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A reta e o círculo: amizade, projeto intelectual e construção identitária nas cartas de Capistrano de Abreu a João Lúcio de Azevedo

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Academic year: 2018

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(1)

A

r e ta e o c ír c u lo :

a m iz a d e ) p r o je to

in te le c tu a l e c o n s tr u ç ã o id e n titá r ia

n a s c a r ta s d e C a p is tr a n o d e A b r e u

a J o ã o L ú c io d e

A z e v e d o

DCBA( 1 9 1 6 - 1 9 2 7 )zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Rebeca Gontijo

Universidade Federal Flurninense

RESUMO

Este artigo analisa a correspondência mantida pelos historiadores João Capistrano de Abreu (1853-1927) e João Lúcio de Azevedo (1855-1933), entre os anos de 1916 e 1927, com o objetivo de compreender algumas das representações construídas por Capistrano sobre si mesmo e sobre seu destinatário. Informando o objetivo, existe a hipótese de que as representações elaboradas através da correspondência fundamentam a afirmação da identidade de Capistrano como um historiador.

PALAVR.ASa-IA VE

correspondência; representações; identidade do historiador.

A B S T R A C T

This article analyses the correspondence exchanged by historians João Capistrano de Abreu (1853-1927) andJoão Lúcio de Azevedo, fram 1916 to 1927 with the aim of understanding some of the representations built by Capistrano about himself and his addressee. The objective is informed by the hypothesis that the representations drawn up in the letters substantiate, among other things, Capistrano's identity assertion as a historian. KEYWORDS

correspondence; representations; identity of historian.

"Ia esquecendo: esta noite passada sonhei longamente com V. Estávamos em Lisboa, conversamos longamente não me lembro mais sobre o quê .. Depois V. acomodou-me e marcamos novo encontro. Tomei isto como um aviso de que devia escrever-lhe" (Carta de Capistrano de Abreu a João Lúcio de Azevedo, 17/09/1923, vol.Z, p.281).

(2)

João Capistr~o de Abr:u morre~ no dia 13de agosto de 1927,aos

74 anos. ?eu nome Ja era considerado Importante no meio intelectual. Reconhecido como um "velho erudito, vivo dicionário da História Pátria" desde, pel? menos, 1911, por ocasião de seu septuagésimo aniversário, em

1923, cogirou-se mesmo a possibilidade de comemorar o acontecimento

com .uma festa nacional. O fato é que, no momento de sua morte, Capistrano era tido como o grande "historiador da Pátria".'

Em 1928,um de seus correspondentes mais assíduos, o historiador

lus~-bra~ileiro, Joã~ ~úcio de Azevedo (1855-1933), enviou uma carta aoDCBA

e n t ~ o Ndiretor da Biblioteca Nacional, Mário Behring, comunicando sua

decI~ao de doar o conjunto de missivas que lhe foram enviadas por Capistrano, Disse João Lúcio:

Por espaço de mais de onze anos tive a fortuna de entreter ativa correspondência com Capistrano de Abreu, e tão interessantes achei suas cartas que as guardei todas ou quase todas. Elas encerram curiosas particularidades sobre o viver e o pensar do escritor e poderão servir utilmente a quem ~m dia pretender traçar o perfil de uma figura de tanto prestígio entre os estudiosos. Parec~u-m~ P?r isso que .agora,por morte dele, o lugar adequado

~ara ..estascartas seria a Biblioteca Nacional dogfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBARio ,para onde as dirijo (...) Ai flcara~ ~ob ~oa ~arda ~ a:essíveis aos amigos e admiradores do finado que, se

a f.amíha nao fIZerobjeção, as poderão ver, copiar ou publicar, se assim quiserem, porque da minha parte não me oponho a isso. (07/03/1928)

. Azevedo doou 265 cartas, que constituem boa parte (25,2%) do conjunto da correspondência ativa de Capistrano de Abreu localizada e publicada, pela primeira vez, em 1954.Ao todo foram publicadas 1253missivas entre as quais, 1053 f~ram enviadas e200 recebidas por Capistrano. Dos 124

correspondentes .localizados, João Lúcio se destaca devido àmaior quantidade de cartas de Capistrano que guardou, assim como chama a atenção por ser o autor de 30 (15,1%)das 199cartas - enviadas por 91remetentes identificados - que compõe a correspondência passiva do historiador brasileiro.

Nas cartas ao amigo de além mar, Capistrano refere-se aos trabalhos e~ andamento, tecendo comentários sobre suas pesquisas em arquivos, suas leituras de documentos e livros e seus projetos antigos e futuros. Faz observações sobre acontecimentos políticos e emite opiniões sobre seus co~temporâneos, vivos e mortos. Os filhos têm lugar na correspondência,

assim como as observações sobre a velhice, as doenças e as viagens.

Como observa Roger Chartier, investigar os usos do escrito ajuda a compreender os modos como uma comunidade ou os indivíduos constroem

102

suas representações sobre o mundo, investindo-o de significados plurais. Permitindo associar práticas sociais e subjetividade, a correspondência é um espaço privilegiado para a observação da relação do indivíduo consigo mesmo e com os outros.'

A correspondência enquanto fonte é uma velha conhecida dos historiadores. Porém são recentes os estudos que a colocam no centro da investigação, como objeto de análise) dotado de especificidades e que, para além de fornecer informações sobre assuntos variados, permite acessar aquilo que a história cultural à francesa - preocupada em "identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construida, pensada, dada a ler" - denomina por r e p r e s e n ta ç õ e s :os resultados de um trabalho partilhado de delimitação e classificação do real, que organiza a apreensão do mundo social, atribuindo-lhe sentidos.'

O objetivo deste texto é analisar algumas das representações construídas por João Capistrano de Abreu sobre si mesmo e sobre seu destinatário, João Lúcio de Azevedo, através do exercício de escrever cartas. Informando o objetivo, existe a hipótese de que essas representações fundamentam a afirmação da identidade de Capistrano como um historiador.

Antes de continuar, é preciso lembrar que "ler uma carta é entrar em uma história sem conhecer a primeira palavra, sem saber o que aconteceu antes nem o que chegará depois, o que se disse antes, nem o que se dirá depois".' Sendo assim, a leitura das cartas de Capistrano a João Lúcio começa tentando localizá-Ias em 1916,quando a relação epistolar entre eles começou. Ambos eram, então, sexagenários: Capistrano tinha 63 e João Lúcio, 61

anos. Nessa época, Capistrano já era bastante conhecido. Havia escrito, em

1878, o necrológio de Varnhagen, o historiador mais famoso do Brasil, no

século XIX. Participara da importante Exposição de História e Geografia do Brasil, organizada pela Biblioteca Nacional, em 1881.Lecionara no Colégio Pedro Il, onde prestou concurso, em 1883,defendendo a tese Od e s c o b r im e n to d o B r a s il n o s é c u loX V I e conquistando a cadeira de maior prestígio na época: a de Corografia e História do Brasil. Além disso, já havia descoberto o nome verdadeiro do autor de C u ltllr a e o p u lê n c ia d o B r a s il, p o r S IIa s d r o g a s e

m in a s , João Antônio Andreoni, vulgo Antonil, fato divulgado em 1886.

Trata-se de uma descoberta importante, pois, na época, o ineditisrno das fontes e a identificação de autores eram muito valorizados. Também reeditara, entre

1906 e1907, com notas e introdução, aH is tó r ia G e r a l d o B r a s il, de Varnhagen, um marco da historiografia e publicara aqueles que são considerados seus principais trabalhos: C a P ítu lo s d e h is tó r ia c o lo n ia l (1907); C a m in h o s a n tig o s e p o v o a m e n to s , que apareceu, pela primeira vez, no J o r n a l d o C o m é r c io , em

(3)

1899; egfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAR õ - tx a H u - n i- k u - i - A lín g u a d o s C a x in a u á s d o R io I b u a ç u , a flu e n te d o

M a r ú \1914). Este último, hoje esquecido, deu um prêmio a Capistrano,

confendo pelo IHGB, suscitando uma série de artigos elogiosos por parte de alguns intelectuais importantes de sua época, entre os quais José Verissirno.

Enfim, Capistrano já era sócio, desde 1887, do Instituto Histórico e

Geográfico Brasileiro, a mais importante instância de consagração da área de estudos históricos no país.

Quanto a João Lúcio - rico herdeiro de uma empresa de navegação fluvial e de exportação de borracha no Pará - era sócio do IHGB desde

1894,por proposta assinada por José Veríssimo e Alenear Araripe. Participava

do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, desde 1909 e já havia

publicado duas de suas obras consideradas hoje como mais importantes: O s

je s u ita s e o G r ã o - P a r á (1901) e O M a r q u e s d e P o m b a l e s u a é p o c a(1909). Além disso, tinha seu nome relacionado ao de outros dois conhecidos estudiosos

do Brasil: Oliveira Lima e José Veríssimo - seus amigos - por ter feito

elogios públicos às obras de cada um na Academia de Ciências de Lisboa

.

'

respectrvarnente, em 1914 e 1916.6

Foi Verissimo quem estimulou a amizade entre Capistrano e João Lúcio, fazendo propaganda de um para o outro, até que eles começaram a trocar cartas. O interessante é que os missivistas nunca se encontraram pessoalmente, configurando um caso exemplar de relação epistolar do tipo "nunca te vi, sempre te amei". Azevedo viveu no Brasil, mais especificamente,

no Pará, de 1873 a 1895, tendo se naturalizado brasileiro em 1885, devido

a uma exigência legal: somente brasileiros ou naturalizados podiam herdar empresas de navegação fluvial, como era o seu caso. Herdou tudo de um tio português, que fizera fortuna com a exportação de borracha. Depois de sua estada nos trópicos, João Lúcio viajou pelos Estados Unidos, retomou a

Portugal em 1899e não voltou mais ao Brasil. Já Capistrano vivia no Rio de

Janeiro, desde 1875, quando chegou do Ceará, sua terra natal. Viajava

freqüentemente pelo país, mas jamais foi ao exterior.

As missivas são textos, por definição, destinados a alguém, sendo que o ato de escrevê-Iasproduz efeitos tanto em quem as escreve quanto em quem as recebe e lê. Assim, escrever e trocar cartas permite um exercício pessoal muito particular, sujeito a inúmeras aproximações e afastamentos entre os missivistas. Quem estuda correspondências acaba se deparando com aspectos subjetivos, expressos através do clima emocional e intimo desenvolvido pelos missivistas. É possível localizar momentos estratégicos

da construção do relacionamento entre ambos, quando se observa o

investimento efetuado por cada um na elaboração de "verdades" sobre si

mesmo sobre os outros e sobre omundo,"

, No caso das cartas de Capistrano a João Lúcio, há vários m~mentos, indicados por expressões, palavras e gestos, que po?em ser c~nslderados como estratégicos para a construção de representaçoes so~re Si e sobre o

outro _ operações consideradas indissociáveis. Foram selecionados quatro:

1) o momento da abertura das cartas, quando o destinatário é identificado através de formas de tratamento, que apontam o teor da relação entre. os missivistas; 2) o da despedida, quando o remetente costuma expre~sar desejos, afirmar votos de amizade, etc., que ajudam a definir seu própno papel na

relação, assim como o do destinatário; 3)

?

mome?to em que ocorre algum

tipo de divagação sobre a relaçã? de a;ruzade existente ent~e ambo~DCBA~ U Na

expressão de sentimentos pelo arrugo, alem de qualquer tent:tl~a de defl~lç~o do mesmo; 4) e os momentos em que o missivista faz referenClas ao ~r~p~lO modo de ser e de fazer seu trabalho (no caso, estudar e escrever a história).

1."XARAPIM AMIGO": P S FORMAS DE 1RATAMENfO

Considerando a identidade como "a imagem de si, para si e para os

outros"," cabe dar lugar às representações que Capistr:n0 ~onst~ói sobre

João Lúcio. Como ele vê o amigo distante, sem ~unca tê-lo tld? ?iante dos

olhos? Um dos momentos que pode ser considerado estrateglco para a

construção da imagem de João Lúcio por Capistrano é aquele que abre as cartas. Através das formas de tratamento do destinatário é,P?ssível ~b~ervar

o teor da relação, ainda que se admita a existência de códigos SOCiaiSque

regulam a escrita epistolar. N ' .

Nas cartas de Capistrano a Joao LUClO,observa-se a crescente

construção da intimidade e da identificação, através das formas de tratamento.

Entre as primeiras cartas trocadas, em1916,es.tãoaquel~ ~m que o remet,;nte

se dirige ao destinatário como "Exm~. ~o Sr. L~Cl? de Aze."edo ou

"Ilmo. Sr. João Lúcio de Azevedo, histonador, esquire . Postenorme~te,

Capistrano passa pelo formal "Prezado amigo"; abre espaço para ~a maior

aproximação com o "Prezado amigo e xará", até chegar ao Simples e

qualificador "Amigo" e ao tratamento adjetivado expresso pelo "Bom amigo"

I "B . "

ou pe o om e caro arrugo .. . .

Além dos tratamentos formais que revelam polidez e pessoais -que indicam afeto - Capistrano t:mbém !az. uso do tratamento ?or ,n?me, em geral combinado com expressoes que mdi;am ,o .lugar do destmata~lO,~a relação e em seu coração. Assim temos o "Joao LUClOde Azevedo arrugo e o "Meu caro João Lúcio".

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Em um grande número de cartas, está presente o tratamento "Xará e amigo" ou suas variações: "Xarapim amigo" ou, simplesmente, "Xará". O termo xará, além de indicar pessoas com o mesmo nome, também significa

companheiro. No caso aqui analisado, são doisgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAJ o ã o s , como Capistrano gosta

de lembrar. O nome comum estimula o João d o B r a s il a afirmar vínculos

com o João d e P o r tu g a l. Por exemplo, em carta do dia 27 dezembro de 1926,

Capistrano propõe ao amigo que se orientem pelo significado de seus nomes - "Deus tem sido gracioso" - sendo graciosos:

27 de dezembro, dia de São João Evangelista. João, dizia com muito deleite um Xará, repetindo a definição de Webster, ou antes a tradução do hebraico: g r a c io lls g o d 's g ib l, que aDCBAE lI r y . B n ta n ..melhora para Y a b e v e d b a s b e e n s g r a c io lls . Sejamos pois graciosos, enquanto os dois solstícios permitirem. (CA-JL, 27/ 12/1926, 3:403)9

Segundo Capistrano, além do nome, eles compartilhavam o santo:

São João (tanto o Evangelista, quanto o Apóstolo), queàsvezes é invocado

nas despedidas ou no corpo das cartas como "o xaraguaçu", "nosso santo" ou

o "nosso padroeiro" (CA-JL, 24/06/1920, 2:164; 24-30/06/1923, 2:279;

22/06/1918, 2:100).

Essa análise inicial das formas de tratamento do destinatário João Lúcio indica, como possibilidade, que Capistrano se empenhou no sentido de promover uma aproximação com seu correspondente, afirmando o vínculo de amizade que os unia, através de freqüentes referências ao nome comum e do uso do termo xará. Em outras palavras, as formas de tratamento parecem indicar um tipo de identificação entre João Capistrano e João Lúcio, que

serve para afirmar a relação de companheirismo e igualdade entre os

missivistas, que são também pares intelectuais.

2."BIEN À vous": ASDESPEDIDAS

Termos que fecham a carta, as despedidas servem para indicar a posição do remetente na troca epistolar, como ele se coloca em relação ao seu destinatário. Assim como as formas de tratamento que abrem as cartas, as despedidas indicam o teor das relações entre os missivistas, que, de modo geral, pode ser íntimo ou formal. Exibem a disposição do remetente que se despede, podendo fornecer indícios sobre seu estado de espírito, humor, ou qualquer outro sentimento. Supostamente, elas visam causar algum tipo de efeito sobre o destinatário, estimulando-o a manter o vínculo, respondendo a carta; afirmando, após tudo o que foi dito ou que deixou de sê-lo, que ele,

o remetente, permanece ali, disposto a continuar a troca, sentindo-se capaz

de cumprir uma espécie de obrigação. .

Nas cartas de Capistrano aJoão Lúcio, é comum o uso de despedidas

di ) 'al N (" b "

àfrancesa ("bien àvous" =ao seu spor ou a ema erg~ e~st ':" ao seu

dispor; às suas ordens). Capistrano costuma se ~oloc.u:,a~,mt~lro dispor ~;

seu correspondente, posicionando-se como "adffilrado: e am~go ~~ngado .

Por vezes coloca-se em posição inferior: "ao seu dispor, a inutilidade do

admirado; e amigo obrigado", "sempre e com o maio~lr~er espe:a-Ihe as

ordens", chegando a pedir desculpas por abw:ar da.p~~lencla do affilgo. ~ste uso retórico da despedida parece indic~r a dlspon~btll~ade para ': relaça.o e

a consciência de que esta pode lhe lmpor obngaçoes, que sao aceitas

antecipadamente.

Há despedidas que dão lugar a demonst:aç~;s"de afeto - quando :e

despede dizendo: "subscrevo-me com toda a estima, com um abraço nao

dd ""al ""b "" dades"

afrouxado pelo oceano","sau a es , v e ~t me ama, a raços,,' ..sau ~ es,

_ ou humor - "e adeus, débil infante!", "Vivatl Crescat! Floreat!, Evoe!

Ze-Pereira!", "Aleluia, aleluia! Carne no prato e farinha na cuia!" .. Outras expressam desejos: de melhoras de saúde, de boas entradas no ano novo, de

" b d'" d ""

encontro etc. Mas ha tambem o corte a rupto, o tipo: a eus..., por

hoje bas;a", "e não há mais espaço nem temp~", "paro por aqui p~a"n~o perder o correio", "por hora não me lembra rnars cousa a acrescentar , . nao

. " " N . " " , " "b t basta " Por fim a

há tempo para maiS, nao posso malS, ate... , as a, ... . ~•.,

, d d N "S d N ,

despedida pode ser, tambem, um momento e sau açao - au açoes.

Saudações!" - ou um convite a continuar a relação - "e até outra", "até outra vez" "para aperitivo basta".

, Importa ressaltar que, nas despedidas, Capistrano se vê, antes. de

tudo como um admirador de João Lúcio, considerando-se apto e compelido acumprir obrigações para com ele. Capistrano agradecido coloca-se quase sempre ao dispor de João Lúcio, podendo-se supor que ele esperasse o.m~s:n0

do amigo de além mar. Lembro que o termo obrigado, ;~to ~od~ slgm!lcar

agradecido ou compelido, quanto indica: alg~,n~cessano e mdlsp~ns~v~l.

Um remetente que se coloca como "obngado diante de ;e.u destma~:o,

parece querer dizer: disponha de mim, pois posso lhe s:r útil e ,neces~arlO. Ao mesmo tempo, Capistrano se mostra como um arrugo que e um igual;

~éump~ .

Por fim, acompanhando a seqüência de despedidas ao longo d~s onze anos da correspondência (de 1916 a 1927),observa-se que oNdesenvolvlment? da intimidade permite abrir mão de grandes demonstraçoes de afeto, pOiS estas parecem deixar de ser imprescindíveis para manter o vínculo entre os

(5)

missivistas, uma vez que eles possuem afinidades que o garantem.

3.CARTAS AO AMIGO DE ALÉM-MAR: AFINIDADES E AFETO

Como já foi dito na introdução desse texto, Capistrano de Abreu e

João Lúcio de Azevedo começaram a trocar cartas em 1916. Foram

"apresentados" pelo critico literário José Veríssimo. Por ocasião da morte deste último, Capistrano comentou:

Veríssimo gostava de fazer propaganda de amigos. Falou-me em seu nome, pela primeira vez, creio que em 93 ou 94. Depois muitas e muitas vezes falou-me de sua ida para o Pará, a entrada no comércio, seus trabalhos para a conquista do pão, sua volta além-mar, sua vida de estudo e de pensamento, que auspiciávamos longa e fecunda em obras cada vez mais vigorosas. A partida de nosso amigo ainda mais sagradas torna estas recordações. (CA-JL, 30/06/1916, 2:11-2)

A pequena biografia construída por Capistrano chama a atenção

para a vida de trabalho do historiador luso-brasileiro: suas atividades como comerciante e intelectual. Nascido em 16 de abril de 1855, em Sintra, Portugal, João Lúcio cursou a Escola Politécnica e o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa. Veio para o Brasil em 1873, para trabalhar com seu tio Botelho, dono de uma empresa de exportação de borracha e de uma companhia de navegação fluvial, no Pará. Aos 18 anos,J oão Lúcio se deparou com a Amazônia, sua porta para agfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAd e s c o b e r tado Brasil. Mas, além do trabalho com o tio, conseguiu emprego na Livraria Tavares Cardoso, em Belém, da qual tornou-se proprietário mais tarde. Em 1885, o tio Botelho morreu e o jovem português, casado com sua prima Ana da Conceição, tornou-se seu herdeiro, após naturalizar-se brasileiro.

A partir de 1890, passou a se dedicar ao estudo da história paraense.

Escrevia para o jornal A P r o v ín c ia d o P a r á e, no mesmo ano em que deixou

definitivamente o Brasil, 1895, publicou um livro: O liv r e A m a z o n a s : v id a

n o v a . Após viajar pelos Estados Unidos, chegou a Portugal em 1899. Passou

a viver de rendas, podendo dedicar todo o seu tempo aos estudos. Falava inglês, francês e alemão. Admirador de Ranke, pai da história metódica, João Lúcio empenhou-se na pesquisa em arquivos portugueses, tornando-se grande conhecedor da documentação sobre o Brasil existente em Portugal. Seus temas de pesquisa favoritos eram: a história de Portugal, os jesuítas, os cristãos-novos portugueses, o marquês de Pombal e o padre Antônio Vieira, dos quais foi biógrafo.

Segundo Arme Vincent-Buffault, "a amizade é, por sua força dialógica, laboratório da obra". Através da relação epistolar, é possível declarar amizade, exortar, planejar atividades conjuntas e expor trabalhos individuais ainda

em curso, submetendo-os a constantes modificações." A noção de

"correspondência-laboratório" de Michel Trebisch também está de acordo

com essa idéia, pois ela pressupõe um modelo de amizade intelectual entre pares, unidos por preocupações comuns e que experimentam uma relação

profunda e durável, não havendo uma figura central.11

A correspondência entre João Lúcio e Capistrano de Abreu, ao longo de onze anos, é o espaço de discussão sobre o trabalho de ambos, uma vez que eles nunca se encontravam pessoalmente. Esse espaço, longe de ser regido pela impessoalidade e pela formalidade - freqüentemente associadas às cartas relativas a negócios ou ao mundo do trabalho - é marcado pela afetividade. Assim, é possível observar uma verdadeira rede de estudos à distância, tecida por meio de pequenos gestos de amizade. Entre pedidos de

cópia de documentos e remessas de livros, feitos pelos dois missivistas,

desenvolve-sea atividade crítica e o afeto. A correspondência traz comentários dos textos de um, feitos pelo outro. Também transmite observações a respeito

da atividade de leitura e pesquisa. As cartas trocadas deixam ver a

disponibilidade de ambos para uma relação entre iguais, havendo exibições de respeito mútuo pelos trabalhos realizados.

As demonstrações de afeto surgem através dos muitos elogios

enviados pelo correio. Capistrano considerava João Lúcio um "espírito vigoroso e maduro" (CA-]L, 05/05/1924,2:299). Congratulava-o pelo término de seus trabalhos: "eis pois ultimada a primeira e mais difícil parte da obra de sua culminância intelectual. Minha alegria e minha satisfação são grandes e dou-lhe com entusiasmo um abraço afetuoso" (CA-JL, 16/04/1919,2:123). E elogiava seus resultados, dizendo: "Li imediatamente, devorei-o até o fim e deixou-me prazer e contentamento: a entrada anuncia bem o monumento planejado; sinto-me perfeitamente tranqüilo". Ou ainda: "li ontem seu primeiro artigo sobre cristãos-novos, que a todos os respeitos considero um de seus melhores trabalhos"; "li quase metade dos Cristãos-novos, sempre com o maior prazer. Revela grande progresso: às vezes sucedia-me não saber exatamente sua opinião em seus livros anteriores: agora clareza ou franqueza,

a impressão é outra" (CA-JL, 24/01/1917,2:25-26; 27/09/1917, 2:73; 31/

12/1921, 2:231).

João Lúcio considerava Capistrano "um Mestre" e também não poupava elogios. Após ter lido a introdução, escrita por Capistrano, para um dos livros de Frei Vicente do Salvador, comentou: "trabalho de alta

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erudição, cheio de novidade e que decididamente esgota o assunto (...) felicito-o pfelicito-or este trabalhfelicito-o, verdadeiramente dignfelicito-o dfelicito-o nfelicito-ome que felicito-o autfelicito-or tem entre os que estudam e sabem de sua terra" GL-CA, 17/05/1925, 3:251; 08/08/ 1918, 3:227).

Também agradeciaa atenção que lhe dedicavaCapistrano. Após receber um texto enviado por este último, disse: "sua idéia de me mandar a parte que evidentemente mais poderia interessar-me, por me ser mais familiar, denota a delicadeza de quem, fazendo um presente, busca o que mais pode agradar ao presenteado". E, após receber elogios do historiador brasileiro, agradecia:

"tive grande alegria em ver na sua carta que leu com prazer o capítulo dagfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

His tó r ia d e V ie ir a sobre as missões. De fato sinto-me com suas palavras orgulhoso e feliz".E seguerevelando o quanto sua escritadesenvolvia-sesupondo a presença do outro: "creio que, quando escrevi aquilo, o fiz com o sentido de lhe agradar" GL-CA, 08/08/1918, 3:227; 25/05/1919, 3:229).

Segundo Capistrano, "do mesmo modo que médico só cura quem não está doente, também só há vantagem em discussão, quando as opiniões

são idênticas" (CA-JL, 31/12/1921, 2:232). A discussão com João Lúcio

parece ter fluído sem grandes conflitos, sendo marcada pelos mencionados elogios, assim como por estímulos e sugestões. Certa vez, sentindo-se condenado a repetir o que já havia dito, por não ter disposição para revisar e ampliar sua pesquisa, João Lúcio mudou de idéia: "de sorte que estou achando prazer na tarefa, que tinha antes por cansada e enfadonha. E devo

isto a

v.,

como algumas outras cousas boas". Mas nem sempre concordavam,

sobretudo no que dizia respeito a correções dos textos ou a revisões da interpretação, que Capistrano valorizava ao extremo. Dizia João Lúcio: "não participo do seu escrúpulo gramatical". Porém não se furtava em defender-se, dando lições de português a Capistrano, ainda que dissesdefender-se, no final, "desculpe a preleção" GL-CA, 17/05/1925, 3:252).

A correspondência sugere a distribuição de papéis - que pode variar com o tempo e nem sempre é fácil de ser apreendida - entre os missivistas que são também amigos e pares intelectuais. Pode-se supor que ambos

desempenhavam o papel de eruditos conhecedores de arquivos. Ointeresse

pelos arquivos e a experiência com documentação manuscrita os aproximava, ainda que, para João Lúcio, fosse difícil ler "a letra de época" GL-CA, 06/ 03/1923, 3:245). Porém, não obstante a correspondência apresente indícios de uma relação entre iguais, a posição de cada um no mundo intelectual parece ter sido diferente. Para compreender essa distinção, é útil recuperar algumas informações sobre suas trajetórias.

Para começar, nenhum dos dois freqüentou os principais centros de

110

formação intelectual do final do século XIX e início do ?CX: ,as.faculdades de direito, medicina e engenharia. Capistrano de Abreu e Joao Luc~o.de Aze~e?o fizeram parte de uma geração de historiadores formados ~ela prauca do O~I~IO.

Capistrano, leitor disciplinado, const~ra um mstrumer:tal teonc?

poderoso, que lhe permitiu dialogar de igual para Igual com outros intelectuais de sua época, formados em meio a um "cientificismo difuso", resultante da

apropriação das modernas teorias científicasAeu~opéi~~ sobretudo francesas,

do final do século XIX. Ampliou suas referências teoncas quando começou a ler autores alemães (por volta de 1880) que contribuíram para que viesse a se interessar pela pesquisa documental, a valorizar a elaboração de problemas e a construir métodos de pesquisa.

No fim do Império, Cap.istrar:oera ~~ "pensador d: h~stóri~"e,~m crítico da literatura atuando em jornais, participando de polerrucas literárias e debates sobre a experiência brasileira, quand~, diante das possibilid~d~s de trabalho que se abriram na Biblioteca Nacional (1879) e no Colégio

Pedro II (1883), decidiu se dedicar inteiramente à história do Brasil. Mais

especificamente, interessou-~e pela histó~ia,c?l,?nial, onde se encor:trav~ o

que, segundo ele, seria o ':n? da nossa hIsto~la : o povo~;r:to no mten~r.

Quanto a João LUClOde Azevedo, unha uma trajetona de formaçao

diferente. Afirmava: "minha cultura é muito fragmentária,à Ia d ia b le , e ao que

é propriamente ciência sou de todo alheio" GL-CA, 19~02/1920, 3 :2 3 3DCBA

1 .

Contudo possuía estudos e experiência na ~ea do c?mérclO, o que lh~ tena garantido, segundo Antônio Edrnilson Martins ROdrl~es, algumas qualidadNes úteis para seu trabalho como historiador; ~ara ~od~lgues, o olha: ~e Joao Lúcio sobre a história é o de um empresarlO capitalista, um espeClalist~em economia interessado em compreender a formação de Portugal a parur da análise co~tábil: "para cada povo existe, como para os in~víduos, uma conta do Dever e Haver, que nos dá o quilate de suas prospendades, e ~or ?nde

cedo, até para os maiores impérios, os pró?omos ~a decadencIa SAe

denunciam"." Essa perspectiva de João Lúcio per míte a Rodrigues

compreende-10como um historiador dotado de um olhar de contabilista ou de contador."

Em suma, tanto Capistrano quanto João Lúcio afirmaram-~e como historiadores a partir da prática de pesquisa em arquivos. Eram p~h~lotas -o que lhes permitia ler text-os n-o. -orig~nal e ~anter ~-orr:sp~ndenCl~ c-o~ estudiosos estrangeiros; assinavam Jornals e revistas nacionais e m:ernaclOnaIs especializadas; freqüentavam arquivos .e bibliot~cas públi~as e pnvadas; eram

reconhecidos entre seus pares, possuindo amigos, admiradores e, no caso

de Capistrano: discípulos e também adversários. Alé~ disso, possuíam algum dinheiro que lhes permitia viver e estudar sem preClsar desempenhar outras

(7)

funções sociais, além da intelectual.

" Como já foi mencionado, João Lúcio era um rico herdeiro, que

vivia de rendas desde que deixara o Brasil, em 1895. Capistrano, ao contrário, era pobre, mas recebia uma pequena pensão do Colégio Pedra II, desde

1889, quando foi posto em disponibilidade devidoà extinção da cadeira que

lec~onava:Co~ografia ~ História,do Brasil..Também recebia por seus artigos

e livros publicados, ainda que as vezes flcassegfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAa v e r n a v io s .

Comentando com João Lúcio o caso de Coelho Neto, Capistrano fornece indícios que ajudam a compreender alguns aspectos da vida do intelectual em seu tempo:

Pobre Coelho! Captou a simpatia do Pinheiro Machado, conseguiu que o elegessem, assentou a vida sobre a base de trinta contos, fracos! Fracos! E agora terá .de baix~r ao terço. Não compreendeu que quando o padrinho ~orre o afilhado fica pagão e quis grimpar, mobiliwu a imprensa da capital, mcon:odou-se e obteve manifestações nos Estados por onde passava, avocou agências telegráficas, fez conferências em S. Luís. Nada compensou a falta de padrinho. Conheço-o de antes da república. Tudo quanto escrevia me desagradava, apesar da simpatia pessoal. Um dia, com a C a p ita l F e d e r a l,

~gou ~ crisálida e voou. Tinha a desvantagem de escrever para viver, numa improvisação desenfreada, nem sempre literariamente proba, porque, tenho e~t~ impressão, muitas vezes amontoava frases e páginas sem saber o que dizia, .o.u antes, sabendo que não dizia nada. Faltava-lhe um achego que lhe perrrutisse escrever devagar. Teve-o; se aproveitou não sei, porque não tenho lido suas últimas produções; creio que não aproveitou, senão soaria. E agora vai voltar àantiga improvisação. (CA-JL, 02/05/1918, 2:98)

o

principal para Capistrano era garantir formas de sustento que

permitissem "escrever devagar" e não "escrever para viver". Padrinhos eram

i~portantes. Amigos também. Capistrano contava com a ajuda de amigos

ncos como, por exemplo, Paulo Prado, verdadeiro mecenas, que financiava algumas de suas publicações e ajudava na obtenção de cópias de documentos. Também mantinha relações com políticos e diplomatas - entre os quais, o poderoso Barão do Rio Branco - que lhe forneciam auxílio para viajar pelo país e ajudavam a conseguir os documentos, que eram a base do seu trabalho. Ou seja, Capistrano não precisava "viver da pena", como se dizia. Mas, além de amigos poderosos e ricos, pode-se supor que ele tenha sido capaz de manter em torno de si uma rede de intelectuais dedicados ao estudo da história, que o viam como uma figura referencial: um exemplo de dedicação

ao e tudo a ser seguido; um modelo de erudito a ser admirado. O

conhecimento da história e as relações com outros pesquisadores teriam

garantido seu lugar entre os grandes do mundo intelectual da I República. Lembro que Capistrano já era um nome consagrado no Brasil, na época em que começou a trocar cartas com João Lúcio. Quanto a este último, embora já tivesse publicado livros e artigos tidos como importantes; fosse sócio do IHGB; correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco;

além de membro da Sociedade Portuguesa de Estudos Históricos e da

Academia de Ciências de Lisboa, ainda não era um autor consagrado. Segundo Edmilson Martins Rodrigues, João Lúcio conquistou o "reconhecimento" formal do seu ofício de historiador quando, em 1910, foi eleito sócio correspondente estrangeiro da Academia de Ciências de Lisboa. Porém, revoltou-se com a indicação, por considerá-Ia absurda, pois se sentia um intelectual de Portugal e não um estrangeiro." A ambigüidade de ser um historiador português naturalizado brasileiro e interessado pela história do Brasil parece ter lhe causado problemas na hora de ser reconhecido por seus pares da terra natal.

Épossível concluir que não bastava o reconhecimento formal. Era

preciso algo mais para ser um autor consagrado e as redes de sociabilidade podem ajudar a compreender o mecanismo da fama e do esquecimento. As qualidades de renúncia das coisas materiais e devotamento ao estudo, que costumam estar relacionadas ao mundo da ciência e ao mundo intelectual, não eliminam o interesse em obter o reconhecimento público dos pares, visto como uma espécie de prêmio justo e necessário para a divulgação do próprio nome e da própria obra.

João Lúcio parece um tanto irônico quando comenta com Capistrano

o caso de Max Fleiuss, secretário perpétuo do IHGB. Após receber o D iá r ioDCBA

O f ic ia l enviado por Fleiuss, contendo a notícia da sessão do Instituto em

que ele, Fleiuss, havia sido consagrado, João Lúcio comentou com Capistrano: "como é bom receber as homenagens dos contemporâneos e beber na taça dos imortais!" GL-CA, 06/03/1923, 3:246). Mas eis que, em carta de 1926, Capistrano menciona que, finalmente, começavam a valorizar o nome de João Lúcio em Portugal: "vejo com prazer que a sua situação cresce em Portugal e começam a fazer justiça a sua obra. Que lhe seja permitido realizar os trabalhos planejados!" (CA-JL, 11/04/[1926], 2:349). João Lúcio - assim como Capistrano - não devia ser tão indiferente assim ao problema do reconhecimento público do trabalho intelectual.

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justos. Além disso, tanto quanto o reconhecimento público, a realização dos próprios projetos era fundamental para a satisfação pessoal.

Em 1925, Capistrano escreveu a João Lúcio:

Você, que administrou a vida melhor que eu - viveu dos rendimentos sem atacar o capital, escreveu não sei quem, citado pelo Rui [Barbosa] - ainda pode formar planos e aninhar aspirações. Minhas aspirações, depois de cinqüenta anos de Rio - cheguei aqui a 25 de abril de 1875 - reduzem-se a morrer sem escândalo, sair do mundo silenciosamente como nele entrei. (CA-]L, 15/04/1925, 2:326)

É um Capistrano desgostoso com a existência, sem ânimo para

realizar seus projetos e com poucas aspirações que escreve a João Lúcio em 15 de abril de 1925, véspera do aniversário do amigo luso-brasileiro. Os aniversários são bons momentos para reavaliar a vida e ocasião oportuna e socialmente indicada para demonstrações de afeto. Capistrano afirmava não gostar de comemorar o próprio aniversário. Dizia: "parabéns de aniversário justificam-se pela certeza de que sobre o passado não podem influir forças humanas ou sobre-humanas, ou porque já não são muitos os dias a amargar. Em uma ou outra hipótese, agradeço-lhe cordialmente" (CA-JL, 11/11/1920, 2:184). Quando completou 72 anos, comentou: "setenta e dois nove fora nada. É simbólico e justo. Felizmente não tenho que repeti-los" (CA-]L, 23/ 19/1925,2:341) .. Mas solidarizava-se com a passagem de anos dos amigos. Disse a João Lúcio: "lembrei-me bastante de V. no dia de seus anos. Não festejo os meus porque o isolamento corresponde melhor à realidade, mas associo-me cordialmente aos amigos" (CA-JL, 13/06/1922, 2:375).

Ao parabenizar João Lúcio pelos aniversários, Capistrano,

supostamente, deixa transparecer sua preocupação com a realização dos próprios projetos e ambições ao longo da vida. Pode-se supor que aquilo que desejava ao amigo fosse também aspiração sua. Assim, deseja, com "um abraço saudoso", "que a vida lhe chegue para a realização de todos os planos

restantes" (CA-JL, 16/04/1923, 2:273); ou, ainda, "que lhe dure a vida

enquanto durarem suas ambições e que nenhuma deixe por satisfazer e que

a saúde se enrije cada vez mais" (CA-JL, 02-03/04/1927, 2:375). A vida

bem vivida é aquela em que é possível realizar os projetos e também ter um justo reconhecimento, como foi visto em um trecho já citado:

Ei-nos chegados a sua semana natalícia. Venho dar-lhe o abraço afetuoso, a que espero o tempo e a distância não tirem todo o calor com que parte. Vejo com prazer que a sua situação cresce em Portugal e começam a fazer justiça

114

a sua obra. Que lhe seja permitido realizar os trabalhos planejados! (CA-JL, 11/04/[1926], 2:349)

A inimizade, a perda de amigos por desavenças, não parecia

incomodar Capistrano. Ou melhor, doía, mas era considerada benéfica. Certa vez disse a João Lúcio: "uma amizade que se perde é como um vício que se larga, ganha-se com a perda" (CA-JL, 02/07/1917, 2:58-59). O que mais entristecia era a perda dos velhos amigos por morte. Disse:

Sinto muito a perda do amigo de tantos anos. Quando depois de perdido, o amigo continua vivo, o golpe édoloroso, mas em suma salutar, como a supressão de um vício. A perda por morte éuma mutilação. Quanta causa já está morta para mim, porque sobre cada uma só conversava com urna pessoa, e esta já não pode me responder. Os jesuítas tinham razão: nada de amigos íntimos. (CA-]L, 09/03/1918, 2:84)

A perda de parentes e amigos aproximava Capistrano e João Lúcio. Em meio à solidão crescente, a troca epistolar pode estreitar os laços entre aqueles que estão fisicamente distantes. Escrever cartas pode ser visto, portanto, como um "ato de presença", que afeta os sujeitos envolvidos, promovendo um tipo degfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAe n c o n tro entre eles. E a carta começa a afetá-los mesmo antes de ser lida, uma vez que, sendo um objeto materializado pela forma e cor do papel,

pela tinta, pela letra reconhecível do remetente etc., ela acaba valendo, aos

olhos daquele que a recebe, como um representante daquele que a escreve. Para Michel Foucault, essa presentificação que a correspondência propicia não ocorre apenas devido às informações que os missivistas trocam sobre suas vidas. Trata-se de "uma espécie de presença imediata e quase

f'·isica ," que se assemelhaa ao exercicio e ar-se a ver:ao exercici d d Assiirn: "()... a carta e, simultaneamente um olhar que se volve para o destinatário (por meio da missiva que recebe, ele se sente olhado) e uma maneira de o remetente se oferecer ao seu olhar pelo que de si mesmo lhe diz. De certo modo, a carta proporciona um face-a-face"."

A construção da presença do outro passa, por exemplo, pela

imaginação dos espaços por onde ele circula: sua cidade, sua rua, sua casa. Em carta de 1919,Capistrano manifestou o quanto sentia João Lúcio próximo, apenas por saber que ele retomara a sua casa, em Lisboa, após uma viagem a Londres: "Sua carta alvoroçou-me. A partida de Londres é uma aproximaçã e bem grande. Sabê-lo em sua casa da Rua de Alexandre Herculano é om

se o Atlântico se estreitasse e pudéssemos dialogar de uma costa para utra"

(CA-JL, 11/09/1919,2:133). Da mesma forma, ao olhar um mapa do Rio'

(9)

loc~ a rua onde Capistrano vivia, João Lúcio comentou: "Em uma planta dogfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAR io , que trouxe meu filho, vi o morro da Glória, e a Rua D. Luísa. Pareceu-~e ficarmos mais perto agora. Como não posso ir em pessoa, subo com a VIsta as alturas" GL-CA, 03/03/1922, 3:241).

O exercício de trocar cartas também favorece a reflexão sobre o af~:ame~to. Em seu texto sobre a correspondência de Capistrano com João LUClO, Ricardo Salles argumenta que o tom reflexivo e íntimo observado entre os missivistas decorreria, justamente, da distância espacial entre eles. O autor indaga se existiria, entre João Lúcio e Capistrano, uma "distância protetora" capaz de estimular a intimidade entre ambos, maior que aquela encontrada nas cartas enviadas pelo último a outros destinatários, espacialmente mais próximos. 16

O fato é que Capistrano e João Lúcio construíram um vínculo de amizade, com abertura para comentários íntimos sobre si mesmos e opiniões mordazes a respeito de terceiros. Observo, por exemplo, que em nenhum moment~ da correspondência entre Capistrano e João Lúcio publicada, se afirma a necessidade de segredo entre ambos (o que ocorre, por exemplo, na correspondência com Mário de Alenear, a quem Capistrano pede que rasgue algumas cartas após ler) e a simples distância espacial entre os missivistas não autoriza essa despreocupação com a discrição do outro, uma vez que João Lúcio também se correspondia com outros brasileiros, alguns dos quais amigos, c~rr~~ondent~ e. ~vos da crítica de Capistrano. A amizade parece garantir a discnçao dos rrussrvistas em relação a assuntos que dizem respeito a cada um (e não tanto sobre assuntos que dizem respeito a terceiros). Em suma, não parece ser a distância que protege e estimula a intimidade, mas o vínculo de afeto, o gosto de conversar e conviver através das cartas, construído entre os missivistas. A relação epistolar entre Capistrano e João Lúcio permitia a ambos ~vagar sobre o .ócio, as doenças, a velhice, a solidão e a morte. Após ler um discurso de Rui Barbosa, onde este dizia "sentir a velhice só quando não trabalha", João Lúcio afirmou: "a mim me sucede o mesmo, e a vida ociosa que levo agora me está pesando já" GL-CA, 19/08/1919,3:231). Diante de problemas familiares, João Lúcio pensava na possibilidade de reclusão e dizia:

~s antigos tinham por costume, chegando àvelhice, despedir-se do mundo, dISpo: dos beps e recolher-se a um claustro (...) Eu penso que gostaria de fazer ISSO(...) E um modo de presenciar como os descendentes se arranjam na vida, e o cuidado do que isto há de seréem mim um espinho constante. Oh! A ausência de preocupações, os livros, a tarefa diária de escrever ... e ainda algumas rezas! O tempo está de terminar. Talvez seja isso. QL-CA, 02/09/ 1921, 3:237-238)

116

Mas, depois da morte da esposa, em 1922, e do casamento do último filho solteiro, em 1923, parece lamentar: "eu me sinto cada vez mais só" GL-CA, 06/03/1923, 3:246). Quanto a Capistrano, em 1923 constatou que "os amigos velhos têm desaparecido. Os novos não os compensam" (CA-JL, 16/04/1923, 2:273). Contudo, após uma mudança de endereço, em dezembro de 1923, afirmou: "a nova casa põe-me perto de quase todos os amigos" (CA-JL, 08/12/1923, 2:284) .. Ele havia se mudado para a travessa Honorina, em Botafogo. Era vizinho de João Pandiá Calógeras e Rodolfo Garcia. Durante a vida na casa anterior, toda a sua família se dispersara: a esposa, Maria José, morreu em 1891; o filho Henrique morreu ainda criança; a filha mais velha, Honorina, entrou para o convento em 1911 e nunca mais viu o pai; a filha mais nova, Matilde, casou-se e foi morar no sul de Minas; o filho mais moço, Fernando, morreu em 1918. Restava apenas o filho mais velho, Adriano, casado, pai de três meninas, únicas netas de Capistrano.

O historiador contava o tempo com intimidade - personalizando os dias como dias de santos e de personagens históricos - e certa obsessão: "faltam dois dias para completar dois meses de ausência do R io " (CA-JL, 21/12/1925,2:343). Dizia que sua vida havia sido regida por certos provérbios finlandeses relativos ao tempo: "li há dias uns provérbios finlandeses, que parece terem dirigido minha existência: o tempo está sempre de frente para nós; pressa não é obra de Deus; neste mundo, tempo é a única cousa de que há fartura" (CA-JL, 09/03/1921, 2:197).

A ausência de pressa pela qual pautara sua vida permitira-lhe dedicar muito tempo aos estudos da história e da língua indígena. Uma pesquisa sobre a língua dos bacairis, por exemplo, arrastou-se por 33 anos. Para Capistrano, "quem corre cansa, quem anda alcança" (CA-Afonso Taunay; 03/04/1918, 1:293). Contudo, há momentos em que o autor demonstra certa ansiedade diante do tempo, que não associa à foice de Cronos, mas às asas de Hermes: "o tempo vai tão depressa que lembra, não a foice de Cronos, mas as asas de Hermes. Sem que o sinta, acaba-se o dia, acaba-se a semana, acaba-se o mês e, dado o balanço, só encontro um zero elevado não sei a que potência" (CA-JL, 03/06/1921, 2:214). Ou ainda, quando afirma que: "é sempre assim: não curamos do tempo, o tempo tudo escritura e surpreende-nos com suas contas monstruosas" (CA-JL, 20/10/1923, 2:281). A sensação da passagem rápida do tempo parece estar relacionada, entre outras coisas, à percepção da perda de parentes e amigos e também à

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4.MODOS DE SER, MODOS DE FAZER

"Quando faço qualquer cousa, sinto diante do produto impressão que deve assemelhar-se àda parturiente diante das secundinas: alívio e nojo" (CA-JL, 18/03/ 1918, 2:87).

Conversar é uma atividade importante para o trabalho intelectual. Através das conversações é possível aperfeiçoar as idéias. Até mesmo a inspiração parece depender do encontro de pessoas com que seja possível dialogar, trocar informações, estabelecer debates." Já foi visto que, para Capistrano, muita coisa já estava "morta", por que sobre elas "só conversava com uma pessoa" e esta já não podia lhe responder (CA-JL, 09/03/1918, 2:84). Pelo conteúdo das cartas trocadas, pela quantidade de missivas guardadas e pelo significado que atribuiu a tais escritos, a ponto de tornâ-los públicos, João Lúcio de Azevedo pode ser considerado como um dos interlocutores mais íntimos e constantes de Capistrano. A relação entre eles teria sido caracterizada por uma "interlocução plena"." Mas, além dos assuntos expostos ao longo deste texto, sobre o que conversavam? Que afinidades ou discordâncias cultivaram?

Assim como em outras correspondências mantidas pelo historiador brasileiro, nas cartas aqui analisadas, também se destacam os assuntos relativos ao ofício do historiador, com a especificidade de que, nesse conjunto (mas não somente), os missivistas parecem se relacionar como pares intelectuais. A relação epistolar construída com João Lúcio permite explorar a dinâmica da escrita da história, expressa através de informações sobre a elaboração de projetos; a obtenção de cópias de documentos e a atividade de análise e interpretação dos mesmos; a leitura crítica de outros autores; a escrita de textos; a discussão teórica e metodológica. Enfim, as cartas fornecem indícios fragmentados do modo como o autor realizava seu trabalho, cujo produto costumava ser um texto, que precisava ser dado a ler. Através desses indícios, supõe-se que seja possível detectar e compreender alguns aspectos relativos

àconstrução da identidade de Capistrano de Abreu como um intelectual. A proposta é relacionar os modos degfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAJ a z e r a história aos modos de s e r um historiador.

Épreciso deixar claro que esses modos de ser e de fazer variam com o tempo. A prática do ofício e o processo de construção identitária - por meio da qual o sujeito elabora representações sobre si mesmo e sobre os outros - possui movimento, cujo ritmo pode ser percebido na

118

correspondência. Essa noção de identidade não supõe a existência de uma coerência interna do ser ou de uma unidade do "eu" imutável, a partir da qual seria possível sustentar, por exemplo, uma "ilusão biográfica". Supõe-se que o exercício de escrever cartas - um exercício pessoal cujo resultado é um tipo de texto feito para ser submetido ao olhar do outro - permite explorar uma diversidade de "eus" possíveis.

4.1 O c u l d e s a c como ideal

"(...) variam muito nossos ideais. O meu seria um C III d e s a c , beco sem saída; sem netos, já que tive a infelicidade de ter filhos, sem nome, um perfeito zero na cadeia dos seres. A este ideal não atingi desde o princípio, meus atos vão às vezes contra ele, mas há quantos séculos já não escreveu o poeta: v id e o m e lio r a , etc.?" (CA-MA, 20/01/1910, 1:220).

Alguns autores interpretam o período da troca epistolar com João Lúcio de Azevedo como tendo sido marcado pela amargura e pelo "declínio físico e intelectual" de Capistrano. A fase dos sessenta anos seria também um momento propício para a reavaliação da vida, daí o tom memorialístico identificado em algumas missivas. De fato, após a triste morte do filho Fernando, em 1918, a década de vinte trouxe alguns dissabores para Capistrano relativos a problemas constantes de saúde; às dificuldades para escrever e publicar seus próprios textos e os documentos que queria divulgar. Também foi um período em que recebeu algumas críticas públicas, teve seu nome esquecido por outros intelectuais e foi desconsiderado para a realização de projetos. Contudo o trecho citado na epígrafe é de 1910 - pouco tempo após o historiador publicar seu principal livro C a p iiu lo s d e h is tó r ic a c o lo n ia l,

que é de 1907 -, momento em que Capistrano já lamentava não ter u m

n o m e , afirmando ser um "perfeito zero na cadeia dos seres".

Para tentar compreender a perspectiva de Capistrano diante de si mesmo e do seu próprio trabalho, seria importante cruzar informações obtidas de um conjunto maior de missivas e correspondentes, cobrindo um período mais amplo, uma vez que, supostamente, essa perspectiva varia com o tempo ou, dentro de um mesmo momento, pode variar conforme o destinatário. Porém o objetivo aqui é entender o ponto de vista de Capistrano ao longo da relação epistolar com João Lúcio (1916-1927). Para atingir essa meta, a opção foi localizar nas missivas as referências ao estado de ânimo do historiador sobre seu trabalho. A leitura preliminar da correspondência

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indicou que há, pelo menos, três dimensões relativas ao ofício que são interessantes para o que está sendo proposto. São elas: a pesquisa, a leitura e a escrita.

Capistrano era um leitor voraz. Lia por prazer e por dever de ofício, sendo que um prazer maior era passar livros a alguém. Certa vez comentou:

(...) não me sinto bem quando não posso passar qualquer livro a outrem. Livros alemães, entre meus amigos, só lêem Said, Tasso F ragoso, Calógeras e Carlos Werneck este seria capaz de ler se não andasse em concurso, Said está pegado com asgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBARe g ra s d e S ã o B e n to que o padre Nunes remeteu, Calógeras paira em Petrópolis e Tasso ainda não devolveu o W a sh illg to ll e acaba de perder a sogra. Assim faço de barbeiro do rei Midas, sem ter a quem passar o segredo. (CA-JL, 02-03/04/1927, 2:376)

A solitária atividade de leitura promove conversas, desde que os livros possam ser compartilhados. Oprazer de "passar" livros a outras pessoas parece indicar certo empenho para provocar diálogos. Épossível dizer que Capistrano era um conversador. Nas cartas, gostava de contar c a u sa s

,

falar da vida alheia

,

comentar ditos e desditos. Há também algumas piadas, ditados e provérbios, que ajudam a perceber o estado de espírito ou o humor do missivista. Conversava sobre política, revelando certa intimidade com algumas figuras ~úblicas. Também tecia comentários sobre outros intelectuais, sobretudo aqueles ligados ao mundo da pesquisa histórica, dos arquivos, das bibliotecas, dos institutos. Freqüentemente demandava respostas. Fazia pedidos, perguntas e observações sobre acontecimentos ou personagens históricos. Às vezes, deixava escapar alguma coisa mais íntima sobre si mesmo.

Supostamente, as referências ao modo de ser podem ser de dois tipos: diretas ou indiretas. As diretas são aquelas em que o autor afirma de modo explícito as características de sua personalidade, seus gostos, seus projetos e sonhos. As indiretas são aquelas que se dão a ver quando Capistrano se refere ao seu trabalho ou ao modo de realizá-lo, assim como, quando faz comentários sobre outras pessoas, revelando opiniões e também preconceitos. Em hipótese, as referências aos modos de ser aparecem ligadas, sobretudo, às referências aos modos de fazer.

A epígrafe citada mostra que, ao menos em determinado momento de sua vida, Capistrano considerou que seu ideal era um m / d e s a c , um beco

em aída, alcançado pela ausência de descendência e pela ausência de nome. P de- e upor que ele considera-se o sangue e o nome como importantes para a perpetuação de sua memória. Esse modo de conceber a própria exi tência parece ter se acentuado ao longo dos anos, culminando com a

referência a si mesmo como um "João Ninguém", presente na assinatura de

algumas cartas. . . .DCBA " N " "

Capistrano começou a utilizar a assinatura Joao ~lllgue~ por volta de 1925, repetindo-a, esporadicamente e de modos variados, ate 192!: "D J N N' '" "JN" "J Ninguém" "João Ninguém da Ac. de (A)dao

r. oao lllguem, .,' '. .

e (E)va" e "Inútil João Ninguém". Lembro que Capistrano nunca assl~ava as obras que publicava como "João Ninguém". Apenas as cartas escnt.as em determinado momento de sua vida, enviadas a um número restnto de destinatários, eram assinadas dessa forma, que, evidentemente, não visava à ocultação. Esse procedimento parece querer passar uma mensagem. Capistrano identificava-se perante determinado.s ~orresponden:es - ~alvez aqueles que considerasse, além de pares e/ou discípulos, os mais arrugos -através de uma assinatura que depreciava a ele mesmo, remetendo a algo indeterminado. Porém o uso de cognomes (prosônimos) para indicar desdém tanto pode servir para zombar ou desprezar, quanto ?ara faz~r .humor. N

Não se pode esquecer, por exemplo, que CaplstranO dizia ter aversao aos títulos bacharelescos - valorizados como indícios de "ser alguém", em sua época. Escrevia que: "( ) de doutor ou bacharel nunc~ tive nada e cad~ vez ando mais apartado. ( ) No Ceará fui chamado e militas vezes chamei: 'seu horne'" (CA-JL, 14/09/1916, 2:17) .. Diante de epitetos com~ m e s tr e ou

d o u to r , reagia como na carta a Guilherme Studart: "se ~s ,meu aml~o,

peço-te poupes os epipeço-tetos. Se soubesses como os achamos ridiculos aqUl e como aproveitarão para dar-me um trote ..." (CA-GS, 02<01~1906, 1:172). . Mas assinar como "João Ninguém" parece indicar um pouco mais do que uma aversão a epitetos. Afinal, um "João Ninguém" não é a?er:a: um desqualificado. E um ser sem nome. Para tentar compreender o slgmflcado atribuído por Capistrano pode ser útil investigar o quê, nos m o d o s d e s e r de Capistrano, pode sugerir a idéia de n ã o s e r , expressa pelo co?nome "João Ninguém". Pode-se supor que essa idéia de n ã ~ s e r - q~e equivale a s e rum "João Ninguém", u m q u a lq u e r , u m n a d a - esteja. relaclOnada aos. m o d o s d e

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e r no caso os modos de realizar, ou não, aquilo que era planejado.

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Já vimos que Capistrano lia muito e gostava de conversar. Porem, a várias referências nas cartas àperda da memória e àdificuldade para escrever. Em carta de 24 de janeiro de 1917, Capistrano dizia que sua memória havia virado "cordão de areia" (CA-JL, 24/01/1927, 2:26). Em março do mesmo ano afirmava: "Comecei meu encantado estudo sobre as moedas, mas estou vendo que não sou mais capaz de escrever; ler posso indefinidam~nte, embora pouco guarde na memória" (CA-JL, 19/03/ ~91!, 2;37). Lendo milito; ~erden?o a memória e escrevendo pouco. As referenclas a perda da memona, assim

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como à dificuldade de escrever são freqüentes na correspondência." Contudo o ânimo para a leitura não parece ter diminuído."

Em tese, ler e pesquisar assemelham-se a atividades abertas, que tendem a ser inesgotáveis. O espaço da leitura e da pesquisa pode ser comparado ao que Maurice Blanchot definiu como "espaço literário", caracterizado como sendo o lugar do incessante, do interminável, do infinito, do atemporal. Contrário ao "espaço literário" estaria o que Blanchot identifica como o "curso do mundo": lugar do trabalho, da finitude, do tempo. Pensando sobre o caso de Capistrano, pode-se propor que a atividade de escrita seja vista como parte do "curso do mundo": onde a leitura e a pesquisa devem ser interrompidas para que o livro possa se concretizar através do ato de escrever."

A atitude de Capistrano frente à escrita da história parece ter sido guiada pela idéia de que qualquer escolha equivaleria a um empobrecimento. Para esse historiador, sempre parecia faltar algum documento. Escrevia: "no Brasil nós não precisamos de história, precisamos de documentos" (CA-JL, 09/07/1920, 2:165).

Para compreender a construção da identidade de Capistrano de Abreu como historiador é necessário considerar o desenvolvimento da moderna concepção de história no Brasil, sabendo que essa concepção supõe a existência ou a invenção de um tipo específico de intelectual, um especialista, teoricamente capaz de abandonar a pretensão de atribuir um significado ético e pedagógico à escrita da história (característica da concepção clássica), passando a buscar um ponto eqüidistante dos diversos princípios, valores e padrões existentes; renunciando a adotar qualquer um deles em troca da obtenção de um acesso mais objetivo e imparcial à realidade." Além disso, deve-se considerar a existência de uma tensão entre a busca de objetividade e a exigência de posicionamento intelectual que, na I República relacionava-se, ao menos em parte, à chamada "questão nacional". Capistrano, que iniciou sua carreira intelectual ainda no Império, viveu a demanda por uma (re)escrita da história do Brasil do ponto de vista de um novo regime político. Cultivando o ideal moderno de objetividade" e distanciamento, conquistou espaço como uma autoridade no estudo da história pátria, tendo seu nome freqüentemente lembrado como aquele que poderia escrevê-Ia.

De certa forma, ogfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAb e c o s e m s a íd a ao qual, às vezes, se conduzia, impediu a realização - ansiosamente esperada por seus pares - do projeto de escrever a história do Brasil. Esse projeto nascera, segundo Capistrano, ainda no Ceará." Era um de seus planos mais antigos. Capistrano considerava que "a História do Brasil dá a idéia de uma casa edificada na areia. E uma pessoa encostar-se numa parede, por mais reforçada que pareça, e lá vem

abaixo toda a grampiola" (CA-JL, 24-31/06/1920, 2:164). Daí a associação da escrita da história à construção de um edifício com bases sólidas. Para tanto, era preciso ter documentos e "gente que saiba aonde tem o nariz"

(CA-JL, 09/07/1920, 2:165). .

Já no Rio, encontrou a obra de Varnhagen, u~ paradig~a par~ a escrita da história do Brasil desde o século XIX. Daniel Mesquita Pereira constrói a imagem de Varnhagen como uma estátua - situada em um pedestal _ em cujos ombros Capistrano sobe para contemplar o. s~nho de escrever uma nova história do Brasil. Mas, longe de querer imitar Varnhagen, Capistrano proporia um diálog~ crítico, por ve~es, t~ns~, a partir do qual poderia construir um espaço propno para .sua hlston~.

Varnhagen foi criticado por Capistrano d~v.ldo ao seu m~do d~ tratar a documentação. Também foram duras as cnticas ao seu estilo e a ausência de enredo, de uma narrativa capaz de organizar sua obra. No necrológio do Visconde de Porto Seguro, escreveu:

Ele poderia escavar documentos, demonstrar-lhes a autenticidade, solver enigmas, desvendar mistérios, nada deixar que fazer a s e u s sucessores no terreno dos fatos: compreender, porém, tais fatos em suas origens, e.m sua ligação com fatos mais amplos e radicais d; que dimanam; gen~~h~r as ações e formular-lhes teoria; representa-los com~ consequenCl~s e demonstração de duas ou três lei basilares, não conseguiu nem consegui-lo-ia. Fa-lo-á alguém? Esperamos que sim. Esperemos que alguém, iniciado no movimento de pensar contemporâneo, conhecedor dos métodos novos e dos instrumentos poderosos que a ciência põeàdisposição des e u sadeptos, eleve o edifício, cujos elementos reuniu o Visconde Porto Seguro,"

Depois de Varnhagen, Capistrano teve outros encontr?s. ~ão e~tre um historiador iniciante e seu ídolo a ser superado, mas entre 19uaiS. Assim, em 1917, é possível afirmar: "como ficam jocosas as páginas de Varnhagen depois do que nós sabemos!" (CA-JL, 20/0111917, 2:30).

,C !

encontro Nde Capistrano com João Lúcio promoveu, em ambos, uma sene de reflexoes sobre o próprio fazer, que incluíam comparações co:n o fazer do outro. Urna comparação interessan;e. e que po~e.ser expl?rad~ e aquela em qu~ aparece a relação entre a pratica do ofício de historiador e os movimentos desenvolvidos em reta e em círculo.

4.2 A reta e o círculo

(13)

Não fica mal a ninguém ser emendado pelo Mestre. Estou persuadido que, continuando a leitura, V. fará muitos mais reparos, e certamente fundados. Mas, para ficar obra a seu gosto, seria necessário tornar 25 anos atrás e escrevê-Ia novamente. Não me resta vida nem teria inclinação para isso. Não me apraz caminhar em circunferência e voltar sempre ao ponto de partida; suporto a espiral, mas prefiro ainda a linha reta. Q"L-CA, 17/05/1925, 3:251)

Capistrano estava sempre voltando ao ponto de partida. A obra parecia nunca estar "a seu gosto". No sentido atribuído por João Lúcio, caminhar em linha reta equivaleria a concluir o trabalho reconhecendo seus defeitos, admitindo a necessidade de reparos, a incompletude de qualquer história e, conformando-se com isso, seguir adiante. Diante de infinitas possibilidades, parece haver duas atitudes a tomar: ir em frente - seguindo a reta - ou retomar periodicamente ao ponto de partida, andando em círculo.

João Lúcio optou pela reta. Quanto a Capistrano, o reconhecimento da

impossibilidade de completar satisfatoriamente qualquer história não parece ter-lhe estimulado a ir em frente. Assim, ele teria optado pelo círculo. Para

ele, sempre faltava um documento, tornando-se necessário retornar

periodicamente ao mesmo ponto, a fim de tentar corrigi-lo. Daí a

impossibilidade de contentar-se com qualquer conclusão.

Uma possível hipótese sobre o uso da assinatura "João Ninguém" por João Capistrano de Abreu pode ser construída a partir da idéia de que esse historiador sentia-se como umgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAle ito r /p e s q u is a d o r e r r a n te /? Suas leituras tendiam ao infinito e sua necessidade de pesquisar, de buscar conhecer documentos, parece ter sido insaciável. Qualquer tentativa de realização

através da escrita da história conduziria, necessariamente, ao erro,

considerando que "exprimir-se é sempre errar"." Esse impasse provocado pelo C a p is tr a n o le ito r /p e s q u is a d o r teria conduzido o C a p is tr a n o e s c r ito r

à

imobilidade e à inconclusão, o que era alimentado pela crença - expressa

em algumas cartas - na inutilidade da existência e de toda ação. Em carta a Paulo Prado, por exemplo, Capistrano alertou: "(...) não esquecer as palavras

de Goethe no W ilh e lm M e iste r: obrar é fácil, pensar é difícil, obrar segundo

seu pensamento ainda é mais difícil" (CA-PP, 06/10/1922, 2:419).

Para concluir este trabalho, que está longe de poder e querer ser conclusivo, lembro algumas palavras de Pernando Pessoa (1888-1935) _ contemporâneo de Capistrano - para quem:

Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensamos em fazer. (...) Como invejo os que escrevem romances, que os começam e os fazem, e os acabam! Sei imaginá-Ios, capítulo a capítulo, por vezes com as

124

frases do diálogo e as que estão entre o diálogo, mas não saberia dizer no papel esses sonhos de escrever."

Para Capistrano, construir um livro pretensamente fechado, como o da história de uma nação, tornou-se impossível. Só foi suportável elaborar os capítulos dessa história, ficando apenas o sonho de escrever a "história do Brasil".

l'OTAS

Este artigo é fruto da pesquisa que venho desenvolvendo na Universidade Federal Fluminense, sob a orientação daProfs.Dr-. Angela de Castro Gomes, desde março de 2~2. ~ tema geral do estudo é a construção da memória sobre Capistrano de Abreu e de sua Identidade como historiador. Sua correspondência é uma das fontes principais. O trabalho apresentado é o resultado de uma primeira leitura dessa correspondência, assim como das questões suscitadas ao longo do curso S u b je tiv id a d e e S o c ie d a d e 1 /0 C llltllr a B r a s ile ir a , ministrado pelo Prof. Dr. Ricardo Benzaquen de Araújo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, no 12

semestre de 2003. Trata-se de uma abordagem inicial, sujeita a revisões futuras.

1Cf. OCT ÁVIO FllHO, Rodrigo. A vida de Capistrano de Abreu. Aula inaugural do

Curso Capistrano de Abreu, proferida no IHGB, 02/0:/1953; ~ v is ta d ~ In s tu u to H is tó r ic o e G e o g r á fic o B r a s ile ir o ,voL221, p.49, out.z'dez, 1953; LEAO, Múcio. Capistrano de Abreu e a cultura nacional. Conferência pronunciada no IHGB, em 30/09/1953. R e v is ta d o

IH G B , voL221, p.1l8, out.Zdez. 1953. .,

2o-IARTIER, Roger (dir.).L a c o r r e s p o n d a n c e :les usages de Ia lettre au XIXe siêcle. S.1.:

Fayard, 1991, p.9-10. . . A' •

) Ver, por exemplo: GOMES, Angela de Castro. O ministro e sua co:r~spondencl~: ~r~J~to político e sociabilidade intelectual. In: __ (org.).C a p a 1 /~ m a :o ~str~, e seu mII~steno. Rio de Janeiro: FGV, 2000, p.13-47; HEYMANN, Luciana Quillet. Quem nao tem padrinho morre pagão": fragmentos de um discurso sobre o poder. E s tu d o s H is tó r ic o s ,n.24,

p.323-349, 1999. , .DCBA N N

4o-IAR TIER, Roger. A h is tó r iacultural: entre praticas e representaçoes. Traduçao: Mana Manuela Galhardo. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990, p.16-7.

5DAUPHIN, Cécile e POUBLAN, Daniele. Maneiras de escrever, maneiras de ler: cartas

familiares no século XIX. In: BASTOS, Maria Helena Câmara et alii (orgs.).D e s tin o s d a s le tr a s :história, educação e escrita epistolar, Passo Fundo: UPF, 2002, p. 76 e 83.

6Sobre João Lúcio de Azevedo v~,~ODRIGUES, ~t~nio Edmilson~~.

c:

ac~ento

do Brasil e de Portugal: perfil Intelectual do historiador luso-brasileiro Joao Lúcio de Azevedo. A c e r v o - Revista do Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, voL 12, n.1/2, p.37-66, jan./dez. 1999. " .

7Sobre a correspondência como "escrita de si", ver FOUCAULT, MicheL A escnta d~ si.

In: __ o O q u e éI I I J / a u to r ? Tradução: Antônio Fernando Cascais ~ Eduardo Cordeiro,

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