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FICHA TÉCNICA
Título
Fragmenta Historica – História, Paleografia e Diplomática – N.º 10 (2022) ISSN
1647‐6344 Editor
Centro de Estudos Históricos Director
João José Alves Dias Conselho Editorial
João Costa: Licenciado em História pela FCSH/NOVA. Mestre em História Medieval pela FCSH/NOVA.
Doutor em História Medieval na FCSH/NOVA
José Jorge Gonçalves: Licenciado em História pela FCSH‐NOVA. Mestre em História Moderna pela FCSH/
NOVA. Doutor em História Moderna pela FCSH/NOVA Pedro Pinto: Licenciado em História pela FCSH/NOVA Conselho Científico
Fernando Augusto de Figueiredo (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA‐UAç) Gerhard Sailler (Diplomatische Akademie Wien)
Helga Maria Jüsten (CEH‐NOVA) Helmut Siepmann (U. Köln)
Iria Vicente Gonçalves (CEH‐NOVA; IEM – FCSH/NOVA) João Costa (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA)
João José Alves Dias (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA‐UAç) João Paulo Oliveira e Costa (CHAM – FCSH/NOVA‐UAç)
Jorge Pereira de Sampaio (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA‐UAç) José Jorge Gonçalves (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA‐UAç) Julián Martín Abad (Biblioteca Nacional de España)
Maria Ângela Godinho Vieira Rocha Beirante (CEH-NOVA)
Maria de Fátima Mendes Vieira Botão Salvador (CEH-NOVA; IEM – FCSH/NOVA) Design Gráfico
Ana Paula Silva Índices Pedro Pinto Imagem de capa
Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, 1.ª incorporação, Documentos particulares, mç.
17, n.º 22 PT/TT/MSMALC/1DP17/22 “Imagem cedida pelo ANTT”
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SUMÁRIO
Editorial, p. 9 João José Alves Dias
Imagem da capa: ʺNem sodes vós meu tutorʺ! O discurso direto em um documento do século XIII, p. 11
João José Alves Dias ESTUDOS
A propriedade régia no mercado imobiliário da Lisboa medieval (1438-1481), p. 17 Iria Gonçalves
D. António de Noronha e a capitania de Ceuta (1487-1500): Uma aproximação cronológica ao seu governo, p. 59
André Mergulhão
Poderes políticos e a mobilização das elites agrárias no Portugal republicano (1910-1926), p. 67 Leonardo Aboim Pires
MONUMENTA HISTORICA
Saul António Gomes, António Castro Henriques, João Pedro Inácio Costa, Verónica Francisco, Dia‐
na Martins, Fábio da Conceição Almeida Gonçalves, Pedro Pinto, Maria José Mexia Bigotte Cho‐
rão, João José Alves Dias, Lina Maria Marrafa de Oliveira, Miguel Soromenho, Maria João Vilhena de Carvalho, Maria Beatriz Merêncio, Filipe Alves Moreira, Pedro Reis, Pedro Simões, Diogo Reis Pereira, Joana Balsa de Pinho, Daniela Fernandes dos Santos, Ana Luísa R. Moreira, Carlos Morais, Ricardo Pinheiro Vicente, Ana C. Marques, Jaime Ricardo Gouveia, Havva Önalan, Mara Silva, Fábio Duarte, Miguel Rodrigues Lourenço, Alice Borges Gago, Leonor Dias Garcia, Pedro Mota Tavares
A ordem dos documentos desta secção encontra-se nas páginas seguintes (4 a 8) ÍNDICE
Índice antroponímico e toponímico deste número, p. 325
LISBOA
2022
MONUMENTA HISTORICA – Ordenação da documentação
Um livro dos Moralia in Job para o Mosteiro de Lorvão (1183), p. 89 Venda de casais e marinhas em Ílhavo (1192), p. 91
Uma herdade em Condeixa, casas em Avalcouce (Coimbra) e a Moura Fátima (1195), p. 93 Doação de propriedades em Benavila e Galveias por Gomes Pais à Ordem do Templo (1210), p. 95 Testamento de Paio Gonçalves elegendo sepultura em S. Jorge de Coimbra e deixando dádivas aos frades franciscanos de Penela e de Coimbra, entre outros legados piedosos (1235), p. 97
Testamento de Afonso Mendes deixando verba para se fazer um livro para a igreja de Nogueira do Cravo (1240), p. 99
Venda de uma almuinha, vinha e casas, na cidade de Coimbra, ao fundo da Figueira Velha (1252), p. 103
Venda de lagares de azeite na paróquia de S. Bartolomeu de Coimbra (1258), p. 105
Doação de D. Afonso III ao bispo de Coimbra, D. Egas Fafes, das herdades que este comprara em S. Simão, termo de Penela e nas proximidades desse lugar (1260), p. 107
Composição entre o bispo de Tuy e o Mosteiro de Sanfins de Friestas (1262), p. 109 Venda de uma vinha situada na Várzea, junto a Coimbra (1264), p. 113
Mandado de D. Afonso III ao juíz e tabelião de Penela para acautelarem a adega do Cabido da Sé de Coimbra na paróquia de Santa Eufémia e uma vinha no eremitério de S. Simão, para que mal‐
feitores não façam nenhum dano nestes bens (1274), p. 115 Venda de casas junto à Mouraria de Coimbra (1276), p. 117 Venda de casa e de um chouso na Covilhã (1283), p. 119
Duas cartas da Infanta D. Beatriz, Senhora de Gaia e de Vila Nova (1318), p. 121
Cartas relativas à contenda ocorrida em Vila Flor (1329), p. 125
Instrumento de escusa a Afonso Domingues, clérigo do coro da Igreja do Porto, que não tinha cumprido com a sua missão à Cúria Romana (1334), p. 129
Lista dos mosteiros a Norte do Douro que pagaram colheita a D. Afonso IV (1342), p. 131 O concelho de Estremoz jura pazes com Castela (1371), p. 133
A cidade e universidade de Coimbra juram pazes com Castela (1373), p. 137
O concelho e universidade de Guimarães juram pazes com o rei de Castela (1373), p. 141 Inventário das escrituras e das armas pertencentes ao concelho da Lousã (1382), p. 145
Registo de bens imóveis e inventário das escrituras e das armas pertencentes ao concelho da Lousã [post. 1427], p. 149
Moinhos de João de Magalhães, junto ao Moinho do Papel, na vila de Cernache (1437), p. 155 Carta de venda de 4/12 de casas e cavalariças na Rua dos Mercadores (Porto) feita por João Afon‐
so, carpinteiro, e sua mulher Maria Pires a Pedro Eanes, tabelião, e a sua mulher Mécia Gonçalves (1438), p. 157
Carta de D. Afonso V, confirmando outra de D. Duarte, ao provedor da Capela de Pedro Escuro de Santarém, para que não sejam colocados presos e outras pessoas na Albergaria de Rocamador, anexa da mesma capela (1442), p. 161
Carta de D. Afonso V a Rodrigo das Pias, concedendo‐lhe a provedoria e administração do Hospi‐
tal de Milreus, em Coimbra, por estar a ser mal governado (1468), p. 163
Instrumento com o teor de carta de visitação do arcipreste de Penela à igreja da Lousã (1470), p. 165 Privilégios e direitos do Duque de Guimarães para recrutar moradores de Vila do Conde para a guerra (1476), p. 169
Carta de D. João II concedendo o cargo de boticário de todos os hospitais de Santarém a Gonçalo Baião (1488), p. 173
Confirmação por D. Manuel I, de uma carta de D. João I, que declara que os besteiros do conto da vila de Penela recebam 3 reais de 3,5 libras cada, por dia, quando transportarem presos, dinheiro e outros bens (1497), p. 175
D. Manuel I confirma uma carta do Infante D. Pedro, que mandava os caminhantes irem pela estrada da vila e não pelo caminho velho da Várzea, devido ao mau estado desta (1497), p. 177 Confirmação por D. Manuel I de uma carta outorgada por D. João I ao concelho de Penela, para que o rio (Dueça) fosse descoutado e assim permitido pescar (1497), p. 179
Confirmação de D. Manuel I, de uma carta de D. Afonso V, em que ordenava por onde deveriam passar os presos, dinheiro e outros bens quando fossem de Coimbra para sul e vice-versa (1497), p. 181
Confirmação por D. Manuel I de várias disposições de D. Afonso V para com o concelho de Penela (1497), p. 183
Confirmação por D. Manuel I da feira de S. Sebastião de Penela, dos seus privilégios e das suas limitações (1497), p. 187
Confirmação por D. Manuel I da feira de S. Miguel de Penela, dos seus privilégios e das suas limi‐
tações (1497), p. 189
Inquirição sobre milagres feitos pela terra da sepultura de D. João II em Silves (1497), p. 191 Carta do rei de Portugal e príncipe de Castela D. Manuel a Diogo Lopes de Lima (1498), p. 195 Carta de D. Manuel concedendo dez arrobas de açúcar à enfermaria da confraria de Nossa Senho‐
ra da Misericórdia de Lisboa (1499), p. 197
Carta com notícias do reino de França e novidades sobre a armada de Afonso de Albuquerque [c.
1513], p. 199
Carta de D. Manuel, concedendo o cargo de provedor e administrador do Hospital das Caldas de Lafões ao doutor Duarte de Almeida (1514), p. 201
Carta de Lourenço de Cáceres ao rei D. Manuel sobre as obras que estão a ser feitas no Hospital de Évora e outros assuntos respeitantes ao mesmo hospital [ant. 1514], p. 205
Relatório em castelhano sobre a armada que partiu de Lisboa para a Índia e a China (1519), p. 209 Alvará de D. João III para que se guarde e cumpra o compromisso da Misericórdia de Évora Monte (1528), p. 217
Petição de Damião de Góis sobre a restituição do resgate que pagara em França [post. 1545], p.
219
Carta testemunhável de D. João III, contendo o testamento de Baltasar Jorge, morador em Diu, (1546), p. 221
Confissão de Violante Bugalha na Inquisição de Lisboa (1549), p. 231
Carta de D. João III ao corregedor da comarca de Coimbra sobre um diferendo entre o Colégio de Jesus e a Câmara Municipal (1549), p. 235
Alvará de D. João III autorizando a Misericórdia de Montemor-o-Novo a ter um carniceiro que forneça a carne necessária para alimentar os pobres, presos e enfermos (1553), p. 237
Carta testemunhável elaborada a pedido de Manuel de Mesquita sobre as rendas do guazilado de Ormuz (1555), p. 239
Auto de alçamento de D. Sebastião (1557), p. 243
Carta da Rainha D. Catarina à Câmara de Montemor‐o‐Novo sobre a passagem da Infanta D. Ma‐
ria nessa vila a caminho de Badajoz para ver a sua mãe, a Rainha de França (1557), p. 247
Carta de venda de uma metade de um chão de herdade em Avelal, Tarouca (1559), p. 249 Alvará de D. Sebastião fazendo doação à Misericórdia de Lisboa de um chão situado junto do Chafariz dos Cavalos para aí ser construído um Hospital de Incuráveis (1562), p. 253
Notícia tirada de cartas vindas de Constantinopla sobre a armada turca (1566), p. 257
Certidão de verbas do inventário das escrituras guardadas na arca do concelho de Alfaiates (1567), p. 259
Carta de D. Sebastião para o rei da Pérsia sobre a liga contra o Turco (1572), p. 261
Alvará de D. Sebastião concedendo ao Hospital de Nossa Senhora da Piedade de Beja uma esmola de metade das galinhas das coutadas da cidade, para a cura dos doentes (1575), p. 263
Carta da Confraria de Coulão a D. Filipe I relativa à nomeação do juíz dos órfãos, à eleição do es- crivão dos órfãos e às queixas dos confrades sobre a desconsideração, por parte das autoridades, dos privilégios que a Coroa lhes havia outorgado (1588), p. 265
Alvará de D. Filipe I ao Hospital de S. Lázaro de Lisboa, sobre a questão de haver aí doentes do dito mal que vieram de fora, ordenando que sejam transferidos (1588), p. 267
Carta de Duarte Nunes Nogueira endereçada a Isabel Nunes sobre a sua futura viagem a Cartagena das Índias, o comércio de escravos e o envio de uma apelação contestando a hipoteca de uma nau (1592), p. 269
Carta de Duarte Nunes Nogueira endereçada a Francisco Rodrigues, seu tio, sobre a sua futura via- gem a Cartagena das Índias, o comércio de escravos e o envio de uma apelação contestando a hipo- teca de uma nau (1592), p. 273
Alvará de D. Filipe I ordenando a mudança de local do Hospital de Castelo Branco, por estar edi- ficado num local pouco adequado à sua função (1600), p. 277
Descrição da cerimónia da quebra de escudos em Lisboa por ocasião da morte de D. Filipe II (1621), p. 279
Inventário dos bens de Bárbara Faria, casada com Manuel da Silva, livreiro (1626), p. 283 Carta de D. Filipe III à Universidade de Coimbra solicitando o seu contributo para travar os prejuí- zos económicos decorrentes da defesa do Estado da Índia (1629), p. 295
Carta de D. João IV ao reitor da Universidade de Coimbra solicitando-lhe colaboração na guerra com Castela (1645), p. 299
Consulta (minuta) do Conselho Ultramarino sobre a aclamação de D. João IV em Macau e a liber- tação dos castelhanos vindos de Manila [ant. 1648], p. 301
Resposta de Custódio Vieira às questões e recomendações formuladas por D. João V acerca da obra do Aqueduto das Águas Livres (1732), p. 305
Lista dos livros e outros papéis que foram entregues pela Câmara de Alegrete no Juízo da Pro- vedoria de Portalegre para a feitura do tombo dos bens do concelho de Alegrete (1747), p. 309
Bênção da capela instituída pelo dr. Bento Lopes de Carvalho em S. Pedro da Várzea de Góis (1748), p. 313
Requerimento de Luís António, natural do lugar de Valverde, termo da vila de Alfândega da Fé, sobre a divisão efetuada dos matos baldios e terrenos comuns (1804), p. 315
Carta de José Rademaker ao conde de Galveias sobre a guerra anglo-americana e do assalto a embarcações portuguesas por corsários norte-americanos (1814), p. 317
Carta de Carl Fredrik Berghult a L. Westin relatando o roubo de embarcações portuguesas por parte de corsários norte-americanos (1819), p. 321
AUTO DE ALÇAMENTO DE D. SEBASTIÃO (1557)
Transcrição de Ana C. Marques
Faculdade de Letras da Universidade do PortoBolseira do PeX FALCO (IEM, NOVA-FCSH) (EXPL/HAR-HIS/1135/2021)
Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Manuscritos, Caixa 21, “X-3-14”, N.º 4.
© Fragmenta Historica 10 (2022), (243-246). Reservados todos os direitos. ISSN 1647-6344 Resumo
1557, Lisboa, junho, 15
D. João III nomeia D. Catarina como regente do reino, tutora e curadora de D. Sebastião até à sua maioridade e o Cardeal D. Henrique como seu adjunto.1
Abstract
15 June 1557, Lisbon
King João III appoints D. Catarina as regent of the kingdom, tutor and curator of King Sebastião until he came of age, and Cardinal Henrique as her aide. 2
1 Em 1735, Frei Manuel dos Santos publicou o auto a partir de cópia autêntica existente no cartório do Mosteiro de Alcobaça (Historia Sebastica: contem a vida do Augusto Principe o Senhor D. Sebastiaõ, Rey de Portugal, e os successos memoraveis do Reyno , e conquistas no seu tempo, Lisboa Occidental, na Officina de Antonio Pedrozo Galram a custa de Francisco da Sylva, Livreiro da Academia Real, e dos Senados de Lisboa Occidental, e Oriental, 1735, pp.
8-14). Um ano depois, Diogo Barbosa Machado publicou na íntegra este auto com base em manuscrito cuja proveniência se desconhece (Memórias para a história de Portugal que compreendem o governo de el-rei Dom Sebastião, Tom. I, Lisboa Occidental, na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1736, pp.
31-42). Alguns anos mais tarde, António Caetano de Sousa publicou o mesmo documento a partir de manuscrito autêntico que dizia ter na sua posse, mas com lacunas de leitura (Provas da Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, Tom. III, Lisboa, na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1744, pp.
17-21). Há uma cópia moderna muito posterior na Biblioteca da Ajuda (50-V-35, f. 424-426v). Uma versão apenas dos capítulos da última vontade de D.
João III foi publicada em Ernesto de Campos de Andrada (ed.), Relações de Pero de Alcáçova Carneiro Conde da Idanha do tempo que êle e seu pai António Carneiro, serviram de secretários (1515 a 1568), Lisboa, Imprensa Nacional de Lisboa, 1937, pp. 430-432. Existe uma versão manuscrita coeva não auten- ticada na Torre do Tombo (Gavetas, XIII, Maço 8, N.º 41), publicada por António Caetano de Sousa na obra citada (Ib., pp. 22-23). Cf. Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata de Azevedo Cruz, As regências na menoridade de D. Sebastião. Elementos para uma história estrutural, Vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992, pp. 24 e 33. Agradecemos a Ana Luísa R. Moreira pela partilha das imagens da versão da Biblioteca da Ajuda.
2 In 1735, Friar Manuel dos Santos published the writ based on an authenticated copy held in the Alcobaça Monastery (Historia Sebastica: contem a vida do Augusto Principe o Senhor D. Sebastiaõ, Rey de Portugal, e os successos memoraveis do Reyno, e conquistas no seu tempo, Lisboa Occidental, na Officina de Antonio Pedrozo Galram a custa de Francisco da Sylva, Livreiro da Academia Real, e dos Senados de Lisboa Occidental, e Oriental, 1735, pp. 8-14). A year later, Diogo Barbosa Machado published the full version of this writ based on a manuscript of unknown origin (Memórias para a história de Portugal que compreendem o governo de el-rei Dom Sebastião, Tom. I, Lisboa Occidental, na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1736, pp. 31-42). A few years later, António Caetano de Sousa published the same document based on an authenticated manuscript that he claimed was in his possession, but which contained omissions (Provas da Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, Tom. III, Lisboa, na Regia Officina Sylviana, e da Academia Real, 1744, pp. 17-21). There is a much later copy in the Ajuda Library (50-V-35, f. 424-426v). Only one version of the chapters pertaining to the last will of King João III was published in Ernesto de Campos de Andrada (ed.), Relações de Pero de Alcáçova Carneiro Conde da Idanha do tempo que êle e seu pai António Carneiro, serviram de secretários (1515 a 1568), Lisbon, Imprensa Nacional de Lisboa, 1937, pp. 430-432. There is a contemporary manuscript version in Torre do Tombo (Gave- tas, XIII, Maço 8, N.º 41), published by António Caetano de Sousa in the aforementioned work (Ib., pp. 22-23). Cf. Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata de Azevedo Cruz, As regências na menoridade de D. Sebastião. Elementos para uma história estrutural, Vol. I, Lisbon, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992, pp. 24 e 33. We would like to thank Ana Luísa R. Moreira for sharing the images of the version held in the Ajuda Library.
Auto de alçamento de D. Sebastião (1557) FRAGMENTA HISTORICA
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1DOCUMENTO
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Em nome de Deos amen.
Saibam quantos este instrumento de aceptacam, rateficacam e aprovacam de tutoria, curadoria e governanca virem, que no anno do nacimento de nosso senhor Jesu Christo de mil quinhentos cincoenta e sete na cidade de Lixboa nos pacos reaes da ribeira della, segunda feira, catorze dias do mes de junho, tres dias depois do falecimento do muito alto e muito poderoso senhor rey dom Joham o terceiro, nosso senhor que sancta gloria aja, estando em hũa casa dos ditos pacos, a muito alta e muito poderosa senho- ra rainha dona Caterina nossa senhora, e bem asi estando presentes o illustrissimo e reverendissimo se- nhor cardeal ifante dom Anrrique irmão do dito senhor rey e o senhor dom Duarte fillho do infante dom Duarte que sancta gloria aja, sobrinho do dito senhor rey, e o senhor dom Antonio filho do infante dom Luis que sancta gloria aja, sobrinho do dito senhor rey e dom Theodosio duque de Bragança e de Barce- los, e dom Joham duque de Aveiro, marques de Torres Novas e dom Fernando de Vasconcelos arcebispo de Lixboa e dom Afonso de Portugal conde do Vimioso, veedor da fazenda do dito senhor rey, e Joham da Silva regedor da casa da supplicaçao, e dom Rodrigo Lobo Baram D’Allvito, veedor da fazenda do dito senhor rey, e o doctor Gaspar de Carvalho chanceler mor destes regnos e snorios [sic] deles, e Simam de Melo, e dom Anrrique de Crasto e o licenciado Francisco Dias todos tres vereadores desta cidade de Lixboa por ao tal tempo nam aver mais vereadores da dita cidade, em presença de mim Pero d’Alcáçova Carneiro do conselho do dito senhor rey e seu secretario e secretario da dita senhora rainha, notairo publico geral em todos os ditos regnos e senhorios delles, logo a dita snora [sic] rainha nossa senhora, por com seu grande nojo nam estar ao tal tempo em disposição para o poder fazer, pedio ao dito senhor cardeal seu irmão que por parte de sua alteza quisesse propor as pessoas sobredictas as cousas para que ali eram vindos. E logo pello dito senhor cardeal foi proposto que porquanto o dito senhor rey seu senhor que sancta gloria aja, antes de seu falecimento tinha feito certos capitulos de seu testamento escritos por mim dito secretario tocantes á tutoria e curadoria de dom Sebastiam, principe herdeiro e subcessor destes regnos e senhorios, filho primogenito do principe dom Joham que Deos tem, filho do dito senhor rey e da dita senhora rainha, e asi acerqua da governanca dos ditos regnos e snorios para depois de seu falecimento, os quais posto que nam ficasem asinados pello dito senhor rey por sua supita e grave doen- ca lhe nam dar pera isso lugar, pera lhes a eles constar da vontade do dito senhor lhe parecera necessario mandarlhe ler e publicar os ditos capitulos per mim dito secretario logo foram lidos em alta e inteligível voz o theor dos quais de verbo ad verbum é o seguinte:
¶ Porquanto o príncipe dom Sebastiam meu neto filho do principe dom Johão meu filho que nosso senhor tem em sua gloria e verdadeiro e natural herdeiro dos dictos [fol. 1v] regnos de Portugal e do Algarve e snorios delles e subcessor nelles depois de meu falecimento, polo que acontecendo que eu faleca da vida deste mundo em tempo que o dito principe seja ainda menor, eu devo declarar e ordenar quem seja seu tutor e curador emquanto asi for menor e a maneira em que elle no dito tempo o seja criado e servido. Considerando eu como por falecimento do dito principe Dom Joham meu filho, pai do dito principe, elle foi sempre criado por mim e polla rainha dona Caterina minha sobre toda muito amada e prezada molher sua avó como propio filho nosso; assi, pelo mui grande amor e afeicam que tinhamos ao dito principe seu pai e sempre tevemos e temos ao dito principe nosso neto, como polla princesa dona Joanna sua may se tornar logo depois do falecimento do dito principe seu marido para os regnos de Castella, polla qual rezam a dita rainha ficou ao dito principe seu neto em lugar de mãy, e com o mesmo amor de mãy o criou e tractou sempre, e como pellas ordenações destes regnos e por dereito comuum o
1 Os critérios de transcrição adotados encontram-se em Avelino de Jesus da Costa, Normas gerais de transcrição e publica- ção de documentos e textos medievais e modernos, 3.ª ed., Coimbra, Instituto de Paleografia e Diplomática, 1993.
2 No verso do documento, riscado: “Testamento d’el rey Dom Joam o III”; em letra de Jorge da Cunha: “Escriptura de declara- cão de capitulos em que deixou el rey <dom João 3º> nomeada a Rainha Dona Caterina sua molher por regente do reino e tu- tora e curadora do senhor rey Dom Sebastiao que Deus aja sendo menino e por adjunto o Cardeal dom Henrique. a) Jorge da Cunha”. Cotas arquivísticas antigas: “Maço 1 N. 4.º” e “N.º 11”.
FRAGMENTA HISTORICA Transcrição de Ana C. Marques
245 avó que tem sem neto em poder por ser falecido seu filho, pai do dito neto, pode em seu testamento dar tutor e curador ao tal neto, polos quais respectos eu por este meu testamento ordeno e mando que se ao tempo que nosso senhor ouver por bem de me levar para si, o dito principe meu neto for menor de ydade de vinte anos compridos, que a dita rainha sua avó seja sua tutora e curadora, e a dou por tutora e cura- dora do dito principe atee a dita ydade dos ditos vinte annos. E quero e mando que em todo o dito tempo a dicta rainha o crie e ordene tudo aquilo que para a criacam de sua pessoa e seu servico for necessario e asi como o eu fezera e podera fazer se ao tal tempo fora vivo, o que asi ey por bem e mando que se cumpra e guarde inteiramente de meu moto próprio, poder real e absoluto, sem embargo de quaisquer dereitos, ordenacões, openiões de doctores que em contrairo disto aja ou aver possa, os quais em cada hum delles neste caso ey por revogados, cassados e anulados, posto que delles ou de cada huum delles se devesse por dereito neste caso fazer expressa revogacam e mencam, sem embargo de qualquer derei- to que aja em contrairo, e do [sic] ordenacam do segundo livro, titulo quarenta e nove, que manda que nam valha geral revogacam d’alguma ordenacam se da sustancia della nam for feita expressa mencam.
¶ E porque neste tempo e ydade do principe em que ordeno que elle tenha por tutor e curador a rainha sua avó, é necessario eu declarar e ordenar a pessoa que no tempo acima dito governe estes reg- nos e senhorios e o modo que no governo delles se aja de ter, conhecendo eu o grande zello que a rainha minha sobre todas muito amada e prezada molher tem a todas as cousas de serviço de nosso senhor e do bem, paz e asesego dos ditos regnos e senhorios, e asi a muita prudencia, descricam e inteireza que em todas as cousas tem, e a muita experiencia que tem dos negocios do governo dos ditos regnos e se- nhorios, os quais eu sempre com ella comuniquey e pratiquei, avendo por muy certo que no dito governo fará o que com/prir [fol. 2] a servico de nosso senhor e a proveito dos dictos regnos e senhorios. Declaro, ordeno e mando que em todo o dito tempo que o principe meu neto nam for de vinte annos compridos, a rainha sua avó seja governador dos ditos regnos e senhorios e os governe nas cousas de justica, fazenda e em todas as outras cousas que tocarem à governança delles, asi e tam inteiramente como o dito principe o fezera no tal tempo se fora mayor dos ditos vinte annos, e rogo e encomendo muito ao principe meu neto e ao cardeal meu irmão e a dom Duarte meu sobrinho que ajam e reconhecam a rainha minha sobre todas muito amada e prezada molher por governador dos ditos regnos e senhorios, e lhe obedecam em tudo e cumpram e guardem e facam comprir e guardar muy inteiramente e com aquella obidiencia que eu de cada hum delles confio, todos seus mandados e toda outra cousa que ella ordenar e mandar na governanca dos ditos regnos e senhorios, avendo por muy certo que em o assi fazerem, compriram com a obrigacam que me tem e com a que tem a quem elles sam. E isto mesmo encomendo muito e mando aos duques, marqueses, arcebispos, bispos, condes, e a todos outros meus vassalos e naturais de qualquer estado e condiçam que sejam, que façam, cumpram e guardem muy inteiramente como eu delles confio e tenho por muy certo que o faram, asi por lho eu encomendar e mandar como pollo muito proveito, descanso e repouso que se lhes seguirá de serem regidos e governados polla rainha em quem sempre conheci grande desejo e afeicam de seu bom governo.
E tanto que asi por mim dito secretario foram acabados de ler os ditos capitulos, eu dito secreta- rio dei minha fee polla obrigacam de meu officio e por juramento dos sanctos evangelhos, que por minha mao dereita foram tocados, que a ultima e derradeira vontade do dito senhor rei acerqua do contiudo em cada huum dos ditos capitulos, fora aquella que nelles estava per sua alteza notada e declarada de que o dito chanceler-mor que ali estava podia dar seu testemunho por ser a isso presente. E logo pello dito chanceler-mor foi tomado huum livro dos evangelhos e tocado com a sua mao dereita e dito que elle por aquelle juramento que tomava jurava e declarava que o dito senhor fezera os ditos capítulos e os notara per si mesmo alguns meses antes do dito seu falecimento, e por algumas vezes que nelles es- tevera ate os acabar pollo que elle dito chanceler-mor testemunhava e declarava que aquela era e fora a vontade do dito senhor rey. E logo pella dita senhora rainha foi dito que ella pollo tempo em que estava se nam atrevia verdadeiramente a tomar os trabalhos de tam grande carrego e peso porque seu intento principal era encomendar a alma do dito senhor rey e a sua a nosso senhor segundo a obrigacam que a sua alteza tinha. E porem, lembrandose ella da confiança que o dito senhor rei della tinha e dos desejos grandes que ella tinha em todo satisfazer sua vontade e comprir o que por sua alteza lhe fosse mandado atee a morte, ella aceitaria de o fazer comtanto que o senhor [fol. 2v] cardeal infante seu irmão a quisese
Auto de alçamento de D. Sebastião (1557) FRAGMENTA HISTORICA
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ajudar a fazer e comprir tudo o contiudo nos ditos capitulos asi e da maneira que pollo dito senhor rei nelles lhe era a ella mandado pera que com a graca de nosso senhor e pella muita confianca que o dito senhor rey e ella nelle e em suas virtudes tinham, ella o podese com sua ajuda fazer e comprir como pollo dito senhor lhe era mandado. E em sua alteza acabando de dizer isto, eu, dito secretario, dei minha fee e disse que o que eu tinha comprendido da vontade e tencam do dito senhor rey em sua vida era querer que o dito senhor cardeal seu irmão servise e ajudasse a dita senhora rainha naquelas cousas. E pollo dito senhor cardeal foi respondido à dita senhora rainha, que a tencam, vontade e determinacam do dito senhor rey acerqua das cousas contiudas nos ditos capitulos fora muito sancta e mui conveniente a seu servico e à boa governanca dos ditos regnos e senhorios, e que elle pois sua alteza asi lho mandava e parecia servico de nosso senhor e seu e bem destes regnos e senhorios era contente de nisso a servir e ajudar na maneira em que lhe por ella era mandado e por tudo lhe beijava a mão e lha beijou logo e asi o fezeram todas as sobreditas pessoas que presentes eram cada hũa per si, e os ditos vereadores em nome da dita cidade, aceptando, reteficando e aprovando todos a vontade que o dito Senhor rey tevera e declarara acerca do contiudo nos ditos apontamentos e a maneira que a dita senhora rainha acerca disso era contente de ter como acima é declarado. E a dita senhora rainha aceptou a dita tutoria e curadoria e governanca, asi e da maneira que pello dito senhor rey nos ditos capitulos era ordenado e mandado, e disse que era contente de com ajuda do dito senhor cardeal o aceptar na maneira que por ella estava dito e declarado, e que se obrigava de bem e verdadeiramente administrar a dita tutoria e curadoria do dito senhor principe seu neto e pera isso renunciava a ley do Veleyano que diz que nenhuma molher possa ser fiador nem obrigarse por outrem e todos outros quaisquer dereitos que em seu favor facam.
E mandaram que se fezesse do acima contiudo este instrumento pera a dita snora (sic) rainha e o dito senhor cardeal o asinarem e asi todas as mais pessoas que presentes estavam como de feito asinaram nesta nota com as testemunhas abaixo nomeadas e pera della se tirarem em publico os instrumentos que necessarios forem. E eu sobredito secretario em nome das pessoas ausentes a que o caso pertencer possa, istipulei e aceptei as obrigacões e todo o mais contiudo no dito instrumento como se nelle contem e o escrevi de minha mão em minha nota como se nelle contem e o li depois de acabado às pessoas que presentes eram primeiro que o asinasem.
Testemunhas que ao todo foram presentes: Jorge da Silva e Manuel de Sampayo camareiro do dito senhor rey e Bernardim de Tavora reposteiro-mor do dito senhor rey e Pero Carvalho do conselho do dito senhor rey.
E posto que no comeco deste estrumento diga que foi feito ontem segunda feira catorze dias do mes de junho, por nam aver tempo se nam asinou senam oje terca feira quinze dias do mes de junho do dito anno de mil quinhentos cincoenta e sete, ao qual tempo se acharam presentes a tudo dom Mi/gel [fol. 3] de Meneses marques de Vila Real e dom Antonio de Taide conde da Castanheira, veedor da fazen- da do dito senhor rey, e o ouviram ler e por lhes parecer bem e servico do dito senhor rey e bem de seus regnos o que por sua alteza era mandado nos ditos capitulos e tudo o mais conteudo neste instrumento o aceptaram, ratificaram e aprovaram na maneira que se nelle contem e beijaram a mão à dita senhora rainha e asinaram aqui.
Rainha. O cardeal ifante. O duque. Dom Duarte. Dom Antonio. O arcebispo de Lixboa. O conde da Castanheira. Pero Carvalho. Jorge da Silva. Manuel de Sampayo. Francisco Diaz. Dom Anrrique de Castro.
Simam de Mello. Gaspar. Bernardim de Tavora. O Baram d’Alvito. O regedor. O duque. O marques. O conde do Vimioso.
3 E eu Pero d’Alcacova Carneiro, do conselho d’el rey nosso senhor e seu secretario notairo publico geral em todos seus reinos e senhorios, que este estormento de aceptacão, rateficaçao e aprovacão de tutoria e governanca escrevy de minha mão no livro de minhas notas e dele o fiz tirar por meu fiel scrivão e o comcertey so escrevy e asiney de meu publico signal que tal he:
[Sinal]
3 Da mão de Pero de Alcáçova Carneiro.