O lago Antes
Quis passar pelo lago
seus espelhos feitos de mansidão e quietude feridos belamente pela luz matinal
por ali
seus pequenos pássaros Joãozinhos e sabiás Suas florzinhas valentes Seus lírios e delírios
Sentir sua energia e sua luz no seu entorno
a natureza morta que revive
nas folhas que revestem as silhuetas do vento eu o contemplo ele me esquadrinha eu o admiro ele me seduz e convida
a girar com a força do amor catavento de mil espadas para bordar
magnólias customizadas enluaradas em neon
e sentir
como em manhã de primavera em flor em aquarela
sua luz se reverbera nos céus do meu olhar
depois do lago
voltar e entrar em um mundo de loucos de bailarinas e tiranos de lordes e serpentes de fadas e gaiatos de mais um dia para se desconstruir para se renovar para se humanizar.
Davi Cartes Alves Curitiba-PR
Dos corpos das minhas mulheres
O corpo doce
Da menina envergonhada Que exala ainda mais doce O aroma de jasmim
O corpo mágico Da fada revoltada De asas sabor de fel Da dita e crua beleza O corpo quente
Da moça de Pasárgada Febril sensualidade Cor e calor de pimenta
O corpo verdade Da boca avermelhada Com facas em meio aos dentes
E palavras não disfarçadas O corpo sábio
Da mulher enluarada Luz sinuosa em curvas Cristalina pura água
O corpo trovão Da estrela irritada Que me arrasa e afasta Antes dos corpos coabitarem ao chão
O corpo sonho
Da princesa encantada Sutil realidade abstrata Insight puro de vida
Corpo vaidade O corpo feitiço O corpo luz Os corpos nus O corpo arrimadiço Corpos ansiedade Vontades
Todos os corpos, corpos seus Vestindo corpete e meia fina Corpo libido que ao meu rima Cabelos se entrelaçam aos meus
Corpus de sua essência
Corpos
Intensos corpos variados Multivariados corpos intensos Corpos de um só Corpo
Corpos de um só Nome
Davidson Ramos Cornélio Procópio – PR
Ao meu olhar
Um dia ele cresceu,
aquele menino solitário da casa ao lado. Com seus passos curtos
e a tristeza pendurada nos ombros, se tornou um homem.
Ainda anda curvado. Eu da janela o observava,
pensava o que ele carregava naqueles ombros. Que fardo?
A solidão se apegou logo ao rapaz bonito. Que triste!
Nunca vi rapaz tão ossudo. Que osso belo!
Nunca pensei que solidão fosse coisa bonita, mas ficava bem naquele moço,
Ele tinha horário de chegada e de partida.
Dediquei a ele uma música, daquelas que sangram o coração e faz encharcar os olhos,
Um dia eu fui embora.
Casei com um desses sorridentes,
que nunca deu muita importância à tristeza. E depois de tanto tempo
me vi de frente com aquele moço. Apoiava-se em sua companheira, par de solitários curvados,
sincronizados. E naquele instante,
desejei ser aquela bengala.
Nunca pensei que solidão fosse coisa bonita, mas ainda ficava bem naquele moço.
Kelly Rodrigues de Araújo Cornélio Procópio – PR
Elegia para Vinicius
“Tende Piedade senhor, dos meninos velhos, dos homens humilhados e se
piedade vos sobrar senhor, tende piedade de mim”
Elegia Desesperada Vinicius de
Moraes Nas folhas desbotadas pelo tempo
releio o poema de sonhos eternos. É como se vagasse pelo tempo de tantas recordações.
Os verões na Rua Santa Clara,
no sol de areias brancas da morna praia, encontros com os amigos nos bares
ou vendo passar as garotas de Copacabana.
As areias que a vida tece
em tramas teceram os nossos destinos. Você ficou com a música e a boemia eu para Minas me mudei. Na solidão debruço-me em meus lamentos e
ouço o rangido dos carros de boi da fazenda, o bater dos vidros nos laboratórios de remédios. São tristes tardes opacas.
Você não esqueceu sua alma, eu
camuflei a minha entre as heras da parede. O vento traz nesses versos a sua voz. Em sussurros ela me diz:
Venha, pode entrar,
abandone essa vida de agora. Lembra-se, não foi bom outrora?
Estou dividida entre o presente e as lembranças distantes,
o rosto doente atrás do sorriso perdido. Se seu espírito vagar e uma viagem iniciar penetre essas regiões sombrias.
É fácil achar o caminho: na porta dois leões de pedra cobertos de musgo guardam a alma do antigo amigo. Juntos, faremos mais um verso nessa Elegia Desesperada.
“ Senhor tende piedade dos velhos amigos esquecidos que querem mergulhar em águas profundas, romper a névoa do tempo e depois morrerem felizes”.
Maria da Consolação Soranço Buzelin Curitiba – PR