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69882409 Dufrenne Estetica e Filosofia

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Próximo lançamento O Sistema dos Objetos Jean Baudrillard

A procura de um estatuto do objeto estético leva Mikel Dufrenne a se interrogar não só das relações entre Ciência e Filosofia como a redefinir "natureza" vendo-a prolongada na técnica e na prática humanas. Dufrenne compreende a experiência estética como ponto de partida de todas as rotas que a humanidade percorre: ela abre seu caminho à ciência e à ação. Ela manifesta a aptidão do homem para a moralidade. Arte e Semiologia I Expressividade do Abstrato IEstrutura e Sentido Iconstituem no livro alguns dos blocos-conceitos situados no cerne da especulação estética e filosófica contemporânea. ISBN 85-273-0136-9 9 788527 301367

egates

e ates

e ates

filosofia

mikel dufrenne

-ESTÉTICA

E FILOSOFIA

----,

(2)

Coleção Debates Dirigida porJ.Guinsburg

Equipe de realização - Tradução: Roberto Figurelli; Revisão: Mary Ama-zonas Leite de Barros; Produção: Ricardo W. Neves e Heda Maria Lopes.

mikel dufrenne

ESTÉTICA

E FILOSOFIA

SBD-FFLCH-USP 1111111111111111111111111111111111111111

245592

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É

EDITORA PERSPECTIVA

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(3)

Título do original:

Esthétique et Philosophie

© Editions KJincksieck

DEDALUS - Acervo - FFLCH-FIL

\IMIIII~lli\II!1

21000056131

SUMÁRIO

11/Ir dução à edição brasileira 3' edição - 2' reimpressão

t'rrjácio:

A 'ontribuição da Estética à Filosofia . . . .

23

A lgemeen Nederlands Tijdschrift voor Wijsbegeerte en Psychologie, Assen, 56-5, dez. 1962.

Direitos reservados em língua portuguesa à EDITORA PERSPECTIVA S.A.

Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025 01401-000 - São Paulo - SP - Brasil Telefax: (O--ll) 3885-8388

"www.editoraperspectiva.com.br 2002

I. PROBLEMAS FlLOSOFlCOS DA ESTETICA' () Belo

NQ especial da Revue A. S.FI. DE PHI., iun-out. 1961

7

35

(4)

Os Valores Estéticos . . . . 48

Encvclopédie [rançaise, tomo XIX: Filosofia. Re-ligião.

A Experiência Estética da Natureza 60 Revue intcrnationa!e de Philosophie, Bruxelas, 1955. XXX, 1.

Intencionalidade e Estética. . . . . 78 Revue philosophique, P. U. F., Paris, 1954, 1-3.

A "Sensibilidade Generalizadora" 89 Revue d'Esthétique, Paris, 1960, XIII, 2.

li. ARTE E SEMIOLOGIA

A Arte é Linguagem? 103

Revue d'Esthétique , Paris, 1966, XIX, 1.

Formalismo Lógico e Formalismo Estético 150 Annales d'Esthétique, Atenas, 1964.

A Crítica Literária: Estrutura e Sentido 169 Revue d'Esthétique, Paris, 1967, XX, 1.

Crítica Literária e Fenomenologia ' 187 Revue internationale de philosophie, Bruxelas, 1964, 68, 2-3.

A Propósito de Píndaro 204

Revue d'Esthétique, Paris, 1957, X, 2.

lIl. A ARTE HODIERNA

Mal do Século? Morte da Arte? . . . ..

215

Revue d'Esthétique, Paris, 1964, XXII, 3-4.

Objeto Estético e Objeto Técnico

238

The Journal of Aesthetics and Art criticism, eleve-land, 1964, XXIII, 1.

Da Expressividade do A bstrato. A propósito de

uma exposição de Lapoujade

257

Revue d'Esthétique, Paris, 1961, XIV, 2.

6

INTRODUÇÃO

À

Edição Brasileira

I,

Embora sem igualar a importância da

fenomeno-li)

'ia no panorama da filosofia contemporânea, a

esté-11 'U

Ienornenológíca é, hoje, uma das correntes de maior

('onsi tência no âmbito da estética. Sua história é

re-rvntc. O ponto de partida, obviamente, deve ser

pro-vurudo na obra de Edmund Husserl. Apesar de Husserl

11 10

ler escrito uma estética, sua vasta obra contém

('h'Ill<;ntos suficientes para propiciar o surgimento de

11111[1 stética

fenomenológica. Com efeito, a história da

I'~I

I

ica no século XX assinala várias tentativas no

'!'lllid

de imprimir uma orientação fenomenológica

à

IIl'It'xão sobre problemas que, tradicionalmente,

ocu-7

(5)

pam a atenção dos estetas. Assim, por exemplo, devem ser lembrados os sutis estudos de M. Geiger e as pes-quisas de índole fenomenológica de W. Conrad. Tanto Geiger quanto Conrad eram integrantes do círculo berlinense de Max Dessoir. Mas é em Das iiterarische

Kunstwerk' do polonês Roman Ingarden - um dos primeiros discípulos de Husserl no tempo de Goettingen - que deparamos com uma obra organicamente arti-culada, empenhada em responder à exigência de supe-ração do psicologismo, o qual caracterizava a filosofia no final do século XIX. Infelizmente a Aesthetik de N. Hartmann - filósofo que tanto contribuiu para a formulação dos princípios e problemas de uma fenorne-nologia da arte - só foi publicada após a morte do autor, ocorrida em 1953. Na Itália, é difícil avaliar a extensão da influência de A. Banfi como mentor de um grupo de estudiosos que ainda hoje continuam, no cam-po da fenomenologia, as pesquisas do mestre iniciadas na década de 30. Na França, J.-P. Sartre e M. Mer-leau-Ponty encarregaram-se da aclimação da fenome-nologia husserliana. É através deles que surge a figura de Mikel Dufrenne-.

2 . A obra de Dufrenne pode ser dividida, por razões didáticas, em dois setores: filosofia e estética. Mas logo devemos observar que não existe uma separação nítida entre os dois campos. A estética, para Dufrenne, é filosofia. E não é difícil descobrir os traços do esteta no Dufrenne-filósofo, No setor da filosofia incluiría-mos: Karl Iaspers et Ia Philosophie de l'existence', es-crita em colaboração com P. Ricoeur, La Personnalité de base. Un concept sociologique', Language and Phi-losophyr, Ialons: e Pour l'homme', A simples enume-ração dos títulos revela a amplitude de assuntos

abor-(I) Halle, 1931.

(2) Nascido em 19\0, em Clermont, Mikel Dufrenne é professor

efetivo de. filosofia e doutor em letras. Exerceu o magistério em vários liceus e, atualmente, leciona estética e metafísica em Nanterre. :t;:

membro da socuu [rançaise d'esthétique e dirige, com Etienne Souriau, a Revue d'Esthétique,

(3) Dufrenne, Mikel. Karl Jaspers et Ia Philosophie de l'existence ,

en collaboration avec P .. Ricoeur. Paris, t:.d. du Seuil, 1947.

(4) Dufrenne, Mikel. La Personnalité de base. Un concept socio-logique, Paris, PUF, 1953.

(5) Dufrenne, Mikel. Language and Philosophy . Bloomington. Indiana University Press, 1963.

(6) Dufrenne, Mikel. Jalons, Haia, Martinus Nijhoff, 1966. (7) Dufrenne. Mikel. Pour í'homme, Paris. ~d. du Seuil, 1968.

8

dados num arco que se estende desde o estudo sobre a filoscfia de Jaspers até o escrito polêmico

Pour

l'homme, cuja finalidade é "evocar o anti-hurnanismo próprio da filosofia contemporânea, e defender contra ela a idéia de uma filosofia que teria solicitude pelo hornem'",

Na parte estética propriamente dita: o artigo "Phi-I sophie et Littérature", na Revue d'Esthétique 9,

Phé-11 ménologie de l'expérience esthétique, em dois

volu-mes'",

La notion. d":a priori"!', Le Poétiquev

e

Esthéti-que et Philosophiev, cuja tradução a Editora Perspecti-v ora oferece ao leitor de língua portuguesa com o título de Estética e Filosofia. É nosso intuito, nos li-mites de uma introdução, seguir o itinerário da reflexão estética de Dufrenne e situar Estética

e

Filosofia no

. njunto de sua obra.

3. Phénoménologie de l'expérience esthétique foi

a

obra que projetou Dufrenne no cenário internacional da .. tética. O escopo da Phénoménologie é submeter a :xperiência estética à descrição

fenomenológica,

à

aná-tls

transcendental e à apreensão da significação me-tulísica. São três etapas de um itinerário que não atin-iu o término com a última página da Phénoménologie,

111a continua até hoje, tendo passado por La notion

d":« priori" e O Poético. O leitor, acostumado a con-clusões acabadas e definitivas, talvez se decepcione com

1 obra de Dufrenne. Seus livros são o fruto de um

pen-uncnto ágil e indagador, aberto ao contato vivificante rorn a experiência e disposto a repensar os dados 'do pnssado. Só através da leitura atenta de seus livros

-desde a Phénoménologie até O Poético, com o re-Iurs constante da Estética e Filosofia - é possível

1 '( rnpanhar o itinerário da fecunda reflexão do esteta

h

ancês,

Itinerário que não chegou ao fim visto que

ca)

tua.. p. 9.

(9) "Philosophie et Líttérature". Revue d'Esthétique I (1948) pp

'H'I

'O~.

'

,.

(10) Dufrenne, Mike l. Phénoménologie de l'e xpérience esthétique.

1',,01 , PUF, 1953, 2v.

(11) Dufrenne, Mikel. La notíon d'Ha príorí", Paris, PUF, 1959. (I ) Dulrenne, Mikel. Le Poétíque, Paris, PUF, 1963. Em portu-11H O Poético, tradução de Luiz Arthur Nunes e Reasylvia Kroeff de "lI/h, P. Alegre. Ed. Globo, 1969.

(I) Dufrenne, Mikel. Esthéri que et Philosophie. Paris, :f:d.

Klinck-I•• k. 1967.

(6)

ele, atualmente,

trabalha no recenseamento

dos

a

priori

14.

No início da

Phénoménologie,

Dufrenne observa:

"Entendemos fenomenolozia no sentido em que Sartre

e Merleau-Ponty aclimaram este termo na França:

des-crição que visa a uma essência, a qual é definida como

significação imanente ao fenômeno e dada com ele. A

essência está para ser descoberta mas por um

desvela-mento, não por um salto do conhecido ao

desconhe-cido"15.

Sabemos quão difícil é o problema das diferentes

interpretações suscitadas pela obra de Edmund Husserl.

Dufrenne filia-se

à

corrente francesa liderada por

Sar-tre e Merleau-Ponty. Ambos os autores, não obstante

notórias divergências, têm influência reconhecida na

obra de Dufrenne. Ele não esconde seus receios pela

direção idealista do pensamento de Husserl. Daí a

pre-ferência pela interpretação de Merleau-Ponty, que

sa-lienta os aspectos existenciais da fenomenologia, e pela

leitura de Sartre, que dá relevo à idéia de

intencionali-dade e à dimensão antropológica.

Se acrescentarmos

os nomes de Espinoza, Kant, Hegel, Wittgenstein,

Hei-degger, Bachelard e Alain, teremos o elenco dos

filó-sofos que mais têm influenciado Dufrenne,

4.

A

Phénoménologie

está circunscrita à experiência

estética do espectador. Mas existe uma

intercomunica-ção entre a experiência do espectador e a experiência

do artista. Não é possível descrever a experiência do

espectador sem ter presente, ao menos implicitamente,

a experiência do artista. Trata-se, porém, do artista

que a obra de arte revela.

É

na obra, portanto, que

se realiza o encontro entre espectador e artista. E

nes-se ponto a

Phénoménologie

é completada por outros

escritos do Autor. O

Poético

e

Estética e Filosofia

ofe-recem-nos valiosos subsídios para uma fenomenologia

da criação artística.

A maior parte da

Phénoménologie

está dedicada à

descrição fenomenológica seja do objeto estético, seja

da percepção estética.

É

de fundamental importância

a distinção entre obra de arte e objeto estético. Este é

(14) Dufrenne, MikeL "A prtori" et Philosophie de Ia Nature . Filosofia, 18 (1967), p. 723.

(15) Dufrenne, Míkel, Phénoménologie, op, cit., pp. 4-5, nota L

10

objeto percebido esteticamente.

É

o objeto percebido

enquanto estético. A obra de arte, através da

per-cepção estética, se torna objeto estético. Obra de arte

objeto estético não se identificam.

O campo do

bjeto estético é mais amplo.

Abarca

o mundo

natural que, excluído da

Phénoménologie,

aparece em

estética e Filosofial6•

Longa e exaustiva é a descrição do objeto estético.

Paz-se mister situá-Io entre outros objetos: o objeto de

li

e o objeto técnico, por exemplo. A descrição

de-R

nvolve-se através dos três planos noemáticos: o

sen-sível, o objeto representado e o mundo expresso. O

ob-j

t

estético é confrontado com os conceitos de

natu-r'

za, forma e mundo. Dufrenne, então, submete ao

.rivo da crítica as doutrinas de inspiração

fenomeno-)t

gica de J.-P. Sartre, R. Ingarden, B. de Shloeser e

W.

Conrad. Tendo fundamentado seu empreendimento

na realidade do objeto estético e afastado os perigos

do subjetivismo e do psicologismo, ele situa ser e

apa-I'

er em forma de adequação. O ser do objeto estético

til

pende da percepção e só se realiza na percepção.

Por fim, o problema do estatuto do objeto estético.

Visto que o objeto estético é não só um em-si, corno

I unbém um para-si, Dufrenne recorre à fórmula

quase-su] ito

numa tentativa de definir o estatuto do objeto

('NI

tico através da superação da alternativa do para-si

( d em-si.

Aos três aspectos noemáticos -

descobertos na

ti .,

rição do objeto estético -

correspondem os níveis

ti I

presença, representação e sentimento:

três marcos

tio r teiro da fenomenologia da percepção estética.

:E:

I

I 'rceira parte da

Phénoménologie

e, com ela,

Du-trcnnc completa a descrição da experiência estética,

uma das finalidades de sua obra. No plano da presença,

uli mta-se o tratamento dado ao papel desempenhado

pelo corpo na percepção, talvez um dos passos da

/'/1

noménologie

onde mais se percebe a influência de

erlcau-Ponty.

No nível da representação, Dufrenne

11' 11ft

a distinção entre percepção e imaginação. Todo

11

u empenho é demonstrar que a imaginação está na

h

Ic

da percepção e deve ser encarada como sua

cola-hlll ItI

ra. No terceiro momento noético, o Autor

pro-1/,) No artigo: A experiência estética da Natureza, p, 54.

(7)

cura caracterizar a função do intelecto na percepção estética, função importante mas que não deve ser exa-gerada sob pena de transformar a experiência estética em mero exercício racional. O mesmo ocorre com o sentimento: sua posição, no ápice da percepção, não deve levar ao erro de tudo sacrificar em favor do sen-timento. Na atitude estética há uma espécie de osci-laçãc entre a atitude crítica e a ati tude sentimental. 5. Terminada a descrição da experiência estética, é necessário dar um passo além e submetê-Ia

à

análise transcendental. Assim como Kant fala dos a priori da

sensibilidade e do intelecto, Dufrenne procura demons-trar que a experiência estética - ao atingir o ponto culminante no sentimento como leitura da expressão - põe em ação autênticos a priori da afetividade. Tal é o escopo da quarta parte da Phénoménologie, intitu-lada: "Crítica da experiência estética". E aqui nos defrontamos com um exemplo típico da evolução do pensamento de Dufrenne. Após a Phénoménologie, ele volta ao tema em questão, opondo-se à tradição kan-tiana do a

priori

em La notion d"'a priori", publicado em 1959. Sua finalidade é pensar o a priori corno sen-tido imediato do objeto conhecido e não corno condição lógica do conhecimento. Há, portanto, uma deslogi-cização do a priori. Além disso, o a priori é desdobra-do no objeto e no sujeito: estrutura no objeto e saber virtual no sujeito. Em La notion. d"'a priori", Dufren-ne parece afastar-se do contexto da experiência esté-tica. Realmente, a maior parte do livro é ocupada pelo repensarnento da noção de

a priori,

tanto do ob-jetivo, quanto do subjetivo. Mas na terceira parte ("O homem e o mundo"), o leitor depara com algumas das mais profundas páginas do livro onde Dufrenne, após ter situado o homem e o mundo em termos de afini-dade, efetua o salto do transcendental ao ontológico.

Já no final da Phénoménologie, o Autor tentara a apreensão da significação metafísica da experiência estética. Seu propósito, porém, ficou invalidado ao pôr em dúvida a necessidade da crítica se voltar para a cntologia. Mas em La notion d":a priori", após ter ordenado a dualidade do a priori numa unidade que abrange os dois termos, Dufrenne propõe a idéia de

12

um ser anterior ao a priori: é o "a priori do a priori" a solução para o salto do transcendental ao ontoló-gico e para o exame da significação ontológica da

xperiência estética. E a busca do a priori do a priori I va-o a uma filosofia da natureza - em O Poético - onde a Natureza naturante é concebida como a f nte de todo o a priori, O fato de Dufrenne ter sido obrigado a efetuar a passagem do a priori ao

ontoló-ico, para não cair nas malhas do idealismo, situa sua bra na corrente das íenornenologias de inspiração ntológica.

6. Contam-se, no elenco das obras de Dufrenne, duas , letâneas: Ialons (1966) e Estética e Filosofia (1967).

Jalons, que reúne artigos sobre os filósofos que mais

o influenciaram, pertence às obras filosóficas propria-mente ditas. Cabe-nos, agora, a tarefa de situar

Esté-li

'a eFilosofia no itinerário estético de Dufrenne.

Os artigos que compõem a obra foram agrupados p ,I Autor em três grandes grupos:

I.

Problemas

filo-)ficos da estética;

lI.

Arte e Semiologia;

IH.

A arte hodierna. Estendem-se de 1954 - portanto logo após

\ primeira edição da Phénoménologie - até 1967, A justificativa do título dado à coletânea encontra-~ na apresentação e no primeiro artigo do livro. Es-f ('( i a e Filosofia porque a estética só pode ser realizada !lO âmbito de uma filosofia e porque a estética é urna vin privilegiada para a filosofia.

Assim ccmo a Phénoménologie, também o artigo

., contribuição da estética à filosofia tem o seu ponto

IIl' partida na descrição da experiência estética, O

ho-11\ .m é um ser-no-mundo. E estar no mundo leva o

ho-II1l'm a buscar o fundamento que consiste no acordo do homem com o mundo. Daí a importância da experiên-ri I estética, Ela reconcilia o homem consigo mesmo.

1-111

manifesta a aptidão do homem para a ciência e .para 1\ moralidade, E isso porque a experiência estética "se

ItUI

na origem, naquele ponto em que o homem, con-tundido inteiramente com as coisas, experimenta sua fllllllliaridade com o mundo" 17. O fato de a estética re-111 tir sobre a experiência estética - uma experiência

11rif.llrlHl, segundo Dufrenne - reconduz o pensamento (I

n

Dufrenne, Mike1. Estética e Filosofia. op . cit ., PP. 8·9.

(8)

e a consciência à origem. Nisso reside a principal con-tribuiçê o da Estética à Filosofia. São visíveis, aqui, as pegadas de Kant e de Merleau-Ponty.

7.

Não passa despercebido ao leitor da

Phénoméno.-logie a recusa do Autor a utilizar o belo p~ra desc~?nr

a obra de arte e delimitar o campo do objeto estético. Mas se levarmos em conta três artigos de

Estética e

Filosofia -

O Belo, Os valores estéticos e Obj;to

es-tético e Objeto técnico -

veremos que, no computo

geral, a noção do belo adquire consistência na estética de Dufrenne.

Há uma exigência de valor na vida. O valor não é só o que se procura.

f:.

aquilo ~ue é encontrad~. O valor é ser. O objeto - porque e valor - se afirma e persevera no seu ser. Há seis tipos diferent~s de valores: o útil, o agradável, o amável, o verdadeiro, o bom e o belo. Cada qual corresponde a modos espe-cíficos da intencionalidade e o conjunto abarca o campo das relações do objeto com o sujeito.

Vimos que o objeto estético é a obra. de arte, ~n-quanto percebida esteticamente .. Se o obJeto. estet~co corresponder à sua vocação, realizar sua fmalid~de m~ trínseca, for - numa palavra - ele mesmo, entao ser a um objeto de valor.

Ao sensível, primeiro plano noemático, deve estar imanente um sentido. Quanto mais perfeita for a ade-quação do sensível com o sentido, tanto maior será a perfeição do objeto estético. E o conceito de belo, segundo Dufrenne, se identifica com a perfeição do ob-jeto estético. O belo é o 'perfeit~, ~ acab~do. O contr~-rio do belo, por conseguinte, nao e o feio. É o

aborti-vo no caso de uma obra criada com pretensões a

objeto estético. .

O homem é um ser-no-mundo. Ele tem necessi-dade de se sentir bem, no mundo, entre as coisas. E pelo fato de precisar se sentir no mundo, o homem ~em necessidade do belo. Ele é capaz tanto de apreciar, quanto de criar beleza. . Assim se justific~. a divisão proposta: estética do artista

(fazer)

e estética do es-pectador

(aparecer).

A estética de Dufrenne reconhece o belo. Reabilita e enaltece o belo. Sua estética, po-rém, para evitar os perigos do relativismo e do subje-tivismo, não apresenta uma teoria do belo.

14

R.

Objeto estenco e obra de arte não se identificam. ) conceito de objeto estético é, como vimos, mais

am-I : inclui a obra de arte e o objeto natural.

f:.

possí-vel viver uma experiência estética tanto diante de uma obra de arte, quanto perante a natureza. Toda a

Phé-1/0 111énologie, por razões de método, está dedicada

à

, periência estética da obra de arte.' Essa experiência \, ob o ponto de vista fenomenológico, a mais esc1a-rcccdora de todas. E Dufrenne afirma que a

contem-pla ão

da obra de arte estabelece a norma da experiên-ia estética. Mais uma vez

Estética e Filosofia

nos oferece a complernentação necessária para termos uma

visão de conjunto do pensamento do Autor.

Em primeiro lugar, deve ser mantida a distinção entre as duas experiências. Mas o lugar de relevo atri-huído à experiência diante da obra de arte não pode

1'verter em detrimento da experiência estética da

na-turcza. Assim como não há oposição entre natureza , arte, também não é possível forjar um antagonismo

-ntrc

as duas experiências tanto mais que Dufrenne vem

pro ressivarnente elaborando uma filosofia da Natureza. I.m O

Poético,

por exemplo, a noção de natureza é

11m; entada em referência ao mundo, ao homem e à

"te.

Nesse sentido, é de fundamental importância a

distinção, de origem espinoziana, entre Natureza natu-runtc e natureza naturada",

A Natureza naturante é espontânea, capaz de re-('1<1 ão e de expressão. E ela que inspira os artistas. () artista, ao criar a obra de arte, responde ao apelo da Nruureza. A arte é, portanto, necessária à Natureza.

Mus

a Natureza naturante precisada natureza naturada. I' II se revela e se exprime na natureza naturada. A

11 1l11rCZa naturada testemunha em favor da Natureza

1\ illI rante.

No artigo

A experiência estética da Natureza

o 111101' encontrará ampla descrição da experiência

pe-111111' a natureza: âmbito, condições de possibilidade,

111l1Í1 s, vantagens. Entre essas, sobressai o sentimento

Ili . naturalidade com a natureza.

f:.

o parentesco

, 'I'I que une o homem à natureza e o faz sentir-se "li 1 mesma raça" com os entes e as forças que com-1'1"111 semblante da natureza.

( tH) A grafia do termo "natureza", em maiúscula ou m-inúscula.

1111111~i " dist inção entre os dois conceitos.

/5

(9)

~---Embora não seja nosso intuito apresentar uma crítica à filosofia da Natureza elaborada por Dufren-ne, não podemos deixar de chamar a atenção para a existência de certas dificuldades que envolvem

°

seu empreendimento. Tais dificuldades poderiam ser com-prendidas na pergunta: será que o empenho de Du-frene em sublinhar a conaturalidade do homem com a natureza não o induziu, talvez inconscientemente, a favorecer a natureza em prejuízo do homem?

9. No artigo Iruencionalidade e estética, o Autor

re-toma e continua a reflexão sobre certos temas básicos da Phénoménologie. A noção de intencionalidade está no âmago da reflexão filosófica. A. de Muralt vi sua-liza duas dimensões na idéia de intencionalidade: Ie-nomenológico-transcendental e fenomenológico-descri-tiva. Dufrenne, juntamente com Sartre e Merleau--Ponty, inclui-se na dimensão fenomenológico-descritiva, Para ele, a experiência estética do espectador pode servir para esclarecer a idéia de intencionalidade e dar peso à interpretação merleau-pontyana. Isto por-que a percepção estética "procura a verdade do objeto, assim como ela é dada imediatamente no sensível?",

Do .mesmo modo como o artista se aliena na criação da obra de arte, assim o espectador se aliena na per-cepção estética: entrega-se totalmente

à

manifestação do objeto. Efetua-se, então, a redução fenomenoló-gica. Real e irreal são neutralizados. Tudo, com exceção do mundo do objeto estético, é posto entre parênteses a fim de que o sujeito possa apreender o fenômeno, isto é, o objeto, e viver uma experiência estética.

A obra de Dufrenne está sob o signo do binômio monismo-dualismo inserindo-se, destarte, na problemá-tica da filosofia moderna que não evita a oposição entre sujeito e objeto e, ao interrogar o ser, põe em questão aquele que interroga. Não é o momento oportuno para verificar se Dufrenne pertence às fileiras do monismo ou do dualismo. Interessa-nos, porém, sublinhar a exis-tência de um liame, tecido pela intencionalidade, entre sujeito e objeto na experiência estética. Ora, da cons-tatação desse liame, ele passa à idéia de uma

comuni-(19) Dufrenne, MikeJ. Estética e Filosofia, op, cir., p. 51.

16

cação originária entre sujeito e objeto. O objeto es-tético, aliás, está duplamente ligado ao sujeito. O artista cria a obra de arte. O espectador, através da percepção, é responsável pela epifania do objeto esté-tico. O artista expressa seu mundo interior no objeto de modo que, na experiência estética, o espectador tem acesso ao mundo do artista. Daí ser correto nomear o mundo do objeto estético pelo nome do artista: mundo dc Racine, Mozart ou Van Gogh.

Segundo Dufrenne, a comunicação originária entre sujeito e objeto - conseqüência da idéia de intencio-nalidade - encontra sua explicação última na noção de a priori. "A intencionalidade significa, portanto, que homem e o mundo são da mesma raça: a comunica-çã que ela conota se funda numa comunidade'w.

A fenomenologia é uma doutrina. Doutrina que propõe um método. Dentre as aplicações do método

r

nomenológico, sobressai - em Estética e Filosofia

a crítica. À crítica, Dufrenne dedica dois profundos rrtigos: A critica. literária: Estrutura e Sentido e Crítica

lit

irária e [enomenologia, Em ambos os artigos, além d que se refere especificamente à crítica literária, de-paramos com o pensamento de Dufrenne a respeito da crltica de arte em geral. É o Dufrenne teórico da crí-tlca e crítico penetrante das mais importantes teorias qu norteiam a atividade dos críticos de hoje. Algumas

11

ias desses artigos, principalmente as restrições em f "C do estruturalismo, retomarão em Pour l'homme. () principal interesse, entretanto, reside na comprovação 11, que os princípios da fenomenologia encontram

apli-içao

prática em setores de tanta atualidade, como é o

I IS da crítica literária.

I(). Não nos é possível apresentar uma análise

por-111l'1) rizada de Estética e Filosofia. Na perspectiva em

'I1l nos colocamos, o principal interesse do livro reside

11 1 primeira parte. Isso porque os artigos incluídos sob I1 t tulo de "problemas filosóficos da estética" ser-VI /11 de aprofundamento e complementação a temas de IIIIH rtância decisiva no itinerário estético de Dufrenne.

nfase que damos à primeira parte não deve levar o tor 8 menosprezar as outras duas partes. Nelas se

tI) Ibiâ., p, 58.

(10)

encontram dados de real valor que muito nos auxiliam a ter uma visão geral da obra de Dufrenne.

Além dos já mencionados artigos sobre crítica, me-rece ser citado o longo estudo A arte é linguageml , onde Dufrenne, colocando-se na esteira de Husserl, Wittgens-tein e Merleau-Ponty, aborda, sob diferentes pontos de vista, o problema da linguagem. Na Phénoménologie, a linguagem auxilia a compreensão do fenômeno da expressão. Em O Poético, ao confrontar a linguagem com a prosa e a poesia, aprofunda a idéia de expressão. Em Estética

e

Filosofia é visível a preocupação de Du-frenne em delimitaras campos da Semiologia e da Lin-güística e em esclarecer a maneira pela qual deve ser entendida a asserção "a arte é linguagem"

Na última parte do livro, mais precisamente no artigo Mal do século? Morte da

artei ,

Dufrenne apre-senta uma das mais lúcidas análises da arte contem-porânea efetuadas na década de 60. O autor não se contenta com observações superficiais mas, fiel

à

voca-ção filosófica da Estética, procura as causas dos atuais fenômenos artísticos para melhor cornpreendê-los e

in-terpretá-los.

E no artigo

Da

expressividade do abstrato

Dufrenne coloca-se, como espectador, diante da pintura figurativa e da pintura abstrata para, num segundo tem-po, revelar-se um crítico exímio ao esclarecer e julgar a pintura de Lapoujade. Nesse artigo não passa des-percebido ao crítico o engajamento do artista na pro-blemática de nossa época, como também não passa des-percebido ao leitor o entusiasmo de Dufrenne ao real-çar os aspectos humanos e sociais da exposição de La-poujade.

Como todas as coletâneas que reúnem estudos efe-tuados em momentos diversos, Estética e Filosofia é um livro desigual. Um juízo de valor não pode deixar de tomar em conta a diversidade de assuntos abordados, os motivos que suscitaram os artigos e o longo período que se estende de 1954 a 1967. Não obstante a inevi-tável desigualdade que transparece duma leitura atenta, cremos que é possível, com o auxílio desta introdução, ter uma visão de conjunto da obra de Dufrenne e do seu itinerário estético. Além de servir como comple-mentação e aprofundamento aos temas básicos da es-tética de Dufrenne, Estética e Filosofia é um convite

à

~eitura e estudo das demais obras de um dos vultos mais Importantes da estética contemporânea. De fato o em-~re:nd.iment~ de Mikel Dufrenne ganha em forç~ e con-sistencra se tivermos presente que sua estética preenche uma lacuna da fenomenologia e afirma a possibilidade de uma estética Ienomenológica,

ROBERTO FIGURELLI

(11)

Reuni aqui, com o gentil consentimento das re-vistas nas quais apareceram, artigos cu]a redação se rscalona por uma quínzena de anos. Deverei descul-l'lr-me ou, ao menos, dar uma explicação? Para o 11111 r é um modo de fazer uma revisão, de conseguir ,It'/Iurança a respeito de si mesmo, mantendo sob o olhar ntonremos diferentes de sua pesquisa: feliz se, na falta

'/1'

um progresso certamente impossível num domínio finde sempre se está no começo, constata, ao menos rm seu pensamento, através dos diversos problemas que IIhorda, certa continuidade. Quanto ao leitor, talvez /'/t' observe que essa continuidade é posta em questão I'do modo de escrever a palavra natureza, ora com,

fi! Isem maiúscula: sinal de que se elahorou

progressi-\'(/I//(mle a idéia de uma filosofia da Natureza. Mas

(12)

se faz mister acrescentar que essa filosofia impõe o

duplo modo de escrever, segundo se nomeia a natureza

naturante ou a natureza naturada. Em todo caso espero

que o leitor seja sensível

à

diversidade dos probLemas

suscitados nestes textos: tal tolerância somente

preten-de solicitar a reflexão e seu único

mérito

reside na

mul-tiplicidade de vias

TUlS

quais se engaja.

E necessário também justificar o título desta

cole-tânea.

O primeiro artigo a isso se dedica, querendo

dizer que a estética só pode se realizar

JU)

interior de

uma filosofia e também que a estética é uma via

privi-legiada para a filosofia. Priviprivi-legiada para o autor, em

todo o caso; mas talvez o leitor esteja pronto a segui-Ia

por um momento.

23 M.D. Prefácio A CONTRIBUIÇÃO DA ESTÉTICA

À

FILOSOFIA I

r.

~~tes de con~truir conceitos ou máquinas, enquan-li, <I, nc~va as. pnmeiras ferramentas, o homem criou

"~iI()~.,e Pld~tou Imagens. Mas essa prioridade não pode

II rCIVIDicada tanto I

1"-I 1"-I di pe a Te 19IaO, quanto pela arte?

",_, rsputa, provavelmente, não tem sentido nesse pri~

uu-rro momento da humanidade R I' ,- ,

I II

I'

t d ' , J, e 19lao e arte so

I I S ar e se distInguirão verdade' , ,

11

fi

.icnte com reende Irame~te, AqUI e

II Ilnme d h P r que a arte espontanea exprime I 1\ li, o, ornem com a Natureza. E é nisto que a

a vai meditar ao considerar uma experiência 22

(13)

25

original, ela reconduz o pensamento e, talvez, a cons-ciência à origem. Nisto consiste sua principal contri-buição à filosofia.

Não se trata, porém, de remontar

à

noite dos

tem-I

pos: a estética não é a história, e a pré-história que ela

Iexplora não é a das sociedades sem história mas, na

f

história, a das iniciativas que em todas as épocas

edifi-I

cam a cultura e descortinam uma história. Sim. Cada ,~ssas iniciativas - o olhar novo que um homem lança à paisagem, o gesto novo que cria uma nova for-ma - se inscreve na cultura. A estética, entretanto, dirige a atenção para o âmbito que se situa aquém do cultural. Em que é que ela se empenha? Mais do que em apreender o natural, enquanto se opõe e se liga ao cultural, em apreender o fundamental: o próprio sen-tido da experiência estética, ao mesmo tempo aquilo que a fundamenta e o que ela fundamenta. Para esta pes-quisa será invocado o patrocínio de Kant: o que torna possível a experiência estética é sempre a questão crí-tica. a qual pode ser retomada se orientarmos a crítica para uma fenomenologia e, depois, para uma ontologia. Outro cuidado de Kant é determinar o que essa expe-riência torna possível e de que modo garante a busca do verdadeiro e atesta a vocação moral do homem. Re-tomemos, portanto, livremente a Crítica do

Iuizo,

Mas antes de abordar o problema crítico, é neces-sário descrever rapidamente a experiência estética. O primeiro problema colocado por essa descrição já

in-I

tegra a estética na filosofia: o que é o hom;m-?illl!.@ntosensível ao~b 10 isto é, enquan o

capaz-do

apreciar a be eza segun o a normatividade do gosto, e de produ-zi-Ia segundo os poderes da imaginação? O belo

é

um valor entre outros e abre caminho aos outros. Mas o que é um valor? Não é só o que é procurado, é aquilo que

é

encontrado: é o próprio de um bem d$-;um ohje-to que resgonde a algumas de nossas tendências esatis-raz a gurnas

de

ffo-ssro- nec~~ãCfés.

"'"í\:

exigenclaae va or está enraizâdâ" na VI a eõValor está enraizado em certos objetos. Aquilo que vale absolutamente não vale no absoluto, mas em relação a esse absoluto que é um sujeito, quando ele se sente ou se quer satisfeito por um objeto, real ou imaginário, que aplaca sua sede de bebida, de justiça ou de amor. Há uma sede de beleza no homem? Énecessário dizer que sim, a não ser que

se veja nisto uma necessidade artificial despertada ou em todo o caso? orientada pela cultura; mas é sempre a natureza que Inventa a cultura, mesmo que seja para nela se .negar. I7ssa sede não é nem muito exigente, ne~ mu_Ito consciente (e isso explica que nossa civil i-zaçao n~o. a ~enha sempre em muita consideração e ten-da. a privilegiar a funcionalidade, por exemplo, na ar-quitetura ~ n~ organização, do ambiente de vida); ela se .torna conscia quando esta satisfeita. Por quem? Por obJe~os que ofere~em aJ?t!nas sua presença, mas cuja plenitude se anuncia gloriosamente no sensível. O belo é esse valor que é experimentado nas coisas bastando que apareça, na _gratuidade exuberante da; imagens, quando a percepç~o cessa de ser uma resposta prática

OoU quando a praxis cessa de ser utilitária. Se o homem

na experiência estética, não realiza necessariamente sua vocaç~.o, ~o menos manifesta melhor sua-condição: essa expe~IencJa revela sua relação mais profunda e mais :strelta c~m o mundo. Se ele tem necessidade, do belo, e n medI em ue recis se sentir no mundo. Estar no mundo não é ser uma coisa entre as coisas, é sentir--se em casa en~re as, co.isas, mesmo as mais surpreen-dentes e as I1!-als terríveis, porque elas são expressivas. Or~,. um sentido se desenha na. própria carne do objeto estet~co,. como o vento que aroma a savana; um signo nos e felto~O q~~l ~os remete a si mesmo: para signifi-car, o objeto ilimita-se n?m mundo singular, e esse mundo e o qu~ ele nos da a sentir. Esse mundo que nos fala, nos dIZ. o mundo: não uma idéia, um esquema ~bs~~to, uma VIsta sem visão que viria se acrescentar a visao, mas um ~s!ilo. que é ,um mundo, o princípio de um mundo na evidência sensível. A superfície do visí-v~l, o que "a duplica de uma reserva Invisível" como d~z - etleau-Pon ~I ~ esse mundo do qüãl ela ~tá

grá-VIda e ue ~OnStItUl o seu sentido. Um sentido que ressoa. ~o mais profundo do corpo, mas que não solicita sua atividade como fazem uma presa, um obstáculo, uma ferramenta ou mesmo um discurso, um sentido que so-~ent~ ,s~ dá a sentir e cuja idealidade é apenas algo l~a~narIo., . pe modo que aJenomenologia da ~xpe-riencia estettca. e.nfrenta diretamente a questão funda-mental do sur81mento da representação na presença: do

(I) Le

Avisible et l'!nvisible,

P.

'37.

(O Visível e o Invisível. Tradução em português pela Editora Perspectiva, Col. "Debates", 1971.)

(14)

nascimento do sentido. E não nos admiramos que Mer-leau-Ponty ten a meditado sobre a linguagem indireta da arte e sobre as vozes do silêncio.

O sentido só pode aparecer nessa expenencia se todas as potências da consciência nela já estão presen-tes. A percepção estética é a percepção aberta e feliz que atesta essas potências e solicita a reflexão sobre elas. Ao mesmo tempo, ela anuncia e prepara para a consciência o seu futuro, fundamenta-o, como dizíamos há pouco. Primeiro, o fato de o homem ser sensível ao

elo indica, con orme Kant, sua iptlilãõpãr.a_a..morali-dade. O acordo livre das faculdades, que desperta em nÓs um sentimento de prazer, se produz quando seu exercício é como que sublimado: o intelecto se supera rumo à razão quando os conceitos se ampliam em idéias estéticas e quando a brancura do lírio se torna símbolo da inocência; e a imaginação se liberta do domínio do intelecto refletindo a forma do objeto e "se divertindo na contemplação da figura'". O acordo situa-se, por-tanto, em um ponto de concentração no supra-sensível, que atesta a vocação do homem para a racionalidade e, no domínio prático, para a moralidade. Não é ne~s-sário, para aceitar essa análise, conceber o _supra-sensí-ve como uma superaçao ra ical dosensível, e

a

mora-lidade como a su missão a"Uma iormãPilrã

trãnscen-ente a fado conteúdo. O que retemos de Kant é, em primeiro lugar, a idéia de uma harmonia espontânea e feliz das faculdades; a ex eriê '~sté íc econci-lia-nos conosco mesmo: ao abrir-nos à presença do objeto, não renegamos nosso poder de conhecer, dei-xamo-nos penetrar por um sentido, sem dúvida inde-terminado, mas insistente, que pode ser o símbolo de um predicado moral, como os cumes o são da pureza ou as borrascas das paixões. f.lém disso, o belo não estimula como um estímulo qu uer, e e inspira, mo i-Ig~---ª_alma mtelra':e ãtõfria disponível, f: sobre esse fundo que se desenham as figuras da moralidade, na medida em que requerem simultaneamente um engaja-mento total da pessoa e o poder de superar o real ru-mo a um irreal que pode ser um ideal.

É também para o verdadeiro que o homem se

di-rige ~toâa:ã::::ã ma. O ]uízo que visa - à verdwe

(2) Kant. Critique du Lugement , § 16. (3) Poétique de Ia veríe, p. 10.

coloca em jogo eSSe acordo das faculdades, e o juízo determinante só pode manifestar a autoridade do inte-lecto legislador porque o juízo que reflete manifesta, primeiro, a possibilidade de um acordo de todas as Faculdades. ~ eriência estética rtanto, teste-munha uma aQtidão ...Q.homem para a ciência. A ciên-cia é suscitada pela praxis e, sõbretudo, pelos fracassos dessa praxis.

ciê

cia, enquanto teoria, - é cons-trução de conceitos e, depois, e máguinas ue

produ--zem o jetQ1! a medica os concei!os - provém do pen-samento que é juízo. Esse pensamento é delirante en-quanto ãimaginãÇáo exerce sua liberdade fora de todo controle do intelecto, como no sonho; mas o delírio se abranda e se torna promessa de razão quando a imagem se carrega de sentido ou quando se torna, pela operação do gênio, idéia estética. lndubiamente a poesia não é ciência, mas a prepara, não só ao provocar o pensa-mento positivo por meio de obstáculos epistemológicos, mas ao exercer o intelecto em objetos ainda imaginá-rios, E ela também a confirma: a verdade de uma teo-ria sem re se recomenda Ror sua e egancia, como se o be o ornecesse

antia.a

M.e_Id~ij). ,com êfêito, toda teoria, mesmo quando não ainda formalizada, já é formal, e só é materialmente verdadeira com a con-dição de se-Io formalmente, visto que as deduções que autoriza devem, em primeiro lugar, dar prova de validez segundo critérios formais. Ora, é a forma que se re-vela na experiência estética; e mesmo a imaginação ma-terial, segundo Bachelard, é a qualidade formal do ver-bo poético que a solicita, enquanto o sonhador de ma-térias é "um sonhador de

palavras'";

e, finalmente, a matéria é sempre informada. Contudo, alguém dirá que a forma lógica, que se presta à necessidade lógica, não tem nada em comum com a

Gestalt

que se recomenda por uma necessidade sensível; a necessidade lógica su-põe a linguagem - um simbolismo lógico -, e não há linguagem em arte, só há linguagem em poesia. Do mesmo modo, o formalismo estético que regula uma prática é totalmente diferente do formalismo lógico que constitui um objeto ideal. Certamente. Mas a forma lógica, ainda que só exista para um pensamento capaz de pureza e de rigor, tem certa "forma" que, sem ser sensível, apela para a sensibilidade: há nela como que

(15)

um estilo ideal de encadeamento dos objetos ideais. E,

por outro lado, a prática artística, se o formalismo das

normas nela não exaure a inspiração, cria um objeto

-

real e não ideal -

que "dá o que pensar", e só

agrada com essa condição, na falta da qual ele deixa

indiferente ou só é agradável e vazio. Evidentemente

esse pensamento não

é

ainda o pensamento formal de

um universo do discurso nem o pensamento positivo

do universo científico; é, antes, o sentimen

um

mundQ, de urri possível do real.

as as operações que

~stroem

o possível lógico como trama do real talvez

se preparem nos atos da imaginação que se abre às

fi-guras irreais do mundo ao apreender formas ricas de

sentido.

Apreender essas qualidades formais que

con-ferem a um monumento, a uma sonata ou a uma

pai-sagem a virtude de se expandir sem limites num mundo

possível, é imitar, na ordem do sentimento, o processo

racional que construirá formalismos lógicos para

ex-plicar as aparências.

Poder-se-á, assim, mostrar q~e

a beleza a~la

ara o sa...er: que as idéias

fun-,damentais de invariável, de ordem, de lei, são

su-geridas por certas propriedades dos objetos belos; e

também que a criação de certos objetos da plástica ou

da música requer atividades como contar, medir,

orde-nar, onde a imaginação já é esquematizante, e que

imi-tam os processos da ciência. De ois, uando a

opera-ção da ciência tiver sido realizada, quando as aparências

tiverem

SI Oãesarma as e dominadas, o gosto das

for--mas sensíveis virá reanimar o sentimento insubstituível

d.e uma-plenitude-do ser,e de nOssa familiaridade nativa

cOl!'LJ!le._

Assim a experiência do belo convida a filosofia a

meditar na unidade de sentido da palavra forma (ou

também da palavra estrutura), isto é, na relação entre

a forma sensível dada como

Gestalt

significante,

pró-pria ao objeto estético, e a forma racional elaborada

pelos formalismos que, para

compreendê-lo,

substituem

ao objeto real um objeto ideal.

Em outras palavras,

ela convida a meditar na unidade dessas duas atividades

"complementares como contrários bem feitos", dizia

Bachelard': a poesia e a ciência.

(4) Psychanalyse du teu, p. J.O.

28

Ora, a mesma

experiência

talvez nos sugira que

essa unidade não tem sua origem no

logos

humano,

numa atividade constituinte, mas na própria Natureza.

Pois se pode dizer, contanto que se evite qualquer

in-flexão teológica, que ela sugere à filosofia que vá do

transcendental

à transcendência, da fenomenologia à

ontologia.

E ainda é Kant quem nos ensina, que

pri-vilegia a beleza natural e que, após ter evidenciado, no

juízo estético, o livre acordo das faculdades, considera

o acordo contingente da Natureza com nossas

faculda-des. Sim, a estéti a contemporân a, tão atenta a

des-cobrir no artista a ativida e e um

ego

transcendental

~ análogo àquele que constrói a ciência, ende

qaecer

Y

gue a Nature a-p,rmu a-beleza. Muitas vezes o artista

deve embrar ao esteta que ele é inspirado pela

Natu-l

reza, quanto à sua vocação e ao seu ato, e que ele

exprime a Natureza mesmo-quando dela parece se

apar-t~r: assim como(§; abstr~tdl na operação do sab:r,

VIsa ao real do qual~pro em, o abstrato, na produçao

da arte, diz ainda um mundo que é proposto ao artista

pelo mundo.

E, sobretudo, o artista é provocado pela

beleza do mundo a produzir algo de belo onde a

Natu-reza se exprime.

Ora, pela beleza, a Natureza

mani-festa sua complacência em atenção a nós.

Indubia-mente como lembra Kant, a finalidade implicada pêlo

juízo estético é uma finalidade sem fim, subjetiva e

for-ma cuja realidade reside "na finalidade interna da

re-~çao e nossas

faciildâdés

su15jetivas"s. Mas resta que

a Natureza se ajusta a nós: parece que imita a arte

cujas produções estão deliberadamente ordenadas para

a felicidade da percepção.

Será necessário dizer que

esse acordo é apenas contingente?

Sim, tanto que se

concebe a natureza só sob o aspecto crítico, como o

di-verso empírico, essa matéria-prima que o intelecto

in-forma. Mas o fenômeno da beleza convida a re ensar

a idéia déiiãfureza.

A Natureza capaz de bondade é,

atraves do diverso empírico que nunca é propriamente

natural porque sempre já leva a marca da mão e do

intelecto humano, uma potência escondida, Gaia, a Mãe,

e também a esposa que c

ãinãõ

esposo, nãõCõiDo a

matéria deseja a forma, pois ela já se revela por

for-mas ou por imagens, for-mas como o incQnscien~.-d.esçja

a consciência, como a noite eseja o dia. O homem só

(5) Critique du Jugement, § 58.

(16)

é o correla to dessa Natureza porque

é

o seu produto, o filho; ela fala ao homem ao lhe prodigalizar imagens nas quais se revela, para que ele a diga; sua compla-cência não

é

nem fingida nem fortuita. Isso não sig-nifica, evidentemente, que ela seja premeditada: só o homem põe fins, mas porque ele mesmo é produzido como fim por uma força que só nele se conhece. Assim a arte responde a esse apelo da Natureza: e a a

e;n=-me ao ex nmrr os muu_dos_dos quais está grávida.

a arte celebra aNªJu..r.çza. - - - .

Mas o sábio e o agente moral também respondem a seu modo. Pois o mesmo apelo lhes é dirigido, a mesma inspiração lhes. é dada: também a ciência, ao elaborar teorias ue e.gem~rtos ommlOs e ten em a êoiiVêi-gir numa figura do universo, iz, mas eõütro mo o,

-ª_

a ureza. EenecessárlO, e fãto, que

ã

Na-tureza se preste a isto, que o cinábrio seja constante em sua natureza e que os corpos simples não sejam por demais numerosos: a inteligibilidade do dado, a conveniência quase miraculosa da verdade formal e da verdade material, se podem ser explicadas por uma gênese recíproca do a priori e do a

posteriori, é

na Na-tur~za, ~ aspiração da Natureza à luz, que t~vez

te:-nham sua origem. E o mesmo vale dâ

praxis

técniêa que, longe e fazer, em sua-essência,-violência à a-tureza, trava amizade com ela, conhece-a e a

aperfei-o oa; e cõrii'Oêlanao-desnatura a Natureza,

tambérii

não

;~ aliena necessariamente o homem. Enfim, a ação moral que procura realizar no mundo o conceito de liberdade, que trabalha na promoção, através das vicissitudes ter-ríveis da história, de uma República dos fins, visa a uma relação final da Natureza e do homem: a consti-tuição civil deve ser instaurada pelo homem conforme sua própria razão, mas não contra a Natureza; e se algum progresso é possível, é porque a Natureza quer a cultura, no homem, e no mundo, como aquilo que a desenvolve. De modo que o supra-sensível que tende a se realizar no jogo cego das forças sensíveis talvez seja o desejo do infra-sensível, da Natureza como fundo. Assim a experiência estética pode ser descoberta na partida de todas as rotas que a humanidade percor-re: ela abre o seu caminho à ciência e à ação. E é claro por que: ela se situa na origem, naquele ponto

30

em que o homem, confundido inteiramente com as coi-sas, experimenta sua familiaridade com o mundo; a Na-~ureza se desvenda para ele, e ele pode ler as grandes Imagens que ela lhe oferece. O porvir do lagos pre-para-se no encontro ant~ior

à

lingl!agem onde

é

o Na-tureza que f~la .. \.Natureza natu.ra~")..que Qrodu,z o homem e o mspua ter acesso açonsciência. Com-pr~e.nd~-se, por~a.nto, que certas filosofias 'optem por privilegiar a estética: com isso remontam

à

fonte e to-das as suas análises nela se encontram orientadas e es-clarecidas.

(17)

I PROBLEMAS FILOSÓFICOS

(18)

o

BELO .

Como nos referimos ao Belo? Essa

alavra, que

tem função de adjetivo na linguagem cotidiana, torna- e

~uõs antIvo na lingua em erudita.da.filosoãa.ou

da

es-tética: o

jire

'lcaaõtOrna-se sujeito e ode, or sua vez,

scr--redicado,

como diriam õs lógicos; assim, quando

nós dizemos "o Belo é um conceito", ou "o Belo é o

denominador comum de todas as coisas belas".

O

que significa, portanto, essa dualidadq de emprego?

Consideremos, em primeiro lugar, o juízo em que

() belo é um atributo: "esta escultura é bela".

É

um

juízo de valor: reconhece a qualidade de certo objeto

quando esse

jeto é apreendido segundo certa atitude

que

é

a contemplação estética. Se o modo de

(19)

naJidade ou a atitude são diferentes, outros valores são invocados; se se trata de agir, poder-se-á dizer: "este objeto é útil"; de saber: "este objeto é verdadeiro"; de amar: "este objeto é amável". O juizo de valor es-tét~o, aliás, pode ser emitido a. propósito e objetos que não parecem solicitar a atitude estética; dir-se-á, põC"exemplo, de um ato de coragem que é belo, ou de um raciocínio lóglco;-ou ate mesmo dê umreliz acaso. Isso podería induzir-nos a pensar que a noção de bele-za é bastante elástica; mas isso também significa que muitas coisas podem se prestar, por algum fIanco,

à

atitude estética. Também acontece, de modo inverso. que nosso juízo se exprime timidamente num vocabulá-rio menos categórico e que, em lugar de dizer que um objeto é belo, dizemos que é bom, valioso, autêntico, interessante etc.

Mas é sua rete!l§ão

à

universalidade o ue espe-cifica, em o os os casos, o juízo de valor estético. ObservouiÕ Kan e é, de fato, o ponto de partida de sua reflexão: quando emito determinado juizo, não posso deixar de reivifídiõãr para ereãê1Jjetiviaaâe edeixar de

ensar gue dev~e por tod.Qs subscrito. Por certo, também posso pronunciar juízos sub'~s, em primei-ra pessoa, ao dizer, por exemp o, ' gosto desta obprimei-ra" ou "prefiro isto àquilo"; mas, nessas circuns ancra , tenho consciência de exprimir apenas meus gostos e, afinal, de julgar a partir de mim mesmo mais do que do objeto. Portanto, distingo claramente entre [uízo objetivo e juí-zo subjetivo; e talvez seja necessário estar de má-fé ou ser ingenuo por excesso de sutileza para sustentar um relativismo total e afirmar que todo juízo ,estético é irredutivelmente subjetivo.

Contudo, esse relativismo, encorajado de bom gra-do pela história e pela sociologia, pode ser primeiramen-te uma santa reação contra certo dogmatismo que pre-valeceu por muito tempo e ao qual nos conduz a subs-tantivação do adjetivo belo. Com efeito, se o juizo es-tético aspira

à

universalidade, ele é tentado a justificar essa as iração recorrendo a um conceito que também é universal: objeto belo é aquele _que realiza e mani-festa o beJo. - Reconhece-se aqui o movimento platônico ~nsamento que vai ser retomado, talvez com alte-rações, pelo racionalismo clássico.

36

Para Platão} realmenre, saber e sabedoria exigem q.ue o hom,em se liberte do mundo sensível e deixe de viver no nível do percebido para ter acesso às idéias d.onde ele r.etomará ao mundo. sensível no qual se de~ cide o destino de seus companheiros. E essas idéias provavelmente, apenas miticamente são realidades nu~ mundo inteligível. Pois, por si mesmas, nada mais são que uma lu~ ~~ra aclarar o dado ou para inspirar a con-duta. As Idelas constituem os elementos de um dis-Curso lógico e não oossuem

ser

fora da contextura-dia, !etlc.a. que elas compõem, como as palavras não têm ser significante - a não ser abstratamente, nos dicionários - fora da. fr_~se e .da totalidade da linguagem. Mas entre essas idéias CUjOser é necessariamente indetermi-nável, porque consiste em se abolir no sentido por elas engendrado, uma az.exçeção: ~Be eza. Pois ela é

ti uruca que resplandece; e a é a única - diz Fedro

- .que tem.

c:

p:ivilégio de poder ser aquilo que está mais em evidência e cujo encanto é o mais atraente" ~nquanto as outra~ id~ias, "justiça, sabedoria, não pos~ s~em nenhuI?a luminosidade nas imagens deste mundo".

f:

verdade, ~to apenas significa gue o objeto belo nos .nvoíve e emociona mais Imediatamente do que qual-",uer out~o ?~jeto, por ue ele é, ao mesmo tempo, sen-'Ivel, e slgmflcante: nessa experiência incomparável o ~ nsível revela. em lugar de ocultar.

C

Mas é tentador ~l1po~'que aquilo que nos arrebata nos transporta fora daq.U1,. nu~ outro mundo, e que o seu poder lhe vem da mutação da Beleza em sil

1::

assim ue o cJassicismo se escuda no platonismo p lr.a conceber uma estética normativa, fundada sobre a Idéia de que há, de fato, uma idéia ou uma essência do • '~". Essa idéia justificá: então, uma dupla normati-vidade, ~or um lado, confere autoridade ao juízo críJ 11'0 exercido elas "academias", por outro lado, esta-bclece uma concepção didática da arte que se exprime IIIS "artes poéticas". Assim a idéia do Belo não

con-rva sua transcendência: ela se concretiza

e

se

especi-ri

'U em modelos determinados, dos quais os cânones da

rquitetura ou a regra das três unidades figuram entre

ti mais célebres. Esses modelos impõem-se tanto ao

r

ti

o que julga as obras em seu nome, quanto ao

ar-ti

til que deve criar conforme eles, assim como o

de-37

(20)

miurgo do Timeu cria o mundo contemplando as idéias, Os julgamentos proferidos pela Academia Real, no sé-culõ-XVI-I seriam um excelente exemplo do dogmatism es ontâneo que assim se exerce na crítica e na peoa-gogia. ara prová-lo basta a seguinte pass~gem de ~m discurso de M. de Champaigne "contra o discurso felt? por M. Blanchard sobre o valor da cor": "Eu não sei, senhores, se podemos crer que

°

pintor se deve prop.or outro objeto a não ser a imitação da bela e perfeita natureza. Deverá propor-se algo de quimérico e de in-visível? Consta, entretanto, que a mais bela qualidade do pintor é ser imitador da perfeita natureza, sendo im-possível ao homem ir mais além "1.

Esse dogmatismo é, no fundo, ,ª-expressão da rá-tica e dos gostos estéticos de uma épo.ca· mas não tem ,disso consciência e, por isso, ajJsolutiza uma Id-éia~o

,belo que é relativa. Justifica a promoção da idéia a~ absoluto dizendo que essa idéia é impo....§.@.};leia natu~ (e nãov-propôsta -pela cultura). Em primeiro lugar,

.ela natureza das coisas: é por isso~rtasfõfi'iíãS são invoca as a r..erfeição d~ <:i!:culo - idéla.~-: télica -, ou _do- Reõtágono como i1l1-ª.gen:~3Ic:ocos-mo - ídéía.medieval) ou certas proporçoes (o numero

de

ouro), como a SO'lutamente belas, e já presentes na natureza que a arte deve imitar, suposto que se descarte dos a~tos feios. Em segundo lugar, pela- natureza do orne pais Q paJ;er estético peilllane.ce_o juiz ao

ua é mls er consultar; mas se tem a convicção, preci-?" samente, que esse prazer é determinado por uma estru> tura imutável dksensorialidade e da razão humana de - modo que ,3!Lconsonâncias, as homoíóhias, as formaS::::

belas ou os enunciados claros merecerão, sem re e em toda a parte, ser chamados ~elosQ; or ue agra am, en-quanto as dissonâncias,. os hiatos, as orma equivocas o os enunciados confusos serão feios orque esag a-damo Apenas se olvida que o que pare e m a o da nàtureza é, realmente, um fato de cultura, que certas harmonias agradam ao OUVI o ou certas formas plásticas

à vista porque esses órgãos foram condicionados desde cedo por certo ambiente artístico e, portanto, que o artista tem direito a fazer violência a gostos que, no mais das vezes, não passam de hábitos lançando-nos em

novas aventuras. O fruto desse esquecimento

é

a ma-nutenção da tradição: o ensino de certo número âe re-ceitas que devem garantir a beleza da obra.

Essa idéia, por certo, não é insensata. O história contesta é que uma tradição possa reivin icar o

. egredo ao Belo como um monopólio, como se a idéia , do Belo se reduzisse a um sistema determinado de

mo-delos e a prática artística a um. sistema determinado de

s:

regras. Mas a verdade é que a arte recusa a improvi-. I'

o-ação, ela eXige pre ~endizagem e o contacto O'

Cil-c m uma traâição. Somente que essa aprendizagem, que põe o artista de posse-de uma técnica e de meios de expressão, deve libertá-Ia e não escravizá-lo; e, com efeito, todo artista autêntico, quando torna consciência de Sua vocação, exerce sua li6er àdê cnadora e aparece Como revolucionário aos olhos do público ou das aca-dériiiás . .-_Há, é certo, gfáiides obras anônimas que se prendem mais a uma escola do que a um indivíduO;.; provavelmente elas só foram possíveis porque o artista se identificcu, com profundidade suficiente, com o gênio do seu empo para ser ver a eirarneüte inspirado por 'le ao ínVés e aplicar mecanicamente processos reco-mendados pela escola.

Este seria o momento de evocar a inspiração e unir i imagem do artista-artesão a imagem do ;u:tista ins-pirado. A i éia dessa Ioucur maravilhosa que se a

0-dera

do.arrista

e o ança a ora de si mesmo também

já se encontr em !>latão_._Essa idéia significa, em primêlro lu ar.,--inte.r.Rretada Ror um racionalismo--UC- ~";-1L

ti

'Ia desconfia - que a criação de uma ob ela é

it",'r;r.&

t revlSlvel e UC-a- a Ida e se eve acresceotar-'l ~

sorte ou, como às vezes se diz, a fe iCidade. Mas se a idéia for toma a com mais rigor, será necessário per-'untar quem inspira a criação: se for a idéia do Belo, -ntão não pode ser essa idéia enquanto ela se referir a 11111 sistema de preceitos ou receitas, pois a regra força

l' não inspira. Mas poder-se-á dizer que uma idéia seja

inspiradora? Sim, pois os homens vivem e morrem por ld ias: pela liberdade ou pela justiça; contanto que a própria idéia seja bela, isto é capaz de seduzir, porque da provém da natureza. É •necessário, portanto, que 1I idéia do Belo deixe ~er idéia, que não nos fale e nHO nos estirriule como uma noção abstrata, mas ue ('sI ja encarnada em objetos belos.

i~

(I) Citado por LhÕte, De Ia Palette à '~ritoire, p . .J~.

39

(21)

Platão, por este desvio, conduz-nos a Kant. Kant, com efeito, propõe rirneirarnente uma teoria do juizo" estético: com que direito posso julgar que uma coisa é

e a. O critério é aze que ela desperta em mim: prazer desinteressado, ligado só

à

forma do objeto e (1ãõ,Como no aSsentimento, ao seu conteúdõ. O nela é. portanto, áquiló que agrada. Mas Kant acrescenta: uni-versalmente, sem conceito. "Sem. conceito" quer dizer que nao a iaela o hera, isto é, um modelo que possa ~ crientar meu juizo e servir de padrão._O belo_ só se

en-~:t:-

contra em objetos sensíyeis.. e só a sensi ilidadê

é

o

r:r'~-

juiz. "P~ocurar um princípio do gosto que dê, através ~ de con~elto$ determmado:,. um. conceito un.iversal do

,pV~':. gosto, e um trabalho estéril, VIsto que aquilo que se

procura é impossível e contraditório em

si'":

contradi-tório, porque o rincígio do juízo estético é o senti-mento do sujeite. e não o conceito de um objeto. De certo modo, o objeto belo, aqui, é apenas ocasião de prazer; a causa do prazer reside em mim, no acordo da imaginação com o ififêlécto; isto é, das <cluas faculdades que

tõdo

encontro do objeto põe em jogo; mas, enquanto no juízo de conhecimento o intelecto governa a imagi-nação, na experiência estética a imaginação é livre, e o que experimentamos é o livre jogo das faculdades e da sua harmonia mais do que a sua hierarquia.

O aradoxo ermanece na reivindicação da univer-salidade elo juiz . de_gosto: semã=qu nãe falaríamos de beleza, mas de agrado pois, quando julgamos que uma coisa é agradável, nós não esperamos, nem exigi-"'" mos de outrem que esteja de acordo conosco. uni-"\) versalidade, portanto, tem aqui seu princípio no sujeito

Uão no o je -: é ma universalidade subjetiva. Mas como então justificar essa pretensão? É suficiente su-por: "que em todos os homens as condições subjetivas da faculdade de julgar são as mesmas ... o que deve ser verdade pois, caso contrário, os homens não poderiam comunicar suas representações e conhecimentos" 3.

V ê-se que essa análise, conforme ao espírito do idealismo transcendental, inclina Kant para a negação de toda, objetividade do belo; o belo não é nem uma idéia em si, nem uma idéia no objeto, nem um conceito objetivamente definível, nem uma propriedade objetiva

do objeto> ~ uma qualidade que atribuímos ao objeto para expnrnir a experiência que fazemos de certo estado de nossa subjetividade atestada pelo nosso prazer: "co-mo se, ao. chamar"co-mos uma coisa bela, se tratasse de uma propriedade do objeto nele determinada por con-c nos e, con-contudo, a beleza, separada do sentimento do sujeito, não é nada em Si"4.

Será essa a última palavra de Kant? E por ser o belo St?1 conceito será necessário concluir que ele é d:sprovldo de toda objetividade? Afinal o prazer es-teuco nos ~ d~d? E é o objeto que o desperta. Se·-longe dos indivíduos se pautarem pelo objeto para jul-garem sua beleza - "o juízo de gosto consiste preci-samente em chamar uma coisa bela somente através da qualidade pela qual ela se acomoda ao nosso modo de tomá-la"~, ~ont,udo. é. a coisa que manifesta essa quali-dade: S-,JUIZ.O~ .obJetlvo registrando-a, mesmo se ele se r fere a subjefivi ade. O fato de o belo não ser experi-menta..do s:m que haja essa relação não significa que ele nao seja dado numa experiência irrecusável. Há um fat~ do belo, mesmo se esse fato

é

sempre um fato

para nos.

I

. . É esse fato, precis~mente, que interessa '~

@

e tnsplr~ o .seu empreendimento. Mas o que o interessa, \ c.~ ~nmel~~ lugar é, sem dúvida, o apoÍo que a expe-nencia estética pode dar

à

experiência moral. Há uma {1fima~ e entre essas uas experiências, testemunhada pela linguagem comum, visto que "designamos objetos belos com nomes que parecem fundados numa apre-.iação mo.ral"6: falamos de um edifício majestoso, de uma campina ridente, de uma cor inocente ou modesta.

, assim que as idéias estéticas que a poesia sugere, "estas representações da imaginação que dão muito a pensar sem que nenhum conceito lhes seja adequado"

• em que ,tradução alguma seja possível na linguagem da prosa, tem algum parentesco com as idéias racionais suscitadas pela prática moral: o belo é o símbolo dO\ IcIlli ele não nos ensina o qüe

é

o 6em, pois o bem,

'orno a so uto, so pódé ser realizado e não concebido. Mas ele no-Ia sugere. E, so retudo, o belo insinua que somos ca azes de realizar o bem; pois o desinteresse, ~

(4) lbid., § 9. ' 'I ~

(5) lbid., § 32.

(J-,.,1

--:.:---

Ii

IAI. _ U _ (6i lhid., § SR.

l/.JlJ'JZ9-

~.-o\. (2) Critique dú l ugement, § 17.

(3) lbíd., § 38.

Referências

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