Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Eduardo Guilherme Piacsek
Eros em Pauta:
A sexualidade nas páginas do
Jornal
Notícias Populares
(1982-1984)
MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PUC-SP
Eduardo Guilherme Piacsek
Eros em Pauta:
A sexualidade nas páginas do
Jornal
Notícias Populares
(1982-1984)
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História Social, sob orientação da Professora Doutora Mariza Romero.
Banca Examinadora:
_____________________________
_____________________________
Aos meus pais, Emílio e Hortencia pelo apoio incondicional, pelo incentivo constante e pela crença no papel transformador da educação.
À Alessandra, por estar sempre ao lado, à frente, na retaguarda e, principalmente, no coração.
Agradecimentos
Embora esta seção se encontre nas páginas iniciais deste trabalho, ela foi redigida
quando todo o percurso da pesquisa acabara de se concluir. Tema apresentado, três capítulos
escritos com todos os seus respectivos itens e subitens e considerações finais tecidas. A luta
contra a ABNT já travada em uma série que parecia infinita de pontos, vírgulas e negritos a
serem arrumados nas notas e na bibliografia, nessa tarefa tão árdua quanto necessária de
deixar o caminho sinalizado para os que vierem depois. Resumo e o seu irmão inglês, o
Abstract, devidamente elaborados.
Em cada uma e em todas essas etapas eu vi minha dívida de gratidão aumentar. Foram
muitos os que me ajudaram nesse percurso e agora chega o momento de dizer muito obrigado
e, fatalmente, cometer algumas injustiças com o esquecimento de nomes que farão tocar todos
os sinos de minha memória quando eu estiver lendo essas palavras devidamente encadernadas
em capa dura verde. Aos que ficarem de fora, senão um agradecimento, recebam
antecipadamente um pedido de perdão. Tentarei, contudo, reduzir ao mínimo esse fenômeno:
Primeiramente agradeço minha família pelo apoio, pela eterna torcida e por serem tão
presentes toda vez que uso o pronome “eu”. Não me imagino sem os valores, sem a atenção e
o carinho que recebi desde pequeno de minha mãe Hortencia e de meu pai Emílio. Eles
sempre foram movidos pelo desejo de acertar, ajudar e acolher. E, efetivamente, acertaram,
ajudaram e acolheram. Agradeço meus irmãos Henrique e Paulo, pelos conselhos pelas
conversas e por todas as vezes que fomos repreendidos por nossos pais, tarde da noite, por
estarmos rindo muito alto de enredos que somente nós somos capazes de perceber o quanto
são hilários; agradeço também por me concederem o conforto de, na escola, ter não só um,
mas dois irmãos mais velhos. Agradeço minha tia Mirley, minha Titi, pelo carinho, pela
companhia sempre leve e agradável, pelo otimismo transcendental e por dividir comigo o
oportunidade de ver nascer uma criança linda, o pequeno ruivo que se transformou em um
cara muito legal. Agradeço minha querida prima e madrinha Ercilia Hough que, além de ser
uma pessoa sensacional e divertida, tirou meu Abstract da gentry e conduziu-o à Câmara dos
Lordes.
Agradeço à Alessandra Lucca, minha Lezuca querida, o carinho, o companheirismo a
alegria e a cumplicidade. Agradeço por cada um e por todos nossos segredinhos. Agradeço,
especialmente, por tudo que não cabe no teclado de um computador. Não bastasse tudo isso,
Alessandra foi de fundamental importância na formatação e adequação deste trabalho. Sem
ela as páginas que se seguem espelhariam de forma muito mais precisa o caos que se apossa
da cabeça de um pós-graduando. Obrigado, Lindinha! Não falei que era possível mudar de
casa e concluir um mestrado? Nós conseguimos! E vamos conseguir mais!
Esta pesquisa não teria sido realizada sem o inestimável apoio do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) financiadores dos meus estudos que
agora se materializam nessa dissertação.
Muito obrigado à minha orientadora, a Professora Doutora Mariza Romero. Sua
generosidade, seu bom humor, sua confiança em meu trabalho tornaram meu caminho muito
mais suave. Obrigado, Mariza! Agora só resta esperar por Claudionor.
Obrigado aos professores Luiz Antonio Dias e Marcelo Flório, membros de minha
banca, pelo precioso tempo investido na leitura deste trabalho e por suas inestimáveis
contribuições.
Agradeço aos meus colegas de graduação, Luiz Felipe Loureiro Foresti, Karla
Maestrini e Henrique Sugahara Francisco pela alegria de ter compartilhado com vocês os
quatro anos de bacharelado e por terem, aos 18 anos, acolhido um “tio” de 30 em seu grupo
pudemos demonstrar que a Sorbonne também vai à taverna, apenas não o faz em horário de
aula.
O meu obrigado a todos os colegas de pós-graduação, navegantes do mesmo barco que
atravessa as águas revoltas do Mar do Mestrado. Obrigado ao Fábio Ferreira, ao Ailton
Amaral, ao Elton Ferreira, ao Diego Natali, à Paula Salles, à Andressa Oliveira, à Mariana
Dolci, à Bianca Melzi De Domenicis, à Sílvia Alegre, ao Fernando Henrique Cardozo Silva e
à Marleninha Vieira. Todos vocês foram imprescindíveis. Um obrigado muito especial à
Débora Nascimento, minha colega de quase todas as disciplinas na pós e com quem dividi
muitas das angústias, das inseguranças e das incertezas que marcam a caminhada de um
mestrando. Valeu, Débora! Chegou o tão sonhado dia de “rirmos de tudo isso”. Um abraço do
tamanho da Amazônia ao querido Matthias Grenzer, o alemão mais brasileiro que conheci,
teólogo admirável, professor generoso e colega prestativo.
Um enorme obrigado aos professores da graduação da PUC-SP. Pessoas que me
fizeram olhar o mundo com outros olhos. Os professores são o maior patrimônio desta
universidade. Obrigado pela generosidade e pela atenção com que se relacionaram não só
comigo, mas com todos os alunos da PUC. Obrigado Antonio Rago Filho, Vera Vieira, Ettore
Quaranta, Alvaro Alegrette, Yone de Carvalho, Fernando Londoño, Adílson Gonçalves,
Pedro Fassoni Arruda e Maria Izilda Santos de Matos. Um obrigado especial ao meu xará,
Eduardo Antonio Bonzatto, professor, amigo e um ser humano extraordinário.
Obrigado aos professores da pós-graduação pelo apoio, pelo direcionamento e pelo
incentivo. Obrigado às professoras Maria do Rosário Cunha Peixoto, Estefania Knotz
Canguçu Fraga, Carla Reis Longhi e Olga Brittes. Um obrigado especial à querida professora
Yvone Dias Avelino que tanto me motivou a entrar na pós-graduação, que acompanhou a
trajetória de minha pesquisa, que esteve presente auxiliando e aconselhando. Obrigado,
que eu aparecesse mais no meu texto. Isso não é uma recomendação, é um elogio, do qual
espero ser merecedor.
Obrigado a todos os funcionários do Arquivo Público do Estado de São Paulo pela
paciência, prestatividade e amor à profissão. Obrigado pelas luvas, pelos lápis, pelas
orientações e por colocarem à minha frente três anos de jornal.
Muito obrigado a todos vocês!
Resumo
Este trabalho pretende analisar a maneira como o jornal paulistano Notícias Populares
tratou do tema da sexualidade entre os anos de 1982 e 1984. Este assunto ganhou especial
destaque na sociedade brasileira durante o período em questão, momento final da ditadura
militar iniciada em 1964. Para atingir nosso objetivo, estudaremos a coluna Tudo Sobre Sexo
publicada no jornal a partir de 1982 e que se dedicou a fornecer informações de caráter
científico aos seus leitores; analisaremos os relatos das Histórias da Boca, uma série de
narrativas escritas pelos repórteres policiais do NP e ambientadas na região do centro de São
Paulo conhecida como “Boca do Lixo”, local de atuação de prostitutas, travestis e malandros;
e, por fim, daremos atenção ao aumento progressivo do número de matérias que o jornal
dedicou ao tema da sexualidade, com especial destaque para sua cobertura do surgimento da
epidemia de AIDS, doença letal e sexualmente transmissível e do aparecimento na mídia da
transexual Roberta Close, alçada à categoria de símbolo sexual do Brasil. O jornal Notícias
Populares, símbolo da imprensa sensacionalista brasileira, será tratado nesse trabalho não
como um contraponto a um jornalismo tido como “sério”, mas como um veículo de
comunicação de massa capaz de constituir complexas representações e significados.
Abstract
This work aims to analyze how the São Paulo newspaper Notícias Populares (NP) dealt
with the topic of sexuality between 1982 and 1984. This issue gained special prominence in
Brazilian society during this period, which was the end of the military dictatorship that started
in 1964. To achieve our goal, we will study the column Tudo Sobre Sexo (All About Sex)
published in the newspaper since 1982 and dedicated to providing its readers with scientific
information; we will analyze the reports of Histórias da Boca, a series of narratives written by
NP crime reporters and set on downtown São Paulo, an area known as "Boca do Lixo", a
“workplace” of prostitutes, transvestites and swindlers; and finally, we will draw attention to
the progressive increase in the number of stories that the newspaper devoted to the topic of
sexuality, with special emphasis on its coverage of the rise of the AIDS epidemic, a lethal
sexually transmitted disease and the appearance of Roberta Close in the media, a transsexual
who reached the status of sex symbol in Brazil. In this work, the newspaper Notícias
Populares, symbol of Brazilian tabloid press, will be treated not as a counterpoint to what is
regarded as “serious” journalism, but as a vehicle of mass communication able to achieve
complex representations and meanings.
Sumário
Apresentação... 12
Capítulo I: Tudo Sobre Sexo no NP : Tradição, Família e Sexualidade... 33
1 – Um breve panorama... 33
2 – Tudo Sobre Sexo entra em cena... 35
3 – Uma “anomalia” preocupa Tudo Sobre Sexo: A Homossexualidade... 39
4 – A norma e o desvio... 60
5 – Prazeres Proibidos: A troca de casais coloca a família em perigo... 66
6 – O fetichismo como instrumento... 71
7 – Tudo sobre Sexo em nome da família... 79
Capítulo II: A Sexualidade da Boca no NP... 82
1 – Um pouco da História da Boca... 82
2 – As Histórias da Boca entram no Notícias Populares... 92
2.1 – As Histórias da Boca e suas Características Gerais... 95
2.2 – Os autores da Boca: Quem escrevia as Histórias... 98
3 – As Damas da noite... 102
4 – A Homossexualidade na Boca... 119
5 – Marido e mulher na Boca... 133
6 – Afinal, como ouvir o que a Boca tem a dizer? ... 137
Capítulo III: Sexo também é notícia ... 144
1 – O sexo invade a pauta do Notícias Populares... 144
2 – AIDS: A peste-gay ataca no NP... 144
3 – O Bordel dos ricos... 167
4 – Close rouba a cena no NP... 172
5 – As matérias especiais de Domingo: O lado exótico do sexo... 188
5.1 – Uma agência de travestis e o surgimento de Roberta Close... 188
5.2 – Pelezão, o herói do trabalhador... 191
Considerações Finais... 195
Apresentação
Embora a tarefa da pesquisa histórica seja um ato eminentemente solitário, creio que
duas de suas principais matérias-primas sejam a inquietação e o diálogo. Inquietação que nos
leva a pesquisar aquilo que nos intriga, que nos faz procurar no passado respostas às
perguntas que hoje nos são significativas individual e socialmente.
Como afirma Gramsci “só investigamos de verdade aquilo que nos afeta”. Ao
mencionar o célebre pensador italiano, pode-se perceber uma das facetas do diálogo
necessário do pesquisador com aqueles que o precederam na construção do conhecimento,
conversas não raro tensas, com mestres que nos guiam, nos provocam, desafiam e com os
quais ora concordamos e nos aconchegamos nas aspas salvadoras que alicerçam nossas
ideias, ora discordamos procurando, mas nem sempre conseguindo, matizar coloridos,
evidenciar nuances para ir ainda mais além, mergulhar mais fundo, na tentativa de, como nos
impele Kant, “ousar saber”.
Porém, o diálogo na pesquisa histórica possui amplitude maior. Temos a felicidade
de poder trocar conhecimento com nossos professores e colegas, intercâmbios feitos no fértil
ambiente acadêmico. O convívio com outros olhares também não é uma tarefa fácil, mas se
revela de enorme valia para aqueles que são permeáveis à diferença. Diferença às vezes sutil,
escondida nas fímbrias dos textos e que exige, como afirma Block, a sensibilidade do luthier
ao afinar seu instrumento.
É com esse arsenal de pensamentos que partimos para o diálogo mais vital para o
historiador: O diálogo com suas fontes: Fechadas em arquivos, presas nas linhas e nas
entrelinhas de manuscritos, estampadas nas páginas do jornal, ou escondidas na memória dos
enigmáticas. São as fontes que nos farão ver a limitação de nosso conhecimento, que
mostrarão a insuficiência de nossa teoria e que, eventualmente e para nossa felicidade,
adicionarão concretude à fragilidade de nossas hipóteses.
Minha trajetória no campo do conhecimento histórico começou em 2005, ano que
ingressei na graduação em História da PUC-SP. Entrei no curso com 30 anos de idade.
Possuo também formação em Comunicação Social, com habilitação em Produção Editorial
feita na Universidade Anhembi-Morumbi nos hoje paleolíticos anos pré-internet de
1992-1995.
Concluí meu curso em 2009 (Bacharelado e Licenciatura) e em janeiro de 2012
ingressei no Mestrado. A escolha de meu tema se deu graças à conversas com minha
orientadora, a Professora Mariza Romero. Sua tese de doutorado: “Inúteis e Perigosos: O
Diário da Noite e a Representação das Classes Populares São Paulo 1950-1960” foi nosso
ponto de partida. Pessoalmente, por conta de minha primeira formação, durante a graduação
de História sempre tive interesse em estudar a imprensa, porém me faltava um enfoque mais
específico.
Mariza, por sua vez, deixou claro para mim que ainda existiam diversas questões a
serem respondidas acerca da imprensa popular no Brasil. Ela, inclusive, me apontou para
uma fonte que julgava de grande potencial, mas ainda não muito explorada por historiadores:
O jornal Notícias Populares. Confesso que fiquei um tanto avesso à ideia de explorar essa
publicação. Nutrido pelo senso comum, pensava que pouco interesse poderia haver em um
jornal especializado em notícias policiais e na exploração de tragédias. Logo nos primeiros
contatos que tive com as edições do jornal, porém, vi como era precipitado meu julgamento.
Em seus quase 40 anos de história, o Notícias Populares, ou simplesmente NP, como
sensacionalista1 brasileira. Nas páginas deste periódico mesclavam-se crimes, acidentes,
casos misteriosos ou bizarros, enfim, fatos do cotidiano caótico da metrópole paulistana2
enquadrados por uma lente de aumento que unia manchetes de meia página, fotos chocantes
e textos escritos em linguagem coloquial e direta. Porém, para além deste receituário da
imprensa sensacional, onde também entravam a vida de celebridades, a cobertura esportiva e
o sexo, o jornal trazia para seu público notícias de política, economia e prestação de serviços.
No curso de sua história, abrigou também colunas escritas por religiosos das mais diversas
crenças, além desindicalistas, sexólogos, policiais, ficcionistas e apresentadores de TV e de
rádio.
O Notícias Populares surgiu em outubro de 1963 com uma clara conotação política.
Os objetivos de seus fundadores, Herbert Levy, deputado, presidente da União Democrática
Nacional (UDN) e dono da Gazeta Mercantil e Jean Mellé, jornalista romeno radicado no
Brasil e que fora perseguido e aprisionado pelos soviéticos no pós-guerra, era conter o
avanço do ideário esquerdista, barrar a ameaça comunista que pairava durante o governo de
João Goulart ao mesmo tempo em que procurava abrir um canal direto de comunicação entre
setores mais conservadores da sociedade e as classes populares. Sua principal meta era
cooptar os leitores do jornal Última Hora, periódico de grande tiragem e de propriedade de
Samuel Wainer que desde sua fundação, apoiado por Getúlio Vargas em 1951, era
identificado pelos conservadores como porta-voz da esquerda populista. Para tanto, o
Notícias Populares procurou estruturar-se com os mesmos alicerces jornalísticos de seu
concorrente, ou seja, com sexo, crime, esportes e cobertura sindical (CAMPOS, JR. Et al.,
1 Tida como uma classificação pejorativa para um meio de comunicação, “sensacionalista” se refere à imprensa que busca, por sua pauta e diagramação, respostas emocionais de seu leitor, em contraponto à imprensa tida como “séria”, que tem por objetivo, em tese, a análise sóbria, distante e imparcial dos fatos (ANGRIMANI, 1995, p. 13-4).
2011, p. 19-22). Nas palavras de Luis Fernando Levy, filho de Herbert e também engajado
na criação do jornal:
Na verdade a ideia de fazer Notícias Populares nasceu quando, neste trabalho assim de contraofensiva, nós verificamos que um dos instrumentos de ação perigosos,
porque pegavam uma população completamente desprevenida e desorientada no
sentido de formação de opinião, era a Última Hora, que em São Paulo tinha cerca de uns duzentos mil jornais de tiragem e que, ao lado da alimentação, vamos dizer, que
davam para o povo – que era sexo, crime e sindicatos – jogavam ideias, distorciam
fatos, enfim, dirigiam a opinião da população e dos trabalhadores, através desse
órgão de comunicação. E nós, em contrapartida, não tínhamos acesso ao populismo,
não só porque na verdade o sistema de comunicação com o povo do pessoal
empresarial é sempre mais complicado e mais difícil, como também porque nós não
tínhamos aquilo que eles queriam ‘beber’, que era um jornal popular. Então nasceu a
ideia de fazer um jornal, dando o que normalmente recebiam... sem o algo a mais... o
ingrediente político que a Última Hora dava debaixo da orientação dirigida na ocasião (LEVY, 1987, p. 79).
Entretanto,apóso golpe militar de primeiro de abril de 1964, o princípio fundador do
NP deixou de ser necessário. Com os militares no poder, estavam afastadas tanto a ameaça
comunista, como a possibilidade de eleições, o que frustrou a candidatura de Levy ao
governo paulista,na qual o Notícias Populares teria importância estratégica. O veículo em
breve mudaria de mãos. Em 1965, o jornal passa a ser controlado por Octávio Frias de
Oliveira e Carlos Caldeira Filho, donos da Folha da Manhã e do Ultima Hora que haviam
Foi sob a égide do Grupo Folha que o NP ganhou as feições que o tornaram célebre.
Jean Mellé, que havia sido dono de um jornal popular em seu país de origem, se manteve à
frente da redação do Notícias Populares até a sua morte em 1971. Nesse período, o jornal
continuou com pauta sensacionalista, destacando-se também por acentuar a cobertura de
celebridades. Mellé se notabilizou por privilegiar a ligação direta com seu público. Não raro
submetia as manchetes do NP a funcionários pouco especializados da redação e efetuava
mudanças quando estes achavam as “chamadas” difíceis ou desinteressantes (CAMPOS, JR.
et al., 2011, p. 65). Ficou célebre o episódio onde a manchete “Rififi na Assembleia”,
referência a um filme francês da época, foi trocada pelo direto “Quebra-Pau na Assembleia”
após ser submetida a um contínuo que não havia entendido o título original. Além disso,
achava que a forma de venda do jornal, sem assinantes e com poucos anunciantes, tendo as
bancas como grande fonte de renda, trazia mais liberdade ao desenvolvimento do jornalismo,
sem interferência do departamento comercial (ANGRIMANI, 1995, p. 87).
Entre maio de 1972 e 1990 a direção do NP ficou a cargo de Ebrahim Ramadan,
egresso da Folha da Tarde e a quem coube a revitalização do jornal, abalado pela morte de
Mellé e pela desastrada direção de Armando Gomide que, em poucos meses, derrubou a
tiragem do jornal. Nos primeiros tempos da chefia de Ramadan o NP deu grande destaque a
crimes e investiu no apelo sexual, com diversas fotos de mulheres seminuas. As manchetes,
grande chamariz do jornal, passaram a ocupar a capa e o verso do diário, o que rendia uma
dupla exposição ao periódico na banca. O sobrenatural também ganhou força nos primeiros
anos de Ramadan, tendo o nascimento do “bebê-diabo” se tornado a mais icônica série de
reportagens do jornal3. Ainda que tenha rendido bons lucros, a credibilidade do NP ficaria
seriamente abalada com essa abordagem e esse tipo de reportagem foi progressivamente
saindo de sua pauta.
Em 1979, após uma greve de jornalistas, Octávio Frias decidiu fazer uma reforma no
Notícias Populares. O objetivo era trazer um pouco de sobriedade ao veículo e conferir-lhe
uma postura mais “adulta”. Para auxiliar nessa tarefa, foram chamados colunistas como Dom
Paulo Evaristo Arns, Franco Montoro, Almir Pazzianotto, Joaquim dos Santos Andrade e
Luiz Inácio Lula da Silva. As mulheres seminuas deixaram a capa do jornal.
O tom mais sério e a ausência feminina não agradaram ao público leitor. Ramadan
recebeu carta branca para “reformular a reforma”. Hábil, trouxe de volta as garotas da capa,
não só manteve os colunistas como ampliou o seu leque cedendo espaço às minorias
desprezadas pela grande imprensa. Progressivamente, no início dos anos 80, as páginas do
Notícias Populares passaram a estampar artigos de Chico Xavier, de membros da
Seicho-no-iê e umbandistas que se juntaram a católicos e evangélicos nas colunas religiosas. Ao mesmo
tempo, representantes de todas as áreas sindicais passaram a escrever com regularidade no
jornal. Ocultistas, interpretadores de sonhos e até um ufólogo também passaram a integrar o
NP, para felicidade dos esotéricos. Na cobertura televisiva, ninguém menos que Silvio
Santos emprestou seu nome a uma coluna e a então novata Sônia Abrão ficou a cargo da
seção “TVENENOS”. Ramadan também investiu em coberturas sazonais, tendo o carnaval
como seu principal alvo (CAMPOS, JR. et al., 2011, p. 121-6).
A combinação deu certo e o jornal seguiu essa fórmula até o final dos anos 80
quando, sob intervenção direta agora de Octávio Frias Filho, sofreria mudanças
consideráveis em sua estrutura. Iniciada em 1988 ainda com Ramadan na diretoria e
concluída em 1990 por Leão Serva, que o substituiu, a reestruturação do NP desligou 40 dos
refeito. O modelo de Frias para essa reforma eram os tabloides europeus The Sun da
Inglaterra e Bild da Alemanha, ambos de linha popular e com tiragem na casa dos milhões de
exemplares. Entre 1990 e 2001, quando o jornal finalmente deixou de circular, o diário
conheceu nada menos do que cinco diretores de redação. O processo de desgaste do
periódico ganhou um impulso final em 1999 quando o Grupo Folha apostou em uma nova
marca para sua linha de jornais populares: o Agora São Paulo, que é tido por muitos
jornalistas como o “assassino” do Notícias Populares.
Durante sua existência, o NP testemunhou grandes mudanças na história do Brasil e
interagiu de formas distintas com essas transformações. Com relação ao Golpe Militar, do
qual, como vimos, foi agente indireto, manteve-se mais distante da políticanos anos em que
a ditadura recrudescia e surgia a resistência da luta armada.
O trabalhador urbano está no centro desse redemoinho. O estado de São Paulo
concentrava na década de 1970 cerca de 45% da produção industrial do País e testemunhou
um afluxo migratório positivo em mais de dois milhões de pessoas entre 1970 e 1980
(SILVA, 2008). Em 1980, somente na região do ABC, havia 200.000 metalúrgicos, cujas
famílias totalizavam cerca de 800.000 pessoas em um universo de 1,8 milhão de habitantes
desses municípios (KUCINSKI, 2001, p. 118). Esses trabalhadores que em 1970 estavam
embalados pelo crescimento do país durante o chamado “milagre econômico” chegavam ao
final da década organizando greves para repor os salários corroídos pela inflação e por conta
da perda de benefícios (KUCINSKI, 2001, p. 91-2). Era principalmente para esse trabalhador
urbano o leitor para o qual o Notícias Populares foi dirigido.
Com uma edição diária, dividido normalmente em dois cadernos de 8 páginas (esse
número podia variar dependendo de coberturas especiais), o jornal nunca teve, em sua
vinha basicamente das vendas em banca. Dessa forma, era fundamental para seus editores
entenderem o que o leitor queria ler. Perceber não só quais informações seu público gostaria
de receber, mas como as tornar interessantes, como criar um roteiro de experiências e
sensações que poderiam ser vividas com sua leitura.
Se por um lado a pauta do jornal pode servir como divertimento e fuga da realidade,
por outro, como afirma Edgard Morin, fornece modelos de vida e propostas de atuação e
ordenação da vida prática (MORIN, 1977). Afinal, paradoxalmente, ao expor cotidianamente
transgressão e transgressor em suas páginas, o jornal sensacionalista cria também as formas
para o cidadão subjugar seus medos, trazendo certa previsibilidade ao caos das metrópoles e
à crônica sensação de insegurança de seus moradores. Adicionalmente, para Jesús
Martín-Barbero:
O sensacionalismo delineia então a questão dos rastros, das marcas deixadas nos
discurso da imprensa por uma outra matriz cultural, simbólico-dramática, a partir da
qual são modeladas várias das práticas e formas da cultura popular. Uma matriz que
não opera por conceitos e generalizações, mas sim por imagens e situações; excluída
do mundo da educação oficial e da política séria, ela sobrevive no mundo da
indústria cultural, onde permanece como um poderoso dispositivo de interpelação do
popular (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 249-50).
Podemos observar, que as análises acadêmicas do periódico Notícias Populares
centram-se principalmente nos campos da linguística e da comunicação social, mais
especificamente na área de Jornalismo. Exemplo da vertente jornalística é a tese “O
jornalismo envergonhado, a idealização do leitor no jornal Notícias Populares” escrita em
1992 pelo secretário de planejamento do NP e professor da Escola de Comunicações e Artes
periódico e a ampliação das fontes jornalísticas empregadas pelo veículo e como o jornal
“administrava” a emissão das notícias a seu público. Também podemos destacar o TCC da
faculdade Cásper Líbero de jornalismo feito pelos estudantes Celso de Campos Jr., Denis
Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima chamado “Nada Mais que a Verdade: a
extraordinária história do jornal Notícias Populares” que narra toda a trajetória do jornal e foi
transformada em livro.
Atenta à linguagem empregada pelo NP está a dissertação de mestrado de Márcia
Benetti Machado, jornalista da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo: “A
linguagem do "Notícias Populares", uma análise de discurso”, onde a estrutura textual das
matérias do jornal é abordada. Da área jornalística também é importante citar a obra
“Espreme que Sai Sangue: Um estudo do sensacionalismo na imprensa” do doutor em
Comunicação pela USP Danilo Angrimani. Nessa obra, o autor analisa o fenômeno do
sensacionalismo sob a ótica psicanalítica e da linguagem a que ele se vincula utilizando o
Notícias Populares como estudo de caso.
No campo da história, podemos destacar o trabalho “Álcool e Sangue no Jornal
Notícias Populares” (São Paulo 1964/1972)” de Enésio Marinho da Silva da PUC de São
Paulo, em que o pesquisador analisa as reportagens sobre crimes nas quais pelo menos um
dos envolvidos, vítima e/ou agressor, estavam alcoolizados, para traçar um quadro sobre a
violência doméstica do período. No que concerne às relações da imprensa sensacionalista
com as classes subalternas, destacam-se a tese de doutorado de Mariza Romero sobre o
jornal Diário da Noite (“O Diário da Noite” e a Representação das Classes Populares São
Paulo 1950-1960) e a dissertação de mestrado de Henrique Sugahara Francisco sobre o
jornal A Capital (Em cena, os inimigos do moderno: Os adeptos das práticas
PUC-SP. Nesses trabalhos podemos ver esses dois veículos de imprensa popular, cada um a
seu modo e com as preocupações de seu tempo, tratando seu público leitor com uma clara
preocupação pedagógica, visando reforçar os valores caros às elites e coibir práticas que
julgam “atrasadas” e/ou “perigosas”.
Ao iniciarmos nossa abordagem do Notícias Populares, alguns elementos chamaram
nossa atenção: o jornal não possuía um Editorial, uma coluna diária em que o veículo se
posicionasse sobre assuntos de repercussão ou firmasse posicionamentos políticos. Era a
pauta do jornal como um todo que melhor refletia a tentativa diária de cooptação do leitor e
nesse reflexo podemos observar também diversos dos elementos constituintes do dia-a-dia
das classes trabalhadoras, que inclui e transcende as relações com o mundo do trabalho e
com a metrópole paulistana, fornecendo pistas para a compreensão dos valores, do
imaginário e da forma de dar sentido à experiência do real vivida por estes sujeitos
históricos.Como aponta Pierre Bourdieu, ao destacar o aspecto relacional do real, é preciso
compreender mais “as escolhas que os agentes sociais fazem nos domínios mais diferentes
da prática, na cozinha ou no esporte, na música ou na política etc.” (BOURDIEU, 1996, p.
18).
Não se passa de classe-no-papel à classe “real” a não ser por um trabalho político de
mobilização: a classe “real”, se é que ela alguma vez existiu “realmente”, é apenas a
classe realizada, isto é, mobilizada, resultado da luta de classificações como luta
propriamente simbólica (e política) para impor uma visão do mundo social, ou
melhor, uma maneira de construí-la, na percepção e na realidade, e de construir as
E como melhor utilizar o Notícias Populares para ajudar a aclarar a experiência do
real vivida por seu público? Como vimos, são inúmeros os assuntos e os colunistas de um
jornal diário que circulou por quase quarenta anos. Surge a necessidade de estabelecer
recortes.
Quando a presente pesquisa ainda se encontrava em fase de projeto, balizamos o
recorte temporal entre 1979, início do mandato de João Figueiredo, último presidente militar,
ano também de uma reformulação editorial importante realizada pelo jornal, chegando até o
final de 1984, contemplando assim um importante período no processo de transição política
no Brasil. Da pauta NP, três elementos se destacaram e seriam abordados: a cobertura que o
jornal realizou das greves operárias de 1979-80, a diversidade de colunas devotadas à
religiosidade/espiritualidade e o crescimento da exploração da temática da sexualidade pelo
jornal.
Logo ficou claro que tentávamos “ousar saber” demais para os limites cronológicos
de um mestrado. Sofia haveria de fazer, literalmente, sua escolha. O assunto que se mostrou,
ao mesmo tempo, mais candente nesse período e que seria capaz de trazer à luz elementos
mais ricos para podermos ampliar nossa compreensão sobre as classes populares foi o da
sexualidade. Mantivemos o ano de 1984 como o marco final da pesquisa. Já o ano de 1982
foi estabelecido como novo marco inicial de nosso trabalho. Ele marca o progressivo
aumento do número de matérias específicas sobre a sexualidade feitas pelo jornal.
Primeiramente observamos abordagens ocasionais, feitas ora por médicos que tratavam
sobre alguma doença venérea, ora por colunistas que abordavam o tema com ar professoral e
“As mulheres podem ser criaturas misteriosas para um homem, mas, não para todos”.
era o que, em 17/06/1982 nos dizia Jacinto Figueira Jr.4 em sua coluna que, naquele dia,
recebia o título de “O Sexo e o Amor”. “As pessoas bem educadas, que sentem-se (sic)
satisfeitas sexualmente, são bem-humoradas, sociais e extrovertidas ou aberta e francas para
com os outros”, prossegue o colunista. “Quem vive bem sexualmente ama aos outros e é
amado. O mais importante no sexo é o desenvolvimento do carinho, do afeto da ternura do
calor amoroso”, ensina Jacinto antes de concluir mais adiante que “O sexo desempenha um
papel importante na vida do ser humano, desde que seja dominado e educado. Se não for
assim, destrói totalmente a mesma”5.
Em 08/07/1982 o colunista voltaria à carga, escandalizado. Ele começa por denunciar
às autoridades “a venda de mulheres a preços módicos”. A prostituição incomodava o
colunista: “Os ‘rendez-vous’ estão a (sic) vontade e a todo vapor, sem serem incomodados
por ninguém. Agora até propaganda eles estão fazendo para atrair a clientela dos virginais e
mal-amados”. Após listar nominalmente algumas casas e os ilícitos associados à prostituição
que cometiam, o “Homem do Sapato Branco” chamava atenção para “outra vergonha
desmoralizante”, um sex-shop com várias filiais que estava “vendendo todo tipo de safadeza
a preços módicos” e mais “O atentado à moralidade e aos bons costumes termina com a
venda indiscriminada de revistas eróticas e pornográficas, onde [que] você encontra em
qualquer banca da cidade”. Jacinto pergunta indignado: “Aonde está (sic) a moral e os
princípios éticos da sociedade e da família?” a resposta é taxativa: “na lata do lixo”. O
colunista termina registrando que:
4 Famoso radialista e apresentador de TV com passagens pela Rádio Nacional, pela TV Cultura, conhecido por, em 1966, criar o programa “O Homem do Sapato Branco” na Rede Globo, era um destacado colunista do Notícias Populares.
5 FIGUEIRA JR, J. Fala O Homem do Sapato Branco: O Sexo e o Amor.
Notícias Populares, São Paulo,
[N]A av. Antártica, no bairro da Água Branca, mais de cem mundanas e travestis
participam da extravagante passarela do sexo. Um escândalo vergonhoso e sem fim.
As famílias que ali residem, a tudo assistem sem nada poderem fazer. É um vai e vem
de almas doentes, com tarados em compasso de espera em seus carros, pagando por
um momento de prazer6.
Travestis e prostitutas são “almas doentes” e seus clientes, tarados. As fantasias e o
erotismo são tidos como elementos nocivos a uma sexualidade sadia. Ficam evidentes
diversos dos elementos que deveriam corresponder à visão “educada e controlada” que o
colunista tinha sobre a sexualidade. Mas Jacinto Figueira Jr travava uma batalha perdida.
A sociedade brasileira do começo da década de 80 estava em efervescência e queria
discutir e se fazer ouvir das mais diversas formas, tanto no campo político, como no campo
social. Já no correr da década de 70 emergiram na região metropolitana de São Paulo
diversos movimentos basistas, organizados por setores das classes populares aglutinados por
ações da Igreja Católica e reivindicadores de direitos. Donas-de-casa da Zona Sul da capital
se uniram contra a carestia, representantes de associações de bairros da Zona Leste se
mobilizaram para a melhoria do atendimento à saúde, levando suas demandas diretamente às
autoridades oficiais (SADER, 1988).
Entre 1978 e 1980 metalúrgicos do ABC paulista organizaram movimentos grevistas
que puseram em xeque o Regime Militar. Reocupando os espaços públicos como território
de manifestações e contestação de ações governamentais, ao mesmo tempo em que estendia
à fábrica ao bairro e à igreja o campo de ação política, apoiados por amplos setores da
sociedade e demonstrando alta capacidade de organização, os movimentos grevistas
6 FIGUEIRA JR, J. Fala O Homem do Sapato Branco.
marcaram a consolidação da classe trabalhadora como força ativa do debate que se abria na
sociedade brasileira acerca do modelo de democracia a ser construído no período de
transição (NAPOLITANO, 2006).
Como ressalta o Professor Marcos Napolitano:
Apropriando-se do mote da democracia, múltiplas alternativas históricas foram
delineadas, tendo em vista a transição política. Ainda que a solução conservadora e
elitista tenha prevalecido, de qualquer modo, o período que vai do fim dos anos 70
até o começo dos anos 80, pode ser caracterizado como um dos nossos “tesouros
perdidos” da história: um momento em que a esfera pública se viu aberta à
formulação de novos projetos, identidades e sociabilidades políticas
(NAPOLITANO, 2006, p. 104).
Não eram só trabalhadores e donas de casa que se uniam e começavam a lutar por
direitos e experimentavam novas formas de associação. Como destaca o Professor James N.
Green: “Estudantes encheram as ruas das maiores cidades brasileiras com gritos de “Abaixo
a Ditadura!”. Estações de rádio começaram a tocar músicas censuradas, e estas se tornaram
as canções mais populares no país. Negros, mulheres e até mesmo homossexuais começaram
a se organizar, exigindo ser ouvidos0”. Atendo-se especificamente sobre aos homossexuais,
Green continua:
Durante o longo verão entre 1978 e 1979, uma dúzia de estudantes, escriturários,
bancários e intelectuais reuniam-se semanalmente em São Paulo. Indo de
apartamento em apartamento, sentando no chão por falta de móveis suficientes, eles
planejaram o futuro da primeira organização pelos direitos dos homossexuais no
participantes, na maioria homens gays, mas também algumas lésbicas que iam e
vinham, debatiam as últimas matérias contra os homossexuais publicadas pelo jornal
escandaloso Notícias Populares, e a resposta que deveria ser dada pelo novo grupo, Ação pelos Direitos Homossexuais. Eles também liam cuidadosamente cada número
da recém-lançada publicação mensal Lampião da Esquina. Este novo jornal, de tamanho tablóide, era produzido por um grupo de escritores e intelectuais do Rio de
Janeiro e São Paulo, e se declarava um veículo para discussão de sexualidade,
discriminação racial, artes, ecologia, e machismo (GREEN, 2000, p. 273).
De fato, não era apenas em colunas como as de Jacinto Figueira Jr. que a
homossexualidade era estigmatizada pelo NP. Não raro os homossexuais tinham sua
orientação exposta como parte constituinte de matérias policiais, ou então como a razão do
acontecimento de tragédias e desventuras.
Apenas para citarmos alguns exemplos: A notícia “Homossexuais falsificavam tudo”
de 18/08/1982, tratava do caso de um travesti preso por falsificar documentos. A manchete
“SAPATÃO ENDOIDA E BAGUNÇA CORETO NA CASA DA MULHER” acerca de um
desentendimento entre um casal de lésbicas estampava a capa de 05/09/1982. Em
21/10/1982 o NP trazia em sua página sete a chamada “Homossexual ciumento é ferido a
facadas”, sobre um desentendimento entre um casal de homossexuais motivado pelo fato de
que um dos amantes (o agressor) se engajara em um romance heterossexual. Novamente em
primeira página, em 06/11/1982, temos “ATRIZ SE SUICIDA PELO AMOR DE UMA
LÉSBICA”, matéria que relata em tom romanesco, na página sete daquela edição, o caso de
amor frustrado entre uma atriz de filmes eróticos e uma moça que ela havia conhecido em
Fica evidente que a homossexualidade é, de fato, retratada pelo NP como um
comportamento desviante, motivador de atitudes condenáveis, muitas vezes fruto de
desequilíbrio emocional. Prova disso é que não encontramos notícias no jornal tais como
“Heterossexuais Falsificam Documentos”, da mesma forma que, nas páginas do periódico,
heterossexuais não “endoidam” e quando morrem (ou matam) por razões sentimentais, o
fazem simplesmente por amor, e não por um amor heterossexual.
Porém, o final dos anos 70 e o início dos anos 80 marcam o período não só do início
de uma organização mais elaborada de grupos para a afirmação da identidade e pela luta de
direitos homoafetivos. Uma discussão mais ampla sobre a sexualidade já havia chegado
também à grande mídia. Exibido entre 07/04/1980 e 27/06/1986, o programa TV Mulher da
Rede Globo foi o primeiro a contemplar o assunto da sexualidade na televisão brasileira
através do quadro “Comportamento Sexual”, no qual a sexóloga Marta Suplicy respondia às
mais diversas dúvidas dos espectadores sobre o tema. Não havia só curiosidade em relação à
sexualidade, mas a verdadeira necessidade de se discutir um assunto tão pouco abordado.
Em “Conversando Sobre Sexo”, livro publicado ainda em 1983, Marta pontuava:
A visão da sexualidade mudou muito rapidamente nas últimas décadas. Essa
mudança deixou os pais meio perdidos, porque eles vêm de uma geração onde tudo
era proibido, e agora [se] deparam com uma liberdade que não entendem e que
desperta muito medo. (...)
Uma época de transição, como a que estamos vivendo, é um momento difícil para a
construção de um sistema de valores sexuais. Antigamente os valores sexuais
mudavam vagarosamente. Com o advento dos meios de comunicação, valores que
levariam décadas parasse modificar mudam de ano para ano (SUPLICY, 1983, p.
Não era, entretanto, somente o contexto de modernização tecnológica que
influenciava a questão em nosso país. A ambiguidade no processo de Abertura Política, ao
mesmo tempo em que ensejou a emergência do debate sobre sexo na sociedade brasileira,
marcou também a tentativa, por parte do poder central, de limitar seu alcance. Em 26 de
novembro de 1982, o quadro de Marta Suplicy chegou a ser tirado do ar pela censura,
retornando uma semana depois, graças a amplas manifestações da sociedade civil (SUPLICY,
1983, p. 20-1).
Poucas semanas antes desses acontecimentos e claramente percebendo a mesma
vontade de seu público em discutir a temática sexual, o Notícias Populares estreava, em 06
de outubro de 1982, um novo espaço: “A partir de hoje e todas as quartas e sextas-feiras, o
leitor encontrará, uma nova coluna. Tudo Sobre Sexo, trazendo explicações científicas para
esclarecer todas as suas dúvidas”7. A coluna, durante todo o período dessa pesquisa, foi
assinada por Kate Meir. Ela não se apresenta a seu leitor, nem é apresentada pelo jornal. Não
foram encontrados livros ou artigos escritos por ela. É provável que se trate de um
pseudônimo. Acredito que a real identidade de Kate não seja tão importante quanto o fato de
ela assinar uma coluna que o próprio jornal chancela como científica.
A coluna Tudo Sobre Sexo será analisada no primeiro capítulo deste trabalho.
Observaremos a importância estratégica de seu caráter pioneiro. Ao assumir o discurso sobre
a sexualidade, a coluna procurou imprimir a sua visão sobre o assunto, reforçar alguns
valores e condenar outros. Representou, sem dúvidas, avanços, mas dentro de limites
importantes e que pretenderemos aclarar.
Poucos meses depois do aparecimento de Tudo Sobre Sexo, a abordagem “científica”
da sexualidade ganhava a companhia de acontecimentos da vida cotidiana da cidade, às
7
vezes reais às vezes inventados. Em 10 de março de 1983 estreavam as Histórias da Boca:
“Não deixe de ler a partir de hoje as histórias reais, vividas nas regiões do Centro, Vila
Buarque e Consolação e colhidas por nossos repórteres”8.
As Histórias da Boca serão apreciadas no segundo capítulo do persente trabalho. As
Histórias foram relatos dos repórteres policiais do NP que frequentaram, em seu dia-a-dia
profissional, a região conhecida como Boca do Lixo no centro de São Paulo. A Boca foi um
conjunto de ruas que concentrava bares, prostíbulos, pequenos hotéis e cinemas. Foi o local
em que diversão, contravenção e crimes formaram uma trinca perfeita para um jornalista do
Notícias Populares. Lá eles conheceram lugares, figuras humanas peculiares e,
principalmente, presenciaram e ouviram muitas histórias. O drama deu o tom desses
acontecimentos e permeou a existência dos sujeitos-personagens retratados pelos
jornalistas-narradores do NP nas Histórias. Porém o riso, a ironia e as surpresas também
desempenharam seus papeis. As Histórias da Boca trouxeram essas experiências mais perto
do leitor do jornal.
Embora não se dedicassem exclusivamente à sexualidade as Histórias tiveram na
temática sexual um de seus principais eixos. Prostitutas, travestis, lésbicas, cafetões
dividiram a cena do submundo paulistano com policiais, jornalistas, e outros tantos
anônimos que se revezam nos papéis dos “malandros” e dos “otários”, das vítimas e dos
algozes.
É o que Jesús Martín-Barbero classificou como a voz por meio do qual se expressa o:
Rouco submundo que nem à direita culta nem à esquerda política pareceu interessar.
Para uns por ser escuro, perigoso e culturalmente aberrante; para outros, por ser
confuso, mistificado e politicamente não utilizável. (...) Fazendo em pedaços a
8
imagem do popular romântico-folclórico, o folhetim fala do popular-urbano: sujo e
violento, o que geograficamente se estende desde o subúrbio até a penitenciária,
passando pelos hospícios e as casas de prostituição (MARTÍN-BARBERO, 2006, p.
191-2).
Das Histórias, nas quais a tragédia está sempre à espreita, emergem os valores e os
códigos de ética e comportamento de seus personagens. Escritas por jornalistas que
vivenciaram a noite e a cena policial paulistana, as Histórias da Boca revelaram detalhes de
um universo a um só tempo desconhecido e fascinante para a maioria dos leitores do jornal,
ao mesmo tempo em que muitas de suas fontes podiam ser ver retratadas nas tramas, seja
através de nomes, lugares ou de acontecimentos. Observar as lições e mensagens que essas
histórias carregam será o foco de nossa atenção.
Cabe destacar que, além da coluna Tudo Sobre Sexo e das Histórias da Boca, também
a pauta geral do Notícias Populares se abriu, no correr do recorte temporal deste trabalho,
para a temática sexual. Mostrar esse panorama será a preocupação de nosso terceiro e último
capítulo. Primeiramente veremos a cobertura que o Notícias Populares dedicou ao
aparecimento e rápido crescimento de uma epidemia que impactou profundamente as
relações humanas e afetivas: a AIDS. A forma como o jornal tratou a doença será posta em
perspectiva e pretenderemos evidenciar com isso alguns dos limites do conceito de
sensacionalismo tão associado ao NP.
Passado o trauma do surgimento da AIDS, nosso terceiro capítulo prossegue
acompanhando o progressivo aumento da carga de sexualidade empregada nas matérias do
jornal. Este fenômeno será apresentado ao analisarmos a série de reportagens que o Notícias
no bairro paulistano dos Jardins e que, àquela altura, causava grande incômodo aos seus
elegantes vizinhos.
A escalada da sexualidade nas páginas do NP atinge seu ápice em 1984. Em maio
daquele ano uma transexual estrela pela primeira vez um ensaio da revista masculina
Playboy. Ela é Roberta Close. O enorme sucesso de vendas da publicação alça Roberta ao
posto de símbolo sexual do Brasil. Está armada a confusão: Os homens brasileiros se
apaixonaram por uma mulher que havia nascido homem. O Notícias Populares não vai ficar
indiferente ao assunto. A forma como o jornal encara o “mito” Roberta Close, será nossa
preocupação na sequência deste capítulo.
Por fim, na esteira das matérias sobre Roberta, o jornal passa a publicar a partir de
junho de 1984, reportagens especiais, aos domingos, nas quais o sexo é o grande tema. A
vida de atores de filmes eróticos, fetiches e curiosidades sobre o mundo gay serão alguns dos
assuntos abordados. Duas coberturas, entretanto, mereceram maior atenção de nossa parte:
Os bastidores de um serviço de agenciamento de travestis e o caso do desempregado Paulo
Gonçalves, o “Pelezão”.
A primeira das duas reportagens nos ajudará a compreender alguns dos elementos que
subjazem ao aparecimento do fenômeno Roberta Close. Já o caso de “Pelezão”, um
desempregado que é assediado por uma psicóloga na fila de distribuição de sopa do Cetren, a
Central de Triagem e Encaminhamento, localizada no bairro paulistano do Cambuci, nos
revela algumas das estratégias que o jornal utilizava para se identificar com seu público,
fornecendo pistas importantes dos valores que, naquele momento, eram prezados pelo seu
leitor especialmente em relação à masculinidade.
Pretendemos com esses três capítulos alargar a compreensão da forma como o jornal
esse veículo da imprensa sensacionalista não como pária da indústria cultural e contraponto
ao jornalismo “sério” da forma como é comumente visto, mas sim como o engendrador de
complexas representações e significados que esperamos poder apresentar nas páginas que se
Capítulo I
Tudo Sobre Sexo no
NP
:
Tradição, Família e Sexualidade
1 – Um breve panorama
No Brasil, foi no final do século XIX e primeiras décadas do XX que começou a
estruturar-se um processo de industrialização com o surgimento de uma burguesia nos
moldes da europeia e com o aparecimento de um proletariado fabril. De qualquer forma, em
boa medida, ainda importávamos modas, padrões culturais, arquitetônicos e científicos da
Europa de um modo geral e, nesse momento, da França em particular.
No campo do sexo no ambiente urbano, a prostituta francesa foi especialmente
importante como vetor de novos costumes e novos padrões, porque nesse:
Momento histórico em que a burguesia e as camadas médias se deslumbravam com
as conquistas do progresso, o mundo da prostituição era vivenciado, no plano
simbólico, em sua dimensão modernizante. Um jornalista explicava em 1916:
“Importamos tudo do estrangeiro, até seus vícios, seus maus costumes. É a nevrose
latente do francesismo” [A Capital, 01/09/1916]. Relacionar-se com a prostituta
estrangeira, mulher experiente e desconhecida, satisfazia a expectativa burguesa de
se ver introduzida nos hábitos sexuais avançados das sociedades modernas (RAGO,
1991, p. 169).
Mas é preciso lembrar que essa liberalidade se restringia apenas aos homens. Da
castidade e o recato. O namoro de uma família burguesa era um ritual vigiado em que o par
mal podia se tocar e era precedido, além da autorização dos pais da noiva,
De uma série de preparativos formais que levavam ao casamento; as moças,
cuidadosamente resguardadas, nunca poderiam ser deixadas a sós com homens que
não fossem parentes próximos. Com olhos vigilantes, a mãe deveria sempre
acompanhar as filhas às festas, observando-as enquanto dançavam, jamais as
perdendo de vista (CARMO, 2011, p. 210).
No que se refere ao proletariado, o medo da burguesia em relação às suas formas
“incivilizadas” de morar e viver demandou uma maior atenção por parte de médicos,
higienistas, criminologistas e inspetores públicos ao que se passava no interior dos cortiços,
favelas e botequins. As “classes perigosas”1 precisavam ser dominadas, era necessário que
seus hábitos fossem moralizados e seus costumes devidamente regrados: “A família nuclear,
reservada, voltada sobre si mesma, instalada numa habitação aconchegante deveria exercer
uma sedução no espírito do trabalhador integrando-o ao universo dos valores dominantes.
O reinado da família permaneceu sem maiores contestações nas décadas seguintes até
o surgimento de uma importante inovação científica. A partir dos anos 60 e da
comercialização da pílula anticoncepcional iniciou-se uma revolução nos costumes. A
organização de movimentos feministas2 e de luta por direitos dos homossexuais colocou a
sexualidade em debate.
1 No tocante aos discursos de finais do século XIX, dizia-se que “os pobres carregavam vícios, os vícios produzem os malfeitores, os malfeitores são perigosos à sociedade; juntando os extremos da cadeia, temos a noção de que os pobres são, por definição, perigosos” (CHALHOUB, 1996, p. 22).
No Brasil, devido à censura imposta pela ditadura civil-militar iniciada em 1964,
discussões mais sistemáticas e articulações de movimentos sociais em torno da sexualidade
só foram verificadas com mais intensidade entre meados da década de 70 e princípios dos
anos 80. Era o momento em que a sociedade começava a falar mais abertamente sobre sexo,
buscar informações e discutir o assunto.
Foi um período em que a sexualidade passou a ganhar espaço nos meios de
comunicação de massa e na imprensa. O jornal Notícias Populares percebeu que seus
leitores também queriam discutir o assunto e viu aí uma chance de, a um só tempo, agradar
seu público e articular seu discurso sobre o tema.
2 – Tudo Sobre Sexo entra em cena
Explorar a sexualidade não constituía propriamente uma novidade na pauta de um
jornal sensacionalista. Como revela Ramão Gomes Portão, editor do Notícias Populares, a
pauta do jornal precisava “captar o desejo do homem da rua. E disto não tenham dúvida: ele
quer sangue e mulher, crime e sexo” (PORTÃO, 1969a). A maneira mais direta encontrada
para satisfazer o desejo do público leitor do NP por sensualidade era a exposição diária de
mulheres seminuas na capa do jornal, as chamadas Máquinas do NP.
Com o olhar provocante e em poses sensuais, moças, na sua maioria dançarinas de
boate e atrizes de filmes adultos, atraíam o olhar do leitor que passava pela banca de revista
com pernas e até seios à mostra. Na seção de Variedades do jornal, mexericos e entrevistas
com atrizes famosas, modelos em evidência e cantoras populares também rendiam boas
páginas também estampavam anúncios de peças de teatro e filmes adultos em cartaz nos
cinemas do centro de São Paulo3.
Porém, como vimos, no início dos anos 1980 o desejo do público por sexo pedia mais
do que a simples estimulação dos sentidos. O público leitor desejava mais informações e
queria discutir o assunto. Captando habilmente essa demanda, o jornal lançou em 06/10/1982
a coluna Tudo Sobre Sexo.
Inicialmente pensada para ser publicada duas vezes na semana, a coluna anunciava na
capa do jornal daquele dia que vinha “trazendo explicações científicas para esclarecer todas
as suas dúvidas”. O sucesso foi instantâneo e logo na semana seguinte ao seu lançamento, o
jornal passou a publicar Tudo Sobre Sexo diariamente.
A coluna dividia espaço com a seção de Variedades do jornal. Normalmente era
publicada no topo da página 11, a terceira do segundo caderno da publicação. Abaixo dela
vinha o “Chacrinha no NP” com notas sobre o mundo televisivo. Não eram raros que os
anúncios de filmes adultos disputassem a atenção do leitor na mesma página de Tudo Sobre
Sexo. A página de 07/03/1983 ilustra bem essa situação:
A coluna abordou uma enorme gama de assuntos dentro do mundo da sexualidade,
tais como masturbação, doenças venéreas, impotência, frigidez, zonas erógenas, virgindade,
infertilidade, homossexualidade, fantasias e desvios sexuais.
A partir de 27 de março de 1983 Tudo Sobre Sexo também passou a dedicar um dia
da semana, os domingos, para responder aos leitores da publicação. Orientados a enviar suas
perguntas por carta e com um pseudônimo para a resposta, eram esclarecidas as dúvidas que
assolavam os leitores. Por questão de espaço e de discrição eram publicadas somente as
respostas, podendo os leitores em geral, na grande maioria das vezes, intuir quais eram as
perguntas das seis ou sete cartas atendidas por semana.
Os assuntos eram diversos, porém a maior parte dos questionamentos dizia respeito à
potência sexual, forma e tamanho do pênis, dúvidas quanto à masturbação, virgindade e uso
de acessórios para o aprimoramento da atividade sexual. Outros, menos avisados do intuito
científico da coluna, escreviam na tentativa de encontrar pares românticos e tinham suas
cartas respondidas unicamente para serem lembrados de que o espaço não se dedicava a esse
fim.
As cartas, de um modo geral, deixam transparecer um profundo desconhecimento do
público sobre temas elementares da sexualidade. Também é perceptível um desejo coletivo
por se enquadrar dentro do que é considerado “normal”. “Possuo um órgão genital do
tamanho e formas normais?” “A frequência de relações sexuais que tenho com minha mulher
é considerada normal?” Meu desejo sexual por uma pessoa do mesmo sexo é normal? Essas
são algumas das questões que, embora não enunciadas formalmente (lembremos que a
coluna omite as perguntas de seus leitores), estavam presentes em várias das semanas
Outro elemento importante a ser assinalado nessa interação entre Tudo Sobre Sexo e
seus leitores é que, por diversas vezes, algumas das colunas da semana se pautavam pelas
perguntas respondidas no domingo. Caso o espaço para esclarecimentos fosse considerado
curto em relação à relevância do assunto, ou a pergunta a ser respondida fosse comum a
muitas cartas, o tema em análise ganharia uma coluna exclusiva.
Durante o recorte temporal deste trabalho, Tudo Sobre Sexo foi assinada por Kate
Meir. O jornal não faz nenhuma apresentação da colunista e nem ela mesma o faz, ou
fornece suas credenciais. Somente depois de quase um ano da estreia da coluna, é que o
jornal dá algumas pistas sobre a identidade de Kate. Em 02/10/1983 ela foi chamada a opinar
sobre um rumoroso caso de zoofilia. A matéria cujo título era “Maníaco da galinha deu no
pé” informava que o serralheiro Petrúcio Luís de Oliveira estava desaparecido após ter sido
indiciado em inquérito do 39° distrito policial da capital. Petrúcio havia violentado uma
galinha, de propriedade de sua vizinha.
Sob o intertítulo “Kate Meir: ‘É caso de psiquiatria’” o leitor era apresentado à Kate:
“Estudiosa há mais de vinte anos dos problemas sexuais e dos desvios de conduta, a cientista
Kate Meir, colunista deste jornal, acha que Petrúcio necessita, com urgência, de tratamento
psiquiátrico”. Pouco mais adiante, a matéria relata que “A cientista [Kate] lembra que o
relacionamento sexual com animais chega a ser comum em regiões rurais e também em
algumas tribos primitivas” e abre novo espaço à colunista “’É bom que se frise’ – torna a
falar a professora Kate Meir – ‘que não são apenas indivíduos do sexo masculino que
buscam esse tipo de relacionamento”4.
Curiosamente, não foram encontradas referências bibliográficas sobre essa estudiosa
tão capacitada. Não existem livros, teses ou artigos publicados por Kate Meir. É provável
que se trate, na verdade, de um pseudônimo. Consideramos que esse fator, contudo, possui
4 “Maníaco da galinha deu no pé”.
relevância menor. O jornal chancela Kate Meir como uma especialista e como tal ela escreve
e é vista pelos leitores que a ela dirigem perguntas e querem a sua opinião sobre os mais
diferentes problemas e dúvidas de suas vidas sexuais.
Interessante notar também a especialidade de Kate, “estudiosa há mais de vinte anos
dos problemas sexuais e dos desvios de conduta”. Kate é uma caçadora de anomalias, uma
verdadeira ortopedista do comportamento sexual e foi assim, efetivamente, que ela se
comportou em seus textos no correr do período analisado.
Embora reiterasse diversas vezes em suas colunas que não pretendia julgar ninguém,
e que cada um tinha o direito de se comportar em matéria de sexo como quisesse, Kate Meir
compôs um quadro bastante nítido do que seria, a seu ver, o comportamento sexual adequado
e desejável.
Veremos, nas páginas seguintes deste capítulo, esse quadro surgir em negativo, ao
lançarmos nosso olhar sobre algumas das anormalidades que preocupavam a colunista,
chancelada pelo Notícias Populares como uma cientista apta a responder “todas as dúvidas”
de seus leitores.
3 – Uma “anomalia” preocupa Tudo Sobre Sexo: A Homossexualidade
Foi com o texto “Medicina e Homossexualismo” que a coluna Tudo Sobre Sexo
abordou pela primeira vez, em 28 de novembro de 1982, a questão da identidade
homossexual. Esta coluna abriu uma série de outras cinco sobre o mesmo tema que seriam
publicadas nos dias seguintes. Duas delas tratando da homossexualidade masculina, duas da
homossexualidade feminina e outra que se ateve à definição de travesti. Em “Quem é o
verdadeiro travesti”, de 03/12/1982, a autora se preocupa com distinguir o homem,
heterossexual, que possui a fantasia sexual (“desvio” em seu raciocínio) de se vestir de
homossexuais, “que se exibem em palcos ou até mesmo partem para a prostituição”. O termo
travesti, no entanto, se consagrou da forma como a colunista se opôs. Para a fantasia sexual
do homem heterossexual que se veste de mulher para obter satisfação, acabou prevalecendo
a denominação em língua inglesa “crossdresser”.
Esta não foi a única vez que a coluna se ateve ao assunto. Em outras 24
oportunidades dentro do recorte temporal desta pesquisa, Tudo Sobre Sexo tratou da temática
de homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais. Temos assim, nos pouco mais de dois
anos de publicação diária da coluna que estão sob análise, 30 delas, o equivalente a um mês
inteiro, dedicado ao tema. Este número expressivo é um forte indicativo da relevância da
questão, não só para grupos de homossexuais que em princípios da década de 80 começavam
a se organizar de forma mais sistemática, como para o público consumidor de um veículo de
comunicação de massa.
Antes de nos determos de maneira mais aprofundada nos detalhes que compõem a
visão da coluna sobre o tema, é importante destacar que, a mera abordagem da
homossexualidade de forma extensa e com o intuito eminentemente informativo dentro de
um veículo da grande imprensa do período e, mais precisamente, dentro de um jornal
símbolo do sensacionalismo no Brasil, representou um grande avanço, à despeito de suas
imprecisões e de perspectivas que, nos dias de hoje, possam saltar aos olhos como superadas
ou preconceituosas.
Não se trata de tentar colocar o Notícias Populares “à frente de seu tempo”, algo de
resto impossível em análises históricas, porém seu pioneirismo nesse aspecto carrega, e aí
está sua riqueza, as contradições que estavam postas no período e dentro do próprio
periódico. O jornal começava a discutir os temas da sexualidade, o que propiciou a revelação
A questão da homossexualidade é, sem dúvida, paradigmática. Tradicionalmente, o
tratamento que o jornal sensacionalista dá ao homossexual “é preconceituoso,
marginalizante, ofensivo e retrógrado. O homossexual aparece como um perverso
degenerado, cuja conduta fere a ‘normalidade’ e coloca em risco as instituições”
(ANGRIMANI, 1995).
A coluna Tudo Sobre Sexo rompeu essa lógica unicamente excludente ao procurar
informar seu leitor sobre este assunto de forma mais direta, valendo-se de um discursoque se
pretendia cientificamente estruturado . Tal atitude que, como veremos, é muito mais próxima
da tolerância determinada por condicionantes que da aceitação incondicional da
homossexualidade tampouco implicou em uma mudança profunda na forma como a
homossexualidade foi tratada pela pauta do veículo. Mas é importante pontuarmos que, nesse
mesmo período, também podemos observar no NP o aparecimento de notícias que, ao lado
das que usualmente expunham a homossexualidade e o homossexual diretamente associados
à criminalidade e a degeneração, versam sobre curiosidades e amenidades do universo agora
denominado “gay”.
Notícias como “Matou o irmão porque era homossexual” de 27/01/1983 na qual o
assassino é descrito como um criminoso regenerado e a vítima como uma “bicha arruaceira
da pior espécie” ou “Lésbica mata outra na disputa de uma mulher” de 10/04/1983, na qual a
orientação sexual é o qualificativo principal de uma assassina, estão ao lado de notícias que
cobriam concursos de beleza, tais como a manchete que estampava, com foto, a capa de
25/11/1982: “Mundo Gay escolhe os mais belos travestis”, ou ainda a escolha da Miss Gay
de 1983, destacada na capa de 29/03/1983. Descoladas da pauta policial, matérias como essa,
ainda que temperadas com ironia, associavam a homossexualidade a alegria e nelas era
realçada a beleza das travestis.
Aceitos ou não por uma sociedade ainda cheia de escrúpulos e falsos moralismos, os
homossexuais, ou terceiro sexo, tanto masculinos e femininos estão aí, cada dia
mostrando mais abertamente a sua condição, para desespero de muitos e piedade de
outros tantos.
Entretanto, longe de ser incentivada, a homossexualidade não deve ser motivo de
ódio ou dó. Porque não é isso que os seus portadores desejam. Muito pelo contrário,
a grande maioria necessita apenas ser aceita como um ser humano qualquer, que deve
ser visto independente de suas preferências sexuais. O que torna o homossexual
“diferente” é exatamente a atitude que acaba por tomar, de desafio, perante um
mundo que o hostiliza.
Depois de anos e anos de estudo, a medicina ainda tem apenas esboços do que venha
a ser a homossexualidade. Para alguns cientistas, trata-se de um problema hormonal.
Estudos feitos com homossexuais indicaram que alguns deles, homens ou mulheres,
têm taxa de hormônio, masculino ou feminino, mais baixa do que os heterossexuais,
ou seja, pessoas que fazem o coito com o sexo oposto. Mas nem todos apresentam
essa anomalia. Apenas aqueles que eram totalmente homossexuais sem a menor
possibilidade de volta.
Provavelmente os portadores de homossexualidade congênita, sem influência de
fatores psicológicos.
Ao mesmo tempo, foi provado, com experiências em animais, que injeções de
hormônio contrário ao próprio sexo, provocam anomalias.
Para os psicanalistas, o homossexualismo não pode ser considerado doença, embora
muitos consigam tratar e curar seus portadores.
Uma forte corrente, entretanto, é de opinião que a única maneira de se tratar
homossexuais é compreendendo e aceitando sua situação.
Só assim os homossexuais conseguirão levar uma vida normal, independente do que