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Livraria Duas Cidades
Endereço: Rua Bento Freitas, 158, Centro.
Classificação: Estabelecimento Comercial.
Identificação numérica: 154-11.001
A Livraria Duas Cidades foi fundada em 1954 pelo frei dominicano Benevenuto de Santa Cruz, ou José Petronilo de Santa Cruz – nome utilizado após deixar a Ordem dos Dominicanos na década de 1970. O primeiro endereço da livraria foi a Praça da Bandeira1, na região do Anhangabaú, no centro da cidade de São Paulo, mudando-se logo em seguida, no ano de 1957, para a Rua Bento Freitas, número 158, também no centro de São Paulo, mas na região da Praça da República. Neste endereço, a Livraria, que também atuava como editora, funcionou por mais de 40 anos, encerrando suas atividades em 2006 e passando a funcionar apenas na sede em Perdizes, na zona oeste da capital.
O nome da livraria foi inspirado na obra “Cidade de Deus”, escrita por Santo Agostinho. Nesta obra, o filósofo e teólogo do cristianismo faz referência à existência de duas cidades: a cidade dos homens, expressa na materialidade, e a cidade de Deus, que representa o espírito e o que é celestial. A logomarca da Livraria busca representar a mesma ideia através de duas torres, que representam as duas cidades.
1 DURAN, Sérgio. Liquidação de clássicos marca o fim de livraria histórica. O Estado de São Paulo. Cidades/Metrópole. São Paulo, 23 de setembro de 2006, C8.
Memorial da Resistência de São Paulo
PROGRAMA
LUGARES DA MEMÓRIA
Imagem 01: Logomarca da Livraria Duas Cidades em alusão à obra Cidade de Deus, de Santo Agostinho. Fonte: Portal São Paulo Antiga.
2 A livraria e editora Duas Cidades, fundada pelo frei Benevenuto, pertencia à Ordem dos Dominicanos, pois, dentro dos preceitos religiosos, ao ingressar em uma Ordem, deve-se fazer um voto de pobreza que simboliza a fraternidade expressa na partilha dos bens. Dentro desse preceito, tudo o que um religioso tem é repartido entre seus confrades, ou seja, “tudo o que ele ganha como donativo, ou obtém pelo seu trabalho, pertence à comunidade da qual ele faz parte, e vai para a caixa comum, de onde ele recebe aquilo de que precisa, segundo as suas necessidades”2. Por pertencer a uma ordem religiosa, inicialmente a Duas Cidades trabalhava apenas com obras da área de teologia. No entanto, no fim da década de 1950, ao se mudar da Praça da Bandeira para a rua Bento Freitas, a livraria se aproxima de um circuito comercial e cultural muito frequentado por estudantes universitários concentrados na rua Maria Antônia e arredores, e por isso acaba por incorporar ao seu catálogo publicações da área das ciências humanas. “Graças à erudição do frei Benevenuto e a seus contatos na Europa, a livraria importava livros de autores importantes para o momento”3 e editava inúmeras obras de autores brasileiros, muitos deles ligados ao marxismo, como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Roland Corbisier, Luiz Pereira, Rogério César de Cerqueira Leite, Severo Gomes etc.
Além de obras acadêmicas, a Duas Cidades também passou a editar poetas concretistas quando eles ainda não encontravam espaço no mundo editorial. Durante a década de 1980, a editora apresentou ao público uma “nova geração de poetas”4 com a coleção “Claro Enigma”, que reunia nomes como Francisco Alvim, José Paulo Paes, Orides Fontela, Sebastião Uchoa Leite, Alberto Martins, Alcides Villaça, Ronaldo Brito, João Moura Jr., Maria Lúcia Alvim, Paulo Henriques Britto, Duda Machado, Age de Carvalho etc. A coleção inovava o mercado editorial da época, como declara Augusto Massi, editor responsável pela “Claro Enigma”.
Através da coleção pude publicar poetas que não tinham espaço, aproximar críticos e poetas, dialogar com as artes plásticas, interferir no mercado editorial. Do meu ponto de vista, “Claro Enigma”
representou uma intervenção crítica. Penso que até hoje ninguém destacou esse aspecto, o quanto havia de reflexão e tomada de posição5.
2 PALMA, Bruno. Ordem Dominicana responde sobre caso da livraria Duas Cidades. Folha de São Paulo. São Paulo, 12 de fevereiro de 1988.
3 FOLHA DE SÃO PAULO. Editora e livraria é marca na história cultural de São Paulo. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 de abril de 2000.
4 Idem.
5 Depoimento de Augusto Massi ao Memorial da América Latina. Portal Memorial da América Latina. São Paulo, sem data. Disponível em: <http://www.memorial.org.br/cbeal/poetas-na- bilbioteca/augusto-massi/>. Acesso em 18/12/2015.
3 A livraria, por sua especificidade editorial, tornou-se um ponto de encontro de estudantes e intelectuais e se configurou como uma importante fornecedora de livros para esse público, sendo a “grande abastecedora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, quando ela se localizava na rua Maria Antonia”6.
Outra característica que atribui importância à história da Duas Cidades é que, além de possuir livros de qualidade, “a livraria tornou-se um dos raros espaços de liberdade para discussão no tempo da ditadura"7. Em função desse fato, o local passou a chamar a atenção dos agentes da repressão durante a ditadura civil-militar (1964-1985). É nesse período que a Livraria Duas Cidades se torna um capítulo importante da memória política, pois ela se converte em um ponto de comunicação entre os dominicanos envolvidos na luta contra os militares e Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN).
OS DOMINICANOS E A ALN
A Ordem dos Dominicanos surgiu na Espanha tendo como princípios o voto de pobreza, a formação teológica de seus membros e a fundação de conventos que possuíam regras mais democráticas de funcionamento. No Brasil, por exemplo, os dominicanos podiam usar trajes civis, sendo que as batinas eram obrigatórias somente dentro dos conventos, e tinham permissão para trabalhar fora e realizar seus estudos em instituições laicas, podendo também participar do movimento estudantil dentro das escolas e universidades. Toda essa liberdade proporcionava uma ação mais efetiva na vida social e uma percepção mais apurada da realidade política em sintonia com os princípios fundamentais da vida religiosa da Ordem, que são: a fé e a razão, a prática do bem evitando o mal e o dever do cristão de se colocar em defesa dos oprimidos8.
Em São Paulo, a Ordem funda em 1938 o Convento Santo Alberto Magno, ou Convento Dominicano de Perdizes, que se torna, a partir da década de 1960, um importante espaço de aglutinação de estudantes e intelectuais paulistas interessados na atuação da ala progressista da Igreja Católica9. Essa ala (da qual a Ordem dos
6 Depoimento de Davi Arrigucci Jr, professor do Departamento de Teoria Literária da USP, para a Folha de São Paulo. Folha de São Paulo. São Paulo, 25 de dezembro de 1987, A26. Para uma leitura sobre a Rua Maria Antônia, conferir o documento produzido pelo Programa Lugares da Memória do Memorial da Resistência de São Paulo. Disponível em:
http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx?c=bancodedados&idlugar=1 69&mn=59
7 MAUÉS, Flamarion. Livros, editoras e oposição à ditadura. Estudos Avançados, São Paulo, n.28, v.80, 2014, p.97.
8 Para mais informações ver a página da Ordem dos Dominicanos:
<http://www.dominicanos.org.br/site/ordem.php>. Acesso em 21/12/2015.
9 Para uma leitura sobre o Convento Santo Alberto Magno conferir o documento produzido pelo Programa Lugares da Memória do Memorial da Resistência de São Paulo. Disponível em:
4 Dominicanos fazia parte) esteve bastante engajada no combate à ditadura civil-militar no país por sua proximidade com os ideais da Teologia da Libertação10.
A Teologia da Libertação está relacionada ao Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII e ocorrido entre 1962 e 1965. Esse Concílio foi dedicado à atualização da doutrina da Igreja Católica face à sociedade contemporânea, buscando uma renovação de seus preceitos religiosos. A divulgação da Carta Encíclica (documento pontifício/circular papal) trazia como exigência “a Verdade como fundamento, a Justiça como norma, o Amor como motor e a Liberdade como clima”11. A abertura promovida pelo Concílio possibilitou a contínua mudança no modo de pensar e agir de alguns setores religiosos católicos e, neste contexto, diversos grupos e movimentos católicos de base passaram a reivindicar, com o apoio dos religiosos progressistas, melhores condições de vida para todos os homens, a libertação de toda forma de opressão e a salvaguarda dos valores e direitos humanos. Também como resultado das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano de Medellín (1968) e de Puebla (1979), a Igreja Católica progressista, apoiada na Teologia da Libertação, adotou a “opção preferencial pelos pobres” e, no Brasil, passou a ter um importante papel aglutinador na luta contra a ditadura e pela igualdade social. É neste período que se desenvolvem também as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) com o objetivo de constituir núcleos pastorais nos bairros para que as pessoas pudessem estabelecer laços comunitários entre si e, a partir dos próprios ideais cristãos, reivindicarem melhorias em suas comunidades relativas à moradia, saúde, transporte, custo de vida12.
Com as proposições do Concílio Vaticano II, o processo de conscientização e mobilização social da base católica tida como progressista ganhou novas dimensões, alinhando os ideais de renovação e interação da Igreja com o mundo moderno e seus problemas. Por dialogarem diretamente com a sociedade, alguns freis dominicanos http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx?c=bancodedados&idlugar=7 2&mn=59
10 Para uma leitura sobre a Teologia da Libertação, ver o artigo de Leonardo Boff, um de seus teólogos. BOFF, Leonardo. Quarenta anos da Teologia da Libertação. Blog do autor.
Disponível em: <https://leonardoboff.wordpress.com/2011/08/09/quarenta-anos-da-teologia-da- libertacao/>. Acesso em 17/09/2015.
11 SOUZA, Admar Mendes de. Estado e Igreja católica. O movimento social do cristianismo de libertação sob a vigilância do Deops/SP (1954-1974). Tese (Doutorado em História). FFLCH. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009, p.158.
12 Existem muitas pesquisas relevantes sobre a atuação da Igreja Católica durante a ditadura civil-militar no Brasil e o papel que ela desempenhou na luta contra os militares e a favor dos direitos humanos. Destacamos aqui apenas algumas leituras, como o trabalho de José Cardonha. A Igreja Católica nos "Anos de Chumbo": resistência e deslegitimação do Estado Autoritário Brasileiro 1968-1974. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011; e o Relatório da CNV, volume II, Textos Temáticos, Texto 4 - Violações de direitos humanos nas igrejas cristãs. Disponível em:
< http://www.cnv.gov.br/images/pdf/relatorio/volume_2_digital.pdf >. Acesso em 21/12/2015.
5 acabaram por ingressar em organizações de combate à ditadura na década de 1960, tendo atuado principalmente na Ação Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighella13. Os primeiros dominicanos a ingressar na ALN foram o “frei Osvaldo e frei Betto, [e] logo outros foram aderindo a este projeto de luta contra a ditadura militar”14, como frei Maurício (João Valença), frei Fernando, frei Ivo Lesbaupin, frei Magno Vilela, frei Luis Felipe Ratton Mascarenhas, frei Giorgio Callegari e frei Tito de Alencar.
A atividade dos freis dentro da organização estava associada aos diversos contatos que os religiosos possuíam. “Dado o conhecimento que tinham de pessoas em todas as camadas sociais, a coordenação logística ficou com os frades”15 e os religiosos passaram a realizar ações secundárias de apoio ao grupo armado, como indica frei Fernando de Brito:
O trabalho dos frades junto a ALN consistia em fazer desabrochar a luta armada. Foram, portanto, uma base de apoio a militantes envolvidos em expropriação bancária, sequestros, bombas, etc.
Acolhiam os feridos e perseguidos políticos, dando lhes asilo e possibilitando a fuga do país; escondiam armas e material subversivos, além de levantamentos de áreas adequadas para o desenvolvimento da guerrilha rural16.
Por estabelecerem contato com diferentes pessoas utilizando seus nomes verdadeiros, os freis estavam, de certa forma, vulneráveis e, dentro do contexto de acirramento do “combate à subversão” do final dos anos 1960, alguns deles foram identificados como opositores do regime e, perseguidos, acabaram presos e torturados17.
As prisões dos dominicanos em 1969 estiveram vinculadas à Operação Batina Branca, que consistia em uma força tarefa planejada ao longo de meses e executada no prazo de uma semana pelos agentes do Departamento Estadual de Ordem Política
13 Marighella era membro desde os anos 1930 do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão. No final dos anos 1960, no entanto, rompe com as diretrizes do PCB e organiza a Ação Libertadora Nacional (ALN). A ALN começa a atuar em ações armadas, atraindo um grande contingente de jovens envolvidos em manifestações estudantis em todo o país, e por isso ganha grande visibilidade nacional. Foi a partir da organização da ALN que Marighella se tornou o inimigo número 1 dos militares. Para uma leitura sobre a vida e atuação política de Carlos Marighella, ver: MAGALHÃES, Mário. Marighella. O guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
14 VALENÇA, João. Uma história do tempo da ditadura. Revista Revés do Avesso. Centro Ecumênico de Publicações e Estudos Frei Tito de Alencar de Lima, São Paulo, 2004, p.39.
15 Ibidem.
16 Entrevista de frei Fernando de Brito para o documentário Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro, de Silvio Tendler. 2001. Minutagem: 40:00 - 40:27.
17 O caso dos freis dominicanos torturados pelo Deops/SP é narrado por Frei Betto no livro Batismo de Sangue: Guerrilha e Morte de Carlos Marighella, com a 1ª edição em 1982.
Para uma leitura sobre a aproximação de Carlos Marighella com os dominicanos conferir:
MAGALHÃES, Mário, op. cit.
6 e Social de São Paulo (Deops/SP)18. A Operação buscou especificamente desmoralizar os dominicanos perante a sociedade e abalar as relações dos religiosos com as alas de esquerda, enfraquecendo desta forma todo o movimento revolucionário. Era também uma resposta à mobilização popular alcançada pelos trabalhos da Igreja progressista no país. Utilizando o argumento de que esses religiosos estariam alinhados a um projeto comunista de subversão do país, a ditadura civil-militar brasileira acusava os dominicanos de trair os preceitos da religião católica visando, principalmente, a expulsão da Ordem do território nacional.
Na primeira fase da Operação, com o objetivo de investigar o envolvimento dos dominicanos com a organização de Carlos Marighella, a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury monitorou o convento de Perdizes e a Livraria Duas Cidades. O monitoramento resultou no sequestro de dominicanos que, sob intensas torturas, liberaram algumas informações sobre o paradeiro de Marighella, levando o Deops/SP a organizar uma emboscada para o líder da ALN.
As pistas sobre a rede da ALN começaram a ser levantadas pelos militares após o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969. O sequestro foi planejado e executado pela ALN e pelo MR-8, que solicitaram como resgate a liberação de 15 presos políticos e a divulgação em rede nacional, pelo governo militar, de um manifesto revolucionário, conseguindo furar o bloqueio de censura imposto aos meios de comunicação. O sequestro, apesar de bem-sucedido por alcançar os objetivos da esquerda, gerou como consequência uma intensiva ação repressora do Estado sobre os opositores.
Nesse contexto, o Deops/SP, atento aos movimentos dos dominicanos, sabia que “alguns frades tinham contatos com Carlos Marighella. Sabia que o Convento das Perdizes não fechara as suas portas aos perseguidos e às suas famílias”19. Portanto, no dia que frei Fernando, que trabalhava na Livraria Duas Cidades, acerta um encontro com um jornalista no Rio, o Deops/SP intercepta a ligação e presume que o dominicano intermediaria um encontro com Marighella. “Fleury acionou o SNI e o
18 Para uma leitura sobre o Deops/SP conferir o documento produzido pelo Programa Lugares
da Memória do Memorial da Resistência de São Paulo. Disponível em:
http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx?c=bancodedados&idlugar=1 12&mn=59
19 BETTO, Frei. Batismo de Sangue: Guerrilha e Morte de Carlos Marighella. Editora Bertrand Brasil S.A, Rio de Janeiro, 1987, p.131.
7 Cenimar para agirem em conjunto no Rio”20, onde prendem frei Ivo e frei Fernando, que foram levados para o Cenimar. “Eles nos prenderam no Rio. E o Cenimar é que tinha a técnica da tortura e do interrogatório. O delegado Fleury queria nomes. ՙNome, dinheiro, aparelhoʼ, era isso que ele queria. Ele foi para o Rio e me torturou pessoalmente”21. Frei Ivo, capturado junto com Fernando no Rio, também foi interrogado e barbaramente torturado pela equipe de Fleury: “O interrogatório começa com essa afirmação: ՙvocês são base fixa de Marighellaʼ [...]. E ele [Fleury] repetia muito: ՙvocês vão ter contato proximamente. Vocês vão ter contato, porque ele está muito perseguido, tá muito acuado e ele vai procurar vocês, vai precisar de vocêsʼ ”22.
Além das prisões efetuadas no Rio, o Deops/SP também invade a residência dos dominicanos na rua Caiubí, em Perdizes, e leva vários freis para interrogatório sob sessões de tortura. Assim, no dia três de novembro, Fleury já sabia que Marighella se reunia com os frades à noite, na altura do número 800 da Alameda Casa Branca; que os dominicanos o esperavam em um Fusca azul, e que Marighella sempre chegava a pé; que seu codinome era “Ernesto”; que o líder da ALN combinava os pontos a partir de telefonemas para a Livraria Duas Cidades; que a senha que designava o local era
“a gráfica”; e que a próxima ligação ocorreria dali a um dia23.
No dia quatro de novembro o motorista da ALN, Antônio Flávio Médici de Camargo, foi encarregado por Marighella da ligação para a Livraria. “Ele instruiu o companheiro sobre como marcar o encontro com Fernando para as oito da noite.
Passaria a pé nesse horário pela rua Oscar Freire, quase na esquina com a Alameda Casa Branca”24. Marighella compareceria sozinho ao encontro com os dominicanos e Antônio Flávio deveria aparecer ao local apenas meia hora depois para buscá-lo. Na Livraria, sob a mira do revolver de um dos policiais do Deops/SP, frei Fernando é obrigado a esperar pela ligação e marcar o encontro com Marighella. Fleury, que conduziu a emboscada, foi um dos responsáveis pela execução do guerrilheiro na
20 MAGALHÃES, Mário. Marighella. O guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo, Companhia das Letras, 2012. p.411. O Serviço Nacional de Informações (SNI) foi criado em meados de 1964 com o objetivo de supervisionar e coordenar as atividades de informações e contrainformações no Brasil e exterior. O novo órgão era diretamente ligado à Presidência da República. Já o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) foi criado em 1957 (tendo como antecessor o Serviço de Informações da Marinha, de 1955) com a finalidade de obter informações de interesse da Marinha do Brasil, conforme as diretrizes do Estado-Maior da Armada.
21 Entrevista de frei Fernando de Brito para o documentário de Silvio Tendler. 2001.
Minutagem: 41:31 - 41:58.
22 Entrevista de frei Ivo Lesbaupin para o documentário de Silvio Tendler. 2001. Minutagem:
41:31 - 43:02.
23 MAGALHÃES, Mário, op. cit, p.412-413.
24 Idem, p.414.
8 Alameda Casa Branca25 e, como reconhecimento pelo ato, o “governo paulista promoveu por ՙbravuraʼ 43 policiais que participaram do cerco ao inimigo [...]”26.
O assassinato de Carlos Marighella foi amplamente divulgado pela imprensa, dando-se início a uma segunda fase da Operação Batina Branca, que era culpabilizar os dominicanos pela morte procurando gerar uma hostilização por parte da esquerda em relação aos freis. A estratégia da repressão era desestabilizar a imagem da Ordem dos Dominicanos perante a sociedade, invertendo a sua lógica de luta em defesa da justiça para a imagem de religiosos traidores da própria esquerda. Isolar os frades militantes do conjunto da Igreja seria a fase final desta operação, minando ou suprimindo os setores religiosos e engajados que lutavam contra o regime27.
A ditadura civil-militar usou os desdobramentos dessa luta para desmoralizar a Ordem dos Dominicanos e outros segmentos da ala progressista da Igreja brasileira. A polícia, a justiça militar e católicos conservadores atacaram os dominicanos, acusando-os de traidores dos preceitos da religião católica e defendendo sua expulsão da Igreja. A partir dessas articulações entre imprensa, agentes da repressão e setores conservadores da sociedade brasileira, criou-se no imaginário coletivo a ideia de que a Ordem dos Dominicanos também estaria alinhada a um projeto comunista de subversão do país.
25 Para uma leitura sobre a Alameda Casa Branca compreendida como um lugar de memória sobre a repressão e a resistência política durante a ditadura civil-militar, conferir o documento produzido pelo Programa Lugares da Memória do Memorial da Resistência de São Paulo.
Disponível em:
http://www.memorialdaresistenciasp.org.br/memorial/default.aspx?c=bancodedados&idlugar=1 61&mn=59
26 MAGALHÃES, Mário, op. cit, p.414.
27 SOUZA, Admar Mendes de. Frades Dominicanos de Perdizes: movimento de prática política nos anos de 1960 no Brasil. Dissertação (Mestrado em História). FFLCH.
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003, p.140.
Imagem 02: Registro fotográfico da fachada da Livraria na Rua Bento Freitas no centro de São Paulo. Foto:
Fernando Santos.
Fonte: Folha de São Paulo.
9 A compreensão de que a Livraria Duas Cidades é um lugar de memória vinculado à resistência dos dominicanos à ditadura recupera a história de luta política e social travada entre os golpistas e aqueles que buscavam um país mais justo e igualitário para a maioria do povo brasileiro. Desconstruir a versão da história oficial nos possibilita uma reflexão quanto à criação do nosso passado, pois como afirma Walter Benjamin na Tese da Filosofia da História, ao longo do processo histórico os oprimidos são derrotados duas vezes: no momento da luta e no ato do registro da história, quando prevalece a versão do vencedor. Cabe-nos agora olharmos para esses lugares com a finalidade de desvelarmos o passado, para então reconstruirmos as lutas daqueles que não se calaram frente a opressão de um Estado sem direitos.
ATUALMENTE E/OU ACONTECIMENTOS RECENTES
Na década de 2000 a Livraria Duas Cidade reeditou alguns dos títulos mais representativos de suas publicações dos anos 1970 e 1980, mas em 2006 encerrou suas atividades na sede da rua Bento Freitas por não conseguir arcar com o reajuste dos preços do aluguel. Sendo assim, a editora e a livraria seguem funcionando apenas em uma loja no bairro Perdizes, na zona oeste de São Paulo.
FILMES E/OU DOCUMENTÁRIOS
Documentário: Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro. Direção de Silvio Tendler. 2001. Sinopse: O documentário conta a história, as polêmicas, as vitórias e derrotas de Carlos Marighella, um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Autor do Manual do Guerrilheiro Urbano foi fundador da Ação Libertadora Nacional, primeiro movimento armado pós-64. Foi homenageado com o filme no ano em que completaria 90 anos.
Documentário: Marighella. Direção de Isa Grinspum Ferraz. 2011. Sinopse: Líder comunista, vítima de prisões e tortura, parlamentar, autor do mundialmente traduzido
"Manual do Guerrilheiro Urbano", Carlos Marighella atuou nos principais acontecimentos políticos do Brasil entre os anos 1930 e 1969, e foi considerado o inimigo número 1 da ditadura militar brasileira. Mas quem foi esse homem, baiano, poeta, sedutor, amante de samba, praia e futebol, cujo nome foi por décadas impublicável? O filme, dirigido por sua sobrinha, é uma construção histórica e afetiva desse homem que dedicou sua vida a pensar o Brasil e a transformá-lo através de sua ação.
10 Documentário: Ato de Fé. Direção de Alexandre Rampazzo. 2004. Sinopse: O documentário investiga a relação entre setores da Igreja e a resistência à ditadura civil-militar vigente entre 1964 e 1985 no Brasil contada a partir de perspectiva dos frades dominicanos, adversários do regime.
Filme: Batismo de Sangue. Direção de Helvécio Ratton. 2007. Sinopse: Ambientado no fim dos anos 1960, o filme é baseado no livro homônimo de Frei Beto. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis: Tito, Betto, Oswaldo, Fernando e Ivo passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella. Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por torturas que culminam em uma emboscada organizada pela polícia para assassinar Marighella.
REMISSIVAS
Convento Santo Alberto Magno - Convento dos Dominicanos; Rua Maria Antônia;
Alameda Casa Branca; Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP).
SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS
BETTO, Frei. Batismo de Sangue: Guerrilha e Morte de Carlos Marighella. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A, 1987.
GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas - A Esquerda Brasileira: Das Ilusões Perdidas à Luta Armada. São Paulo: Editora Ática, 1998.
DURAN, Sérgio. Liquidação de clássicos marca o fim de livraria histórica. O Estado de São Paulo. Cidades/Metrópole. São Paulo, 23 de setembro de 2006, C8.
FOLHA DE SÃO PAULO. Depoimento de Davi Arrigucci Jr, professor do Departamento de Teoria Literária da USP, para a Folha de São Paulo. Folha de São Paulo. São Paulo, 25 de dezembro de 1987, A26.
FOLHA DE SÃO PAULO. Editora e livraria é marca na história cultural de São Paulo.
Folha de São Paulo. São Paulo, 29 de abril de 2000.
MAGALHÃES, Mário. Marighella. O guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
11 MASSI, AUGUSTO. Depoimento de Augusto Massi ao Memorial da América Latina.
Portal Memorial da América Latina. São Paulo, sem data. Disponível em:
http://www.memorial.org.br/cbeal/poetas-na-bilbioteca/augusto-massi/. Acesso em 18/12/2015.
MAUÉS, Flamarion. Livros, editoras e oposição à ditadura. Estudos Avançados, São Paulo, n.28, v.80, 2014.
PALMA, Bruno. Ordem Dominicana responde sobre caso da livraria Duas Cidades.
Folha de São Paulo. São Paulo, 12 de fevereiro de 1988.
SOUZA, Admar Mendes de. Frades Dominicanos de Perdizes: movimento de prática política nos anos de 1960 no Brasil. Dissertação (Mestrado em História).
FFLCH. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
SOUZA, Admar Mendes de. Estado e Igreja católica. O movimento social do cristianismo de libertação sob a vigilância do Deops/SP (1954-1974). Tese (Doutorado em História). FFLCH. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
VALENÇA, João. Uma história do tempo da ditadura. Revista Revés do Avesso.
Centro Ecumênico de Publicações e Estudos Frei Tito de Alencar de Lima, São Paulo, 2004.
DADOS DA PRODUÇÃO
Produção do Texto: Vanessa do Amaral; Ano: 2011 Atualização de Conteúdo: Julia Gumieri; Ano: 2015 Revisão: Camila Djurovic; Ano: 2017
COMO CITAR ESTE DOCUMENTO: Programa Lugares da Memória. Livraria Duas Cidades. Memorial da Resistência de São Paulo, São Paulo, 2015.