• Nenhum resultado encontrado

A literatura de Chapeuzinho Amarelo

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2023

Share "A literatura de Chapeuzinho Amarelo"

Copied!
38
0
0

Texto

(1)

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA FLUMINENSE IFFLUMINENSE –CAMPUSCAMPOS CENTRO

CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS – PORTUGUÊS E LITERATURAS

LETÍCIA LIMA DA SILVA

RAYANNA RIBEIRO NETO AMARAL

A LITERATURA DE CHAPEUZINHO AMARELO

CAMPOS DOS GOYTACAZES – RJ 2022

(2)

A LITERATURA DE CHAPEUZINHO AMARELO

LETÍCIA LIMA DA SILVA RAYANNA RIBEIRO NETO AMARAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras – Português e Literaturas do Instituto Federal Fluminense – campus Campos Centro como parte das exigências para a obtenção do título de Licenciado em Letras.

Orientador: Prof Dr. Thiago Eugênio L. Betta

CAMPOS DOS GOYTACAZES – RJ 2022

(3)

A LITERATURA DE CHAPEUZINHO AMARELO

LETÍCIA LIMA DA SILVA RAYANNA RIBEIRO NETO AMARAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras – Português e Literaturas do Instituto Federal Fluminense – campus Campos Centro como parte das exigências para a obtenção do título de Licenciado em Letras.

APROVADO EM: ____/____/____.

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________________________

Analice de Oliveira Martins (Pós-doutora em Literatura Brasileira Contemporânea – Universitá degli Studi Roma Tre)

Instituto Federal FluminensecampusCampos Centro Membro

_________________________________________________________

Ana Raquel de Sousa Pourbaix Diniz (Mestre em Cognição e Linguagem – UENF) Institutos Superiores de Ensino do Centro Educacional Nossa Senhora Auxiliadora

Membro

____________________________________________________________

Prof. Dr. Thiago Eugênio Loredo Bêtta (Doutor em Cognição e Linguagem – UENF) Instituto Federal FluminensecampusCampos Centro

Orientador

(4)

AGRADECIMENTOS

Agradecemos primeiramente a Deus por sua infinita bondade e misericórdia conosco. A sua fidelidade e presença em nossas vidas nos fez ter a certeza de que não estamos desamparadas A caminhada até aqui foi intensa e saber que não estávamos sós nos manteve erguidas. Chegar até aqui nos provou que aquilo que foi prometido, Ele foi fiel para cumprir.

Nossos mais sinceros agradecimentos aos nossos familiares por todo carinho e confiança. Agradecemos aos nossos pais Nelson da Silva Amaral e Hermes Ribeiro da Silva (in memorian) por todos valores e ensinamentos de vida que nos direcionaram a ser quem somos. Às nossas mães, Jociane Ribeiro Neto Amaral e Ivane Lima da Silva, nosso singelo reconhecimento pelos abraços e orações que nos mantiveram firmes. Estendemos aos irmãos, irmãs, sobrinhos e amigos próximos. A compreensão que tiveram com nossas possíveis ausências, foi excepcional para a nossa permanência.

Aos nossos companheiros Gustavo Daniel Freitas Concas e Lucas Almeida Nogueira. Vocês foram essenciais nos dias de desabafo e conquistas, nossos agradecimentos ao amor e paciência que foram refletidos em forma de palavras de consolo e ânimo. Somos gratas a tudo o que nos proporcionaram até aqui.

Agradecemos ao nosso orientador Thiago Eugênio Loredo Betta por toda dedicação, paciência e esclarecimentos. Somos gratas por ter nos acolhido tão bem e fazer parte desta enorme conquista em nossas vidas, a sua participação foi essencial. Estendemos também esse agradecimento aos demais professores do Instituto Federal Fluminense que nos possibilitaram o desenvolvimento tanto profissional quanto pessoal.

(5)

“Agora eu era o herói

E o meu cavalo só falava inglês

A noiva do cowboy era você além das outras três

Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões

Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês”

(Chico Buarque - João e Maria)

(6)

RESUMO

SILVA, Letícia Lima da; AMARAL, Rayanna Ribeiro Neto.A literatura de

Chapeuzinho Amarelo. Campos dos Goytacazes, RJ: Instituto Federal Fluminense – IFF, 2022.

A Literatura Infantil institucionalizada surgiu na Idade Moderna, juntamente com o conceito unicelular de família. De acordo com Zilberman (2003) e Coelho (2000), ela é um tema de amplo debate, visto que seu valor literário é colocado em dúvida constantemente. Sendo assim, este trabalho procura considerar a riqueza literária do livro Chapeuzinho Amarelo (2020), escrito por Chico Buarque e ilustrado por Ziraldo.

Dessa forma, é explorado o interdiscurso sob o viés da análise do discurso de Maingueneau (2015) e o intertexto de Chapeuzinho Amarelo com a da obra Chapeuzinho Vermelho, tanto de Charles Perrault quanto dos irmãos Grimm, conforme a autora Santos (2014). As construções das narrativas verbal e visual são discutidas e é observada como elas, ao mesmo tempo que dialogam, criam discursos independentes. Ademais,Chapeuzinho Amareloé observada no âmbito da literatura brasileira e, principalmente, no conjunto de obras do autor Chico Buarque e do ilustrador Ziraldo. Com a pesquisa, foi possível concluir que Chapeuzinho Amarelo possui valor literário, pois faz parte de uma renovação que desassocia a Literatura Infantil do viés pedagógico.

Palavras-chaves: Literatura Infantil; Chapeuzinho Amarelo; Interdiscurso.

(7)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Print sobre a avaliação de Chapeuzinho Amarelo pelos leitores ...28 Figura 2 – Print sobre a avaliação de Chapeuzinho Amarelo pelos leitores ...28 Figura 3 – Print sobre a avaliação de Chapeuzinho Amarelo pelos leitores ...29 Figura 4 – Chapeuzinho Amarelo, no início da narrativa, com o rosto abatido e a pele amarelada de medo ………...………...…. 30 Figura 5 – Chapeuzinho Amarelo, ao fim da narrativa, após ter vencido o medo do lobo, corada, com os cabelos coloridos e feliz ………31 Figura 6– Metamorfose proposta por Ziraldo na obraChapeuzinho Amarelo .….. 31 Figura 7– Metamorfose proposta por Escher ………... 32

(8)

LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS CA - Chapeuzinho Amarelo

FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil

(9)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...9

1 A LITERATURA INFANTIL E A OBRA DE CHICO BUARQUE ...12

1.1 A Literatura Infantil no Brasil ...13

1.2 Chico Buarque e Ziraldo: autor e ilustrador da obra ...16

1.3 Apresentação da obra Chapeuzinho Amarelo ...17

2 O VALOR E A POSIÇÃO DA LITERATURA ...18

3 A OBRA CHAPEUZINHO AMARELO E SEU IMPACTO LITERÁRIO...23

3.1 O interdiscurso em Chapeuzinho Amarelo ...23

3.2 A renovação na Literatura Infantil ...25

3.3 A recepção dos leitores ...27

3.4 A narrativa criada pela ilustração ...29

3.5 Arte pedagógica x Arte literária ...32

CONSIDERAÇÕES FINAIS...35

REFERÊNCIAS...36

(10)

INTRODUÇÃO

A obra Chapeuzinho Amarelo1 foi publicada pela primeira vez em 1970 e relançada em 1979 com as ilustrações de Ziraldo. É um clássico da Literatura Infantil que já conta com 41 edições. Ganhou o prêmio altamente recomendável para crianças, em 1979, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e, em 1998, recebeu o Prêmio Jabuti de melhor ilustração. Essa criação literária foi escrita por Chico Buarque para a filha Luísa e dedicada às suas três filhas. O corpus desta pesquisa é composto pela 41ª edição deChapeuzinho Amarelo,publicada em 2020.

Chico Buarque é majoritariamente conhecido por sua carreira de cantor e compositor. Contudo, ele também é escritor de romances, dentre eles Budapeste (2003), Leite Derramado (2009) e O Irmão Alemão (2014).O ilustrador dessa obra, Ziraldo, é um grande nome da Literatura Infantil brasileira, conhecido por importantes obras, dentre as quais destacam-se O menino maluquinho (1980), O menino quadradinho(1989) eUma professora muito maluquinha(1995).

Como a obra CA é voltada para Literatura Infantil, é interessante saber que a concepção de um leitor infantil surgiu apenas em meio a Idade Moderna, com o advento da concepção de família, quando surgiram escritos destinados às crianças.

Entretanto, compreende-se que, naquela época, os escritos possuíam um teor pedagógico, com o intuito de moralizar, e acabava por restringir a fragilidade do público-alvo. Com isso, há na Literatura Infantil, uma forma de educar as crianças com o mundo do certo e errado, o que intensifica a submissão destas aos adultos detentores do saber. As obras infantis, diante disso, não eram e, em certa medida, ainda não são valorizadas como literatura por causa do teor moralizante.

Diante disso, a pesquisa desenvolvida teve o intuito de salientar o papel da Literatura Infantil, não como um objeto exclusivamente de trabalho pedagógico, mas como obra de riqueza literária, capaz de inserir a criança nas mais diversas situações que envolvem a sociedade como, por exemplo, o medo.

A Literatura Infantil é, inicialmente, uma literatura, ou seja, uma produção artística. Ela é a arte da palavra, visto que se utiliza dos variados recursos

1De agora em diante, a obraChapeuzinho Amarelotambém aparecerá sendo representada pela sigla CA.

(11)

linguísticos para ampliar, modificar e criar signos. Muitas são as definições do que é ou não literário, sendo assim, o presente trabalho considera a noção de literatura proposta por Regina Zilberman (2003), que diz que a Literatura Infantil só consegue seu status de arte literária quando é descomprometida com a ação pedagógica.

No mesmo sentido, Coelho (2000) afirma que é necessário rever como se dá o ensino da literatura atualmente, visto que a evolução de um povo se faz ao nível da mente e começa na infância. A autora considera ser importante que a Literatura Infantil se desfaça do teor pedagógico, voltado para submissão, e concentre seu conteúdo para o questionamento da autoridade, para o espírito solidário para a criança como um ser em formação, sempre apto a novas descobertas.

Nessa perspectiva, esta pesquisa investiga o valor artístico e literário de CA com um direcionamento diferente daquela visão pedagógica destinada às obras infantis. Ao trazer questões como o amadurecimento, tem-se exposto uma inovação temática na obra, ou seja, não há submissão a agentes moralizantes como, por exemplo, o lobo, que representa o vilão das histórias. Com a perspectiva do amadurecimento de problemas reais como o medo, a protagonista vence os obstáculos a partir do momento em que decide enfrentá-los.

Somado a isso, torna-se relevante destacarmos o problema da pesquisa: se a literatura suscita diferentes análises enquanto arte da palavra, que questões literárias podem ser levantadas a partir da leitura de Chapeuzinho Amarelo? Diante da problemática do que é ou não literatura, levanta-se em hipótese o fato dela estar livre de apresentar variadas temáticas e opiniões, visto que a narrativa em análise rompe estereótipos da Literatura Infantil brasileira tanto na forma quanto no conteúdo.

O objetivo principal desta pesquisa foi mostrar o valor literário da obra Chapeuzinho Amarelo, considerando forma e conteúdo. Os objetivos específicos estão diretamente relacionados a situar a obra em questão na Literatura Infantil e no conjunto de obras de Chico Buarque, analisar a narrativa verbal e visual do livro e, finalmente, descrever suas relações interdiscursivas.

O interesse em analisar a obra surgiu, principalmente, da vivência pessoal de uma das autoras, a Letícia. Ela teve contato com uma adaptação distorcida do livro Chapeuzinho Amarelo durante a infância e, ao longo da disciplina de Literatura Infantojuvenil, surgiu o interesse de verificar a memória em relação à leitura feita na 10

(12)

infância. O segundo motivo concerne à afinidade das duas autoras com a Literatura Infantil e juvenil; desde o 4.º período da licenciatura em Letras, a predileção pela área literária já existia, dada a afinidade com as disciplinas de teoria literária.

As justificativas acadêmicas estão concentradas nos poucos trabalhos de Literatura Infantil feitos pela área de Letras, as pesquisas sobre esse tipo de literatura envolvem mais os campos da sociologia, psicologia, antropologia, comunicação e educação; os levantamentos preliminares da pesquisa reforçaram a afirmação feita. Dessa forma, uma visão errônea da Literatura Infantil pode ocorrer, visto que a análise realizada por aqueles saberes pode ser classificada, de maneira equivocada, como análise literária, enquanto, de fato, são análises oriundas de outros campos científicos.

A justificativa social partiu de uma vontade de mostrar a relevância da Literatura Infantil para o desenvolvimento de um pensamento crítico nos pequenos leitores. É necessário evidenciar que esse tipo de literatura não pode estar relacionada a um mero entretenimento nem a um teor totalmente pedagógico.

Atualmente, essas visões arcaicas ainda são reproduzidas na sociedade e, principalmente, no âmbito educacional.

Este Trabalho de Conclusão de Curso possui três seções. A primeira aborda a Literatura Infantil e a síntese da obra Chapeuzinho Amarelo, na segunda seção é apresentado o referencial teórico que norteou a análise dessa pesquisa e, na terceira seção, é feita a análise sobre a literatura de Chapeuzinho Amarelo, juntamente às suas respectivas subseções para melhor compreensão das temáticas abordadas. O trabalho é dividido em assuntos que permeiam o embasamento da nossa pesquisa, com princípio em “A história da Literatura Infantil e a obra de Chico Buarque”, após “O valor e a posição da literatura” e, por fim, “A obra Chapeuzinho Amareloe seu impacto literário”.

Os dados expostos mostram que a obra Chapeuzinho Amarelo apresenta relevância, pois através dela é possível identificar o valor da Literatura Infantil, que, por muito tempo, foi defendida como um objeto pedagógico ao ser destinada a ensinos moralizantes em sala de aula. Entretanto, como uma obra literária, CA possui o seu valor e sua construção se dá de acordo com o contexto a qual está inserida. Portanto, esta pesquisa demonstrou queCAé uma obra renovadora que se

(13)

opõe à doutrinação e submissão destinada ao público infantil no contexto do século XVIII.

1 A LITERATURA INFANTIL E A OBRA DE CHICO BUARQUE

Antes de adentrarmos no campo da Literatura Infantil, vale a pena destacarmos como a criança era vista na Idade Média. A criança na Idade Média, de acordo com Zilberman (2003), não era separada dos adultos em relação aos costumes e vivências. Logo, não havia uma literatura específica para o grupo infantil, devido a relação de igualdade que se tinha com os maiores e a inexistência do conceito de infância.

Entretanto, no século XVII temos os primeiros escritos destinados ao público infantil, em consonância com a valorização da infância. A queda do sistema feudal nos direcionou para um novo conceito de família, ligado à unidade familiar onde, agora, temos a criança sendo valorizada e entendida como ser frágil e submisso às ordens pré-estabelecidas por adultos.

A partir dessa perspectiva moralizante e controladora, temos a escola como a instituição encarregada de controlar o acesso à informação e, também, as emoções sentidas pelo público. Tal afirmativa nos direciona para o viés pedagógico no qual a Literatura Infantil apresenta-se como instrumento de controle do desenvolvimento intelectual e emocional dos alunos.

A Literatura Infantil surge, com isso, como um instrumento pedagógico decorrente da ascensão do conceito de família burguesa. Percebemos que o gênero surge como forma de doutrinar o público infantil naquilo que deveria ou não ser vivido, falado ou pensado. A união da Literatura Infantil com as escolas apresenta-se como uma resposta ao contexto social da época, onde crianças precisam ser preservadas de temáticas para crescerem e se desenvolverem de acordo com o viés ideológico estabelecido pela sociedade.

O leitor infantil, com isso, passa a ser limitado do avanço intelectual, emocional e psicológico, ao ter como leitura obras destinadas a princípios doutrinários e moralizantes. Dessa maneira, priva-se o público infantil da interação com a realidade

12

(14)

social, sendo colocados à mercê de assuntos ligados a como ser um bom filho, a obediência, a ser bom aluno e o respeito ao próximo.

Por outro lado, é de extrema importância salientar a duplicidade da Literatura Infantil, onde de um lado temos a ótica do adulto, ao considerar a dominação e a doutrinação atrelados a pedagogia e, por outro lado, a ótica própria do interesse da criança, para quem a literatura se transforma em um meio de acesso ao real.

Segundo Zilberman (2003) essa duplicidade marca a limitação da Literatura Infantil o que, consequentemente, gera um desprestígio em relação ao público adulto. A autora afirma ainda afirma que

[...] a Literatura Infantil atinge o estatuto de arte literária e se distancia de sua origem comprometida com a pedagogia, quando apresenta textos de valor artístico a seus pequenos leitores; e não porque estes ainda não alcançaram o status de adulto que merecem uma produção literária menor (ZILBERMAN, 2003, p. 26).

Portanto, a Literatura Infantil serve de um meio de adentrar ao mundo, tendo em vista que por muito tempo a literatura serviu como uma ferramenta de auxílio na privação do real, por meio da pedagogia. Assim, a Literatura Infantil dispõe de dois elementos essenciais para o acesso à compreensão do real, sendo a história e a linguagem. De acordo com Eagleton (2017), elas são uma arte preciosa e adquirem valor quando ultrapassam a convenção, alcançando o inédito.

Somado a esses aspectos constitutivos da Literatura Infantil temos, portanto, a história demonstrando aquilo que é vivido na sociedade que, por outro lado, fora dos livros não seria capaz de ser compreendido e percebido pela criança. Ademais, a linguagem, que se apresenta como o mediador do alcance ao mundo real. A linguagem literária que envolve e possibilita o desdobrar da capacidade linguística.

Sendo assim, a Literatura Infantil, por meio das histórias acessíveis de compreensão ao público destinado, desempenha uma forma de acesso ao real.

Nas próximas subseções serão abordadas a Literatura Infantil no Brasil e sua divisão cronológica, a apresentação do autor e ilustrador deChapeuzinho Amareloe, por fim, haverá uma síntese da obra analisada.

1.1 A Literatura Infantil no Brasil

A Literatura Infantil chega ao Brasil no século XIX, após a vinda da família real portuguesa, em 1808. De acordo com Zilberman (2003), naquela época, era preciso

(15)

ascender a burguesia para que a Literatura Infantil passasse a ocorrer, visto que os textos infantis eram destinados a essa camada social. No panorama imperial brasileiro, escola e educação estavam presentes e, consequentemente, uma literatura à serviço delas também. A título de uma divisão cronológica, consideramos que, do século XIX aos dias atuais, a Literatura Infantil brasileira pode ser dividida em três fases: os contos da carochinha, a citação de clássicos e a literatura autônoma.

Os contos da carochinha inauguraram a Literatura Infantil brasileira no fim do século XIX com a publicação deContos da Carochinha, por Figueiredo Pimentel2. Na obra são reunidos textos que são adaptações que seguiam o molde europeu e isso

“dificultava a recepção pelo leitor brasileiro, em razão do distanciamento da língua, que, embora, no caso do português, tivesse a mesma origem, configurava, culturalmente,como uma barreira para uma aceitação plena” (SEGABINAZI;

DUARTE, 2017, p. 313). Não havia, nesse contexto, grandes traços de originalidade.

Existia na capital de um país distante, uma meninazinha muito galante, muito bonita. Chamava-se Albertina, mas tôda (sic) a gente a conhecia por Naná. Sua avó estimava-a imensamente. Esta boa avòzinha (sic), não sabendo mais o que inventar para alegrá-la, deu-lhe um chapèuzinho (sic) de veludo vermelho (PIMENTEL,1958, p. 79).

Em um segundo momento, as obras de Monteiro Lobato apresentam construções com maior originalidade. Os enredos ocorrem no Brasil, com pessoas e elementos tipicamente brasileiros, mas há um diálogo constante com os clássicos universais. Em Reinações de Narizinho, os personagens dos clássicos são presentes em vários momentos e, por mais que não participem efetivamente da obra, são mencionados. Observe o trecho a seguir, que relata a participação da Chapeuzinho Vermelho:

— Antes de mais nada — foi dizendo Emília — quero saber o seu verdadeiro nome, porque uns dizem Capinha Vermelha e outros, Capuzinho Vermelho. Qual é o certo?

— Meu verdadeiro nome é Capinha Vermelha, porque depois que vovó me fez esta capinha todos que me viam ir para a casa dela diziam: “Lá vai indo a menina da capinha vermelha!” Mas, como vocês podem ver, esta capinha tem um capuz, que eu às vezes uso. De modo que tanto podem chamar-me Capinha, como Capuzinho, ou mesmo Chapeuzinho Vermelho.

2Figueiredo Pimentel, assim com Chico Buarque, também foi um autor de romances, ele escreveu a obraO aborto. Contudo, em um momento da carreira, dedicou-se à Literatura Infantil.

14

(16)

— Coitada de sua avó! — exclamou Emília. — Você não imagina como ficamos tristes com o que lhe aconteceu! Diga-me: sua avó era muito magra?

Capinha estranhou a pergunta — mas respondeu que sim.

— Muito magra ou meio magra?

— Bem magra.

— Então não entendo aquele lobo — disse Emília – porque uma velha muito magra não é alimento. Só osso...

Todos riram-se da boneca, e Narizinho explicou que Emília, coitada, era asnática de nascença. Nisto o relógio bateu cinco horas (LOBATO, 2014, p.

228-230).

No momento, Narizinho está no sítio do Pica-pau Amarelo e personagens de outros reinos e clássicos perpassam todas as suas aventuras nesse local, o capítulo Cara de coruja é destinado aos clássicos infantis na obra do Lobato. A Chapeuzinho Vermelho não interfere diretamente no desenrolar da obra, mas é citada.

Na terceira fase, em que se encontra Chapeuzinho Amarelo, há uma produção literária autônoma. Nela são encontradas obras de Ruth Rocha e Ana Maria Machado, por exemplo. Não é o mesmo caso de Monteiro Lobato, pois Chico Buarque não cita a Chapeuzinho Vermelho de Perrault3 ou dos irmãos Grimm4. Na obra estudada nesta pesquisa, há uma releitura que surpreende e transgride a obra original, não é cópia ou mera citação. Acompanhe o trecho inicial da narrativa:

Era a Chapeuzinho Amarelo.

Amarelada de medo.

Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.

Já não ria. Em festa, não aparecia.

Não subia escada nem descia.

Não estava resfriada mas tossia.

Ouvia conto de fada e estremecia.

Não brincava mais de nada,

nem de amarelinha (BUARQUE, 2020, np).

Notamos assim que a obraChapeuzinho Amarelonão é apenas uma releitura simples deChapeuzinho Vermelho, visto que ela possui elementos que rompem com o clássico literário em que se inspirou. No trecho citado acima, é possível notar uma

4Uma edição brasileira desta obra: GRIMM, Jacob; GRIMM, Wihelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos. Trad. Christine Röhrig. São Paulo: Editora 34, 2018.

3Uma edição brasileira desta obra: PERRAULT, Charles. Contos da mamãe gansa ou histórias do tempo antigo. Trad. Leonardo Fróes. Il. Milimbo. São Paulo: SESI-SP, 2018.

(17)

intertextualidade feita pelo autor quando diz “aquela Chapeuzinho”. O uso do pronome demonstrativo “aquela” abre um pressuposto para a existência de uma outra, no caso, a personagem Chapeuzinho Vermelho. Nesse momento fica evidente o intertexto entre as obras, pois o fragmento deixa evidente a relação de um discurso com outro.

Além disso, é possível salientar que a Chapeuzinho Amarelo era uma criança leitora dos clássicos infantis, posto que ela se estremecia ao escutar contos de fadas, possivelmente em virtude da visão moralizante que os perpassam. A moralização gerou na personagem uma submissão, que só é vencida após a menina adquirir consciência e enfrentar seus medos, no decorrer da história.

1. 2 Chico Buarque e Ziraldo: autor e ilustrador da obra

A 41° edição deChapeuzinho Amarelo,corpus deste estudo, foi publicada em 2020. Seu autor, Chico Buarque, é conhecido por sua infinita habilidade artística, destacando as carreiras de compositor, dramaturgo e escritor. Além disso, destacou-se também como autor de romances e peças teatrais.

Um outro ponto importante sobre Chico Buarque, autor da obra analisada, apresenta-se no fato de ele ter sido vencedor do Prêmio Jabuti por três vezes, entre elas a obra de melhor romance no ano de 1992 comEstorvoe o prêmio deLivro do Ano que foi conquistado com as obras Budapeste (2004) eLeite Derramado(2010).

Por fim, o último prêmio, Prêmio Camões, em 2019, sendo o principal troféu da literatura de língua portuguesa, devido ao conjunto da obra. Dessa forma, Abreu (2013) sintetiza sua carreira da seguinte forma

Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Filho do renomado intelectual brasileiro, Sérgio Buarque de Hollanda, Chico Buarque, como é conhecido, começou sua carreira na música, passou pelo teatro e pelo cinema nacionais, até chegar à literatura. Visto como um ícone de sua geração, o autor obteve sucesso primeiramente em sua carreira musical, com amplo reconhecimento do público, e mais tarde em sua carreira literária, contando inclusive com o prestígio proveniente da crítica especializada (ABREU, 2013, p. 13).

Ziraldo, ilustrador da obra, é um nome importante da Literatura Infantil brasileira e possui uma linguagem visual singular, com traços expressivos. Almeida (2018) considera que Ziraldo tem o poder de narrar histórias com maestria por meio da ilustração. Na obra em questão, ele trabalha com uma proposta de ilustração 16

(18)

inspirada nas produções do artista gráfico Maurits Cornelis Escher, em seu momento chamado “Período das Metamorfoses”. A escolha de Ziraldo é baseada em seu modo de fazer Literatura Infantil, pois:

[...] a Literatura Infantil de Ziraldo participa de um diálogo com as linguagens de arte, e que os leitores transitam, naturalmente, de uma linguagem a outra, tanto na condição de receptor que se modifica com os dados novos da criação do artista, como na condição de agentes que movidos pela própria criatividade e sensibilidade produzem, elaboram, reiteram e criam novas versões de mundos imaginários e sedutores (BIER, 2004, p. 13).

Com isso, temos em CA, suas ilustrações impactantes, que criam uma narrativa própria da obra. Além do mais, ele é criador de personagens famosos no ramo da Literatura Infantil, sendo um dos principais O menino maluquinho (1980) que até hoje é de forte influência e relevância no mundo da infância.

1.3 Apresentação da obra Chapeuzinho Amarelo

A obra apresenta a história de uma menina chamada Chapeuzinho Amarelo que possui como característica principal o medo de tudo. Com isso, temos o amarelo associado ao medo que é sentido. O sentimento que a consome, consome atos do dia a dia como, por exemplo, o medo de brincar, ato tão simples e rotineiro na vida das crianças, mas, na de Chapeuzinho Amarelo, era algo limitado e inapropriado devido ao sentimento amedrontador.

Além disso, há um medo corriqueiro, o medo de um vilão comum a diversas histórias infantis, o lobo. A todo momento, Chapeuzinho Amarelo pensava no lobo mesmo que nunca o tivesse visto. Referente a isso, percebemos que a menina possuía o medo do desconhecido no mundo real, mas, por outro lado, o medo do conhecido nas obras infantis. Entretanto, de tanto pensar no vilão das histórias, encontrou-o e, para surpresa, não sentiu medo.

Somado a isso, temos o amadurecimento da menina que agora não é mais amedrontada pelo sentimento, haja vista que consegue enfrentá-lo frente a frente e percebe que tudo o que sentia acabou sendo abandonado, pois agora venceu o medo que a assolava.

Outrossim, o jogo de imagens apresentadas na obra traz para a história ainda mais riqueza de detalhes. No início, como sendo o vilão, e sinônimo de terror para as

(19)

crianças, o lobo aparece como um ser assustador, com dentes e garras afiadas, com sua cor escura como a noite e, além disso, maior do que a menina.

Portanto, após perceber que a menina perde o medo ao estar perto, o lobo acaba sendo representado como um ser frágil, no tom “branco-azedo” como retratado no livro, sem toda a escuridão que representa os vilões e, cada vez mais que percebia que não causava terror, se sentia despido. Além de haver um trocadilho silábico e ser transformado em um bolo. Percebemos com isso que causar medo é o combustível existencial do lobo.

Por fim, vencido o medo do lobo, Chapeuzinho Amarelo se torna livre para viver tudo aquilo que o medo a impossibilita de viver. Com isso, a menina aparece no fim da história feliz e ultrapassando os obstáculos como em um simples jogo de amarelinha. Agora, amadurecida e disposta a viver uma vida feliz sem as amarrações causadas pelo medo.

Nesta próxima seção serão abordados o valor e a posição da literatura. Esta parte trará todo referencial teórico utilizado para análise da obra. Dentre os assuntos abordados, estão os conceitos de literatura e campo discursivo.

2 O VALOR E A POSIÇÃO DA LITERATURA

Nesta seção é apresentado o referencial teórico que norteou a pesquisa e a análise literária. São mencionados conteúdos que envolvem a Literatura Infantil, o campo discursivo e a importância dos estudos literários. Com isso, é ressaltado o valor da literatura, em especial, da obra Chapeuzinho Amarelo, como uma obra literária infantil.

Definir o que é Literatura Infantil e, principalmente, o seu valor são atividades complexas de realizar. Tal fato se deve porque é complexo definir a literatura em geral, são muitos conceitos que não abrangem a totalidade da produção literária e sua posição no espaço e no tempo. Para Eagleton (2006), a literatura possui diversas essências e, por isso, há conflitos.

No campo da análise do discurso é possível observar como as divergências acontecem. O campo discursivo, proposto por Maingueneau (2015), demonstra essa dificuldade de conceituação sobre o que é Literatura Infantil. Os gêneros de discurso

18

(20)

estão dentro dos campos discursivos, que são heterogêneos, em que centro e periferia podem se alternar ao longo dos anos. O autor afirma que:

Os campos discursivos, nos quais os posicionamentos se inscrevem, cada um a sua maneira, gêneros do discurso, não são estruturas estáticas, já que são constantemente submetidos a uma lógica de coerência em que cada um visa modificar as relações de força em seu benefício. Não são nunca espaços homogêneos: em um momento dado, há de fato um centro, uma periferia e uma fronteira (MAINGUENEAU, 2015, p. 68).

Um exemplo dessa situação é quando a Literatura Infantil surge, na Idade Moderna, totalmente a serviço da educação, com objetivo de influenciar crianças. A ideia de uma Literatura Infantil voltada para o teor pedagógico estava no centro do campo discurso. Entretanto, atualmente, uma literatura que espere crianças passivas não é bem-vista; é pertinente questionar a presença da Literatura Infantil apenas no espaço escolar, servindo à educação; como se não fosse possível utilizá-la em um momento de lazer ou na construção de conhecimento para vida. Logo, é possível perceber uma troca entre centros e periferias no meio literário.

Além do mais, é interessante destacar que o campo discursivo vive em constante embate; mesmo como novos valores para a Literatura Infantil, a classificação de Chapeuzinho Amarelo como literatura encontra recusa até atualmente, seja por visões religiosas ou culturais. Sobre o debate sobre os valores literários e pedagógicos da Literatura Infantil, Coelho afirma que “essas duas atitudes polares (literária e pedagógica) não são gratuitas. Resultam da indissolubilidade que existe entre intenção artística e intenção educativa incorporadas nas próprias raízes da Literatura Infantil” (COELHO, 2000, p. 48).

Ao tomarmos como exemplo a ideia de campo discursivo, proposto por Maingueneau (2015), torna-se importante destacarmos o caráter do que é ou não literário ou, de forma mais específica, o que é ou não Literatura Infantil. Como o objeto de estudo, a obra Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, nos direciona a um estudo da caracterização do literário ou não, tendo em vista os valores sobre o que é infância e o que o texto infantil deve ou não abordar, questões já apontadas por Zilberman (2003).

Ainda em relação ao caráter literário, CA deve ser considerada como literatura, tendo em vista que a originalidade da obra, segundo Eagleton (2017) é de extrema importância. Diante disso, o rompimento com a tradicionalidade e a inauguração de algo novo a torna mais considerável. Sendo assim, torna-se

(21)

relevante destacarmos o valor literário da obra ao tomarmos como base a revolução destinada à obra a partir de uma herança literária,Chapeuzinho Vermelho.

Chico Buarque, a partir de uma obra tradicional comoChapeuzinho Vermelho, consegue transformá-la em uma obra que rompe com os estereótipos moralizantes e defensores do ser infantil como ser submisso. Ainda em relação ao caráter literário da obra, Eagleton afirma que “para ser reconhecida como arte, uma obra precisa manter alguma ligação com o que já consideramos como categoria artística, mesmo que ela acabe transformando essa categoria até a tornar irreconhecível”

(EAGLETON, 2017, p.190).

Diante disso, debatemos a questão que desmistificaCA como uma arte não literária. A obra apresenta-se como uma transformação do clássico Chapeuzinho Vermelho, o qual foi inserido na sociedade em uma determinada época cujos valores e preceitos já eram estabelecidos. Entre esses preceitos mencionados, temos o valor da criança como ser inferior e que deveria ser privado de determinados assuntos e verdades, a fim de serem instruídos a obediência familiar.

Entretanto, a obra de Chico Buarque, não deixa de ser uma obra literária devido a abordagem destinada ao público infantil e, consequentemente, apresentar um ideal novo de criança amadurecida. Os pais e/ou responsáveis acabam, com isso, vendo na obra algo novo e, por vezes, deslocado de tudo aquilo que foram instruídos a compreenderem sobre o público infantil.

Com isso, ainda segundo Eagleton (2017) toda interpretação de uma obra literária vem somada, mesmo que de forma inconsciente, por ideais e valores culturais. A obra Chapeuzinho Vermelho, valorizada e reconhecida fortemente por educadores e pais, em sua publicação e enredo foi escrita em um contexto social distinto da obraChapeuzinho Amarelo, onde as crianças eram vistas como um grupo que não possuía autonomia intelectual e amadurecimento sobre assuntos antes vistos como proibidos e prejudiciais para a sua formação.

Percebe-se com isso, o quanto os conceitos e estereótipos destinados ao público infantil são enraizados, ainda que de forma inconsciente, até hoje na atual sociedade. A significação da obra parte da sociedade a qual é inserida, assim como Eagleton (2017, p.195) afirma ao relatar que “um clássico da literatura, para alguns críticos, é não tanto uma obra de valor imutável, e sim uma obra capaz de gerar novos significados ao longo do tempo”.

20

(22)

Portanto, a obra Chapeuzinho Vermelho, apresenta-se como um clássico mundial que sendo uma obra literária também, é intemporal, e cabível de alterações.

Com isso, a obra Chapeuzinho Amarelo apresenta-se como uma releitura ligada à sociedade na qual estamos inseridos e não deixa de possuir o valor literário. Em relação a esse tema, Silviano Santiago afirma que

O segundo texto se organiza a partir de uma mediação silenciosa e traiçoeira sobre o primeiro texto, e o leitor, transformado em autor, tenta surpreender o modelo original em suas limitações, suas fraquezas, em suas lacunas, desarticula-o e o rearticula de acordo com suas intenções, segundo sua própria direção ideológica, sua visão do tema apresentado de início pelo original (SANTIAGO, 2000, p. 20).

Nessa perspectiva, CA apresenta-se como exemplo. Inspirada no clássico Chapeuzinho Vermelho, a produção desmistifica o medo. Enquanto nas versões de Perrault e dos irmãos Grimm o medo é reforçado e tido como um elemento moralizante e educacional, em Chapeuzinho Amarelo, o medo é colocado como algo a ser superado e está atrelado ao movimento de autonomia que as crianças podem buscar. De forma alguma é uma simples cópia. Além do mais, para Calvino (1993), os clássicos são livros que nunca terminam o que tinham para dizer e a sua releitura promove sua vitalidade.

Ao tratarmos o exemplo da literatura brasileira, temos a Literatura Infantil pautada em histórias fantasiosas ou veristas, além disso, como uma literatura que consegue agrupar personagens humanos e animais que adquirem características humanas. Com isso, percebe-se que a história infantil possui uma semelhança no que tange às orientações de produção.

Entretanto, conforme apontado por Eagleton (2017) que relata o fato de o valor da obra não ser imutável, temos a Literatura Infantil com obras renovadoras que se enquadram no contexto social no qual estamos inclusos. Somado a isso, Zilberman afirma o caráter renovador das obras infantis no atual cenário brasileiro.

“Assim, da análise das criações mais recentes poder-se-á verificar o engajamento com uma arte renovadora, retirando daí seu valor, ou a inclinação a um didatismo transmissor de valores estabelecidos e desfavoráveis à óptica infantil” (ZILBERMAN, 2003, p. 177).

Zilberman (2003) apresenta uma análise da obra História meio ao contrário5, de Ana Maria Machado, publicada em 1979. A obra apresenta uma transformação

5A edição consultada para esta pesquisa foi: MACHADO, Ana Maria. História meio ao contrário. Il.

Renato Alacão. 26. ed., São Paulo: Ática, 2010.

(23)

no cenário da Literatura Infantil, onde percebemos uma renovação de valores antes inapropriados de serem expostos ao público infantil.

Segundo Zilberman, História meio ao contrário representa uma renovação da escrita temática destinada aos menores. A princípio, temos o título que nos direciona para uma ordem distinta de tudo aquilo que era visto nas obras infantis, onde já era esperado todo um enredo de personagens, características, desejos e o tão esperado final feliz. Zilberman (2003), em sua análise, relata a contradição temática existente na obra, contraposto ao modelo determinado pela tradição, sendo renovador e se opondo a um padrão de obra previsto como moralizante e previsível.

Ainda sobre o processo de renovação, a obra analisada, apesar de possuir um elenco tradicional, sendo composto por: Príncipe, Princesa, Dragão, Rei, Rainha, Gigante, transforma o enredo temático a partir do momento em que o desfecho é modificado e se opõe a convenção dos contos de fadas que, segundo Zilberman (2003) supõe uma sequência na narrativa comum juntamente a um elenco de personagens.

A história apresenta uma autonomia da personagem feminina onde ela é capaz de decidir o seu caminho, ao reafirmar que a sua história é feita por ela mesma. Percebemos, diante disso, uma semelhança no que tange ao papel transformador das obras infantis brasileiras. Em CA, ocorre o amadurecimento da protagonista que não se encontra submissa ao medo que a assolava, mas enfrenta-o e, consequentemente, trilha o seu caminho de liberdade.

Somado a isso, temos uma crítica quanto ao resguardo do público infantil, associado a incapacidade de compreensão dos assuntos ligados à realidade. O público infantil, durante muito tempo, foi visto como um ser frágil e, com isso, deixado de fora de questões que englobam o mundo real. A obraHistória meio ao contrário apresenta uma crítica ao fato, tendo em vista que o Rei foi exposto a uma situação cotidiana e ficou completamente perturbado. Zilberman (2003) em sua análise da obra demonstra queo Rei, por suas atitudes pueris, configura o protótipo da condição infantil: - foi isolado do mundo exterior, a fim de que não se rompesse sua ilusão de felicidade” (ZILBERMAN, 2003, p.180).

Podemos, com isso, atribuir a crítica a esse resguardo do público infantil à obra Chapeuzinho Amarelo, onde por tanto ter medo a protagonista era privada dos prazeres da vida. Sendo, portanto, limitada até que decide ultrapassar esse 22

(24)

obstáculo vencendo o que lhe prendia, o medo do lobo, ou seja, o medo do desconhecido. “Uma obra literária pode ser não realística, mas realística, projetando um mundo diferente do nosso, mas de uma maneira que revela coisas verdadeiras e significativas sobre a experiência do cotidiano” (EAGLETON, 2017, p. 194). Dessa forma, temos na obra CA uma representação dos desafios reais da vida cotidiana que, na obra, é representado pela superação do medo que tinha do lobo.

As obras Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, e História meio ao contrário, de Ana Maria Machado, representam uma renovação na narrativa literária destinada ao público infantil. Assim como apontado por Eagleton (2017) sobre o valor da obra estar ligada a capacidade de gerar novos significados com o passar do tempo, Zilberman (2003) nos apresenta a ruptura do teor moralizante e contextual na Literatura Infantil brasileira, que podemos associar a obra de análise do nosso estudo,Chapeuzinho Amarelo.

Por fim, a última seção abordará a análise da obra Chapeuzinho Amarelo juntamente ao valor na Literatura Infantil, juntamente aos aspectos interdiscursivos que norteiam a obra.

3 A OBRA CHAPEUZINHO AMARELO E SEU IMPACTO LITERÁRIO

Nesta seção será explorada a análise da obra Chapeuzinho Amarelo e seu valor na literatura atual. Abordar um texto infantil pelo olhar literário e artístico não é uma tarefa simples, mas, para nortear a abordagem e para deixá-la mais completa, o estudo considerou cinco aspectos: (1) o interdiscurso, (2) a recepção dos leitores, (3) a ilustração, (4) a renovação da Literatura Infantil e (5) a relação entre arte pedagógica e arte literária. Desta forma, a análise está organizada em cinco subseções.

3.1 O interdiscurso em Chapeuzinho Amarelo

Como já apontado, a obra Chapeuzinho Amarelo é marcada pela intertextualidade entre o clássico Chapeuzinho Vermelho, tanto na versão dos irmãos Grimm quanto na versão de Perrault. A obra literária, segundo Eagleton (2017), para ser reconhecida como arte, precisa possuir um elo com o que já consideramos artístico, apesar de transformá-lo. Com isso, temos em CA uma

(25)

transformação do clássico Chapeuzinho Vermelho que possui temáticas narrativas que estão ligadas com o contexto inserido.

Nesse sentido, compreende-se como enfoque narrativo de ambas a questão do medo da menina. Entretanto, o desenrolar da história é distinta em cada uma delas, onde em Chapeuzinho Vermelho temos o medo sendo abordado a partir do viés moralizante e pedagógico da época. Já em Chapeuzinho Amarelo temos o medo como ponto de partida para o libertar do aprisionamento intelectual que, como apresentado, era impossibilitado às crianças.

De um lado temos com a edição de Perrault e irmãos Grimm o viés transgressor, por outro, em Chico Buarque o amadurecimento infantil. Em Chapeuzinho Vermelho a ideia de obediência e submissão são encontradas para limitar o desenvolvimento intelectual do público infantil, onde eram vistos com inferioridade sobre a total obediência dos pais, caso contrário haveria consequências.

Ainda sobre o viés da obediência, vemos a abordagem em Chapeuzinho Vermelho de forma clara na relação adulto/criança, tendo em vista o diálogo de ordenança exposto logo no início quando a mãe diz: para a garota não ir pela floresta nem conversar com desconhecidos. A menina é manipulada pela mãe e ao descumprir a ordem exposta sofre consequências, o que salienta a submissão e intensifica o castigo sofrido quando a menina diz que nunca mais entrará sozinha na floresta nem dará ouvidos a estranhos.

O conto Chapeuzinho Vermelho é marcado em seu início e fim pela ordem que deve ser obedecida, ou seja, o dever-fazer e, no final apresenta o resultado da desobediência que se apresenta como o que não deve ser feito. Ao ir contra os princípios estabelecidos pelo adulto, a criança sofre danos e, com eles, aprende.

Temos, dessa forma, uma leitura servindo a um viés pedagógico e doutrinário.

Por outro lado, a obra de Chico Buarque, CA, apresenta a criança de forma oposta, ao se adequar ao contexto histórico em que estamos inseridos. Apesar de possuir medo, como o autor ressalta “Era Chapeuzinho Amarelo. Amarelada de medo. Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho” (BUARQUE, 2020, np), a menina não é comandada por um adulto, mas sim, por sua própria limitação; o medo.

Com isso, ao se deparar com o vilão que representa o ápice do seu medo, Chapeuzinho Amarelo vence o obstáculo e há a ruptura do bloqueio que a 24

(26)

impossibilita de viver. Por outro lado, o medo abordado em Chapeuzinho Vermelho não é o medo de um lobo, pois ele é desconhecido, mas o medo da desobediência, que resulta na punição.

Além da intertextualidade relacionada ao medo, torna-se importante destacar a questão das cores dos chapéus, onde possui uma representação da característica das personagens. A cor vermelha atribuída ao chapéu no livro Chapeuzinho Vermelho na versão de Perrault, destaca o lado sexualizado da menina que não era inocente. Já na obra de Chico Buarque temos a cor amarela ligada ao tom pejorativo do verbo "amarelar'', ao enfatizar o medo que sentia (LEMOS, 2008).

Os personagens das obras salientam o interdiscurso entre elas, visto que entre ambas existe uma relação complexa e necessária para a originalidade (SANTOS, 2014). De um lado, temos na obra Chapeuzinho Vermelho, uma menina submissa às ordens e o caráter da transgressão e, de outro lado, temos em Chapeuzinho Amarelo uma menina livre para buscar mudanças na sua vida salientando o caráter do amadurecimento.

Além disso, o lobo, representado como vilão nas narrativas, apresenta em Chapeuzinho Vermelho o poder absoluto sobre a menina. Entretanto, na obra de Chico Buarque o lobo é apresentado no início como o vilão das histórias infantis, mas a partir do momento em que é enfrentado acaba perdendo a armadura que lhe é destinada desde o início das histórias da Literatura Infantil; o caráter de vilão irreversível e amedrontador. Salienta-se, com isso, a releitura dos personagens na obra.

3.2 A renovação na Literatura Infantil

A obra Chapeuzinho Amarelo apresenta, em seu enredo temático, uma renovação da composição literária estabelecida ao público infantil. Antes, sujeitos à assuntos estabelecidos pelos adultos como apropriado ou inapropriado, hoje, expostos a uma narrativa que influencia a reflexão e inserção ao mundo por meio da leitura.

Segundo Zilberman (2003, p.177), “a convenção dos contos de fadas supõe uma narrativa típica e um elenco de personagens”. Relacionado a isso, a obra CA nos direciona a uma renovação, tendo em vista o amadurecimento da menina que

(27)

enfrenta obstáculos e alcança o seu final feliz sem a ajuda de príncipes e heróis; o amadurecimento é dado a partir do enfrentamento do medo por iniciativa própria sem a ação de agentes manipuladores.

Um outro ponto importante que ressalta o caráter renovador encontra-se na presença do lobo que apresenta a característica enraizada de vilão e ser amedrontador, mas na obra analisada, ele acaba perdendo a postura e se torna fraco ao ser vencido.

O lobo ficou chateado de ver aquela menina olhando pra cara dele, só que sem o medo dele. Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo, porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo. É feito um lobo sem pelo. Lobo pelado” (BUARQUE, 2020, np).

Dessa forma, apresenta-se uma ruptura do caráter de vilão sempre destinado ao lobo. A menina conseguir vencer um vilão temido pelas histórias infantis representa um exemplo da perspectiva renovadora da literatura, haja vista que ao ler essa passagem torna-se claro que o lobo se sente inferiorizado e despido da sua armadura que é ser o causador do terror infantil.

Na história da Literatura Infantil brasileira, a obra de Monteiro Lobato marca o início da nova narrativa para o público infantil. A ruptura de uma criança silenciada e submissa, dá origem à boneca Emília, que mesmo sendo uma boneca, representa uma menina que possui voz para questionar e está inserida a um grupo social onde há essa escuta da sua liberdade expressiva. Gregorin Filho (2006) menciona o marco presente na Literatura Infantil brasileira, onde ressalta a passagem do modelo transgressor e doutrinário para uma literatura ligada ao real contexto de amadurecimento infantil.

A educação e a leitura no Brasil, até o surgimento de Monteiro Lobato, eram o reflexo dos paradigmas vigentes, ou seja, o nacionalismo, o intelectualismo, o tradicionalismo cultural com modelos de cultura a serem imitados – desprezando-se totalmente as manifestações culturais surgidas aqui no país –; divulgavam-se o humanismo dramático e o moralismo religioso, com as exigências de retidão de caráter, de honestidade, de solidariedade e de pureza de corpo e de alma em conformidade com os preceitos cristãos. (GREGORIN FILHO, 2006, p. 190).

Ainda segundo Gregorin Filho (2006, p. 190) “Todos esses elementos eram oriundos de ideologias impostas pelas classes dominantes, que buscavam na educação e nos primeiros esboços de literatura para crianças e jovens a concretização e perpetuação de seus anseios”. Referente a isso, salienta-se a 26

(28)

necessidade que havia em tornar a Literatura Infantil uma arma de transmissão de preceitos estabelecidos e que deveriam ser mantidos no tecido social.

Entretanto, inicia-se com Monteiro Lobato uma renovação da literatura, como visto na obra Sítio do Pica Pau Amarelo. Todas as mudanças de contexto de produção ressaltam a diversidade étnica, cultural e social da sociedade, onde as crianças não são vistas como seres simplesmente receptores de informações e neutralizadas do real, mas, sim, seres integrantes e que possuem autonomia intelectual.

A obra Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, como apresentada, nos apresenta essa literatura renovadora6, tendo em vista que os textos literários são mutáveis e dialogam com a sociedade. Portanto, há a apresentação do olhar amadurecido e questionador de uma criança capaz de adentrar à realidade por meio da leitura.

3.3 A recepção dos leitores

Os textos literários geram, antes e após serem lidos, diferentes opiniões. Na obra Chapeuzinho Amarelo, o público adulto vê nas renovações das obras clássicas algo inapropriado e inacessível para contato do público infantil, tendo em vista que os princípios de obra literária infantil eram aqueles onde a criança era privada do contato com o real.

Um exemplo de recusa à obra CA encontra-se em termos que antes seriam completamente inapropriados para serem ditos para a criança; ser frágil e protegido, como a palavra “diabo” e a ilustração que aparece na obra de forma clara. Dessa forma, muitos pais acabam enxergando-a como uma arte inacessível e inapropriada para o público infantil. Entretanto, o conceito do que é ser criança no século atual é completamente distinto do conceito de criança evidenciado na obra dos irmãos Grimm, por exemplo.

A repulsa por parte dos pais pode ser constatada no site daAmazon, terceiro maior e-commerce do Brasil7, na seção nomeada Avaliações de clientes. Os

7Dado retirado do sitehttps://www.conversion.com.br/blog/ranking-ecommerces/

6A obraO lobo maurinho, de Gustavo Luiz e Mig, também apresenta uma releitura renovadora dos clássicos infantis.

(29)

comentários negativos em questão ficam em destaque, visto que outros consumidores avaliaram a opinião como algo útil e relevante para a compra do livro.

Figura 1:Print sobre a avaliação deChapeuzinho Amarelopelos leitores Fonte:site da Amazon, 2022

Figura 2:Print sobre a avaliação deChapeuzinho Amarelopelos leitores Fonte:site da Amazon, 2022

28

(30)

Figura 3:Print sobre a avaliação deChapeuzinho Amarelopelos leitores Fonte:site da Amazon, 2022

Os leitores são formados por diferentes ideologias e, por isso, não há uma opinião unânime sobre a obra. Contudo, é interessante questionar quais são os parâmetros analisados para conceder um valor negativo à Chapeuzinho Amarelo, nas opiniões abordadas, elas estão associadas à religião e à energias negativas.

Neste mesmo caminho, escolas europeias evitam os clássicos literários infantis. Em Barcelona, uma escola retirou clássicos da Literatura Infantil, como Chapeuzinho VermelhoeA Bela e Fera, de sua biblioteca por, segundo os dirigentes da escola, as obras estarem reproduzirem padrões sexistas (MOLINERO, 2019).

Tudo que não condizia com uma realidade idealizada foi deletado.

Diante disso, conforme apontado por Eagleton (2017), salienta-se o fato do valor da obra não ser imutável, sendo capaz de gerar novos significados de acordo com o contexto em que estamos inseridos. Nos dois casos apresentados, há um ponto em comum, que é a vontade de decidir o que a criança lerá, como se ela fosse um ser incapaz de interpretações mais sofisticadas (MOLINERO, 2019).

3.4 A narrativa criada pela ilustração

A ilustração é uma parte importante para o livro infantil, pois o primeiro contato de uma criança com o mundo literário é por meio sonoro e visual. Coelho

(31)

(2000) afirma que seu valor está no estímulo do olhar e da atenção visual, facilitação da comunicação e concretização das relações abstratas.

Daí a importância do livro de gravuras ou criadas em quadrinhos durante a infância – fase em que o cérebro ainda é pobre de experiências e não dispõe do repertório indispensável à decodificação da linguagem escrita.

Literária ou não, a palavra escrita é, por natureza, simbólica e abstrata:

remete para representações mentais[grifo da autora] que exigem vivências ou experiências anteriores, para serem compreendidas ou decodificadas (COELHO, 2000, p. 196).

A ilustração também cria uma narrativa, porque, assim como a palavra, ela tem a missão de acolher e transmitir uma mensagem ao leitor. Não se trata apenas de desenhos para serem observados, a ilustração é provocativa, gera emoções e instiga a imaginação. Ziraldo, ilustrador de Chapeuzinho Amarelo, consegue expressar a narrativa de forma atrativa por meio de seus traços, ele “apresenta uma obra que aguça os sentidos dos leitores, principalmente o visual, com ilustrações que também contam a história, junto às palavras” (ALMEIDA, 2018, p. 8).

A princípio, essa constatação pode ser observada na representação visual da personagem principal. No início do livro, Chapeuzinho Amarelo é apresentada como uma menina apática, amarelada e com os cabelos desbotados. Essa representação visual está associada ao constante medo que tinha. Ao fim da narrativa, quando a menina vence seus medos, ela é ilustrada com os cabelos coloridos e com um rosto corado e saudável.

Figura 4:Chapeuzinho Amarelo, no início da narrativa, com o rosto abatido e a pele amarelada de medo.

30

(32)

Figura 5:Chapeuzinho Amarelo, ao fim da narrativa, após ter vencido o medo do lobo, corada, com os cabelos coloridos e feliz.

A narrativa criada por Ziraldo está em consonância com o texto escrito.

Quando Chico Buarque propõe a inversão silábica de LO-BO para BO-LO, o ilustrador promove uma metamorfose nas imagens e a figura do bolo vai, gradualmente, se transformando em um bolo. O medo é vencido pela menina tanto na palavra quanto na ilustração.

Ziraldo dá movimento visual ao processo de metamorfose num jogo figura e fundo, em que a imagem do focinho do lobo vai perdendo seus caracteres de figura e fornecendo ao olhar o que estava oculto no fundo. O perfil do bolo vai, então, adquirindo presença de figura, deixando a do lobo como fundo (BUSATO, 2018, 194).

Figura 6:Metamorfose proposta por Ziraldo na obraChapeuzinho Amarelo.

(33)

O processo de metamorfose proposto por Ziraldo é inspirado no artista plástico M. C. Escher, ele ficou conhecido por suas metamorfoses. Para Lira et al.

(2008, p. 195) “a metamorfose se dá na interação das formas, no encontro de seus contornos, imobilizando-as” . Nesses processos, os desenhos se transformam em outros ao longo da arte produzida.

Figura 7:Metamorfose proposta por Escher.

Fonte:https://aidobonsai.com/tag/metamorfose-de-escher/

É possível perceber que, assim como no texto escrito, há uma intertextualidade na narrativa visual. As ilustrações propostas por Ziraldo têm uma marca muito característica da segunda fase artística do Escher. A fase das metamorfoses consistia em transformar um objeto em outro completamente diferente, assim como o bolo em lobo.

Por fim, considerando a importante presença das ilustrações na construção de uma narrativa visual, é possível afirmar que o Ziraldo não se apresenta apenas como ilustrador, mas, também, como coautor. Tanto ele quanto Chico conseguem narrar a obra de formas diferentes.

3.5 Arte pedagógica x Arte literária

Conforme salientado durante o estudo, a literatura é complexa de se analisar, tendo em vista que envolve distintos aspectos. Diante disso, salienta-se a conciliação entre a arte pedagógica e a arte literária, onde a Literatura Infantil tem sido discriminada e relacionada a um instrumento pedagógico ainda na atualidade.

Somado a isso, torna-se relevante destacarmos o valor da criança que sofreu alteração de acordo com o tempo. No século XVIII, por exemplo, definida como ser submisso e de total proteção. Já hoje, temos o público infantil sendo visto com maior liberdade e com avanço no desenvolvimento intelectual.

É no contexto da existência de um público infantil deslocado da realidade que o cerca e, consequentemente, a necessidade de obediência aos seres dominadores 32

(34)

que a arte literária voltada para as crianças começa a tomar forma. Nessa perspectiva, Zilberman destaca o teor pedagógico ligado à existência das obras infantis.

Por tal razão, se decorre de uma situação histórica particular, vinculada à origem da família burguesa e da infância como “classe” especial, participa desta circunstância não apenas porque provê textos a esta nova faixa, mas porque colabora em sua dominação, ao aliar-se ao ensino e transformar-se em seu instrumento (ZILBERMAN, 2003, p. 44).

A existência de uma obra destinada para o público infantil era, portanto, vista como um instrumento pautado nas ideologias e nos valores morais que deveriam ser expostos e ensinados às crianças. A escola apropriou-se das obras como uma ferramenta de doutrinação e limitação do real. Ao servir de clássicos como exemplificações das consequências que existem com a desobediência, exemplo claro encontramos na obra Chapeuzinho Vermelho onde a menina se depara com a avó comida pelo lobo, após não seguir o conselho da mãe.

Por outro lado, a Literatura Infantil vista como arte literária se desprende do teor pedagógico e volta-se para a compreensão do real, ao utilizar-se de elementos específicos como a história, onde as crianças conseguem ter acesso às questões que, por vezes, seriam impossíveis de se ter contato. E, ademais, a linguagem, onde há a utilização, por exemplo, de elementos coesivos, figuras de linguagem e a fantasia que adentram ao processo de conhecimento linguístico e interpretativo.

Segundo Zilberman há, portanto, uma contradição entre o caráter pedagógico e literário que

em vista dessas peculiaridades estruturais, a Literatura Infantil contraria o caráter pedagógico antes referido, compreensível com o exame da perspectiva da criança e o significado que o gênero pode ter para ela. Sua atuação dá-se dentro de uma faixa de conhecimento, não porque transmite informações e ensinamentos morais, mas porque pode outorgar ao leitor a possibilidade de desdobramento de suas capacidades intelectuais (ZILBERMAN, 2003, p. 46).

A obra literária, reconhecida como arte, conforme apontado por Eagleton (2017, p.189) “em sua estranheza e especificidade, a obra de arte tenta resistir para não ser reduzida a simples mercadoria.” Ainda segundo Eagleton, dessa forma, a arte literária quer mexer com nossas percepções do cotidiano. Com isso, ela direciona o leitor a uma análise aprofundada do mundo que o cerca sendo libertadora e não um instrumento de limitação ao que deve ou não ser realizado.

(35)

A obra Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, abrange um conteúdo temático que renova o olhar à Literatura Infantil. Sendo a apresentação de uma perspectiva de amadurecimento da menina, que representa uma criança, que, quando se depara com o medo em sua realidade, amadurece e se liberta das amarras que cercaram o público infantil; limitações e total submissão. Referente a isso, temos uma obra que renova o olhar do público infantil.

Entretanto, a obra de Chico Buarque não foi tão aceita – conforme apontado no item 3.3 – como uma obra literária infantil devido a perspectiva temática abordada, ao renovar as obras infantis, indo contra ao teor moralizante da pedagogia. Conforme apontado por Eagleton (2017) uma obra para ser considerada literária é uma obra mutável, ou seja, possível de transformações de acordo com o contexto inserido. O estudo, portanto, defende a obra Chapeuzinho Amarelo como uma obra renovadora direcionada ao público infantil atual e ressalta o amadurecimento do ser infantil.

34

(36)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho teve como objetivo trazer para debate o valor da Literatura Infantil. Para isso, inicialmente foi explorado como ela surgiu e por qual motivo. Ao observar seu histórico, é possível entender o porquê das diferenças entre arte pedagógica e arte literária. No limbo do que é ou não Literatura Infantil, a pesquisa optou por ressaltar o valor literário da obra Chapeuzinho Amarelo.

Para o embasamento teórico do que seria o valor literário, foram utilizados para referenciais teóricos autores como Eagleton, Coelho, Zilberman e Maingueneau. Através de conceitos sobre o que é literatura, Literatura Infantil e campos discursivos, foi possível reconhecer o valor literário da obra de Chico Buarque Buarque. Ademais, através dos conceitos de interdiscurso e intertextualidade, as narrativas verbais e visuais puderam ser analisadas.

O livro Chapeuzinho Amarelo faz parte da renovação literária brasileira.

Apesar de dialogar com outras obras, tanto no âmbito textual quanto no visual, a obra em questão cria uma narrativa única, que rompe com as expectativas dos clássicos infantis. É possível identificar uma protagonista que reconhece seus medos e os vence; ela se faz refém de uma situação e ela mesmo se liberta. Numa outra perspectiva, ela quebra a força da literatura pedagógica, que a aprisiona, e mostra o valor literário da obra quando vence seus medos. É uma obra emancipadora, que faz uma denúncia sobre a infância.

Por fim, é importante ressaltar que essa pesquisa tem como objetivo contribuir para a análise da Literatura Infantil sob o âmbito das Letras, visto que já é um assunto amplamente discutido nas áreas da Psicologia e Pedagogia, por exemplo.

Por ser uma contribuição, o estudo não pretendeu esgotar o assunto ou trazer respostas definitivas ao tema.

(37)

REFERÊNCIAS

ABREU, Jane Gabriele de Sousa.O caminho das letras:um estudo das trajetórias de Milton Hatoum e Chico Buarque / Jane Gabriele de Sousa Abreu; orientador, Jefferson Agostini Mello. – São Paulo, 2013. Disponível em:

https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-13052015-203624/pt-br.p hp. Acesso em: 21 maio 2022.

ALMEIDA, Sherry Morgana Justino de.Ziraldo & Monteiro Lobato:ecos da

ilustração na literatura infanto-juvenil brasileira. VII Enjile, Pernambuco, v. 7, n. 1, p.

1-12, 2018. Disponível em: https://www.editorarealize.com.br/artigo/visualizar/45471.

Acesso em: 21 maio 2022.

BIER, Marilena Loss.A CRIANÇA E A RECEPÇÃO DA Literatura Infantil

CONTEMPORÂNEA:uma leitura de Ziraldo. 2004. 161 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Ciências da Linguagem, Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, 2004. Disponível em: https://repositorio.animaeducacao.com.br/handle/ANIMA/3299.

Acesso em: 21 maio 2022.

BUARQUE, Chico.Chapeuzinho Amarelo. Il. de Ziraldo. 41. ed. Belo Horizonte:

Yellowfante, 2020.

BUSATO, S. (2018).Reescrever é desfazer tranças. ELyra: Revista Da Rede Internacional Lyracompoetics, (12), 175–198. Disponível em:

https://www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/270. Acesso em: 21 maio de 2022.

CALVINO, Ítalo.Por que ler os clássicos. Trad.Nilson Moulin. São Paulo:

Companhia das Letras, 1993.

COELHO, Nelly Novaes.Literatura Infantil:teoria, análise, didática. São Paulo:

Moderna, 2000.

EAGLETON, TerryTeoria da literatura:uma introdução. Trad. Waltensir Outra. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

______.Como ler literatura. Trad. Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2017.

GREGORIN FILHO, J. N.Literatura Infantil brasileira:da colonização à busca da identidade. Via Atlântica, [S. I.], v. 1, n. 9, p. 185-194, 2006. Disponível em:

https://www.revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/50049. Acesso em: 21 maio 2022.

LIRA, L. da S.; SALGADO, M. C. S.; LIRA, M. da P.; SAI, M. T. T. y.O CRIADO – IMAGEM ESCHER. BALEIA NA REDE, [S. l.], v. 1, n. 5, 2011. Disponível em:

https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/baleianarede/article/view/1417. Acesso em: 21 maio 2022.

LEMOS, Lindenberg.Um Chapéu Amarelo e um Capuz Vermelho: Análise

Semiótica de Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque. CASA (Araraquara), v. 6, p.

36

(38)

2, 2008. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/casa/article/view/922.

Disponível: 21 maio 2022.

LOBATO, Monteiro,1882-1948.Reinações de Narizinho. Il. de Jean Gabriel Villin, J.

U. Campos. São Paulo: Globo, 2014.

MAINGUENEAU, Dominique.Discurso e análise do discurso.Trad. Sírio Possenti.

São Paulo: Parábola Editorial, 2015.

MOLINERO, Bruno.Não se assuste se crianças traficarem ‘Chapeuzinho Vermelho ’ no recreio. 2019. Disponível em:

https://eraoutravez.blogfolha.uol.com.br/2019/04/23/nao-se-assuste-se-criancas-trafi carem-chapeuzinho-vermelho-no-recreio/. Acesso em: 01 maio 2022.

PIMENTEL, Figueiredo.Contos da Carochinha. 25. ed. São Paulo: Quaresma, 1958.

SANTOS, Elaine Ferreira dos.O DISCURSO DAS DIFERENÇAS:análise do

interdiscurso, do ethos e da cenografia em "A cidade e a infância" de José Luandino Vieira. 2014. 181 f. Tese (Doutorado) - Curso de Letras, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014. Disponível em:

https://tede2.pucsp.br/handle/handle/14329. Acesso em: 21 maio 2022.

SEGABINAZI; DUARTE, C. R.Figueiredo Pimentel:Contos da Carochinha e o nascimento da Literatura Infantil abrasileirada do século XIX. REVISTA SOLETRAS, v. 2, p. 312-328, 2017. Disponível em:

https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/soletras/article/view/30191. Acesso em:

21 maio 2022.

SANTIAGO, Silviano.UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS:ensaios sobre dependência cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

ZILBERMAN, Regina.A Literatura Infantil na escola. - 11. ed. rev., atual. e ampl. - São Paulo: Global, 2003.

Referências

Documentos relacionados

A tem á tica dos jornais mudou com o progresso social e é cada vez maior a variação de assuntos con- sumidos pelo homem, o que conduz também à especialização dos jor- nais,

Este capítulo tem uma abordagem mais prática, serão descritos alguns pontos necessários à instalação dos componentes vistos em teoria, ou seja, neste ponto

Para preparar a pimenta branca, as espigas são colhidas quando os frutos apresentam a coloração amarelada ou vermelha. As espigas são colocadas em sacos de plástico trançado sem

Entrar no lar, pressupõem para alguns, uma rotura com o meio ambiente, material e social em que vivia, um afastamento de uma rede de relações sociais e dos seus hábitos de vida

Excluindo as operações de Santos, os demais terminais da Ultracargo apresentaram EBITDA de R$ 15 milhões, redução de 30% e 40% em relação ao 4T14 e ao 3T15,

No entanto, maiores lucros com publicidade e um crescimento no uso da plataforma em smartphones e tablets não serão suficientes para o mercado se a maior rede social do mundo

O valor da reputação dos pseudônimos é igual a 0,8 devido aos fal- sos positivos do mecanismo auxiliar, que acabam por fazer com que a reputação mesmo dos usuários que enviam

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..