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Educ. Pesqui. vol.28 número1

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Academic year: 2018

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Apresentação

Embora os estudos sobre as instituições culturais do mundo contemporâneo não sejam novidade na área das ciências humanas é recente a preocupação em unificar esforços entre dis-ciplinas para estudar suas transformações nas últimas décadas.

Embora de maneira tímida, os estudos sobre mídia tornaram-se um tema acadêmico de relevância, no Brasil, apenas quando, nos anos 1970, vimos intensificar o interesse sobre o tema com a criação de cursos com esta problemática nas faculdades de Sociologia e a fundação de escolas de Comunicação como a ECA, na USP, entre outras. Não obstante, só muito recente-mente vemos a área da educação dedicar-se a ele.

Contudo, é fato que a educação no mundo moderno não conta apenas com a partici-pação da escola e da família. Outras instituições, como a mídia, despontam como parceiras de uma ação pedagógica. Para o bem ou para o mal, a comunicação de massa está presente em nossas vidas, transmitindo valores e padrões de conduta, socializando muitas gerações.

É nesse sentido, pois, que os estudos sobre mídia aproximam-se do debate educativo. E, nesse esforço de pensar as interfaces entre disciplinas aparentemente tão distintas como a educação e os estudos midiáticos, se pode, contudo, observar a raridade destes estudos interdisciplinares.

A produção recente reunida neste número visa preencher parte desta lacuna. Produto par-cial do encontro entre pesquisadores no Seminário educação e comunicação: um diálogo contemporâneo, em 2001, evento realizado pela Faculdade de Educação da USP, estas reflexões demonstram um esforço investigativo recente. Os textos aqui apresentados apontam para a com-plexidade do diálogo entre educação e comunicação midiática deixando entrever que a afini-dade entre educação e comunicação é um fato antigo e por muitos aceito. Ou seja, estas refle-xões explicitam que toda prática comunicativa corresponde também a um ato pedagógico, um ato de troca, de produção de sentido e de cultura. E sabemos que é a partir dessas práticas que o mundo se constrói e se transforma.

Todavia, é preciso estar atento também para o fato de que o diálogo entre educação e comunicação no mundo contemporâneo assume uma dimensão particular. Ou seja, estou falando de uma educação para as massas, de uma multiplicidade de ações pedagógicas com continui-dade e/ou com rupturas, como também estou falando de uma comunicação de massas, para as massas, um público, meios e conteúdos diversos e heterogêneos.

Assim, considerando que toda prática pedagógica corresponde a uma ação comunicati-va, considerando ainda que toda comunicação refere-se a uma prática de transmissão de valo-res e referenciais de conduta é possível afirmar que as afinidades entre educação e comunica-ção de massa são explícitas e podem ser vistas como uma espaço de discussão privilegiado en-tre educadores na contemporaneidade.

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Mas como estabelecer o diálogo? Creio que um dos caminhos para se estabelecer a me-diação entre educação e comunicação de massa, e os artigos aqui reunidos confirmam, é a partir das questões relativas ao processo de socialização.

Tema clássico das ciências do comportamento, o processo de socialização é um capítu-lo importante dentro da sociocapítu-logia. Não obstante, classicamente, a Sociocapítu-logia da Educação vem estudando apenas dois espaços de socialização tradicionais, a família e a escola. É possível afirmar que grande parte dos trabalhos da Sociologia da Educação, no que se refere ao tema socializa-ção, tem como paradigma maior Émile Durkheim e mais recentemente Berger e Luckman.

Durkheim, em seus escritos que datam do início do século passado, Talcott Parsons e George Mead nos anos 1930, 1940 e 1950, Peter Berger e Thomas Luckman com o famoso li-vro A construção social da realidade, na década de 1960, e Pierre Bourdieu1 nas décadas de 1970

e 1980, com sua teoria do habitus são autores obrigatórios sobre o tema. Vale ressaltar que até a década de 1960, praticamente, estes sociólogos estudaram as instâncias - família e esco-la - sobretudo como duas instituições separadas. Não antagônicas, é cesco-laro. Mas cada uma de-las tendo sua função, um papel a desempenhar na formação e na socialização dos indivíduos. De um lado, a família como espaço de afeto, como espaço privado responsável por um patrimônio, uma herança afetiva, econômica e cultural. De outro, a escola como espaço públi-co de formação, de educação moral e profissional dos indivíduos.

Grosso modo, instituições de socialização, instituições sociais totais, no sentido de Goffman,2 coerentes e em perfeita sintonia com seu público, onipresentes e fortemente

legiti-madas. Ambas responsáveis pela introdução de crianças e adolescentes no mundo dos adultos. Entretanto, é preciso salientar que esse debate ou essas representações sobre a família e a es-cola são construções forjadas sobretudo até a década de 60 do século passado. Isto é, a idéia das instituições - família e escola - como instituições sociais totais, com monopólio no proces-so de proces-socialização fez carreira e ainda domina grande parte nos debates contemporâneos proces-sobre o tema.

A partir da década de 1950, no entanto, nos Estados Unidos e países desenvolvidos e, especificamente na década de 1970, no Brasil, com o advento da cultura de massa vimos a emer-gência de uma outra ordem sociocultural e o surgimento de uma outra instância de socializa-ção. Ou seja, estamos falando da emergência da mídia. Esta, com toda sua diversidade e seu aparato tecnológico, surge como parceira na tarefa de transmitir valores e referências identitárias, integrando em um universo de símbolos culturais as sociedades modernas. Em outras palavras, contribuindo sobremaneira no processo de socialização do indivíduo contemporâneo. A mídia com sua multiplicidade de formas partilha, junto com a família e a escola, uma responsabilida-de pedagógica.

Mais recentemente, na década de 1990, Claude Dubar, François Dubet, François de Singly e Bernard Lahire,3 repensando os clássicos anteriores, chamam a atenção para a particularidade

do processo socializador contemporâneo. Refletindo sobre a crise da centralidade do projeto pe-dagógico escolar e familiar tradicional os autores apontam para a necessidade de ressignificar estas instâncias da socialização abrindo espaço para novas abordagens sobre o tema.

1. DURKHEIM, E. A evolução pedagógica. Porto Alegre: Artes Médicas.1995; PARSONS, T. The Structure of Social Action. New York: Mac Graw-Hill.1937; MEAD, G. L ’ e s p r i t , l e s o i e t l a s o c i é t é, Paris: PUF. 1963; BERGER,P&LUCKMAN,T. A construção social da realidade. Ed. Vozes: Rio de Janeiro. 1983; Bourdieu, P. Escritos de Educação in: Nogueira & Catani (Orgs.). Petrópolis: Vozes, 1998, entre outros.

2. GOFFMAN, E. Stigmates. Les usages sociaiux des handicaps. Paris: Minuit, 1975.

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Contudo, se estes autores nos dão pistas sobre as transformações sofridas pelas insti-tuições culturais da contemporaneidade, como compreender este novo panorama da socializa-ção? Como analisar o fenômeno da socialização atual como processo responsável pela constru-ção da identidade social/pessoal dos sujeitos? Mais especificamente, como pensá-lo a partir da ótica da Sociologia da Educação?

Para responder estas questões e contribuir nesse debate creio ser conveniente voltar às contribuições de Norbert Elias, notadamente ao conceito de configuração deste autor.

O conceito de configuração, segundo Elias, permite pensar que as instituições e o gru-pos sociais não são estruturas reificadas ou metafísicas que existem acima e por cima dos in-divíduos, exteriores e além deles. No artigo, “Família, escola e mídia: um campo com novas con-figurações”, desta Revista, faço uma exposição detalhada sobre a particularidade do processo de socialização contemporâneo oferecendo uma abordagem circunstanciada sobre as necessidades de se repensar a articulação entre as instâncias da socialização. Ou seja, questiono sobre a ne-cessidade de observar as relações de interdependência e a coexistência destas três distintas ins-tituições de socialização.

Os artigos aqui apresentados nos dão também algumas pistas. Creio que eles destacam a necessidade de observarmos o arranjo variado e particular entre estas instâncias, a necessida-de necessida-de inecessida-dentificarmos a relação necessida-de forças e equilíbrio entre as instituições a partir das experiên-cias particulares de socialização dos indivíduos. Origem social, gênero, etnia e geração são al-gumas variáveis importantes, como veremos nas reflexões que seguem.

Em “O mundo de Ronald McDonald: sobre a marca publicitária e a socialidade midiática”, Fontenelle trabalha com um dos ícones da sociedade midiática e do universo infantil. O texto constitui-se de uma reflexão sobre a marca publicitária e sua relação com a sociedade de con-sumo. Fazendo uma análise sobre as relações de interdependência entre mídia e entretenimen-to no processo de constituição do sujeientretenimen-to moderno a auentretenimen-tora oferece uma contribuição original para os estudos sobre a socialização no mundo contemporâneo. Texto bem articulado apresenta uma bibliografia interdisciplinar e atual sobre marketing, sociologia e psicanálise. Com clareza teórica expõe o argumento de uma certa conivência do público com o fetiche das grifes lem-brando sobremaneira a discussão sobre violência simbólica, cunhada por Pierre Bourdieu,4 uma

forma de dominação branda e dissimulada que só se exerce e se torna legítima por ser desco-nhecida.

Em “O rap e o funk na socialização da juventude”, Dayrell, por sua vez, evidencia a par-ticularidade do processo de socialização dos sujeitos no mundo contemporâneo. A partir de uma pesquisa de caráter etnográfico, discute a centralidade da cultura e dos bens simbólicos na cons-trução da identidade social e individual dos jovens na atualidade. Além disso, o autor levanta também uma importante discussão sobre a capacidade dos agentes sociais reelaborarem valo-res e referências sociais veiculados massivamente pela indústria cultural, discordando frontal-mente com visões homogeneizantes tão comuns nos estudos midiáticos. Trabalho consistente e sério constitui-se de uma abordagem do mundo jovem que foge das leituras preconcebidas do universo cultural da juventude na periferia.

Por fim, o texto de Fischer, “O dispositivo pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV” apresenta uma discussão bastante original, dentro do debate educativo sobre o po-tencial pedagógico da televisão/mídia. A autora baseia-se sobretudo nas contribuições de Michel

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Foucault, fundamentalmente no “dispositivo da sexualidade” desenvolvido por esse autor. Mais do que isto a autora trabalha com a hipótese de que o dispositivo pedagógico da TV/mídia está em harmonia com as práticas de subjetivação promovidas pelos espaços institucionais de soci-alização. O texto apresenta uma proposta de análise da programação de televisão bastante in-teressante, que serve como instrumental de análise para futuras investigações. É um texto re-levante para a reflexão sobre uma modalidade de mídia, a TV, mídia que é consumida, em grande parte dos casos, nos ambientes domésticos, na presença de familiares, podendo ser vista tam-bém como espaço de construção de símbolos, trocas e experiências de socialização.

Posto isso, seria interessante fazer algumas considerações finais sobre a expressividade acadêmica destes artigos. Em primeiro lugar gostaria de ressaltar que todos eles, cada qual com sua especificidade, convidam para uma reflexão sobre as atuais instâncias de socialização. Ou seja, dão pistas concretas em direção à verificação da relação dinâmica entre as instituições, o equilíbrio de forças entre as instituições família, escola e mídia, bem como a temporalidade dessas relações de interdependências responsáveis pelo processo de socialização e, conseqüentemente, responsáveis pela construção das identidades sociais.

Caberia concluir perguntando, também: Qual a pertinência destas reflexões para a com-preensão do processo de socialização?

Poderia responder chegando a uma segunda consideração. Em primeiro lugar, as abor-dagens aqui apresentadas permitem fugir das generalizações, permitem evitar a absolutização das influências rompendo com os determinismos e a inexorável força das comunicações midiáticas.

Em seguida, estas abordagens enfatizam o aspecto relacional e processual das relações entre os indivíduos e instâncias da socialização trazendo dinâmica e historicidade para as ações dos sujeitos. Por fim, estes artigos ressaltam o processo de socialização no mundo contempo-râneo como resultado de uma multiplicidade de vivências e experiências em uma heterogeneidade de espaços sociais, sejam eles locais ou virtuais, sejam elas comunicações, em processos peda-gógicos face a face ou descontextualizados.

Neste sentido, resta-me apenas desejar a todos uma boa leitura.

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