observada a conjuntura, há muitas perguntas, entre elas impondo-se inquirir em que bases estariam assentadas as razões para o abandono definitivo do projeto.
Somada aos aspectos históricos, também interessa o que essa questão pode oferecer ao debate atual. É propósito deste artigo apresentar os resultados da investigação dos motivos que levaram a condenação da obra de Bernardes, inserindo
120
reflexões sobre o papel das ruínas para a história e a memória nacionais. Que lugar as “ruínas da UnB” ocupam no presente? O problema a ser respondido recai sobre a compreensão dos motivos que conduziram ao cancelamento das obras, inquirindo o fator, ou fatores, que levaram ao abandono definitivo do projeto.
Como método de pesquisa a dar forma ao estudo, adotou-se o levantamento qualitativo de referências bibliográfico-documentais, consultando obras de referência sobre a ESG, o período histórico abordado, a produção de Sergio Bernardes, banco de teses e dissertações e o acervo da ESG. Sob a guarda da Seção de Memória Institucional e da Biblioteca Cordeiro de Farias, ambos os setores componentes do Centro de Conhecimento Científico e Cultural (C4) do campus da ESG no Rio de Janeiro, foram localizadas cópias das plantas do projeto original1 e fotografias da obra datadas de 1974, somadas a documentos sobre a destinação do terreno e o portfólio do atual projeto executivo da edificação do campus da ESG em Brasília.
A primeira parte do artigo é dedicada à compreensão do projeto de Bernardes como veículo modernizante, discussão inserida no ambiente político, nas ambições e no contexto da proposta da edificação de uma nova sede para a ESG. O segundo momento aprecia as razões para o cancelamento do projeto, inquirindo documentos de época e empenhando-se a compreender o que motivou essa decisão. Por último, é observado o progressivo abandono das expectativas pela retomada da obra; aqui se vislumbra a conversão da edificação inacabada em fragmento histórico e lugar de memória, passando a ocupar espaço no imaginário presente.
Na atualidade, a retomada da proposta da ESG operar efetivamente em Brasília, com a inauguração de um campus provisório nas dependências do Ministério da Defesa (MD), surge como que a reviver o sonho dos anos 1970. É um dos propósitos deste artigo contribuir com as reflexões sobre a nova oportunidade da ESG operar definitivamente no centro político brasileiro.
2 A ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG) EM BRASÍLIA COMO PROJETO MODERNIZANTE
Segundo Lauro Cavalcanti, o nascimento do projeto da nova sede da ESG em Brasília deveu-se a aproximação do arquiteto Sergio Bernardes com o ministro Golbery do Couto e Silva.
Unia-os o entusiasmo em criar novas estruturas que possibilitassem o desenvolvimento do país. Eram duas figuras que, embora situadas em um espectro político dito conservador,
1 As plantas originais integram o Acervo Sergio Bernardes, sob custódia do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NPD-FAU/UFRJ).
121 não pretendiam manter estruturas arcaicas de organização territorial. O projeto mais arrojado, que obteve simpatia inicial de Golbery, era aquele de uma Escola Superior de Guerra junto à Universidade de Brasília. (CAVALCANTI, 2004, p. 59).
O contrato para a confecção do projeto arquitetônico e a sua execução atendia, naquele momento, a vontade política do núcleo do poder no planalto central. A mudança de sede da ESG do Rio de Janeiro para a nova capital federal visava restabelecer a posição da Escola no centro do poder político nacional, com uma visão arrojada, ao prever a proximidade com a UnB. Uma primeira leitura dessa decisão pode não surpreender, ao se observar que a alocação da sede da ESG correspondia ao setor da capital reservado pelo plano diretor de ordenamento territorial do Distrito Federal ao ensino superior.
Se observadas a origem, composição e instalações da ESG no Rio de Janeiro, a proposta de alocá-la junto à UnB começa a ser percebida como uma decisão inovadora. A ESG foi criada em 1949, ocupando, desde então, instalações da Fortaleza de São João, no bairro da Urca. A fortaleza ocupa o ponto de entrada da Baía da Guanabara, sítio histórico considerado o marco do nascimento da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O prédio adotado para recepcionar o Comando da ESG pertenceu originalmente a uma organização militar da Arma de Artilharia do Exército. A área insere-se no conjunto da fortaleza, convertida em um condomínio de quartéis do Exército, onde organizações militares dividem espaço com moradias destinadas a militares e uma escola municipal. É tradicionalmente um espaço dedicado ao ensino e a prática esportiva, visto funcionar no local, entre outras organizações de ensino e pesquisa, a Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx).
Segundo Arruda, a origem da ESG prende-se a criação do Curso de Alto Comando, nos anos 1940, para atender generais e coronéis do Exército. O curso não teria sido efetivado. Em 1948, em face da proximidade de criação da ESG, inicialmente pensada para concentrar cursos dedicados a assuntos militares, em sintonia com o ambiente pós-Segunda Guerra e diante da possibilidade de novo conflito mundial, no contexto da Guerra Fria, o curso passaria a operar para atender oficiais das três Forças Armadas. Ao viajar aos Estados Unidos da América (EUA), em 1948, em visita ao National War College, o general Salvador César Obino, chefe do então Estado-Maior Geral (posteriormente nominado Estado-Maior das Forças Armadas – EMFA), colheu o apoio de uma missão norte-americana para a implantação da congênere brasileira (ARRUDA, 1983, p. 21), dando novo impulso à criação da ESG.
Reunida a equipe para redação do anteprojeto de regulamento da ESG, sob a direção do general Oswaldo Cordeiro de Farias (primeiro comandante da Escola), a intenção de implantar um curso exclusivo para oficiais das
122
Forças Armadas deu lugar a uma concepção diversa. Dos trabalhos da equipe, consolidou-se o documento cuja relatoria coube ao tenente-coronel Idálio Sardenberg, intitulado “Princípios Fundamentais da Escola Superior de Guerra” (ARRUDA, 1983, p. 22).
Os propósitos que nortearam a redação dos Princípios Fundamentais buscavam inovar o ensino no ambiente militar, não se prendendo à intenção de criar uma instituição dedicada exclusivamente à temática dos conflitos bélicos, operações conjuntas ou assuntos peculiares aos cursos de Estado-Maior. O primeiro ponto dos Princípios evocava que a segurança nacional era função mais do potencial geral da nação do que do seu potencial militar, para, em seguida, listar como propósito o estudo de temas relacionados aos problemas que retardariam o progresso brasileiro e o alcance do objetivo de tornar o Brasil um país plenamente desenvolvido.
Os Princípios evidenciaram em todos os tópicos a intenção de criar algo distinto dos cursos ofertados pelas Forças Armadas de então. No texto consta que “O impedimento até agora existente contra o surgimento de soluções nacionais para os problemas brasileiros é devido ao processo de aplicação de energia adotado e à falta de hábito de trabalho em conjunto” (ARRUDA, 1983, p. 22), e propôs substituir o que chamou de “métodos dos pareceres” (ARRUDA, 1983, p. 23) por soluções oriundas de novo método a ser adotado, considerando a análise e a interpretação de fatores políticos, econômicos, diplomáticos e militares, difundindo mediante a criação de um instituto nacional de “altos estudos” (do francês hautes études, expressão aplicada aos cursos de pós-graduação), a funcionar como um centro permanente de pesquisas. Com essa finalidade, enfatizou a adoção do trabalho em equipe, do diálogo e do debate permanentes, com ênfase na produção de soluções em conjunto, com uma inovação que marcaria a concepção da ESG: reunir civis e militares em um único curso (STEPAN, 1975).
O general César Obino, em exposição de motivos ao presidente Eurico Gaspar Dutra, enfatizou as vantagens em integrar militares e civis no curso a ser oferecido pela ESG, em consonância com o texto dos Princípios.
A inclusão na Escola de determinados civis tem por finalidade dar aos civis interessados nos trabalhos pertinentes à organização da Segurança Nacional, particularmente àqueles que devam dirigir a mobilização nacional ou a política externa, uma visão panorâmica dos problemas e processos de execução daquela operação; e dar, aos militares selecionados para funções de alto comando, oportunidade de, através do convívio do trabalho em comum, apreciar os pontos de vista civis, de modo a obter-se uma compreensão mais perfeita entre esses grupos que se completam e sobre cujos ombros
123 recaem idênticas responsabilidades na defesa da Pátria. (OBINO, 1949, p. 3-4).
Inaugurada a ESG, em 20 de agosto de 1949, o Curso Superior de Guerra passou a operar segundo as diretrizes expostas nos Princípios. Citando Clemenceau, Arruda ilustra o espírito que predominaria na ESG nos anos vindouros, ouvindo-se entre ouvindo-seus membros que a “guerra é assunto muito sério para ficar somente a cargo dos generais” (ARRUDA, 1983, p. 24). A afirmação, longe de denotar irreverência, enfatizava a imperativa necessidade de o tema da guerra ser assunto de interesse de vários segmentos da sociedade e não exclusivamente da classe militar.
Notadamente, a ESG não se converteu numa instituição centrado no estudo particular do fenômeno da guerra, em que pese ter conservado por gerações sua denominação inicial. A guerra, com fenômeno político, militar e mesmo cultural, e todas as suas implicações, não foi assunto negligenciado, mas o cerne das questões estudadas, ao longo de 70 anos de existência, voltou-se para temas variados, abrangendo educação, indústria, infraestrura, comunicação, segurança interna, entre outros. Nos anos 1960/70, o fio condutor dos estudos focou o binômio desenvolvimento e segurança (STEPAN, 1975). Esses conceitos ganharam maior atenção durante o governo dos generais-presidentes, entre eles estando os antigos estagiários (designação dada aos alunos da ESG) Humberto de Alencar Castelo Branco e Ernesto Geisel, além do influente ministro general Golbery do Couto e Silva.
Nos anos 1970, projetos modernizadores, com viés conservador, davam a tônica a vários empreendimentos do governo federal. A ESG integrava esse ambiente, concentrando estudos em temas de interesse da segurança nacional em atendimento ao regulamento de 19732. Eram os anos do milagre econômico e da Guerra Fria. O tema da segurança nacional predominava diante da possibilidade de rivalidade entre os blocos capitalista e comunista resultar em guerra aberta. A segurança nacional envolvia estudos e debates ligados à política de desenvolvimento da economia. Sobre o foco intelectual predominante na ESG nesse período, Alfred Stepan observou:
A doutrina da ESG acentuava intensamente que a guerra moderna, seja a convencional, como a Segunda Guerra Mundial, seja a revolucionária, como na Indochina, implicava o desejo, a unidade e a capacidade de produção do país inteiro. Assim, os encarregados da formulação e execução dos programas de segurança nacional não poderiam mais limitar sua atenção à
2 O Regulamento da ESG de 1973 previa que a Escola era destinada a desenvolver e consolidar os conhecimentos necessários para os exercícios das funções de direção e para planejamento da Segurança Nacional (BRASIL, 1973).
124
proteção das fronteiras ou a outros usos convencionais do Exército. Para a ESG, a segurança nacional erra, em grande parte, função da maximização racional do produto da economia e da minimização de todas as fontes de cisão e desunião dentro do país. (STEPAN, 1976, p. 132).
Nesse período, a influência da ESG se fazia sentir, sobretudo, mediante seus formandos. Muitos ex-estagiários ocupavam cargos públicos de relevo ou viriam a ocupar postos nos escalões dos governos federal e estaduais, a exemplo de Golbery. Os esguianos usufruíam de uma ativa rede de contatos após o curso ao optar por integrar os quadros da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), entidade criada pelo almirante Benjamin Sodré, e com sedes distribuídas por diversas capitais e cidades brasileiras. A ADESG propiciava encontros entre os associados e conferências com palestrantes renomados, fortalecendo os laços entre os esguianos, além de contribuir para a divulgação do método de trabalho e concepções doutrinárias da ESG país afora. “Promoviam-se ciclos de conferências sobre a doutrina da ESG em todo o país, conferências ministradas por ex-alunos com a assistência da ESG. Isto aumentou grandemente a divulgação da doutrina da escola.” (STEPAN, 1975, p. 131).
Não consta que Bernardes tenha cursado a ESG, mas há bons indicativos de que tenha simpatizado com visões próprias da geopolítica e do ideal desenvolvimentista-conservador. O ministro Golbery do Couto e Silva, como indicado por Cavalcanti (2004) foi um dos simpatizantes das ideias inovadoras de Bernardes, abrindo novas oportunidades para as ambições profissionais e o idealismo do arquiteto.
Sergio Bernardes era arquiteto renomado desde antes de sua aproximação com o governo, conhecido por projetar inovadoras residências e hotéis. Próximo do final dos anos 1960, o arquiteto passou por uma transformação pessoal, voltando-se para questões que passavam pela modificação do espaço em favor de concepções que entraram em sintonia com o ideário de desenvolvimento nacional pela via político-conservadora (BERNARDES, 2014). Em Brasília, Bernardes projetou o Monumento ao Pavilhão Nacional na Praça dos Três Poderes e o Centro de Convenções. O monumento, inaugurado em 1972, durante o governo do presidente Médici, foi composto por hastes circulares de aço, erguendo a bandeira do Brasil a uma altura de cem metros do solo, sustentando uma carga de dezenas de toneladas e cravando o nome de Bernardes no planalto central, em plena obra de Lucio Costa e Oscar Niemayer.
Com essas obras, Bernardes marcou sua presença nas ações do governo. A construção da nova sede da ESG se abria com uma expressiva janela de oportunidades para um arquiteto ambicioso e visionário. O projeto escolhido
125
para a sede, das duas propostas apresentadas, adotava a forma predominante triangular, prevendo a construção de quatro pavimentos, um deles situado no subsolo, e os demais projetando a sede da ESG parcialmente sobre as águas do lado Paranoá.
Figura 2 - Maquete do projeto da Escola Superior de Guerra (ESG) Brasília
Fonte: ACERVO DA MEMÓRIA INSTITUCIONAL/ESG. Autor não identificado, 1974.
A nova sede contaria com biblioteca, gráfica, setor de comunicação, serviços de apoio, almoxarifado, cozinha, amplo estacionamento, espaços generosos para a administração e ensino, salão de honra, salão de estar, restaurante para os funcionários e outro privativo para os estagiários, administração e corpo permanente, seis auditórios menores e um grande auditório circular para 400 pessoas, praças e área arborizada (SILVA, 2016, p. 153-154).
As obras foram iniciadas em 1973. A previsão de entrega e inauguração estavam previstas para 1976. Do conjunto das edificações destinadas à ESG, também constava a previsão de construção de 4 blocos de apartamentos3 nas Superquadras Norte (SQN) 210 e 114, com a finalidade de recepcionar oficiais e estagiários (BRASIL, 1976).
3 Os blocos de apartamentos ficaram prontos em agosto de 1975, com custo de 30 milhões de cruzeiros. (JORNAL DO BRASIL, 1975, p. 8).
126
Figura 3 - Maquete do projeto da Escola Superior de Guerra (ESG) Brasília
Fonte: ACERVO DA MEMÓRIA INSTITUCIONAL/ESG. Autor não identificado, 1974.
A construção da sede da ESG em Brasília incluía aspectos para além da ocupação do espaço e da inovação arquitetônica. O projeto visava influenciar “no currículo e na construção da mentalidade e do conhecimento que seria ministrado aos próprios oficiais.” (CAVALCANTI, 2004, p. 59). Os propósitos eram audaciosos, prevendo mesmo a alteração do nome da ESG para Escola Superior de Altos Estudos de Integração (BERNARDES, 1973).
Do pedagógico ao conceitual, Bernardes projetava a sede da ESG com liberdade criativa e atingia a doutrina e a política que conduziam os rumos dos projetos governamentais. Em quais aspectos houve influência pontual de Golbery ou de outro integrante do governo nos rumos conceituais do projeto não foi possível mensurar. Do que foi consultado a respeito do projeto, ficou evidente que a concepção visionária foi produto da inspiração de Bernardes, cuja produção criativa contemplava aspirações transformadoras ligadas ao progresso e desenvolvimento do país, ligando as expectativas do arquiteto à vertente desenvolvimentista conduzida pelos militares no governo. Aqui se revela o idealismo de Bernardes, submetendo o projeto da ESG a sua percepção de reordenação do espaço e progresso intelectual e material, como observou Marcelo Felicetti da Silva.
127 Para Bernardes, projetar a nova sede da ESG em Brasília era o coroamento de uma sequência de projetos para os militares em Brasília. Antes que aderir à sua ideologia político-institucional, ele esperava submetê-la ao seu idealismo. A ideia era conduzir a mentalidade intelectual militar quanto ao tema da integração e planejamento do país, reforçando sua crença no poder do projeto como dispositivo de reordenação estrutural na escala geopolítica e o desejo de reorganização do território brasileiro em favor do que ele acreditava ser um projeto de nação autônoma, com um olhar global e visionário focado no planejamento. (SILVA, 2016, p. 148).
Posta em prática, a execução do projeto adentraria o ano de 1974. Naquele momento a utopia criativa de Bernardes ganhara espaço no centro do poder, com a promessa de transferir e modernizar a ESG. A Seleção Brasileira de Futebol ganhara a Copa do Mundo do México em 1970 e, ao longo daqueles anos, o Brasil vivera os anos de otimismo do milagre econômico, alimentando expectativas de que o país se encontrava próximo a consolidar a sua posição entre as nações desenvolvidas.
3 A SUSPENSÃO DAS OBRAS ENTRE CRISE ECONÔMICA E DISCORDÂNCIA CONCEITUAL
O governo Médici chegara ao fim, assumindo Ernesto Geisel em março de 1974. Nos anos do governo Geisel, os dólares do petróleo, fonte acessível de empréstimos para financiar o desenvolvimento brasileiro nos anos do milagre, não mais estariam disponíveis a juros considerados baixos. O choque econômico, provocado pela crise política iniciada em 1973 com a Guerra Árabe-Israelense, mudaria o cenário internacional. Em 1974, o preço do barril quadruplicara (REIS, 2014, p. 98), anunciando dificuldades que afetariam os projetos de desenvolvimento promovidos pelo governo brasileiro.
As obras da ESG, já iniciadas, seriam suspensas em breve. Uma nota no jornal
O Globo, de agosto de 1975, informava que a transferência da ESG prevista para
1976, caso concretizado o projeto, seria lenta e gradual (SWAN, 1975). A suspensão atendia a dificuldades quanto ao recebimento de estagiários na capital, que, segundo a nota, não dispunha de infraestrutura para comportar a ESG e receber o conjunto de civis e militares dos diversos Estados.
No Aviso Ministerial nº 1, de 9 de janeiro de 1976, o general Hugo Abreu, Ministro Chefe do Gabinete Militar, informava ao general Antonio Jorge Corrêa, Ministro-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, a decisão do presidente Ernesto Geisel pela suspensão definitiva das obras e pelo cancelamento do projeto de transferência da ESG do Rio de Janeiro para Brasília.
128
Em consequência, determinou que a administração de todos os trabalhos já realizados e relacionados com o edifício que se destinaria à instalação daquela Organização em Brasília, bem como as residências previstas para o pessoal respectivo, passe à responsabilidade e direção da DASP [...] ficando a ele também alocados os recursos destinados ao empreendimento. (BRASIL, 1976, p. 1).
A decisão formal pela transferência patrimonial foi transmitida ao Diretor-geral do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), Darcy Duarte de Siqueira, pelo Aviso Ministerial nº 2, de mesma data (BRASIL, 1976b, p. 1), dando origem a uma série de expedientes até o termo de entrega das obras (BRASIL, 1976), retirando a questão, em termos patrimoniais, da alçada do EMFA. A decisão de Geisel de repassar o terreno, benfeitorias e demais itens do projeto à DASP, sem sequer cogitar a possibilidade de retomada do projeto em futuro próximo, sugere a intenção do presidente de encerrar o propósito de transferência da ESG em definitivo, não dando brechas a uma retomada da empreitada.
A direção da DASP, diante do recebimento das obras, efetuou levantamento da situação e concluiu que as fundações já estavam assentadas, despendidos Cr$20.976.473,494. Diante do valor consumido, o diretor Siqueira apresentava como medida para o aproveitamento dos trabalhos a destinação do espaço para a construção de um hotel, com previsão da venda do terreno e suas benfeitorias. O diretor visava, entre outros aspectos, a reversão de valores ao Tesouro Nacional. Com esse objetivo, o diretor se posicionava pela cessão do terreno à Terracap (Companhia Imobiliária de Brasília), informado contar com a aquiescência do governador do Distrito Federal e do ministro da Indústria e Comércio (BRASIL, 1976, p. 1-2).
Fruto da decisão de Geisel, procedeu-se o cancelamento do contrato com a firma Sérgio Bernardes Associados. Essa medida representou um duro golpe para o arquiteto, marcando o abandono de um projeto ousado, ambicioso na forma e no conteúdo, assim como a perda de um valioso contrato e suas consequências financeiras para a firma (BERNARDES, 2014). Entre os motivos aventados para a decisão do presidente de cancelar o projeto, foram divulgadas pela imprensa razões financeiras. Os anos do milagre econômico haviam passado, os recursos 4 Observando o Índice Geral de Preços (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), instituído em
1944, para valores em cruzeiros a contar de 1º de janeiro de 1980 a 1º de fevereiro de 2019, a conversão de Cr$ 20.976.473,49 resultou em R$ 9.651.201,51. A conversão é meramente ilustrativa e a metodologia empregada não traduz o valor real despendido com a obra. Para o cálculo, foi empregada a calculadora digital disponibilizada pela Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser (FEE) da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Disponível em:https://www.fee.rs.gov.br/servicos/ atualizacao-valores/. Acesso em: abr. 2019.
129
eram escassos e a nova sede para a ESG deixou de ser prioridade. Segundo reportagem de Paulo Lannes para a Revista Veja, a versão da família de Bernardes era outra.
“Sérgio sugeriu uma abordagem conceitual diferente para o projeto da escola”, diz Kykah Bernardes, viúva do arquiteto. “Ele previa uma aproximação com estudantes e com a universidade”, explica. Para Kykah, Geisel descobriu as intenções do arquiteto e resolveu desfazer a parceria. João Pedro Backheuser, escritor de um ensaio sobre Sérgio Bernardes, reforça essa tese. “Da noite para o dia, todos os projetos de Bernardes foram cancelados”, afirma. Sem o dinheiro previsto, o arquiteto se viu imerso em dívidas, declarando falência nesse mesmo período. (LANNES, 2014, p. 3).
Em entrevista a Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, o general Geisel reconheceu ter sido contrário a construção de Brasília e ainda achar, à época da entrevista, que a nova capital foi um erro (D’ARAUJO; CASTRO, 1997). Na entrevista, Geisel discorreu sobre a ESG, destacando particularidades de seus tempos de curso e o contexto político da época, mas não houve menção ao projeto de transferência da sede da Escola para Brasília.
Matriculado na ESG em 1952, Geisel parece ter prezado pela manutenção da Escola em sua sede original podendo ter julgado Brasília imprópria ao seu funcionamento, dada as carências enfrentadas por uma capital nova e ainda em consolidação. Também não se pode rejeitar a aversão de Geisel para com o projeto modernizante de Bernardes, que incluiu aproximar a ESG da UnB, como afirmado por Kykah Bernardes. Outro ponto a ser analisado é o custo envolvido no empreendimento, justamente em momento em que se discutia a possibilidade do país entrar em recessão.
O presidente Geisel era identificado com muitas das premissas do ideal desenvolvimentista, reconhecendo o governo federal como o principal impulsionador do crescimento em face da timidez dos investimentos do capital privado no Brasil, adotando uma linha de ação modernizante pela ação estatal. Assumiu o governo logo após o milagre econômico do governo Médici perder fôlego, herdando os resultados do primeiro choque do petróleo. Como presidente, ficou entre a opção de moderar a atividade nacional, evitar o endividamento e aceitara recessão econômica (opção defendida por economistas liberais como Roberto Campos), ou investir recursos e ativar a economia, preservando o desenvolvimento do país e a geração de empregos. Geisel optou por investir, dando prosseguimento ao I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND) de Médici e implantando o II PND (REIS, 2014).
130
Geisel não era, portanto, refratário a medidas arrojadas mesmo em tempos de crise. O problema financeiro parece ter se somado a convicção de que o projeto não era oportuno, talvez justamente por não simpatizar com os ideais de Bernardes. O certo é que se Geisel julgava a transferência da capital federal um erro, como afirmou em entrevista (D’ARAUJO; CASTRO, 1997), não há razões para crer que concordaria em colaborar com a transferência da ESG para junto da UnB.
A visão de Ernesto Geisel sobre a capital federal, somadas a celeridade com que o terreno e benfeitorias das obras da ESG foram transferidos para a DASP, não se cogitando na sua manutenção pelo EMFA ou mesmo pela sua destinação à UnB, levam a concluir que o presidente optou por encerrar a questão, tomando medidas para minguar pretensões de retomada do projeto. A ESG ficaria no Rio de Janeiro.
A nova sede da ESG acabaria por converter-se em referencial involuntário do fim dos dias do milagre econômico e do sucesso do escritório do arquiteto Sérgio Bernardes, marcando o abandono de um projeto visionário e modernizante. A visão conceitual de Bernardes, de uma nova sede para a ESG como veículo modernizador, ao que tudo indica, encontrou em Geisel um obstáculo mais severo do que os óbices da escassez de recursos financeiros5.
4 AS “RUÍNAS DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA (UNB)”: MEMÓRIA E PRESENTE
Abandonado o projeto sob as ordens do presidente Geisel, as fundações da nova sede da ESG ainda insistiam a retornar a pauta. A intenção de construção de um hotel não prosperara, mas, em 1979, ganhou forma a sugestão de permutar o patrimônio da obra inacabada da ESG em favor da UnB e dos servidores. A proposta visava à permuta por uma propriedade adjacente à Universidade. A sugestão, em parceria com o Clube do Servidor Público, consta de uma “memória” encaminhada à DASP pelo ministro Golbery (BRASIL, 1979), contanto com a anuência do presidente. O documento foi datado de novembro de 1979. O mandato de Geisel havia se encerrado, de forma que o presidente a quem Golbery se referiu no documento era João Baptista de Oliveira Figueiredo.
A proposta encaminhada por Golbery acabou por não lograr êxito, ficando as obras da nova sede da ESG destinadas a um incomodo abandono, denunciado por suas fundações aparentes a poucos quilômetros da Praça dos Três Poderes. As fotografias aqui reproduzidas, evidenciam o estágio avançado em que o projeto se encontrava no ano de 1974.
5 Sobre as concepções vanguardistas e as polêmicas que cercaram as concepções de Sérgio Bernardes, incluindo os acontecimentos referentes ao abandono do projeto de construção da sede da ESG em Brasília, ver entrevista com o arquiteto no filme-documentário “Bernardes”, dirigido por Gustavo Gama e Paulo Barros, com produção de Lula Freitas (BERNARDES, 2014).
131 Figura 4 - Fundações da Sede da Escola Superior de Guerra (ESG) em Brasília
Fonte: ACERVO DA MEMÓRIA INSTITUCIONAL/ESG. Autor não identificado, 1974. Figura 5 - Fundações da Sede da Escola Superior de Guerra (ESG) em Brasília
132
O pedido encaminhado pelo ministro Golbery não cogitava a retomada da obra, sendo uma medida que daria uma destinação final as fundações, retirando-as de vista. Se Golbery chegou a simpatizar com o projeto, não mais se encontrava entre seus defensores. O assunto da transferência da ESG, entretanto, não ficara no esquecimento nos círculos militares. Em documento do Ministro-chefe do EMFA, general José Ferraz da Rocha, encaminhado ao diretor-geral da DASP, há menção de expectativa de retomada do projeto, com estudos em andamento para apreciação do presidente para a definitiva transferência das ESG para Brasília (BRASIL, 1980). Teria o presidente Figueiredo concordado com essa proposta? Nos documentos consultados, não foi possível dar resposta a essa pergunta.
Figura 6 - Fundações da Sede da Escola Superior de Guerra (ESG) em Brasília
133 Figura 7 - Fundações da Sede da Escola Superior de Guerra (ESG) em Brasília
Fonte: ACERVO DA MEMÓRIA INSTITUCIONAL/ESG. Autor não identificado, 1974.
O texto assinado pelo general Ferraz da Rocha incluiu preocupações quanto à possibilidade da área ser apropriada por algum outro órgão da administração, o que daria por encerrada a questão. Essa preocupação sugere que o assunto não era ponto pacífico entre os generais da ativa. Havia aqueles que, como Ferraz da Rocha, persistiam com a intenção de promover a transferência de sede da ESG para o centro do poder. No texto assinado pelo general, há também menção quanto a preocupações no tocante à conservação do patrimônio e a problemas sociais relacionados ao uso do terreno, chamando atenção à informação de que na área proliferavam-se barracos onde precariamente se alojavam numerosas famílias (BRASIL, 1980). Nos anos 1980, a área passava por um processo de favelização, inserida no agravamento do problema de moradia e renda que ganhava expressividade no Distrito Federal.
A retomada das obras acabou silenciada. Passaram-se décadas e a sede da ESG Brasília situada às margens do lago Paranoá converteu-se em ruína, não sendo beneficiada com nenhum projeto, seja para a construção de um hotel ou para instalações em favor do clube do servidor em parceria com a UnB. Não sendo sucedida a ocupação da área por outro empreendimento, a possibilidade de retomada do projeto ficou, graças a presença das ruínas, a inspirar a imaginação daqueles que informados dos planos de Bernardes visitavam as deterioradas fundações.
134
Há poucos anos, na área foi criado o Parque de Uso Múltiplo da Enseada. O espaço foi destinado ao Instituto Brasília Ambiental (Ibram), encarregado da gestão de parques em Brasília, não havendo previsão de recuperação do espaço (LANNES, 2016). O temor expresso pelo então chefe do EMFA, em 1980, foi confirmado, sendo a área destinada a outro órgão da administração, porém, não para uso ou benefício imediato, restando à administração zelar pelas ruínas. Não há notícias da manutenção de moradias precárias no local, hoje concorrido por alguns poucos fotógrafos e andarilhos.
O projeto de Bernardes encaixa-se nas reflexões de Walter Benjamin, citadas por Pesavento, reconhecendo que uma utopia projetual, mesmo nunca saindo do papel, dá testemunho de uma vontade, de uma intenção, da manifestação do desejo envolvido pela energia criadora, oferecendo testemunho histórico de uma época (PESAVENTO, 2003).
A utopia, recordada pelas ruínas, desperta reflexões sobre uma época e lugar. Nesse sentido, tanto as ruínas, quanto o acervo pertinente ao projeto, como plantas, fotografias e documentos diversos terminaram por ganhar um novo contorno, ocupando o espaço de memória sacralizado dos arquivos e bibliotecas. Não se trata apenas de história, de fragmentos do passado essenciais à reconstrução sempre problemática e incompleta de acontecimentos de outro tempo. Aqui, a história se encontra com a memória, não como sinônimo. A história busca uma representação do passado, é uma operação intelectual e laica; a memória se reveste de uma áurea simbólica, de sacralidade, é afetiva (NORA, 2008, p. 20-21). Para Nora, “solo es lugar
de memoria si la imaginación le confiere un aura simbólica.” (NORA, 2008, p. 33).
O passado encontra nos lugares de memória um templo a reverenciar recordações, lugar ocupado por acervos de arquivos, bibliotecas, museus e monumentos dos mais diversos. Nutre-se o sentimento de que não há memória espontânea, tendo que se organizar arquivos e promover celebrações. As “ruínas da UnB” não receberam a sacralização destinada aos templos comemorativos ou aos sítios históricos reconhecidos pela política de patrimônio cultural. Entretanto, a sua existência se soma ao espaço sacralizado do acervo histórico e se reveste de uma áurea simbólica, como que a celebrar a utopia do projeto de Bernardes e todo o sentimento que cercou a possibilidade da ESG ter edificado sua nova sede às margens do lago Paranoá.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Passadas décadas da proposta de transferência da sede da ESG do Rio de Janeiro para Brasília, as discussões que resultaram na primeira versão da Estratégia Nacional de Defesa – END (BRASIL, 2008) trouxeram o tema à tona. Das principais vulnerabilidades da atual estrutura de defesa do País, citadas pela END, constava a insuficiência de articulação com o Governo federal e com a sociedade do principal
135
Instituto brasileiro de altos estudos estratégicos, a ESG. O texto reconhecia que a Escola era peça fundamental no desenvolvimento e consolidação dos conhecimentos necessários ao planejamento de defesa e no assessoramento à formulação de políticas e estratégias decorrentes, mas evidenciava a necessidade de aprimoramento das atividades, entre as quais reconhecia poucos investimentos na área, insuficiência de analistas civis capacitados, necessidade de ampliar a oferta de cursos de pós-graduação na área, entre outras questões.
Num primeiro momento, houve reações de que tal intento não representasse um novo impulso à ESG, mas evidentes prejuízos diante do afastamento do Rio de Janeiro, onde se localizam as escolas militares de Comando e Estado-Maior e as universidades com quem a Escola programava parcerias. De fato, a programação para transferência era preocupante, pois se afirmava que deveria ocorrer no mais breve tempo possível. Efeitos deletérios com a proximidade da ESG com o poder também foram aventados, correndo-se o risco de retirar a sua autonomia acadêmica, além dos custos envolvidos com a operação não se justificarem, segundo críticos da proposta. (ZAHAR; GOMIDE, 2008; JARDIM; BRUNO, 2008).
Iniciadas as discussões em torno da intenção da ESG operar em Brasília, concluiu-se por uma solução diversa da original. A intenção da transferência da sede foi abandonada em favor do propósito de criar um novo campus na capital federal, sem prejuízos ao funcionamento da sede atual. Com essa diretriz, um novo plano arquitetônico foi concebido, em área da capital federal diversa daquela do projeto de Bernardes. O projeto executivo foi apresentado em 2014, e em termos arquitetônicos menos ambiciosos do que o anterior (BRASIL, 2016).
No ano em que são comemorados setenta anos da criação da Escola, a 20 de agosto de 2019, o campus em Brasília permanece alocado nas instalações do Ministério da Defesa, aguardando destinação de recursos para edificar sede própria em terreno situado no Setor de Grandes Áreas Sul (SGAS), 903, lote 77. O projeto é pautado na coexistência de duas unidades, de forma a permitir que a sede principal, situada na Fortaleza de São João, mantenha suas atividades, que incluem parcerias com instituições de ensino nacionais e internacionais, ofertas de cursos de pós-graduação e extensão para civis e militares, com ênfase em defesa.
Observados os propósitos dos dois campi, as parcerias estabelecidas pelas duas unidades e, em particular, toda a dinâmica cultural e intelectual da cidade do Rio do Janeiro, conclui-se que, na atualidade, há espaço para as duas unidades operarem de forma complementar. Pesa, entretanto, a necessidade do campus de Brasília receber autonomia física e administrativa em favor da promoção da sua autonomia acadêmica.
Espera-se que a concretização da sede própria do campus de Brasília não encontre, assim como o projeto de Bernardes, obstáculos à sua execução. Muito tem a ganhar a ESG brasiliense ao operar em espaço autônomo. Como concebiam
136
os arquitetos modernistas, projetar uma edificação não é mera construção a satisfazer necessidades materiais, pois ao moldar o espaço físico promovem-se transformações conceituais, estimulando mudanças com reflexos na esfera intelectual.
REFERÊNCIAS
ARRUDA, Antônio de. ESG: história de sua doutrina. 2.ed. São Paulo: GRD; Brasília: INL, 1983.
BERNARDES, Sergio. ESG inicia obras da nova sede em Brasília. O Globo, Rio de Janeiro, 9 jul. 1973, 2º caderno, p. 8. Disponível em: https://acervo.oglobo.globo. com/consulta-ao-acervo/?navegacaoPorData=197019730709C&edicao=Vesperti na. Acesso em: abr. 2019.
BRASIL. Casa Civil. Av. nº 1383/79. Brasília: [s.n.], 1979. 1 f. Documento assinado
no dia 1 de novembro de 1979, pelo então Ministro Chefe do Gabinete Civil Golbery do Couto e Silva.
BRASIL. Constituição (1973). Decreto nº 72.699, de 27 de agosto de 1973. Aprova o novo Regulamento para a Escola Superior de Guerra e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 29 ago. 1973. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/Atos/decretos/1973/D72699.html. Acesso em: 6 maio 2019.
BRASIL. Constituição (2008). Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008. Aprova a Estratégia Nacional de Defesa, e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 19 dez. 2008. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2007-2010/2008/decreto/d6703.htm. Acesso em: 6 maio 2019. BRASIL. Departamento Administrativo do Serviço Público. Secretária de Unidades Residenciais. Coordenaria de Legislação Imobiliária. Ofício Colei nº 008079. Brasília: [s.n.], 1976. 2 p. Documento assinado no dia 14 de dezembro de
1976, pela então Coordenadora do COLEI Maria Helena Jaime.
BRASIL. Departamento de Engenharia e Construção do Exército. Projeto executivo
da Escola Superior de Guerra: campus Brasília. Brasília: ESG, 2016.
BRASIL. Estado-Maior das Forças Armadas. Termo de entrega. Brasília: [s.n.],
1976. 1 p. Documento assinado no dia 27 de março de 1976, pelo então Chefe de Gabinete do Estado-Maior das Forças Armadas Antonio Padila.
137 BRASIL. Gabinete Militar da Presidência da República. Aviso nº 1 - CH/GM. Brasília:
[s.n.], 1976. 3 f. Documento assinado no dia 9 de janeiro de 1976, pelo então Ministro de Estado Chefe do Gabinete Militar da Presidência da República Hugo Andrade Abreu.
BRASIL. Gabinete Militar da Presidência da República. Aviso nº 2 - CH/GM. Brasília:
[s.n.], 1976 (b). 2 f. Documento assinado no dia 9 de janeiro de 1976, pelo então Ministro de Estado Chefe do Gabinete Militar da Presidência da República Hugo Andrade Abreu.
BRASIL. Estado-Maior das Forças Armadas. Aviso nº 0429 SOEMFA. Brasília: [s.n.], 1980. 2 f. Documento assinado no dia 21 de fevereiro de 1980, pelo então Ministro Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas José Ferraz da Rocha. BRASIL. Estado-Maior das Forças Armadas. Termo de entrega. Brasília: [s.n.],
1976. 1 p. Documento assinado no dia 27 de março de 1976, pelo então Chefe de Gabinete do Estado-Maior das Forças Armadas Antonio Padilha.
CAVALCANTI, Lauro. Sergio Bernardes: herói de uma tragédia moderna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.
D’ARAUJO, Maria Celina; CASTRO, Celso (org.). Ernesto Geisel. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas, 1997.
DOCUMENTÁRIO Bernardes. Direção de Gustavo Gama Rodrigues; Paulo de Barros. Produção de Paulica Coelho et al.. Roteiro: Gustavo Gama Rodrigues; Paulo de Barros; Yan Motta. Rio de Janeiro: 6d Filmes; Rinoceronte Produções, 2014. (92 min.), Filme, son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=v5RkZ8cbgKo. Acesso em: 3 maio 2019.
JARDIM, Idelina; BRUNO, Raphael. Mudança da ESG divide militares. Jornal do
Brasil, [Rio de Janeiro], p. A12, 6 dez. 2008.
LANNES, Paulo. Os segredos dos escombros. Veja Brasília. [São Paulo]: Editora Abril, 3 jan. 2014. Disponível em: http://vejabrasilia.abril.com.br/materia/cidade/ os-segredos-dos-escombros/. Acesso em: maio 2019.
LANNES, Paulo. Monumentos do descaso. Revista digital Metrópoles, edição de 31 jan. 2016. Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/ monumentos-do-descaso-predios-abandonados-se-tornaram-focos-de-problemas-de-seguranca-e-saude-publica. Acesso em: abr. 2019.
138
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto
História, São Paulo, PUC-SP, n. 10, dez. 1993.
NORA, Pierre. Les lieux de mémoire. Montevideo: Ediciones Trilce, 2008.
OBINO, Salvador César. Estado-Maior das Forças Armadas. Exposição de motivos
nº 13-C, Rio de Janeiro, 4 de abr. 1949.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
JORNAL DO BRASIL (Brasil). Planejamento de Mudança. Jornal do Brasil. Rio de
Janeiro, 08 maio 1975. p. 8-8. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/ docreader.aspx?bib=030015_09&pasta=ano%20197&pesq=. Acesso em: 06 maio 2019.
REIS, Daniel Aarão. Vida política. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (org). História do
Brasil nação: 1808-2010. Modernização, ditadura e democracia (1964-2010). Rio
de Janeiro: Objetiva; Madrid: Fundación Mapfre, 2014. v. 5
SILVA, Marcelo Augusto Felicetti da. Do milagre à maldição: Sergio Bernardes e Brasília (1968-74). 2016. 185 f. Dissertação (mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – DAU/PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2016.
BRASIL. Departamento Administrativo do Serviço Público. Memorando nº 354. Brasília: [s.n.], 1976. 3 f. Documento assinado no dia 10 de maio de 1976,
pelo então Diretor Geral da DASP Darcy Duarte de Siqueira.
STEPAN, Alfred. Os militares na política. Rio de Janeiro: Artenova, 1975.
SWANN, Carlos. ESG fica no Rio. O Globo, Rio de Janeiro, 7 ago. 1975. Disponível em: https://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?navegacaoPorDa ta=197019750807. Acesso em: abr. 2019.
ZAHAR, Paulo; GOMIDE, Raphael. Escola Superior de Guerra pode ir do Rio para Brasília. Folha de São Paulo, São Paulo, 30 nov. 2008. Disponível em: https:// www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3011200808.htm. Acesso em: abr. 2019.