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à maniçoba: um rela
etnográfico sobre a
imersão cultural d
estudantes afro-american
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ral de
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lém, Pará
Do
soul food
à maniçoba: um relato
etnográfico sobre a
imersão cultural de
estudantes afro-americanos
na cidade de Belém, Pará
Universidade de Brasília
Universidade Federal do Pará
A L I N E D E S O U Z A N A V E G A N T E S
DO SOUL FOOD À MANIÇOBA: UM RELATO ETNOGRÁFICO
SOBRE A IMERSÃO CULTURAL DE ESTUDANTES AFRO-AME-RICANOS NA CIDADE DE BELÉM, PARÁ
Resumo
O programa Minority Health International Research Training (MHIRT) envia anualmente dois estudantes pertencentes a gru-pos minoritários e advindos de universidades do Sul dos Estados Unidos para conduzirem pesquisas na área da saúde em cidades brasileiras. As três duplas de estudantes afro-americanos enviadas à cidade de Belém no período de 2013 a 2015, para realizarem pesquisa no laboratório de Medicina Tropical da Universidade
Federal do Pará (UFPA), são o foco deste relato etnográfico, que
pretende investigar seu estranhamento ante a realidade racial bra-sileira. A metodologia utilizada neste trabalho é de cunho
qualita-tivo e bibliográfico, baseando-se em entrevistas semiestruturadas
e em vivências informais com os estudantes afro-americanos, as-sim como na literatura acerca das questões levantadas em campo. Dessa forma, são investigados os estranhamentos dos estudantes acerca de sua experiência de moradia no perímetro mais caro de Belém, de sua presença no curso mais embranquecido e elitista da UFPA, de suas socializações na cidade e de suas descobertas sobre as origens da culinária tradicional paraense. A discussão
et-nográfica levantada pelo trabalho examina as diferenças e simili -tudes existentes entre as relações raciais do Brasil e dos Estados Unidos, países que, apesar de terem sido fundados pelas mãos de negros africanos escravizados, construíram identidades étnicas e nacionais bem distintas.
FROM SOUL FOOD TO MANIÇOBA: AN ETHNOGRAPHIC RE-PORT ON THE CULTURAL IMMERSION OF AFRICAN-AMERI-CAN STUDENTS IN THE CITY OF BELÉM, PARÁ
Abstract
The Minority Health International Research Training (MHIRT) Program annually sends two students from minority groups from Southern US universities to conduct researches in Brazilian ci-ties. The three pairs of African-American students sent to the city of Belém between 2013 and 2015 to carry out research in the Laboratory of Tropical Medicine at the Federal University of Pará (UFPA) are the focus of this ethnographic report, which intends to investigate their strangeness towards the Brazilian ra-cial reality. The methodology used in this paper is qualitative and bibliographical, based on semi-structured interviews and infor-mal conversations with the African-American students, as well as
on the literature on the issues raised in the field work. Thus, we
investigate the students’ estrangements about their experience of living in the most expensive perimeter of Belém, their presence in the most whitened and elitist course in UFPA, their socializations
in the city and their findings about the origins of the traditional
cuisine of Para. The ethnographic discussion raised by this paper examines the differences and similarities between racial relations of Brazil and of the US, countries which constructed very diffe-rent ethnic and national identities, even though both were
foun-ded by the hands of slaved black Africans.
DEL SOUL FOOD A LA MANIÇOBA: UN RELATO
ETNOGRÁ-FICO SOBRE LA INMERSIÓN CULTURAL DE ESTUDIANTES AFROAMERICANOS EN LA CIUDAD DE BELÉM, PARÁ
Resumen
El programa Minority Health International Research Training (MHIRT) envía anualmente a dos estudiantes pertenecientes a grupos minoritarios, provenientes de universidades del Sur de los Estados Unidos, para que realicen investigaciones en el área de la salud en ciudades brasileras. Las tres parejas de estudiantes afro-americanos enviadas a la ciudad de Belém durante el perio-do de 2013 a 2015 para realizar investigaciones en el laboratorio de Medicina Tropical de la Universidad Federal de Pará (UFPA)
son el foco de este relato etnográfico, el cual pretende investigar
su extrañamiento ante la realidad racial brasilera. La metodología
utilizada en este trabajo es de naturaleza cualitativa y bibliográfica,
está basada en entrevistas semi-estructuradas y en vivencias infor-males con los estudiantes afroamericanos, así como en literatu-ra acerca de cuestiones levantadas en campo. De esa forma, son investigados los extrañamientos de los estudiantes acerca de su estadía en el perímetro más costoso de Belém, de su presencia en el curso más blanco y elitista de la UFPA, de sus socializaciones en la ciudad y de sus descubrimientos sobre los orígenes de la
culi-naria tradicional paraense. La discusión etnográfica levantada en
este trabajo examina las diferencias y similitudes existentes entre las relaciones raciales de Brasil y los Estados Unidos, países que, a pesar de haber sido fundados por las manos de negros africanos esclavizados, construyeron identidades étnicas y nacionales muy distintas.
Palabras clave: Relaciones raciales, Extrañamiento cultural, Brasil, Estados Unidos.
Aline de Souza Navegantes [email protected]
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, muitos estudos comparativos têm sido realizados acer-ca das relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos, examinando as dife-renças encontradas na forma como ambos os países aboliram a escravidão,
como isso influenciou a construção
dessas nações e seus conceitos de raça e identidade negra. Dentre tais estudos, destacam-se os que investigam os sím-bolos negros e as relações raciais aos olhos de brasileiros inseridos na socie-dade norte-americana.
Um dos estudos mais relevantes nessa área é o do sociólogo Oracy Nogueira (2007), que distingue dois tipos ide-ais de preconceito – o de marca e de origem – para analisar a natureza e as diversas manifestações do racismo no Brasil e nos Estados Unidos. Para isso, Nogueira cita suas experiências e as de alguns outros intelectuais brasileiros em universidades norte-americanas, os quais, ao enfrentarem situações comuns às dos afro-americanos, es-tranharam as relações raciais naquele espaço.
Neste artigo, nós também nos propo-mos a comparar as relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos, como o fez Nogueira, mas, ao invés de inves-tigar o olhar brasileiro lançado sobre a realidade racial norte-americana, analisaremos os estranhamentos1 de
estudantes afro-americanos ante as relações raciais brasileiras, focando os nossos símbolos e a identidade negra na Amazônia.
Assim, trataremos de entender o estra-nhamento de três grupos de
estudan-tes ante a realidade racial brasileira, no período de 2013 a 2015, quando rea-lizaram suas respectivas pesquisas no laboratório de Medicina Tropical da Universidade Federal do Pará (UFPA). Os estranhamentos abordados serão acerca da moradia desses estudantes no perímetro mais valorizado da cidade de Belém, a presença deles no curso mais embranquecido e elitista da UFPA, as-sim como suas socializações na cidade e descobertas sobre as origens da culi-nária tradicional paraense. A partir des-ses estranhamentos, compararemos as relações raciais e a identidade do negro do Sul dos Estados Unidos e do negro da cidade de Belém, situada no Norte do Brasil, na perspectiva do olhar do outro que está inserido em uma cultura e em uma sociedade distintas das suas de origem, e investigaremos como tal olhar interpreta os símbolos negros da cultura brasileira.
A metodologia utilizada neste trabalho
é de cunho qualitativo e bibliográfico:
de um lado, focamos as narrativas dos estudantes afro-americanos na cidade de Belém e, de outro, apoiamo-nos na literatura acerca das questões levan-tadas em campo. Inicialmente, fez-se uso de entrevistas semiestruturadas e da leitura de publicações no blog do MHIRT2, com o intuito de investigar
de Belém também foram coletados du-rante imersões conjuntas vivenciadas em situações de lazer e divertimento, como nos encontros do grupo de prá-tica de idiomas “Belém Babel”3.
A pesquisa bibliográfica tomou como
marco temporal os últimos dez anos do debate a respeito das questões ra-ciais no Brasil e nos Estados Unidos. Os artigos foram recolhidos nas plata-formas do Scielo, dos Periódicos Ca-pes e do Google Scholar.
Para mostrar o processo de estranha-mento ante a cultura negra brasileira pelos estudantes americanos, dividi-mos o trabalho em cinco tópicos. No primeiro tópico, apresentamos o pro-grama de intercâmbio norte-americano pelo qual os estudantes foram envia-dos ao Brasil e analiso brevemente o
background social de cada um deles. No segundo tópico, abordamos os estra-nhamentos dos afro-americanos em relação à moradia em um bairro nobre e embranquecido da cidade de Belém. No terceiro tópico, examinamos seus estranhamentos em relação à presença no Departamento de Medicina Tropi-cal da UFPA. No quarto tópico, ressal-tamos os estranhamentos dos estudan-tes em sua socialização em Belém. Por
fim, no quinto tópico, comentamos o
estranhamento dos estudantes ante a culinária paraense e mostramos como isso se relaciona com os símbolos de negritude existentes no Brasil e nos Estados Unidos.
O PROGRAMA MHIRT E OS ESTU-DANTES AFRO-AMERICANOS4
O Minority Health International Re-search Training (MHIRT) foi fundado em 1993 pelo National Institute on Mi-nority Health and Health Disparities5,
com o intuito de financiar o envio de
estudantes de graduação e pós-gradu-ação de renomadas universidades esta-dunidenses para um período de 10 a 12 semanas de pesquisa em países como Brasil, Uganda, Nicarágua, Trinidad e Tailândia. As instituições acadêmicas costumam selecionar de 8 a 12 estu-dantes por ano, sendo 75% das vagas obrigatoriamente preenchidas por alu-nos de graduação. Para candidatar-se a uma das vagas do programa, o aluno deve fazer parte de um grupo minori-tário que tenha pouca representativida-de nas áreas da biomedicina, psicolo-gia, medicina e ciências sociais. Nesses grupos minoritários, estão incluídos alunos de baixa renda, de áreas rurais, negros, asiáticos, hispânicos, indianos,
povos originários do Alaska, Havaí e de ilhas do Pacífico.
Desse modo, o programa tem como
foco contemplar estudantes qualifica -dos que fazem parte de grupos minori-tários, social ou economicamente vul-neráveis, e que historicamente tiveram pouca representatividade na área
cien-tífica. Além disso, o programa tem o
pre-missa de que os estudantes, após de-senvolverem suas respectivas pesquisas em países em desenvolvimento, vol-tarão ao seu país de origem com um maior interesse acerca das disparidades raciais e econômicas existentes no sis-tema privado de saúde estadunidense, que é considerado um dos sistemas mais desiguais entre os países desen-volvidos.
No que se refere à atuação do progra-ma no Brasil, o país recebe anualmente os estudantes do MHIRT desde 2010, nas cidades de Belém, no Norte, São Paulo, no Sudeste, e Florianópolis, no Sul do país. A cidade de Belém recebe todos os anos uma dupla de pesquisa-dores no Departamento de Medicina Tropical da UFPA. As pesquisas são direcionadas para a área de psicofísi-ca visual, em que são realizados testes com pessoas para medir o contraste entre sensibilidade e potências evoca-das pela visão. As duplas desenvolvem suas pesquisas durante 10 semanas, nos meses de junho e agosto.
Nosso primeiro contato com os es-tudantes afro-americanos ocorreu no ano de 2013 em um restaurante na ci-dade de Belém, onde conheci o Phill e o Wally por intermédio de outros ami-gos em comum. Iniciamos conversas a respeito de suas percepções sobre a cidade, e a questão racial tornou-se o assunto mais comentado por eles. A partir desses diálogos, pude melhor conhecê-los e iniciar o estudo de cam-po que resultou nesta pesquisa. O estudante Phill cresceu em uma es-truturada família afro-americana, pas-sando parte de sua infância no Japão
devido ao trabalho de seus pais. A ex-periência de morar fora dos Estados Unidos desde uma tenra idade im-pactou de forma profunda a maneira como Phill percebeu-se enquanto etni-camente diferente em um país racial-mente homogêneo como o Japão. Seus pais, com um privilegiado nível edu-cacional e em um país distante do seu país de origem, dedicaram-se para que Phill tivesse acesso à história de seus antepassados, assim como conhecesse a importância do movimento negro norte-americano na luta pelos direitos
civis e refletisse sobre sua condição de
homem afro-americano.
Tais questionamentos levaram Phill a estudar Engenharia Química em uma universidade historicamente negra do
estado do Alabama, a Tuskegee Uni -versity6. Além de uma formação
aca-dêmica em sua área, sua graduação foi um período de questionamentos e de politização de sua negritude, e isso re-verberou no seu olhar diante das rela-ções raciais no Brasil.
Seu objetivo como médico é atuar em países em desenvolvimento, como a Nigéria e o Brasil, por meio de uma medicina humanizada e preventiva. Posteriormente, em 2014, Phill colo-cou a presente autora em contato com a segunda dupla de estudantes afro--americanos que chegaram a Belém por intermédio do MHIRT. Dessa vez, tratava-se de duas mulheres negras do estado do Tennessee, Felecia e Teera.
Felecia, filha mais velha de sete filhos,
cresceu com sua avó na periferia do Memphis após sua mãe ter ido servir ao exército para poder sustentá-los e viveu grande parte de sua vida numa pequena casa com outras 12 pessoas. Ela entrou no mundo do trabalho ain-da aos 14 anos, e passou 10 anos lon-ge da escola. No entanto, ao voltar ao ensino secundário, Felecia teve uma experiência que a impactou profunda-mente. Sua professora levou a sua tur-ma para fazer um tour na University of Memphis, onde puderam conhecer as instalações e a rotina da universidade. Esse dia tornou-se um ponto de rup-tura na vida de Felecia: pouco tempo depois, ela tornou-se a primeira pessoa de sua família a entrar na universidade e, posteriormente, a iniciar uma pós--graduação em Medicina e a viajar para fora do país com uma bolsa de estudos do MHIRT.
Diferentemente de Felecia, Teera nas-ceu numa família economicamente estruturada, frequentou escolas e es-paços de convivência predominante-mente brancos e, consequentepredominante-mente, a questão racial passou a ser um ques-tionamento secundário em sua
forma-ção até a vida adulta. Teera estudou Medicina na University of Tennessee, teve acesso à cultura em viagens inter-nacionais e cursos de idiomas. A sua condição de afro-americana passou a ser mais importante durante a sua gra-duação, quando ela se juntou a outros estudantes afro-americanos e passou
a criar laços de amizade que a fizeram refletir sobre a sua negritude e os es -paços de privilégios que ocupara desde sua infância.
A terceira e última dupla que pude observar chegou a Belém em 2015, tratava-se de uma dupla mais uma vez composta por duas mulheres afro--americanas do estado do Tennessee, Natalie e Erica.
Tennes-see. Ela estudou Biologia na Christian Brothers University e Enfermagem na Baptist College of Health Scien-ces, no estado do Tennessee. Apesar de pertencer a uma geração que teve mais oportunidades que seus pais, com seus direitos fundamentais garantidos,
logrou refletir sobre sua condição ne -gra de forma crítica e empoderadora. A viagem ao Brasil foi a primeira vez em que Erica teve a oportunidade de sair do país, da sua zona de conforto racial onde os negros se autorreconhe-cem como tais, para vir para um país onde constantemente a chamavam “morena” com o intuito de branqueá--la. Esse tipo de situação fez com que
Erica refletisse bastante sobre as rela -ções raciais no Brasil durante sua esta-dia no país.
Neste trabalho, investigaremos o olhar e o estranhamento dessas três duplas de afro-americanos em relação às suas vivências em Belém. Tais olhares es-tarão divididos em dois grupos: o
primeiro, definido como politizado e
crítico, enfatiza o universo de
desigual-dade, racismo e estratificação da socie -dade paraense; já o outro interpreta a
realidade racial amazônica influenciado
pelo mito da democracia racial.
O ESTRANHAMENTO EM RELA-ÇÃO À MORADIA NO PERÍMETRO MAIS VALORIZADO DA CIDADE DE BELÉM
A avenida Doca de Souza Franco foi a localização escolhida pelos profes-sores-orientadores da UFPA para a estadia de 10 semanas dos estudantes na capital paraense, por estar perto do
Departamento de Medicina Tropical e no centro da cidade de Belém.
O bairro do Reduto, onde a avenida está localizada, é considerado um dos perímetros mais caros de Belém por ser hoje um dos berços da embran-quecida elite paraense, que se amon-toa nos inúmeros prédios ao redor de um canal que outrora, durante a Belle Époque amazônica7, foi a doca do
Re-duto. Essa doca do século XIX era uma área ocupada por cidadãos das classes mais modestas, que utilizavam o espaço como uma zona de comércio
diversificado às margens de um igara -pé8, a qual cresceu ao longo dos anos
no auge da economia da borracha na Amazônia. Portanto, a doca do Reduto era “o mercado dos pobres, da gente dos bairros modestos” (Orico 1956:68 apud Sousa 2007:2).
Na primeira década do século XX, de-vido à economia da borracha e à ex-pansão portuária da capital, ocorreu o aterramento da doca do Reduto e, consequentemente, o desaparecimen-to da zona de comércio que ali existia. Após a derrocada da borracha na se-gunda década do século XX, muitos in-vestimentos foram feitos na indústria, o que tornou o bairro do Reduto e a doca em perímetros atraentes para as fábricas que chegavam a Belém. Dessa forma, o bairro passou de uma zona de comércio popular para uma zona fabril periférica. Em contrapartida, com a inauguração da rodovia Belém--Brasília9, passou a suceder uma maciça
bairro na época da doca do Reduto e as famílias dos operários que trabalhavam nas fábricas juntas construíram suas
vi-das no Reduto e ressignificaram a área
enquanto perímetro dotado de uma identidade vinculada a seus cidadãos. Entretanto, na década de 80, iniciou-se a verticalização do Reduto, o que levou a uma higienização social no bairro, com a expulsão de famílias pobres e negras para os bairros periféricos lon-gínquos do centro urbano da capital. A partir daí, essa área da cidade de Belém tornou-se um “paraíso imobiliário”, atraindo diversas construtoras do Sul e do Sudeste do Brasil, interessadas em investir em grandes prédios com no-mes em inglês, destinados à elite para-ense, que hoje ocupa a avenida Doca de Souza Franco. É nesse perímetro com uma história de higienização que os estudantes afro-americanos iniciam a sua socialização e sentem um estra-nhamento em sua vivência como ne-gros em um valorizado bairro da cida-de cida-de Belém.
Todos os estudantes viveram em pe-quenos apartamentos de um quarto localizados na avenida Doca de Souza Franco e somente a duas quadras do Departamento de Medicina Tropical, onde estudavam pela manhã. A maior parte dos lugares que frequentavam após o horário de trabalho resumia-se a lugares próximos da Avenida, sendo o lugar mais frequentado por eles o Shopping Boulevard.
Tal espaço atraiu-os devido a sua pro-ximidade, à variedade de serviços e de lazer, mas o fato de esse shopping
ser considerado um dos espaços mais
caros e elitizados da cidade de Belém não passou despercebido por eles. A relação entre cor e status social ou edu-cacional no Brasil foi a primeira cons-tatação que o grupo mais crítico dos estudantes fez ao frequentar o lugar:
As an African American in Brazil I had privileges many Afro Brazi-lians couldn’t afford because I was spending US dollars. I believe ha-ving a higher value currency meant certain doors were open to me that were not open to the main popula-tion of Afro-descendants. Though Brazil is praised as a racially pro-gressive country, my experience was even though people were less
likely to discriminate against a per
-son because of skin complexion
they were still prone to determining your social status based on career, wealth, and level of education. […] Afro Brazilians still remained in the lower tier of society because they
were less like to have much of the
three (Phill 2013).
rela-ção entre o racismo e a estrutura social existente na sociedade brasileira. Acerca dessa questão, o sociólogo
Edward Telles (2004:220) identifica
em seus relevantes estudos sobre as relações raciais no Brasil, os três res-ponsáveis primários pela profunda de-sigualdade racial no país: hyperinequality,
discriminatory glass ceiling e racist culture. Dentre estes, o conceito de hyperinequa-lity tem substancial importância para compreendermos as diferenças dimen-sionais entre as desigualdades no Brasil e nos Estados Unidos, e como isto está entrelaçado com a questão racial:
Brazil’s hyperinequality underlies many of Brazil’s social problems and had led to a huge gulf in the average incomes of whites and nonwhites, creating substantial di-fferences in material wealth, social status, and access to social capital. That inequality is not merely mate-rial but also encompasses inequality in power relations, justice, subject sense of worth, and ability to
parti-cipate in social life, including work,
education, health, and housing.
Dessa forma, as percepções dos es-tudantes remetem à realidade da ne-gritude brasileira, que está excluída e intrinsecamente associada à pobre-za no Brasil, a ponto de a população reproduzir um tipo de relação racial que é embranquecida de acordo com a classe de cada indivíduo. Nesta
pers-pectiva, Oracy Nogueira (2007) afirma
que o preconceito racial à brasileira se disfarça como preconceito de classe, enquanto nos Estados Unidos o sta-tus social não influi na forma como o
grupo discriminador relaciona-se com o grupo discriminado. Logo, um negro
no Brasil com um alto poder aquisiti-vo tem acesso aos espaços das elites brancas, mas esse mesmo negro, nos Estados Unidos, constantemente será lembrado que esses lugares não lhe pertencem, exclusivamente por sua origem étnica.
Ademais, é importante ressaltar o pata-mar em que se situa a população afro--brasileira no mercado de trabalho, nos cargos de tomada de decisão e no ima-ginário popular da cultura brasileira, que ainda é inferior e culturalmente na-turalizado dessa forma. Exemplo disso é a constatação que os estudantes mais críticos fazem a respeito dos postos de trabalho ocupados pela população ne-gra no Shopping Boulevard:
[…] shopping at a mall was consi-dered as a luxury, but the majority of the shoppers were overwhel-mingly of European descent. In
contrast, the workers and service
providers were more from African descent. This is a phenomenon common in the US, where people
of color tend to hold low skill/low
paying jobs and provide services to the White Americans. This subse-quently leads to less access to capi-tal and less probability of upward mobility (Phill 2013).
Eles constatam que o estabelecimento concentra uma enorme gama de traba-lhadores negros na limpeza, na segu-rança e em outras funções socialmente consideradas subalternas, enquanto os vendedores das lojas são embranque-cidos, assim como grande parte dos consumidores. Para eles, esta realida-de não difere daquela encontrada nos Estados Unidos, onde pessoas negras
vistas como inferiores e que existem para servir à população branca.
Devido a essa realidade de desigual-dades existentes nos shoppings da ci-dade de Belém, tais lugares transfor-maram-se em verdadeiros campos
de pesquisas etnográficas, onde é
possível observar claramente o lu-gar que o negro ocupa. Ele aparece majoritariamente representado tanto como trabalhador ocupando os pos-tos de trabalho subalternos, quanto como consumidor adentrando, em sua maioria, apenas as lojas de depar-tamentos e raramente as de marcas consideradas de elite.
Além disso, de acordo com Amaral (2004), tudo o que concerne à pre-sença do padrão de estética negra e nortista nas lojas, nos seus
mane-quins e panfletos, está completamen -te apagado nos shoppings da cidade. Tal realidade brasileira – a população afrodescendente está pouco ou até mesmo não representada no padrão de beleza vendido pelos shoppings – mais uma vez não se diferencia da realidade presente nos Estados Uni-dos. Em ambos os países, a estética eurocêntrica é predominante.
Enquanto um grupo dos afro-ameri-canos interpretou as relações raciais nos espaços de elite de forma crítica e contextualizada na estrutura social do Brasil, o outro grupo de estudantes in-terpretou essa realidade brasileira à luz do mito da democracia racial:
The education I got from the pe-ople of Brazil has enriched my life and there are things I have already incorporated into my life. My time in Brazil has again reinforced my
belief that people are alike all over
the world. We all want similar thin-gs – love, happiness, family, friends, and good health. My experiences have been rich with enjoyment, ex-citement and much learning (Wally 2013).
Para esses estudantes, os brasileiros ensinaram-lhes muito, a ponto de en-cararem o Brasil como um símbolo de paraíso racial (Freyre 1994), pois sen-tiam-se integrados à sociedade. A sua condição econômica de detentores de dólares, “gringos” e médicos embran-queceu-os e fez com que eles fossem aceitos em lugares onde nos Estados Unidos isso não ocorreria.
Inácio Strieder (2001:28) explica:
[...] até o nosso Pelé, muitas vezes, é considerado branco, por ter tido sucesso econômico. Isto demons-tra que as “raças” só coexistirão de-mocraticamente na medida em que econômica, social e culturalmente se aproximarem entre si. Enquan-to existirem fossos sociais intrans-poníveis na população, nem pode existir democracia e, muito menos, “democracia racial”.
Portanto, assim como Pelé, os estu-dantes afro-americanos tiveram suas negritudes embranquecidas devido ao patamar social em que se encon-tram. O racismo, que antes fazia par-te do cotidiano deles, passou a dar lugar à curiosidade do brasileiro, ao
levar pelo mito da democracia racial que ainda está em voga no Brasil. Contudo, é de suma importância res-saltar que essa ideia de democracia racial (Freyre 1994) disseminada no Brasil é também um projeto ideológico de nação, que foi pensado por nossas elites nativas para que os resquícios do colonialismo – a colonialidade (Qui-jano 2005) – continuassem a reger as dinâmicas raciais, políticas e socioe-conômicas do país. Dessa forma, as identidades negra e indígena deram lu-gar a um “orgulho mestiço”, fruto de um país dito racialmente democrático onde a miscigenação impera. Embora, por razões políticas e econômicas, essa ideologia tenha integrado a população negra do Brasil pós-guerra, ela também manteve o homem branco heterosse-xual e seu privilégio racial na zona do ser, e os indivíduos racialmente oprimi-dos, na zona do não-ser (Grosfoguel 2016).
Por isso, em nossa atual sociedade
“ca-pitalista/patriarcal, ocidental/cristã, sistema mundo colonial/moderno”
(Grosfoguel 2011:4), autores como
Quijano (2005) afirmam que raça é
uma construção mental proveniente da dominação colonial aqui ocorrida. As-sociada à identidade racial, essa cons-trução mental tornou-se instrumento
de classificação social básica da popu -lação no capitalismo, padrão de poder mundial vigente.
O ESTRANHAMENTO EM RELAÇÃO À PRESENÇA NO DEPARTAMENTO DE MEDICINA TROPICAL DA UNI-VERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
A UFPA é a maior e mais renoma-da universirenoma-dade do Norte do Brasil, contando com mais de 60 mil alunos distribuídos em 340 cursos de gradua-ção e pós-graduagradua-ção. A localizagradua-ção da universidade na cidade de Belém está ligada ao histórico de desigualdades de cunho racial e econômico que fazem parte da realidade do campus do Gua-má, onde se encontra a maior gama de estudantes e cursos da UFPA. O Gua-má é um dos mais populosos bairros periféricos da região metropolitana de Belém, sua população é majoritaria-mente negra, e apenas 1% dos mora-dores tem acesso ao ensino superior (Gadelha 2012).
Essa descrição lembra o visível em-branquecimento da universidade, so-bretudo nos cursos mais concorridos, como Medicina e Direito. Por conse-guinte, a maior universidade da região Norte é um lugar ainda intrinsecamen-te marcado pela “invisível” segregação racial e econômica, que naturaliza o lugar ocupado pelo negro e pelo não negro em diferentes patamares da so-ciedade paraense (Amaral 2004). O grupo crítico dos estudantes afro--americanos estranhou o embranque-cimento do Departamento de Medi-cina Tropical da UFPA, que contrasta com os mais de 76,7% da população belenense que se autodenomina preta ou parda (IBGE 2010)10. Isso denota
Medicina da UFPA é o mais concorri-do da região Norte concorri-do Brasil.
A supervalorização desse curso re-monta ao período colonial do país, pois, de acordo com Antonio Carlos Pereira Martins (2002), as primeiras escolas de ensino superior fundadas no Brasil após a chegada da família real portuguesa em 1808 foram a Es-cola de Cirurgia da Bahia, em Salvador (hoje Faculdade de Medicina da Uni-versidade Federal da Bahia), e a Esco-la de Anatomia, Medicina e Cirurgia no Rio de Janeiro (atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Portanto, durante o período colonial não existiam univer-sidades, foi somente após a chegada da família real portuguesa que se implan-taram cursos de Medicina para a elite da época. Logo, essa herança colonial perpetua-se até os dias de hoje, quan-do podemos observar que os cursos de Medicina são dos mais renomados e, consequentemente, dos mais ansiados pela elite branca brasileira atual.
No entanto, um departamento da área da saúde predominantemente branco não foi novidade para os estudantes afro-americanos em sua totalidade, pois todos – exceto Phill – advêm de universidades onde o grupo minoritá-rio negro encontra-se sub-represen-tado em todas as áreas. Porém, ainda assim, o grupo de estudantes críticos foi o que mais estranhou essa desi-gualdade, porque isso lhes lembrou suas universidades de origem, como a Christian Brothers University, loca-lizada na cidade de Memphis, capital do estado do Tennessee. De fato, en-quanto a população negra da cidade é
de 63,3% (United States Census Bu-reau 2010), o campus universitário é majoritariamente branco, apesar de ser considerado um dos mais racialmente diversos do sul dos Estados Unidos, contando com 31,3% de estudantes afro-americanos na graduação e ape-nas 9,3% na pós-graduação (Christian Brothers University 2014).
Após diversos diálogos com os estu-dantes do grupo crítico acerca des-sas desigualdades raciais presentes na UFPA e nas suas universidades de ori-gem, decidi convidar um dos estudan-tes, Felecia, para fazer uma palestra em minha turma de Ciências Sociais, em
específico na disciplina Antropologia
Cultural II, a respeito dessas dispari-dades.
Após a palestra, Felecia (2014) emocio-nou-se e disse:
I never imagined in all my years that
an almost 10-year break from edu -cation would lead me here! I have learned so much about Brazilian culture, and even more about my own existence. I have been truly fortunate to have a second
chan-ce to make the most of this thing
called life, and I will cherish every future opportunity to learn more about others and myself.
Em razão da trajetória de Felecia, essa experiência tornou-se bastante mar-cante para todos da turma, pois
tive-mos a oportunidade de refletir sobre
a cultura brasileira e o lugar ocupado pelo negro nessa sociedade levou-a a
refletir ainda mais sobre sua existência
enquanto afro-americana e pertencen-te aos chamados black ghettos11
norte--americanos.
A falta de diversidade tanto racial quan-to econômica foi algo que chamou a atenção dos estudantes no Departa-mento de Medicina Tropical, o que até mesmo os motivou a buscar outras formas de socialização em Belém para além do âmbito universitário.
Esses estudantes, em sua maioria, não eram sequer reconhecidos como ne-gros por seus colegas de laboratório paraenses, que constantemente se re-feriam a eles como “morenos”. Isso incomodou bastante o grupo de estu-dantes críticos, visto que sua condição de afro-americanos era algo tão bem determinado em suas formações, que serem chamados “morenos” numa tentativa de velar suas identidades ne-gras tornava-se para eles um grande in-sulto. Em contrapartida, para o outro grupo de estudantes, serem chamados “morenos” era considerado exótico, como se suas negritudes no Brasil não fossem determinantes, pois aqui acre-ditamos viver em um “paraíso racial” onde todos são miscigenados e, por-tanto, ninguém é de todo negro. Assim, para alguns, o uso do termo “moreno” tinha como intuito apagar suas negri-tudes, enquanto para outros denotava a complexidade do exotismo de um país racialmente democrático.
Conforme Telles (2004:218), o pro-cesso biológico da mistura de raças no Brasil não criou a categoria dos pardos,
mulatos e morenos, senão tal conceito foi consequência da ideologia da mis-cigenação:
Miscegenation does not create mi-xed-races persons, as the U.S case shows. There, mixed-race persons
are simply “black”. In the Brazi -lian ideology, mulattos are valued as the quintessential Brazilians in national beliefs, although they are often marginalized in reality and
are much more similar to blacks
than to whites in the Brazilian class structure.
É importante evidenciar mais uma vez que os Estados Unidos e o Brasil têm
maneiras distintas de classificar racial -mente seus indivíduos. Como vimos, de acordo com Oracy Nogueira (2007), nos Estados Unidos o negro não é de-nominado de acordo com o seu fenóti-po e a sua cor de pele como no Brasil, antes, o que conta é sua ascendência. Assim, trata-se de um racismo de ori-gem, segundo o qual qualquer indiví-duo com um pai ou uma mãe negra é considerado negro. No Brasil, o negro é caracterizado pela sua cor, existindo designações como “moreno” e “par-do” para os tons mais claros de negro, com o intuito de mascarar a negritude que sempre foi demonizada e, conse-quentemente, celebrar a mestiçagem.
no conjunto dos seus valores consti-tutivos. O negro, menos ainda que o branco europeu, vale dizer o lusitano, quase nada teria deixado de sua presen-ça na região”.
A partir desse fato, é possível obser-var como Belém, assim como o restan-te do restan-território amazônico brasileiro, sustenta a premissa de que o europeu lusitano, os povos africanos escraviza-dos e os povos indígenas construíram, por meio de sua “mistura”, a Amazô-nia que conhecemos hoje. Entretanto, desses elementos, o negro é o menos estudado, lembrado e levado em consi-deração, até mesmo nos estudos antro-pológicos feitos atualmente na região.
A influência africana na cultura regio -nal amazônica é inegável, muitas partes do estado do Pará ainda carregam con-sigo fortes traços da cultura africana – na dança, na culinária e nos hábitos de seus habitantes –, que, em contato com a cultura indígena e europeia, construiu o folclore amazônico (Salles 1971). Po-rém, a integração cultural do negro ao longo da história da Amazônia é pou-co explorada na literatura regional, as-sim como o seu papel preponderante durante as revoltas populares contra a supremacia econômica portuguesa, as lutas contra as tentativas de higieniza-ção e o abandono da cidade de Belém após a adesão ao território brasileiro. A respeito da integração e do papel do negro na luta por direitos na
Amazô-nia, Vicente Salles (1971:86) afirma:
A interação social, por outro lado, realizou-se progressivamente à me-dida que o negro se incorporava à sociedade em formação e adotava formas superiores de luta pela sua
libertação. Na Cabanagemjá o en-contramos plenamente integrado nesta sociedade e sua contribuição à celebre guerra popular será estu-dada oportunamente.
Todavia, ainda nos dias atuais, pouco se sabe sobre essa enorme resistên-cia negra nos quilombos na Amazô-nia durante o período da Cabanagem (1835-1840), sendo o Pará atualmente o quarto estado brasileiro com mais comunidades quilombolas do Brasil – mais de 233 –, perdendo apenas para os estados da Bahia, Maranhão e Minas Gerais (Organização Palmares 2016). Portanto, os resquícios dessa resistên-cia negra histórica são evidentes, dado o número de quilombos e descenden-tes africanos ainda existendescenden-tes no estado do Pará, porém essa questão é pouco estudada pela academia paraense.
Isso se dá pela forte influência do dis -curso da miscigenação presente no imaginário de grande parte da popula-ção brasileira, discurso que invisibiliza e estereotipa a identidade étnico-cul-tural negra, colocando-a no patamar de símbolo de brasilidade e, conse-quentemente, apropriando-se de sua identidade. Não obstante, os símbolos negros transformados em símbolos de brasilidade não mascaram o racismo existente no Brasil. Tal percepção é latente, até mesmo em regiões onde a miscigenação é de fato preponderante, como é o caso da Amazônia brasileira. Na cidade de Belém, o lugar do negro e do não negro é evidente, os bairros que ocupam e os lugares a que têm acesso
Acerca da questão da identidade e cul-tura negra, o grupo de estudantes crí-ticos constantemente comentava o que para eles foi a maior diferença entre os afro-brasileiros e afro-americanos:
My time spent in Belem opened my eyes to the true nature of living as an Afro descendant in Brazil. My interactions with Afro Brazilians were not that different than those I would have with African Ameri-cans. I believe this was the result of both groups living in the equiva-lent socioeconomic situations. The main difference was the higher sen-se of sen-self-esteem held by the Afro Brazilians for their identity and cul-ture. Their higher sense of pride in their culture seemed to mean that they were less unhappy about the social and racial dynamics of their county, but the less they were more aware of racially imposed bounda-ries (Phill 2013).
De acordo com esse olhar, o negro no Brasil tem mais autoestima em re-lação a sua identidade e cultura, em comparação ao negro estadunidense. Contudo, para os estudantes afro-ame-ricanos, essa autoestima afro-brasileira mascara as desigualdades existentes nas relações raciais do país e, ao mes-mo tempo, “educa” o negro a aceitar a sua condição subalterna de povo histo-ricamente explorado e marginalizado.
Nessa perspectiva, é possível afirmar
que a consciência do negro brasileiro é fruto da colonialidade do poder (Qui-jano 2005) existente no Brasil, país que se tornou independente, mas que não descolonizou a mente de seu povo e ainda hoje segrega e exclui aqueles que outrora foram escravizados pelo
sis-tema colonial. Embora no Brasil não tenha ocorrido uma segregação racial nos moldes da norte-americana, ainda podemos constatar que, sem dúvida, há segregação no país, e isso está natu-ralizado na mente da população negra, que cresceu aprendendo qual é o seu “lugar” no país da miscigenação.
O ESTRANHAMENTO EM RELAÇÃO À SOCIALIZAÇÃO NA CIDADE DE BELÉM
Para os estudantes afro-americanos, conhecer pessoas e socializar-se na ci-dade foi uma tarefa árdua, pois todos tinham conhecimentos muito limita-dos em português, e na cidade de Be-lém existem poucos falantes da língua inglesa. Assim, os estudantes buscaram outras formas de se integrar à cidade, e a principal delas foi por meio do proje-to de intercâmbio linguístico e cultural chamado “Belém Babel”.
Esses encontros ocorriam todas as noites de quarta-feira no Bar do Par-que12, tendo como intuito reunir a
po-pulação local interessada em aprender ou praticar línguas estrangeiras, assim como reunir os estrangeiros residentes ou visitantes que estejam interessados em conhecer pessoas locais e aprender ou praticar o português.
os afro-americanos entraram em con-tato com diversos habitantes locais e estrangeiros com quem podiam comu-nicar-se em inglês e conhecer melhor a cultura e a vida noturna da cidade de Belém.
O grupo de estudantes menos politiza-do foi o que mais frequentou os encon-tros do Belém Babel. A respeito dessa vivência, uma das estudantes disse:
Time has been flying lately! I can’t
believe it’s almost been a month already. Belem has been great and I have met so many people during
my time here already. I think it’s
amazing that people from so many different parts of the world are here. I have met people from Ger-many, England, Spain, and other various cities in Brazil (Teera 2014).
Os estudantes desse grupo encanta-ram-se com a oportunidade de partici-par de um projeto de intercâmbio que fez com que eles conhecessem pessoas de diversas partes do Brasil e do mun-do, uma experiência que os conectou com outros falantes de inglês e os co-locou em contato com brasileiros in-teressados em ensinar-lhes português. As redes de amizade desses estudantes formaram-se a partir desses encontros, e, em consequência, passaram a haver
conflitos entre duplas de grupos dife -rentes, como entre Teera e Felecia. As diferenças sociais entre ambas
des-de o início já eram motivo des-de confli -tos, mas, após Teera decidir aprender português e tornar-se mais
“abrasilei-rada”, os conflitos pioraram, a ponto
de as duas criarem laços de amizades completamente diferentes na cidade de Belém e romperem as relações uma
com a outra no fim do intercâmbio. O
principal motivo desse rompimento foi o fato de Teera tentar a todo custo falar português com os professores para re-ceber as coordenadas para a pesquisa, o que gerou uma série de problemas de execução devido ao seu pouco domí-nio da língua.
Segundo Felecia, Teera tinha um gra-ve problema de baixa autoestima por ser uma mulher afro-americana, pois, enquanto no Brasil ela era interessante por ser estrangeira e ter a sua negritude velada, na sua terra natal, ela era estere-otipada como a típica Big Mamma. Con-forme Jan Alexia Holston (2010), esse estereótipo é comumente associado a mulheres afro-americanas voluptuosas, espirituosas, que cozinham soul food13,
têm quadris largos “para parir filhos
saudáveis” e são solitárias.
Isso claramente remonta ao arquétipo da ama de leite no Brasil, aquela mu-lher negra também solitária que cuida
e alimenta os filhos de seus patrões. Embora essa figura tenha tido sua ori -gem no contexto colonialista e escra-vista, ela ainda hoje habita o folclore e o imaginário brasileiro e afro-ameri-cano, o que torna essa imagem ainda fortemente vinculada às mulheres ne-gras, tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Entretanto, segundo Oracy Nogueira (2017), nos Estados Unidos a Big Mamma é vista como um estereó-tipo deprimente pela comunidade afro--americana, enquanto a ama de leite no Brasil é admirada por sua dedicação e
amor aos filhos de seu amo.
cul-tura para tornar-se mais “interessante”, pois foi a forma que ela encontrou de voltar para os Estados Unidos e tentar romper com um estereótipo que car-rega unicamente devido a sua origem negra.
A dupla de 2015, apesar de reunir as mais jovens do grupo de estudantes politizados, inicialmente pouco se in-tegrou nos diversos âmbitos de convi-vência que tinham na cidade de Belém. Em um primeiro momento, Natalie e
Erika demonstraram muito medo em
relação à cidade e às pessoas, pois am-bas nunca tinham saído de sua zona de conforto. Apesar de já ter viajado para outros países, Natalie viu-se pela pri-meira vez em um país estrangeiro onde poucas pessoas podiam comunicar-se em inglês. Todavia, já ao final da es -tadia das estudantes, elas construíram laços de amizades, viajaram para o
inte-rior do Pará e refletiram bastante sobre
seus privilégios: “Although we will be
coming back to the States soon, I’m
sure that I am not the only one who
feels like I am gaining much more that
I could have ever imagined – simply by stepping out of my comfort zone and integrating my life into Brazilian cul-ture” (Natalie 2015).
Ao saírem de sua zona de conforto,
elas iniciaram uma reflexão a respeito
do quão privilegiadas foram suas tra-jetórias até ali. Elas pouco se conecta-ram com os negros que conhececonecta-ram na cidade de Belém, principalmente o negro periférico marginalizado, pois ele causava-lhes medo. Contudo, a vida cercada de privilégios que tiveram não apagou suas negritudes e suas identi-dades enquanto afro-americanas. As
vivências que elas tiveram fizeram-nas
sentir-se representadas por um movi-mento igualmente popular hoje nas camadas mais educadas e abastadas do Brasil, o movimento geração “tomba-mento”.
Tal geração é formada por jovens ne-gros urbanos ousados, que usam prin-cipalmente a estética e a moda como meios de valorizar a beleza negra, for-talecendo a autoestima e o empodera-mento de negros e negras que abando-nam o seu lugar de inferioridade em um mundo onde a estética branca im-pera (Gomes 2012). Natalie e Erica en-caram o empoderamento negro como sinônimo de estilos de cabelo, roupas e
status social. Portanto, elas não se veem nas jovens negras periféricas de Belém, que não ostentam cabelos black power, trançados ou de alguma outra tendên-cia da moda afro. A periferia de Belém
não escuta Beyoncé ou Nicki Minaj14, o
que impera é a tecno melody15, que
pou-co tem a ver pou-com as divas negras do mundo pop contemporâneo que elas consomem.
como no caso dos Estados Unidos, essa mesma consciência é constante. Logo, a referência à negritude no Bra-sil é velada até chegar a um momento de enfrentamento, quando o fenótipo negro é usado para inferiorizar o outro que o carrega. Muitos afro-brasileiros descobrem-se como negros nesses
momentos de conflito, pois, socializan -do-se em uma sociedade que se empe-nhou em apagar a identidade negra, ser negro é dizer-se inferior.
Em contrapartida, afro-americanos, como os do grupo de estudantes po-litizados, foram constantemente
in-centivados a se autoafirmarem como
negros em uma sociedade exacerba-damente racializada, a terem ídolos negros que romperam as barreiras da cor e se destacaram e, principalmente, a terem uma atitude defensiva para se protegerem do inevitável racismo que sofrerão em diversos âmbitos sociais. A coletividade e a solidariedade nesse grupo também é um fator
preponde-rante para a autoafirmação dos afro --americanos, algo que pouco existe no Brasil, visto que o ato de se
autoidenti-ficar negro não é um componente pre -ponderante de identidade para muitos brasileiros como ocorre nos Estados Unidos, e por isso, existe pouco senso de solidariedade e pertencimento a um grupo racial no país (Telles 2014). Essa escassa solidariedade entre negros brasileiros causou grande estranha-mento no grupo de afro-americanos politizados, porque, ao criarem laços de amizades com outros indivíduos ne-gros em Belém, perceberam que essa solidariedade é incomum no Brasil.
Exemplo disso é o que ocorreu com Phill, após iniciar uma amizade com um dos organizadores do grupo Belém Babel, que também era negro. Os dois saíam para muitas festas juntos e
in-clusive fizeram viagens para o interior
do Pará. No entanto, Phill constante-mente se sentia decepcionado com a falta de cuidado do amigo em diversas situações. A situação que mais o mar-cou foi quando os dois foram para um
show musical em um local que Phill não conhecia e, em meio ao show, o amigo sumiu enquanto dançava com uma ga-rota, deixando-o sozinho, sem saber como voltar para casa.
Por situações desse tipo, esse grupo de estudantes passou a questionar-se a respeito da pouca solidariedade en-tre pessoas negras no Brasil, que não se percebem enquanto negros e con-sequentemente não se apoiam entre si com o intuito de se protegerem em uma sociedade que as discrimina. Os indivíduos negros com um maior sen-so de sen-solidariedade têm mais chances de ver a si mesmos como vítimas de discriminação racial, de perceber que o racismo contra negros existe, de parti-cipar de movimentos negros e de lutar pelo desenvolvimento da comunidade negra, ao invés de clamar por um país racialmente integrado (Bledsoe et al. 1995).
Portanto, vemos mais uma vez quão bem-sucedido foi o discurso da misci-genação enquanto projeto de nação no Brasil, pois, enquanto existe a solida-riedade para com a causa das pessoas
com deficiência, a causa das mulheres
nem mesmo entre os próprios negros. Os discursos da miscigenação e da meritocracia imperam, colocando os afro-brasileiros uns contra os outros e perpetuando um projeto de nação que apaga a identidade do outro que não é o homem branco.
Outro ponto que chamou a atenção do grupo politizado de estudantes foi o quão etnicamente segregada é a vida noturna da cidade de Belém:
[…] subculture itself was divided based on ethnicity as well. For
example, Rock and Reggae are two
major music styles that are popu-lar in the city of Belem. Not sur-prisingly, the majority of the peo-ple that listen to Reggae are Afro
Brazilians and vice versa for Rock.
When going to a nightclub it’s easy to distinguish what type of music they play based on who is standing in line. The attire of people at pre-dominately white nightclubs was
more flashy and lavish. In contrast,
Reggae clubs were more relaxed and casual. Again, to me this was a display of how European des-cendants are associated more with wealth than Afro Brazilians. The same phenomenon occurs in the US, where racial segregation has been one of major issues for this country since its establishment (Phill 2013).
Ao frequentarem a cena musical do
reggae e do rock, constataram a mar-cante diferença étnica presente nas casas de show e pubs da cidade. Se-gundo eles, os clubes de reggae são majoritariamente frequentados por pessoas negras, com um visual mais relaxado e casual, enquanto os pubs de
rock são frequentados por um público mais embranquecido e esbanjador. Além disso, os estabelecimentos embranquecidos evocam um mais elevado status social, e os clubes de reg-gae são marginalizados.
Segundo os estudantes, essa realidade da noite paraense assemelha-se bas-tante à existente no Sul dos Estados Unidos, onde a segregação racial está presente em todos os âmbitos da socie-dade. Entretanto, para eles é inevitável não estranhar tal segregação em um país historicamente conhecido por sua miscigenação entre raças e sua célebre democracia racial.
DO SOUL FOOD À MANIÇOBA: O ESTRANHAMENTO EM RELAÇÃO À CULINÁRIA PARAENSE
Os estudantes chegaram a Belém no mês de junho, período das coloridas festas juninas caracterizadas por diver-sas celebrações, quadrilhas e comidas típicas. Entre tais comidas, os
estudan-tes estranharam uma especificamente:
a maniçoba. O famoso prato paraense lembrou-lhes um tipo de comida tipi-camente afro-americana do Sul dos Es-tados Unidos: o soul food.
A maniçoba é o mais tradicional prato típico do estado do Pará, sendo tam-bém conhecida como a “feijoada dos paraenses” porque contém basicamen-te as mesmas probasicamen-teínas, além da mani-va16, no lugar do feijão. A sua origem
é creditada à influência indígena na
região.
demorado preparo da maniçoba – o cozimento dura uma semana –, que também pode ser encarado como um ritual:
[...] Na cozinha do Norte, des-tacava-se o Pará com este prato, feito com folhas mais novas da mandioca ou macaxeira (manivas), socadas no pilão, ou, agora, passa-das em máquinas de moer carnes, sem sumo, utilizando-se a massa esverdeada, que vai ao fogo, sem
sal, apenas com suficiente toucinho
fresco. Ficando a ferver por dois a três dias, até tomar cor escura, gor-durosa e compacta, botam-se na panela, como “adubos”, grossos pedaços de charque, chispas, língua de vaca defumada, cabeça de porco salgada, ou moqueca, mocotó (mão de vaca) e vísceras bovinas, tripa grossa, chouriço defumado e touci-nho curado. Para esta operação há uma ciência especial, por causa dos temperos constantes, cebolas pica-das, alho amassado, folhas de louro, pimenta-do-reino e cominho e, so-bretudo, o sal. A maniçoba é ser-vida em pratos fundos, com arroz branco e farinha-d’água especial, molho apimentado, merecendo a honra de “pingazinha”, para ser condignamente apreciada.
Todos os anos, no segundo domingo do mês de outubro, é celebrado o Círio de Nossa Senhora de Nazaré17 na
re-gião. Nessa época do ano, é comum, ao andar pelas ruas de Belém em qualquer momento do dia, sentir o forte cheiro da maniçoba sendo cozida nas casas da população belenense. Tal perfume habita fortemente o imaginário para-ense, transformando-se no perfume de anunciação do início das celebrações
do Círio de Nazaré. A maniçoba dei-xou de ser apenas um tradicional prato
típico e foi ressignificada como parte
da identidade paraense, pois é um pra-to preparado com o intuipra-to de unir as pessoas, fortalecer os laços e o senti-mento de pertencisenti-mento entre elas e sua comunidade.
Os estudantes afro-americanos de am-bos os grupos perceberam similarida-des entre esse típico prato paraense e o
soul food, termo usado para denominar a culinária tradicional afro-americana do Sul dos Estados Unidos. Essa culinária é composta por alimentos como fran-go, peixe, porco, milho doce, macarrão com queijo, feijão-carioca, feijão-de--frade, pão de farinha de trigo, pão de milho, couve e quiabo. A sua origem remonta ao passado escravista do Sul dos Estados Unidos, onde os senhores de africanos escravizados controlavam a quantidade de comida fornecida para a sobrevivência desse povo, enviando--lhe o que não lhes apetecia na casa--grande e o que havia de mais barato na época, como o milho, o arroz e o porco.
O célebre abolicionista Frederick Dou -glass (1963:30) narra essa realidade que marcou o povo africano escravizado:
[…] Our food was coarse corn meal boiled. This was called mush. It was put into a large wooden tray or trough, and set down upon the ground. The children were then
called, like so many pigs, and like
so many pigs they would come and devour the mush; some with oyster-shells, others with pieces of
shingle, some with naked hands,
stron-gest secured the best place; and few
left the trough satisfied.
A escassez e a má qualidade dos
ali-mentos fizeram com que os negros es -cravizados procurassem outras formas de complementar suas dietas, trazendo elementos de sua cultura tradicional
africana. Já no final do século XIX, as
chamadas Black Churches18da zona rural
do Sul do país introduziram o frango frito na dieta afro-americana, em seus banquetes servidos em cultos e festi-vidades. Após isso, no século XX, uma vasta gama de afro-americanos decidiu migrar para outras partes do país, de-vido aos constantes enfrentamentos e opressões sofridas pelo racismo no Sul dos Estados Unidos. Os imigrantes sulistas passaram a conviver com imi-grantes de outras partes do mundo nas periferias de grandes cidades e, a partir desse contato, diversos elementos fo-ram adicionados ao soul food, como o macarrão.
Porém, foi somente na década de 60 que o termo soul food foi adotado como herança cultural pelo movimento ne-gro, durante uma época em que as ex-pressões de poder da cultura negra es-tavam em voga. A ideia do movimento negro foi usar a culinária afro-ameri-cana como uma forma de conectar di-versas gerações, e evocar a importância
de ressignificá-la como um retorno à
tradicional dieta de seus ancestrais, ao invés de encará-la como os restos de comida dispensados pelo senhor da casa-grande.
Por conseguinte, o estranhamento dos estudantes afro-americanos acer-ca da maniçoba advém da inexistente exaltação das origens negras do prato,
pois, para eles, vários ingredientes da maniçoba, assim como o seu modo de preparo, estão claramente ligados ao passado escravista do país. Além disso, assim como a feijoada, o mais famoso prato do Círio de Nazaré também con-tém partes de carne suína que remetem ao tipo de proteína que outrora costu-mava ser dispensada pela casa-grande. Para muitos paraenses, a maniçoba foi--nos presenteada pelos povos indíge-nas que habitaram a região e raramen-te é mencionada qualquer referência à presença negra nesse famoso prato. Portanto, o olhar dos estudantes afro--americanos sobre a maniçoba difere do que nos foi ensinado a respeito de sua origem, pois, para eles, a maniçoba
também tem influências da comida de plantations19, e não somente dos
ances-trais indígenas.
Dessa forma, para os estudantes afro--americanos, a maniçoba tem caracte-rísticas muito mais africanas do que indígenas, pois sua aparência e sua relevância lembram a tradicional soul food. Tal comparação é muito
perti-nente para se refletir sobre a histórica
invisibilidade da presença africana na construção do que conhecemos hoje como a Amazônia brasileira e sobre a importância de resgatar essa identidade negra em uma sociedade ainda profun-damente racista.
nos foi presenteada pelos indígenas, quando seus ingredientes – para além
da influência indígena – não passam de
sobras de porco dispensadas pelos se-nhores durante o período escravista na Amazônia? Diferentemente da mani-çoba, a soul food é conhecida como co-mida de preto, símbolo de resistência
que reafirma e empodera a comunida -de afro-americana. Por que a maniçoba e a feijoada não se tornaram também símbolos da resistência negra como a
soul food nos EUA? Por que, ao invés disso, são celebradas como comidas ti-picamente brasileiras que resultam da miscigenação cultural entre europeus, negros e indígenas?
Segundo Peter Fry (1982:47), no Bra-sil ocorreu uma grande apropriação da cultura negra, exemplo disto é o futebol que se tornou o nosso espor-te nacional e a feijoada que é o nosso prato típico - assim como a Maniço-ba no Pará. “(...) a conversão de sím-bolos étnicos em símsím-bolos nacionais não apenas oculta uma situação de dominação racial mas torna muito mais difícil a tarefa de denunciá-la.” (Fry 1982:52).
Esta apropriação ao mesmo tempo em que resulta no orgulho e aumento da autoestima da população negra atra-vés da glamorização de sua cultura, também a torna menos conscientizada acerca de sua condição negra em uma sociedade racista e, portanto, menos questionadora em relação às opressões sociais e raciais que lhes são impostas. Em contrapartida, mesmo com esta apropriação dos símbolos negros pelas classes brancas dominantes, o racismo
não é ocultado de nossa sociedade. É
isto que Peter Fry (2005:163) afirma ao
revisitar o seu texto (“Feijoada e soul food”) de 1982,
Creio que a grande diferença entre os autores que citei e meu próprio trabalho mais recente, por um lado, e “Feijoada...”, por outro, está na maneira de lidar com a “mestiça-gem” cultural e biológica no Bra-sil. Em “Feijoada...”, a mistura e a ideologia do não-racialismo são tratados como mentiras que “ocul-tam” uma realidade mais concre-ta. Nos trabalhos dos autores que citei e nos meus trabalhos mais recentes, os ideais de mistura e de não-racialismo são tão concretos e reais quanto os desejos de pureza e racismo.
Em suma, no caso específico de Be -lém, a consciência negra precisa ser resgatada e assimilada por uma popu-lação que, até este tempo, acredita ve-ementemente no discurso da miscige-nação e prefere creditar suas heranças culturais aos lusitanos e aos indígenas, e não ao africano que aqui outrora foi escravizado.
Ana Célia Silva (2005:18) enaltece essa
questão, afirmando:
O esquecimento da presença negra na região amazônica é profundo, e a nega-ção da identidade negra é uma consta-tação em todos os âmbitos sociais, pois grande parte da população evoca suas raízes brancas e indígenas como forma
de justificar o seu não pertencimento
ao que consideram como inferior e malquisto por uma sociedade que ve-nera a estética europeia.
CONCLUSÃO
Neste trabalho etnográfico, registra -mos alguns estranhamentos de estu-dantes afro-americanos que vivencia-ram as diversas facetas das relações raciais no Brasil ao morarem no metro quadrado mais caro da cidade de Be-lém – na avenida Doca de Souza Fran-co – e ao fazerem parte de uma área acadêmica historicamente embranque-cida e elitizada – o Departamento de Medicina Tropical da UFPA. Com base
em seus relatos, pudemos identificar
diversas similitudes e diferenças entre a afro-brasilidade nortista e a afro-ame-ricanidade sulista. É revelador o olhar do outro inserido numa sociedade que não é a sua de origem, mas carrega es-tigmas comuns à sua realidade.
A análise feita neste artigo permitiu distinguir dois grupos de acordo com as reações de estranheza dos estudan-tes ante as relações raciais no Brasil, cujos conceitos de raça e de discrimi-nação racial não coincidem com os dos Estados Unidos: um grupo de estu-dantes afro-americanos interpretou de forma crítica o tratamento embranque-cido que receberam por estarem em um elevado patamar social e rejeitou a
designação de “morenos”, acreditan-do que isso tinha o intuito de apagar suas identidades negras; o outro grupo interpretou essas facetas das relações raciais brasileiras de forma positiva, crendo que a democracia racial aqui existia e que ela os integrava à socieda-de brasileira.
Além disso, o grupo de estudantes críticos também estranhou a não
au-toafirmação do negro brasileiro, o seu
sentimento de discriminação racial
in-constante que aflora somente em situ
-ações de conflito, a inexistente solida -riedade entre pessoas pertencentes ao mesmo grupo étnico discriminado. Por outro lado, os estudantes em sua tota-lidade estranharam a não exaltação da
influência negra na culinária tradicional
paraense.
Dito isso, retomamos os conceitos de preconceito de marca e de origem, cunhados por Oracy Nogueira (2007), para concluir que o afro-americano pouco politizado em viagem ao Brasil pode interpretar de maneiras distintas e contraditórias as relações raciais aqui existentes. Isso explica por que os estu-dantes com trajetórias mais politizadas foram mais críticos acerca da realidade do negro brasileiro, enquanto os afro--americanos menos politizados acer-ca da questão racial deixaram-se levar pelo discurso da miscigenação.
afro--americanos na cidade de Belém, o presente trabalho objetivou levantar uma discussão pertinente e necessária a respeito da desconstrução da ideia de Brasil como um paraíso racial. De fato, diferentemente da sociedade su-lista norte-americana, o Brasil nunca instigou uma segregação entre brancos e negros; antes estimulou a união en-tre portugueses, indígenas e africanos, que formariam a verdadeira identidade brasileira. Mas essa identidade apagou a importância da matriz africana na construção identitária brasileira, oca-sionando um genocídio étnico dos símbolos culturais de toda uma nação.
NOTAS
1 Adotamos aqui o conceito de
estranha-mento do qual Roberto DaMatta (1978) fala ao examinar o ofício do etnólogo. Da-Matta (1978) propõe-se a transformar o exótico em familiar e, inversamente, o fa-miliar em exótico. Neste artigo, estranhare-mos nossa própria cultura vista pelo olhar dos estudantes afro-americanos.
2 Blog da Christian Brothers University
dedicado às reflexões dos estudantes inter -cambistas.
3 O grupo será abordado mais adiante no
trabalho.
4 Phill e Wally, dupla de 2013; Felecia e
Te-era, dupla de 2014; Natalie e Erica, dupla de 2015.
5 É um dos 27 institutos e centros de saúde
que fazem parte do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, a mais premia-da agência de pesquisa médica do país.
6 77,4% alunos da Tuskegee University são
afro-americanos e 0,3%, brancos. Ver mais
em: https://www.collegefactual.com/col
-leges/tuskegee-university/student-life/ diversity/.
7 Período de 1870 a 1912, quando a
Ama-zônia era a maior produtora de borracha do mundo.
8 Estreito ou pequeno canal natural entre
duas ilhas, ou entre uma ilha e a terra firme,
que só dá passagem a embarcações peque-nas e é comum na região amazônica.
9 A Belém-Brasília é um conjunto formado
por onze rodovias federais do Brasil, que ligam a capital do país, Brasília (DF), à ci-dade de Belém (PA).
10 O sistema de classificação do Institu
-to Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) está de acordo com o do
movi-mento negro, que classifica pardos e pretos
no mesmo grupo populacional dos “negros”.
11 Bairros periféricos majoritariamente
ne-gros, que simbolizam a ainda presente se-gregação racial americana e representam a
autêntica realidade de dificuldades do que
é ser afro-americano nos Estados Unidos.
12 O bar mais antigo da cidade de Belém,
localizado no centro da capital e tombado como patrimônio histórico-cultural.
13 Culinária tipicamente afro-americana do
Sul dos Estados Unidos.
14 Cantoras afro-americanas famosas no
mundo da música pop.
15 Gênero musical que mescla o ritmo
bre-ga com o eletrônico, muito popular nas pe-riferias da cidade de Belém.
16 Folhas moídas da mandioca.
17 Trata-se de uma manifestação religiosa
católica que ocorre em devoção a Nossa Senhora de Nazaré. O Círio é considera-do um considera-dos maiores eventos religiosos considera-do mundo.
18 Igrejas protestantes majoritariamente
19 Plantações existentes no período colonial
onde se concentrava a mão de obra de afri-canos escravizados.
REFERÊNCIAS
Amaral, A. J. P. 2004. Da senzala à vitrine: relações raciais e racismo no mercado de trabalho em Belém. Belém: Cejup.
Bledsoe, T., S. Welch, L. Sigelman, e M. Combs, M. 1995. Residential con-text and racial solidarity among African-Americans. American Journal of Political Science 39(2):434-458. Disponível em:
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