Avassalador
Avassalador
Josiane Veiga
Josiane Veiga
É proibida a distribuição total ou parcial dessa obra sem a prévia autorização da autora. Todos os direitos pertencem a Josiane Biancon da Veiga ISBN-13:
978-1533575845
ISBN-10: 1533575843
Sumário Avassalador Dedicatória: Prólogo Capítulo 01 Capítulo 02 Capítulo 03 Capítulo 04 Capítulo 05 Capítulo 06 Capítulo 07 Capítulo 08 Capítulo 09 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Arrebatador
DEMAIS LIVROS DA AUTORA ESMERALDA
A INSÍGNIA DE CLAYMOR A CANÇÃO DE OUTRORA
NO CALOR DOS SEUS BRAÇOS DEMAIS OBRAS:
Dedicatória:
A cada leitor que torna meu trabalho algo especial. Vocês são o
combustível que me sustenta, a força que me faz prosseguir.
Nota da Autora
:
Avassalador se passa séculos após Esmeralda. Então, se você leu o livro
Esmeralda, ficará imediatamente por dentro de tudo que acontece em
Avassalador. Irá reconhecer a terra, os deuses que a habitam, e seu povo.
Porém, caso não tenha lido, não há problema. Os livros são
independentes, contam histórias diferentes, e não tem ligação alguma, além
de Elisabeth, a protagonista, ser uma descendente direta da antiga Rainha,
Esmeralda.
De qualquer forma, se ficou interessado (a), basta buscar pela obra na
Amazon.
Importante frisar, o mundo fictício onde se passa a história é dividido em
três reinos: Masha, Bran e Cashel. Os reinos possuem o nome de seus deuses
correspondentes. Masha, o povo ruivo, Cashel, o povo negro, e Bran, o reino
mais forte, povo de pele pálida e cabelos negros.
Enfim, que se divirtam.
O bastardo
Ela era uma puta.
Morreu como todas as putas que ele já havia visto em sua curta vida. E ele havia visto muitas.
Enquanto espiava pelas vigas de madeira da casa antiga que servia de prostíbulo naquela cidade fronte ao mar, chorou sua morte como poucas vezes na vida havia chorado por alguma coisa.
O nome da mulher, não sabia. Num murmuro abafado pelas recriminações que levava, chamava-a de mãe, mas a morena de olhos negros odiava aquele apontamento, então ele o evitava.
— Não é porque você nasceu de mim que sou sua mãe — ela gritou, um dia, enquanto bebia rum com um marinheiro. — Na verdade, eu apenas te crio como faria a um cachorro.
Não sentiu dor pelas palavras. Bem a fundo, ele não sentia nada. Era acostumado àquela vida desgraçada. Desde que nasceu, recordava-se de poucas mulheres dando-lhe atenção e a morena mãe lhe levando comida quando se lembrava da existência do filho.
Então, um dia, ela caiu de cama. Febre, dores que a faziam berrar como se estivesse em parto, e uma dificuldade tão grande de engolir a saliva que a cometia a babar como uma velha em cima da cama.
Assim, veio à morte, como um cavaleiro cruel empunhando a sua espada e arrasando tudo nela.
Não houve lamento. Sequer uma lágrima. Tirando o choro incontido do garotinho de cabelos escuros e olhos tão negros quanto à noite, ninguém mais manifestou nada.
Afinal de contas, ela era uma puta.
Ninguém chora por putas. Ninguém lamenta por rameiras. Ninguém diz: “oh, pobre meretriz, tão triste vida teve”. Mesmo ela, se estivesse viva, não choraria por si mesma.
Mas, Joshua, o filho da puta, chorou.
E enquanto as lágrimas se derramavam por sua face, ele observava homens graúdos atirando o corpo feminino em uma cova aberta rapidamente. Depois, a terra sobre aquele corpo. Nenhuma palavra daqueles em volta do túmulo, nenhuma oração pela alma condenada da mulher… nada.
E era o nada que ele intuía, enquanto a terra cobria o corpo frio. Ela, de olhos abertos, inertes, parecia encará-lo. Aquele olhar ele levaria para sempre.
Nunca mais veria a puta que chamava de mãe. ***
Muito se dizia da casa Clark. Aos cochichos, o nome daquela abastada família do reino de Bran era anunciado com louvor.
Os deuses eram generosos para com eles, chovia e fazia sol em suas terras no tempo certo. Seus campos sempre rendiam frutos, a peste nunca os atingia.
Não pertenciam a linhagem de reis, contudo, mas estavam a providenciar isso.
O único filho e herdeiro de Hor Clark havia sido prometido em casamento a uma descendente direta da distinta e folclórica Rainha Esmeralda, nos longínquos tempos do reinado de Cedric de Bran.
Elisabeth era da família Brace, que provinha de um dos gêmeos do Rei Cedric. Os seus antepassados jamais chegaram ao trono, mas tornaram-se de suma importância na garantia do reinado de Brione de Bran.
Porém, aquilo era história antiga, e algumas decisões erradas, acabaram afastando os Brace do restante da família. Quando tudo que restou, depois de séculos de rixas familiares, foi apenas duas pequenas irmãs órfãs, Hor Clark não pensou duas vezes em trazer as meninas para sua casa.
A mais nova, Anna, foi enviada a corte, sobre tutela do novo Rei, para reafirmar o poderio daquele nome, e a mais velha, Elisabeth, estava sendo preparada por sua esposa, Sophie, para se tornar a futura senhora da casa de Clark.
Lis, como todos chamavam a garotinha ruiva e acanhada, era o caminho para chegar ao fim. Os Clark se tornariam oficialmente parentes do Rei. O nome que ambicionava era o apogeu de todos os seus sonhos.
Porém, naquele dia, não era na figura delicada de Lis, ou no filho mais velho com quem ela se casaria, Andrew, que Hor se preocupava.
Durante os meses que estivera no litoral, pegou uma prostituta como conforto nas noites frias. Como gostava de exclusividade, a teve por meses, pagando caro por isso. Mas, mais caro pagava agora, ao saber que a mulher morreu e deixou-lhe um bastardo.
Ao retornar para o litoral, a negócios, e ao conversar com a dona do puteiro, tentou recusar a obrigação, mas o garoto que se chamava Joshua era tão desgraçadamente parecido consigo que não teve como recuar.
Por fim, decidiu levá-lo. Um pirralho de oito anos, de nariz ranhoso, cheirando a latrina e de olhar acuado. Não falava, ou falava pouco, pois parecia temê-lo, enquanto andava ao seu lado, e mantinha as mãos cerradas, nervoso, diante do grandalhão.
observou sua gente a encará-lo num misto de alegria pelo retorno do lorde, e surpresa, pela presença da criança.
Agarrando o garoto no braço, o puxou até o estábulo. Enquanto alguns cavalos relinchavam, Hor o jogou contra o feno.
A noite estava muito fria, como era todas as noites naquele canto da nação. A neve cobria as paredes pintadas a cal. Porém, ele sequer pensou, enquanto apontava um canto cheio de mantas velhas, dizendo ao garoto lhe ficasse ali.
Estava ansioso por ver Sophie e Andrew. Queria beijar a esposa e abraçar o filho. Também estava ansioso pelo caldo fumegante das panelas das criadas. Assim, tudo que queria era cumprir logo aquele dever e ir para o castelo.
— Devo ficar aqui, senhor meu pai?
Era a primeira vez, desde que saíram do litoral, que o menino falara. Hor arregalou os olhos, encarando seriamente o rosto do pequeno. — O que você disse?
— Indaguei se devo ficar aqui… — o tom baixou, comedido, nervoso, como se houvesse culpa em sua indagação.
— Não… Não foi isso que perguntei. Quero saber como me chamou.
O menino engoliu em seco. O homenzarrão diante de si lhe dava mais arrepios que a mãe da qual não sabia o nome.
— Senhor… meu pai…
O tabefe ecoou pelas paredes de madeira, enquanto a criança se encolhia num canto, com as duas mãos no rosto avermelhado, encarando o homem como se não acreditasse naquela agressão.
— Escute aqui, filho da puta — Hor disse, firme, enquanto avançava contra o pequeno. — Você não passa de um bastardo maldito do qual tive piedade. Mas, coração bom nenhum me fará te reconhecer como um filho. Recolha-se ao mundo insignificante do qual veio. Ficará aqui, com os cavalos, trabalhando para comer. Nunca mais me dirigirá a palavra, nunca mais me chamará de pai. Eu sou seu lorde, e você é só a coisa que limpa a bosta dos cavalos. — Outro soco. Joshua sentiu o nariz escorrer. — Fique grato a Masha e a Bran, os deuses maiores, por não deixá-lo morrendo de frio na neve, que é o lugar de um bastardo.
Então, o corpo foi atirado ao longe. Enquanto sentia-se projetado contra o chão, o garoto limpou o sangue que escapava do nariz.
Sem conseguir levantar a cabeça, viu o par de botas se afastando, em passos duros. O choro sufocou sua garganta, mas o menino o conteve.
Sabia que de nada adiantava chorar. O choro nunca o salvaria da sua vida em desgraça. O choro era apenas parte da condenação, uma muda aceitação de que nada mudaria.
***
Os alimentos que sobravam do Castelo Branco eram levados aos porcos. Porém, era comida mais gostosa do que aquela que ele recolhia nos cantos, restos do que os homens deixavam nos pratos.
Assim, Joshua aprendeu a roubar os suínos. Coitados, sentiam fome também, era verdade, mas o garoto gostava demais dos restos de uvas e batatas assadas que sempre estava no balde dos porcos.
Além disso, havia a questão de sobrevivência. A terra dos Clark era gelada demais, quase sempre coberta por neve durante o longo período de inverno. Dessa forma, ou ele aproveitava o que pudesse, ou morreria de fome.
Era assim em tudo, um larápio. Com a comida, e com as mantas. Lorde Hor até lhe perdera uma quente túnica de lã, que Joshua roubou do varal e escondeu embaixo do feno. Quando todos iam dormir, ele a retirava do esconderijo e se protegia em meio às palhas.
Sobrevivência… era tudo isso.
Naquele mundo, era invisível. As pessoas não o notavam, ou fingiam não notar. Afinal de contas, não era segredo para ninguém que lorde Hor odiava o bastardo, e só o havia recebido porque as leis dos Três Grandes Deuses eram muito rígidas em relação a parentes desamparados.
Todos sabiam o que Masha, Bran e Cashel haviam feito no passado, para colocar uma Rainha híbrida no poder. Ninguém os desafiava. Não era amor, nem respeito aos deuses. O que movia os reinos era temor ao castigo.
Portanto, mal podia acreditar quando percebeu alguém no estábulo. Um garoto de cabelos negros e olhos tão intensos quanto os seus.
Um pouco mais velho, talvez dez ou onze anos, o menino lhe sorriu, numa troca mútua de sentimentos instantâneos.
— Eu ouvi um cavaleiro falando que você é meu irmão.
Joshua ficou surpreso pelas palavras. Contudo, o sentimento logo foi substituído por nervosismo.
— Não, não senhor — negou. — Não sou filho de ninguém. Um bastardo não é filho de ninguém.
A aproximação rápida do menino fez o coração de Joshua pulsar rápido. Tentou proteger o rosto, quando sentiu os braços do outro cercá-lo e puxá-lo, num abraço gentil e doce.
— Você é meu irmão — o garoto disse, fazendo com que as lágrimas que Joshua prometeu nunca mais derramar voltarem aos seus olhos. — Eu sei que é, porque somos muito parecidos — ele afirmou.
Então afastou-se.
— Não se preocupe. Não falarei a papai sobre nós — acalmou-o. — Eu sou Andrew Clark — se apresentou. — E você? Como se chama?
— Joshua…
— Joshua? Joshua de quê?
— Joshua de nada. Não tenho nome.
Andrew assentiu, como se compreendesse.
— Isso não importa — prevaleceu. — Nome não tem nenhuma importância diante do sangue — afirmou. — E você tem o meu, e eu tenho o seu. Isso basta. Sempre bastará.
Naquela manhã, Andrew Clark tornou-se a primeira família de Joshua, o filho da puta bastardo.
***
— Papai foi viajar — Andrew rompeu o estábulo gritando. A felicidade era nítida em seu olhar gentil.
— Foi mesmo? — o bastardo correu até ele, abandonando o monte de feno, pronto para divertir-se com o irmão.
Quem olhasse, pensaria que Andrew não amava o pai. Aquilo não era verdade. O filho legítimo amava o genitor, a mãe e toda a sua linhagem. Contudo, ele amava mais que todos àquele menino de olhar acuado que sempre tinha que se esconder, por ser fruto de pecado e infidelidade.
Algumas pessoas diziam que Joshua era parte demônio, porque nasceu de puta e porque carregava sobre os ombros o peso dos erros de seu pai. Mas, para Andrew, Joshua era apenas seu irmão menor, do qual se alegrava por ter por perto.
Livres dos olhos de Hor, os irmãos corriam lado a lado, cada um empenhando um pedaço de pau, lutando em guerras imaginárias, sendo heróis lendários de tempos que não mais retornariam.
— Eu sou Randu! — Andrew gritava, enquanto avançava com a madeira. — Serei o Rei Negro, o poderoso e justo, e irei derrotá-lo, Iran de Masha, seu rei mau.
tardes com o irmão, contando a ele sobre como os Deuses colocaram uma mulher de sangue impuro como esposa do Rei.
— Impuro? – Joshua se recorda de ter perguntado.
— Chamavam as pessoas mestiças de imundas — Andrew contou. — A antiga religião era cruel.
Mas a nova também não era muito boa para pessoas como ele.
Subitamente, a mente voltou ao combate de brincadeira. Sentiu que Andrew lhe dava o golpe final quando seu pedaço de pau voou em direção a casa.
Riu, enquanto se ajoelhava, pedindo misericórdia.
— Serei benevolente, bravo cavaleiro — Andrew disse, alto, pomposo. — Pouparei sua vida em nome de minha noiva, Lady Lis — e apontou um dos cantos.
Naquele instante, Joshua olhou para o lado. Uma garotinha, provavelmente de sua idade, os encarava num misto de alegria e vontade de juntar-se a eles.
Seu coração quase parou e a boca abriu. Instantaneamente, Joshua sentiu, pela primeira e única vez em toda a sua vida, a fagulha do amor acender no peito.
De cabelos encaracolados e ruivos, a menina sorriu para ele, enquanto caminhava até os garotos.
— Eu sou Elisabeth — ela se apresentou.
Ele estava há meses naquelas terras, e até então não a tinha visto em nenhum momento. Piscou várias vezes para ter certeza que não era uma miragem.
— Eu falei a Lis sobre você — Andrew murmurou. — Não se preocupe, ela sabe que é meu irmão, e ela não dirá nada a ninguém. — voltou-se a Joshua. — Lis é minha noiva — apresentou.
— E por isso não posso sair para brincar — ela explicou. Seu tom trazia um traço de melancolia, mas também conformismo. — Lady Sophie está me preparando para ser esposa de Andrew.
— Isso é injusto porque Lis não precisa de nenhuma preparação — Andrew sorriu. — Eu a amo, é perfeita para mim.
A vida era um jogo cruel e avassalador. E Joshua soube, naquele instante, ser sua principal vítima.
Nem Joshua e nem Andrew choraram pelo lorde durante seu enterro.
Enquanto as honrarias eram feitas, o irmão mais velho aproximou-se do mais novo e segurou suas mãos.
De certa forma, era um alívio.
— Ninguém mais vai te machucar — Andrew prometeu, num sussurro tão baixo quanto um sopro.
Ninguém diria que Hor de Clark cairia do seu cavalo favorito durante um simples passeio pelos arredores do castelo. Ninguém além de Joshua, que havia arrumado a sela naquela manhã com os olhos inchados pelos socos dados pelo pai.
Hor havia flagrado os dois filhos conversando. Esbofeteara Andrew e depois levara Joshua para o estábulo. O bateu tanto que o garoto ficou atirado por dias em cima do feno, sem poder se mexer.
— Por que não morre, maldito?
A questão do pai nunca fora respondida. O homem jamais desconfiara que Elisabeth fugisse de madrugada do castelo e levava ervas para os machucados de Joshua. Nem pensara que era ela que lhe alimentava e lhe animava a alma sobre o amor de Andrew.
— Lorde Hor não será lorde para sempre. Tudo vai mudar quando Andrew for o Senhor do Castelo Branco — ela, inconscientemente, plantara a semente.
A ideia cresceu e, enfim, foi colhida na manhã de um dia de afazeres. Enquanto arrumava a sela, Joshua e deixou um tanto frouxa.
Era assassinato. Ele sabia.
Ele não se importava.
E agora estava ali, ao longe, encarando o corpo sendo enterrado, enquanto Andrew lhe apertava os dedos.
Andrew ainda não era lorde, não tinha idade para assumir o compromisso. Lady Sophie tomaria a administração até Andrew ser capaz disso.
Isso Joshua soube no dia seguinte quando Andrew veio a despedir-se dele.
— Vou ser educado na corte — explicou, os olhos cheios de lágrimas. — Cuide de Lis para mim, por favor.
Joshua o abraçou, apavorado. Não imaginara que perder Hor o faria perder Andrew. — Quando eu voltar serei Lorde do Castelo Branco, e Lis será minha esposa. E você, meu irmão, terá meu nome, e eu dedicarei minha vida para vê-lo feliz.
Pouco depois, Andrew se afastou. Jamais ouviu, mas Joshua murmurou baixo palavras que ele jamais pensou em professar: — Obrigado, meu irmão…
Lady Elisabeth
O Castelo Branco localizava-se em uma enorme colina, ao norte do reino de Bran. Aquele lugar era terra fria, desde os tempos antigos. Aliviava um pouco próximo do solstício, quando o sol nascia com mais força e o tempo aquecia um pouco.
Apesar disso, ainda era de matar vivente que ousasse desafiar a temperatura, ainda fazia os ossos doerem, uma fumaça esbranquiçada escapar da boca sempre que alguém respirava, e ainda precisava-se cobrir-se com muitas mantas e buscar sempre alguma fogueira acessa para aquecer as mãos.
Mas, quando não havia escolhas, as pessoas tomavam atitudes impensadas. E foi naqueles dias terríveis que Elisabeth Brace decidiu fugir.
Sempre foi uma covarde, em tudo. Recordava-se de ser levada, criança, ao Castelo Branco pelo antigo Lorde. Tinha seis ou sete anos quando o pai morreu e ficou desamparada. A mãe havia falecido tempos antes, no parto de Anna. Então, ela e a irmã menor, que tinha cinco anos, chegaram naquele lugar como moedas de trocas cujo único valor era o sangue que tinham nas veias.
Instantaneamente, soube que havia entrado em um pesadelo. Lady Sophie era cruel, quase desumana, em seu modo de educar.
Anna, com sua personalidade geniosa e conflituosa, logo foi descartada e enviada a corte, para viver no reino, enquanto buscava um marido que pudesse sustê-la. Mas, quieta e sem força, Sophie viu em Elisabeth o par perfeito para seu amado Andrew.
Aquela garotinha sem voz e assustada era presa fácil, e o foi.
Tão logo chegou, soube seu destino. Um destino sem escolha, mas, que não a desesperou. Andrew era gentil e doce. O sorriso afetuoso a conquistou instantaneamente. Contudo, ele também era pequeno, e não tinha poderes enquanto não crescesse e tomasse a posição que lhe pertencia.
Enquanto Anna bailava na corte, Elisabeth era moldada para ser boa esposa.
E, na opinião de Sophie, uma boa esposa era alguém submissa e completamente manipulável.
Ela conseguiu aquilo de Elisabeth. Não fora fácil, é verdade, mas os bofetões que desferira na menina mostraram facilmente que ela não admitia erros.
Um ponto mal feito no bordado? Socos.
Falar sem permissão ou num tom alto demais? Presa por dias sem comida ou água no calabouço.
Errar o sal num dos pratos que Andrew mais gostava? Era posto gelo em sua boca, sufocando-a até que ela gritasse de dor.
Com várias formas de persuasão violenta, por fim, Lady Sophie moldou a esposa perfeita. Doce, gentil, sem voz, dependente, vassala e, definitivamente, assustada.
Uma esposa que serviria ao propósito: procriar.
Ora, era só abrir as pernas e deixar que crianças saíssem de lá.
E, obviamente, ser útil da maneira que pudesse. Os afazeres domésticos eram essenciais, na opinião de Sophie.
Porém, a Lady mãe não imaginava que a jovem ruiva de intensos olhos esmeralda escondia no coração um desejo imenso pela fuga.
E a oportunidade aconteceu na manhã do dia que a Lady havia ido em viagem para uma das cidades vizinhas a fim de negociar cereais.
Com os servos ocupados em montar os equipamentos de viagem, ela colocou um capuz velho e saiu a caminhar pelos arredores do castelo.
Não foi notada. Apenas um pequeno menino pareceu reconhecê-la, mas nada disse, enquanto a via caminhando pelos corredores abarrotados.
Durante o tempo que andava, imaginou se era a sua melhor saída. Porém, que escolha tinha? Sempre ouvira falar que Andrew voltaria para casa quando ela tivesse vinte anos. O
ovem amigo de sua infância estava sendo educado no reino de Masha, e ela já estava pronta para ser tomada por ele.
Porém, Elisabeth havia completado vinte e três primaveras há poucos dias. O atraso de Andrew lhe trouxe desespero. As agressões de Sophie não paravam, a prisão do Castelo a sufocava, e o noivo havia mandado uma missiva de que estava no Reino de Cashel para aproveitar a enorme biblioteca de lá, montada pela Rainha Rhianna há séculos, esposa de Randu, o sábio.
Andrew provavelmente a cria em segurança, mas a verdade é que a cada dia de sua ausência, ela afundou-se em dor e desesperança.
Existia, é claro, Joshua. O irmão bastardo do noivo era seu único amigo. Era ele que se esgueirava durante a madrugada em sua janela, para lhe dar doce de framboesa (Sophie não lhe deixava comer doces para que não engordasse), e era ele que lhe contava como era o mundo lá fora, a sensação de andar a cavalo, sentir o vento contra o rosto, ou simplesmente dançar nas rodas noturnas das festas dedicadas a Bran pelos servos do Castelo Branco.
Ao decidir fugir, pensou em falar a ele. Contudo, não queria deixá-lo em uma má situação caso tudo saísse errado.
Sophie odiava Joshua. O que poderia acontecer ao amigo caso ela fosse pega?
Por fim, chegou ao portão. À sua frente, a imensidão verde da floresta parecia um mar aberto, tamanha sua grandeza. Sentiu o coração pulsar rapidamente e uma felicidade sem tamanho em seu coração.
Elisabeth Brace, a calada noiva, enfim seria livre. ***
O corpo feminino balançava-se sobre o seu. Eda, a filha de um lavrador, parecia ainda mais perfeita, nua, movimentando-se languidamente.
Já haviam se satisfeito naquela manhã. Ela passara a noite com Joshua e, ao acordar, esfregara-se como uma gatinha manhosa contra o corpo musculoso do cuidador dos cavalos.
Ouviu o riso erótico dele, e então subiu contra seu quadril, encaixando os corpos naquele ritmo sexual que era tão proveitoso.
O sexo foi rápido, mas eles logo voltaram à dança erótica da sedução. Joshua era ovem e vigoroso, sempre pronto a foder, sempre disposto a dar a ela ou a qualquer outra mulher o que elas desejavam.
E todas o queriam.
Era belo, mais que todos os outros. Alto, forte, ombros largos, cabelos escuros, olhos tão pretos como carvão. Um braiano legítimo, apesar de bastardo.
— Senhor Josh — ouviu uma voz infantil, de menino, na parte baixa do celeiro. Eda caiu o corpo para o lado, rindo baixinho, enquanto se escondia entre as mantas. — O que é? — Joshua gritou, erguendo-se nu e caminhando em direção à proteção que dividia o pavimento superior ao inferior do celeiro.
Lá, entre o feno, o garoto Adam sorriu para ele. — Preciso falar com o senhor.
— Estou um pouco ocupado agora — devolveu, ouvindo a risada mais alta de Eda. — É sobre Lady Lis — o menino explicou.
Joshua arqueou as sobrancelhas. Subitamente, ficou nervoso.
— Ela que se vire — a voz de Eda ecoou pelo celeiro. — Estamos ocupados aqui! Porém, percebeu pouco depois que Joshua se vestia, deixando a mulher em nítido estado de revolta.
— Vai me deixar por aquela puta? — ela gritou, insatisfeita.
Segundos depois, sentiu o rosto ser erguido com violência. As mãos grandes, que tanto lhe deram prazer na noite que passou, espremiam sua bochecha enquanto o rosto bravo do homem aproximava-se do dela.
— Nunca mais fale assim de Lis — ele ordenou, seu hálito quente deixava nítido o quanto se segurava para não agredi-la. — Respeite a sua senhora.
— Não é minha senhora — Eda negou. — Não ainda. — Mas será! Andrew está voltando.
— Para seu desespero, não é? — Provocou, corajosa, apesar do perigo. — Acha que não vejo como olha para ela?
O aperto no seu rosto ficou mais firme.
— Cuidado com o que fala — ele murmurou. Então, largou-a de lado.
— Já terminamos, Eda — disse, afastando-se. — Não me procure mais. Já enjoei de você.
O grito de puro ódio ecoou pelo celeiro, mas Joshua já estava de fronte ao garoto. — O que houve com Lis? — indagou.
***
A estrada estava abarrotada de gente. Não havia saída segura para a jovem senhorita. Ou arriscava-se em cruzar pelas pessoas que poderiam vir a lhe notar e obrigá-la a retornar para o castelo, ou tentava a sorte pelas montanhas geladas que dividiam o Castelo Branco do restante do reino.
Decidiu pelas montanhas. O risco de resvalar naquela estreita trilha que circundava o montante de pedras era enorme. Abaixo, havia um enorme lago congelado que lhe dava mais pavor e medo. Se caísse, era morte certa.
Mas, antes a morte que a vida no Castelo Branco. Precisava, desesperadamente, escapar das garras de Sophie. Se tivesse sorte, encontraria Andrew. Se ele a amasse e a quisesse por esposa, poderia retornar. Caso contrário, se seu atraso fosse provocado pelo asco ao noivado, ela seguiria em frente.
Tinha sangue real. Alguém na corte lhe daria teto.
Enquanto escalava a montanha, tentou segurar nas pedras do enorme paredão. O vestido não facilitava em nada sua aventura. O tecido pesado, e as várias camadas que lhe protegiam do frio enroscavam-se nas pontiagudas pedras.
Elisabeth sentiu os olhos molharem, enquanto o vento ardia contra seu rosto. Era tão frio… tão desesperadamente frio… Mas, havia um caminho a seguir.
Alguns metros acima, ela pôs o pé sobre uma rocha que parecia firme. Apoiou-se levemente, experimentando o quão sólida era a pedra. Ao imaginá-la segura, enfim, deu um impulso.
Foi seu erro.
A pedra desmoronou no exato momento que ela perdeu o equilíbrio.
Sentiu o corpo projetando-se no ar, enquanto o pulmão parecia incapaz de absorver oxigênio.
Segundo depois, despencava dentro do lago congelado. O frio parecia uma lâmina afiada e ela sentiu todo o corpo travar, como se estivesse sendo morta num ritual cruel.
Tentou se debater, mas não tinha forças. Nunca imaginou que a água gelada era assim, destrutiva.
Afundou como uma pedra pesada. Quis gritar, em desespero, mas quando abriu a boca, mais água entrou no seu corpo. Então tudo foi escuridão, e a morte que ela desejou por anos enquanto era trancada dentro do castelo, enfim a atingiu.
Porém, tão logo teve essa sensação, sentiu-se sendo puxada, e um corpo firme segurar o seu. Na escuridão, pensou ser o ceifeiro.
Estava errada.
***
Joshua arrastou o corpo feminino para a relva coberta de neve. Lis não respirava, e ele logo bateu em seu rosto, tentando fazê-la voltar a si.
Em sua mente, todos os pensamentos de culpa pareciam assolá-lo. Por que não percebeu sua intenção de fuga?
Por que não apurou o passo, em seu encalço?
Por que perdeu tempo com a filha do lavrador enquanto Elisabeth estava arriscando a própria vida?
Lágrimas vieram aos olhos ao perceber que ela não reagia.
Sabia das leis e sabia que não podia fazer nada além dos breves toques (Lis era prometida de seu irmão!), mas, baixinho, pediu perdão ao Deus Bran, e curvou-se diante dela.
Abriu seus lábios e encostou sua boca naquela, pálida, praticamente morta.
Assoprou com força lá dentro. Então voltou-se ao ventre e empurrou as mãos algumas vezes na sua barriga. Voltou a assoprar. Repetiu o gesto certa de três vezes, até vê-la tossir e cair do lado, vomitando a água gelada.
com força.
Só então ela passou a tremer. Mas, não era um simples tremor. Havia sido encharcada pela água gelada do lago. Ele também, mas não estava disposto a pensar em si.
Enquanto Elisabeth batia os dentes quase ao ponto de trincá-los, Joshua olhou a volta. Próximo, havia uma caverna. Ele sabia, já havia se esgueirado com várias mulheres por ali. Algumas, até casadas.
Erguendo-a nos braços, rumou em direção à montanha, buscando desesperadamente salvá-la antes que fosse tarde demais.
Tão logo estavam protegidos do vento, largou-a no chão. Lis não conseguia falar, apenas tremer. Então, rapidamente, ele recolheu gravetos e pedras. Raspando uma pedra na outra, em segundos, com experiência, conseguiu uma fagulha e fogo.
— Preciso tirar sua roupa.
O tom era explicativo. Ela arregalou os olhos, como se aquilo fosse um dos maiores pecados do universo, mas Joshua não se importava com nada além de salvar a vida de Elisabeth.
— Não vou olhar — disse, tentando tranquilizá-la, enquanto arrancava o capuz, a camisa branca, o vestido e, por fim, as anáguas.
De fato, ele não olhou. Deixou-a nua próxima da fogueira e torceu as vestes, até retirar todo o líquido que as encharcava. Então, estendeu-as perto do fogo.
Não podia levá-la para o castelo sem que o tecido houvesse secado. Ela poderia morrer de frio no trajeto.
Só então percebeu que também tremia. Esgueirar-se, nu, com Lis, era completamente fora de cogitação. Mesmo assim, precisava tirar a roupa molhada, ou morreria antes de salvá-la.
— Lis — chamou, e a percebeu se encolher mais. — Eu também ficarei nu — tentou ser tranquilizador, e soube que ela entendeu, apesar de não encará-lo. — Por favor, não olhe — brincou.
Não viu, mas conseguiu imaginar seu sorriso irônico. Conhecia-a bem, durante todos aqueles anos.
— Vamos ficar bem — prometeu. — No final tudo vai dar certo… ***
quentes, e eles se vestiram, enquanto continuavam praticamente colados à fogueira. Cada um em um canto, encaravam as labaredas com pensamentos alheios. — Por que não me avisou?
A indagação dele não era maldosa ou crítica. Era apenas uma dúvida, e foi com seriedade que ela respondeu.
— Você tentaria me impedir. — Por que tem tanta certeza? — É leal ao seu irmão.
Era verdade. Joshua amava Andrew, apesar de não vê-lo durante todos aqueles anos. — Você é minha amiga, e eu a amo — afirmou, contudo.
— E o que faria?
— Eu partiria atrás de Andrew — disse, firme.
— Nem sabemos onde ele está. E, se não o achasse? Ou se demorasse anos para encontrá-lo? Eu sei que, se pudesse, você já teria ido.
Joshua não conseguia entender os motivos do irmão. Por que se atrasava tanto em assumir seu posto? Havia um castelo e uma linda noiva a sua espera.
— Se ele desistiu do casamento, o que será de mim, Joshua?
Um homem sem sobrenome não tinha, pelas leis, direitos de desposar uma mulher. Enquanto pensava nisso, Joshua imaginava que daria a própria alma para poder se casar com Lis.
Mas, alimentar um sonho era alimentar o desespero. O quão destruído ficaria quando a visse desposada por outro homem? Amava-a em silêncio por todos aqueles anos. E isso era tudo que teria.
Percebeu então os olhos cor da pedra esmeralda a encará-lo. Sorriu.
— Obrigada — ela murmurou. — Por ter salvado minha vida. Daria a dele em troca da felicidade daquela mulher.
— Você não precisa agradecer — afirmou. — Sabe que não existe nada que não faria por ti.
Momentos depois, ela abandonava seu posto ao lado da fogueira e aproximava-se dele. Abraçou-o, aconchegando-se em seu peito, ouvindo o coração masculino bater rapidamente.
— Nós vamos escapar do inferno, Joshua — Elisabeth sussurrou. — Vamos ser felizes.
Andrew e Anna
O som ritmado da valsa adentrou os ouvidos de Andrew. Ele sorriu, imaginando os pares a bailar no grande salão, um dos prazeres da vida de todo nobre.
Havia retornado a Bran há poucos dias. Antes de voltar para casa, contudo, resolveu visitar o novo Rei. Agora, estavam sozinhos em uma sala anexa.
Angus, que estava de costas para ele naquele momento, encarava pela enorme janela quadrangular, o reino a sua frente.
Andrew sabia que o amigo estava nervoso pela nova responsabilidade, mas também reconhecia que não havia ninguém mais preparado que Angus para o cargo.
Ambos cresceram juntos, em Masha. Educados com os mesmos professores, tinham em comum, além de terem nascido na mesma terra, a vontade de serem bons governantes, senhores dispostos a fazerem o povo feliz.
— Você sabe — Angus murmurou, enquanto bebia um líquido de cor avermelhada, — eu jamais aceitaria um casamento imposto. Mas, como o conheço bem, vou permitir
que despose Elisabeth.
Angus soube da parente distante pelo próprio Andrew, que lhe contara sobre o noivado durante os anos que passaram juntos. Tentou pedir ao pai, o falecido monarca Norman, que a livrasse do compromisso, mas as leis pelas quais os seus antepassados tanto lutaram pareciam esquecidas em Bran.
Angus jurou que faria diferente quando voltasse e se tornasse Rei. Contudo, agora estava abrindo uma exceção. Não por Andrew, mas por Lis. O amigo era um cavalheiro, um homem honrado, e a faria muito feliz.
— Não tenho palavras para agradecer sua benção — Andrew afirmou, erguendo-se e andando até ele. — É uma honra para mim que aprove esse casamento.
— Está voltando para o Castelo Branco?
— Atrasei-me por demais, meu amigo. Noiva nenhuma devia esperar tanto por um homem, como Lis esperou por mim.
Angus sorriu. — Você a ama?
— Desde que me lembro — ele assentiu. — Eu quis muito ser um bom senhor, não apenas pelo meu povo, mas também por ela.
Angus aproximou-se, apertando seus ombros.
— Então, aproveite o restante da festa. Irá voltar para casa no final da semana, não é? — Sim, passarei antes em alguns centros de mercancia. Pretendo firmar alguns contratos.
— Muito bom — o Rei assentiu.
falar sobre seu casamento. Sorriu. O amigo era muito fácil de ler. — Exista algo além que possa fazer por você?
Andrew sorriu.
— Existe — concordou. — E eu sei que fará depois de me ouvir… ***
Andrew dobrou o papel cuidadosamente. Depois, guardou-o por dentro do casaco de linho leve.
Bran não era um reino frio. Apesar de, no norte, o gelo cobrir quase toda a sua extensão, ali, na capital, as pessoas usavam roupas frescas e com pele à mostra.
Nada como em Masha, no entanto. O reino da Deusa era excessivamente caloroso, fazendo sofrer aos seus descendentes ruivos de pele pálida.
Andrew também sofreu, no tempo que lá esteve. Acostumado ao frio, ele sentia o ar faltar e o corpo suar tanto que procurava os banhos públicos mais tempo que o desejável.
Porém, acabou.
Mais de uma década longe de casa, ele já sentia o perfume de rosas de Lis. Podia ouvir o tom da voz dela em sua mente, e também o calor emanado pelo amor fraterno de Joshua.
Não pensou na mãe, estranhamente. Durante todos aqueles anos, era por Lis e por Joshua que ele queria retornar.
Sophie não era uma má genitora, mas… aquela frieza ao falar lhe dava arrepios. Definitivamente, não sentia falta dela.
Um grupo de jovens esbarrou nele, rindo. Percebeu o flerte, mas o ignorou. Muitas mulheres o queriam, e nem todas eram pelo seu valor em ouro.
Andrew era bonito. Não tão forte quanto o irmão menor, mas era agraciado com um físico impecável. Polido de modos, de palavras gentis, ele tinha uma alma agraciada pela humanidade. Não tinha sangue de Bran, mas era honrado como o Deus que o governava.
E, exatamente como o Deus que o governava, foi despertado por uma figura de cabelos flamejantes que lhe atiçou com um olhar sedutor.
Era sempre assim… Bran e Masha… uma atração impossível de evitar. E ali, naquele amontoado de gente festejando, ele a percebeu entre todas, como se uma luz emanasse dela, e o tocasse profundamente.
A mulher, ruiva de olhos verdes, era uma descendente pura de Masha, pelo que podia notar. A pele era tão pálida, e ela era tão esplêndida, que, sem perceber, Andrew viu a si mesmo aproximando-se da beldade, com um sorriso no rosto, e a perturbação de alguém que jamais havia visto criatura tão bela.
— Senhorita — ele curvou-se diante dela, estendendo a mão.
A jovem sorriu. O sorriso mais belo que ele já havia visto em toda a sua vida. — Dê-me a honra de uma dança?
A mulher se levantou. Risinhos abafados pelos leques o circularam. As moças que acompanhavam a encantadora ruiva pareciam muito animadas por aqueles passos de valsa.
Porém, era apenas uma dança, Andrew disse a si mesmo.
Havia sido leal a Lis durante todos aqueles anos. Nunca a traiu, com ninguém. Mesmo que várias mulheres se mostrassem disponíveis, ele as rejeitava. Pensava apenas na noiva, amiga de sua infância, e na fidelidade que queria demonstrar a ela.
Porém, naquele instante, Lis ficou esquecida. Enquanto afundava seu olhar negro naquele mar verde esmeralda, tudo nele arrebatou-o de tal maneira que se esqueceu de si mesmo, do noivado firmado por seu pai, e na honra que tão bravamente adquiriu pelos anos.
Dançou com ela a noite toda. Sentiu, por alguns segundos, o corpo feminino tocar o seu e extasiá-lo.
Quando o sol começava a nascer no horizonte, e a festividade por fim se encerrava, ele a deixou próximo de um corredor.
— Foi um prazer — curvou-se, beijando seus dedos, sentindo o coração rasgar-se. Não queria deixá-la. Por quê?
— O verei novamente? — a ruiva indagou. — Não, querida — ele negou. — Nunca mais.
Ela assentiu. — Meu nome…
— Não. — interrompeu-a. — Não me diga. Não quero ter um nome para pensar, durante os anos…
— Por que diz isso?
— Sou noivo — assumiu. — Tenho um compromisso. — Que jamais quebraria? — ela indagou, audaciosa.
Ele sorriu. Ela era exatamente como diziam serem as mulheres de Masha: atrevida e objetiva.
— Jamais — recuou. — Sou um homem de palavra.
Aquele beijo ficaria com ele para a eternidade.
— Se eu o ver novamente, o farei meu — jurou. — Porque caso um dia nosso destino se confronta, é sinal de que os deuses nos querem juntos.
Sem palavras, Andrew a percebeu dar-lhe as costas e sumir no corredor. ***
— Uma viagem? — Lady Berna a encarou, um riso zombeteiro surgindo em seu rosto.
A jovem ruiva devolveu o sorriso, dessa vez permitindo que uma gargalhada surgisse em sua garganta.
— Ora, ora… — deu os ombros. — Quero ver minha amada irmã antes que se case. Berna lhe estendeu o pires com a xícara de chá. Ambas passavam à tarde pós-festa aproveitando para pôr as fofocas em dia.
— Você não presta, Anna — Berna afirmou. A recriminação soou como elogio.
— Sou como Masha. — O orgulho transparecia em seu olhar. — Eu não espero o destino acontecer. Eu o faço com meus próprios méritos.
— Vai roubar o noivo de sua irmã?
— Andrew é um idiota. Foi muito fácil seduzi-lo. Apenas, me mostrei à disposição, encantei-o com minha beleza, deixei com que meus seios, às vezes, tocassem seu peito, e o seduzi com uma conversa idiota de destino. Caiu na minha lábia como um imbecil.
Berna suspirou.
— Mas, pense em Elisabeth. Sua irmã…
— Arrancou tudo de mim! — ralhou. — Enquanto eu cresci na corte, tentando arrumar marido, ela já tinha um desde a infância. Por que a preferiram a mim? Sou mais bonita, mais interessante, tenho mais personalidade. Você não a conhece, mas me recordo de quase morrer de tédio ao lado dela. Era uma sonsa.
— Mesmo assim — Berna tentou trazer-lhe juízo.
— Quero mais é que Lis sofra! Vou tomar tudo dela. Seu noivo, sua posição, tudo… Berna tentou iniciar um discurso para trazer a razão à amiga, explanando que a própria Elisabeth não havia feito nenhuma escolha, mas foi em vão.
Mais tarde, enquanto arrumava suas roupas para a viagem, Anna meditou nos seus próprios motivos.
Não sabia, ou não queria saber, que suas razões iam além de vingança. Era sua personalidade, seu jeito, que a fazia querer tudo para si.
Ela não amava Andrew. Na verdade, não se importava sequer um pouco com ele. Quando o viu a primeira vez na corte, desviou os olhos. Só passou a querê-lo quando soube que ele era um Clark.
E então armou a noite da festa.
E armou um futuro casamento para a irmã, com o homem mais detestável e nojento que ela sabia existir dentro de Bran.
Mais tarde, aproximando-se da carruagem que a levaria até o Castelo Branco, encontrou-se com Lorde Barton.
O homem era uma das espécies mais asquerosas que Anna já havia conhecido na corte. Era grande, quase dois metros de altura, e tinha linhagem de Cashel e Bran. Apenas o sangue, claro, porque de caráter, em nada lembrava os dois deuses.
Anna fez sexo com ele algumas vezes, em troca de favores. O sexo antes do casamento era abominável, mas Barton era excessivamente discreto. Até porque, como não o seria?
O homem gostava de meninas jovens, mocinhas ainda virgens. Tanto é que pagou bem caro para Anna pela primeira vez dela. Depois, aparentou perder o interesse.
— Nos veremos em duas semanas? — ela indagou, sorrindo.
— Sua irmã é virgem? — ele trouxe o centro da prosa novamente à tona. — Pelo que investiguei, ela mal pode sair de dentro do castelo.
— Não quero mercadoria danificada — ele ralhou. — Se quisesse putas, casava com você.
Anna suspirou, nervosa. — Ela é virgem — afirmou.
— Só vou aceitar esse casamento porque o Rei quer que eu me case. Mas, que pelo menos eu veja sangue na primeira noite — perseverou.
— O senhor é um chato, Lorde Barton. Tem que confiar mais em minha palavra.
— Não confio em bocas que já chuparam meu pau — ele devolveu, fazendo o sangue de Anna ferver.
— Sabe que tive motivos para fazer isso.
— Sim, vestidos novos, informações sobre o tal lorde de Clark, ou qualquer coisa fútil que sua buceta pudesse comprar. Nunca fez nada por necessidade, o Rei Angus sempre lhe deu tudo que precisasse. Foi bem alimentada, vestida e cuidada dentro da corte. Mas, para ti, nada basta.
— Sinto um resquício de raiva em seu tom. Barton, por fim, suspirou.
— Eu teria me casado contigo — admitiu. — Não é você que eu quero.
— Não vai aguentar um mês ao lado de alguém como Andrew Clark. Ele é um puritano.
— E quem disse que eu irei aguentar? — ela aproximou-se, resvalando o corpo no do outro. — Eu terei amantes. Se for bonzinho, até mesmo você, cunhado.
O riso frouxo dele encantou-a.
— Espero que seu plano dê certo e eu não perca a viagem. Anna gargalhou.
— Eu nunca jogo para perder, Lorde Barton. ***
Zenon conhecia Sophie desde que a Lady nascera.
Havia sido um dos primeiros a estar no seu quarto, pois trouxera lençóis para a mãe de Sophie, durante o trabalho de parto.
Era criado, servia na cozinha, mas, aprendera com o pai a usar a espada e a ter lealdade aos nobres.
Quando Sophie casou-se com Hor Clark, seguiu com ela. Sua fidelidade era tamanha que passou a viver por ela.
Não era amor, nem paixão, era veneração.
Sophie era muito bonita, quase uma deusa. Mas, contudo, não tinha um coração generoso. Sempre fora maldosa, e a faceta se mostrara mais nítida com Elisabeth, a pobre criança que viera morar no Castelo Branco.
Não que aquilo o impressionasse ou o incomodasse. Todo nobre tinha seu brinquedo de tortura. O falecido Hor Clark batia no bastardo Joshua, porquanto Sophie desabafava suas mágoas através do corpo frágil de Elisabeth.
Assim, tão logo sua senhora saiu, ele ficou de olho na jovem Lady. Quando percebeu seu sumiço, entrou em desespero. Porém, depois, o bastardo surgiu com ela, molhada, nos braços. Pelo que entendera, Elisabeth saíra para caminhar e acidentalmente caíra dentro do lago.
Se contasse a Sophie, Elisabeth poderia morrer. Ela estava de cama desde o episódio, o frio pareceu ter a tocado até a alma, e a febre despontou por vários dias.
Se não contasse, estaria em confronto com seu senso de lealdade.
Por fim, quando Sophie surgiu através da portinhola da carruagem, dias depois, ele a observou com o coração num misto de dúvida.
Tal semblante confuso foi instantaneamente percebido por sua senhora.
— O que ela aprontou? — questionou, já sentindo a necessidade de tocar no couro do chicote.
— Saiu para caminhar — disse de imediato. — Mas, sofreu um acidente. Sophie permaneceu rígida.
— Se machucou?
— Não, apenas ficou com febre. Já está melhor. A mulher respirou fundo, pausadamente.
— Elisabeth se safará dessa vez — contou ao homem. – Um mensageiro me encontrou no porto e me comunicou de que Andrew está retornando.
— É mesmo?
— Sim, e não quero que meu filho encontre uma mulher machucada — deu os ombros.
Zenon assentiu.
— Também tivemos notícias da corte, minha senhora. Lady Anna virá ver a irmã antes do casamento — relatou.
Em todos aqueles anos, Anna nunca havia feito uma visita. Sophie estranhou a história, mas não se ateve a ela.
— Parece que teremos tempos bem estafantes — anteviu. — Ao menos posso contar com você? — sorriu para o homem.
Capítulo 03
Irmãs
Joshua encarou o bonito alazão com o olhar cheio de compaixão.
Enquanto esfregava unguento de peixe com ervas na pele carregada de ferimentos, ele imaginou porque os nobres eram tão cruéis com aquelas bonitas criaturas.
Ora, não dependiam delas para atravessar as cidades ou fiscalizar o campo? Por que então toleravam ou até mesmo praticavam açoites nos equinos?
O cavalo remexeu-se, enquanto parecia sentir alívio pelas mãos doces a lhe tratar as feridas.
De todos, aquele bonito cavalo negro trazido de Cashel era o favorito de Joshua. Provavelmente, por ser escuro e por ser selvagem. Tormenta, como era chamado, não gostava das selas, e nunca permitia que alguém sentasse sobre seu lombo.
Sua personalidade geniosa lhe valia as surras, praticadas a mando da senhora do Castelo Branco.
Se tivesse qualquer voz dentro daquela terra, Joshua jamais permitiria que aquele formoso cavalo sofresse nas mãos cruéis.
Mas, ele era menos que o animal. Ele era um bastardo, fruto de pecado e iniquidade. Então, tudo que podia fazer, e fazia, era cuidar de Tormenta após os castigos.
O som na porta do estábulo chamou sua atenção. Voltou-se para a entrada e viu Lis, com os olhos transbordando lágrimas e um sorriso que dizia mais que qualquer palavra.
— Andrew voltou? — ele questionou, muitas sensações aflorando-se em seu coração. — Não… — negou. — Não ainda, mas enviou uma missiva. Estará até o final da semana no Castelo Branco.
Ela correu em sua direção. Por alguns segundos, Joshua quis dar-lhe as costas, negar-lhe o abraço, mas sabia não ser justo.
Lis não era culpada dos sentimentos que ele passara a sentir. Elisabeth sempre foi noiva de Andrew e sempre foi fiel ao amor que nutria pelo irmão.
Ela era uma mulher honrada, uma mulher decente. Era ele, como sempre, o errado. — É o fim do nosso tormento, meu amigo — ela murmurou, o rosto apertado contra seu peito.
Sem conseguir se controlar, ele ergueu as mãos e a apertou contra si. Só Bran sabia quando poderia tocá-la novamente. Provavelmente, nunca mais. A veria sempre, contudo. A ter os filhos de Andrew, a servir e seguir o irmão. Mas, nunca mais estaria disponível para ele, nunca mais o abraçaria, nunca mais lhe teria liberdades.
Mas agora…
E ele? Seria aquele que passaria toda a vida a observá-la ao longe, sem direito de sequer murmurar seus sentimentos.
— Você o ama?
A pergunta de Joshua surgiu por acaso, sem que ele pensasse. Havia brotado em seus lábios e ele foi incapaz de contê-la.
Percebeu Elisabeth se afastando, o olhar assombrado. — É claro — ela sussurrou.
Doeu, mesmo que ele já aguardasse a resposta.
— Eu sei que ele a fará muito feliz — afirmou, querendo morrer naquele instante. Elisabeth pareceu disposta a retrucar a frase, mas o som dos sinos no portão fizeram ambos olharem assustados para a porta.
Ela não podia sair do castelo, e só os deuses sabiam como Elisabeth estava ali sem vigia. Se Sophie tivesse percebido seu sumiço, seria punida.
Contudo, quando se aproximaram da porta, perceberam que era a chegada de uma carruagem que havia atraído à atenção dos servos.
O transporte de tração animal parou próximo deles.
O condutor saiu rapidamente da parte externa e alta, e saltou até a porta, abrindo-a com destreza.
De lá, uma ruiva de aparência exótica surgiu sob o olhar acanhado do par. Por alguns segundos, Joshua imaginou quem seria a ninfa de cabelos vermelhos, quando ouviu então a exclamação abafada de Elisabeth, que correu até a mulher.
Trocaram um abraço. O de Lis era carregado de sentimento, lágrimas que explodiam em seu íntimo e resplandeciam em sua face. O semblante da outra, contudo, era de indiferença.
— Joshua — Lis voltou-se para ele, tão logo a soltou. — É minha irmã — apresentou. — Lady Anna.
O que era aquele olhar carregado de fogo? O homem percebeu imediatamente a química explodindo entre eles, mas fingiu indiferença. Sabia que Elisabeth, inexperiente, nada perceberia, mas ele era incapaz de flertar com qualquer mulher na frente dela.
— Muito prazer — disse, depois de um tempo.
A mulher sorriu, e voltou-se para Elisabeth. Fingia ignorá-lo, provavelmente porque era um lacaio de roupas surradas, mas não escondia um sorriso malicioso na face.
— Vim para o seu casamento — contou.
— Nada poderia deixar-me mais feliz — Elisabeth afirmou.
Depois disso, a amiga acenou para ele. Joshua sorriu enquanto a via caminhando com a irmã em direção ao castelo.
Talvez nunca tivesse Elisabeth, mas pelo que percebeu, divertir-se-ia muito com Anna.
***
— Mal posso acreditar que está aqui! — Elisabeth exclamou.
A voz estridente e aguda da irmã estava lhe dando nos nervos. Mesmo assim, sorriu, falsamente, como se a presença da mais velha fosse agradável.
— Quis tanto revê-la, minha irmã. Mas, Lady Sophie nunca me deixou ir à corte. O que era uma sorte, Anna pensou. Porque ter Elisabeth seguindo sua sombra enquanto aproveitava a juventude seria o inferno na terra.
— Sua sogra parece uma pessoa difícil — murmurou.
Sophie a havia recebido com o semblante carrancudo. Como Anna não se importava nem um pouco com a mulher, ignorou-a. Quando fosse a senhora daquele Castelo, colocaria Sophie em seu devido lugar.
— Ela é — Elisabeth concordou, mas não prosseguiu a falar, pois a entrada de uma serva calou-a.
Enquanto a mulher arrumava as roupas, Anna percebeu o espírito acanhado de Elisabeth. De cabeça baixa, mãos sobre o colo, e o olhar tímido e perdido, ela quase gargalhou ao notar a irmã era completamente alheia ao ódio da serva.
Era muita ventura encontrar uma aliada em seu primeiro dia no Castelo Branco.
— Elisabeth — chamou-a, doce. — Poderia me emprestar um penhoar? O meu está com um cheiro ruim, devido à viagem.
A irmã assentiu e saiu do quarto. Aproveitando o momento, Anna aproximou-se da morena.
— Sou lady Anna — se apresentou. A mulher a encarou.
— Eda, minha senhora.
Anna avaliou-a alguns segundos. Não queria cometer erros.
— Notei que não olha com respeito ou carinho para minha irmã. — Está enganada, senhora.
Respostas automáticas que não lhe convenciam nenhum pouco. — Está com uma amiga, querida. Também a desprezo.
Só então o olhar de Eda pareceu se iluminar. — É difícil simpatizar com uma mosca morta.
Anna jogou a cabeça para trás e gargalhou.
— Diga-me, Eda — apertou o ombro da outra, numa clara demonstração de carinho. — Está disposta a ser minha aliada para nos livrarmos da mosquinha incômoda desse
castelo?
— Com certeza, Milady.
— Ótimo! — Anna então andou até o espelho. No reflexo, sua silhueta perfeita lhe deu ares de superioridade. — Conte-me tudo sobre Elisabeth… Especialmente, existe algo que minha irmã ama, além do noivo?
***
Joshua soube da presença dela antes mesmo de vê-la a espreitá-lo naquela noite gelada.
Sorriu, antevendo o encontro, sabendo que a noite seria por demais agradável, que teria uma mulher extremamente bonita e desejável nos braços e que, por alguns segundos, poderia fingir que estava com Lis.
Mas, claro… jamais seria Lis.
Anna era mais bela que a irmã. Mais sedutora. Tinha formas voluptuosas, olhar lascivo e resplandecia sexo.
Contudo, jamais seria Lis…
O corpo de Joshua podia ser libertino, mas o coração era leal.
— A senhora está perdida? — volveu a ela, que surgiu sem cerimônia na porta do celeiro. — Uma Lady não deve andar desacompanhada durante a noite — apontou, sorrindo.
Então, ela entrou.
Não parecia ter planejado nada, mas agia por impulso. Era guiada pela fome no meio das pernas. Uma mulher daquelas não se contentaria em observar os braços fortes e o corpo vigoroso. Joshua sabia que Anna queria sexo, queria ser fodida por todos os buracos que possuía, e ele lhe daria tudo que ela viera buscar.
— Tire a roupa — mandou.
Pela luz provinda da fogueira ele passeou o olhar pelas formas generosas. Era deliciosa, como poucas mulheres no mundo o seriam.
Quando os seios fartos surgiram diante do homem, Joshua estremeceu. Aquela fêmea faria qualquer homem perder a cabeça.
Caminhou rapidamente até ela. Segurou o rosto entre as mãos, estudando aquele olhar febril.
— O que você quer de mim? — questionou, para ter certeza.
— O que uma mulher como eu iria querer de um vassalo como você? — ela disse, ferina, machucando fundo o orgulho masculino. — Me coma como nunca comeu outra. Quero que me faça delirar de paixão, que destrua minha consciência, e que não permita que nada atrapalhe nosso ardor.
Enquanto a empurrava contra a parede, Joshua arrancou a calça. Anna gemeu, enquanto sentia as pernas sendo abertas. Circundou a cintura de Joshua, gritando como uma cadela no cio, enquanto aranhava as costas do homem, esfregando-se nele, lambuzando-o com seu desejo.
Não houve muita preparação, nem precisava. Ele enfiou-se nela com destreza, fazendo-a ronronar. Depois, socou com força seu membro avantajado, quase arrancando sangue.
O primeiro orgasmo dos muitos daquela noite os atingiu rapidamente.
Anna tornaria aquela semana inesquecível. Seria a puta do bastardo, de todas as formas que pudesse.
Escolha
Joshua mordeu o lábio inferior enquanto sentia o clímax aproximando-se.
Deitado sobre as palhas secas, ele observava o teto amadeirado, enquanto, abaixo dele, a boca de Anna devorava seu membro avantajado.
Voltou o olhar para ela. O verde febril o excitou ainda mais. Com a língua, ela deslizou os lábios sobre uma veia saliente, e então engoliu inteiro seu membro, em movimentos ritmados, a cabeça indo para cima e para baixo, cada vez mais rápida.
Sentiu que ia gozar e gemeu, num urro de agonia e prazer. Tentou afastar a ruiva, mas ela permaneceu firme e apenas sussurrou: — Derrame na minha boca.
Nunca havia tido uma mulher como ela, tão desprovida de pudores. Exibia sua nudez para ele sem artifícios, levava-o ao céu durante o sexo, e oferecia mais do que as outras. Numa das noites que o buscou naquela semana divina, deu as costas ao homem, ficando de quatro sobre a palha. Seu rosto carregado de lascívia chamou-o.
— Enfia no buraco… — ela mandou, numa ordem direta e arrogante.
Jamais havia se fundido com uma mulher daquele jeito, mas adorou. Adorava tudo nela. Por isso, murmurou contra seus cabelos suados, horas depois, enquanto ela descansava nua sobre seu peito: — Fuja comigo.
Um bastardo não tinha direitos. Não apenas não poderia assumir uma propriedade ou algum posto importante num feudo, como também não poderia se casar. Mesmo uma mulher sem posses lhe seria negada.
Contudo, se fugissem para onde ninguém os conhecia, para as terras além de Masha, talvez… talvez…
Subitamente, ela ergueu-se nos cotovelos e o encarou. — Te darei tudo que pedir, mas isso não, meu amor…
Era a resposta esperada. Não ficou magoado nem triste por ela. ***
Elisabeth surgiu diante dele com um sorriso feliz nos lábios. Andrew chegaria ainda naquele dia e, pelo que parecia, Sophie enfim a deixara livre para zanzar pelos arredores.
Joshua nunca a havia visto mais feliz. Tudo nela resplandecia alegria. Os olhos brilhantes, a pele ruborizada, e sua emoção visível pela forma que caminhava e gesticulava.
O homem odiava aquilo.
Não bastava sabê-la impossível para ele, ainda teria que presenciar sua excitação diante da chegada do irmão.
Havia mais que raiva em seu íntimo. Era culpa, igualmente.
Andrew sempre foi um bom irmão. Ele não tinha qualquer direito de se sentir como sentia. Então, recolheu e afundou sua mágoa dentro da alma, e sorriu para ela.
— Quando será o casamento?
— Não sei, Joshua — pareceu nervosa. — Penso… Será que ele ainda quer se casar comigo?
Que homem seria louco de desprezar aquela mulher? — É claro que sim…
— Ele não me vê há mais de uma década. E se eu não for agradável aos seus olhos? — Nenhum homem seria capaz de resistir a sua beleza, Lis — afirmou, corajoso.
Ela sentiu os olhos nublarem pelo carinho que existia no tom da voz.
— Seremos irmãos também, meu amigo —aproximou-se, segurando suas mãos. — E nada poderia me deixar mais feliz que isso.
E nada poderia deixá-lo mais infeliz que isso… ***
— Onde está Anna? — Sophie indagou ao servo Zenon.
Estavam todos os moradores do Castelo Branco diante do palacete, naquele instante. — Não faço ideia, minha senhora. Acho que ainda está dormindo.
Os moradores daquela parte do norte levantavam-se cedo. Aquelas palavras trouxeram a Lady mãe a incômoda e desprezível impressão de que Anna era uma preguiçosa.
Sophie odiava gente preguiçosa.
A carruagem se aproximou da entrada e ela observou Elisabeth com o canto dos olhos. A ruiva estava excessivamente nervosa, ao ponto de tremer e apertar as mãos contra o vestido.
Aquilo era bom. Gostava de vê-la intimidada. A esposa perfeita para seu filho devia e seria completamente submissa.
Então, assim que a portinhola se abriu, surgiu o rosto de Andrew.
Sophie correu em sua direção e o abraçou. O filho era, definitivamente, a única pessoa que ela amava.
Andrew enfim estava em casa.
***
Muitos sentimentos existiam no íntimo de uma mulher. Elisabeth nutria vários deles, mas, nem todos, ela reconhecia.
Sua falta de liberdade lhe cortou também a personalidade. Era incapaz de dizer o que sentia ao ver o noivo, incapaz de saber definir se seu tremor era de alívio ou felicidade. Tudo que desejava era, na mesma medida, aproveitar o portão aberto e sair correndo por lá, o mais rápido que conseguisse, e nunca mais voltar.
— Lis — o som da voz de Andrew chegou até ela. Então, encarou-o.
Ainda tinha o olhar doce de sua infância, mas agora era um homem. Bonito, alto, aristocrata… um exemplo de lorde, ao qual ela devia ficar feliz em desposar.
Mas, então, o que era aquela sensação em sua alma? Aquela necessidade de dizer “não”? Aquela vontade avassaladora de tomar as rédeas da própria vida.
— Eu senti sua falta — disse, no entanto.
Mesmo não sendo correto, Andrew a abraçou, beijando seu rosto. Enfim, eram amigos. Aquilo devia lhe aliviar.
Todavia, quando viu o rosto de Joshua ao longe, lágrimas surgiram em seus olhos. O coração de uma mulher era um lago profundo, cheio de segredos. E Lis percebeu que carregava um terrível com ela.
Ela chorou abraçada a Andrew. Joshua desviou os olhos, e caminhou em direção ao estábulo, fugindo do espetáculo.
Ali estava a confirmação de tudo. Eles se amavam. O irmão e a melhor amiga. Ele devia e respeitaria aquilo, não importava o quão doloroso fosse.
Enquanto isso se divertiria com as mulheres que aparecessem. Teria Anna até enjoar e depois procuraria outra. Alivio físico era tudo que buscava, então aproveitaria o que pudesse.
Subitamente, som de passos no celeiro. Voltou-se a porta, e encarou o homem de cabelos negros e aparência semelhante a sua.
Sorriu.
— Como senti sua falta, meu irmão — Andrew afirmou, enquanto corria até ele e o apertava nos braços.
Mais culpa. Porque, no fundo, Joshua nunca quis que Andrew voltasse. Ou, ao menos, que voltasse ainda querendo a mesma mulher.
Aqueles pensamentos eram ridículos. Se Andrew desposasse outra, Lis seria dada a qualquer homem desconhecido.
Um bastardo nunca a teria, mesmo que a amasse mais que a si mesmo.
— Nós temos tanto a conversar, meu irmão — afirmou o mais velho. — Trago novidades comigo…
Porém, a entrada de outra pessoa interrompeu os pensamentos.
Joshua voltou-se a porta e visualizou Anna. A moça, vestida num impecável e bonito vestido de veludo marrom, surgia ainda mais bela que nunca.
Porém, a beleza dela já não mais o impressionava. O mesmo, claramente, não acontecia com o irmão.
Andrew observava a moça, pasmo. Joshua estranhou a reação, mas preferiu não tecer comentários. O tempo havia passado. Ele não sabia o quanto aqueles anos haviam mudado Andrew.
— Essa é Lady Anna — disse, apresentando-os. — Ela é irmã de Lis.
Só então o irmão pareceu respirar. Curvou-se diante de Anna e segurou seus dedos. Um breve beijo na mão feminina, e rapidamente, afastou-se dela, como se estivesse cercado por demônios.
***
Elisabeth estava sentada próxima à lareira. Quieta, sem expressão, ela parecia apenas uma boneca de porcelana sem vida.
Andrew pensava naquilo quando a comparou a Anna. Enquanto uma irmã era alegre e cheia de impetuosidade, a outra era calada e fantasmagórica.
Entrou no aposento e sorriu para a mãe. Só então deu-se conta da presença de outro homem. Arqueou as sobrancelhas, enquanto o lorde erguia-se e estendia a mão para ele.
— Meu filho, esse é Lorde Barton, de Cashel. Andrew sorriu, aceitando o cumprimento.
— Estive na biblioteca de Rainha Rhianna e fiquei fascinado — disse, elogiando. — Cashel é terra da cultura. Fico feliz que tenha gostado do ambiente. — Pigarreou. — Estava em viagem pelo porto do norte, quando decidi parar aqui e rever Anna, a quem
tenho muito apreço. Espero não estar incomodando…
— Acabo de chegar — Andrew afirmou. — Com certeza sua presença é muito bem vinda.
Então, sentou-se ao lado da noiva.
Novamente, o olhar deles se encontraram. E, mais uma vez, a falta de emoção naquele verde esmeralda o confrontou.
— Estou em busca de uma esposa — Lorde Barton contou. — Uma nobre de boa família. Sabe de alguma por aqui?
— Anna está solteira — Sophie sugeriu, rapidamente.
— Lady Anna e eu somos grandes amigos, mas apenas isso… Apenas amigos. Lady Anna sempre foi muito gentil, porém, é uma moça não muito dada a sentimentos. Antes de sair em viagem, porém, contaram-me de que ela estava apaixonada. Por quem, não sei dizer.
Andrew estremeceu discretamente.
— Enfim, ficarei apenas alguns dias. Agradeço sua hospitalidade.
O novo lorde do Castelo Branco assentiu. Resvalando para trás, na cadeira posta ao lado da fogueira, ele ficou imerso em pensamentos, alheio aos assuntos da corte.
silêncio.
***
Não foi surpresa para Andrew quando bateram na porta do seu quarto tarde da noite. Rapidamente, ele correu até a entrada e abriu-a.
Anna estava ali. Os olhos aflitos, resplandecendo lágrimas, fazendo seu coração arder de medo e expectativa.
— Juro que não sabia que era o noivo de minha irmã — ela afirmou. Ele acreditou nas palavras.
— Eu não sei o que fazer — o homem murmurou. — Sempre acreditei que amava Lis…
— Não posso viver sem você — ela o interrompeu, aproximando-se rapidamente dele. — Eu morrerei se casar com minha irmã.
Repentinamente, beijaram-se, como se toda a culpa por aquele ato os massacrasse e precisasse ser expurgada pela carícia nos lábios.
— Eu escolho você, Anna — disse, assim que se separaram. — Sempre escolherei você…
Abandono
Elisabeth Brace havia vindo poucas vezes naquela sala de administração. O antigo lorde Hor gostava da solidão do aposento e, após sua morte, o local era frequentado apenas por Sophie.
Agora, sentada diante da enorme mesa de madeira polida, ela olhava para o chão, assemelhando-se a uma ratinha assustada diante de um gigante gato.
Não sabia, claro, que Andrew Clark estava tão nervoso quanto ela. O jovem encarava-a sem saber como começar a conversa e sem imaginar como diria as palavras sem magoá-la.
Elisabeth era o sabor doce de sua infância. Aquela a quem ele realmente creu amar durante todos os anos. Porém, agora, sem o véu do compromisso a lhe cobrir os olhos, via nela apenas uma irmã, caso a tivesse.
— O que eu vou dizer — ele começou, nervoso. — É muito difícil, querida.
Elisabeth levantou os olhos. Pela primeira vez, ele viu algo além da completa apatia no olhar assustado. Era curiosidade. Ora, sem a total falta de personalidade, Lis até era interessante.
— Lis — começou, pigarreando. — O tempo que estive afastado mudou meus sentimentos. Eu sei que devia ter lhe avisado disso antes, mas só há poucos dias me dei conta.
Silêncio. Pela forma como o olhar dela focou-se no chão novamente, parecia que a compreensão a tomava aos poucos.
— Eu amo Anna — ele contou, de supetão. — Como jamais imaginei amar outra mulher — completou. — E isso me machuca. Machuca por saber que estou prestes a fazê-la sofrer, Lis, que estarei magoando minha amiga tão querida, ferindo seu orgulho e expondo-a diante do reino. Mas, não poderia me casar com você amando outra. Não é
usto contigo. Não é justo comigo.
Dor? Mágoa? Não havia nada além da completa impassibilidade na alma de Elisabeth. Porém, segundos depois, o pensamento a guiou a praticidade daquela decisão.
— Não irá se casar comigo? — murmurou, entrando em pânico. — O que será de mim?
Ele abandonou a cadeira e caminhou rapidamente até ela. Ajoelhou-se em seus pés, segurando suas mãos.
— Eu a amo, Lis. Você é, e sempre será, minha melhor amiga. Eu prometo que lhe arrumarei um marido honrado. Jamais a abandonaria a própria sorte.
Aquilo devia aliviá-la, mas não aconteceu. Tremia diante de Andrew.
Queria odiá-lo por fazê-la esperar por ele e se sujeitar a Sophie por tantos anos, mas não conseguia. Pela primeira vez na vida, não se importava com ele, e sim, pensava nela. Numa completa sensação de egoísmo, ela só via seu próprio futuro, sombrio, com suas lacunas abertas.
Uma mulher de vinte e três anos sem um marido? Aquilo se tornaria uma grave mancha em seu nome. Quem iria querê-la agora, tão velha, quando todas as donzelas a se casarem tinham no máximo vinte anos?
— Me dê sua benção, Lis — implorou. — Porque se me odiar, eu jamais conseguiria ser feliz com sua irmã.
Ela o encarou. Diante dela, estava o amigo de sua meninice. A primeira pessoa a lhe tratar bem naquele castelo. Queria detestá-lo por tudo que lhe fizera, mas não conseguia. Andrew era um bom homem. Podia tê-la enganado, mas não o fez. Não a estava desamparando, apenas mudara os planos.
Finalmente, assentiu.
***
As novas seriam declaradas no jantar daquela noite.
Elisabeth não via Anna desde o encontro durante a tarde com Andrew. Não sabia como reagiria diante da irmã que lhe roubara o noivo, mas estava tão mortificada pelas novidades que mal conseguira vestir o vestido e caminhar em direção ao salão.
Repentinamente, um riso brotou em seu peito, e ela encostou as costas na madeira fria. Sophie iria ter um colapso quando soubesse que Anna seria sua nora. De tudo, restava o lado bom. Talvez a Deusa Masha estava, enfim, lhe dando uma alegria como recompensa por tudo que já havia passado dentro daquelas paredes.
Sons. Engoliu o riso e endireitou o corpo quando notou a presença do lorde Barton diante dela.
Ele era um homem bonito, apesar de lhe dar arrepios. Sempre a encarava como se estivesse lhe estudando, demorava demais seus olhos sobre o busto feminino e, no dia anterior, quando estendeu a mão para lhe ajudar a levantar-se da cadeira, apertou por tempo demasiado seus dedos.
As mãos dele suavam. Ela odiou a sensação.
Entretanto, logo esqueceu o encontro, porque, de fato, ele em nada lhe interessava. — Lady Elisabeth — a cumprimentou.
Ela abriu a boca para respondê-lo, quando as mãos firmes do homem seguraram sua cintura e lhe puxaram contra o dorso masculino.
Elisabeth debateu-se, diante do toque indesejado, quando a voz masculina a atingiu, sem pudores.