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DIALÉTICA, BASE FUNDAMENTAL DO MARXISMO
“Todos eles se dizem marxistas, mas entendem o marxismo duma maneira
extremamente pedante. Não compreenderam de modo nenhum aquilo que é decisivo no marxismo: precisamente a sua dialética revolucionária.” (V.I.Lenin)
Resumo
O presente artigo objetiva investigar a presença da dialética no pensamento marxista. A partir do estudo das obras de Marx e Engels, sob influência de perspectivas como as defendidas por Lefebvre e pela linha teórica lukacsiana, identifica-se a dialética como leis gerais do movimento, presentes ontologicamente no real, constituindo a sua legalidade objetiva. É a partir desta apreensão ontológica da realidade que o marxismo pode erguer um método, baseado na súmula dos resultados obtidos pela totalidade das pesquisas. Não haverá no novo método consolidado pela dupla alemã uma negação completa da lógica formal, mas a negação da sua expressão hiperbólica: o formalismo. Assim, é determinada a importância estrutural da dialética na linha teórica marxista, que, amputada, torna a teoria incapaz de apreender corretamente o mundo concreto. Contudo, ao ser assumida em sua forma racional e materialista, é possível compreender o concreto em sua dinâmica essencial, captando em suas contradições próprias a chave para a transformação do mundo.
Palavras-chave: Dialética, Marxismo, Ontologia.
Abstract
The present article aims to investigate the presence of dialectics in Marxist thought. Grounded in the study of the works of Marx and Engels, under the influence of perspectives such as those defended by Lefebvre and the Lukacsian theoretical line, dialectics are identified as general laws of motion, present ontologically in the real, constituting their objective legality. On the bases of this ontological apprehension of reality, Marxism constructs a method, built on the summary of the results obtained by the totality of the researches. There will not be in the new method consolidated by the German
2 duo a complete negation of the formal logic, but of its hyperbolic expression: formalism. Thus, the structural importance of dialectics is determined in the Marxist theoretical line, which, amputated, makes theory unable to correctly apprehend the concrete world. However, once it is assumed in its rational and materialistic form, it becomes possible to understand the concrete in its essential dynamics, capturing in its own contradictions the key to the transformation of the world.
Keywords: Dialectics, Marxism, Ontology.
Introdução
Tem se tornado comum certa interpretação do marxismo que se obstina a desvincular a dialética do seu corpo teórico. Para este grupo, a dialética seria um deslize idealista cometido por alguns intelectuais que teriam exacerbado a influência hegeliana nas obras de Marx.
Invocar a dialética, para tais vertentes, seria sempre um recurso sofístico, uma alternativa mais fácil, que mistificaria determinado aspecto de uma tese, assim que ela desenvolvesse alguma lacuna grave. Deste modo, um raciocínio dialético corresponderia à arte e a maneira de sempre se cair de pé, como abordou Semprún (1978), enquanto um embuste sempre utilizado para fundamentar o seu ponto de vista quando não houvesse mais outra opção.
A posição correta a ser tomada para atestar ou rejeitar este tipo de consideração é o estudo do seu objeto: a investigação da presença da dialética no marxismo. Para tanto, faz-se necessária a compreensão – caso se verifique o elemento dialético no marxismo – do que de fato ele é, qual é o seu estatuto, e como se dá seu desdobramento teórico-pratico.
3 Quando se estuda a linha teórica marxista, logo se compreende que há nela uma influência fundamental do sistema hegeliano. Foi a partir de um balanço crítico da obra filosófica de Hegel, assim como de outras fontes, como a economia política inglesa e o socialismo utópico francês1, que Marx e Engels conseguiram se apropriar de bases sólidas para as suas próprias elaborações. No caso do filósofo idealista alemão, é perceptível como sua compreensão dialética do real foi apreendida e reelaborada de maneira particular pela dupla revolucionária.
A respeito desta apropriação crítica da dialética hegeliana, Marx afirma:
Por sua fundamentação, meu método dialético não só difere do hegeliano, mas é também a sua antítese direta. Para Hegel, o processo de pensamento, que ele, sob o nome de idéia, transforma num sujeito autônomo, é o demiurgo do real, real que constitui apenas a sua manifestação externa. Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem.
[...] A mistificação que a dialética sofre nas mãos de Hegel não impede, de modo algum, que ele tenha sido o primeiro a expor as suas formas gerais de movimento, de maneira ampla e consciente. É necessário invertê-la, para descobrir o cerne racional dentro do invólucro místico. (MARX, 1988, p. 26-27).
Assim, o marxismo, em sua recepção de Hegel, aceita aquilo que é fundamental na dialética: enquanto leis gerais do movimento do real, enquanto ‘’modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente tranformação’’, como diria Leandro Konder (1993, p. 8). Contudo, esta visão do real enquanto processo, processo este guiado por suas próprias contradições, não se manteria mais como um movimento essencialmente ideal, como quer o hegelianismo. Marx e Engels, em sua ruptura com a teoria precedente, estabelecem que a dinâmica dialética está na realidade concreta, no mundo material.
Engels afirmará sobre a virada materialista da dialética no marxismo:
1 Para compreender melhor as realizações teóricas que foram apropriadas criticamente por Marx e Engles
para formular a sua teoria, a Introdução ao estudo do método de Marx, de José Paulo Netto (2011), é uma boa fonte para inserção neste debate.
4 Também esta corrente [o marxismo] separou-se da filosofia hegeliana através da volta à posições materialistas. Isto é, decidindo-se a conceber o mundo real – a natureza e a história – como se apresenta a todo aquele que o aborda sem quimeras idealistas preconcebidas; [...] Esta corrente não se contentava simplesmente em por Hegel de lado; ao contrário, ligava-se a seu lado revolucionário, ao método dialético [...]. No entanto, sob sua forma hegeliana, esse método é inútil. Em Hegel, a dialética é o autodesenvolvimento do conceito. [...] Era essa inversão ideológica que se tratava de eliminar. Voltamos às posições materialistas e tornamos a ver nas ideias de nosso cérebro as imagens dos objetos reais, em vez de considerar estes objetos como imagens deste ou daquele momento do conceito absoluto. Com isso, a dialética ficava reduzida à ciência das leis gerais do movimento, tanto do mundo exterior como do pensamento humano [...]. (ENGELS, 1961, p. 193-194).
Esta nova visão, a dialética materialista, causa certo tumulto quando chega o momento da definição do seu estatuto. O que seria essa compreensão das leis gerais do movimento do real? Certamente, diante do exposto, podemos dizer que a dialética pode ser considerada um método. Entretanto, este método não funciona, como em outros sistemas filosóficos2, como um conjunto de regras aprioristicamente definidas que devem guiar a pesquisa. Não cabe no marxismo nenhum esquema ou receita para entender o mundo. Só a partir da ciência real e positiva que nós podemos eliminar as nossas lacunas teóricas (MARX; ENGELS, 2009).
A virada materialista empregada por Marx e Engels determina que o conhecimento parte da apreensão ideal da realidade material pesquisada. Este modo como o marxismo mergulha no real para atingir suas determinações fundamentais é ontológico, se analisarmos este ponto a partir de uma perspectiva lukacsiana3.
A dialética concebida em termos ontológicos, como diria Lukács (2012b), constitui a legalidade objetiva de toda a realidade, tanto natural quanto social. É através deste estudo, que expõe elementos constituintes essenciais do mundo material, que
2 É uma constante na história da filosofia o estabelecimento prévio de métodos, antes da realização da
pesquisa. Talvez o exemplo mais célebre seja o de Descartes (2008), com o seu Discurso sobre o método.
3 A crítica de Marx é uma crítica ontológica. [...] Todas as características reais relevantes [...] podem,
portanto, ser compreendidas apenas a partir do exame ontológico das premissas, da essência, das conseqüências [...] em sua constituição verdadeira, ontológica (LUKÁCS, 2010, p. 71).
5 podemos extrair um método. O método dialético não é um declive metafísico, pois ele orienta o caminho da pesquisa não através de um elemento a-histórico e idealista, mas sim a partir da ‘’súmula dos resultados mais gerais que é possível abstrair da observação do desenvolvimento histórico’’ (MARX; ENGELS, 2009. P. 32).
Este esforço, por uma totalização que oriente a pesquisa, extrai seus componentes de investigações acerca de um mundo em constante transformação e que nós sempre temos a possibilidade de aperfeiçoar nossas ferramentas de estudo. É justamente por isso que Lefebvre (1991, p. 241) irá afirmar que ‘’o processo do aprofundamento do conhecimento - que vai do fenômeno à essência e da essência menos profunda à mais profunda – é infinito’’. Neste sentido, não há como afirmar que o método dialético marxista seja apriorístico, ou fixista. Ele fundamenta o pensamento humano a partir da contínua compreensão dos nexos cruciais do real, abstraídos pela ontologia dialética.
A dialética, portanto, seria um elemento fundamental tanto da ontologia quanto do método marxista, investigando ontologicamente o movimento contraditório do real, extraindo leis que aperfeiçoariam o caminho metodológico a ser desempenhado nas próximas pesquisas, num processo que não tem fim e de determinação mútua.
2. Acerca das leis da dialética materialista
Alguns autores apresentam a crítica de que a dialética marxista, por trabalhar com a extração de leis a partir da perscrutação do mundo objetivo, seria um processo de invocação de dogmas (MULLER, 1982). Contudo, como já foi visto, a abstração de leis do real não constitui uma codificação idealista da realidade4.
4 Como Bloch descreve – de maneira acertada, segundo Marx: ‘’Para Marx, só importa uma coisa: descobrir
a lei dos fenômenos de cuja investigação ele se ocupa. [...] dir-se-á, as leis gerais da vida econômica são sempre as mesmas, sejam elas aplicadas no presente ou no passado. (...) É exatamente isso o que Marx nega. Segundo ele, essas leis abstratas não existem. (...) Segundo sua opinião, pelo contrário, cada período histórico possui suas próprias leis. Assim que a vida já esgotou determinado período de desenvolvimento, tendo passado de determinado estágio a outro, começa a ser dirigida por outras leis.’’ (MARX, 1988, p. 25-26).
6 De modo similar às chamadas ciências exatas, o marxismo estabelece leis a partir dos resultados gerais e parciais do que suas pesquisas conseguem abstrair da dinâmica do mundo existente. Tais leis, nos dois casos, servem de orientação para as pesquisas ulteriores e, caso aja novamente acréscimos nos resultados, as leis já existentes são reformuladas. Se as ciências exatas possuem leis como a da gravitação universal e a lei de conservação da matéria, a dialética também possui os seus diplomas legislativos. Dentre eles, destacam-se: ‘’1) lei da passagem da quantidade à qualidade (e vice-versa); 2) lei da interpenetração dos contrários [ou unidade e luta dos contrários]; 3) lei da negação da negação’’ (KONDER, 1993, p. 58).
A primeira lei determina que as mudanças radicais, aquelas que de fato são qualitativas, ocorrem abruptamente, por saltos, a partir do estabelecimento de um ponto insuportável no acúmulo de pequenas alterações superficiais, quantitativas. O exemplo clássico desta lei é o da fervura da água5, em que Engels argumenta que
É exatamente a linha nodal de desproporções hegelianas em que uma adição ou uma subtração puramente quantitativa produz, em certos pontos nodais, um salto qualitativo. É o caso, por exemplo, da água aquecida ou esfriada, para a qual o ponto de ebulição e o ponto de congelação são os nós ou elos em que se realiza, a uma pressão normal, o salto para um novo estado de agregação, nos quais, consequentemente, a quantidade se transforma em qualidade. (ENGELS, 1976, p. 40).
Lefebvre (1991, p. 239) trata esta lei como uma lei da ação, aquela que destrói qualquer ilusão voluntarista, ao estipular que ‘’ A ação e o conhecimento não podem criar nada já pronto e acabado. O momento da ação, do fator ‘’subjetivo’’, aparece quando – reunidas já todas as condições objetivas – basta um fraco impulso proveniente do sujeito para que o salto se opere.’’ Esta noção é vital para compreender as possibilidades de uma revolução socialista, por exemplo. Segundo Lenin, o proletariado, sujeito revolucionário do nosso tempo histórico, só terá a possibilidade concreta de derrubar a ordem burguesa
5 Sobre a perspectiva marxiana acerca da presença desta lei - assim como a dialética como um todo - no
mundo natural: ‘’O possuidor de dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente em capitalista quando a soma mínima adiantada para a produção ultrapassa de muito o máximo medieval. Aqui, como nas ciências naturais, comprova-se a exatidão da lei descoberta por Hegel, em sua Lógica, de que modificações meramente quantitativas em certo ponto se transformam em diferenças qualitativas’’ (MARX, 1988, p. 234).
7 quando ‘’as ‘camadas inferiores’ não querem viver à maneira antiga, ao passo que as ‘camadas superiores’ não podem viver à maneira antiga’’ (apud Lukács, 2012a, p. 50).
Já a segunda lei manifesta o modo como a categoria da totalidade se expressa na dialética marxista. Na nossa realidade, tudo se relacionaria com tudo, sem a existência de objetos isolados. O conjunto de seres inter-relacionados se totalizariam, não numa totalidade abstrata, formada por um agrupamento de objetos virtuais idênticos uns aos outros, mas sim numa totalidade concreta, entre elementos variados e contraditórios. Neste sentido, ‘’o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, unidade do diverso’’ (MARX, 1978b, p. 116). A totalidade no materialismo dialético, para Lukács, ‘’[...] é uma unidade concreta de forças opostas em uma luta recíproca; [...] Ela pode esgotar-se e destruir-se – seu caráter de totalidade subsiste apenas no marco de circunstâncias históricas determinadas e concretas.’’ ( apud NETTO, 2011, p. 58).
Na dialética, não existe uma só totalidade simples. O marxismo entende que há totalidades dentro de totalidades. A sociedade burguesa, por exemplo, seria um complexo de complexos (NETTO, 2011, p. 56). Nesta formação social, duas classes antagônicas, a burguesia e o proletariado, formariam a contradição fundamental que totalizará as suas relações de produção. Da mesma forma, a contradição entre as relações de produção e as forças produtivas estão inseridas antagonicamente em um complexo social junto com as formas de consciência e as formas políticas, numa totalidade de ‘’ação recíproca dessas diferentes facetas umas sobre as outras’’ (MARX; ENGELS, 2009, p. 58).
É através desta visão que é negada a interpretação mecanicista que reduz o motor da vida social no fator econômico, que pode ser compreedido como ‘’determinante determinado’’ (MÉSZÁROS, 2016, p. 108). Apesar disso, o fator de potência material preponderante numa formação social continua sendo o elemento econômico, visto que é a partir da agudização máxima da sua contradição fundamental – entre as forças produtivas e as relações sociais de produção - que se ‘’sobrevém então uma época de revolução social’’ (MARX, 1978b, p. 130).
Por sua vez, a terceira lei traz a orientação dos desdobramentos do movimento contraditório do real. Isto significa que a dialética ‘’não é absurdo, não se esgota em contradições irracionais, ininteligíveis, nem se perde na eterna repetição do conflito entre
8 teses e antíteses, entre afirmações e negações’’ (KONDER, 1993, p. 59), justamente porque apresenta nexo causal entre os momentos e objetos da sua dinâmica. Afirmar isto não significa aderir a uma abordagem teleologista do real. Há diferenças fundamentais entre causalidade e teleologia. Enquanto a causalidade implica meramente em relações de determinação entre circunstâncias, sem uma finalidade previamente estabelecida, a teleologia, para Lukács (2013, p. 48), ‘’é uma categoria posta: todo processo teleológico implica o pôr de um fim e, portanto, numa consciência que põe fins’’.
Neste sentido, Marx e Engels desejam expulsar qualquer componente teleológico do real, de modo que não sobreviva nenhuma quimera idealista que imponha alguma finalidade imanente no mundo. A dupla comemora a edificação da teoria da evolução, como último golpe a visão de mundo teleológica, agora derrotada de vez (LUKÁCS, 2013). A única dimensão da realidade onde a teleologia se faz presente é nas intencionalidades das ações humanas, como no trabalho, enquanto ‘’atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, [...] condição universal do metabolismo entre o homem e a Natureza’’ (MARX, 1988, p. 146).
A negação da negação promove um nexo causal específico para a dinâmica material. Todo objeto engendra a sua negação quando entra em movimento. O conflito estabelecido entre os dois momentos assume novas formas quando a própria negação é negada, gerando um novo objeto, qualitativamente diferente, afirmado. Este objeto rompe com seu antigo ser, sua antiga afirmação, graças à ação da negação. Contudo, no momento da sua nova positivação, afirma elementos que conseguiram se conservar neste processo. Este movimento de reafirmação parece ser um retorno simples, um caminho circular, mas na verdade é uma subida em espiral, passando em certos ângulos no mesmo lugar que sua antiga faceta afirmativa, mas num patamar distinto (LEFEBVRE, 1991).
A forma como a relação entre trabalho e o ser humano é tratado nos
Manuscritos econômico-filosóficos é um exemplo desta lei dialética. O trabalho, enquanto
categoria fundante da vida humana, enquanto meio pelo qual produzimos e reproduzimos as nossas condições de existência, é afirmado pela vida social não-alienada das sociedades arcaicas. Com a consolidação da propriedade privada, o trabalho dos indivíduos passa a ser controlado por outrem, separando o ser humano do modo como ele se humaniza, alienando-o e negando-o. O comunismo, por seu turno, seria ‘’a expressão positiva da
9 propriedade privada superada [...] é a posição como negação da negação, e, pois, o momento de emancipação e recuperação humanas, momento efetivo e necessário para o movimento histórico seguinte’’ (MARX, 1978a, 6, 16).
3. A relação entre dialética e lógica formal
Uma leitura freqüente decorrente do estudo das leis da dialética é a separação absoluta entre lógica formal e método dialético. Segundo este tipo de visão, a lógica formal e a dialética seriam totalmente incompatíveis, visto que um dos princípios fundamentais do formalismo é o princípio da não-contradição, e a dialética compreende que o real se move justamente por conta das suas contradições.
No caso dos pensadores dialéticos, é natural um preconceito hostilizante contra a lógica formal, visto que ela, levada em suas últimas conseqüências, inviabiliza uma compreensão positiva do movimento do real, levando sempre o pensamento a recorrer a rotas de fuga metafísicas6.
Por conta disso, ‘’o método teórico do materialismo mecanicista [...] desmorona por causa da incapacidade em apreender fenômenos novos de uma maneira adequada’’ (LUKÁCS, 1967, p. 223). Esta linha filosófica, que já teve papel importante no processo de desenvolvimento do pensamento, agora está caducando – pelo menos em sua forma absoluta. ‘’As causas de sua falência são antes de mais nada a rigidez dogmática de suas categorias, a preponderância da doutrina mecanicista, a incompreensão do relativismo das teorias da ciência e, enfim, a ausência do método dialético’’ (LUKÁCS, 1967, p. 223).
Com a ascensão da dialética, a lógica clássica em sua versão absoluta, o formalismo, perde a possibilidade de se manter como um modelo teórico perene, que se relaciona com as novas questões do nosso tempo histórico. Contudo, negar o formalismo
6 ‘’Para o metafísico, as coisas e suas imagens no pensamento, os conceitos, são objetos isolados de
investigação, objetos fixos, imóveis, observados um após o outro, cada qual de per si, como algo determinado e perene. O metafísico pensa em toda uma série de antíteses desconexas: para ele, há apenas o sim e o não e, quando sai desses moldes, encontra somente uma fonte de transtornos e confusão.’’ (ENGELS, 1976 p. 20).
10 não significa descartar completamente a lógica formal. Há, na verdade, uma manutenção relativa da lógica formal, integrando-a ao método dialético, para que consiga dar conta dos elementos que escapam o mecanicismo. Não é a toa que Engels reúne as duas áreas quando trata dos setores remanescentes do pensamento filosófico após a filosofia perder a sua autonomia frente às conexões com o real, superando a sua versão especulativa: ‘’Tudo o que resta da antiga filosofia, com existência própria, é a teoria do pensamento e de suas leis: a lógica formal e a dialética. Tudo o mais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história’’ (ENGELS, 1976, p. 23).
Desta maneira, a lógica formal não poderá absolutizar mais a separação entre pares antagônicos, que passarão a ter uma divisão relativa:
A cada momento, teremos a consciência de que todos os resultados que obtenhamos serão necessariamente limitados e estarão condicionados às circunstâncias em que obtemos; já não nos infundirão respeito, entretanto, as antíteses irredutíveis para a velha metafísica ainda em voga entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o idêntico e o diferente, o necessário e o casual; sabemos que estas antíteses têm apenas valor relativo, pois o que hoje reputamos verdadeiro contém também um lado falso, oculto agora mas que virá a luz mais tarde [...] (ENGELS, 1961, p. 195)
Seguindo este caminho, a lógica formal pode ser uma ferramenta importante na pesquisa, para delimitar analiticamente os objetos a serem estudados, enquanto a dialética ficaria a cargo de reintroduzir o conhecimento numa unidade agora melhor compreendida:
A lógica formal permite compreender esta lei fundamental: o pensamento que conhece opera sobre um conteúdo, mas deve ‘’assimilar’’ esse conteúdo progressivamente; não deixá-lo no plano do global e do confuso; mas admiti-lo apenas quando analisado e, por conseguinte, quando determinado pelo trabalho, ao mesmo tempo duplo e unitário, do entendimento [lógico-formal, que distingue analiticamente] e da razão [dialética, que deve totalizar os conteúdos] (LEFEBVRE, 1991, p. 169).
11 5. O pensamento antidialético e as suas conseqüências práticas
Quando o método não é assumido seriamente, seja pela negação desonesta da dialética, seja pela distorção por conta da incompreensão, as consequências são desastrosas.
Sobre a distorção da dialética por incompreensão, Marx escreveu: ‘’Proudhon tinha uma tendência natural para a dialética. Mas, não tendo nunca compreendido a dialética verdadeiramente científica, nunca chegou senão ao sofisma’’ (MARX, 1976, p. 176)
É possível que este tenha sido o caso de Althusser, quando formulou sua teoria do espaço escolar no capitalismo. Para o filósofo francês, a escola seria o aparelho ideológico de estado dominante da sociabilidade capitalista, ferramenta em que é pela ‘’aprendizagem de alguns saberes contidos na inculcação maciça da ideologia dominante que, em grande parte, são reproduzidas as relações de produção de uma formação social capitalista, ou seja, as relações entre exploradores e explorados’’ (ALTHUSSER, 1985, p. 80). O caráter antidialético da teoria de Althusser explicita-se quando ele estabelece qual é a possibilidade de intervenção interna de qualquer pessoa que freqüenta a escola.
Peço desculpas aos professores que, em condições assustadoras, tentam voltar contra a ideologia, contra o sistema e contra as práticas que os aprisionam, as poucas armas que podem encontrar na história e no saber que nos ‘’ensinam’’.[...] Eles questionam tão pouco que contribuem, pelo seu devotamento mesmo, para manter e alimentar esta representação ideológica da escola’’ (ALTHUSSER, 1985, p. 80-81).
Dentro desta perspectiva, não há nada o que fazer internamente para fazer avançar em alguma medida o espaço escolar. Neste caso, Althusser cai num desvio mecanicista, em que a história é ‘’sacrificada na reificação da estrutura social em que as contradições ficam aprisionadas’’ (SAVIANI, 2008, p. 30). Não há na tese do filósofo francês a compreensão da unidade dos contrários, o que faz o perder de vista a ‘’ação geral
12 das influencias recíprocas’’ que nos permite buscar uma compreensão exata do universo (ENGELS, 1976, P. 22). Assim, Althusser isola a escola da luta de classes, como se ela não apresentasse contradições internas, frutos das contradições sociais estruturais da sociabilidade capitalista que, do mesmo modo como foram as contradições feudais, podem ser tensionadas para superar esta formação social e edificar uma nova forma de vida7.
Não se distancia da dialética apenas por distração. Já existia há muito tempo a crítica aos grupos que renegam o método dialético por puro oportunismo político e compromisso com a perpetuação do modo de produção capitalista:
As correntes oportunistas do movimento dos trabalhadores identificaram com instinto certeiro a razão pela qual deviam direcionar seus ataques precisamente contra a dialética: apenas o afastamento da dialética possibilitou-lhes relegar ao esquecimento a elevação acima da imediatidade da sociedade burguesa propiciada pelo materialismo histórico e consumar a capitulação ideológica diante da burguesia (LUKÁCS, 2015, p. 83).
Neste fenômeno tétrico, destaca-se uma corrente revisionista: o bernsteinianismo. Segundo Bernstein, a dialética seria ‘’ o elemento pérfido na doutrina marxista, o obstáculo que impede qualquer apreciação lógica das coisas’’ (apud KONDER, 1993, p. 63). Bernstein rompeu com o método para aderir ao movimento operário neokantiano. Por conta disso, passou defender uma postura agnóstica – do ponto de vista ontológico – com relação às questões políticas e sociais mais objetivas, mas sem deixar de bater no marxismo com espantalhos:
O socialismo tem necessariamente algo de utopia. Ao dizê-lo não quero significar que aspira a algo impossível ou improvável, mas apenas indicar
7 Não há desacordo com a análise althusseriana de que a escola na nossa ordem é essencialmente burguesa,
mas sim com a sua perspectiva que nega qualquer possibilidade de atuação contra-hegemônica no aparato escolar, que transformasse o espaço em mais uma trincheira de luta proletária: ‘’Evitemos escorregar para uma posição idealista e voluntarista. Retenhamos da concepção crítico-reprodutivista [Althusser segue tal linha] a importante lição que nos trouxe:[...] a escola sofre a determinação do conflito de interesses que caracteriza a sociedade. [...] O nosso problema pode, então, ser enunciado da seguinte maneira: é possível articular a escola com o interesse dos dominados?’’ (SAVIANI, 2008, p. 30-31)
13 que leva em si uma certa porção de idealismo especulativo que contém um elemento não demonstrado cientificamente, ou que não é cientificamente verificável. (BERNSTEIN, 1997, p. 11).
A revolução socialista, para um pensador cético com relação ao estudo das leis gerais do movimento, seria um ‘’confortável refúgio’’ (BERNSTEIN, 1997, p. 159), para verdadeiros calvinistas sem deus, sujeitos dotados de concepções de mundo fatalistas, porém não religiosas. Como a lei da negação da negação não passava pela sua cabeça, Bernstein (1997, p. 147) não via importância no desfecho das atividades que participava: “Para mim, o que geralmente se chama fins últimos do socialismo é nada, mas o movimento é tudo”. Esse descaso com o elemento estratégico na política operária, fruto de um praticismo antidialético, leva o revisionista a posição mais confortável para um membro da aristocracia operária8 – o reformismo oportunista: ‘’a tarefa da social-democracia é, ainda por muito tempo, [...] lutar por todas as reformas no Estado que se adaptem a erguer as classes operárias e transformar o Estado na direção da democracia” (BERNSTEIN, 1997, p. 26).
Conclusão
A dialética é um elemento fundamental do marxismo, de tal maneira que o próprio filósofo de Trier chegou a cogitar escrever um livro que trabalhasse apenas esta temática: ‘’Quando eu terminar as obrigações com a economia política, irei escrever uma ‘’dialética’’. As leis verdadeiras da dialética já estão contidas em Hegel, ainda que sob forma mistificada. O que é preciso é despi-la desta forma...’’ (MARX; ENGELS, 2010, p. 31, tradução nossa). Ela é peça-chave para a apreensão marxista do real, enquanto um processo de ‘’elevar-se do abstrato ao concreto [...] para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado’’ (MARX, 1978b, p. 117).
8 Para Lênin (2012, p. 34), a aristocracia operária surge a partir dos superlucros que a burguesia obtém com
a edificação do capitalismo monopolita, que ‘’permite corromper os dirigentes operários [...]’’, concedendo a eles altos salários para que se tornem ‘’verdadeiros agentes da burguesia no seio do movimento operário, [...] verdadeiros veículos do reformismo e do chauvinismo.’’
14 O repúdio que o oportunismo político faz à dialética marxista tem uma motivação clara: o método dialético, quando empregado da maneira rigorosa, a partir de uma análise concreta da situação concreta, consegue expor as contradições do que está vigendo, aquilo que já é obsoleto e carcomido e que tem a possibilidade efetiva de ser superado. É por isso que Marx, comentando sobre o potencial revolucionário da dialética apropriada materialisticamente, afirmou:
Em sua forma mistificada, a dialética foi moda alemã porque ela parecia tornar sublime o existente. Em sua configuração racional, é um incômodo e um horror para a burguesia e para os seus porta-vozes doutrinários, porque, no entendimento positivo do existente, ela inclui ao mesmo tempo o entendimento da sua negação, da sua desaparição inevitável; porque apreende cada forma existente no fluxo do movimento, portanto também com seu lado transitório; porque não se deixa impressionar por nada e é, em sua essência, crítica e revolucionária. (MARX, 1988, p. 27).
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