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Rev. esc. enferm. USP vol.40 número2

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Academic year: 2018

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Pesquisa em enfermagem: por uma pedagogia da ética!

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino, afirma Paulo Freire em sua pequena,

mas magistral obra, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa(a). Isto

porque, segundo o autor, faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca

e a pesquisa, portanto, em sua formação permanente é preciso que ele se perceba e se assuma como pesquisador.

Pode-se traçar um paralelo muito interessante entre a prática docente em geral e a prática de enfermagem, no que se diz respeito à relação sujeito cognoscente e objeto cognoscível. Assim, pode-se aplicar, ao nosso trabalho na enfermagem, a frase de Freire para a prática educativa: pesquiso para constatar, constatando intervenho, intervindo educo e me educo.

Mais ainda: [o pesquisador, no original, o professor]

histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzi-do, o conhecimento novo supera o outro que antes foi novo e se fez velho e se dispõe a ser ultrapassado por outro amanhã. (…) fundamental conhecer o conhecimento existente quanto saber que estamos abertos e aptos à produção do conhecimento ainda não existente.

Assim, lida com dois momentos do ciclo gnosiológico: o primeiro, configurado pelo momento em que se aprende e ensina o que se conhece, e o segundo, em que se trabalha a produção do conhecimento que ainda não existe.

Na nossa prática investigativo-crítica, a pesquisa em enfermagem é uma forma de intervenção na realidade objetiva (nos processos de saúde-doença da população, nos processos de trabalho e de produção em saúde, nos processos de formação e de educação permanente, nos processos cuidativos, entre outros) e, portanto, implica não só no esforço de reprodução da ideologia dominante como no desmascaramento, assumindo-se dialética e contraditória. A pesquisa jamais será neutra, da mesma forma, que a divulgação, em seu conteúdo e forma, também não o será.

A pesquisa em enfermagem precisa construir a autonomia, o que significa impregnar as finalidades investigativas com o ethos da profissão e buscar a conciliação das metodologias adotadas com as competências éticas (que se entende integradas pelos valores e virtudes para fazer o bem durante a realização da pesquisa e no seu resultado final e não apenas o mero cumprimento de formalidades para proteção dos indivíduos envolvidos diretamente na investigação), para finalmente, com os novos conhecimentos gerados, responder à demanda por intervenção necessária e qualificada.

Um outro sentido de autonomia, na investigação científica de enfermagem, reside nas formas de divulgação: ao limitar-se aos modos como heteronomicamente a enfermagem vem escolhendo os meios de divulgação, enquadrando-os a um desnecessário, improdutivo e estéril ranqueamento como o proposto por JCR ou ISI, curva-se a uma dada ideologia que, neste momento, podemos denominar de mercadológica, seguindo as regras das ciências biomédicas, segundo as quais a quantidade diz mais do que a qualidade e, assim, fenômenos complexos não têm vez, pois demoram mais a ser elucidados e precisam de muito mais

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espaço do que os usualmente destinados aos artigos das revistas científicas. E esses produtos, mesmo trazendo um conhecimento inovador, capaz de intervir nas práticas em muitos cenários, são destinados a veículos menos nobres de acordo com os critérios de avaliação da Capes: os livros e os capítulos de livros. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra: precisamos destas duas formas e também de outras para que os conhecimentos sejam divulgados, tanto os que perduram quanto os que inovam as nossas práticas.

Para mudar esta ordem das coisas, discutamos e construamos, pois, a autonomia na nossa prática investigativa em enfermagem!

São Paulo, outono de 2006.

Profª Drª Emiko Yoshikawa Egry

Professora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da EEUSP

Profª Drª Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca

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