• Nenhum resultado encontrado

MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL São Paulo2014

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2019

Share "MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL São Paulo2014"

Copied!
208
0
0

Texto

(1)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

Eduardo Guilherme Piacsek

Eros em Pauta:

A sexualidade nas páginas do

Jornal

Notícias Populares

(1982-1984)

MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL

(2)

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

PUC-SP

Eduardo Guilherme Piacsek

Eros em Pauta:

A sexualidade nas páginas do

Jornal

Notícias Populares

(1982-1984)

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História Social, sob orientação da Professora Doutora Mariza Romero.

(3)

Banca Examinadora:

_____________________________

_____________________________

(4)

Aos meus pais, Emílio e Hortencia pelo apoio incondicional, pelo incentivo constante e pela crença no papel transformador da educação.

À Alessandra, por estar sempre ao lado, à frente, na retaguarda e, principalmente, no coração.

(5)

Agradecimentos

Embora esta seção se encontre nas páginas iniciais deste trabalho, ela foi redigida

quando todo o percurso da pesquisa acabara de se concluir. Tema apresentado, três capítulos

escritos com todos os seus respectivos itens e subitens e considerações finais tecidas. A luta

contra a ABNT já travada em uma série que parecia infinita de pontos, vírgulas e negritos a

serem arrumados nas notas e na bibliografia, nessa tarefa tão árdua quanto necessária de

deixar o caminho sinalizado para os que vierem depois. Resumo e o seu irmão inglês, o

Abstract, devidamente elaborados.

Em cada uma e em todas essas etapas eu vi minha dívida de gratidão aumentar. Foram

muitos os que me ajudaram nesse percurso e agora chega o momento de dizer muito obrigado

e, fatalmente, cometer algumas injustiças com o esquecimento de nomes que farão tocar todos

os sinos de minha memória quando eu estiver lendo essas palavras devidamente encadernadas

em capa dura verde. Aos que ficarem de fora, senão um agradecimento, recebam

antecipadamente um pedido de perdão. Tentarei, contudo, reduzir ao mínimo esse fenômeno:

Primeiramente agradeço minha família pelo apoio, pela eterna torcida e por serem tão

presentes toda vez que uso o pronome “eu”. Não me imagino sem os valores, sem a atenção e

o carinho que recebi desde pequeno de minha mãe Hortencia e de meu pai Emílio. Eles

sempre foram movidos pelo desejo de acertar, ajudar e acolher. E, efetivamente, acertaram,

ajudaram e acolheram. Agradeço meus irmãos Henrique e Paulo, pelos conselhos pelas

conversas e por todas as vezes que fomos repreendidos por nossos pais, tarde da noite, por

estarmos rindo muito alto de enredos que somente nós somos capazes de perceber o quanto

são hilários; agradeço também por me concederem o conforto de, na escola, ter não só um,

mas dois irmãos mais velhos. Agradeço minha tia Mirley, minha Titi, pelo carinho, pela

companhia sempre leve e agradável, pelo otimismo transcendental e por dividir comigo o

(6)

oportunidade de ver nascer uma criança linda, o pequeno ruivo que se transformou em um

cara muito legal. Agradeço minha querida prima e madrinha Ercilia Hough que, além de ser

uma pessoa sensacional e divertida, tirou meu Abstract da gentry e conduziu-o à Câmara dos

Lordes.

Agradeço à Alessandra Lucca, minha Lezuca querida, o carinho, o companheirismo a

alegria e a cumplicidade. Agradeço por cada um e por todos nossos segredinhos. Agradeço,

especialmente, por tudo que não cabe no teclado de um computador. Não bastasse tudo isso,

Alessandra foi de fundamental importância na formatação e adequação deste trabalho. Sem

ela as páginas que se seguem espelhariam de forma muito mais precisa o caos que se apossa

da cabeça de um pós-graduando. Obrigado, Lindinha! Não falei que era possível mudar de

casa e concluir um mestrado? Nós conseguimos! E vamos conseguir mais!

Esta pesquisa não teria sido realizada sem o inestimável apoio do Conselho Nacional

de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e da Coordenação de

Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) financiadores dos meus estudos que

agora se materializam nessa dissertação.

Muito obrigado à minha orientadora, a Professora Doutora Mariza Romero. Sua

generosidade, seu bom humor, sua confiança em meu trabalho tornaram meu caminho muito

mais suave. Obrigado, Mariza! Agora só resta esperar por Claudionor.

Obrigado aos professores Luiz Antonio Dias e Marcelo Flório, membros de minha

banca, pelo precioso tempo investido na leitura deste trabalho e por suas inestimáveis

contribuições.

Agradeço aos meus colegas de graduação, Luiz Felipe Loureiro Foresti, Karla

Maestrini e Henrique Sugahara Francisco pela alegria de ter compartilhado com vocês os

quatro anos de bacharelado e por terem, aos 18 anos, acolhido um “tio” de 30 em seu grupo

(7)

pudemos demonstrar que a Sorbonne também vai à taverna, apenas não o faz em horário de

aula.

O meu obrigado a todos os colegas de pós-graduação, navegantes do mesmo barco que

atravessa as águas revoltas do Mar do Mestrado. Obrigado ao Fábio Ferreira, ao Ailton

Amaral, ao Elton Ferreira, ao Diego Natali, à Paula Salles, à Andressa Oliveira, à Mariana

Dolci, à Bianca Melzi De Domenicis, à Sílvia Alegre, ao Fernando Henrique Cardozo Silva e

à Marleninha Vieira. Todos vocês foram imprescindíveis. Um obrigado muito especial à

Débora Nascimento, minha colega de quase todas as disciplinas na pós e com quem dividi

muitas das angústias, das inseguranças e das incertezas que marcam a caminhada de um

mestrando. Valeu, Débora! Chegou o tão sonhado dia de “rirmos de tudo isso”. Um abraço do

tamanho da Amazônia ao querido Matthias Grenzer, o alemão mais brasileiro que conheci,

teólogo admirável, professor generoso e colega prestativo.

Um enorme obrigado aos professores da graduação da PUC-SP. Pessoas que me

fizeram olhar o mundo com outros olhos. Os professores são o maior patrimônio desta

universidade. Obrigado pela generosidade e pela atenção com que se relacionaram não só

comigo, mas com todos os alunos da PUC. Obrigado Antonio Rago Filho, Vera Vieira, Ettore

Quaranta, Alvaro Alegrette, Yone de Carvalho, Fernando Londoño, Adílson Gonçalves,

Pedro Fassoni Arruda e Maria Izilda Santos de Matos. Um obrigado especial ao meu xará,

Eduardo Antonio Bonzatto, professor, amigo e um ser humano extraordinário.

Obrigado aos professores da pós-graduação pelo apoio, pelo direcionamento e pelo

incentivo. Obrigado às professoras Maria do Rosário Cunha Peixoto, Estefania Knotz

Canguçu Fraga, Carla Reis Longhi e Olga Brittes. Um obrigado especial à querida professora

Yvone Dias Avelino que tanto me motivou a entrar na pós-graduação, que acompanhou a

trajetória de minha pesquisa, que esteve presente auxiliando e aconselhando. Obrigado,

(8)

que eu aparecesse mais no meu texto. Isso não é uma recomendação, é um elogio, do qual

espero ser merecedor.

Obrigado a todos os funcionários do Arquivo Público do Estado de São Paulo pela

paciência, prestatividade e amor à profissão. Obrigado pelas luvas, pelos lápis, pelas

orientações e por colocarem à minha frente três anos de jornal.

Muito obrigado a todos vocês!

(9)

Resumo

Este trabalho pretende analisar a maneira como o jornal paulistano Notícias Populares

tratou do tema da sexualidade entre os anos de 1982 e 1984. Este assunto ganhou especial

destaque na sociedade brasileira durante o período em questão, momento final da ditadura

militar iniciada em 1964. Para atingir nosso objetivo, estudaremos a coluna Tudo Sobre Sexo

publicada no jornal a partir de 1982 e que se dedicou a fornecer informações de caráter

científico aos seus leitores; analisaremos os relatos das Histórias da Boca, uma série de

narrativas escritas pelos repórteres policiais do NP e ambientadas na região do centro de São

Paulo conhecida como “Boca do Lixo”, local de atuação de prostitutas, travestis e malandros;

e, por fim, daremos atenção ao aumento progressivo do número de matérias que o jornal

dedicou ao tema da sexualidade, com especial destaque para sua cobertura do surgimento da

epidemia de AIDS, doença letal e sexualmente transmissível e do aparecimento na mídia da

transexual Roberta Close, alçada à categoria de símbolo sexual do Brasil. O jornal Notícias

Populares, símbolo da imprensa sensacionalista brasileira, será tratado nesse trabalho não

como um contraponto a um jornalismo tido como “sério”, mas como um veículo de

comunicação de massa capaz de constituir complexas representações e significados.

(10)

Abstract

This work aims to analyze how the São Paulo newspaper Notícias Populares (NP) dealt

with the topic of sexuality between 1982 and 1984. This issue gained special prominence in

Brazilian society during this period, which was the end of the military dictatorship that started

in 1964. To achieve our goal, we will study the column Tudo Sobre Sexo (All About Sex)

published in the newspaper since 1982 and dedicated to providing its readers with scientific

information; we will analyze the reports of Histórias da Boca, a series of narratives written by

NP crime reporters and set on downtown São Paulo, an area known as "Boca do Lixo", a

“workplace” of prostitutes, transvestites and swindlers; and finally, we will draw attention to

the progressive increase in the number of stories that the newspaper devoted to the topic of

sexuality, with special emphasis on its coverage of the rise of the AIDS epidemic, a lethal

sexually transmitted disease and the appearance of Roberta Close in the media, a transsexual

who reached the status of sex symbol in Brazil. In this work, the newspaper Notícias

Populares, symbol of Brazilian tabloid press, will be treated not as a counterpoint to what is

regarded as “serious” journalism, but as a vehicle of mass communication able to achieve

complex representations and meanings.

(11)

Sumário

Apresentação... 12

Capítulo I: Tudo Sobre Sexo no NP : Tradição, Família e Sexualidade... 33

1 – Um breve panorama... 33

2 – Tudo Sobre Sexo entra em cena... 35

3 – Uma “anomalia” preocupa Tudo Sobre Sexo: A Homossexualidade... 39

4 – A norma e o desvio... 60

5 – Prazeres Proibidos: A troca de casais coloca a família em perigo... 66

6 – O fetichismo como instrumento... 71

7 – Tudo sobre Sexo em nome da família... 79

Capítulo II: A Sexualidade da Boca no NP... 82

1 – Um pouco da História da Boca... 82

2 – As Histórias da Boca entram no Notícias Populares... 92

2.1 – As Histórias da Boca e suas Características Gerais... 95

2.2 – Os autores da Boca: Quem escrevia as Histórias... 98

3 – As Damas da noite... 102

4 – A Homossexualidade na Boca... 119

5 – Marido e mulher na Boca... 133

6 – Afinal, como ouvir o que a Boca tem a dizer? ... 137

Capítulo III: Sexo também é notícia ... 144

1 – O sexo invade a pauta do Notícias Populares... 144

2 – AIDS: A peste-gay ataca no NP... 144

3 – O Bordel dos ricos... 167

4 – Close rouba a cena no NP... 172

5 – As matérias especiais de Domingo: O lado exótico do sexo... 188

5.1 – Uma agência de travestis e o surgimento de Roberta Close... 188

5.2 – Pelezão, o herói do trabalhador... 191

Considerações Finais... 195

(12)

Apresentação

Embora a tarefa da pesquisa histórica seja um ato eminentemente solitário, creio que

duas de suas principais matérias-primas sejam a inquietação e o diálogo. Inquietação que nos

leva a pesquisar aquilo que nos intriga, que nos faz procurar no passado respostas às

perguntas que hoje nos são significativas individual e socialmente.

Como afirma Gramsci “só investigamos de verdade aquilo que nos afeta”. Ao

mencionar o célebre pensador italiano, pode-se perceber uma das facetas do diálogo

necessário do pesquisador com aqueles que o precederam na construção do conhecimento,

conversas não raro tensas, com mestres que nos guiam, nos provocam, desafiam e com os

quais ora concordamos e nos aconchegamos nas aspas salvadoras que alicerçam nossas

ideias, ora discordamos procurando, mas nem sempre conseguindo, matizar coloridos,

evidenciar nuances para ir ainda mais além, mergulhar mais fundo, na tentativa de, como nos

impele Kant, “ousar saber”.

Porém, o diálogo na pesquisa histórica possui amplitude maior. Temos a felicidade

de poder trocar conhecimento com nossos professores e colegas, intercâmbios feitos no fértil

ambiente acadêmico. O convívio com outros olhares também não é uma tarefa fácil, mas se

revela de enorme valia para aqueles que são permeáveis à diferença. Diferença às vezes sutil,

escondida nas fímbrias dos textos e que exige, como afirma Block, a sensibilidade do luthier

ao afinar seu instrumento.

É com esse arsenal de pensamentos que partimos para o diálogo mais vital para o

historiador: O diálogo com suas fontes: Fechadas em arquivos, presas nas linhas e nas

entrelinhas de manuscritos, estampadas nas páginas do jornal, ou escondidas na memória dos

(13)

enigmáticas. São as fontes que nos farão ver a limitação de nosso conhecimento, que

mostrarão a insuficiência de nossa teoria e que, eventualmente e para nossa felicidade,

adicionarão concretude à fragilidade de nossas hipóteses.

Minha trajetória no campo do conhecimento histórico começou em 2005, ano que

ingressei na graduação em História da PUC-SP. Entrei no curso com 30 anos de idade.

Possuo também formação em Comunicação Social, com habilitação em Produção Editorial

feita na Universidade Anhembi-Morumbi nos hoje paleolíticos anos pré-internet de

1992-1995.

Concluí meu curso em 2009 (Bacharelado e Licenciatura) e em janeiro de 2012

ingressei no Mestrado. A escolha de meu tema se deu graças à conversas com minha

orientadora, a Professora Mariza Romero. Sua tese de doutorado: “Inúteis e Perigosos: O

Diário da Noite e a Representação das Classes Populares São Paulo 1950-1960” foi nosso

ponto de partida. Pessoalmente, por conta de minha primeira formação, durante a graduação

de História sempre tive interesse em estudar a imprensa, porém me faltava um enfoque mais

específico.

Mariza, por sua vez, deixou claro para mim que ainda existiam diversas questões a

serem respondidas acerca da imprensa popular no Brasil. Ela, inclusive, me apontou para

uma fonte que julgava de grande potencial, mas ainda não muito explorada por historiadores:

O jornal Notícias Populares. Confesso que fiquei um tanto avesso à ideia de explorar essa

publicação. Nutrido pelo senso comum, pensava que pouco interesse poderia haver em um

jornal especializado em notícias policiais e na exploração de tragédias. Logo nos primeiros

contatos que tive com as edições do jornal, porém, vi como era precipitado meu julgamento.

Em seus quase 40 anos de história, o Notícias Populares, ou simplesmente NP, como

(14)

sensacionalista1 brasileira. Nas páginas deste periódico mesclavam-se crimes, acidentes,

casos misteriosos ou bizarros, enfim, fatos do cotidiano caótico da metrópole paulistana2

enquadrados por uma lente de aumento que unia manchetes de meia página, fotos chocantes

e textos escritos em linguagem coloquial e direta. Porém, para além deste receituário da

imprensa sensacional, onde também entravam a vida de celebridades, a cobertura esportiva e

o sexo, o jornal trazia para seu público notícias de política, economia e prestação de serviços.

No curso de sua história, abrigou também colunas escritas por religiosos das mais diversas

crenças, além desindicalistas, sexólogos, policiais, ficcionistas e apresentadores de TV e de

rádio.

O Notícias Populares surgiu em outubro de 1963 com uma clara conotação política.

Os objetivos de seus fundadores, Herbert Levy, deputado, presidente da União Democrática

Nacional (UDN) e dono da Gazeta Mercantil e Jean Mellé, jornalista romeno radicado no

Brasil e que fora perseguido e aprisionado pelos soviéticos no pós-guerra, era conter o

avanço do ideário esquerdista, barrar a ameaça comunista que pairava durante o governo de

João Goulart ao mesmo tempo em que procurava abrir um canal direto de comunicação entre

setores mais conservadores da sociedade e as classes populares. Sua principal meta era

cooptar os leitores do jornal Última Hora, periódico de grande tiragem e de propriedade de

Samuel Wainer que desde sua fundação, apoiado por Getúlio Vargas em 1951, era

identificado pelos conservadores como porta-voz da esquerda populista. Para tanto, o

Notícias Populares procurou estruturar-se com os mesmos alicerces jornalísticos de seu

concorrente, ou seja, com sexo, crime, esportes e cobertura sindical (CAMPOS, JR. Et al.,

      

1 Tida como uma classificação pejorativa para um meio de comunicação, “sensacionalista” se refere à imprensa que busca, por sua pauta e diagramação, respostas emocionais de seu leitor, em contraponto à imprensa tida como “séria”, que tem por objetivo, em tese, a análise sóbria, distante e imparcial dos fatos (ANGRIMANI, 1995, p. 13-4).

(15)

2011, p. 19-22). Nas palavras de Luis Fernando Levy, filho de Herbert e também engajado

na criação do jornal:

Na verdade a ideia de fazer Notícias Populares nasceu quando, neste trabalho assim de contraofensiva, nós verificamos que um dos instrumentos de ação perigosos,

porque pegavam uma população completamente desprevenida e desorientada no

sentido de formação de opinião, era a Última Hora, que em São Paulo tinha cerca de uns duzentos mil jornais de tiragem e que, ao lado da alimentação, vamos dizer, que

davam para o povo – que era sexo, crime e sindicatos – jogavam ideias, distorciam

fatos, enfim, dirigiam a opinião da população e dos trabalhadores, através desse

órgão de comunicação. E nós, em contrapartida, não tínhamos acesso ao populismo,

não só porque na verdade o sistema de comunicação com o povo do pessoal

empresarial é sempre mais complicado e mais difícil, como também porque nós não

tínhamos aquilo que eles queriam ‘beber’, que era um jornal popular. Então nasceu a

ideia de fazer um jornal, dando o que normalmente recebiam... sem o algo a mais... o

ingrediente político que a Última Hora dava debaixo da orientação dirigida na ocasião (LEVY, 1987, p. 79).

Entretanto,apóso golpe militar de primeiro de abril de 1964, o princípio fundador do

NP deixou de ser necessário. Com os militares no poder, estavam afastadas tanto a ameaça

comunista, como a possibilidade de eleições, o que frustrou a candidatura de Levy ao

governo paulista,na qual o Notícias Populares teria importância estratégica. O veículo em

breve mudaria de mãos. Em 1965, o jornal passa a ser controlado por Octávio Frias de

Oliveira e Carlos Caldeira Filho, donos da Folha da Manhã e do Ultima Hora que haviam

(16)

Foi sob a égide do Grupo Folha que o NP ganhou as feições que o tornaram célebre.

Jean Mellé, que havia sido dono de um jornal popular em seu país de origem, se manteve à

frente da redação do Notícias Populares até a sua morte em 1971. Nesse período, o jornal

continuou com pauta sensacionalista, destacando-se também por acentuar a cobertura de

celebridades. Mellé se notabilizou por privilegiar a ligação direta com seu público. Não raro

submetia as manchetes do NP a funcionários pouco especializados da redação e efetuava

mudanças quando estes achavam as “chamadas” difíceis ou desinteressantes (CAMPOS, JR.

et al., 2011, p. 65). Ficou célebre o episódio onde a manchete “Rififi na Assembleia”,

referência a um filme francês da época, foi trocada pelo direto “Quebra-Pau na Assembleia”

após ser submetida a um contínuo que não havia entendido o título original. Além disso,

achava que a forma de venda do jornal, sem assinantes e com poucos anunciantes, tendo as

bancas como grande fonte de renda, trazia mais liberdade ao desenvolvimento do jornalismo,

sem interferência do departamento comercial (ANGRIMANI, 1995, p. 87).

Entre maio de 1972 e 1990 a direção do NP ficou a cargo de Ebrahim Ramadan,

egresso da Folha da Tarde e a quem coube a revitalização do jornal, abalado pela morte de

Mellé e pela desastrada direção de Armando Gomide que, em poucos meses, derrubou a

tiragem do jornal. Nos primeiros tempos da chefia de Ramadan o NP deu grande destaque a

crimes e investiu no apelo sexual, com diversas fotos de mulheres seminuas. As manchetes,

grande chamariz do jornal, passaram a ocupar a capa e o verso do diário, o que rendia uma

dupla exposição ao periódico na banca. O sobrenatural também ganhou força nos primeiros

anos de Ramadan, tendo o nascimento do “bebê-diabo” se tornado a mais icônica série de

reportagens do jornal3. Ainda que tenha rendido bons lucros, a credibilidade do NP ficaria

      

(17)

seriamente abalada com essa abordagem e esse tipo de reportagem foi progressivamente

saindo de sua pauta.

Em 1979, após uma greve de jornalistas, Octávio Frias decidiu fazer uma reforma no

Notícias Populares. O objetivo era trazer um pouco de sobriedade ao veículo e conferir-lhe

uma postura mais “adulta”. Para auxiliar nessa tarefa, foram chamados colunistas como Dom

Paulo Evaristo Arns, Franco Montoro, Almir Pazzianotto, Joaquim dos Santos Andrade e

Luiz Inácio Lula da Silva. As mulheres seminuas deixaram a capa do jornal.

O tom mais sério e a ausência feminina não agradaram ao público leitor. Ramadan

recebeu carta branca para “reformular a reforma”. Hábil, trouxe de volta as garotas da capa,

não só manteve os colunistas como ampliou o seu leque cedendo espaço às minorias

desprezadas pela grande imprensa. Progressivamente, no início dos anos 80, as páginas do

Notícias Populares passaram a estampar artigos de Chico Xavier, de membros da

Seicho-no-iê e umbandistas que se juntaram a católicos e evangélicos nas colunas religiosas. Ao mesmo

tempo, representantes de todas as áreas sindicais passaram a escrever com regularidade no

jornal. Ocultistas, interpretadores de sonhos e até um ufólogo também passaram a integrar o

NP, para felicidade dos esotéricos. Na cobertura televisiva, ninguém menos que Silvio

Santos emprestou seu nome a uma coluna e a então novata Sônia Abrão ficou a cargo da

seção “TVENENOS”. Ramadan também investiu em coberturas sazonais, tendo o carnaval

como seu principal alvo (CAMPOS, JR. et al., 2011, p. 121-6).

A combinação deu certo e o jornal seguiu essa fórmula até o final dos anos 80

quando, sob intervenção direta agora de Octávio Frias Filho, sofreria mudanças

consideráveis em sua estrutura. Iniciada em 1988 ainda com Ramadan na diretoria e

concluída em 1990 por Leão Serva, que o substituiu, a reestruturação do NP desligou 40 dos

(18)

refeito. O modelo de Frias para essa reforma eram os tabloides europeus The Sun da

Inglaterra e Bild da Alemanha, ambos de linha popular e com tiragem na casa dos milhões de

exemplares. Entre 1990 e 2001, quando o jornal finalmente deixou de circular, o diário

conheceu nada menos do que cinco diretores de redação. O processo de desgaste do

periódico ganhou um impulso final em 1999 quando o Grupo Folha apostou em uma nova

marca para sua linha de jornais populares: o Agora São Paulo, que é tido por muitos

jornalistas como o “assassino” do Notícias Populares.

Durante sua existência, o NP testemunhou grandes mudanças na história do Brasil e

interagiu de formas distintas com essas transformações. Com relação ao Golpe Militar, do

qual, como vimos, foi agente indireto, manteve-se mais distante da políticanos anos em que

a ditadura recrudescia e surgia a resistência da luta armada.

O trabalhador urbano está no centro desse redemoinho. O estado de São Paulo

concentrava na década de 1970 cerca de 45% da produção industrial do País e testemunhou

um afluxo migratório positivo em mais de dois milhões de pessoas entre 1970 e 1980

(SILVA, 2008). Em 1980, somente na região do ABC, havia 200.000 metalúrgicos, cujas

famílias totalizavam cerca de 800.000 pessoas em um universo de 1,8 milhão de habitantes

desses municípios (KUCINSKI, 2001, p. 118). Esses trabalhadores que em 1970 estavam

embalados pelo crescimento do país durante o chamado “milagre econômico” chegavam ao

final da década organizando greves para repor os salários corroídos pela inflação e por conta

da perda de benefícios (KUCINSKI, 2001, p. 91-2). Era principalmente para esse trabalhador

urbano o leitor para o qual o Notícias Populares foi dirigido.

Com uma edição diária, dividido normalmente em dois cadernos de 8 páginas (esse

número podia variar dependendo de coberturas especiais), o jornal nunca teve, em sua

(19)

vinha basicamente das vendas em banca. Dessa forma, era fundamental para seus editores

entenderem o que o leitor queria ler. Perceber não só quais informações seu público gostaria

de receber, mas como as tornar interessantes, como criar um roteiro de experiências e

sensações que poderiam ser vividas com sua leitura.

Se por um lado a pauta do jornal pode servir como divertimento e fuga da realidade,

por outro, como afirma Edgard Morin, fornece modelos de vida e propostas de atuação e

ordenação da vida prática (MORIN, 1977). Afinal, paradoxalmente, ao expor cotidianamente

transgressão e transgressor em suas páginas, o jornal sensacionalista cria também as formas

para o cidadão subjugar seus medos, trazendo certa previsibilidade ao caos das metrópoles e

à crônica sensação de insegurança de seus moradores. Adicionalmente, para Jesús

Martín-Barbero:

O sensacionalismo delineia então a questão dos rastros, das marcas deixadas nos

discurso da imprensa por uma outra matriz cultural, simbólico-dramática, a partir da

qual são modeladas várias das práticas e formas da cultura popular. Uma matriz que

não opera por conceitos e generalizações, mas sim por imagens e situações; excluída

do mundo da educação oficial e da política séria, ela sobrevive no mundo da

indústria cultural, onde permanece como um poderoso dispositivo de interpelação do

popular (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 249-50).

Podemos observar, que as análises acadêmicas do periódico Notícias Populares

centram-se principalmente nos campos da linguística e da comunicação social, mais

especificamente na área de Jornalismo. Exemplo da vertente jornalística é a tese “O

jornalismo envergonhado, a idealização do leitor no jornal Notícias Populares” escrita em

1992 pelo secretário de planejamento do NP e professor da Escola de Comunicações e Artes

(20)

periódico e a ampliação das fontes jornalísticas empregadas pelo veículo e como o jornal

“administrava” a emissão das notícias a seu público. Também podemos destacar o TCC da

faculdade Cásper Líbero de jornalismo feito pelos estudantes Celso de Campos Jr., Denis

Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima chamado “Nada Mais que a Verdade: a

extraordinária história do jornal Notícias Populares” que narra toda a trajetória do jornal e foi

transformada em livro.

Atenta à linguagem empregada pelo NP está a dissertação de mestrado de Márcia

Benetti Machado, jornalista da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo: “A

linguagem do "Notícias Populares", uma análise de discurso”, onde a estrutura textual das

matérias do jornal é abordada. Da área jornalística também é importante citar a obra

“Espreme que Sai Sangue: Um estudo do sensacionalismo na imprensa” do doutor em

Comunicação pela USP Danilo Angrimani. Nessa obra, o autor analisa o fenômeno do

sensacionalismo sob a ótica psicanalítica e da linguagem a que ele se vincula utilizando o

Notícias Populares como estudo de caso.

No campo da história, podemos destacar o trabalho “Álcool e Sangue no Jornal

Notícias Populares” (São Paulo 1964/1972)” de Enésio Marinho da Silva da PUC de São

Paulo, em que o pesquisador analisa as reportagens sobre crimes nas quais pelo menos um

dos envolvidos, vítima e/ou agressor, estavam alcoolizados, para traçar um quadro sobre a

violência doméstica do período. No que concerne às relações da imprensa sensacionalista

com as classes subalternas, destacam-se a tese de doutorado de Mariza Romero sobre o

jornal Diário da Noite (“O Diário da Noite” e a Representação das Classes Populares São

Paulo 1950-1960) e a dissertação de mestrado de Henrique Sugahara Francisco sobre o

jornal A Capital (Em cena, os inimigos do moderno: Os adeptos das práticas

(21)

PUC-SP. Nesses trabalhos podemos ver esses dois veículos de imprensa popular, cada um a

seu modo e com as preocupações de seu tempo, tratando seu público leitor com uma clara

preocupação pedagógica, visando reforçar os valores caros às elites e coibir práticas que

julgam “atrasadas” e/ou “perigosas”.

Ao iniciarmos nossa abordagem do Notícias Populares, alguns elementos chamaram

nossa atenção: o jornal não possuía um Editorial, uma coluna diária em que o veículo se

posicionasse sobre assuntos de repercussão ou firmasse posicionamentos políticos. Era a

pauta do jornal como um todo que melhor refletia a tentativa diária de cooptação do leitor e

nesse reflexo podemos observar também diversos dos elementos constituintes do dia-a-dia

das classes trabalhadoras, que inclui e transcende as relações com o mundo do trabalho e

com a metrópole paulistana, fornecendo pistas para a compreensão dos valores, do

imaginário e da forma de dar sentido à experiência do real vivida por estes sujeitos

históricos.Como aponta Pierre Bourdieu, ao destacar o aspecto relacional do real, é preciso

compreender mais “as escolhas que os agentes sociais fazem nos domínios mais diferentes

da prática, na cozinha ou no esporte, na música ou na política etc.” (BOURDIEU, 1996, p.

18).

Não se passa de classe-no-papel à classe “real” a não ser por um trabalho político de

mobilização: a classe “real”, se é que ela alguma vez existiu “realmente”, é apenas a

classe realizada, isto é, mobilizada, resultado da luta de classificações como luta

propriamente simbólica (e política) para impor uma visão do mundo social, ou

melhor, uma maneira de construí-la, na percepção e na realidade, e de construir as

(22)

E como melhor utilizar o Notícias Populares para ajudar a aclarar a experiência do

real vivida por seu público? Como vimos, são inúmeros os assuntos e os colunistas de um

jornal diário que circulou por quase quarenta anos. Surge a necessidade de estabelecer

recortes.

Quando a presente pesquisa ainda se encontrava em fase de projeto, balizamos o

recorte temporal entre 1979, início do mandato de João Figueiredo, último presidente militar,

ano também de uma reformulação editorial importante realizada pelo jornal, chegando até o

final de 1984, contemplando assim um importante período no processo de transição política

no Brasil. Da pauta NP, três elementos se destacaram e seriam abordados: a cobertura que o

jornal realizou das greves operárias de 1979-80, a diversidade de colunas devotadas à

religiosidade/espiritualidade e o crescimento da exploração da temática da sexualidade pelo

jornal.

Logo ficou claro que tentávamos “ousar saber” demais para os limites cronológicos

de um mestrado. Sofia haveria de fazer, literalmente, sua escolha. O assunto que se mostrou,

ao mesmo tempo, mais candente nesse período e que seria capaz de trazer à luz elementos

mais ricos para podermos ampliar nossa compreensão sobre as classes populares foi o da

sexualidade. Mantivemos o ano de 1984 como o marco final da pesquisa. Já o ano de 1982

foi estabelecido como novo marco inicial de nosso trabalho. Ele marca o progressivo

aumento do número de matérias específicas sobre a sexualidade feitas pelo jornal.

Primeiramente observamos abordagens ocasionais, feitas ora por médicos que tratavam

sobre alguma doença venérea, ora por colunistas que abordavam o tema com ar professoral e

(23)

“As mulheres podem ser criaturas misteriosas para um homem, mas, não para todos”.

era o que, em 17/06/1982 nos dizia Jacinto Figueira Jr.4 em sua coluna que, naquele dia,

recebia o título de “O Sexo e o Amor”. “As pessoas bem educadas, que sentem-se (sic)

satisfeitas sexualmente, são bem-humoradas, sociais e extrovertidas ou aberta e francas para

com os outros”, prossegue o colunista. “Quem vive bem sexualmente ama aos outros e é

amado. O mais importante no sexo é o desenvolvimento do carinho, do afeto da ternura do

calor amoroso”, ensina Jacinto antes de concluir mais adiante que “O sexo desempenha um

papel importante na vida do ser humano, desde que seja dominado e educado. Se não for

assim, destrói totalmente a mesma”5.

Em 08/07/1982 o colunista voltaria à carga, escandalizado. Ele começa por denunciar

às autoridades “a venda de mulheres a preços módicos”. A prostituição incomodava o

colunista: “Os ‘rendez-vous’ estão a (sic) vontade e a todo vapor, sem serem incomodados

por ninguém. Agora até propaganda eles estão fazendo para atrair a clientela dos virginais e

mal-amados”. Após listar nominalmente algumas casas e os ilícitos associados à prostituição

que cometiam, o “Homem do Sapato Branco” chamava atenção para “outra vergonha

desmoralizante”, um sex-shop com várias filiais que estava “vendendo todo tipo de safadeza

a preços módicos” e mais “O atentado à moralidade e aos bons costumes termina com a

venda indiscriminada de revistas eróticas e pornográficas, onde [que] você encontra em

qualquer banca da cidade”. Jacinto pergunta indignado: “Aonde está (sic) a moral e os

princípios éticos da sociedade e da família?” a resposta é taxativa: “na lata do lixo”. O

colunista termina registrando que:

      

4 Famoso radialista e apresentador de TV com passagens pela Rádio Nacional, pela TV Cultura, conhecido por, em 1966, criar o programa “O Homem do Sapato Branco” na Rede Globo, era um destacado colunista do Notícias Populares.

5 FIGUEIRA JR, J. Fala O Homem do Sapato Branco: O Sexo e o Amor.

Notícias Populares, São Paulo,

(24)

[N]A av. Antártica, no bairro da Água Branca, mais de cem mundanas e travestis

participam da extravagante passarela do sexo. Um escândalo vergonhoso e sem fim.

As famílias que ali residem, a tudo assistem sem nada poderem fazer. É um vai e vem

de almas doentes, com tarados em compasso de espera em seus carros, pagando por

um momento de prazer6.

Travestis e prostitutas são “almas doentes” e seus clientes, tarados. As fantasias e o

erotismo são tidos como elementos nocivos a uma sexualidade sadia. Ficam evidentes

diversos dos elementos que deveriam corresponder à visão “educada e controlada” que o

colunista tinha sobre a sexualidade. Mas Jacinto Figueira Jr travava uma batalha perdida.

A sociedade brasileira do começo da década de 80 estava em efervescência e queria

discutir e se fazer ouvir das mais diversas formas, tanto no campo político, como no campo

social. Já no correr da década de 70 emergiram na região metropolitana de São Paulo

diversos movimentos basistas, organizados por setores das classes populares aglutinados por

ações da Igreja Católica e reivindicadores de direitos. Donas-de-casa da Zona Sul da capital

se uniram contra a carestia, representantes de associações de bairros da Zona Leste se

mobilizaram para a melhoria do atendimento à saúde, levando suas demandas diretamente às

autoridades oficiais (SADER, 1988).

Entre 1978 e 1980 metalúrgicos do ABC paulista organizaram movimentos grevistas

que puseram em xeque o Regime Militar. Reocupando os espaços públicos como território

de manifestações e contestação de ações governamentais, ao mesmo tempo em que estendia

à fábrica ao bairro e à igreja o campo de ação política, apoiados por amplos setores da

sociedade e demonstrando alta capacidade de organização, os movimentos grevistas

      

6 FIGUEIRA JR, J. Fala O Homem do Sapato Branco.

(25)

marcaram a consolidação da classe trabalhadora como força ativa do debate que se abria na

sociedade brasileira acerca do modelo de democracia a ser construído no período de

transição (NAPOLITANO, 2006).

Como ressalta o Professor Marcos Napolitano:

Apropriando-se do mote da democracia, múltiplas alternativas históricas foram

delineadas, tendo em vista a transição política. Ainda que a solução conservadora e

elitista tenha prevalecido, de qualquer modo, o período que vai do fim dos anos 70

até o começo dos anos 80, pode ser caracterizado como um dos nossos “tesouros

perdidos” da história: um momento em que a esfera pública se viu aberta à

formulação de novos projetos, identidades e sociabilidades políticas

(NAPOLITANO, 2006, p. 104).

Não eram só trabalhadores e donas de casa que se uniam e começavam a lutar por

direitos e experimentavam novas formas de associação. Como destaca o Professor James N.

Green: “Estudantes encheram as ruas das maiores cidades brasileiras com gritos de “Abaixo

a Ditadura!”. Estações de rádio começaram a tocar músicas censuradas, e estas se tornaram

as canções mais populares no país. Negros, mulheres e até mesmo homossexuais começaram

a se organizar, exigindo ser ouvidos0”. Atendo-se especificamente sobre aos homossexuais,

Green continua:

Durante o longo verão entre 1978 e 1979, uma dúzia de estudantes, escriturários,

bancários e intelectuais reuniam-se semanalmente em São Paulo. Indo de

apartamento em apartamento, sentando no chão por falta de móveis suficientes, eles

planejaram o futuro da primeira organização pelos direitos dos homossexuais no

(26)

participantes, na maioria homens gays, mas também algumas lésbicas que iam e

vinham, debatiam as últimas matérias contra os homossexuais publicadas pelo jornal

escandaloso Notícias Populares, e a resposta que deveria ser dada pelo novo grupo, Ação pelos Direitos Homossexuais. Eles também liam cuidadosamente cada número

da recém-lançada publicação mensal Lampião da Esquina. Este novo jornal, de tamanho tablóide, era produzido por um grupo de escritores e intelectuais do Rio de

Janeiro e São Paulo, e se declarava um veículo para discussão de sexualidade,

discriminação racial, artes, ecologia, e machismo (GREEN, 2000, p. 273).

De fato, não era apenas em colunas como as de Jacinto Figueira Jr. que a

homossexualidade era estigmatizada pelo NP. Não raro os homossexuais tinham sua

orientação exposta como parte constituinte de matérias policiais, ou então como a razão do

acontecimento de tragédias e desventuras.

Apenas para citarmos alguns exemplos: A notícia “Homossexuais falsificavam tudo”

de 18/08/1982, tratava do caso de um travesti preso por falsificar documentos. A manchete

“SAPATÃO ENDOIDA E BAGUNÇA CORETO NA CASA DA MULHER” acerca de um

desentendimento entre um casal de lésbicas estampava a capa de 05/09/1982. Em

21/10/1982 o NP trazia em sua página sete a chamada “Homossexual ciumento é ferido a

facadas”, sobre um desentendimento entre um casal de homossexuais motivado pelo fato de

que um dos amantes (o agressor) se engajara em um romance heterossexual. Novamente em

primeira página, em 06/11/1982, temos “ATRIZ SE SUICIDA PELO AMOR DE UMA

LÉSBICA”, matéria que relata em tom romanesco, na página sete daquela edição, o caso de

amor frustrado entre uma atriz de filmes eróticos e uma moça que ela havia conhecido em

(27)

Fica evidente que a homossexualidade é, de fato, retratada pelo NP como um

comportamento desviante, motivador de atitudes condenáveis, muitas vezes fruto de

desequilíbrio emocional. Prova disso é que não encontramos notícias no jornal tais como

“Heterossexuais Falsificam Documentos”, da mesma forma que, nas páginas do periódico,

heterossexuais não “endoidam” e quando morrem (ou matam) por razões sentimentais, o

fazem simplesmente por amor, e não por um amor heterossexual.

Porém, o final dos anos 70 e o início dos anos 80 marcam o período não só do início

de uma organização mais elaborada de grupos para a afirmação da identidade e pela luta de

direitos homoafetivos. Uma discussão mais ampla sobre a sexualidade já havia chegado

também à grande mídia. Exibido entre 07/04/1980 e 27/06/1986, o programa TV Mulher da

Rede Globo foi o primeiro a contemplar o assunto da sexualidade na televisão brasileira

através do quadro “Comportamento Sexual”, no qual a sexóloga Marta Suplicy respondia às

mais diversas dúvidas dos espectadores sobre o tema. Não havia só curiosidade em relação à

sexualidade, mas a verdadeira necessidade de se discutir um assunto tão pouco abordado.

Em “Conversando Sobre Sexo”, livro publicado ainda em 1983, Marta pontuava:

A visão da sexualidade mudou muito rapidamente nas últimas décadas. Essa

mudança deixou os pais meio perdidos, porque eles vêm de uma geração onde tudo

era proibido, e agora [se] deparam com uma liberdade que não entendem e que

desperta muito medo. (...)

Uma época de transição, como a que estamos vivendo, é um momento difícil para a

construção de um sistema de valores sexuais. Antigamente os valores sexuais

mudavam vagarosamente. Com o advento dos meios de comunicação, valores que

levariam décadas parasse modificar mudam de ano para ano (SUPLICY, 1983, p.

(28)

Não era, entretanto, somente o contexto de modernização tecnológica que

influenciava a questão em nosso país. A ambiguidade no processo de Abertura Política, ao

mesmo tempo em que ensejou a emergência do debate sobre sexo na sociedade brasileira,

marcou também a tentativa, por parte do poder central, de limitar seu alcance. Em 26 de

novembro de 1982, o quadro de Marta Suplicy chegou a ser tirado do ar pela censura,

retornando uma semana depois, graças a amplas manifestações da sociedade civil (SUPLICY,

1983, p. 20-1).

Poucas semanas antes desses acontecimentos e claramente percebendo a mesma

vontade de seu público em discutir a temática sexual, o Notícias Populares estreava, em 06

de outubro de 1982, um novo espaço: “A partir de hoje e todas as quartas e sextas-feiras, o

leitor encontrará, uma nova coluna. Tudo Sobre Sexo, trazendo explicações científicas para

esclarecer todas as suas dúvidas”7. A coluna, durante todo o período dessa pesquisa, foi

assinada por Kate Meir. Ela não se apresenta a seu leitor, nem é apresentada pelo jornal. Não

foram encontrados livros ou artigos escritos por ela. É provável que se trate de um

pseudônimo. Acredito que a real identidade de Kate não seja tão importante quanto o fato de

ela assinar uma coluna que o próprio jornal chancela como científica.

A coluna Tudo Sobre Sexo será analisada no primeiro capítulo deste trabalho.

Observaremos a importância estratégica de seu caráter pioneiro. Ao assumir o discurso sobre

a sexualidade, a coluna procurou imprimir a sua visão sobre o assunto, reforçar alguns

valores e condenar outros. Representou, sem dúvidas, avanços, mas dentro de limites

importantes e que pretenderemos aclarar.

Poucos meses depois do aparecimento de Tudo Sobre Sexo, a abordagem “científica”

da sexualidade ganhava a companhia de acontecimentos da vida cotidiana da cidade, às

      

7

(29)

vezes reais às vezes inventados. Em 10 de março de 1983 estreavam as Histórias da Boca:

“Não deixe de ler a partir de hoje as histórias reais, vividas nas regiões do Centro, Vila

Buarque e Consolação e colhidas por nossos repórteres”8.

As Histórias da Boca serão apreciadas no segundo capítulo do persente trabalho. As

Histórias foram relatos dos repórteres policiais do NP que frequentaram, em seu dia-a-dia

profissional, a região conhecida como Boca do Lixo no centro de São Paulo. A Boca foi um

conjunto de ruas que concentrava bares, prostíbulos, pequenos hotéis e cinemas. Foi o local

em que diversão, contravenção e crimes formaram uma trinca perfeita para um jornalista do

Notícias Populares. Lá eles conheceram lugares, figuras humanas peculiares e,

principalmente, presenciaram e ouviram muitas histórias. O drama deu o tom desses

acontecimentos e permeou a existência dos sujeitos-personagens retratados pelos

jornalistas-narradores do NP nas Histórias. Porém o riso, a ironia e as surpresas também

desempenharam seus papeis. As Histórias da Boca trouxeram essas experiências mais perto

do leitor do jornal.

Embora não se dedicassem exclusivamente à sexualidade as Histórias tiveram na

temática sexual um de seus principais eixos. Prostitutas, travestis, lésbicas, cafetões

dividiram a cena do submundo paulistano com policiais, jornalistas, e outros tantos

anônimos que se revezam nos papéis dos “malandros” e dos “otários”, das vítimas e dos

algozes.

É o que Jesús Martín-Barbero classificou como a voz por meio do qual se expressa o:

Rouco submundo que nem à direita culta nem à esquerda política pareceu interessar.

Para uns por ser escuro, perigoso e culturalmente aberrante; para outros, por ser

confuso, mistificado e politicamente não utilizável. (...) Fazendo em pedaços a

      

8

(30)

imagem do popular romântico-folclórico, o folhetim fala do popular-urbano: sujo e

violento, o que geograficamente se estende desde o subúrbio até a penitenciária,

passando pelos hospícios e as casas de prostituição (MARTÍN-BARBERO, 2006, p.

191-2).

Das Histórias, nas quais a tragédia está sempre à espreita, emergem os valores e os

códigos de ética e comportamento de seus personagens. Escritas por jornalistas que

vivenciaram a noite e a cena policial paulistana, as Histórias da Boca revelaram detalhes de

um universo a um só tempo desconhecido e fascinante para a maioria dos leitores do jornal,

ao mesmo tempo em que muitas de suas fontes podiam ser ver retratadas nas tramas, seja

através de nomes, lugares ou de acontecimentos. Observar as lições e mensagens que essas

histórias carregam será o foco de nossa atenção.

Cabe destacar que, além da coluna Tudo Sobre Sexo e das Histórias da Boca, também

a pauta geral do Notícias Populares se abriu, no correr do recorte temporal deste trabalho,

para a temática sexual. Mostrar esse panorama será a preocupação de nosso terceiro e último

capítulo. Primeiramente veremos a cobertura que o Notícias Populares dedicou ao

aparecimento e rápido crescimento de uma epidemia que impactou profundamente as

relações humanas e afetivas: a AIDS. A forma como o jornal tratou a doença será posta em

perspectiva e pretenderemos evidenciar com isso alguns dos limites do conceito de

sensacionalismo tão associado ao NP.

Passado o trauma do surgimento da AIDS, nosso terceiro capítulo prossegue

acompanhando o progressivo aumento da carga de sexualidade empregada nas matérias do

jornal. Este fenômeno será apresentado ao analisarmos a série de reportagens que o Notícias

(31)

no bairro paulistano dos Jardins e que, àquela altura, causava grande incômodo aos seus

elegantes vizinhos.

A escalada da sexualidade nas páginas do NP atinge seu ápice em 1984. Em maio

daquele ano uma transexual estrela pela primeira vez um ensaio da revista masculina

Playboy. Ela é Roberta Close. O enorme sucesso de vendas da publicação alça Roberta ao

posto de símbolo sexual do Brasil. Está armada a confusão: Os homens brasileiros se

apaixonaram por uma mulher que havia nascido homem. O Notícias Populares não vai ficar

indiferente ao assunto. A forma como o jornal encara o “mito” Roberta Close, será nossa

preocupação na sequência deste capítulo.

Por fim, na esteira das matérias sobre Roberta, o jornal passa a publicar a partir de

junho de 1984, reportagens especiais, aos domingos, nas quais o sexo é o grande tema. A

vida de atores de filmes eróticos, fetiches e curiosidades sobre o mundo gay serão alguns dos

assuntos abordados. Duas coberturas, entretanto, mereceram maior atenção de nossa parte:

Os bastidores de um serviço de agenciamento de travestis e o caso do desempregado Paulo

Gonçalves, o “Pelezão”.

A primeira das duas reportagens nos ajudará a compreender alguns dos elementos que

subjazem ao aparecimento do fenômeno Roberta Close. Já o caso de “Pelezão”, um

desempregado que é assediado por uma psicóloga na fila de distribuição de sopa do Cetren, a

Central de Triagem e Encaminhamento, localizada no bairro paulistano do Cambuci, nos

revela algumas das estratégias que o jornal utilizava para se identificar com seu público,

fornecendo pistas importantes dos valores que, naquele momento, eram prezados pelo seu

leitor especialmente em relação à masculinidade.

Pretendemos com esses três capítulos alargar a compreensão da forma como o jornal

(32)

esse veículo da imprensa sensacionalista não como pária da indústria cultural e contraponto

ao jornalismo “sério” da forma como é comumente visto, mas sim como o engendrador de

complexas representações e significados que esperamos poder apresentar nas páginas que se

(33)

Capítulo I

Tudo Sobre Sexo no

NP

:

Tradição, Família e Sexualidade

1 – Um breve panorama

No Brasil, foi no final do século XIX e primeiras décadas do XX que começou a

estruturar-se um processo de industrialização com o surgimento de uma burguesia nos

moldes da europeia e com o aparecimento de um proletariado fabril. De qualquer forma, em

boa medida, ainda importávamos modas, padrões culturais, arquitetônicos e científicos da

Europa de um modo geral e, nesse momento, da França em particular.

No campo do sexo no ambiente urbano, a prostituta francesa foi especialmente

importante como vetor de novos costumes e novos padrões, porque nesse:

Momento histórico em que a burguesia e as camadas médias se deslumbravam com

as conquistas do progresso, o mundo da prostituição era vivenciado, no plano

simbólico, em sua dimensão modernizante. Um jornalista explicava em 1916:

“Importamos tudo do estrangeiro, até seus vícios, seus maus costumes. É a nevrose

latente do francesismo” [A Capital, 01/09/1916]. Relacionar-se com a prostituta

estrangeira, mulher experiente e desconhecida, satisfazia a expectativa burguesa de

se ver introduzida nos hábitos sexuais avançados das sociedades modernas (RAGO,

1991, p. 169).

Mas é preciso lembrar que essa liberalidade se restringia apenas aos homens. Da

(34)

castidade e o recato. O namoro de uma família burguesa era um ritual vigiado em que o par

mal podia se tocar e era precedido, além da autorização dos pais da noiva,

De uma série de preparativos formais que levavam ao casamento; as moças,

cuidadosamente resguardadas, nunca poderiam ser deixadas a sós com homens que

não fossem parentes próximos. Com olhos vigilantes, a mãe deveria sempre

acompanhar as filhas às festas, observando-as enquanto dançavam, jamais as

perdendo de vista (CARMO, 2011, p. 210).

No que se refere ao proletariado, o medo da burguesia em relação às suas formas

“incivilizadas” de morar e viver demandou uma maior atenção por parte de médicos,

higienistas, criminologistas e inspetores públicos ao que se passava no interior dos cortiços,

favelas e botequins. As “classes perigosas”1 precisavam ser dominadas, era necessário que

seus hábitos fossem moralizados e seus costumes devidamente regrados: “A família nuclear,

reservada, voltada sobre si mesma, instalada numa habitação aconchegante deveria exercer

uma sedução no espírito do trabalhador integrando-o ao universo dos valores dominantes.

O reinado da família permaneceu sem maiores contestações nas décadas seguintes até

o surgimento de uma importante inovação científica. A partir dos anos 60 e da

comercialização da pílula anticoncepcional iniciou-se uma revolução nos costumes. A

organização de movimentos feministas2 e de luta por direitos dos homossexuais colocou a

sexualidade em debate.

1 No tocante aos discursos de finais do século XIX, dizia-se que “os pobres carregavam vícios, os vícios produzem os malfeitores, os malfeitores são perigosos à sociedade; juntando os extremos da cadeia, temos a noção de que os pobres são, por definição, perigosos” (CHALHOUB, 1996, p. 22).

(35)

No Brasil, devido à censura imposta pela ditadura civil-militar iniciada em 1964,

discussões mais sistemáticas e articulações de movimentos sociais em torno da sexualidade

só foram verificadas com mais intensidade entre meados da década de 70 e princípios dos

anos 80. Era o momento em que a sociedade começava a falar mais abertamente sobre sexo,

buscar informações e discutir o assunto.

Foi um período em que a sexualidade passou a ganhar espaço nos meios de

comunicação de massa e na imprensa. O jornal Notícias Populares percebeu que seus

leitores também queriam discutir o assunto e viu aí uma chance de, a um só tempo, agradar

seu público e articular seu discurso sobre o tema.

2 – Tudo Sobre Sexo entra em cena

Explorar a sexualidade não constituía propriamente uma novidade na pauta de um

jornal sensacionalista. Como revela Ramão Gomes Portão, editor do Notícias Populares, a

pauta do jornal precisava “captar o desejo do homem da rua. E disto não tenham dúvida: ele

quer sangue e mulher, crime e sexo” (PORTÃO, 1969a). A maneira mais direta encontrada

para satisfazer o desejo do público leitor do NP por sensualidade era a exposição diária de

mulheres seminuas na capa do jornal, as chamadas Máquinas do NP.

Com o olhar provocante e em poses sensuais, moças, na sua maioria dançarinas de

boate e atrizes de filmes adultos, atraíam o olhar do leitor que passava pela banca de revista

com pernas e até seios à mostra. Na seção de Variedades do jornal, mexericos e entrevistas

com atrizes famosas, modelos em evidência e cantoras populares também rendiam boas

(36)

páginas também estampavam anúncios de peças de teatro e filmes adultos em cartaz nos

cinemas do centro de São Paulo3.

Porém, como vimos, no início dos anos 1980 o desejo do público por sexo pedia mais

do que a simples estimulação dos sentidos. O público leitor desejava mais informações e

queria discutir o assunto. Captando habilmente essa demanda, o jornal lançou em 06/10/1982

a coluna Tudo Sobre Sexo.

Inicialmente pensada para ser publicada duas vezes na semana, a coluna anunciava na

capa do jornal daquele dia que vinha “trazendo explicações científicas para esclarecer todas

as suas dúvidas”. O sucesso foi instantâneo e logo na semana seguinte ao seu lançamento, o

jornal passou a publicar Tudo Sobre Sexo diariamente.

A coluna dividia espaço com a seção de Variedades do jornal. Normalmente era

publicada no topo da página 11, a terceira do segundo caderno da publicação. Abaixo dela

vinha o “Chacrinha no NP” com notas sobre o mundo televisivo. Não eram raros que os

anúncios de filmes adultos disputassem a atenção do leitor na mesma página de Tudo Sobre

Sexo. A página de 07/03/1983 ilustra bem essa situação:

(37)

A coluna abordou uma enorme gama de assuntos dentro do mundo da sexualidade,

tais como masturbação, doenças venéreas, impotência, frigidez, zonas erógenas, virgindade,

infertilidade, homossexualidade, fantasias e desvios sexuais.

A partir de 27 de março de 1983 Tudo Sobre Sexo também passou a dedicar um dia

da semana, os domingos, para responder aos leitores da publicação. Orientados a enviar suas

perguntas por carta e com um pseudônimo para a resposta, eram esclarecidas as dúvidas que

assolavam os leitores. Por questão de espaço e de discrição eram publicadas somente as

respostas, podendo os leitores em geral, na grande maioria das vezes, intuir quais eram as

perguntas das seis ou sete cartas atendidas por semana.

Os assuntos eram diversos, porém a maior parte dos questionamentos dizia respeito à

potência sexual, forma e tamanho do pênis, dúvidas quanto à masturbação, virgindade e uso

de acessórios para o aprimoramento da atividade sexual. Outros, menos avisados do intuito

científico da coluna, escreviam na tentativa de encontrar pares românticos e tinham suas

cartas respondidas unicamente para serem lembrados de que o espaço não se dedicava a esse

fim.

As cartas, de um modo geral, deixam transparecer um profundo desconhecimento do

público sobre temas elementares da sexualidade. Também é perceptível um desejo coletivo

por se enquadrar dentro do que é considerado “normal”. “Possuo um órgão genital do

tamanho e formas normais?” “A frequência de relações sexuais que tenho com minha mulher

é considerada normal?” Meu desejo sexual por uma pessoa do mesmo sexo é normal? Essas

são algumas das questões que, embora não enunciadas formalmente (lembremos que a

coluna omite as perguntas de seus leitores), estavam presentes em várias das semanas

(38)

Outro elemento importante a ser assinalado nessa interação entre Tudo Sobre Sexo e

seus leitores é que, por diversas vezes, algumas das colunas da semana se pautavam pelas

perguntas respondidas no domingo. Caso o espaço para esclarecimentos fosse considerado

curto em relação à relevância do assunto, ou a pergunta a ser respondida fosse comum a

muitas cartas, o tema em análise ganharia uma coluna exclusiva.

Durante o recorte temporal deste trabalho, Tudo Sobre Sexo foi assinada por Kate

Meir. O jornal não faz nenhuma apresentação da colunista e nem ela mesma o faz, ou

fornece suas credenciais. Somente depois de quase um ano da estreia da coluna, é que o

jornal dá algumas pistas sobre a identidade de Kate. Em 02/10/1983 ela foi chamada a opinar

sobre um rumoroso caso de zoofilia. A matéria cujo título era “Maníaco da galinha deu no

pé” informava que o serralheiro Petrúcio Luís de Oliveira estava desaparecido após ter sido

indiciado em inquérito do 39° distrito policial da capital. Petrúcio havia violentado uma

galinha, de propriedade de sua vizinha.

Sob o intertítulo “Kate Meir: ‘É caso de psiquiatria’” o leitor era apresentado à Kate:

“Estudiosa há mais de vinte anos dos problemas sexuais e dos desvios de conduta, a cientista

Kate Meir, colunista deste jornal, acha que Petrúcio necessita, com urgência, de tratamento

psiquiátrico”. Pouco mais adiante, a matéria relata que “A cientista [Kate] lembra que o

relacionamento sexual com animais chega a ser comum em regiões rurais e também em

algumas tribos primitivas” e abre novo espaço à colunista “’É bom que se frise’ – torna a

falar a professora Kate Meir – ‘que não são apenas indivíduos do sexo masculino que

buscam esse tipo de relacionamento”4.

Curiosamente, não foram encontradas referências bibliográficas sobre essa estudiosa

tão capacitada. Não existem livros, teses ou artigos publicados por Kate Meir. É provável

que se trate, na verdade, de um pseudônimo. Consideramos que esse fator, contudo, possui

4 “Maníaco da galinha deu no pé”.

(39)

relevância menor. O jornal chancela Kate Meir como uma especialista e como tal ela escreve

e é vista pelos leitores que a ela dirigem perguntas e querem a sua opinião sobre os mais

diferentes problemas e dúvidas de suas vidas sexuais.

Interessante notar também a especialidade de Kate, “estudiosa há mais de vinte anos

dos problemas sexuais e dos desvios de conduta”. Kate é uma caçadora de anomalias, uma

verdadeira ortopedista do comportamento sexual e foi assim, efetivamente, que ela se

comportou em seus textos no correr do período analisado.

Embora reiterasse diversas vezes em suas colunas que não pretendia julgar ninguém,

e que cada um tinha o direito de se comportar em matéria de sexo como quisesse, Kate Meir

compôs um quadro bastante nítido do que seria, a seu ver, o comportamento sexual adequado

e desejável.

Veremos, nas páginas seguintes deste capítulo, esse quadro surgir em negativo, ao

lançarmos nosso olhar sobre algumas das anormalidades que preocupavam a colunista,

chancelada pelo Notícias Populares como uma cientista apta a responder “todas as dúvidas”

de seus leitores.

3 – Uma “anomalia” preocupa Tudo Sobre Sexo: A Homossexualidade

Foi com o texto “Medicina e Homossexualismo” que a coluna Tudo Sobre Sexo

abordou pela primeira vez, em 28 de novembro de 1982, a questão da identidade

homossexual. Esta coluna abriu uma série de outras cinco sobre o mesmo tema que seriam

publicadas nos dias seguintes. Duas delas tratando da homossexualidade masculina, duas da

homossexualidade feminina e outra que se ateve à definição de travesti. Em “Quem é o

verdadeiro travesti”, de 03/12/1982, a autora se preocupa com distinguir o homem,

heterossexual, que possui a fantasia sexual (“desvio” em seu raciocínio) de se vestir de

(40)

homossexuais, “que se exibem em palcos ou até mesmo partem para a prostituição”. O termo

travesti, no entanto, se consagrou da forma como a colunista se opôs. Para a fantasia sexual

do homem heterossexual que se veste de mulher para obter satisfação, acabou prevalecendo

a denominação em língua inglesa “crossdresser”.

Esta não foi a única vez que a coluna se ateve ao assunto. Em outras 24

oportunidades dentro do recorte temporal desta pesquisa, Tudo Sobre Sexo tratou da temática

de homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais. Temos assim, nos pouco mais de dois

anos de publicação diária da coluna que estão sob análise, 30 delas, o equivalente a um mês

inteiro, dedicado ao tema. Este número expressivo é um forte indicativo da relevância da

questão, não só para grupos de homossexuais que em princípios da década de 80 começavam

a se organizar de forma mais sistemática, como para o público consumidor de um veículo de

comunicação de massa.

Antes de nos determos de maneira mais aprofundada nos detalhes que compõem a

visão da coluna sobre o tema, é importante destacar que, a mera abordagem da

homossexualidade de forma extensa e com o intuito eminentemente informativo dentro de

um veículo da grande imprensa do período e, mais precisamente, dentro de um jornal

símbolo do sensacionalismo no Brasil, representou um grande avanço, à despeito de suas

imprecisões e de perspectivas que, nos dias de hoje, possam saltar aos olhos como superadas

ou preconceituosas.

Não se trata de tentar colocar o Notícias Populares “à frente de seu tempo”, algo de

resto impossível em análises históricas, porém seu pioneirismo nesse aspecto carrega, e aí

está sua riqueza, as contradições que estavam postas no período e dentro do próprio

periódico. O jornal começava a discutir os temas da sexualidade, o que propiciou a revelação

(41)

A questão da homossexualidade é, sem dúvida, paradigmática. Tradicionalmente, o

tratamento que o jornal sensacionalista dá ao homossexual “é preconceituoso,

marginalizante, ofensivo e retrógrado. O homossexual aparece como um perverso

degenerado, cuja conduta fere a ‘normalidade’ e coloca em risco as instituições”

(ANGRIMANI, 1995).

A coluna Tudo Sobre Sexo rompeu essa lógica unicamente excludente ao procurar

informar seu leitor sobre este assunto de forma mais direta, valendo-se de um discursoque se

pretendia cientificamente estruturado . Tal atitude que, como veremos, é muito mais próxima

da tolerância determinada por condicionantes que da aceitação incondicional da

homossexualidade tampouco implicou em uma mudança profunda na forma como a

homossexualidade foi tratada pela pauta do veículo. Mas é importante pontuarmos que, nesse

mesmo período, também podemos observar no NP o aparecimento de notícias que, ao lado

das que usualmente expunham a homossexualidade e o homossexual diretamente associados

à criminalidade e a degeneração, versam sobre curiosidades e amenidades do universo agora

denominado “gay”.

Notícias como “Matou o irmão porque era homossexual” de 27/01/1983 na qual o

assassino é descrito como um criminoso regenerado e a vítima como uma “bicha arruaceira

da pior espécie” ou “Lésbica mata outra na disputa de uma mulher” de 10/04/1983, na qual a

orientação sexual é o qualificativo principal de uma assassina, estão ao lado de notícias que

cobriam concursos de beleza, tais como a manchete que estampava, com foto, a capa de

25/11/1982: “Mundo Gay escolhe os mais belos travestis”, ou ainda a escolha da Miss Gay

de 1983, destacada na capa de 29/03/1983. Descoladas da pauta policial, matérias como essa,

ainda que temperadas com ironia, associavam a homossexualidade a alegria e nelas era

realçada a beleza das travestis.

(42)

Aceitos ou não por uma sociedade ainda cheia de escrúpulos e falsos moralismos, os

homossexuais, ou terceiro sexo, tanto masculinos e femininos estão aí, cada dia

mostrando mais abertamente a sua condição, para desespero de muitos e piedade de

outros tantos.

Entretanto, longe de ser incentivada, a homossexualidade não deve ser motivo de

ódio ou dó. Porque não é isso que os seus portadores desejam. Muito pelo contrário,

a grande maioria necessita apenas ser aceita como um ser humano qualquer, que deve

ser visto independente de suas preferências sexuais. O que torna o homossexual

“diferente” é exatamente a atitude que acaba por tomar, de desafio, perante um

mundo que o hostiliza.

Depois de anos e anos de estudo, a medicina ainda tem apenas esboços do que venha

a ser a homossexualidade. Para alguns cientistas, trata-se de um problema hormonal.

Estudos feitos com homossexuais indicaram que alguns deles, homens ou mulheres,

têm taxa de hormônio, masculino ou feminino, mais baixa do que os heterossexuais,

ou seja, pessoas que fazem o coito com o sexo oposto. Mas nem todos apresentam

essa anomalia. Apenas aqueles que eram totalmente homossexuais sem a menor

possibilidade de volta.

Provavelmente os portadores de homossexualidade congênita, sem influência de

fatores psicológicos.

Ao mesmo tempo, foi provado, com experiências em animais, que injeções de

hormônio contrário ao próprio sexo, provocam anomalias.

Para os psicanalistas, o homossexualismo não pode ser considerado doença, embora

muitos consigam tratar e curar seus portadores.

Uma forte corrente, entretanto, é de opinião que a única maneira de se tratar

homossexuais é compreendendo e aceitando sua situação.

Só assim os homossexuais conseguirão levar uma vida normal, independente do que

Referências

Documentos relacionados

14 Caracterização do Sistema Extrativista e Coeficientes Técnicos de Produção Para o Sistema Extrativo da Castanheira-do-Brasil (Bertholletia Excelsa H.b.k) Praticado Pelos

considerações acerca do sujeito na obesidade mórbida / Lívia Janine Leda Fonseca Rocha ; orientadora: Junia de Vilhena.. Vilhena, Junia

„Um Dia na História‟ é, antes de tudo, um programa de „proximidade‟ com o município de Santa Cruz do Capibaribe e região Agreste Setentrional de

e, em ti serão benditas todas as famílias da terra (Gn 12.2-3), certamente Deus mostrava que a formação da nação israelita tinha como objetivo torná-la

tava tudu armadu também u otru tinha vinti i dois anus ((conversa de criança)) aí então mi cataru tudu pa levá meu dinheirinhu... catô minha televisão minha caxinha du rádiu catô

Sinto-me feliz por haver tanta coisa que eu não compreendo Na arte de cada operário vejo toda uma geração a esbater-se E por isso eu não compreendo arte nenhuma e vejo essa geração

Usa-se o pronome relativo quanto (e suas variações), precedido dos pronomes indefinidos tudo, todos, tanto, para referência a pessoa ou coisa.. ex.: Sua compreensão foi tudo

Foi atendido no Hospital Veterinário Universitário da Universidade Federal de Santa Maria (HVU – UFSM), um canino, fêmea, SRD, com doze anos de idade, apre- sentando lesões