• Nenhum resultado encontrado

As relações de poder entre os judeus e os monarcas D. Dinis e D. Afonso IV de Portugal - (Séculos XIII e XIV)

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "As relações de poder entre os judeus e os monarcas D. Dinis e D. Afonso IV de Portugal - (Séculos XIII e XIV)"

Copied!
9
0
0

Texto

(1)

As relações de poder entre os judeus e os monarcas D. Dinis e D.

Afonso IV de Portugal - (Séculos XIII e XIV)

CLEUSA TEIXEIRA DE SOUSA

Mestranda em História pela UFG. Professora da SEE [email protected]

RESUMO

Nessa comunicação pretendemos analisar as questões relativas à crescente autonomia política portuguesa, as estratégias de poder utilizadas pelos monarcas, bem como os acordos estabelecidos entre os judeus e a autoridade régia no Baixo Medievo português – especialmente nos reinados de D. Dinis e de D. Afonso IV –, advertindo que as relações de poder permeavam as esferas do público e do privado. Ressaltamos ainda, a dualidade quanto à situação dos judeus no reino português, que o diferenciava dos demais reinos em relação ao tratamento dispensado aesse grupo. Por um lado os judeus foram os principais agentes responsáveis pela “centralização” administrativa e financeira da monarquia medieval portuguesa e por outro, se constituíram as principais vítimas desse processo sofrendo perseguições e ao mesmo tempo recebendo proteção régia.

Palavras-chave: Judeus, Monarquia Portuguesa, Relações de Poder

As relações de poder perpassam a história individual e coletiva da sociedade em todos os períodos. Assim, observamos que o poder é expresso nos mais diferenciados matizes das relações sociais, permeando principalmente o campo político. Desta maneira, torna-se relevante salientarmos as políticas adotadas pelos dois soberanos D. Dinis (1279-1325) e D. Afonso IV (1325-1357) em relação à presença e estabelecimento dos judeus em Portugal.

Conforme diversos estudiosos do judaísmo, a constituição da história dos hebreus em Portugal se difere da dos outros reinos europeus. Dessa forma, analisaremos a situação dos judeus em alguns países da Europa, para ilustrar essa diferenciação. Como exemplo, Adolfo Benarus (1911) professor da Faculdade de Lisboa, pesquisador da História do povo hebreu, salienta que a Inglaterra foi o primeiro país europeu a expulsar os judeus de seu território, o édito de expulsão foi publicado em 1290, o qual dava aos judeus, alguns meses para se prepararem para o êxodo. Até o dia nove do mês de outubro do referido ano, um grande número de judeus, abandonaram a Inglaterra, acredita-se que foram provavelmente em torno de 16511 judeus. Por conta do alto grau de prosperidade que esse

(2)

povo tinha atingido ali, os bens móveis por eles acumulados foram avaliados como a quarta parte da totalidade dos bens de toda a nação, assim, acredita-se como afirma Benarus (1911) que tanto os nobres quanto os monges almejavam adquirirem a riqueza acumulada pelos judeus para construírem suas casas e mosteiros, e na mesma medida os monarcas também desejavam apossar-se de tal riqueza para custear as pompas reais.

Na Espanha alguns autores defendem que priori, os hebreus viveram um período de paz e prosperidade, ocupavam cargos relevantes no reino, atuavam como professores nas Universidades, exerciam cargos de tesoureiros nas cortes régias, médicos, banqueiros, mercadores e diplomatas, embora haja alguns questionamentos a respeito desse período de relativa paz, mas, como o nosso espaço de estudo é exclusivamente Portugal e como só estamos mencionando a situação dos judeus em outros reinos para diferir o reino Português, não me deterei nessa discussão. Segundo Benarus (1911) ao desenvolvimento da riqueza e do poder, estava associada igualmente a ampliação significativa da literatura e do saber dos hebreus que incrementaram escritos relativos à filosofia hebraica, a poesia e ainda a gramática hebraica. Só após os monarcas espanhóis terem abraçado a fé cristã, foi que esse período de determinada paz foi afetado, pois a insatisfação do clero em relação aos judeus, tornou-se crescente, mas ainda assim, passível de ser tolerada. E embora sofressem com perseguições mantidas pelo clero, no início, os hebreus mantiveram-se fiéis quanto sua a fé, assim, a recusa em praticar a religião cristã, foi tida como uma afronta aos clérigos, que a avaliaram como intolerável. Em 1391, cento e um anos antes da expulsão dos judeus do território espanhol, uma expressiva leva de judeus fugiu da Espanha, por conta das conversões forçadas, e já em 1492, houve a expulsão definitiva dos judeus que se recusaram a praticar a fé cristã.

Voltando ao nosso espaço de estudo, podemos elencar, portanto, as afirmações de Carsten Lourenz Wilke (2009), o autor esclarece que a história judaica portuguesa apresentou trajeto singular, determinado pelo poder real, que evoluiu sob a égide de dois extremos: Por um lado buscando garantir maior proteção e segurança aos judeus no período medieval e por outro na tentativa da conversão forçada dos judeus ao cristianismo em 1497 – por meio de pregações e ameaças Frei Vicente Ferrer1 (1350-1419) buscou

1

Propiciador de inflamados sermões, conta-se que Frei Ferrer, atraía multidões para os mesmos, obtendo a graça de incontáveis conversões, inclusive de judeus e maometanos. Seu processo de canonização começou um dia após sua morte, em 06 de abril de 1419 e Roma reconheceu como responsável por fidedignos 873 milagres. Foi elevado à honra dos altares em 1455 pelo Papa Calisto III, o qual recebera, muito antes de ocupar a Sé de Pedro, uma profecia do Santo. Nasceu em Valência e a partir de sua profissão religiosa, em 1368, até ser ordenado sacerdote, em 1374, alternou o estudo e o ensino da filosofia com a aprendizagem da teologia em Lérida, Barcelona e Tolosa. Com perfeito conhecimento da exegese bíblica e da língua hebraica, regressou a Valência,

(3)

batizar os judeus residentes em bairros judaicos espanhóis no século XV –, fator que contribuiu para desencadear uma retração do judaísmo a um nível de clandestinidade precária, marcada pela discriminação racial, pela perseguição violenta e pela dispersão das comunidades judaicas pelo mundo. Ainda no tocante a diferenciação no tratamento dispensado aos judeus por parte dos monarcas portugueses em detrimento a outros reinos. Benarus (1911) descreve que uma das queixas apresentadas pelo bispo – apesar de não mencionar seu nome – ao papa Gregório IX (1227-1241) contra o rei D. Sancho II (1223-1248) quarto rei de Portugal, dizia respeito ao acolhimento, que este monarca dava aos filhos de Israel e afirmava que na cidade de Lisboa, os cargos públicos eram dados, de preferência, aos judeus.

Os reinados de D. Dinis e D. Afonso IV marcaram um período em que a monarquia buscava fortalecer o poder régio, dessa maneira, era interessante para os monarcas poderem ter os hebreus como aliados, uma vez que eles apresentavam alto grau de instrução, conheciam várias línguas por meio das suas constantes diásporas, dominavam o comércio e eram bons administradores. Desse modo, a situação dos judeus nesse período era de relativa paz, se constituíram como principais agentes na centralização administrativa e financeira da Monarquia Portuguesa, mas ainda assim, sofriam perseguições por parte dos cristãos que buscavam de certa forma burlar os acordos para prejudicarem os judeus e levarem vantagens nas causas jurídicas. Assim, faz-se necessário trazermos a tona algumas das leis sancionadas pelos reis em questão, para analisarmos as condutas e estratégias de poder realizadas por esses monarcas no intuito de fortalecer o poder e o reino português. Ao estudarmos as leis visualizamos que as mesmas eram constituídas a partir das querelas cotidianas ocorridas em diferentes cidades, mas uma vez estabelecidas, valiam para todo o reino, lembrando que no período Medieval as cortes eram itinerantes, e se faziam presentes nas várias cidades do reino conforme as necessidades da coroa. Como podemos observar nas queixas dos judeus a D. Dinis relatadas no Livro das Leis e Posturas2, estes se diziam prejudicados nos julgamentos entre eles e os cristãos. D. Dinis onde ensinou teologia, escreveu, pregou e aconselhou. Anos mais tarde, em Avignon (França), caiu gravemente doente a ponto de quase falecer. Foi quando teve a visão de Nosso Senhor Jesus Cristo, acompanhado de São Domingos e São Francisco, conferindo-lhe a missão de pregar pelo mundo. E, repentinamente, recuperou a saúde. A 22 de novembro de 1399, deixou aquela cidade francesa para levar ao Ocidente a Palavra de Deus. E, em meio à grande crise espiritual na qual estava imersa a sociedade daquela época, passou a derramar tesouros de sabedoria. (disponível em: http://grandessantos.blogspot.com/2007/11/so-vicente-ferrer-o-do-apocalipse.html) 2

Segundo João Pedro Ribeiro (1971) o Livro das Leis e Posturas foi um trabalho preparatório das Ordenações Afonsinas, realizado sem nenhuma sistematização, no qual foram reunidas leis anteriores em um só corpo legislativo, retirados dos registros de Conselhos. De acordo com Ribeiro (1971) neste livro encontram-se inúmeras leis repetidas, outras expressas com datas erradas e algumas até truncadas.

(4)

em resposta a tais queixumes, especialmente àqueles que prestavam serviços à coroa, estabeleceu que em julgamentos que envolvessem judeus e cristãos, deveria ser aceito como testemunha um judeu. Essa lei não encontra-se datada e não menciona a cidade na qual foi estabelecida:

Per suas maldades das testemunhas podem seer deytadas. assy como som Judeus. Salvo em no preyto que ia Judeu contra christãao. en que devem valer judeus e chistãaos igualmente. Otrossy mouros nom devem seer testemunhas. nem homem que sseia achado em falsidade algua e ssentença for dada contra ele. Ca pero sseia achado em falsidade se sentença nom he dada contra ele nom he julgado por falso nem o deytaram de testemunha. Se o per al nom deytarem. E outrossy homem sandeo. sem memória nom pode seer testemunha salvo em logares assinaados e cousas assinaadas. e as cousas assinaadas som estas (LIVRO DAS LEIS E

POSTURAS, 1971, p.37).

Percebemos igualmente, estratégias de resistência adotadas pelos judeus que ocorreram ao longo desse processo. Os hebreus se valiam do conhecimento que possuíam e se apoiavam na cultura letrada que de fato fazia a diferença para um reino que buscava se afirmar. E por meio do jogo de interesses que mantinham com os monarcas D. Dinis e D. Afonso IV, conseguiram também estabelecer alguns direitos que facilitavam a sobrevivência desse povo em Portugal.

Outra medida tomada por D. Dinis na região do Algarve, também contida no Livro das Leis e Posturas menciona questões relativas aos contratos por conta de dívidas referindo-se a uma carta sancionada pelo rei que em agosto de 1354, tornou-se lei:

O Monarca estabelece que todos os contratos que se fizessem entre cristãos e judeus, assim como os concernentes a dívidas de penhores como as de pagamento dessas dívidas, que sejam feitas perante um alvazir, por meio de escrituras dos tabeliães. Assim esses registros deveriam ser realizados perante a presença dos dois representantes legal da coroa. Portanto, ficou estabelecido que não fosse realizado nenhum contrato, nem recebessem os judeus nenhum pagamento fora da presença desses dois

representantes do poder real3. (LIVRO DAS LEIS E POSTURAS,1971,

p.177)

Quanto aos contratos referentes a dívidas que já possuíam prazos ultrapassados e cujos devedores eram os cristãos, D. Dinis estabeleceu no Algarve em abril de 1359:

Pero Domingues como juiz e todos os outros ouvidores da Corte, que só fossem válidos os processos de Judeu contra Cristão, por razão de dívidas, que se apresentasse o prazo de vinte anos para cá. E os que antecedessem os vinte anos, que não tenham mais validade, nem maneira alguma de se fazer qualquer tipo de demanda contra tais dívidas.” (LIVRO

DAS LEIS E POSTURAS, 1971, p.87)

3 Por questão de comodidade e para facilitar a leitura do presente artigo, resolvi traduzir para o português atual as

citações que se referem as fontes que analiso: Livro das Leis e Posturas e Ordenações Afonsinas, observando que tais documentos são escritos em português arcaico.

(5)

De certa forma, se observarmos o conteúdo descrito nessa lei evidenciando seus pontos negativos, teremos uma compreensão destorcida do objetivo desse monarca, pois poderíamos apreender que nesse sentido, os judeus estariam sendo prejudicados, mas voltando nosso olhar para as leis contemporâneas percebemos que os judeus ainda assim, foram beneficiados, além de terem seus contratos registrados legalmente, ainda se fazia presente em lei à questão evidente de que poderia demandar seus contratos contra os devedores, por um período de vinte anos.

Quanto a usura praticada pelos judeus, essa era uma das práticas mais criticadas e que concedia ao povo hebreu um caráter de ofensores da fé cristã. Os empréstimos com juros altos, bem como qualquer outra atividade que envolvesse o dinheiro era o maior motivo de incidências nos conflitos entre os judeus e os cristãos em Portugal no período de análise. Segundo o ideário cristão não era bom que se acumulasse riquezas. Desse modo, tentou-se subsidiar esse problema, não se configurando um discurso contrário ao da Igreja e nem se opondo claramente aos judeus. D. Dinis legalizou também na região do Algarve, os empréstimos de judeus a cristãos, mas, estabeleceu que nesses contratos as dívidas não pudessem crescer mais do que foi emprestado, contudo, tal lei não se encontra datada:

Estabeleço que a usura não cresça mais do que foi emprestado, mesmo que a dívida não seja paga no prazo pré-estabelecido e essa lei deve servir tanto nos contratos de judeus com cristãos, quantos nos que se referem a cristão com outro cristão. Estabelecido e imposto a malícia dos judeus, que quando alguém lhe tomar empréstimo, que não nunca cresça mais que o valor real, como quer que os processos sejam julgados, conforme a lei estabelecida.” (LIVRO DAS LEIS E POSTURAS, 1971, p.96)

Para os judeus a riqueza e/ou acúmulo de bens não se caracterizava um pecado, como impõe a fé cristã. A Igreja pregava que o dinheiro era um instrumento de idolatria quando não se tinha um fim em si mesmo, passava dessa maneira, a ser um concorrente de Deus, quando não se enquadrava nas regras morais, esclarece Atalli (2010). Mas, para os judeus os juros cobrados por meio de empréstimos não geravam nenhum pecado, eles comparavam o dinheiro a criação de gado e ao tempo e os consideravam elementos férteis que não poderiam ser desperdiçados. Aqui notamos uma divergência de valores, permeados pela fé religiosa distinta entre cristãos e judeus.

Outro ato de “proteção” aos judeus, estabelecido por D. Dinis e que também não apresenta data, refere-se aos cristãos que eram judeus:

Se algum homem que foi judeu ou mouro tornar-se cristão e estiver sendo acusado de ter retomado ao judaísmo, o julgamento do mesmo deverá ser

(6)

feito pelo rei ou por seu juiz e não pela Igreja (LIVRO DAS LEIS E

POSTURAS,1971, p.131).

Em Lisboa, D. Dinis estabeleceu no mês de novembro do ano de 1352 uma lei referente aos contratos estabelecidos entre os cristãos e os judeus perante os alvazis e por meio de escrituras:

Dom Dinis pela graça de Deus rei de Portugal e do Algarve a todos os alvazis, juízes de justiças do meu reino, que saibam e se faça cumprir essa lei que estabeleci. Os contratos que envolvessem dívidas de cristãos a judeus, bem como suas quitações, deveriam a partir dessa data ser realizado mediante a presença de juízes, alvazis e tabeliães. Assim mandou que os tabeliães registrassem essa sua carta nos livros reais. (LIVRO DAS

LEIS E POSTURAS: 1971, p.131) “Tradução minha.”

Benarus (1911) esclarece que no reinado de D. Dinis o favor dispensado aos judeus, não se modificou de modo significativo em relação aos reinados anteriores e relata uma carta que garantia proteção aos judeus estabelecida pelo monarca e dirigida aos juízes de Bragança:

[...] ordenando-lhes que não consentissem que alguém causasse prejuízo aos judeus e que, do dano causado, tornaria os juízes responsáveis, em troca desta verdadeira carta de alforria exige deles o pagamento de seiscentos maravides em vinhas, terras e casas. (BENARUS, 1911, p.96)

Conforme as descrições de Benarus (1911) os cargos públicos do reino português, no período em que reinou D. Dinis, continuaram a ser ocupados preferencialmente pelos judeus acendendo com grande ênfase o conflito entre o clero e os reis. Deste modo, D. Dinis e seu pai D. Afonso III (1248-1279), devem ser considerados os monarcas que maior proteção e favores dispensaram aos judeus, por meio de acordos que viessem a beneficiar a administração de seu reino, fato que lhes favorecia e ao mesmo tempo concedia direitos que beneficiavam o povo hebreu a uma melhor convivência com os cristãos de forma a garantir sua sobrevivência bem como a prática de sua religião sem maiores problemas.

Mas, com a ascensão de D. Afonso IV (1279-1357) ao trono português a situação dos judeus se modificou, o primeiro cuidado do rei foi a publicação de ordens que proibiam os judeus de saírem as ruas de Portugal sem estarem portando a insígnia, uma estrela de seis pontas na cor amarela, costurada a roupa do lado direito do peito, ou no chapéu, que diferia os judeus dos cristãos, dentre outras medidas tomadas por esse monarca estão as relativas aos impostos e as usuras praticadas pelos judeus.

(7)

Nas Ordenações Afonsinas4, outra fonte com a qual trabalhamos para analisar as relações de poder entre os monarcas do período em estudo e os judeus, nos é apontada a lei prescrita por D Afonso IV, estabelecendo como as Comunas judaicas deveriam pagar o serviço real:

Todo judeu desde a idade de quatorze anos em diante, se for casado ou viúvo, pague vinte soldos por ano. E a judia, que for casada, ou viúva, pague dez soldos. E o judeu, ou judia não paguem nenhuma coisa até a idade de sete anos e dessa idade em diante a dita judia pague a quantia de dois soldos e meio até que complete a idade de doze anos, o judeu pague cinco soldos até que complete a idade de quatorze anos. A judia quando já houver completado os doze anos em diante, e não for casada e viver em companhia de seu pai, ou mãe, ou de outrem, ou servir a outrem, pague meio meravidi, que correspondiam a sete soldos e o judeu que tiver de quatorze anos em diante e não for casado, e viver em poder alheo, pague um meravide, que correspondiam a quinze soldos por ano, e se vivessem por contra própria que paguem, vinte soldos. (ORDENAÇÕES AFONSINAS, tít. LXXIIII, Item 2, p. 445)

Ressaltamos que D. Afonso IV possuía uma postura diferenciada para com os judeus se compararmos aos reis que o antecederam, pois retomou a cobrança de altos impostos também pelas vinhas que os judeus plantassem e colhessem, da mesma forma taxou a compra e venda de vinho ou de carne realizadas pelos judeus de Portugal, o monarca sistematizou os impostos sobre os pescados, as frutas, assim como as ferraduras, esporas, ou qualquer outra mercadoria que comprassem ou vendessem tanto em Lisboa, quanto em Santarém. Quer os judeus comprassem ou vendessem, fosse para uso próprio ou para comércio, eram obrigados sempre e em todo caso a pagarem os impostos. Nessa perspectiva Benarus afirma:

[...] se matassem uma galinha, essa tinha que ser degolada e o degolador dela tinha que participar o fato ao Escrivão do rei para que pudesse pagar a soma de quatro dinheiros, soma que, igualmente, se pagava por cordeiros, cabritos, patos e capões, pagava dois dinheiros de todos os gêneros, que adquiria, tinha assim, que pagar impostos sem qualquer exceção. (BENARUS, 1911, p.7-8)

Nesse item acresce-nos a curiosidade de sabermos se a retomada da cobrança desses impostos se deu porque a coroa necessitava de subsídios financeiros ou se foi pelo fato dos judeus terem se afirmado como bons comerciantes e através disso ter acumulado tantos bens. Mas, entendemos que a junção dessas duas hipóteses se combina, seria o mesmo que juntar o útil ao agradável. Tais medidas despertaram nos judeus o interesse de saírem do reino, mas D. Afonso IV tolheu esse desejo, proibindo-lhes a saída de Portugal,

4

As Ordenações Afonsinas foi de fato o primeiro código regular português, constituído por cinco Livros, subdivididos em títulos indicativos sobre os respectivos assuntos, acha-se reunida toda a legislação do período Medieval, inclusive as concernentes aos judeus, objeto central de nosso estudo.

(8)

esse monarca caracterizou-se como o que mais oprimiu o povo hebreu, tirando-lhes conforme Meyer Keyserling (2009), em 1352, a liberdade de emigrar. Os judeus que possuíssem bens com valor até quinhentas libras, não podiam deixar o reino sem licença prévia e se descumprissem a lei, perderiam suas posses tornando-se propriedade do rei com todos os que o acompanhassem, ou seja, mulher e filhos (ORDENAÇÕES AFONSINAS, 1984, liv. II, tít.74, par. 14).

No que se refere aos contratos usurários D. Afonso IV estabeleceu também que não fosse mais realizado nenhum contrato contendo usuras entre judeus e cristãos e nem entre si (ORDENAÇÕES AFONSINAS, livro II, título 96). Como salienta Keyserling (2009), D. Afonso IV não procurou privilegiar os judeus.

Assim concluímos que D. Dinis foi um dos monarcas que mais protegeram os judeus e lhes conferiu grande zelo fosse esses característicos de interesses ou não, já seu sucessor foi mais rígido no trato dispensado aos judeus, vale salientar que no reinado deste rei o reino português passou por crises, foi assolado pela peste negra e sofreu inúmeras pressões por parte da Igreja que era contrária aos inúmeros direitos concedidos aos judeus pelos reis anteriores.

BIBLIOGRAFIA FONTES

LIVRO DAS LEIS E POSTURAS. Editado por Maria Teresa Campos Rodrigues.

Lisboa: Universidade de Lisboa/Faculdade de Direito, 1971.

ORDENAÇÕES AFONSINAS. Fundação Calouste Gulbenkian, 1984, livro II.

RIBEIRO, J. Pedro. Dissertações cronológicas e Críticas. Tomo IV, Parte II, Dissertação XVII, 2ª ed., Lisboa, 1867.

(9)

REFERÊNCIAS

ATTALI, Jacques. Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo. Trad. Joanna Angélica Dávila Melo. São Paulo: Ed. Saraiva, 2010.

BENARUS, Adolfo. Os Judeus. Lisboa: Sociedade Editora, Arthur Brandão & Cia. 1911.

FERRO, Maria José Pimenta. Os Judeus em Portugal no Século XIV. Lisboa: Guimarães Editores, 1979.

KAYSERLING, Meyer. A História dos Judeus em Portugal. São Paulo: Perspectiva, 2009.

LIPINER, Elias. O Tempo dos Judeus: Segundo as Ordenações do Reino. São Paulo: Nobel, 1982.

POLIAKOV, Leon. De Cristo aos Judeus da Corte. São Paulo: Editora Perspectiva, 1995.

Referências

Documentos relacionados

Os alunos que concluam com aproveitamento este curso, ficam habilitados com o 9.º ano de escolaridade e certificação profissional, podem prosseguir estudos em cursos vocacionais

hospitalizados, ou de lactantes que queiram solicitar tratamento especial deverão enviar a solicitação pelo Fale Conosco, no site da FACINE , até 72 horas antes da realização

Em contrapartida, os adesivos autocondicionantes apresentam resultados inferiores ao desejado em relação ao condicionamento do esmalte preconizado pela técnica

No sentido de verificar a estabilidade do efeito corona, foram preparadas 2 amostras de tecido engomado de algodão para cada tempo de tratamento corona (1 a 25 min.), sendo que

Quando contratados, conforme valores dispostos no Anexo I, converter dados para uso pelos aplicativos, instalar os aplicativos objeto deste contrato, treinar os servidores

A proporçáo de indivíduos que declaram considerar a hipótese de vir a trabalhar no estrangeiro no futuro é maior entle os jovens e jovens adultos do que

Os instrutores tiveram oportunidade de interagir com os vídeos, e a apreciação que recolhemos foi sobretudo sobre a percepção da utilidade que estes atribuem aos vídeos, bem como

A presença de alimentos no estomago no momento da administração deste medicamento pode interferir na absorção da doxilamina, resultando em atraso no inicio de ação,