PUC-SP
THOMAS LAW
O RECONHECIMENTO E A EXECUÇÃO DE SENTENÇAS
ARBITRAIS ESTRANGEIRAS NO BRASIL
-ATUALIZADO COM O NOVO CPC-
MESTRADO EM DIREITO
SÃO PAULO
THOMAS LAW
O RECONHECIMENTO E A EXECUÇÃO DE SENTENÇAS
ARBITRAIS ESTRANGEIRAS NO BRASIL
-ATUALIZADO COM O NOVO CPC-
MESTRADO EM DIREITO
Dissertação
apresentada
à
Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, como exigência
parcial para a obtenção do título de
MESTRE
em
Direito
das
Relações
Econômicas
Internacionais,
sob
a
orientação do Professor Doutor Cláudio
Finkelstein.
SÃO PAULO
THOMAS LAW
O RECONHECIMENTO E A EXECUÇÃO DE SENTENÇAS
ARBITRAIS ESTRANGEIRAS NO BRASIL
-ATUALIZADO COM O NOVO CPC-
BANCA EXAMINADORA
________________________
________________________
AGRADECIMENTOS
Agradeço à minha esposa, Ana Kaline Ou Law, pelo amor e carinho e por cuidar dos nossos filhos: Arthur e Sofia.
Aos meus pais pela educação, criação, amor, carinho e orientação.
Ao meu irmão, Henrique, pelo apoio constante.
Agradeço aos professores Cláudio Finkelstein e Maria Eugênia Finkelstein, que me impulsionaram no âmbito acadêmico e abriram um vasto caminho na área do Direito, tanto pelo conhecimento como pelo networking.
Aos professores da pós-graduação de Direito da PUC/SP, com os quais tive a oportunidade de aprender muito nesses últimos anos, em especial aos professores Sérgio Shimura e Vladmir Oliveira da Silveira.
RESUMO
A presente dissertação de mestrado trata do reconhecimento e da execução da
sentença arbitral estrangeira no Brasil. É uma pesquisa teórica e prática das
áreas de direito processual civil e direito internacional, uma vez que aborda as
mais diversas legislações internacionais e convenções que tratam da
arbitragem comercial internacional e o reconhecimento e execução dos laudos
arbitrais. Na primeira parte do estudo, serão analisadas as hipóteses de
execução direta e nacionalização do laudo arbitral estrangeiro conforme novos
dispositivos legais oriundos do Novo Código de Processo Civil. Na segunda
parte, será abordado o processo homologatório de sentenças arbitrais
estrangeiras perante o Superior Tribunal de Justiça tendo em vista o Novo
Código de Processo Civil, o novo regimento interno do Superior Tribunal de
Justiça, a Lei de Arbitragem e a Convenção sobre o Reconhecimento e a
Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras ("Convenção de Nova Iorque").
Paralelamente, dois casos, em especial, julgados pelo Superior Tribunal de
Justiça, são objeto de análise e investigação: a SEC n. 2.410(
Ferrocarriles
versus Supervia Concessionária de Transportes Ferroviário S/A
) e a SEC n.826
(Ssangyong Corporation versus Eldorado Indústrias Plásticas Ltda).
Por fim,
após a reflexão do trabalho investigativo, propõe-se concluir pela
nacionalização do laudo arbitral estrangeiro levando em consideração as
novidades trazidas no novo Código de Processo Civil e o reconhecimento pelo
Superior Tribunal de Justiça da possibilidade da nacionalização do laudo
arbitral no REsp 1.231.554.
ABSTRACT
This Master’s Thesis focuses on the acknowledgement and enforcement of
foreign arbitral awards in Brazil, based on the theoretical and practical research
in the fields of civil procedural law and international law, considering it includes
a study on the different international laws, conventions and treaties on
international commercial arbitration, as well as on the acknowledgement and
enforcement of arbitral awards. The first part of the study refers to the events of
direct enforcement and nationalization of foreign arbitral awards, according to
the new legal provisions of the New Brazilian Code of Civil Procedure. The
second part of the study covers the assessment of the ratification process of
foreign arbitral awards before the Superior Court of Justice (STJ), considering
Brazil’s new Code of Civil Procedure, the new internal rules of the Superior
Court of Justice, the Arbitration Law and the New York Convention. The thesis
also covers two cases, specifically, judged by the Superior Court of Justice:
SEC No. 2,410 (
Ferrocarriles versus Supervia Concessionária de Transportes
Ferroviário S/A
) and SEC No. 826
(Ssangyong Corporation versus Eldorado
Indústrias Plásticas Ltda
). Finally, after the reflection on the research
conducted, one argues nationalization of the foreign arbitral award is possible
given the new provisions included in Brazil’s new Code of Civil Procedure and
the acknowledgement thereof by the Superior Court of Justice, in the possibility
of nationalization of the arbitral award in the Appeal to the Superior Court of
Justice No. 1.231.554.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
... 8
Capítulo 1 A SENTENÇA ARBITRAL ESTRANGEIRA NO BRASIL
...11
1.1 Definição
e
Características
Próprias
da
Arbitragem
Privada
Internacional... 11
1.1.1 Lei Modelo UNCITRAL de Arbitragem Comercial ... 15
1.1.2 Lei da Arbitragem (Lei n°9.307/96) ... 20
1.1.3 Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução de
Sentenças Arbitrais Estrangeiras ("Convenção de Nova Iorque")
... 25
Capítulo 2 A SENTENÇA ARBITRAL ESTRANGEIRA E O NOVO CPC
...28
2.1 O Novo Código de Processo Civil ...28
2.2 A Eficácia Executiva da Sentença Arbitral Estrangeira: a hipótese da
Execução Direta conforme o artigo 961 do NCPC ... 33
2.2.1. A interpretação do Art. III da Convenção de Nova Iorque ...35
2.2.2. Posicionamento Doutrinário ...37
2.2.3. Sentenças estrangeiras versus sentenças internacionais ... 41
Capítulo 3 A NACIONALIZAÇÃO DO LAUDO ARBITRAL ESTRANGEIRO
...45
3.1 Nacionalização do Laudo Arbitral Estrangeiro ...45
3.1.1. Assinatura Digital dos Árbitros no Laudo Arbitral Estrangeiro
... 49
3.1.2. Competência das Varas Especializadas em Arbitragem Comercial
no Poder Judiciário Brasileiro ... 50
3.1.3. Sede da arbitragem ... 52
4.1 Homologação de Sentença Arbitral Estrangeira perante o Superior
Tribunal de Justiça ... 58
4.1.1.Procedimentos e requisitos ... 66
4.1.2. Comentários acerca da atuação do Superior Tribunal de Justiça
...72
4.2 Violação à Ordem Pública Nacional ... 76
4.2.1 Citação Postal ... 81
4.2.2. SEC n. 2.410(
Ferrocarriles versus Supervia Concessionária de
Transportes Ferroviário S/A
) ... 84
4.3 Afronta à Soberania Nacional ... 86
4.3.1 SEC n.826
(Ssangyong Corporation versus Eldorado Indústrias
Plásticas Ltda)...
86
4.4 A Sentença Arbitral Ainda Não Obrigatória, Anulada ou Suspensa .... 87
4.5 A Força da Coisa Julgada da Sentença Arbitral Estrangeira ... 89
4.6 Litispendência Internacional ... 91
4.7 Homologação Parcial da Sentença Arbitral Estrangeira ... 95
4.8 Medidas de Urgência ... 95
4.9 Execução Provisória ... 98
4.10 Competência da Justiça Federal ... 103
4.11 Cumprimento de Sentença (art. 515, inciso VIII, do NCPC) ... 105
4.11.1 Impugnação da Sentença Arbitral Estrangeira ... 109
4.11.2 Meios Coercitivos e as Inovações do Novo Código de Processo
Civil ... 112
CONCLUSÃO
... 116
INTRODUÇÃO
O objetivo da presente dissertação de mestrado é analisar a sentença
arbitral estrangeira e a sua eficácia dentro do território brasileiro. Para isso,
propõe-se uma investigação do processo homologatório brasileiro das
sentenças arbitrais estrangeiras perante o Superior Tribunal de Justiça, o qual
teve a sua competência definida após a Emenda Constitucional n°45/2004,
uma vez que, antes disso, era função dos Ministros do Supremo Tribunal
Federal homologar as sentenças estrangeiras.
Um dos motivos para a escolha do tema tem ligação direta com o
instituto da arbitragem comercial internacional. Proferido um laudo arbitral por
árbitros de instituição arbitral (Corte Internacional de Arbitragem, London Court
of International Arbitration, International Center for Dispute Resolution –
American Arbitration Association, entre outras) dentro do território brasileiro ou
fora dele, há consequências jurídicas na forma pela qual será executada tal
sentença. Ademais, os conflitos oriundos de contratos internacionais podem ser
dos mais diversos, tais como: compra e venda de mercadorias, questões
societárias, empreendimentos comerciais de empreitada e construção.
Outro fator a contribuir para a importância do presente estudo consiste
no próprio crescimento da utilização da arbitragem como meio alternativo de
resolução de conflitos e também pela quantidade de tratados e acordos
existentes sobre o assunto. Nesse sentido, podem-se listar a Convenção de
Nova Iorque de 1958 (trata do reconhecimento e da execução de laudos
arbitrais estrangeiros), o Protocolo de Las Leñas e a Convenção
Interamericana sobre Eficácia Extraterritorial das Sentenças e Laudos Arbitrais
Estrangeiros (concluída em Montevidéu, em 1979).
pelo novo Código de Processo Civil para viabilizar e satisfazer o crédito do
exequente detentor do laudo arbitral estrangeiro? A homologação no Superior
Tribunal de Justiça é a única forma de atingir a execução de uma sentença
arbitral estrangeira?
Por sua vez, ao analisar os meios eficazes da execução do laudo
arbitral estrangeiro, é necessário trilhar os artigos do novo Código de Processo
Civil, o qual dá um enfoque inovador ao assunto, uma vez que possui
dispositivos legais específicos referentes à cooperação internacional, aos
limites da jurisdição nacional e também à homologação da sentença
estrangeira. Além disso, o novo diploma processual civil trata da tutela
executiva com dispositivos legais aperfeiçoados pelo legislador, a fim de dar
efetividade na execução da sentença arbitral.
Dessa forma, a investigação que se pretende fazer é por meio dos
inúmeros julgados dos processos de homologação perante o Superior Tribunal
de Justiça. A partir do estudo e também da análise dos principais instrumentos
legais internacionais como a Lei Modelo UNCITRAL de Arbitragem Comercial,
a Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução de Sentenças Arbitrais
Estrangeiras ("Convenção de Nova Iorque") e a Cooperação Internacional,
prevista no Código de Processo Civil, faz-se necessária uma abordagem da
hipótese da nacionalização do laudo arbitral estrangeiro, uma vez que o artigo
35 da Lei de Arbitragem adotou o critério da
territorialidade
para definir se o
laudo arbitral é internacional ou nacional.
Por fim, com base nos dados coletados ao longo da elaboração do
trabalho, nas informações e nas pesquisas extraídas de banco de dados do
Kluwer, revistas especializadas em Arbitragem e Processo Civil, bem como nas
CAPÍTULO 1 – ARBITRAGEM COMERCIAL E INTERNACIONAL
1.1. Definição e Características Próprias da Arbitragem Privada
Internacional
Inegavelmente
1, a arbitragem internacional comercial ganhou
relevância no cenário global, sendo a opção desejada de solução de conflitos
por Estados, indivíduos e empresas em quase todo ramo de atividade no
comércio internacional, seja ele compra e venda de mercadorias, construção
civil ou investimentos. O princípio da autonomia das vontades implica na
escolha do direito aplicável e também ao procedimento (regras processuais da
Instituição Arbitral). Tal situação faz com que o instituto da arbitragem
comercial internacional seja ajustado conforme as características particulares
do caso concreto
2.
Mesmo sendo um mecanismo legal muito utilizado mundialmente,
Martin Hunter
3explica que o conceito da arbitragem é bem simples: as partes
concordam em submeter o caso, se houver controvérsia, para que uma pessoa
de confiança de ambas as partes decida o conflito. Dessa forma, o árbitro
ouvirá os fatos, os argumentos, as testemunhas, examinará as provas e, por
fim, definirá o litígio.
Tendo em vista a existência de diversas jurisdições, o instituto da
arbitragem
4se revela uma opção de solução de controvérsias em contratos
1
Recente pesquisa conduzida pela School of International Arbitration (Centre for Commercial Law Studies) e pelo Queen Mary College, com apoio da Pricewaterhouse Coopers, revelou que 52% das empresas atuantes no âmbito internacional preferem resolver suas disputas por meio de arbitragem, com 68%, e energia, com 56%, encontrando, porém, certa resistência no setor de serviços financeiros, com apenas 23% das empresas pesquisadas dizendo preferir a arbitragem a outros meios de solução de controvérsias. Disponível em: <http://accelus.thomsonreuters.com>.Acesso em: 03 nov. 2015.
2
Doutrinadores internacionais usaram o termo sob medida (customizada), destacando que a arbitragem
comercial internacional possui características próprias e peculiares a cada caso. Existe uma liberdade para fixar regras que regerão o processo arbitral- procedimento flexível diante da autonomia das partes. Afirmaram que esse mecanismo de solução de conflitos cresceu ao longo desses vinte anos e diante disso, as instituições arbitrais obtiveram regras processuais mais avançadas. (FOUCHARD, P; GAILLARD,E;
GOLDMAN,B. Fouchard Gaillard Goldman on International Commercial Arbitration. Editado por
Savage, John.Haia. [s.l.]: Kluwer Law International, 1999, p.1.) 3
HUNTER, Martin e REDFERN, Alan. Redfern and Hunter on International Arbitration. 5. ed. Nova
Iorque: Oxford Press, 2009, p. 2. 4
internacionais para as empresas sediadas em dois países diferentes, pela
questão da neutralidade (sede neutra da arbitragem), da confidencialidade e
também por preferirem árbitros experientes na matéria, tudo isso com base no
consentimento e na livre manifestação das partes. As transações comerciais
transnacionais ocorrem com frequência e necessitam de formas dinâmicas
admitidas entre os empresários; daí o papel relevante da arbitragem comercial
internacional.
Paralelamente, a arbitragem doméstica, conforme vários sistemas
jurídicos espalhados pelo mundo, é considerada diferente da arbitragem
privada internacional. Vale mencionar que na Lei Modelo da UNCITRAL
5são
dedicadas disposições separadas para a arbitragem interna e internacional,
sendo que alguns países como a França
6, adotaram esta separação. Já países
como Brasil, Holanda e Inglaterra dispensaram as mesmas disposições legais
para as duas formas de arbitragem.
Nesse sentido, conforme Jan Paulsson
7, a arbitragem e a arbitragem
internacional são diferentes como animais com pernas e aqueles que não as
têm. Na opinião do autor, a arbitragem privada internacional possui
características próprias a ponto de se poder afirmar que a arbitragem
internacional não é arbitragem.
manutenção do sigilo sobre a questão em debate. (FINKELSTEIN, Cláudio. Arbitragem Internacional e
Legislação Aplicável. In: FINKELSTEIN, Cláudio e outros. (coord.). Arbitragem Internacional
UNIDROIT, CISG e Direito Brasileiro. São Paulo: Quartier Latin, 2010, p. 45). 5
UNCITRAL foi criada através da resolução 2205 de 17 de novembro de 1966 como um órgão subsidiário da Assembleia Geral das Nações Unidas. Na década de 60, os países perceberam a necessidade de regras harmônicas e normas padronizadas para regulamentar a comércio internacional. Assim, a UNCITRAL empreendeu um esforço em prol da arbitragem e discutiu, durante três anos, os termos de uma lei-modelo sobre arbitragem. O objetivo não era unificar a matéria através de uma convenção internacional, mas buscar a harmonização das diversas legislações internas e resolver problemas que afetavam a aplicação da arbitragem internacional. (UNCITRAL. United Nations
Commission on International Trade Law. Disponível em:<
http://www.uncitral.org/uncitral/en/about_us.html>. Acesso em: 05 nov. 2015). 6
Do ponto de vista fenomenológico, a arbitragem internacional e a doméstica são essencialmente diferentes. E não só nos aspectos cultural, linguísticos e jurídicos, porque, como bem aprenderam os franceses, a arbitragem internacional tangencia os interesses do comércio internacional. E estes são diferentes, em inúmeras dimensões, daqueles atinentes aos negócios puramente domésticos. (HUNTER, Martin e REDFERN, Alan. Redfern and Hunter on International Arbitration. 5. ed. Nova Iorque: Oxford Press, 2009, p. 8).
7
PAULSSON, Jan. Arbitragem internacional não é arbitragem. Revista Brasileira de Arbitragem,
Após a década de 1980, com a globalização da economia, a arbitragem
se tornou um método natural no ambiente internacional e foi escolhida pelos
empresários sediados em países diversos, porque assim não correriam risco
de verem seus litígios decididos pelo sistema judiciário de um país estrangeiro,
segundo leis, regras processuais e praxes forenses mais familiares à parte
contrária, segundo Fourchard
8.
A arbitragem nada mais é do que o meio alternativo de solução de
controvérsias mediante a intervenção de uma ou mais pessoas que recebem
seus poderes de uma convenção privada, sem estarem investidas dessa
missão pelo Estado, conforme René David
9e Carmona
10. Este último esclarece
que a decisão se faz sem intervenção estatal, entretanto, assume a mesma
eficácia da sentença judicial.
Irineu Strenger
11também compartilha o entendimento acima, porém,
acrescenta que o conceito da arbitragem comercial tem natureza contratual e
se apresenta, no final, valendo-se de um laudo que representa a sentença,
trazendo o aspecto jurisdicional, e ainda, o aspecto processual, em função do
desenvolvimento de uma instância arbitral. O autor afirma, ainda, que a
arbitragem nacional é aquela cujo objeto é a solução de litígio no qual todos os
aspectos são internos, nascidos entre brasileiros, decidida no Brasil por árbitros
brasileiros, com aplicação da lei brasileira, ao passo que a arbitragem
internacional se configura tomando-se por base o vínculo que se estabelece
entre os elementos mencionados acima e uma ordem jurídica nacional
diferente.
Conforme visto, a doutrina nacional e internacional de forma diligente
define a arbitragem privada internacional. Embora haja tal conceito, há outros
critérios usados pela doutrina que estabelecem a internacionalidade da
arbitragem comercial, como, por exemplo, o critério econômico. Segundo
8
FOUCHARD, Philippe. L’Arbitrage et la mondialisaton de l´économie. Écrits. Comité Français de L´Arbitrage, 2007 (publicado originalmente em 1999), p. 473.
9
DAVID, René. L´Arbitrage dans le Commerce International. Paris: Economica, 1982, p.80. (Col. Estudos Jurídicos Comparativos)
10
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Jurisdição. Jurisprudência Brasileira. Curitiba: Ed. Juruá, vol. 145, p. 19-26, 1989.
11
Philippe Fouchard
12, a internacionalidade da arbitragem se revela mediante
critérios puramente econômicos retirados do fundo do litígio.
O critério econômico para identificar a natureza internacional da
arbitragem teve a sua origem no direito francês e decorre da famosa
jurisprudência Matter
13, que levou a Corte de Cassação francesa a se
pronunciar sobre a legalidade das cláusulas monetárias inseridas nos contratos
de empréstimo internacional. Matter impugnou o critério da jurisprudência até
então adotado e entendeu que para um contrato ser considerado internacional,
deve-se levar em conta não somente a nacionalidade das partes, mas também
a questão do capital, do movimento de fluxo e refluxo de dinheiro sobre as
fronteiras.
Além do critério econômico, existe o critério jurídico da
internacionalidade na arbitragem comercial conforme Luiz Olavo Baptista
14e
João Bosco Lee
15. O
Arbitration Act, no direito inglês, adota como critérios da
internacionalidade do contrato a nacionalidade ou o domicílio das partes,
cumulativamente com a escolha de uma lei ou de locais situados fora do
âmbito da soberania inglesa, definindo, de forma negativa, a arbitragem
interna, para distingui-la daquela dos contratos internacionais, sujeita a um
regime especial.
Nessa mesma linha de pensamento, Battifol
16entende que um contrato
é internacional quando apresenta liames com mais de um sistema jurídico,
12
FOUCHARD, Philippe. L’Arbitrage et la mondialisaton de l´économie. Écrits. Comité Français de
L’Arbitrage, 2007 (publicado originalmente em 1999), p. 475. 13
Matter afirmou o seguinte em relação à natureza internacional do contrato: "esta noção, muito simplista, evidentemente errônea, está hoje abandonada, e liga-se mais à natureza da convenção, às consequências que ela produz sobre dois países diferentes. Para ser assim classificado é preciso que o contrato produza como um movimento de fluxo e refluxo sobre as fronteiras, e consequências recíprocas em um país e outro.”(Cass. Civ., 17-5-1927, DP, 1928,1,25, nota Capitant, razões finais Matter. In: SCURACCHIO,
Claudia Carvalho. Contratos internacionais do comércio no direito brasileiro de Lege lata de Lege
Ferenda. (Dissertação de Mestrado em Direito Internacional Privado) 122 f. Universidade Estadual Paulista - Faculdade de história, Direito e Serviço Social, Franca – SP, 2002. Disponível em:
http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/89910/scuracchio_cc_me_fran.pdf?sequence=1 Acesso em: 07 set. 2015).
14
BAPTISTA, Luiz Olavo. Arbitragem Comercial e Internacional. São Paulo: Lex Editora, 2011. p. 41. 15
LEE, João Bosco. A Especificidade da Arbitragem Comercial Internacional. In: CASELLA, Paulo
Borba e outros (coord.). Arbitragem: lei brasileira e praxe internacional. São Paulo, Ltr, 1999, p. 182.
16
pelos atos concernentes à sua conclusão ou à sua execução, ou ainda à
situação das partes quanto à sua nacionalidade ou seu domicílio, ou quanto à
localização de seu objeto.
Portanto, existem inúmeros conceitos bastante precisos, o que
demonstra a maturidade em que se encontra a abordagem da matéria nos
círculos científicos e acadêmicos, nas revistas de Arbitragem e em eventos
anuais referentes à arbitragem internacional, em Viena
17e em Hong Kong
18.
Destaca-se a importância do estudo do presente tema, uma vez que nos
contratos internacionais, as cláusulas arbitrais
19são costumeiramente previstas
para garantir segurança jurídica das partes e para prever uma competência
jurisdicional neutra.
1.1.1 Lei Modelo UNCITRAL de Arbitragem Comercial
Com o desenvolvimento dinâmico do comércio internacional, órgãos e
entidades governamentais se uniram para aprimorar as regras do comércio
transnacional, criando a Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial
Internacional
20- CNUDCI (ou UNCITRAL, em inglês). Levando-se em
consideração as dificuldades existentes para solucionar conflitos relacionados
ao comércio internacional, visto que cada país dispunha de regras distintas
17
Todo ano em Viena, Áustria, existe o evento: Vis International Commercial Arbitration Moot – uma competição de arbitragem comercial internacional entre as universidades do mundo, tendo inúmeras atividades profissionais e sociais, bem como palestras no aprimoramento da arbitragem e do comércio internacional. Disponível em:< https://vismoot.pace.edu/site/about-the-moot>. Acesso em 05 nov. 2015. 18
Vis International Commercial Arbitration Moot também ocorre todo em ano em Hong Kong, China, com a participação de inúmeras universidades do mundo e, especialmente, da Ásia. Disponível em: < http://www.cisgmoot.org/>.Acesso em 05 nov. 2015.
19
Pertinente esclarecer que embora não haja estatísticas precisas do uso da arbitragem em relação ao número de controvérsias internacionais, há décadas estima-se que em torno de 80% (oitenta por cento) dos contratos comerciais internacionais celebrados provavelmente possuem cláusula arbitral. (VICENTE, Dário Moura. Da arbitragem comercial internacional. Coimbra: Coimbra, 1990, p.17).
20
que, por vezes, dificultavam o entendimento ou a solução de conflitos
decorrentes do comércio internacional, criou-se a UNCITRAL, com a finalidade
de reduzir obstáculos e desigualdades existentes no comércio internacional,
viabilizando regras uniformes e, harmonizando as normas do comércio
internacional.
Dessa forma, a UNCITRAL exerce papel relevante nas relações
internacionais, tendo a arbitragem um importante suporte entre os seus
diversos trabalhos relacionados ao comércio internacional. Saliente-se que o
objetivo principal era conferir uniformidade empregando-se a Lei Modelo, a qual
regula traços da arbitragem para que cada Estado a adote e a incorpore em
suas próprias regulamentações - soft law
21.
A Lei Modelo
22da UNCITRAL, elaborada em 1985, com alterações
adotadas em 2006
23, foi desenvolvida com o escopo de auxiliar os Estados que
desejam criar ou modernizar suas leis internas de arbitragem. Um estudo
realizado por Pieter Sanders
24revela que a Lei Modelo impactou
significativamente as relações internacionais, e diversos Estados levaram em
21
Expressão utilizada no âmbito do Direito Internacional Público que se refere a normas desprovidas de caráter obrigatório em relação aos signatários. São, portanto, facultativas, ao contrário do que ocorre com o jus cogens, que são normas cogentes. Por sua vez, são também conhecidas como droit doux (direito flexível) ou mesmo soft norm. No atual cenário internacional, cada vez mais fragmentado, as experiências com normas soft têm mostrado ser possível convencer os Estados de que determinada conduta deve ser tomada (ou afastada) para a melhoria do sistema internacional como todo. (MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Direito Internacional Público. Parte Geral. 7 edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013, p. 42).
22
O texto da Lei Modelo da UNCITRAL, aprovado na XVIII Sessão da Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional, realizada em Viena entre 3 e 21.6.85, encontra-se publicado na RDM 60/67-82, outubro-dezembro/85, juntamente com o relatório do delegado brasileiro, Prof. Dr. Luiz Gastão Paes de Barros Leães. Desde então, tem exercido papel fundamental na uniformização e
modernização do direito do comércio internacional. (Disponível em:<
http://www.uncitral.org/uncitral/en/commission/sessions.html>.Acesso em: 05 nov. 2015). 23
O Grupo de Trabalho II da UNCITRAL, específico para Arbitragem e Mediação, é um dos seis grupos de trabalho criados pela UNCITRAL e é composto por integrantes de 60 Estados-membros, além de outros observadores. Cada delegação dispõe de um representante do governo e especialista na matéria, no caso, especialista em arbitragem internacional. Em alguns situações, como na revisão das regras de arbitragem da UNCITRAL, também são convidados professores especialistas de diversos lugares do mundo. (ALEM, Fabio Pedro. Algumas Considerações sobre o Processo de Revisão e as Novas das Regras de Arbitragem Comercial da UNCITRAL. Revista Brasileira de Arbitragem, Porto Alegre, v.7, n.27, p.38-40, 2004.)
24
consideração tal legislação a fim de avançar as normas de cada lugar,
proporcionando regras e procedimentos oriundos da arbitragem internacional.
Importante enfatizar que a Lei Modelo foi elaborada por intermédio de
um processo internacional envolvendo entidades arbitrais
25e especialistas na
matéria, além de Estados-membros da ONU, representando, assim, diversas
tradições jurídicas. Tendo sido organizada dentro de uma universalidade de
sistemas (common law,
civil law, sistemas socialistas, sistemas de
desenvolvimento econômico diferentes, entre outros), é natural que a Lei
Modelo espelhe um consenso universal sobre o entendimento das arbitragens
comerciais internacionais. Por tais motivos, as normas da UNCITRAL são
autênticas fontes de Direito, uma vez que regem as relações do comércio
internacional.
Segundo Gary Born
26, a função da UNCITRAL não é outro senão
facilitar a arbitragem comercial internacional, assegurando o seu
funcionamento e reconhecimento em diversos sistemas jurídicos. A
UNCITRAL, servindo-se da Lei Modelo, definiu o termo “arbitragem comercial
internacional” como “os litígios de natureza mercantil que surgem entre
particulares ou entre particulares e um Estado, por força de um contrato
internacional existente entre as partes”.
Conforme o artigo 1.3 da Lei Modelo, a arbitragem é internacional se as
partes, no momento em que celebrem a convenção arbitral, tenham suas sedes
comerciais em diferentes Estados. Segundo o mesmo documento, a arbitragem
é internacional quando um dos seguintes lugares estiver situado fora do país: o
local da arbitragem, se determinado na convenção de arbitragem, ou de acordo
com a referida convenção; qualquer local onde deva ser executada uma parte
25
No caso específico da revisão das regras de arbitragem da UNCITRAL, participam ativamente, fornecendo uma visão prática e atual, representantes de instituições de renome internacional: i)Corte de Arbitragem da International Chamber of Commerce (ICC); (ii) London Court of International Arbitration (LCIA); (iii) American Arbitration Association (AAA); (iv) Asia- Pacific Regional Arbitration Group; (v) Institute for International Arbitration (IIA); e (vi) Permanent Court of Arbitration (PCA). (UNCITRAL Working Group II(arbitration), Report of the Working Group on Arbitration and Conciliation on the Work of its Fourty-sixth Session (New York, 5-9 February 2007), UN Doc A/CN.9/619 (2007) UNCITRAL).
26
BORN, Gary. International Commercial Arbitration. New York: Kluwer Law International. 2009,
substancial das obrigações resultantes da relação comercial; ou o local com o
qual o objeto da disputa tenha vínculos mais estreitos
27.
Dessa forma, aquilo que não estiver circunscrito na definição do artigo
1° da Lei Modelo não será objeto de arbitragem internacional
28, seja por não
fazer parte de uma relação comercial, seja por não estar essa relação definida
como de âmbito internacional. Essa definição de arbitragem comercial
internacional é a mais completa e complementa o conceito apresentado
anteriormente.
Embora a Lei de Arbitragem brasileira tenha se inspirado na Lei Modelo
da UNCITRAL, o país não adotou a Lei Modelo por completo em razão de
possuir diferenças processuais
29. Pelo fato de a Lei Modelo ter sido criada por
corpo de juristas advindos também do sistema common law, é fácil perceber
as diferenças entre ela e a Lei de Arbitragem. Por essa razão, a título de
exemplo, na Lei de Arbitragem brasileira, em determinados casos, a cláusula
compromissória necessita do compromisso arbitral, conforme os seus artigos
6° e 7°. Nesse aspecto, a Lei Modelo é mais flexível, porque é suficiente
27
A definição de arbitragem comercial internacional dada pela Lei Modelo é prevista no artigo 1(3): "3 – Uma arbitragem é internacional se: a) As partes numa convenção de arbitragem tiverem, no momento da sua conclusão, as suas sedes comerciais em diferentes Estados; ou b) Um dos locais a seguir referidos estiver situado fora do Estado no qual as partes têm a sua sede:(i) O local da arbitragem, se determinado na, ou de acordo com, a convenção de arbitragem;(ii) Qualquer local onde deva ser executada uma parte substancial das obrigações resultantes da relação comercial ou o local como qual o objeto da disputa tenha vínculos mais estreitos; ou c) As partes tiverem convencionado expressamente que o objeto da convenção de arbitragem envolve mais de um país.”(LEI MODELO DA UNCITRAL SOBRE ARBITRAGEM COMERCIAL INTERNACIONAL 1985 - Com as alterações adotadas em 2006. Tradução não oficial realizada por: Flavia F. Mange et. al.. Disponível em: http://cbar.org.br/site/wp-content/uploads/2012/05/Lei_Modelo_Uncitral_traduzida_e_revisada_versao_final.pdf
Acesso em: 06 nov. 2015). 28
É de se notar que a definição de internacionalidade é bastante ampla e engloba contratos cuja circulação de bens, coisas ou pessoas não esteja restrita a uma única jurisdição, ou bastando que a sede da arbitragem seja fora daquele país. Assim, contratos que seriam tidos, em outras definições, como internos ou nacionais, serão considerados internacionais para os termos da Lei Modelo. (BRAGHETTA, Adriana. A importância da Sede da Arbitragem: visão a partir do Brasil. vol.1. Rio de Janeiro: Renovar, 2010,p. 85).
29
De fato, por vezes há um verdadeiro choque cultural entre uma sentença proferida à luz do direito brasileiro, de tradição romano-germânica , cartesianamente inspirado no direito continental europeu, e, de outro lado, uma decisão oriunda de países de common law, em que decisões tendem a ser mais concisas. Enquanto que no Brasil a Lei de Arbitragem exige de forma expressa que o laudo seja fundamentado, regra essa que se aplica aos laudos aqui emitidos, a Convenção de Nova Iorque não possui qualquer previsão a respeito, pelo que a validade do laudo não fundamentado dependerá da regra escolhida pelas partes e das disposições da lei da sede da arbitragem. A Lei Modelo de Arbitragem prevê que as partes podem escolher se o laudo arbitral conterá ou não motivação. (ARAUJO, Nadia de. Parecer. Questões
sobre a motivação de Laudo Arbitral Estrangeiro e sua Homologação no Brasil: SE5692/US. Revista
apenas que a arbitragem seja determinada por algum documento escrito para
que passe a ser válida – tal regra oriunda do sistema common law.
Ainda, como objeto de estudo da presente pesquisa, a Lei Modelo
prevê, no Capítulo VIII, o reconhecimento e a execução de sentenças
30. Apesar
de a Lei Modelo estipular regras, este diploma legal não estabelece
pormenores processuais do reconhecimento e da execução, os quais ficam a
cargo da legislação e das práticas processuais nacionais. O artigo 35 (1)
31somente
determina
expressamente
que
a
sentença
arbitral,
independentemente do país em que tenha sido proferida, seja reconhecida
como tendo força obrigatória mediante solicitação por escrito, dirigida ao
tribunal competente.
Feitas essas considerações sobre a Lei Modelo UNCITRAL,
analisaremos a lei de Arbitragem (Lei n° 9.307/96), a qual foi considerada um
marco na história da arbitragem brasileira. A legislação anterior não fornecia
atrativos para que a arbitragem fosse utilizada, uma vez que não outorgava o
efeito vinculante à cláusula compromissória
32, mas somente ao compromisso, e
também porque o laudo arbitral, para ser equiparado à sentença, necessitava
de prévia homologação judicial. Não é por outra razão que Wald
33afirma que a
arbitragem brasileira estrutura-se sobre três pilares: a Lei de Arbitragem, o
reconhecimento de sua constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal e a
ratificação da Convenção de Nova Iorque pelo Brasil.
30
No caso de conflito entre a Lei Modelo e algum tratado, o último prevalecerá, o que é uma forma de absorver o princípio da máxima eficácia, previsto no artigo VII.1 da Convenção de Nova Iorque.
31
Artigo 35.(Reconhecimento e Execução) 1. A sentença arbitral, independentemente do país em que tenha sido proferida, será reconhecida como tendo força obrigatória e, mediante solicitação dirigida por escrito ao tribunal competente, será executada, sem prejuízo das disposições do presente artigo e do art. 36. (LEI MODELO DA UNCITRAL SOBRE ARBITRAGEM INTERNACIONAL, de 21 junho de 1985. Tradução de Beat Walter Rechsteiner. Disponível em: <http://www.cmaj.org.br/leiuncitral/> . Acesso em: 22 nov. 2015).
32
A Lei n°9.307/96 supera barreiras legais, processuais e procedimentais, estabelecendo que a convenção de arbitragem é composta pela cláusula compromissória e pelo compromisso arbitral e também porque dispensa o laudo de homologação pelo Judiciário. Cretella Neto afirma, ainda, que embora haja tal avanço na lei de arbitragem, existe em nosso país a barreira cultural, isto é, a forte tradição de que o Estado é a autoridade suprema e a única capaz de resolver litígios. (CRETELLA NETO, José. Curso de Arbitragem: arbitragem comercial, arbitragem internacional, Lei brasileira de arbitragem, Instituições internacionais de arbitragem, Convenções Internacionais sobre arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 2004, p. 28.) 33
WALD, Arnoldo(Coord.)A Convenção de Nova Iorque. Revista de Direito Bancário, do Mercado de
1.1.2 Lei da Arbitragem (Lei n°9.307/96)
A Lei da Arbitragem
34(Lei n° 9.307, de setembro de 1996),
notoriamente conhecida na comunidade jurídica e pelo Poder Judiciário,
completa 20 (vinte) anos de existência e, recentemente, foi alterada pela Lei
n°13.129 de 2015, trazendo questões importantes como as referentes às
arbitragens com a Administração Pública
35.
Além disso, surgiram outras novidades na lei, tais como: regras da
prescrição e a sua interrupção, regras das medidas cautelares e de urgência
36,
com a utilização da chamada carta arbitral
37, a possibilidade de os árbitros
proferirem sentenças parciais e, por fim, no tocante ao reconhecimento e à
34
A Lei de Arbitragem confere autonomia da vontade às partes envolvidas quanto às regras de direito que serão aplicadas, notadamente à escolha da lei aplicável e a eleição de foro, como também eventuais regras internacionais de comércio, desde que não ofenda ou viole os bons costumes e a ordem pública nacionais. (LEE, João Bosco. A Especificidade da Arbitragem Comercial Internacional. In: CASELLA, Paulo Borba e outros (coord.). Arbitragem: lei brasileira e praxe internacional. São Paulo, Ltr, 1999, p. 182).
35
O texto da Lei n°13.129/2015 ampliou o âmbito da aplicação da arbitragem, tendo incluído a possibilidade de plena utilização da arbitragem para solução de conflitos relativos à administração pública. O Poder Público é quem mais tem processos tramitando no Judiciário, 51% das demandas do país (de acordo com o CNJ); assim, diminuir os processos judiciais em que atua poderá contribuir para desafogar a Justiça brasileira. (GOUVÊA, Luciana G. A nova Lei de Arbitragem, boa para solução de
conflitos. Jornal do Brasil, Seção País – Sociedade Aberta. 04 ago. 2015. Disponível em:
http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2015/08/04/a-nova-lei-de-arbitragem-boa-para-solucao-de-conflitos/> . Acesso em: 13 ago. 2015).
36
Art. 22-A. Antes de instituída a arbitragem, as partes poderão recorrer ao Poder Judiciário para a concessão de medida cautelar ou de urgência. Parágrafo único. Cessa a eficácia da medida cautelar ou de urgência se a parte interessada não requerer a instituição da arbitragem no prazo de 30 (trinta) dias, contado da data de efetivação da respectiva decisão. Art. 22-B. Instituída a arbitragem, caberá aos árbitros manter, modificar ou revogar a medida cautelar ou de urgência concedida pelo Poder Judiciário. Parágrafo único. Estando já instituída a arbitragem, a medida cautelar ou de urgência será
requerida diretamente aos árbitros. (BRASIL. Lei nº 13.129, de 26 de maio de 2015 – altera a Lei n.
9.307, de 23 de setembro de 1996, e a Lei n. 6.404 de 15 de dezembro de 1976, para ampliar o âmbito de aplicação da arbitragem e dispor sobre a escolha dos árbitros quando as partes recorrem a órgão arbitral, a interrupção da prescrição pela instituição da arbitragem, a concessão de tutelas cautelares e de urgência nos casos de arbitragem, a carta arbitral e a sentença arbitral, e revoga dispositivos da Lei n. 9307, de 23 de setembro de 1996 – altera a Lei n. 9.307, de 23/09/96 e a Lei n. 6.404 de 15/12/76 [...] Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13129.htm > .Acesso em: 13 ago. 2015 37
Art. 22-C. O árbitro ou o tribunal arbitral poderá expedir carta arbitral para que o órgão jurisdicional nacional pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato solicitado pelo árbitro. Parágrafo único. No cumprimento da carta arbitral será observado o segredo de justiça, desde que comprovada a confidencialidade estipulada na arbitragem. (BRASIL. Lei Nº 13.129, de 26 de maio de 2015 – altera a Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996, e a Lei n. 6.404 de 15 de dezembro de 1976, para ampliar o âmbito de aplicação da arbitragem e dispor sobre a escolha dos árbitros quando as partes recorrem a órgão arbitral, a interrupção da prescrição pela instituição da arbitragem, a concessão de tutelas cautelares e de urgência nos casos de arbitragem, a carta arbitral e a sentença arbitral, e revoga dispositivos da Lei n. 9307, de 23 de setembro de 1996. Disponível em:
execução de sentenças arbitrais estrangeiras, a alteração do Supremo Tribunal
Federal para o Superior Tribunal de Justiça como órgão competente para a
homologação (tal mudança, a qual já havia sido feita com a Emenda
Constitucional n°45 de 2004, seria apenas uma correção de nomenclatura na
lei).
No ano de 2001, o Supremo Tribunal Federal, competente para
homologar
as
sentenças
arbitrais
estrangeiras,
analisaram
a
constitucionalidade da Lei de Arbitragem por meio de um recurso em processo
de homologação de sentença estrangeira (SE 5.206)
38. Tratava-se de uma
empresa de origem estrangeira que pretendia homologar um laudo de sentença
arbitral proferida na Espanha. O Supremo Tribunal Federal, a princípio, havia
indeferido o pedido, entretanto, ao interpretarem a Lei de Arbitragem (Lei n°
38
9.307/96), entenderam que não havia nenhuma questão legal que impedisse a
homologação.
No referido
leading case, o Ministro Carlos Velloso, do Supremo
Tribunal Federal, destacou em seu voto favorável que a arbitragem era
constitucional, tendo em vista que tratava de direitos patrimoniais disponíveis e
que as partes dispunham da faculdade de renunciar a seu direito de recorrer à
Justiça - o inciso XXXV, do artigo 5°, da Constituição Federal, representa um
direito à ação, e não um dever, conforme a interpretação dada pelos Ministros.
Dessa forma, a corrente vencedora no Supremo Tribunal Federal
entendeu que a Lei de Arbitragem foi um grande avanço e declarou a
constitucionalidade da lei. Com a confirmação da constitucionalidade da Lei de
Arbitragem, a sociedade brasileira começou a perceber a mudança de
paradigma quanto à solução de conflitos e abriu campo para as instituições
arbitrais no Brasil desenvolverem seus trabalhos nos centros financeiros, no
eixo São Paulo e Rio de Janeiro.
Portanto, vale esclarecer que, até antes do advento da Lei de
Arbitragem e do reconhecimento da constitucionalidade pelo Supremo Tribunal
Federal, existiam problemas atinentes à execução de laudos arbitrais
estrangeiros
39no Brasil. Até aquele período, caso o laudo arbitral estrangeiro
não tivesse sido reconhecido judicialmente no Estado de origem, algumas
hipóteses surgiriam. Uns entendiam que o laudo arbitral deveria ser
considerado um contrato privado
40no Brasil. Já, a segunda opinião, seria de
que o laudo arbitral poderia ser levado diretamente ao juiz brasileiro para
homologação
41. A terceira opinião considerava a homologação do laudo arbitral
no país de origem como dispensável quando, segundo o direito local, fosse
39
Inicialmente importa distinguir, ainda que de modo superficial, o reconhecimento da execução. O primeiro constitui providência defensiva, empregada no sentido de fazer valer na ordem interna do Estado requerido - no caso, o Brasil - a autoridade da coisa julgada que emana a decisão, impedindo, assim, nova discussão sobre a matéria. Já a segunda possui nítido caráter coercitivo, pois, além de possibilitar o reconhecimento da decisão estrangeira, permite que a parte interessada requeira ao tribunal judicial a utilização dos meios coercitivos necessários à satisfação do julgado. (SOUZA JÚNIOR, Lauro Gama. Reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras. In: CASELLA, Paulo Borba e outros (coord.). Arbitragem Lei brasileira e praxe internacional. São Paulo: LTR, 1999, p. 407.)
40
VALLADÃO, Haroldo. Direito Internacional Privado. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1978, v.3, p.217. 41
dispensável
42. A prática antes da Lei de Arbitragem era de que somente com a
homologação judicial do laudo arbitral no Estado de origem e com outro
processo de homologação no Supremo Tribunal Federal brasileiro seria
possível o reconhecimento no Brasil
43.
Enfim, a Lei n° 9.307/96 facilitou a tramitação do processo
homologatório no Brasil, uma vez que dispensou a homologação da sentença
arbitral no país de origem e inverteu o ônus da prova. A Lei de Arbitragem
eliminou, portanto, o chamado
duplo exequatur
44,
ou seja, antes de ser
encaminhado o processo homologatório no Brasil
45, outro requisito era de que
a sentença arbitral teria que ser submetida à chancela do Judiciário local - onde
fora lavrada a sentença arbitral
46.
Embora a Lei de Arbitragem tenha conquistado seu lugar nas inúmeras
legislações do país, ela não trouxe nenhuma definição do que seria a
arbitragem internacional comercial. Essa lei apenas estabelece que a sentença
42
MOREIRA BARBOSA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil. vol.5, 1985, p.74. 43
Hildebrando Accioly concluiu que somente a homologação do laudo estrangeiro pelo tribunal local possibilitaria seu futuro reconhecimento e execução no processo de homologação perante o STF. Apenas com este procedimento prévio o laudo teria as mesmas características de uma sentença. Esse procedimento passou a ser adotado no Brasil, sendo conhecido como a dupla homologação. Só foi, afinal, modificado no Brasil depois do advento da Lei de Arbitragem, de 1996. (ARAUJO, Nadia de. A Convenção de Nova York sobre Reconhecimento e Execução de Laudos Arbitrais Estrangeiros: análise
das razões contrárias à sua adoção nos anos 50 do Século XX. São Paulo: Revista de Arbitragem e
Mediação, v.18, jul. 2008, p.42). (CASELLA, Paulo Borba (Coord.). Arbitragem lei brasileira e praxe internacional. 2. ed.São Paulo: LTr, 1999, p. 77).
44
Esse sistema de dupla homologação, muito importante no século XX, perdeu aos poucos sua relevância. A prática arbitral demonstrou a seriedade dos laudos arbitrais e a desnecessidade prévia por um poder judicial. Ressalta-se que várias leis internas equipararam o laudo à sentença judicial, podendo-se, promover a sua execução forçada sem necessidade de nenhum ato judicial prévio. (ARAUJO, Nadia de. A Convenção de Nova York sobre Reconhecimento e Execução de Laudos Arbitrais Estrangeiros: Análise das razões contrárias à sua adoção nos anos 50 do Século XX. São Paulo: Revista de Arbitragem e Mediação, v.18, jul., p. 42, 2008).
45
Cláudio Finkelstein destaca que somente com a promulgação da Lei de Arbitragem é que se determinou a autonomia da sentença arbitral estrangeira, reconhecendo-a como um título executivo passível de homologação pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) para ter aplicabilidade e validade dentro do território nacional. (FINKELSTEIN, Cláudio. Arbitragem Internacional e Legislação Aplicável. In: _______. Arbitragem Internacional - UNIDROIT, CISG e Direito Brasileiro. São Paulo: Quartier Latin, 2010, p. 44).
46
arbitral estrangeira seja considerada aquela proferida fora do território nacional,
com base no parágrafo único do artigo 34° da Lei n°9.307/96
47.
Segundo Thiago M. Nunes
48, o legislador, ao editar a Lei n°9.307/1996,
adotou um sistema monista de arbitragem, em detrimento de critérios inerentes
à internacionalidade da arbitragem. Assim, a sentença arbitral adquire um
status de sentença estrangeira, quando proferida fora do território nacional. Na
visão da legislação brasileira, não importa que as partes possuam a mesma
nacionalidade e que o procedimento arbitral tenha tido o seu curso em território
brasileiro. Sendo a sentença proferida e assinada em território estrangeiro,
mesmo tendo corrido o processo arbitral no Brasil, para fins legais, a sentença
será sempre estrangeira
49.
Por outro lado, pertinente observar, ainda, o texto constitucional
previsto no artigo 105, já que tal dispositivo legal não faz distinção entre as
decisões judiciais das arbitrais:
“Art.105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I – Processar e julgar, originariamente:
(...)
i) A homologação de sentenças estrangeiras e a concessão de
exequatur às cartas rogatórias”
Com a equiparação das decisões arbitrais às judiciais, a lei nada mais
fez que englobá-las em um só conceito jurídico, o de sentença, o qual,
conforme a Constituição, subdivide-se em duas categorias – as nacionais e as
estrangeiras. Não se adotou aqui o conceito, usado em outros países, de
arbitragem internacional com base na natureza jurídica da questão submetida à
47
Art. 34.(...) Parágrafo único. Considera-se sentença arbitral estrangeira a que tenha sido proferida fora
do território nacional. (BRASIL.Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996 – dispõe sobre a arbitragem.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9307.htm> .Acesso em: 13 ago. 2015
).
48
NUNES, Thiago Marinho. A Convenção de Nova Iorque de 10 de junho de 1958: Alguns Pontos Polêmicos. Revista Brasileira de Arbitragem, n. 23, jul/set, p. 36, 2009.
49
arbitragem, mas, sim do local onde foi proferida a sentença, para o efeito de
distinguir entre as arbitragens internas e as internacionais.
Para demonstrar a importância da Lei de Arbitragem, pode-se citar o
caput do artigo 34, que determina que a sentença seja reconhecida ou
executada no Brasil, com eficácia no ordenamento interno, segundo as regras
de direito trazidas no bojo de tratados internacionais e, na sua ausência,
estritamente de acordo com a própria Lei de Arbitragem brasileira. O diploma
legal mencionado possui um capítulo a respeito do reconhecimento e da
execução de sentenças arbitrais estrangeiras inspirado pelo artigo V° da
Convenção sobre Reconhecimento e Execução de Sentenças Arbitrais
Estrangeiras, firmada em Nova Iorque, em 1958.
1.1.3 Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução de Sentenças
Arbitrais Estrangeiras ("Convenção de Nova Iorque")
Primeiramente, Pieter Sanders
50, conhecido como o criador da
Convenção de Nova Iorque, iniciou estudo pela uniformização, reconhecimento
e execução de sentenças arbitrais de diversos países. Ele sabia que as
transações comerciais internacionais aconteciam de forma dinâmica, sendo
exigidos cada vez mais, por parte da comunidade internacional, instrumentos
legais eficientes para a execução dos laudos arbitrais. Albert Jan Van Den
Berg
51, sucessor de Pieter Sanders, assumiu os trabalhos e transformou sua
tese de doutorado sobre a Convenção de Nova Iorque em um livro famoso,
publicado em 1981.
50
Prefácio do Prof. MARTIN HUNTER. (HUNTER, Martin. Revista de Arbitragem. Edição especial
Convenção de Nova Iorque. Ano II, n. 3, semestral, jan./jun., p. XVI, 2013). 51
Dessa forma, a Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial
Internacional (UNCITRAL), por sugestão da Câmara de Comércio Internacional
(CCI), editou a Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução de
Sentenças Arbitrais Estrangeiras de 1958, também conhecida como
Convenção de Nova Iorque
52. Somente em 23 de julho de 2002, o então
Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, assinou o decreto de
n.º 4.311, que promulgou a Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução
de Sentenças Arbitrais Estrangeiras (Convenção de Nova Iorque de 1958,
marcando a adesão do Brasil à convenção).
Importante frisar que a Convenção ganhou notoriedade pelo seu
conteúdo, sendo um dos principais instrumentos legais, e senão o mais
relevante, para a arbitragem comercial internacional. De nada adiantaria um
laudo favorável proferido por árbitros renomados, de instituição arbitral
respeitada, com um valor exorbitante para ser cobrado, se tal sentença
forasteira sequer fosse reconhecida no local da sua execução. O objetivo do
diploma legal internacional era proporcionar normas legislativas comuns, para
os países signatários, para o reconhecimento judicial de sentenças
estrangeiras no foro doméstico e, ainda, impor que os tribunais locais dessem
pleno efeito às regras ali dispostas.
O Brasil, ao ratificar a Convenção, não fez reserva de reciprocidade,
também chamada de “reserva à universalidade”. Isso significa que qualquer
laudo proferido em outro Estado que venha a ser executado no Brasil,
necessariamente, deve seguir as regras desse Tratado, não importando se o
Estado em que foi prolatada a sentença arbitral é contratante ou não. Na
realidade, a reserva de reciprocidade vem se tornando desnecessária em
virtude da grande adesão a essa Convenção pela comunidade internacional,
considerada o diploma legal mais importante referente à arbitragem comercial
internacional.
52
Em 10 de junho de 1946, as Nações Unidas aprovaram a Convenção de Nova Iorque para o reconhecimento e execução das sentenças arbitrais estrangeiras, que, desde então, mereceu ser ratificada por mais de 140 países, de modo que se tornou aceita. Em 50 anos, a Convenção revolucionou a arbitragem, dando-lhe dimensão internacional e facilitando a circulação das decisões arbitrais no mundo.
(WALD, Arnoldo. A Convenção de Nova Iorque: o Passado, o Presente e o Futuro. Revista de
Ainda assim, segundo Hunter
53, no momento da escolha de um Estado
como sede de uma arbitragem comercial internacional, é aconselhável que se
considere um Estado signatário da Convenção, de modo a aumentar a
probabilidade de sucesso em eventual pedido de reconhecimento e de
execução da sentença em outros países signatários.
A Convenção de Nova Iorque constitui uma base fundamental para os
players do comércio internacional nas suas lides jurídicas. Em um mundo de
sistemas legais heterogêneos e desprovido de uma autoridade judiciária
supranacional, as partes litigantes buscam nivelar as suas posições por meio
da eleição de um foro neutro, composto por especialistas de sua confiança e no
qual possam escolher as regras aplicáveis tanto ao mérito quanto ao
procedimento. Dessa forma, a arbitragem comercial internacional ganha
adeptos de todas as partes do mundo, uma vez que o laudo arbitral possui
idêntica eficácia jurídica de um processo judicial e, ainda, porque na arbitragem
impera a chamada autonomia da vontade das partes.
Quando uma das partes se recusa ao cumprimento espontâneo, só
resta à parte vencedora recorrer ao Judiciário para garantir a sua execução.
Esse é justamente um dos objetivos da Convenção de Nova Iorque: possibilitar
que, no plano internacional, o reconhecimento da sentença arbitral estrangeira
não seja frustrado em outra jurisdição.
53
HUNTER, Martin e REDFERN, Alan. Redfern and Hunter on International Arbitration. 5. ed. Nova
CAPÍTULO 2 - A SENTENÇA ARBITRAL ESTRANGEIRA E O NOVO CPC
2.1. O Novo Código de Processo Civil
O novo Código de Processo Civil (NCPC), pautado em princípios
constitucionais, conta com dispositivos que asseguram a duração razoável do
processo e também com medidas e mecanismos que aceleram a solução dos
litígios. De um lado, o novo diploma processual civil possui princípios de
efetividade e rapidez na análise dos processos, já que existe a previsão de
ordem cronológica de todo o julgamento conforme o artigo 12 do NCPC, com
disponibilização de lista para consulta em cartório e na internet (art. 12, §1°,
art.153, §1°). Por outro lado, o novo Código de Processo Civil exige maior rigor
na fundamentação da decisão judicial elaborada pelo magistrado, conforme §1°
do artigo 486 do NCPC
54, garantindo segurança jurídica.
A conciliação, a mediação e a arbitragem
55também foram prestigiadas
no novo diploma processual civil. Este reafirma a competência e a legitimidade
da Jurisdição Arbitral, determina que a convenção de arbitragem não possa ser
54
Dispõe sobre as situações em que a fundamentação se reputa insuficiente: (a) quando o juiz se limitar à indicação de dispositivo normativo sem vinculá-lo com a causa; (b) quando empregar conceitos indeterminados sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; (c) quando invocar motivos que se prestariam para justificar qualquer outra decisão; (d) quando não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo em tese capaz de infirmar a conclusão adotada; (e) quando se limitar a invocar precedente ou súmula sem a adequada vinculação ao caso concreto; e (f) quando deixar de aplicar súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção em face do caso julgado, ou sem apontar a superação do entendimento. (BRASIL. Novo Código de Processo Civil - Lei 13.105 de 16 de março de 2015. São Paulo: Saraiva, 2015). No seminário Poder Judiciário e o Novo CPC, juízes aprovaram alguns enunciados, sendo pertinente mencionar o enunciado 10 – “A fundamentação sucinta não se confunde com a ausência de fundamentação e não acarreta a nulidade da decisão se forem enfrentadas todas as questões cuja resolução, em tese, influencie a decisão da causa”. (MAGISTRADOS de todo país aprovam 62 enunciados sobre a aplicação do novo CPC, 28 ago. 2015.
Disponível
em:<http://www.enfam.jus.br/2015/08/magistrados-de-todo-pais-aprovam-62-enunciados-sobre-a-aplicacao-do-novo-cpc/>. Acesso em: 18 set. 2015). 55
conhecida
ex officio – a convenção de arbitragem
56decididamente passa a
ostentar a natureza de exceção processual, razão pela qual nem o
compromisso arbitral, nem a cláusula compromissória poderão ser conhecidos
de ofício.
Outra novidade que tem relevância ao tema é a possibilidade de se
executar a sentença arbitral em vários foros. Como existe a equiparação da
sentença arbitral à sentença judicial, por ambas ostentarem a mesma natureza
jurisdicional, o novo diploma processual civil manteve a sentença arbitral como
título executivo judicial (art. 515, inciso VII do NCPC). O legislador prestigiou o
princípio da efetividade da execução. Existe a possibilidade da execução da
sentença arbitral (parágrafo único do artigo 516 do NCPC
57): 1) no foro dos
bens sujeitos à execução; 2) no foro do atual domicílio do executado; 3) no foro
da execução da obrigação de fazer ou de não fazer.
A preservação da confidencialidade da arbitragem no processo judicial,
por sua vez, é uma das novidades no Código de Processo Civil. A
confidencialidade
na
arbitragem
é
uma
qualidade
reconhecida
internacionalmente e um dos principais motivos para as partes adotarem a
arbitragem comercial internacional
58. Assim, a confidencialidade estará
preservada, por exemplo, quando houver necessidade de se efetivar uma
medida de urgência ou quando for necessária a condução forçada de uma
testemunha renitente, já que ambos os atos instrumentalizam a cooperação
56
Respeita a autonomia privada das partes, que podem muito bem deixar de exercer o direito previsto na convenção de arbitragem para litigar perante o Poder Judiciário. Além disso, há um consenso entre especialistas que uma das formas de desconstituição da convenção de arbitragem é a celebração de um distrato, negócio jurídico bilateral que teria, em relação ao pactuado no contrato anterior, a natureza de uma novação. (FICHTNER,José Antonio e MANNHEIMER, Sergio Nelson. Cinco Pontos sobre a Arbitragem no Projeto do Novo Código de Processo Civil. Doutrinas Essenciais Arbitragem e Mediação. São Paulo. Vol.1, p. 427-452, 2014).
57
Art. 516. O cumprimento da sentença efetuar-se-á perante: I - os tribunais, nas causas de sua competência originária; II - o juízo que decidiu a causa no primeiro grau de jurisdição; III - o juízo cível competente, quando se tratar de sentença penal condenatória, de sentença arbitral, de sentença estrangeira ou de acórdão proferido pelo Tribunal Marítimo. Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II e III, o exequente poderá optar pelo juízo do atual domicílio do executado, pelo juízo do local onde se encontrem os bens sujeitos à execução ou pelo juízo do local onde deva ser executada a obrigação de fazer ou de não fazer, casos em que a remessa dos autos do processo será solicitada ao juízo de origem. (BRASIL. Novo Código de Processo Civil - Lei 13.105 de 16 de março de 2015. São Paulo: Saraiva, 2015).
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FOUCHARD, P. ; GAILLARD, E; GOLDMAN,B. Fouchard Gaillard Goldman on International