A INCONSTITUCIONALIDADE DA COISA JULGADA
E OS MECANISMOS DE CONTROLE
MESTRADO EM DIREITO
Dissertação apresentada à Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, como exigência
parcial para obtenção do título de
MESTRE no Programa de Estudos
Pós-Graduados em Direito Constitucional, sob
a orientação da Professora Doutora Maria
Garcia.
BANCA EXAMINADORA
RESUMO
O presente trabalho destina-se à análise teórica e prática da coisa julgada quando a mesma se confronta com as normas e princípios da Constituição Federal, com enfoque na possibilidade de sua modificação, flexibilização, relativização, desconstituição ou o seu não cumprimento quando a decisão judicial que não cabe mais recurso afronta a Carta Magna.
Considerar-se-á a ocorrência da “inconstitucionalidade da coisa julgada” sempre que, da decisão judicial que põe fim ao processo, não caiba mais recurso, porém for contrária à direito, garantia ou princípio constitucional, injusta, imoral, ilegal, contrária à realidade dos fatos, fundamentada em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo controle abstrato de constitucionalidade e em afronta direta à própria Constituição.
Verificar-se-á o confronto existente entre os defensores do caráter absoluto da coisa julgada em razão da segurança jurídica e os defensores da relativização do instituto, em razão da justiça e da supremacia da Constituição.
ABSTRACT
This paper aims at the theoretical and practical analysis of res judicata when it confronts the norms and principles of the Federal Constitution, with a focus on the possibility of its modification, flexibilization, relativization, deconstitution or its non compliance when the juridical decision that can no longer be appealed affronts the Magna Charta.
The “unconstitutionality of res judicata” will be considered to exist whenever the court decision that terminates the process can no longer be appealed, but is nevertheless contrary to law, constitutional guarantee or principle, unfair, immoral, illegal, contrary to the reality of the facts, based on a law that was later declared unconstitutional by the abstract control of constitutionality and directly contrary to the Constitution itself.
The confrontation existing between the defenders of the absolute character of res judicata will be verified vis-à-vis juridical security, and that of the defenders of the relativization of the institute, vis-à-vis the justice and supremacy of the Constitution.
DEDICATÓRIA
Para meus pais Milton Macedo e Maria Luiza Puppin Macedo, pelo eterno e incondicional apoio em todos os momentos da minha vida.
AGRADECIMENTOS
À professora Maria Garcia, exemplo de caráter e dedicação acadêmica, pela acolhida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pela segura e criteriosa orientação e pelas lições obtidas nos bancos da pós-graduação que jamais esquecerei.
Ao professor Celso Ribeiro Bastos (in memoriam) pela acolhida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e início da orientação do presente trabalho, cujo precoce falecimento enorme pesar causou a toda a comunidade acadêmica, no dia em que esperávamos por mais uma de suas brilhantes aulas.
Aos professores Marcio Pugliese e Willis Santiago Guerra Filho cuja amizade e ensinamentos serão para sempre guardados.
Aos demais professores e colegas da pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo pela enriquecedora convivência.
Ao amigo e colega Héctor Valverde Santana pelo apoio e incentivo ao ingresso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
À equipe do escritório Puppin & Noronha Advogados Associados pela dedicação e imprescindível auxílio.
À Juliana pelo auxílio na organização do trabalho.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...01
I – A CONSTITUIÇÃO E A COISA JULGADA...05
1.1. A Constituição...05
1.1.1. Conceito...05
1.1.2. Abrangência, Eficácia e Legitimidade...14
1.2. A Coisa Julgada...20
1.2.1. Conceito...20
1.2.2. Efeitos...35
1.2.2.1. Coisa Julgada Formal e Material...35
1.2.2.2. Limites Objetivo e Subjetivo da Coisa Julgada...46
II – PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA COISA JULGADA...52
2.1. Princípio da Supremacia da Constituição...60
2.2. Princípio da Segurança Jurídica...78
2.3. Princípio da Intangibilidade da Coisa Julgada...83
III – DA SENTENÇA...107
3.1. Conceito e Natureza Jurídica...107
3.2. Sentenças - Transitadas em Julgado - Injustas, Contrárias à Moralidade, à Legalidade, à Realidade dos Fatos e à Constituição - e Fundamentadas em Leis Posteriormente Declaradas Inconstitucionais pelo Controle Abstrato de Constitucionalidade...117
IV – DA INCONSTITUCIONALIDADE DA COISA JULGADA...123
V - MECANISMOS DE CONTROLE DA COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL...146
5.1. Ação Rescisória...146
5.2. Querela Nulitatis...167
5.3.Efeitos da Declaração de Inconstitucionalidade no Controle Abstrato...174
5.4. Embargos à Execução de Título Executivo Judicial em aplicação ou interpretação tidas por incompatíveis com a Constituição Federal...183
O instituto da coisa julgada (res iudicada) sempre foi objeto de análise e estudo, com grande influência ocidental do Direito Romano.
A dogmática clássica sempre alçou a coisa julgada ao grau de intocabilidade, asseverando que a segurança jurídica e a paz social, como o objetivo primordial da função jurisdicional, somente seriam alcançadas no momento em que a decisão judicial não pudesse mais ser objeto de qualquer modificação ou questionamento; chegando, inclusive, à utilização corriqueiramente a expressão “manto sagrado” da coisa julgada.
De fato, apesar da importância e necessidade de ser por um ponto final definitivo nas lides levadas à solução do Poder Judiciário, mesmo a doutrina clássica (uníssona no não questionamento do instituto da coisa julgada), quase que contraditoriamente, sempre admitiu a desconstituição da mesma coisa julgada por intermédio de outra ação (ação rescisória).
Assim, após o prazo decadencial para a propositura da ação rescisória ou a sua improcedência, ocorreria o que se chamou de “coisa soberanamente julgada”, tornando-se imutável e absolutamente definitiva a decisão judicial.
Porém, muito recentemente, o instituto da coisa julgada vem atravessando um amplo debate doutrinário e jurisprudencial, com um embate entre a seu caráter absoluto e a possibilidade de sua modificação, flexibilização, relativização ou desconstituição, independente de ação rescisória.
Dessa feita, o presente trabalho foi desenvolvido com o escopo de melhor analisar o instituto da coisa julgada, enfocando a possibilidade de sua modificação, flexibilização, relativização, desconstituição ou até o seu não cumprimento, quando verificada a afronta à Constituição Federal nos ditames da decisão judicial, mesmo que já acobertada pela res iudicata, sem prejuízo da proteção conferida à coisa julgada pela própria Constituição em seu artigo 5º, inciso XXXVI.
O choque entre os defensores do caráter absoluto da coisa julgada e a sua relativização ou flexibilização atualmente inflama as discussões na doutrina e nos tribunais, apresentando-se distante a pacificação acerca do tema, bem como a sua solução, não tendo o presente trabalho a pretensão de exaurir o assunto.
Como ponto de partida para a melhor análise do tema, primeiramente será enfocada a própria Constituição, com o seu conceito, abrangência, eficácia e legitimidade, mostrando-se extremamente importante ao tema proposto no presente trabalho, eis que a própria Constituição apresentar-se-á como o âmago de todas as questões a serem levantadas.
O cerne do problema a ser apresentado se mostra quando uma decisão judicial possui vício de inconstitucionalidade, seja de forma ou de conteúdo e, com relação à mesma, ocorreu o trânsito em julgado.
De fato, não se pode olvidar que o Estado, no exercício de sua função jurisdicional, comete erros ao aplicar a norma objetiva ao caso concreto. Não seria razoável aceitar a idéia de um julgado infalível, soberano e de perfeição absoluta e irreparável.
Efetivamente, é notório o fato de existirem decisões judiciais que põem fim ao processo, com julgamento de mérito, porém decisões injustas, imorais, ilegais, contrarias à realidade dos fatos, fundamentadas em leis posteriormente declaradas inconstitucionais pelo controle abstrato de constitucionalidade e até mesmo em afronta direta à própria Constituição; todavia transitadas em julgado.
Considerar-se-á a ocorrência da “inconstitucionalidade da coisa julgada” sempre que, da decisão judicial que põe fim ao processo, não caiba mais recurso (ordinário ou extraordinário), porém for contrária à direito, garantia ou princípio constitucional, injusta, imoral, ilegal, contrária à realidade dos fatos, fundamentada em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo controle abstrato de constitucionalidade e em afronta direta à própria Constituição.
sem levar o julgamento ao colegiado, nos termos do artigo 557, do Código de Processo Civil, com a redação que lhe foi conferida pela Lei Federal nº 9.756, de 17 de dezembro de 1998.
Consoante explicitado, o ponto fulcral da problemática se refere, destarte, à inconstitucionalidade da decisão transitada em julgado, abordando as diversas situações em que a mesma ocorre, inclusive com a análise de casos concretos reais que estão formando a jurisprudência pátria, além do entendimento doutrinário acerca do tema.
Longe de ser um tema pacífico ou de conclusões triviais, o tema se revela instigante e complexo, haja vista que se contrapõem dogmas, princípios e paradigmas, sem grandes debates outrora.
Tão importante quanto a identificação de vício de inconstitucionalidade na decisão que transitou em julgado se mostra a identificação dos mecanismos de controle a serem utilizados em tal situação, visando, primordialmente, a defesa do texto constitucional.
I - A CONSTITUIÇÃO E A COISA JULGADA
1.1. A Constituição
1.1.1. Conceito
O termo “constituição”, em sua acepção popular, pode ser entendido pelo modo como se constitui qualquer coisa1. Gramaticalmente, é substantivo afeto ao verbo “constituir”, ou seja, significa dizer organização, formação2 3. Advindo do latim constitutione, hodiernamente, o termo “constituição” assume, definitivamente, o significado que conhecemos, com grafia influenciada pelo idioma francês.
Celso Bastos explica que não é uma tarefa fácil oferecer um conceito de “Constituição”, posto que, como um poliedro, há diversos ângulos pelos quais a Constituição pode ser encarada, não havendo possibilidade de se oferecer um conceito único, em razão da ótica a partir da qual se vai visualiza-la.4
1 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 15. ed. São Paulo: Atlas, 2004. p. 38. 2 CENEVIVA, Walter. Direito Constitucional Brasileiro. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 13. 3 “[Do lat. constitutione.]
S. f.
1. Ato de constituir, de estabelecer, de firmar.
2. Modo pelo qual se constitui uma coisa, um ser vivo, um grupo de pessoas; organização, formação. 3. Lei fundamental e suprema dum Estado, que contém normas respeitantes à formação dos poderes públicos, forma de governo, distribuição de competências, direitos e deveres dos cidadãos, etc.; carta constitucional, carta magna.
4. Conjunto de normas reguladoras de uma instituição, corporação, etc.; estatuto.
[Sin., nas acepç. 3 e 4: carta.]”. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p. 460.
4 BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Celso Bastos Editora, 2002. p.
Noutro passo, o termo “Constituição”, na acepção que será utilizada no presente trabalho, agora como designação própria, consubstancia-se na nomenclatura da lei fundamental de um Estado. O atual sentido jurídico-político do termo, no entanto, não exsurgiu sem infindáveis debates doutrinários, desde a Idade Média.
Adentrando na conceituação técnico-jurídica da palavra “constituição”, aquela que a define como tal, dispomos de infindáveis conceitos, traçados por constitucionalistas contemporâneos. Dentre todos, merecem realce as definições de Manoel Gonçalves Ferreira Filho e José Afonso da Silva, pela completeza e objetividade.
O primeiro autor define Constituição como “o conjunto de regras concernentes à forma do Estado, à forma do governo, ao modo de aquisição e exercício do poder, ao estabelecimento de seus órgãos, aos limites de sua ação”5, não se afastando
do conceito traçado por Aurélio Buarque de Holanda, em seu dicionário da língua portuguesa6.
Para José Afonso da Silva,
“a constituição do Estado, considerada sua lei fundamental, seria, então, a organização dos seus elementos essenciais: um sistema de normas jurídicas, escritas ou costumeiras, que regula a forma do Estado, a forma de seu governo, o modo de aquisição e o exercício do poder, o estabelecimento de seus órgãos, os limites de sua ação, os direitos fundamentais do homem e as suas respectivas garantias”7.
5 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. 29. ed. São Paulo: Saraiva,
2002. p. 11.
6 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira. p. 460.
7 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 15. ed. São Paulo: Malheiros, 1998, p.
Dissecando os conceitos supratranscritos, tem-se que a Constituição de um Estado é o espelho de sua essência. É um sistema jurídico-normativo, escrito ou não, rígido ou flexível - com suas variações - ao qual se confere supremacia nos limites da soberania do Estado em que vige.
Também chamada por Carta, a Constituição de um Estado tem por escopo primordial determinar e organizar os elementos essenciais deste8. Dos mais importantes objetos que lhe são afeitos, cite-se a regulação da forma do Estado e de seu governo, o modo de aquisição e exercício do poder, o estabelecimento de seus órgãos, os limites impostos às suas ações e os direitos e garantias fundamentais do homem.
Vê-se, pois, que é ampla e de incontestável essencialidade a finalidade da lei fundamental de um Estado de direito, marcado pela necessidade de estabelecimento de limites a toda e qualquer ação, seja de pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado. A Constituição pode ser tida como a certidão política de formação de um Estado moderno9, assumindo, assim, o papel de condicionante à própria existência de uma sociedade pretensamente política. Sua substância relaciona-se com o estabelecimento de regras e princípios básicos para a construção política de uma sociedade.
Outrora, Aristóteles já estabelecia a estreita relação entre Constituição e governo, afirmando que “as palavras constituição e governo significam a mesma coisa,
8 Para MANOEL GONÇALVES FERREIRA FILHO é a Constituição “o corpo de regras que definem a
organização fundamental do Estado”. ob. cit. p. 3.
9 Nesse sentido, afirma CELSO RIBEIRO BASTOS que a Constituição é a particular maneira de ser do
visto que o governo é autoridade suprema nos Estados [...] O governo é a ordem estabelecida, na distribuição das magistraturas”10.
O pensamento de Aristóteles, não obstante contraposto ao de Platão, demonstra a concepção idealista que a Constituição assumia na Grécia Antiga. No entanto, é coetâneo o sentido de Constituição como imposição legal, em que o poder público vê-se compelido a guardar observância ao quanto determinado pela Constituição, a medida que é essa o nascedouro dos mecanismos que garantem aos cidadãos a subordinação do poder à legalidade. Nesse sentido, Constituição é expressão da relação entre poder e cidadão, em que este é o sujeito daquele.
Em nossa Carta Magna de 1988, já no parágrafo único, do artigo inicial, fica expressamente demarcada a titularidade do poder dentro do Estado democrático de direito em que vivemos, ao declamar que “todo o poder emana do povo”11.
Em referência às lições de Hobbes e Locke, Manoel Gonçalves Ferreira Filho12 ressalta que o poder se origina da vontade dos homens e tem um diploma por estes fixado. Tal estatuto se impõe aos governantes e tem por escopo assegurar a paz (Hobbes) e os direitos naturais (Locke e Rousseau).
O governo se desenvolve dentro daquilo que preleciona a Constituição, aplicando a si próprio o preceito de respeito às instituições e aos órgãos políticos. É o
10 ARISTÓTELES. A Política. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1978. p. 115.
11 “Dos gregos e romanos recebemos ilustrações dos povos. Neles encontramos o conceito de uma livre
constituição, formada de tal modo que todos os cidadãos devam tomar parte nas deliberações e resoluções sobre os assuntos gerais e sobre as leis. Também em nossa época essa é a opinião geral, apenas com a modificação de que isso não é feito diretamente, devido à extensão e à população de nossos Estados, mas indiretamente por meio de representantes da vontade dos cidadãos, que expressam a opinião destes para a resolução de questões públicas - vale dizer, o povo deve ser representado por deputados para a elaboração das leis.” HEGEL, GFW. Filosofia da História. 1999. p. 46.
que se dessume da seguinte passagem de Montesquieu13, em que discorre sobre o conceito de liberdade: “num Estado, isto é, numa associação em que há leis,” o governo atua dentro dos limites que a comunidade firmou como positivo, válido e suficiente.
Não obstante a clara relação entre o poder público e a sociedade, traçada e delimitada pela Constituição, percebe-se, facilmente, pela pragmática, que essa, como documento normativo, não constitui solução para os problemas existentes na ordem social, mas – e por caracterizar-se como fonte deontológica de direitos – pretende obrigar os detentores de funções públicas à observância do estreito compromisso com a existência do Estado enquanto sociedade política, advindo da vontade do povo.
Assim, é característica marcante do pensamento político moderno o desafio de se determinar o conceito de constituição política e as maneiras de efetivá-la no plano prático das ações humanas, na tentativa de impor limites ao ímpeto de quem administra a coisa pública.
No entanto, tal anseio apenas se torna possível se a Constituição advém com respeito e observância aos fatores reais de poder, conforme designação conferida por Ferdinand Lassalle a uma força ativa e eficaz que determina que as leis e instituições jurídicas não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são14. Para ele, “esta é, em síntese, em
essência, a Constituição de um país: a soma dos fatores reais do poder que regem uma nação”15.
13 MONTESQUIEU. O Espírito das Leis. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1973. p. 147.
O exemplo dado pelo mesmo autor para explicar o quanto afirma acerca da essência da constituição merece transcrição ipsis litteris, diante de sua inigualável simplicidade e clareza:
“Podem os meus ouvintes planar no seu quintal uma macieira e segurar no seu tronco um papel que diga: ‘Esta árvore é uma figueira.’ Bastará esse papel para transformar em figueira o que é macieira? Não, naturalmente. E embora conseguissem que seus criados, vizinhos e conhecidos, por uma razão de solidariedade, confirmassem a inscrição existente na árvore de que o pé plantado era uma figueira, a planta continuaria sendo o que realmente era e, quando desse frutos, destruiriam estes a fábula, produzindo maçãs e não figos. Igual acontece com as constituições.
De nada servirá o que se escrever numa folha de papel, se não se justifica pelos fatos reais e efetivos do poder”.
Assim, a conclusão à qual se chega é a de que, somente se a Constituição de um país refletir os chamados “fatores reais de poder”, poderá prosperar como diploma normativo legítimo, eficaz e perene. Se assim for, a Constituição será efetiva, respeitada e cumprida, sem possibilidade de qualquer afronta aos seus mandamentos.
Noutro passo, em diâmetro oposto ao pensamento de Lassalle, Konrad Hesse desenvolve o entendimento de que, contrapondo-se os fatores reais de poder ao conteúdo da Constituição, esta nem sempre sucumbirá. Isso, porque – defende – o diploma constitucional não se limita a um pedaço de papel, como afirma Lassalle, mas há de se observar, outrossim, o que chama de vontade da Constituição. Enxerga, assim, a existência de uma “constituição real” e de uma “constituição jurídica”, em uma relação onde aquela nem sempre prosperará16.
Na linha de pensamento de Locke17, a Constituição seria o resultado da elaboração de um estatuto formal, garantidor do livre exercício das capacidades do ser humano, como também do uso da propriedade – em seu entendimento: vida, liberdade e bens. Para ele, o sistema normativo apenas deve ratificar aquilo que é determinado pela comunidade, assim como já existe. Em última análise, é a sociedade quem seria detentora do poder político, porquanto possuidora da legítima soberania para instituir e destituir poderes, considerando, sempre, o interesse público e o bem comum.
Dessa feita, após infindáveis contendas entre súditos e príncipes, estabeleceu-se o entendimento de que, ao homem, são imprescindíveis as normas regentes da vida em sociedade, fazendo-se instante a existência de um instrumento formal instituído com o propósito de favorecer a relação entre os homens, considerando e respeitando o quanto acordado por estes.
Consoante entendimento de Hegel18, “a constituição política é, em primeiro lugar, a organização do Estado e o processo da sua vida orgânica em relação consigo mesmo. Neste processo distingue o Estado seus elementos no interior de si mesmo e desenvolve-os em existência fixa”.
Destarte, ainda na esteira do pensamento do referido autor, a constituição política constitui forma de se realizar uma instância universal, apta à superação das particularidades. Para chegar a tal conclusão, Hegel considera o novel papel desenvolvido pelo Estado ante a sua relação com os indivíduos, onde este deve assumir a racionalidade capaz de torná-lo instituição apta a superar os conflitos existentes na sociedade. Assim, a Constituição de um Estado é o que determina a liberdade de seu povo. A liberdade pressupõe
17 VINCENT, Andrew. Theories of State. Brasil: Blackwell, 1987. p. 80.
o Estado e este, a existência de uma Constituição19. Identificam-se, pois, Estado e Constituição20.
A citada racionalidade que deve estar presente como imprescindível característica do Estado e, por conseguinte, da sua Constituição, tem por escopo subordinar as necessidades particulares, que, de certa forma, vão de encontro aos interesses sociais. Sendo assim, a Constituição é, pois, também uma auto-limitação do Estado, de forma imprescindível à vida em comunidade. Desse modo, a importância da constituição política reside na sua função organizadora do Estado para a consecução de seu fim precípuo: a liberdade do homem sob o império da lei.
Consoante pensamento de Aristóteles21, o Estado é inerente ao homem. Nesse sentido, assevera que “O homem é naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade, e que aquele que, por instinto, e não porque qualquer circunstância o inibe, deixa de fazer parte de uma cidade, é um ser vil ou superior ao homem.”
Na mesma trilha segue o raciocínio de Hegel, ao introduzir que a finalidade última do homem é viver em sociedade, sob a regência de um Estado, nele constituindo a sua dimensão ética.
De tal sorte, considerando o pensamento de ambos os autores e, como já dito, que o Estado pressupõe a existência de uma Constituição, conclui-se que também sem o sistema normativo e principiológico, denominado Constituição, não há o homem em sua plenitude.
19 HEGEL, GFW. ob. cit. p. 250.
1.1.2. Abrangência, Eficácia e Legitimidade
A Constituição, enquanto diploma normativo fundamental do Estado, tem abrangência plena sobre todo o ordenamento jurídico vigente no território nacional.
Referida abrangência do texto constitucional advém de sua anterioridade e supremacia frente às demais normas jurídicas, consoante a conceituação de constituição traçada por Orban: “é a lei fundamental do Estado, anterior e superior a todas as outras”22.
Conforme se aprofundará em capítulo seqüente, que tratará especificamente da supremacia e, pois, abrangência da Constituição sobre os demais comandos normativos, é certo que esta é norma suprema e fundamental no sistema jurídico de um Estado, haja vista que é nela que se busca a validade das normas hierarquicamente inferiores e a ela subordinadas23.
Kelsen ilustra com clareza a hierarquia existente no ordenamento jurídico de um Estado e o fundamento de validade do sistema normativo deste, fazendo uso, para tanto, da figura geométrica de uma pirâmide. No ápice desta, coloca a norma fundamental do Estado, a Constituição do Estado, perante qual todas as demais - dispostas abaixo do topo até a base da pirâmide - se subordinam. Explica a ilustração afirmando que “uma norma para ser válida é preciso que busque seu fundamento de validade em uma norma superior, e assim por diante, de tal forma que todas as normas cuja validade pode ser reconduzida a uma mesma norma fundamental formam um sistema de normas, uma ordem normativa”24.
22 FERREIRA, Pinto: Curso de Direito Constitucional. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1993. p. 10.
23 MARIA, Regina e FERRARI, Macedo Nery. Efeitos da Declaração de Inconstitucionalidade. 5. ed. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 53.
Vê-se, assim, que, diante da supremacia da norma constitucional, todo o conteúdo legal do ordenamento jurídico coloca-se sob a abrangência da Constituição do Estado.
Nesse sentido, Carlos Sanchez Viamonte, também lançando mão de ilustração geométrica, demonstra, com didática ímpar, essa abrangência da Constituição sobre as demais normas legais, lecionando que “a ordem jurídica, considerada em sua totalidade, apresenta-se em forma de círculos concêntricos e que, em primeiro lugar e como círculo máximo, que circunscreve e compreende toda a vida jurídica da nação, encontra-se a Constituição, que traça a órbita de juridicidade dentro da qual deve conter-se o ordenamento jurídico”25.
Desse modo, utilizando-se da ilustrativa explicação desse autor, conclui-se indiscutível a abrangência do texto constitucional sobre toda a legislação vigente no País, como se fosse representada por circunferências menores, circunscritas, por sua vez, por uma maior, que a todas abarca, impondo-lhes limites.
No entanto, como já referido, a supremacia e abrangência caracterizadoras da Constituição serão objeto de estudo mais aprofundado quando da abordagem acerca do princípio da supremacia constitucional.
Quanto à eficácia da norma constitucional, convém, de início, diferenciá-la da vigência desta, institutos muitas vezes confundidos entre si.
A vigência do texto constitucional é pressuposto de sua eficácia. Requer, tão-só, que a norma esteja em vigor. Já a eficácia perfaz-se no fato de a norma ser observada
por seus destinatários e de ser aplicada coercivamente pelo Poder Público quando violada. A eficácia da norma, segundo Kelsen, quer dizer que ela é “realmente aplicada e obedecida”26.
Assim, nos dizeres de Paulo Dourado de Gusmão, “O direito objetivo pode ter vigência e não ter eficácia, pois pode existir e não ser observado, mas não pode ter eficácia sem ter vigência. Entretanto, a ineficácia não afeta a vigência”27. Conforme já aludido, a vigência é pressuposto da eficácia e lhe deve anteceder.
Diferentemente do que preleciona parte da doutrina estrangeira28, é certo o
entendimento de que todas as normas constitucionais possuem eficácia. Todas, sem exceção, ainda que se possa observar um gradualismo no tocante à produção de seus efeitos jurídicos ou quanto à rigidez de sua intangibilidade29. Segundo lições de José Afonso da Silva, não há norma constitucional privada de eficácia30.
O que se observa, porém, é que algumas normas constitucionais atingem sua plenitude independentemente de quaisquer outras leis (complementares, suplementares ou orgânicas), autorizando-se, por isso, a sua execução imediata. Outras há, que têm a sua aplicação subordinada à edição de comandos normativos outros que lhe completem, determinando o momento de sua incidência, sua extensão, suas condições e limites.
Ruy Barbosa designou tais normas, respectivamente, por disposições ou mandamentos auto-executáveis e disposições ou mandamentos não auto-executáveis. Pontes de Miranda as designou por regras bastantes em si e regras não-bastantes em si. Há, também,
26 FERREIRA, Pinto. ob. cit. p. 26. 27 FERREIRA, Pinto. ob. cit. p. 26.
28 Na doutrina italiana, dentre outros: AZZARITI. Problemas Atuais de Direito Constitucional. Milano,
1951. p. 98.
para Pontes de Miranda, as chamadas regras programáticas, que “são aquelas em que o legislador, constituinte ou não, em vez de editar uma norma de aplicação concreta, apenas traça linhas diretoras, pelas quais se hão de orientar os poderes públicos”31.
Entrementes, o fato de existirem normas constitucionais que não prescindem de regulamentação não enseja concluir que não possuem eficácia. As chamadas normas de eficácia contida – conforme nomenclatura introduzida por José Afonso da Silva – produzem imediatamente os seus efeitos. Prevêem, no entanto, meios normativos que as integram e limitam, o que não afasta a sua eficácia32.
Conclui-se, pois, que não há que se falar em normas constitucionais ineficazes. Desde que vigentes, todas as normas de caráter constitucional possuem eficácia. A ratificar tal ilação, válido transcrever entendimento de Giuseppe Chiarelli: “[...] eficácia imediata tem todas as normas constitucionais. Ainda a norma chamada ‘programática’ é imediatamente eficaz, no sentido de que, no momento em que entra em vigor a Constituição, produz o seu efeito invalidante das leis ordinárias, eventualmente contrastante com seu conteúdo”33.
No que tange à legitimidade, insta ressaltar a diferença existente entre tal instituto e o da legalidade. Esta é característica que deve permear os preceitos jurídicos infraconstitucionais, os quais devem observância formal e material ao texto constitucional34.
30 Em sentido diametralmente oposto é o entendimento de CARLOS MAXIMILIANO, que afirma: “Em
todos esses casos, não logram esses dispositivios vigência plenae, muito menos, eficácia, enquanto não regulamentados”. FERREIRA, Pinto. ob. cit. p. 34.
31 MIRANDA, Pontes de. Comentários à Constituição de 1946. Rio de Janeiro, 1947. p. 85. v. 1 32 SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das Normas Constitucionais. p. 78.
33 CHIARELLI, Giuseppe. Elasticidade das Constituições. Milano, 1952. p. 50.
Noutro passo, a legitimidade é termo afeto à Constituição, caracterizando a correspondência entre os princípios e valores por esta prelecionados e as aspirações da sociedade. Sendo assim, a Constituição não representa uma simples positivação do poder, mas, além disso, uma positivação de valores jurídicos35.
Assim, nas palavras de Hermann Heller, “uma Constituição precisa, para ser Constituição, isto é, algo mais que uma relação factícia e instável de dominação, para valer como ordenação conforme o direito, uma justificação segundo princípios éticos de direito”36.
É certo, ainda - e como conseqüência lógica da caracterização da legitimidade como correspondência de valores - que a legitimidade da Constituição está abarcada pela legitimidade de quem a elabora, o Poder Constituinte, seja ele originário ou derivado.
Isso porque a legitimidade do Poder Constituinte é conferida pelo povo, que, em última análise, é o legítimo detentor do poder estatal, conforme determina o próprio texto constitucional.
Assim porque, ainda fazendo referência aos ensinamentos de Hermann Heller, Carl Schmitt afirma que a legitimidade deve ser atributo de toda Constituição, mas que uma Constituição apenas se legitima, ou seja, só é reconhecida como ordenação jurídica, e não apenas como uma situação de fato, quando se reconhece o poder e a autoridade do Poder Constituinte.
Partindo-se de tais premissas, infere-se absolutamente legítima a nossa Constituição Federal de 1988. Legítima porque elaborada por legitimada Assembléia
Constituinte, perfazendo-se espelho dos anseios do povo, outorgante dos poderes conferidos ao Poder Constituinte.
1.2. A Coisa Julgada
1.2.1. Conceito
Define-se coisa julgada como o mecanismo criado pelo ordenamento jurídico com o intuito de se conferir imutabilidade às decisões judiciais, instituto que teve origem no Direito Romano, anterior mesmo à Lei das Doze Tábuas e que, na legislação pátria, está alçado à categoria de garantia fundamental, com a sua previsão no próprio Artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal Brasileira de 1988.
O objetivo maior da coisa julgada se revela em dar uma solução definitiva aos conflitos levados à solução do Poder Judiciário, evitando-se, assim, a insegurança e incerteza da sociedade, acabando, desta feita, com o prolongamento da discussão acerca da questão objeto da lide e, conseqüentemente, alcançando a pacificação social.
A regra de que a lei não deveria agir duas vezes sobre a mesma relação jurídica com o mesmo objeto surgiu anteriormente à referida Lex Tabularum, a ela chegando por via de conservação consuetudinária. Os romanos identificavam o que se conhece hoje por coisa julgada como res iudicium deducta.
Com fulcro no ius imperi, a coisa julgada é, antes de tudo, uma criação legal que, fundamentalmente, exercita a proibição, a qual afeta o campo de atuação do magistrado, bem como a ação do autor. Dessa feita, obsta as possibilidades de agir e julgar.
“Art. 6º A Lei em vigora terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.
[...]
§3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.”
Já o Código de Processo Civil, Lei Federal nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, no artigo 467, dispõe que a coisa julgada é a “eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário.”
Ademais, o instituto em tela está previsto como garantia constitucional, no artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal de 1988, que, por força do disposto no artigo 60, § 4º, inciso IV, é considerado cláusula pétrea. Os referidos dispositivos encontram-se a encontram-seguir transcritos, in verbis:
“Art. 5º [...]
XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico prefeito e a coisa julgada.”
“Art. 60 [...]
§4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
[...]
A esse respeito, Wilson Leite Corrêa37 afirmou:
“Ora, o direito adquirido, a coisa julgada e o ato jurídico perfeito são garantias previstas no capítulo I do Título II da Constituição Federal, que versa sobre os direitos e garantias individuais, de modo que há limitação material explícita impediente à existência de reforma constitucional que viole tais direitos subjetivos. [...]
Dessa forma, qualquer proposta de emenda constitucional, que tenda a retirar quaisquer dos direitos subjetivos relacionados, padece de vício de inconstitucionalidade material, por ofensa ao art. 60, §4º, da Constituição Federal.”
Corrobora o esposado a afirmação de Adriano Alves Marreiros38, no sentido de que “o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada são protegidos por cláusula pétrea.”
O antecedente do instituto posto à análise é a sentença (ou acórdão), a (o) qual põe fim à controvérsia existente entre os litigantes. Possui força operante de lei, conforme o artigo 468, do Código de Processo Civil, no seguinte teor: “a sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas.”
Dessa feita, a expressão coisa julgada pode ser tomada na acepção de sentença (ou acórdão) contra a (o) qual foram esgotados todos os recursos processuais passíveis de sua desconstituição no mesmo processo. Diz-se da hipótese na qual houve a satisfação da prestação jurisdicional, haja vista que solucionou o litígio, fixando, definitivamente, o direito pelas partes buscado. Sendo assim, à sentença conferiu-se foro de imutabilidade, de modo que não pode mais ser alterada em seu conteúdo, independentemente
37 CORRÊA, Wilson Leite. Constituição, Direito Adquirido, Coisa Julgada e Ato Jurídico Perfeito.
Advocacia Pública. Ano V, edição 7, setembro/99, p. 26.
38 MARREIROS, Adriano Alves. Conceito de Direito Adquirido: cláusula pétrea infraconstitucional.
sob qual pretexto, não abrindo azo, sequer, a eventual consideração acerca da justiça da decisão.
A coisa julgada é tida como um instituto intocável, insuscetível de qualquer discussão. A doutrina clássica afirma, inclusive, que “a sentença que passa em julgado é havida por verdade.”39 Do mesmo modo que na doutrina clássica européia, em que Mattirolo40 explanou que “a autoridade de coisa julgada se funda sobre o princípio res iudicata pro veritate habetur.” Dizia-se, ainda, que a coisa julgada é capaz de transformar o preto em branco (res iudicata nigeum albium facit)41.”
Na mais autorizada doutrina alemã também se define a coisa julgada seguindo-se a mesma linha, como se verifica na obra de Goldschmidt42:
“A significação da força material de coisa julgada reside em seus efeitos de constatação, de tal modo que o juiz está ligado, em todo processo futuro que se promova, à decisão contida na sentença. Isto se expressa com a fórmula segundo a qual o que se reconhece com força material de coisa julgada (firme), não pode controverter-se de novo (com êxito, entenda-se), e o que se desestima com força material de coisa julgada, não se pode voltar (com êxito) a fazer valer.”
E, modernamente, Lent43:
“A coisa julgada torna obrigatória para as partes o conteúdo da decisão, fazendo precluir para elas a possibilidade de obter sua modificação ou invalidação. E de todo inútil contestar depois o quanto tenha sido acertado o reconhecido na sentença, assim como afirmar o quanto tenha sido negado; os juízes dos sucessivos processos são vinculados pelo provimento precedente e não podem dele se afastar. A obrigatoriedade da decisão para as partes é, em suma, garantida por um vínculo que grava os processos futuros.”
39 RAMALHO, Joaquim Ignácio de. Praxe brasileira. São Paulo: Ypiranga, 1869. p. 349.
40 MATTIROLO, Luigi. Trattato di diritto giudiziario civile italiano. 5. ed. Turim: Fratelli Bocca, 1905. p.
14. v. V.
41 COUTURE, Eduardo Juan. Fundamentos do direito processual civil. São Paulo: Saraiva, 1946. p. 329. 42 GOLDSCHMIDT, James. Derecho procesal civil. Barcelona: Labor, trad. esp. de Leonardo Prieto Castro,
1936. p. 387.
43 LENT, Friedrich. Diritto processuale civile tedesco. Nápoles: Morano, trad. ital. de Edoardo F. Ricci,
Também entre os mais modernos processualistas latino-americanos os conceitos supracitados se difundiram, como se verifica na obra de Gozaíni, para qual “a coisa julgada significa dar definitividade à sentença, impedindo que uma mesma situação seja mais uma vez provocada.” 44
Na clássica doutrina de Celso Neves45, “coisa julgada é o efeito definitivo da sentença sobre o mérito da causa que, pondo termo final à controvérsia, faz imutável e vinculativo, para as partes e para os órgãos jurisdicionais, o conteúdo declaratório da decisão judicial.”
Em análise a outros conceitos, confira-se o entendimento de De Plácido e Silva46:
“A coisa julgada pressupõe o julgamento irretratável de uma relação jurídica anteriormente controvertida. Nesta razão, a autoridade res judicata não admite, desde que já foi reconhecida a verdade, a justiça e a certeza a respeito da controvérsia, em virtude da sentença dada. Que venha a mesma questão a ser ventilada, tentando destruir a soberania da sentença, proferida anteriormente, e considera irretratável, por ter passado em julgado.”
No dizer de André Ramos Tavares47, “a coisa julgada é o corolário do princípio da segurança jurídica e estabilidade das relações sociais transportado para o campo judicial.” Nessa mesma linha, Ivo Dantas48: “frente ao Princípio da segurança jurídica, que
44 GOZAÍNI, Osvaldo Alfredo.Teoria general del derecho procesal. Buenos Aires: Ediar, 1996. p. 265. 45 NEVES, Celso. Coisa julgada civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1971. p. 443.
46 SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997. p. 178. 47 TAVARES, André Ramos. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 504.
48 DANTAS, Ivo. Coisa Julgada Inconstitucional: declaração Judicial de Inexistência. Fórum
deve nortear todo sistema jurídico, a coisa julgada representa, sem dúvida, um dos mais importantes princípios constitucionais dirigidos ao processo.”
Celso Ribeiro Bastos49 assim se pronunciou sobre o tema:
“Coisa julgada é a decisão do juiz de recebimento ou de rejeição da demanda da qual não caiba mais recurso.
É a decisão judicial transitada em julgado.
Com efeito, o Poder Judiciário não poderia preencher o seu papel de assegurador da certeza e da segurança jurídica se fosse possível indefinidamente renovarem-se os recursos. É preciso que haja um ponto final, um término da demanda. É a este tipo de decisão que a Constituição assegura a proteção contra a lei. O que isto significa? Significa que não se podem reabrir processos cujas decisões finais já estão revestidas da força de coisa julgada, para efeito de rejulgá-las à luz de um novo direito. A proteção que se dá à coisa julgada é, portanto, um caso particular da proteção mais ampla dispensada ao direito adquirido. Este incorporou-se ao patrimônio de seu titular independentemente do trânsito judicial.
Na coisa julgada, o direito incorpora-se por força da proteção que recebe a imutabilidade da decisão judicial.
[...]
Dois são os traços fundamentais da coisa julgada. Um, a irrecorribilidade a que alude a Lei de Introdução ao Código Civil, ao definir a coisa julgada como a decisão judicial de que já não caiba recurso. Outro, a imutabilidade, traço importante que distingue a parte da decisão que se reveste desta preclusão máxima de outras questões do processo que só ficariam preclusas dentro dele.”
Com base no ordenamento jurídico pátrio, o que confere a condição de coisa julgada é a regra proveniente da lei processual, a qual torna-a imodificável. Para tanto, Moniz Aragão50 afirma que “a imutabilidade do julgamento, pois, é que consubstancia a coisa julgada.”
49 BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Celso Bastos Editora, 2002. p.
379-380.
Corrobora o esposado os ensinamentos de Pontes de Miranda51: “A irrecorribilidade pela natureza especial da sentença, ou pela preclusão, é que faz julgada a res judicata.
No conceito de Eduardo Espínola52:
“A compreensão generalizada, na doutrina pátria, é que se considera caso julgado a
sententia judicis, de que não caiba recurso algum. Daí a distinção entre sentença passada em julgado e coisa julgada, ou caso julgado; a sentença se diz que passou em julgado, quando pode ser executada, embora seja ainda suscetível de reforma, por virtude de algum recurso; a coisa julgada, ou o caso julgado, só se tem, quando nenhum recurso, absolutamente nenhum, pode haver, que eventualmente leve a modifica-la; seja embora recurso extraordinário ou ação rescisória.”
E continua53: “É princípio universalmente reconhecido que as relações jurídicas resolvidas por sentença, que transitou em julgado, ou por transação, não atingidas por qualquer lei posterior, ainda que se declare interpretativa.”
Araken de Assis54 afirmou que a coisa julgada, “aludida no art. 5º, XXXVI, da Constituição Federal de 1988, consiste na indiscutibilidade do pronunciamento, quanto ao mérito, eficácia acrescentada após o trânsito em julgado. Ficam as partes subordinadas à eficácia do ato e à regra jurídica concreta por ele estabelecida.”
Como bem salientado por Sérgio Gilberto Porto 55, a coisa julgada “representa, efetivamente, a indiscutibilidade da nova situação jurídica declarada pela sentença e decorrente da inviabilidade recursal.” Ou, nas palavras de Humberto Theodoro
51 MIRANDA, Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997.
p. 111. t. V.
52 ESPÍNOLA, Eduardo e ESPÍNOLA FILHO, Eduardo. A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro. 2.
ed. Rio de Janeiro: Renovar, 1995. p. 182.
53 ob. cit. p. 282.
54 ASSIS, Araken. Eficácia da coisa julgada inconstitucional. Revista Jurídica. Ano 50, n. 301, novembro
Júnior56, a coisa julgada ocorre quando “vencido o termo legal, sem manifestação do vencido, ou depois de decididos todos os recursos interpostos, sem possibilidade de novas impugnações, a sentença torna-se definitiva e imutável.”
Já para José Frederico Marques57 “ a coisa julgada é qualidade dos efeitos do julgamento final de um litígio; isto, é, a imutabilidade que adquire a prestação jurisdicional do estado, quando entregue definitivamente.” Nesse toar, Cândido Rangel Dinamarco58 leciona que “uma vez esgotadas as possibilidades de impugnação de uma sentença a mesma se torna estável, imune a ataques posteriores, implantando-se , assim, uma situação de segurança entre as partes.” E conclui: “essa estabilidade e imunização, quando encarada em sentido amplo, chama-se coisa julgada e atinge, conforme o caso, somente a sentença como ato processual ou ela própria e também os seus efeitos.”
O Ministro do Superior Tribunal de Justiça, José Augusto Delgado59, em
análise ao presente instituto, assim se manifestou:
“A entidade coisa julgada é entendida como sendo a sentença que alcançou patamar de irretratabilidade, em face da impossibilidade de contra ela ser intentada qualquer recurso. Em concepção objetiva, é a que firmou, definitivamente, o direito de um dos litigantes após ter sido apurado pelas vias do devido processo legal. A sua força deve caracterizar pressuposto de verdade, certeza e justiça, formadas ou afirmadas pelo decisum judicial, impondo estado de irrevogabilidade ou irretratabilidade para o que for assegurado.”
55 PORTO, Sérgio Gilberto. Coisa Julgada Civil: análise e atualização. Rio de Janeiro: Aide, 1998. p. 4. 56 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. 34. ed. Rio de Janeiro: Forense,
2000. p. 462. v.1.
57 MARQUES, José Frederico. Manual de direito processual civil. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1987. p. 235.
v. 3.
58 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. São Paulo: Malheiros, 2001. p.
296. v. III.
59 DELGADO, José Augusto. Efeitos da Coisa Julgada e os Princípios Constitucionais. In Coisa Julgada
Em comentários ao instituto da coisa julgada, Vellani60 concluiu o seguinte: “Con la expresión cosa juzgada (substancial) o más brevemente fallo (substancial), se indica, pues, una combinación de dos elementos: la declaración de certeza realizada por el juez más aquella autoridad o carácter que, en un cierto momento, por voluntad de la ley [...] cubre la declaración de certeza.”
Francisco Wildo Lacerda Dantas61 assim afirma:
“Penso que a coisa julgada consiste numa garantia constitucional. [...] Trata-se de uma garantia que, à primeira vista, foi dirigida apenas ao legislador, mas que [...] o constituinte minus dixit quam voluit. essa garantia também se aplica aos juízes que são proibidos de exercerem a jurisdição outra vez sobre o caso e, ainda, às partes que já não têm o direito de ação ou de defesa de voltar a veicular em juízo a matéria já decidida.”
Cumpre observar que os conceitos de coisa julgada supracitados possuem algo em comum, qual seja, a idéia de imutabilidade, conforme expõe Liebmann62:
“Nisso consiste, pois, a autoridade da coisa julgada, que se pode definir, com precisão, como imutabilidade do comando emergente de uma sentença. Não se identifica simplesmente com a definitividade e intangibilidade do ato que pronuncia o comando; é, pelo contrário, uma qualidade, mais intensa e mais profunda, que reveste o ato também em seu conteúdo e torna assim imutável, além do ao em sua existência formal, os efeitos, quaisquer que sejam, do próprio ato.”
Calha aqui reconhecer que o conceito de coisa julgada que tem prevalecido é o de Lebmann, o qual foi acolhido pelo Anteprojeto Buzaid, porém dele distanciado na redação final do artigo 467, do Código de Processo Civil, anteriormente citado. A redação definitiva do referido dispositivo não conceituou a coisa julgada como uma qualidade da
60 VELLANI. Naturaleza de la cosa juzgada. Buenos Aires: EJEA, 1958, nº 25. p. 132.
61 DANTAS, Francisco Wildo Laverda. Considerações Sobre a Desconstituição e a Relativização da Coisa
Julgada. Revista Síntese de Direito Civil e Processual Civil. Ano V, n. 28, mar-abr 2004. p. 41.
62 LIEBMANN, Enrico Tullio. Eficácia e autoridade da sentença. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1981. p.
sentença – essência da teoria de Liebmann – mas sim como efeito da sentença, ao adotar o termo “eficácia”. Moreira Pimentel63 sobre isso comentou:
“Colocou-se o legislador de 1973, pois, afastado da concepção liebmaniana de coisa julgada, ao definir esta como a ‘eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença’, não obstante o fato de haver sido o autor do Projeto, precisamente, um dos tradutores para o vernáculo da clássica Efficacia ed autorità della sentenza em que ENRICO TULIO LIEBMANN procurou demonstrar, que a ‘eficácia’ da sentença deve, lógica e praticamente distinguir-se da sua ‘imutabilidade’ sendo esta, pois, uma qualidade e não um efeito da sentença.”
Ovídio Baptista da Silva64 apresenta uma definição mais recente de coisa julgada, sendo ela “a qualidade que torna indiscutível o efeito declaratório da sentença, uma vez exauridos os recursos com que os interessados poderiam atacá-la.”
Sendo garantia constitucional, capitulada no artigo 5º, inciso XXXVI, da Carta Magna, a coisa julgada obsta novos julgamentos sobre a lide definitivamente julgada, a fim de proporcionar tranqüilidade, segurança e paz social nas relações jurídicas definidas. Por meio dela, o direito é incorporado ao patrimônio de seu titular por força da proteção que recebe da imutabilidade da decisão judicial.
Nesse sentido, as lições de José Afonso da Silva65:
“Tutela-se a estabilidade dos casos julgados, para que o titular do direito aí reconhecido tenha a certeza jurídica de que ele ingressou definitivamente no seu patrimônio. A coisa julgada é, em certo sentido, um ato jurídico perfeito; assim já estaria contemplada na proteção deste, mas o constituinte a destacou como um instituto de enorme relevância na teoria da segurança jurídica.
A proteção constitucional da coisa julgada não impede, contudo, que a lei preordene regras para a sua rescisão mediante atividade jurisdicional. Dizendo que a lei não prejudicará a coisa julgada, quer-se tutelar esta contra atuação direta do legislador, contra ataque direto da lei. A lei não pode desfazer (rescindir ou anular
63 PIMENTEL, Wellington Moreira. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, v. II, 1975. p. 553-554.
64 SILVA, Ovídio Baptista da. Teoria geral do processo civil. 3. ed. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2002. p. 325.
65 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 16. ed. São Paulo: Malheiros Editores,
ou tornar ineficaz) a coisa julgada. Mas pode prever licitamente, como o fez o art. 485 do Código de processo Civil, sua rescindibilidade por meio de ação rescisória.”
Enfim, a decisão judiciária sobre o mérito da lide e que não comporta mais recurso fica imune a qualquer questionamento futuro, ressalvado o rol exaustivo do artigo 485, do Código de Processo Civil, em que a sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida. Somente nesses casos a legislação prevê a possibilidade de desconstituir-se a coisa julgada por intermédio da ação rescisória.
Nos termos do artigo 485 da Lei Processual Civil:
“Art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:
[...]
IV – ofender a coisa julgada.”
Nesse diapasão, Humberto Theodoro Júnior se reporta às lições de Frederico Marques, o qual afirma haver dois tipos de coisa julgada diante da possibilidade de ação rescisória da sentença: a coisa julgada e a coisa soberanamente julgada. Esta ocorrerá quando houver terminado o prazo decadencial de dois anos para propositura da ação rescisória, contados do trânsito em julgado da decisão, previsto no artigo 495, do Estatuto Processual Civil, ou quando a referida ação for julgada improcedente. 66
O fundamento da coisa julgada “é a necessidade de estabilidade nas relações jurídicas. Após todos os recursos, em que se objetiva alcançar a sentença mais justa possível,
há necessidade teórica e prática de cessação definitiva do litígio e estabilidade nas relações jurídicas, tornando-se a decisão imutável.” 67
Sérgio Gilberto Porto 68 afirma que, “em ultima ratio, os fundamentos da coisa julgada, em face de seus propósitos filosóficos de oferecer segurança jurídica, radicam-se na finalidade inata do ato radicam-sentencial de regular definitivamente certa relação jurídica (eficácia), o qual, por força da vontade do Estado, pode ser imposto perante todos (autoridade).”
Nesse sentido, os ensinamentos de Jorge Lafayette69:
“Corresponde a coisa julgada à exigência de estabilidade das relações jurídicas e, no dizer de Gabriel Rezende, ‘visa à paz jurídica, obstando a que os litígios se eternizem, envenenando as paixões e tornando instáveis as relações de direito’ [...] Encontra, assim, seu fundamento político nessa exigência de estabilidade, e no interesse público em se impedir a perpetuação dos litígios, pois, no dizer de Kish, ‘a possibilidade de recomeçar sempre novos processos sobre o mesmo assunto produziria o efeito de acabar com a segurança dos direitos, que é precisamente o que se trata de conseguir e proteger no processo.’”
Como bem ressalta Barbosa Moreira70, a coisa julgada possui uma função essencialmente prática, pois existe para assegurar estabilidade à tutela jurisdicional dispensada pelo Estado.
Juan Colombo Campbell71 assim leciona:
67 GRECO FILHO, Vicente. Direito Processual Civil Brasileiro. p. 246. 68 ob. cit. p. 42.
69 GUIMARÃES, Jorge Lafayette Pinto. Repertório Enciclopédico do Direito Brasileiro. Rio de Janeiro:
Borsoi, 1947. p. 282. v. 9.
70 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Ainda e Sempre a Coisa Julgada. Revista dos Tribunais. n. 416, junho
de 1970, p. 10.
71 COLOMBO CAMPBELL, Juan. Funciones del derecho procesal constitucional. Revista Jurídica –
“La finalidad del proceso es la solución del conflicto sometido a la jurisdicción con efecto de cosa juzgada. Esto significa que la sentencia que lo resuelva producirá la acción y la excepción de cosa juzgada, expresiones procesales implícitas en el concepto de proceso. La posibilidad del cumplimiento del fallo a través de la acción y la certeza jurídica que otorga la excepción, al impedir que la solución se repita, constituyen, sin duda uno de los elementos más importante de su contenido.”
Perfilhando os entendimentos colacionados, assim leciona Maria Helena Diniz72: “A lei superveniente não poderá alcançar a coisa julgada, nem o órgão judicante poderá decidir novamente o que estiver decidido como forma imutável de sentença, a fim de que se resguarde a segurança das relações jurídicas. A auctoritas rei judiciatae justifica-se no atendimento do interesse público de estabilidade jurídico-social, cedendo somente ao ataque de decisões anuláveis.”
Com a coisa julgada se atinge o fim do processo, que é o de compor a lide, fazendo a aplicação do direito ao caso concreto. O pronunciamento judicial protegido pela coisa julgada define o direito quanto a uma determinada situação, fazendo atuar a vontade concreta da lei. Nesse sentido, a coisa julgada visa pôr fim à questão debatida em juízo, prevalecendo tanto para o processo findo quanto para outro qualquer, e definir a situação jurídica das partes.
Em síntese, a coisa julgada, aludida no artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal Brasileira de 1988, consiste na impossibilidade de discussão do pronunciamento judicial, quanto ao mérito, eficácia que é acrescentada após o respectivo trânsito em julgado, ficando as partes subordinadas à eficácia do ato e à regra jurídica por ele estabelecida. Contra seu conteúdo lógico-jurídico os tribunais encontram-se impedidos de
72 DINIZ, Maria Helena. Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro Interpretada. São Paulo: Saraiva,
decidir novamente a mesma lide, com base no artigo 471, do Código de Processo Civil, a saber: “nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide [...]”. Do mesmo modo que os legisladores estão impedidos de legislar, de modo retroativo, em prejuízo da res iudicata, nos termos do dispositivo previsto na Carta Magna.
Assentou-se, na vasta doutrina relacionada ao presente tema, o conceito de coisa julgada como qualidade da sentença que torna imutável e indiscutível o seu comando. Destarte, a coisa julgada não é efeito da sentença, mas sim sua qualidade, a despeito do disposto no artigo 467, do Código de Processo Civil, anteriormente transcrito.
A coisa julgada, possui duplo efeito, quais sejam, a imutabilidade da sentença, determinando a impossibilidade de sua alteração, e a indiscutibilidade da demanda, que decorre do exame da lide e da sua conclusão na sentença.
Esse efeito de indiscutibilidade da demanda apenas surgirá na sentença que tenha adentrado no mérito da lide posta à apreciação, conforme o já citado artigo 468 do Código de Processo Civil. Tal indiscutibilidade se estenderá extra-processualmente, de modo a obstar o ajuizamento de nova ação, haja vista impedir o reexame da lide, nos termos do artigo 267, inciso V, do referido diploma lega, que assim preceitua:
“Art. 267. Extingue-se o processo, sem julgamento do mérito:
[...]
V – quando o juiz acolher a alegação de perempção, litispendência ou de coisa julgada.”
posterior processo que porventura vier a ser ajuizado. O presente fenômeno processual é também denominado de preclusão máxima, e deve-se ao fato de a coisa julgada derivar de uma sentença que extinguiu o processo sem o julgamento do mérito. Nesse sentido, o artigo 268 do Código de Processo Civil: “salvo o disposto no artigo 267, V, a extinção do processo não obsta a que o autor intente de novo a ação.”
1.2.2. Efeitos
1.2.2.1. Coisa Julgada Formal e Material
Há duas espécies de coisa julgada: a formal e a material.
Primeiramente, a coisa julgada formal diz respeito à impossibilidade de modificar-se a sentença, no mesmo processo em que ela foi proferida, em razão dos prazos recursais terem precluído. Nesse sentido, manifesta-se Sérgio Gilberto Porto 73:
“a não-apresentação de recurso no prazo estipulado, ou o exercício de todos os recursos disponíveis, com o esgotamento da via recursal, acarretam a preclusão. Assim, tendo as partes se conformado com a decisão, e não a tendo impugnado, ou se apenas alguma delas recorreu, exaurindo a possibilidade recursal, a decisão, independentemente da análise do mérito, no processo em que foi proferida, adquire o selo da imutabilidade. A esta imodificabilidade dá-se o nome de coisa julgada formal.”
Depreende-se com tal assertiva que, quando esgotados todos os recursos previstos na lei processual, ou porque foram todos utilizados e decididos, ou porque decorreu o prazo para sua interposição, ou ainda, por ter a parte renunciado ou desistido do recurso, ocorre a coisa julgada formal, que é a imutabilidade da decisão dentro do mesmo processo por falta de meios de impugnação possíveis, isto é, recursos ordinários e extraordinários.
De muita relevância é a observação de Chiovenda74: “essa incontestabilidade ulterior do bem reconhecido ou negado realiza-se mediante a preclusão de todas as questões que se suscitaram e de todas as questões que se poderiam suscitar em torno da vontade concreta da lei, com o fim de obter o reconhecimento do bem negado ou o desconhecimento do bem reconhecido.”
Nas lições de Nelson Borges75, “em 1906, CHIOVENDA já falava em coisa julgada formal como sinônimo do que viria a ser chamado de preclusão. A grande maioria da doutrina – com exceção de PONTES DE MIRANDA, que sempre manteve a expressão coisa julgada formal – emprega o termo preclusão para identificação deste tipo de coisa julgada.”
Na visão de Pontes de Miranda76, verifica-se a coisa julgada formal quando há a impossibilidade de rediscutir o que restou decidido na mesma ação. Na tramitação regular de um processo, a decisão que não fosse impugnada por recurso transitaria em julgado, o que faria nascer a coisa julgada formal.
Celso Agrícola Barbi77 também defendia a substituição da expressão coisa julgada formal pelo termo preclusão, uma vez que a amplitude desta seria maior, já que, além de se referir às questões (objeto da coisa julgada formal), inclui também a faculdade (preclusão). Destarte, tendo por base as proposições de Chiovenda, o presente doutrinador defendia a ampliação do conceito de coisa julgada formal, de modo que abrangessem, além da faculdade das partes, também a preclusão das questões, de forma que o poder do juiz fosse dilatado quanto àquelas questões.
Referindo-se ao instituto da coisa julgada formal, Paulo D’Onorio78 afirmou que é “[...] la condizione di uma determinatà attivitá che nun può svolversi per um obstáculo giuridico che si oppone al sua ibero esplicamento.”
74 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil. São Paulo: Saraiva, 1942. p. 516. v. 3. 75 BORGES, Nelson. Direito Adquirido, Ato Jurídico Perfeito e Coisa Julgada. Curitiba: Juruá, 2004. p.
113.
76 BORGES, Nelson. ob. cit. p. 114-115.
77 BARBI, Celso Agrícola. Da Preclusão no Processo Civil. Revista Forense, São Paulo: Revista Forense,
v. 158, 1975, p. 61.
Nas lições de José Frederico Marques79, a coisa julgada formal resulta “da impossibilidade de novo julgamento pelas vias recursais, ou porque este foi proferido por órgão do mais alto grau de jurisdição, ou porque transcorreu o prazo para recorrer sem que o vencido interpusesse recurso, ou finalmente porque se registrou desistência do recurso ou a ele se renunciou.”
Em suma, a coisa julgada formal possui como fim a disciplina e a ordem. A lógica processual provém da forma adequada e da estrita observância dos momentos para o exercício de atos e faculdades processuais.
No tocante à coisa julgada material, essa surge quando – à condição de inimpugnável no mesmo processo – há algo mais, tornando a sentença imutável inclusive em processo posterior.
Na coisa julgada material, ocorre a imutabilidade dos dispositivos e dos efeitos da sentença proferida no processo. A referida imutabilidade deve ser respeitada não apenas pelas partes, mas também pelos magistrados, tornando impossível a rediscussão da lide em processo diverso.
Como um instituto de direito processual, a coisa julgada material torna imutável a vontade concreta da lei que deriva da sentença, criando, assim, vínculos de ordem puramente processual que impedem o reexame do mérito da questão decidida por qualquer outro órgão com poderes jurisdicionais. A coisa julgada material impede discussão em outro processo, proibindo qualquer indagação sobre a justiça ou injustiça de seu pronunciamento.
79 MARQUES, José Frederico. Manual de Direito Processual Civil. São Paulo: Editora Saraiva, 1975. p.
Nesse diapasão, concluiu Nelson Borges80:
“Pelas coordenadas traçadas já se pode concluir que a coisa julgada material é um conceito que se complementa por via da conseqüente medida de eficácia – traduzida esta como a energia obrigatória de uma resolução judicial, disciplinada pela lei – assentada em três possibilidades: impugnabilidade, imutabilidade e coercibilidade. Neste passo, seria impugnável em virtude de lei que impediria qualquer ataque posterior com vistas à rediscussão da matéria; imutável porque, em nenhuma hipótese, de ofício ou a pedido das partes, se poderá alterar uma sentença com trânsito em julgado (excetuadas as hipóteses previstas para a ação rescisória, que é uma ação, não recurso) e coercível para a eventualidade de uma execução forçada. Embora sem obrigatoriedade para o credor, toda sentença condenatória é passível de execução.”
No dizer de Luiz Guilherme Marinoni81 “a coisa julgada material é atributo indispensável ao Estado Democrático de Direito e à efetividade do direito fundamental de acesso ao Poder Judiciário [...] Ou seja, de nada adianta falar em direito de acesso à justiça sem dar ao cidadão o direito de ver o seu conflito solucionado definitivamente.”
Cláudio Armando Couce de Menezes82 assim definiu a coisa julgada material:
“No Brasil, a lição da doutrina é contundente, ressaltando a relevância da imutabilidade e da imperatividade dos efeitos ou do comando da sentença coberto pela coisa julgada: A coisa julgada material é o atributo normal do pronunciamento do juiz que acolhe ou rejeita o pedido do autor; irradia efeitos para fora do processo em que o julgamento foi proferido e os projeta para o futuro. Porque vincula indistintamente todos quantos devam respeitar sua autoridade e ‘opera’ não só no mesmo processo como também em outros processos relativos à mesma lide ou a outras lides logicamente subordinadas [...]”
80 BORGES, Nelson. ob. cit. p. 119.
81 MARINONI, Luiz Guilherme. O princípio da segurança dos atos jurisdicionais (a questão da
relativização da coisa julgada material). Revista Jurídica. Ano 52, n. 317, março de 2004, p. 17.
82 MENEZES, Cláudio Armando Couce de. Relativização da coisa julgada e os embargos à execução
Diferenciando a coisa julgada formal da material, Pedro Batista Martins83 leciona que, em tese, a primeira é de natureza processual e resulta da extinção dos recursos contra a sentença ou da preclusão dos prazos para a interposição dos recursos cabíveis. Já a segunda é condicionada à verificação da primeira e consiste na indiscutibilidade da existência da vontade concreta da lei, afirmada pela sentença.
Já Sérgio Gilberto Porto84 observa que “a projeção da coisa julgada material diverge da formal, pois, esta se limita à produção de efeitos endoprocessuais – internos – aquela os lança de forma pan-processual – externa – motivo por que se impõe perante demandas diversas daquela em que se verificou, tornando inadmissível novo exame do assunto e solução diferente a respeito da mesma relação jurídica, seja por outro, seja pelo mesmo juiz que a apreciou.”
Paulo Roberto de Oliveira Lima85 afirma que:
“Denomina-se coisa julgada formal a imutabilidade da decisão dentro da relação jurídico-processual, ou seja, denomina-se coisa julgada formal a especial condição da decisão de não comportar mais recurso, tornando-se, por isso mesmo, a palavra final do Judiciário no processo.
Se o julgamento foi de mérito, a imodificabilidade da decisão se espraia para fora do processo, impedindo nova discussão da matéria, mesmo em outro feito. É a esta especial qualidade da decisão de mérito que se denomina coisa julgada material.”
Cândido Rangel Dinamarco86 discorda da distinção entre coisa julgada material e formal, a saber:
83 MARTINS, Pedro Batista. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Forense, 1960. p. 253.
v. 3.
84 PORTO, Sérgio Gilberto. Coisa Julgada Civil (Análise e Atualização). Aide Editora, 1996. p. 55.
85 LIMA, Paulo Roberto de Oliveira. Contribuição à Teoria da Coisa Julgada. São Paulo: Editora Revista