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Ciênc. saúde coletiva vol.16 número3

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Academic year: 2018

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(1)

Redes interfederativas de saúde:

um arranjo assistencial instituinte

ou mais uma estratégia gerencial?

Interfederal health networks: an instituting care

arrangement or another management strategy?

Giovanni Gurgel Aciole

1

A rede é como o cavalo /

Que para a gente montar /

Tem que primeiro amansá-lo /

Para depois governar.

Adelmar Tavares

Uma rede, para ser boa [...]

não deve ser pensa nem ter “cacunda”

ou espinhaço […].

Enfim, há redes de toda espécie...

Rachel de Queiroz

Câmara Cascudo elaborou uma história do que

tornou a “rede” um instrumento de diferentes usos

e utilidades, não distinguindo classes sociais nem

regiões brasileiras

1

. Aqui, nos valemos das

ima-gens de “rede” em epígrafe

2,3

para comentar o

arti-go de Santos e Andrade: peça meritória de um

de-bate que a saúde coletiva brasileira ainda vem

fa-zendo de forma incipiente.

Os autores propõem a implantação de “redes”

interfederativas de saúde, constituídas entre entes

federativos, a partir de alguns pressupostos. O

primeiro deles abraça a ideia de que a sociedade

atual funciona como uma “rede”,

isto é, se ancora

na dimensão imaterial do conhecimento como um

produto, e na concepção deste como um processo

de construção permanente. As “redes”

estariam

presentes em várias organizações, como as

econô-micas, permitindo a diminuição de custos e a

cres-cente penetração nos mercados com melhores

re-sultados econômicos. Além disso, uma “rede”

to-maria como decisiva a utilização das tecnologias

da informação, cujo desenvolvimento permitira a

difusão de relações, em quaisquer campos. Nesta

nova sociedade, portanto, a maior riqueza é

virtu-al, o que faz dela a sociedade do conhecimento. No

caso da saúde, a conformação de “redes” abrigaria

a necessidade de se interligar serviços com o

obje-tivo de melhorar sua eficiência e diminuir custos,

expandir o acesso e interligar as políticas sociais

intersetoriais; sempre com vistas à obtenção de

ganhos em sua qualidade, eficiência,

economicida-de e alcance economicida-de seus fins, quais sejam, o supremo

bem da saúde. Ao se unirem, os serviços se

fortale-cem, arrematam!

1 Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva,

Departamento de Medicina, Universidade Federal de São Carlos. [email protected]

Por que não, então, poderia ser útil a uma

or-ganização “social” como o Sistema Único de Saúde

(SUS), que nasceu sob o signo da inovação, a

ado-ção de novos paradigm as organizacionais para

operá-lo? Para Santos e Andrade, esta inovação

residiria na organização do sistema em “rede”, quer

de serviços, quer de atenção à saúde, como

expres-são da interconexão, integração, interação e

inter-ligação de todos os níveis de densidade tecnológica

do sistema. “Rede”

dotada de elementos

técnico-sanitários e organizacionais que permitam uma

gestão racional, eficiente, sistêmica e harmônica,

com o objetivo de garantir o direito à saúde da

pessoa humana.

O segundo pressuposto é o da integralidade:

aspecto desafiador que também exigiria uma

res-posta inovadora. Lembram os autores que é o

con-ceito de integralidade que informa e conforma o

SUS como uma “rede”

de assistência à saúde de

serviços e relações. Apoiam-se na definição da

in-tegralidade como fruto da visão sistêmica da vida,

que nos compreende como totalidades integradas,

cujas propriedades essenciais sem pre serão do

todo, uma vez que nenhuma das partes as possui

isoladamente. E que será atendida, mediante a

ga-rantia, ao cidadão-usuário, de ações e serviços

con-tínuos e articulados dentro do sistema, ou seja,

nunca isoladamente em um município.

A nossa menção inicial à “rede de dormir”

ga-nha agora maior explicitude! Como quer que a

imaginemos (“rede” de cuidar ou de organizar

sis-temas), a “rede”

é uma trama de nós que se

conec-tam. Tanto precisamos domá-la como a um

cava-lo que se monta quanto reconhecer que há muitas

espécies de “redes”.

Sendo uma trama bem

dispos-ta de nós e pontos conectivos, uma “rede”,

contu-do, também pode ser um dispositivo que reúne

num plano único as diferenças. Por isso, à imagem

da sociedade do conhecimento, queremos

conec-tar a imagem de que a sociedade do conhecimento

é também a sociedade dos fluxos, do devir

inces-sante e dos “rizomas”

4

, isto é, de crescimento

ex-cêntrico, desgovernado, multidirecional. Isto

tor-na possível pensar uma “rede de redes de saúde”.

Esta “rede de redes”

é fluxo de multiformes

manei-ras, exatamente como a trama dos processos

sin-gulares e intercessores produzidos pelo trabalho

relacional das equipes de saúde e seus usuários.

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(2)

1682

Para a tentação de definir a integralidade num

con-ceito, apontemos como salutar que se mantenha

como noção genérica, inexata e imprecisa, um

aglo-merado de tendências cognitivas e políticas

5

; ou

que continue dotada da tridimensionalidade de sua

tradução em práticas

6

. Noção viva e polissêmica!

Debater a configuração de “redes” nos obriga

a pensar em seus efeitos e consequências. Para

cumprir a dupla finalidade que mencionam seus

autores – ser dispositivo de integração

institucio-nal e interpares, e processo de construção coletiva

e parteira de autonomia corresponsável –,

enten-demos que alguns dilemas precisam ser

conside-rados: (1) a “rede” que integra, organiza, também

pode ser (e muitas vezes é) a mesma que

aprisio-na, comprime, constrange; (2) uma “rede” é um

conjunto de pontos amarrados, mas deve ser uma

trama aberta ao incerto, ao inesperado, ao

deses-truturado; (3) uma “rede” delimita um platô (não

deve ter “cacundas” nem espinhaço), mas para ser

multiforme deve ser multiplana, ou seja, abrir-se

para as possibilidades de outros “planos”,

“dimen-sões”,

mil platôs

7

. Estas possibilidades interrogam

de imediato a intenção declarada dos autores de

apontar “normatizações ou intenções” prévias para

a rede interfederativa, definindo-lhes vantagens e

desvantagens. Uma “rede”

pode ganhar potência

justamente por não vir responder a nada em

espe-cial. Não tendo intenções

a priori e se constituindo

em fluxo vital, vai tendo, antes, dificuldades e

su-perações! Problemas e soluções, antes que

vanta-gens e desvantavanta-gens!

Convém, portanto, que pensemos na “rede”

como um sistema de nós em aberto e como uma

m ultidim ensionalidade potencial. A questão é

como dar conta da diversidade e da singularidade

da vida real e complexa que flui em muitas

dire-ções e níveis e arranjá-la no encadeamento

racio-nal da “rede”, que pode ser dispositivo de embalar

sonhos instituintes de novos arranjos relacionais

entre equipes e usuários, mas é também

instru-mento de captura, isto é, pode perfeitamente ser

usada como uma estratégia racionalizadora, de

cunho normativo, que toma a forma de

progra-ma e linha de financiamento.

Outro aspecto crucial dessa ambivalência da

“rede” é

o fato de que nela tem que haver

coopera-ção e coordenacoopera-ção compartilhada, com todos

co-laborando e atuando para o mesmo fim. Isto é, a

trama de vários “nós”; que pede coordenação,

sen-tido de ordem, de proporção, de ligação de coisas

sempre unidas. Numa “rede”, ponderam Santos e

Andrade, deve haver tanto esse sentido de ordem,

proporção ou ligação como também a

coopera-ção durante todo o processo, o agir. Mas nesta

ambivalência, o que vai predominar? O efeito da

“rede” como ordem e organização, ou a

constitui-ção da “rede” como um instituinte de tramas que

se compõem sem cessar e, portanto, sem controle?

Não é uma questão vã! Os serviços até se

fortale-cem, naquilo que seja aumentar a eficiência, a

efi-cácia e a efetividade de interligar e expandir

políti-cas sociais, com ganhos em qualidade e em

redu-ção de custos. Porém, mesmo em nome da

produ-ção de um bem social, a “rede”

pode não passar de

resposta à insuficiência da capacidade de

integra-ção das lógicas burocráticas (no melhor sentido

weberiano), administrativas (na máxima

expres-são flexneriana) ou racionalizadoras do

planeja-mento (ainda que seja o do

estratégico-situacio-nal, ou sua vertente comunicativa-relacional). Tal

conjunto de argumentos não deixa de ser o

reco-nhecimento implícito de uma “dobra”, uma espécie

de moeda de duas faces que também delimita o

fato de que as “redes”

têm o seu avesso.

Nessa preocupação com a perda, ou o controle,

a dominação, do potencial criativo das “redes”, que

podem se tornar programas com resoluções,

nor-mas e portarias a que aderir, temos o exemplo do

que ocorreu com a “municipalização” – saudada na

aprovação da Constituição de 1988 e nas leis

orgâ-nicas do SUS, em 1990, como um dispositivo

indu-tor de descentralização e autonomia do ente

fede-rativo mais tutelado. Era nossa “rede” de agora!

Desde então o processo de municipalização do SUS

parece ter dotado o Ministério da Saúde de mais e

mais poder, e só ampliou a tutela por meio dos

“nós” das inúmeras caixas registradoras dos

pro-gramas de saúde. Assim, se desejamos este

mergu-lho dos entes numa parceria corresponsável

expres-sa em “rede”

interfederativa, não devemos superar

as assimetrias existentes entre poder local e poder

central? Com esta assimetria, quantos entes se

can-didatarão a participar das “redes”? Por acaso, não

será a mesma expressiva minoria que já foi gestão

semiplena, gestão plena, ao longo das sucessivas

normas operacionais básicas (NOBs)? Ou a “rede

federativa” caminhará para ser mais uma rubrica

orçamentária a garantir fluxo de recursos

financei-ros para os entes que a ela aderirem?

A despeito de tais riscos, um dos méritos da

proposta parece residir no fato de que permita

pen-sar uma construção singular de espaços

intercesso-res e dinâmicas relacionais que constituem o

gran-de tecido tecno-assistencial em que se espraie a

con-solidação da atenção transformada que desejam os

construtores do SUS. E, portanto, nada mais

apro-priado e fértil do que desejar às “redes” que sejam

lugar multiforme de profunda singularidade e

po-tência vital, de conceitos genéricos e indefinições!

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Por fim, um desejo: que estas considerações

não sejam dirigidas apenas aos autores do texto

para que a respondam. São para nós todos, seus

leitores! Como reflexão, se inserem na crença de

que a crítica e o debate aprimoram a nós e às

nos-sas instituições/organizações. São o “cuidado” de

que precisamos para que nossas “redes”

não se

rompam!

Referências

Cascudo LC. Rede de dorm ir. um a pesquisa

etnográfi-ca. 2ª ed. São Paulo: Global; 2003.

Tavares A. A rede de dormir (trovas). In: Cascudo LC.

Rede de dorm ir: um a pesquisa etnográfica. 2ª ed. São Paulo: Global; 2003. p. 163.

Qu eiroz R. Variações sobre a rede. In : Cascu do LC.

Rede de dorm ir: um a pesquisa etnográfica. 2ª ed. São Paulo: Global; 2003. p. 221.

Deleuze G, Guattari F. Mil platôs: capitalismo e

esqui-zofrenia. Rio de Jan eiro: Editora 34; 1995. In trodu-ção: rizoma. p. 11-37.

Cam argo Jr KR. Apresentação. In: Pinheiro R,

Mat-tos R, organizadores. Os sentidos da integralidade na

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Mattos R. Os sentidos da integralidade: algumas refle-xões acerca de valores que m erecem ser defendidos.

In: Pinheiro R, Mattos R, organizadores. Os sentidos

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Deleu ze G, Gu attar i F. M il platôs. Rio d e Jan eiro:

Editora 34; 1995, 1996. v. 1-5. 1.

2.

3.

4.

5.

6.

7.

Redes interfederativas e saúde: trocas,

benefícios e iatrogenias na construção do SUS

Health and interfederal networks: changes,

benefits and iatrogenics in the construction

of the Unified Health System (SUS, Brazil)

Martha Cristina Nunes Moreira

2

O artigo de Lenir Santos e Luiz Odorico Monteiro

de Andrade se revela instigante e oportuno, ao

menos por dois motivos: um pela possibilidade de

iluminar a temática das redes no campo da saúde,

e outro pela relação estabelecida entre esse aporte

teórico-metodológico e o campo da política e

or-ganização federativa. Da minha parte, interessa

destacar nessa discussão a dimensão simbólica das

redes, na articulação com a teoria das trocas

so-ciais e da dádiva em Marcel Mauss

1

, e a perspectiva

teórica do situacionismo/interacionismo

simbóli-co no destaque dado à dimensão relacional e

inte-racional dos vínculos sociativos – Simmel

2

e

Goff-man

3

. Procuro deixar clara a opção pela

drama-turgia social, considerando que as redes são

resul-tado de uma tessitura complexa em que os atores

não se reduzem às pessoas, mas incluem

organiza-ções, ações e perspectivas que podem gerar

benefí-cios e iatrogenias. Tal opção diferencia-se do

en-tendimento da rede tal qual proposta por Castells,

em que predomina a perspectiva informacional, e

o poder dessa perspectiva na alteração das

rela-ções estruturais, principalmente econômicas. Ou

seja, ao problematizar as redes com o apoio da

antropologia do dom e do

situacionismo/interaci-onismo simbólico, venho valorizar o debate,

reco-nhecendo em Santos e Andrade interlocutores

pri-vilegiados, com história e contribuições relevantes

para o campo da saúde coletiva na interface entre

direito, saúde e política.

Refiro-me aos benefícios e iatrogenias da

or-ganização das redes porque os autores me

ofere-cem essa possibilidade analítica ao apontarem que

“as redes de serviços na arena pública, além das

vantagens, encerram alguns riscos”. Nesse sentido,

podemos refletir que temos nos acostumado a

va-lorizar as redes, a construir aportes

metodológi-cos para analisá-las

4

, identificar seus nós,

víncu-los, pontos fortes e fracos, como estratégia para

enfrentar problemas, por exemplo, no acesso e

dis-tribuição de serviços públicos

5

, na organização das

comunidades no enfoque do fluxo e transferência

da informação

6

, da vigilância em saúde

7

e da

edu-cação em saúde

8

, mas temos nos dedicado pouco a

apontar, ou melhor, sistematizar seus riscos, como

denominam Santos e Andrade, e como eu

deno-mino de iatrogenias.

Os autores, ao apontarem as vantagens e os

riscos das redes, referem que na arena pública, e na

mediação dos dispositivos criados pela moderna

adm inistração pública, o Estado é apresentado

como um Estado-rede ou um Estado

negociador-consensual. Subsidiária a essa visão reside a ideia

de que há uma racionalidade instrumental que

consegue localizar, dar conta e evitar o risco. E aqui

me pergunto se essa perspectiva instrumental,

tri-butária das melhores tradições da

rational choice,

na mediação entre fins e meios, no controle, que

concretiza a imagem de um Estado Panóptico ou

2 Departamento de Pediatria e Pós-Graduação em Saúde da

Referências

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