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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO – PUC-SP

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Academic year: 2018

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Arlete Aparecida Taboada

Radioweb: Outra rádio, diferentes processos

de produção, roteirização e edição

MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA

Dissertação apresentada à Banca

Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Semiótica, na Área de Signo e Significação nas Mídias sob a orientação da Prof. Doutora Jerusa Pires Ferreira

SÃO PAULO

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Agradecimentos

À professora Jerusa Pires Ferreira,

pelo pacto de orientação que me proporcionou esta chegada;

À parceira desta e de outras caminhadas, Carmen Lúcia José,

com quem tenho o privilégio de continuar aprendendo e me orientando;

Ao companheiro Everaldo Gouveia, pela paciência e estímulo sempre presentes;

A todos os alunos e ex-alunos e aos demais parceiros que contribuem e contribuíram com a realização da Radioweb São Judas.

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Resumo

Esta pesquisa teve o objetivo de verificar a composição estrutural dos sistemas de linguagem do rádio hertziano e da radioweb e, a partir da natureza distinta de ambos, identificar diferenças e semelhanças entre eles para apontar os deslocamentos ocorridos, em termos de linguagem sonora, e as possíveis transformações decorrentes nos processos de produção, roteirização e edição de programas radiofônicos, quando da relação de fronteira entre o rádio e a radioweb.

Há experiências variadas na Internet, desde o transporte do modelo sistêmico do rádio para a web até experiências sonoras acompanhadas de legendas em verbal-escrito e de imagens visuais estáticas. No entanto, pouco se pensou até agora em como ocorrem os deslocamentos da linguagem radiofônica de um sistema para outro e quais transformações ocorrem nos processos de produção de programas radiofônicos. Partimos das seguintes hipóteses:

1. A radioweb é obrigada a apresentar uma programação que pode ser ouvida em diferentes momentos: a) repetidamente e no tempo planejado e decidido pelo ouvinte-internauta, quando acessa a internet; b) após arquivar o programa para escuta posterior; c) como no rádio, o programa também pode ser ouvido no tempo presente –“ao vivo” – da emissora, desde que o horário da transmissão seja previamente estabelecido e o ouvinte-internauta avisado com antecedência.

2. Muda o fluxo temporal na produção, roteirização e edição da programação. Se no rádio hertziano é ele quem planeja a transmissão dos seus programas, preenchendo sequencialmente as 24 horas, na web, o fluxo temporal da programação não é seqüencial, pois os programas estão disponíveis permanentemente para atender aos diferentes momentos de escuta, citados no item anterior. A programação “está no ar” sempre que o ouvinte-internauta entrar no ar.

A metodologia deste estudo é a comparação qualitativa dos dois sistemas de linguagem dos meios radio e radioweb, tendo por corpus uma emissora web constituída, a educativa Radioweb São Judas, para analisar os deslocamentos ocorridos na linguagem sonora e as transformações nos processos de produção, roteirização e edição dos programas radiofônicos que passaram a considerar esse novo fluxo temporal, o tempo presente do ouvinte-internauta, receptor e emissor ao mesmo tempo, e não mais o tempo presente do emissor.

Esta pesquisa teve a fundamentação teórica nos estudos sobre semiosfera e fronteira, de Iuri Lotman, sobre meios de comunicação, de Marshall Mcluhan, sobre rádio, de Armand Balsebre, Carmen Lúcia José e Marcello Medeiros; e sobre hipermídia, de Lúcia Santaella.

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Abstract

This research had the objective of verifying the structural composition of the language systems of the Hertzian radio and web radio, parting from the distinguished nature of both, identify the differences and likenesses between them to point out the movements occurred in terms of sound language, and the possible transformations resulting of the production, writing, and editing processes of radio programs in the relation of the boundary line between radio and web radio.

There are various experiences on the internet, since the transportation of the systemic model of radio to the web, until sound experiences with subtitles and static pictures. However, little have been thought on how radio language changes from one system to another and which transformations occurs on the processes of radio programs production.

We part from the following hypothesis:

1. Web radiois obligated to present a programming that can be listened to in different moments: a) repeatedly and in a time that was decided and planned by the web listeners, when accessing the internet; b) filing the programs for posterior listening; c) as much as the radio the program can also be listened at the present time – “live” – as long as the time have been previously established and the web listener have also been previously informed.

2. In the production, writing and editing of the programming the time flux changes. If in the traditional broadcasting stations it is the programming that defines the time of transmission filling in sequence the whole of the 24 hours, on the web, the time flux has no sequence, because the programs are permanently available regarding the different listening moments summoned on the previous item. The programming is “live” every time the web listener is online.

The methodology of this study is the qualitative comparison of language systems, both radio and web radio, having as information a constituted wed broadcasting station, the educational Radiowed São Judas, to analyze the movements occurred in sound language and the transformations on the production, writing and editing processes of radio programs that started to consider this new time flux, the present time of the web listener, receiver and emitter at the same time, and no longer the present time of the emitter. This research had its theoretic foundation on studies about semiosphere and boundaries, from Iuri Lotman, about means of communication, from Marshal Mcluhan, about radio, from Armand BALSEBRE, Carmen Lúcia José and Marcelo MEDEIROS; and about hypermedia, from Lúcia SANTAELLA.

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Sumário

Introdução ... 9

Capítulo 1 – Rádio e radioweb: linguagem ... 13

1.1. Rádio ... 13

1.2. Constituintes da linguagem radiofônica ... 15

1.2.1. Palavra falada ... 15

1.2.2. Trilha musical ... 17

1.2.3. Efeito sonoro ... 18

1.3. Especificidades radiofônicas ... ... 19

1.4. Radioweb ... 23

1.5. Especificidades da radioweb ... 26

1.6. Síntese das especificidades dos dois espaços semióticos ... 29

Capítulo 2 – Rádios em fronteira ... 30

2.1. Tradução das estruturas radiofônicas ... 32

2.1.1. Audição e visualização ... 33

2.1.2. Trânsito e permanência das mensagens ... 36

2.1.3. Intensificação da interatividade ... 37

2.2. Síntese das traduções em fronteira dos dois espaços semióticos .. 39

Capítulo 3 – Temporalidade dos espaços ... 41

3.1. Relógio radiofônico ... 41

3.2. Linearidade e alinearidade ... 45

3.3. Duração temporal flexibilizada ... 47

3.4. Instantaneidade e interatividade ... 49

3.5. Difusão e expressão ... . 52

3.6. Síntese das traduções temporais dos dois espaços semióticos ... 54

Capítulo 4 – Radioweb São Judas ... 56

4.1. Apresentação do objeto ... 56

4.2. Análise do corpus ... 59

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4.2.2. Da sonoridade ... 62

4.2.3. Programação Musical ... 64

4.2.4. Programa Lado B ... 68

4.2.5. Em Pauta – programas jornalísticos ... 72

4.2.6. Programa Língua Portuguesa ... 74

4.2.7. Programa Navitrola ... 79

Considerações finais ... 86

Bibliografia ... 90

Anexos ... 95

Anexo A – Programação da Radioweb São Judas ... 95

Anexo B – Face da Radioweb ... 97

Anexo C – Seleção do Programa ... 98

Anexo D – Escuta do Programa ... 99

Anexo E – Programação Musical ... 100

Anexo F– Lado B ... 101

Anexo G – Lado B ... 102

Anexo H – Em Pauta ... 103

Anexo I – Língua Portuguesa ... 104

Anexo J – Língua Portuguesa ... 105

Anexo K – Navitrola ... 106

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Introdução

Depois de muitos anos atuando em diversas funções no rádio e recentemente em uma emissora web, a Radioweb São Judas, da Universidade São Judas Tadeu, à medida que desenvolvia as atividades de produção, roteirização e edição dos programas que seriam veiculados, tornavam-se cada vez mais visíveis as diferenças e semelhanças no sistema de linguagem sonora das duas mídias. Ao transformar esta experiência em uma pesquisa de mestrado, não poderia deixar de lembrar o que a professora Jerusa Pires Ferreira dissera em um dia de abril de 2011, durante uma de suas aulas no curso de pós-graduação da PUC-SP, quando explanava sobre os semióticos russos e mencionava o processo de aprendizagem de V.V. Ivanov, no qual também se espelhava: “teoria e vivência”. Assim, percebi que, intuitivamente, havia saído em busca da teoria que permitisse fundamentar minha vivência, neste caso, profissional.

Esta pesquisa teve o objetivo de verificar a composição estrutural dos sistemas de linguagem do rádio hertziano e da radioweb e, a partir da natureza distinta de ambos, analisar diferenças e semelhanças dos dois modelos sistêmicos de rádio, atualmente em fronteira, para apontar quais os elementos constitutivos da linguagem sonora do rádio são traduzidos quando deslocados para o radioweb e quais mudanças são operadas nos processos de roteirização, produção e edição de programas radiofônicos.

Algumas hipóteses configuraram-se em pontos de partida para esta pesquisa: primeira, a de que a radioweb é obrigada a apresentar uma programação que pode ser ouvida em diferentes momentos: a) repetidamente e no tempo planejado e decidido pelo internauta, quando acessa a internet; b) após arquivar o programa para escuta posterior; c) como no rádio, também no tempo presente – “nas transmissões ao vivo” – da emissora, desde que o horário da transmissão seja previamente estabelecido e o ouvinte/internauta avisado com antecedência.

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Fundamentamos o presente trabalho em pensamentos consagrados de teóricos sobre texto cultural, comunicação, rádio, programação radiofônica e hipermídia. De Iuri Lotman, adotamos os conceitos sobre semiosfera e fronteira, localizando, nesta pesquisa, os processos de produção, roteirização e edição de programas radiofônicos como os mecanismos bilíngües existentes na fronteira, necessários à tradução que resulta no deslocamento de constituintes do sistema de linguagem do radio para a rádio transmitida pela internet, a radioweb.

De Marshall Mcluhan, nos baseamos no desenvolvimento da consolidada proposição de que o meio é a mensagem representada por estudos que levam em conta o próprio meio e a matriz cultural em que atua; de Armand Balsebre, recorremos ao seu estudo sobre linguagem radiofônica, apresentada como o conjunto de elementos expressivos, tais como a palavra, a música ou trilha musical, os efeitos sonoros e o silêncio que, em suas combinações, resultam em textos de comunicação com diferentes sentidos.

Os distintivos da palavra oral mediatizada traçados por Paul Zumthor em sua pesquisa sobre poesia oral também foram base deste trabalho, bem como as definições sobre matrizes da linguagem e hipermídia, de Lúcia Santaella, e sobre estruturas do sistema de linguagem radiofônico de Carmen Lúcia José, Eduardo Meditsch e Marcelo Medeiros. Por fim, buscamos outro semioticista, Aaron Gurevitch, para fundamentar as questões referentes à temporalidade.

O método utilizado nesta pesquisa foi o comparativo qualitativo, com a formulação de um problema, inserção de quadro teórico de referência, observação e análise dos dados, teste das hipóteses e generalização das conclusões. Antes, porém, foi feita revisão bibliográfica sobre rádio, comunicação e sistemas de linguagem, para obter o que Juremir Machado da Silva define por “inventariar o que já foi dito sobre o assunto” (2001: 64).

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Um esclarecimento, nos parece, se faz necessário: o ouvinte de rádio ou o ouvinte-internauta de radioweb não são protagonistas nesta pesquisa. O que se buscou foi mostrar os deslocamentos ocorridos na linguagem sonora e as transformações na produção, roteiro e edição de programas quando em fronteira do rádio com o novo espaço semiótico radiofônico. Em outras palavras, buscou-se mostrar que os produtores, roteiristas e editores de áudio devem atender as especificidades das estruturas dessa nova mídia para a construção das modelizações radiofônicas e seus significados, confirmando Mcluhan (o meio é a mensagem) e Lotman (um espaço não semiótico, quando em fronteira, pode resultar em ouro espaço semiótico).

Este relatório tem a seguinte apresentação: o primeiro capítulo traz informações e dados sobre o surgimento do rádio e da radioweb e explicita sobre a constituição do sistema de linguagem radiofônica, para, em seguida, iluminar as especificidades das duas mídias. Ainda neste capítulo são estudadas as modelizações radiofônicas e elencadas as diferenças e semelhanças entre os dois espaços semióticos radiofônicos também estão presentes neste capítulo.

No capítulo dois foi defendida a primeira hipótese deste trabalho. No encontro em fronteira dos dois espaços semióticos, a estrutura da programação disponibilizada ao receptor e, no caso da radioweb, ao receptor e também emissor é traduzida: no rádio a grade de programação tem o desenho de uma lista de programas sequencialmente transmitidos sob planejamento da emissora; na radioweb muda o desenho da programação - ela passa a ser visualizada e não apenas audibilizada.

Em Temporalidade nos dois espaços semióticos radiofônicos, título do terceiro capítulo, está a hipótese de que a produção, roteiro e edição de programas passa a atender ao novo fluxo temporal da programação disponível permanentemente e sempre no tempo presente do ouvinte-internauta da radioweb e não mais no tempo presente da emissora que trasnsmite sequencialmente seus programas.

Para ilustrar a defesa das hipóteses apresentadas, o objeto selecionado para análise foi a Radioweb São Judas, no ar desde maio de 2009, emissora com fim educativo, implementada pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade São Judas Tadeu, cuja grade de programação alia conteúdo artístico e acadêmico com programas produzidos, roteirizados e apresentados por estagiários, alunos do curso de Comunicação Social.

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Capítulo 1 – Radio e Radioweb: linguagem

1.1. Rádio

Meio quente, surgido no século passado, com transmissão analógica, o rádio configura-se como mídia em que comunicadores, produtores, redatores e técnicos, de um lado, interagem com ouvintes, e de outro, ouvintes interagem com a mídia por meio de cartas e telefonemas para sugestões, críticas ou elogios sobre os programas transmitidos pelas ondas hertzianas.

Implantado no Brasil em 1.922 como meio de comunicação para a elite (ORTRIWANO, 1985: 14), com sistema de radiodifusão pluralista em que convivem emissoras estatais e privadas ou comerciais, seu caráter de entretenimento reforçou-se na década de 30, ao transformar-se em meio de comunicação de massa, transmitindo programas de auditórios, shows e radionovelas. Após a era do ouro, com o advento da televisão e a fuga dos anunciantes, o rádio buscou sua sobrevivência na veiculação de música, notícias e prestação de serviços.

Transmitido em ondas eletromagnéticas primeiramente em AM (Amplitude Modulada) e a partir da década de 60, em FM (Freqüência Modulada), o rádio tem seu mapa estendido com a formação das redes transmitidas via satélite nos anos 80. Na década de 90, nova expansão, com o surgimento das rádios comunitárias. Entre emissoras comerciais, educativas e comunitárias, o Ministério das Comunicações registrava em junho de 2011 cerca de 9.300 emissoras no país.

Programas, vinhetas, chamadas, blocos comerciais e blocos jornalísticos são veiculados em tempo real. Som, produz apenas som e esta é a natureza da linguagem radiofônica. Basta virar ou apertar o botão para procurar uma emissora que comungue sua direção artística com o interesse do ouvinte, no que está programado e disponível para ouvir, obrigatoriamente respeitando-se a distribuição de horário e programas das respectivas grades.

Segundo Armand Balsebre:

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A linguagem radiofônica é o conjunto de elementos expressivos, tais como a palavra, trilha musical, efeitos sonoro e o silêncio que, em suas inúmeras modelizações1, resultam em textos de comunicação com os mais diferentes enunciados e sentidos: “[...] perdem sua unidade conceitual ao fundir-se no sistema de transmissão que é a linguagem radiofônica” (PRADO, 1989: 36).

Para Balsebre, a tecnologia também pertence à linguagem radiofônica, destacando a presença de microfones, dos sistemas de propagação eletromagnética, filtros, reverberadores, recursos de gravação e reprodução, além da audição do ouvinte ou a situação de escuta desse ouvinte, por considerá-la parte da cadeia significante que confecciona significado à mensagem sonora. (2004: 27)

A análise da ocorrência de trânsito da estruturalidade do rádio para a estruturalidade da radioweb proposta nesta pesquisa se assenta nos constituintes palavra falada, trilha musical, música, efeito sonoro e silêncio, bem como nas modelizações resultantes da interação existente entre suas estruturalidades como programas, vinhetas, grade de programação, direção artística e chamadas, considerando os estudos de Marshall Mcluhan de que “as mais recentes abordagens ao estudo dos meios levam em conta não apenas o „conteúdo‟, mas o próprio meio e a matriz cultural em que um meio ou veículo específico atua” (1964:25); de Balsebre (2004), que defende a tecnologia e seus recursos de gravação e propagação como integrante deste sistema de linguagem; e os de Paul Zumthor2 (2010), que em sua pesquisa sobre poesia oral tipificou alguns tipos de oralidade, colocando a do rádio como oralidade mediatizada.

1 O Grupo Oktiabr, em Semiosfera: exploração conceitual nos estudos semióticos da cultura, publicado

em Semiótica da Cultura e Semiosfera, organizado por Irene Machado, esclarece que há sistemas modelizantes do tipo primário, como o da linguagem verbal que é dotada de estrutura, e sistemas secundários, os que constroem uma estruturalidade ou outras possibilidades de combinação de signos, apesar de manterem, na linguagem verbal, uma estrutura referencial. (...) a palavra modelização deve ser

entendida como um „programa para a análise e constituição de arranjos‟ e não simples „reprodução de um modelo‟”. (2007:29)

2 Paul

Zumthor (2010) define três situações de oralidade: a primária ou pura, sem contato com a escrita; a que coexiste com a escrita, funcionando de dois modos, como mista, cuja influência permanece externa,

ou como segunda, “que se recompõe a partir da escrita”, de uma cultura letrada “na qual toda expressão é

marcada pela presença da escrita”; a terceira situação diz respeito à oralidade mecanicamente

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1.2. Constituintes da linguagem radiofônica

1.2.1. Palavra falada

Definida acusticamente pelo timbre (ligado à constituição física) e pelos níveis variados de tom ou altura (alta ou baixa, agudo ou grave) e de intensidade e sonoridade (forte ou suave, alta ou baixa), a palavra falada, no rádio, baseia a locução radiofônica, dirigida a públicos de diversas faixas sócio-econômico-culturais, de gênero, idade e hábitos de escuta diferenciados. Desenvolve-se em seus diversos tipos - locutor anunciador ou comercial, para textos comerciais ou chamadas institucionais, locutor apresentador e apresentador animador, para programas de diversos gêneros, comentarista, narrador, noticiarista e entrevistador – com performances3 diferenciadas para atendimento dos respectivos públicos.

A configuração, com exceções, foi estabelecida pelo rádio e sua própria história mostra: a voz jovem, com tom alto, é dirigida ao público jovem; a voz mais contida, tom mais grave, para o público adulto; se a locução é feita com ritmo veloz e forte intensidade, portanto com alta estimulação, é adequada para o dia; com ritmo lento e intensidade suave, de baixa estimulação, é apropriada para a noite.

Dentre as características da locução radiofônica estão a articulação ou vocalização, que permite a projeção da palavra para o exterior do aparelho fonador; a harmonia, ligada à maneira como são pronunciadas as palavras, se simultaneamente, ou de forma suave ou tensa, e suas variadas combinações de sons justapostos ou sobrepostos; a entonação ou melodia da palavra que, segundo Balsebre, definem a expressão musical da palavra e sua significação lingüística:

La expresión musical de la palabra radiofônica y su significación lingüística se definen conjuntamente por la melodia o entonación. La curva melódica que la voz produce en la pronunciación de las palabras y frases expresa la actitud psicológica del sujeto hablante [...] (2004:57)

O ritmo também é característica da locução radiofônica, traçado pela alternância de velocidade com que são proferidas as unidades melódicas ou sonoras “porção

3

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mínima de discurso com uma forma musical determinada” (2004: 59), separadas por pausas que são incorporadas ao texto sonoro com a função rítmica.

Para delimitar a pausa não basta obedecer a pontuação estabelecida pelas regras gramaticais do texto escrito, pois além de permitir a respiração do locutor, a pausa atende a outra característica da palavra falada: a naturalidade. Na oralidade mediatizada e mista em que a oralidade coexiste com a palavra escrita, mesmo quando o texto é escrito deve ser falado com a naturalidade do texto oral, seja quando o locutor estiver lendo ou improvisando.

Assim, as regras estabelecidas para a redação do texto radiofônico, entre elas, frases curtas, concisas, busca da precisão e objetividade, não cortar palavras ao mudar de linha, não cortar frases ao mudar de página, escrever por extenso siglas, abreviações e números (FERRARETTO, 2001: 204-228; PORCHAT, 1993: 79-80;) vem ao encontro das características do texto sonoro, ou seja, não é mais a palavra escrita, mas a palavra escrita para ser falada.

Essa combinação de características do texto escrito com as do texto sonoro é o que leva Balsebre a denominar

[...] palavra radiofônica e não voz radiofônica, como “al sistema expresivo del lenguaje radiofônico producido por la voz humana. [...] El concepto „palavra radiofônica‟ connota la acción enunciativa del sonido verbal de una función comunicativa”. (2004: 42)

Ou seja, a palavra radiofônica é mais que som, é ação enunciativa com significado. Se para Balsebre é palavra radiofônica, para Zumthor é vocalidade no lugar de oralidade: “[...] a voz ultrapassa a palavra. [...] A voz não traz a linguagem: a linguagem nela transita, sem deixar traço” (2010: 11). E ele estabelece as regras da performance

[...] a ação complexa pela qual uma mensagem poética é simultaneamente, aqui e agora, transmitida e percebida. Locutor, destinatário, circunstâncias se encontram concretamente confrontados, indiscutíveis. Na performance se redefinem os dois eixos da comunicação social: o que junta o locutor ao autor; e aquele em que se unem a situação e a tradição. (2010: 31)

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1.2.2. Trilha musical

A trilha musical, recorte ou fragmento ressignificado da música, é outro constituinte da linguagem radiofônica. Ao inserir-se em um contexto de comunicação e agregar-se a outros sistemas expressivos como o da palavra e o dos efeitos sonoros para compor a linguagem radiofônica, os distintivos da música – harmonia, melodia e ritmo – passam a ser avaliados na seleção da trilha adequada à construção de sentido de determinada mensagem. Ou seja, a música, transformada em trilha, expande-se nas suas singularidades de ser tocada, cantada, dançada ou ouvida em sua totalidade, e adquire funções diversas para construir novos significados resultantes da combinação com os demais constituintes da linguagem radiofônica. Essa pseudo-fragmentação da música quando transformada em trilha, ao combinar-se com os outros constituintes sonoros passa a conformar outra unidade, esta, chamada mensagem radiofônica.

Balsebre dá à trilha o nome de música radiofônica: “La música en la radio es la música radiofónica, valor de uso comunicativo y expresivo especificamente radiofônico” (2004:90). Em suas combinações com os outros constituintes da linguagem radiofônica, resultados diversos vão sendo construídos de acordo com o propósito das mensagens e assim, a trilha musical passa a cumprir função diferenciada da música.

Carmen Lúcia José e Marcos Júlio Sergl (2006) elencam possíveis situações e funções de uso da trilha musical no rádio, entre elas: quando associada à locução radiofônica, a personagens, produtos comerciais e programas; para denotar mudança de temas ou assuntos; quando é o próprio assunto, portanto reconhecida como parte de uma composição integral; para dar ritmo à locução; e quando é elemento de contato para atrair audiência para o que vai ser falado.4

Os autores também destacam que no rádio, a trilha e os efeitos sonoros constituíram a sonoplastia, composição de recursos sonoros para referencializar ambientes para a locução do texto verbal oral. Ao ampliar-se em seus constituintes, apropriando-se de outras estéticas sonoras, a sonoplastia é renomeada como Paisagem Sonora. “A sonoplastia pode ser entendida como o conjunto de elementos sonoros disponíveis para a composição da Paisagem Sonora5.

4 JOSÉ, Carmen Lúcua e SERGL, Marcos Júlio.Paisagem sonora. Intercom, 2006. Disponível em

www.galaxy.intercom.org.br

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Vale lembrar, e os próprios autores mencionam, que Paisagem Sonora é uma expressão originária da música. Murray Schafer, em O Ouvido Pensante, já a havia utilizado quando tomou a definição de “música de John Cage „sons à nossa volta, não importa se estamos dentro ou fora das salas de concerto‟” (1991:187) para analisar a possibilidade de uso dos vários sons do mundo na composição musical.

1.2.3. Efeito sonoro

Produzidos com o registro de sons ambientes naturais ou criados tecnologicamente, os efeitos podem descrever determinada cena, conotar atmosferas psicológicas, ilustrar assuntos ou fazer parte da narrativa das peças radiofônicas, interagindo com a percepção e reconhecimento do ouvinte a respeito do que está ouvindo.

Balsebre apresenta funções básicas na combinação dos aspectos denotativos e conotativos dos efeitos, com resultados diferenciados. São elas: a) Função ambiental ou descritiva, quando, pela denotação semântica, o efeito sonoro restitui a realidade; b) função narrativa, quando podem se articular pela justaposição e sobreposição de distintos segmentos sonoros da mesma realidade, do mesmo espaço temporal ou de distintas seqüências radiofônicas, entre programas, temas ou seqüências radiofônicas; c) função expressiva, em que predomina o uso da metáfora para expressar algo, cuja analogia entre a fonte sonora e a idéia que representa vem determinada por convenções culturais, mitos ou simples semelhanças rítmicas; d) função ornamental ou ilustrativa, que não apresenta denotação semântica como o descritivo. (2004:125-132)

Além dos constituintes palavra, trilha e efeito e também das duas noções consideradas por Balsebre como constituintes da linguagem radiofônica - tecnologia, conjugando a presença de microfones, sistemas de propagação eletromagnética, filtros, reverberadores, recursos de gravação e reprodução e audição do ouvinte ou a situação em que ocorre a escuta considerando seu sistema sensorial que ressignifica uma mensagem - o silêncio é o quarto elemento constituinte que pode inserir-se de variadas formas na produção de uma peça radiofônica.

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1.3. Especificidades radiofônicas

O conjunto dos programas ou peças radiofônicas, diferenciados em suas inúmeras modelizações construídas pela combinação dos constituintes da linguagem radiofônica, forma a grade de programação de uma emissora, sequencialmente transmitida ao longo das 24 horas em que fica no ar.

Desse conjunto fazem parte: chamadas comerciais ou spots publicitários, apresentados em forma de texto locutado ou cantado, denominado jingle, utilizados para venda de produtos dos anunciantes da emissora; chamadas institucionais que fazem a propaganda, em meio às 24 horas, de programas constantes da grade da emissora; programas de vários formatos, durações e gêneros6; programetes7; programação musical, que se constitui no horário específico para veiculação de músicas selecionadas do play-list da emissora, ou seja, do conjunto de músicas que são tocadas porque atendem à direção artística da emissora; e vinhetas, que, em suas combinações diferenciadas da palavra com a trilha e efeito sonoro, vão carimbando o nome e a identidade artística das emissoras, dos programas, dos comunicadores, ou fazendo passagem entre músicas nas programações musicais, abrindo e fechando programas, ou ainda, a cada hora cheia, situando o ouvinte sobre a emissora que está ouvindo ao divulgar seu nome, dial e potência de transmissão.

Atualmente a grade de programação pode ser construída de forma segmentada, dirigida a públicos heterogêneos na faixa etária, classe social, gênero e nível de escolaridade, considerando as preferências e hábitos de escuta respectivos. Pode-se dizer que a primeira segmentação do rádio ocorreu com a implantação da FM e a conseqüente melhoria na qualidade técnica de transmissão de sons. A predominância na grade dessas emissoras consolidou-se na programação musical dirigida ao público

6 Pesquisadores defendem tipificação diferenciada quando se trata de gêneros radiofônicos. André

Barbosa Filho, em seu livro Gêneros Radiofônicos: os formatos e os programas em áudio, classifica os gêneros segundo a função da mensagem radiofônica: Jornalístico, Educativo-cultural, de Entretenimento, Publicitário, Propagandístico, de Serviço e Especial. Luiz Artur Ferraretto, na obra Rádio: o veículo, a história e a técnica, divide os programas pelos seus objetivos, separando-os em dois grupos: no primeiro grupo, denominado Informativos, estão inseridos o Noticiário, o Programa de entrevista, o Programa de opinião, a Mesa-redonda e o Documentário. O segundo grupo, o De Entretenimento, é composto pelo Programa humorístico, Dramatização, Programa de auditório e Programa musical. Ao mesclar componentes dos dois grupos, Ferraretto afirma surgir o que chama de Radiorrevista ou Programa de variedades. A co-existência de gêneros diferentes em um mesmo programa é bastante comum no rádio. Por exemplo, em um programa musical, portanto, do Entretenimento, a informação também pode estar presente. O mesmo ocorre em um debate esportivo: gêneros Entretenimento e Informativo juntos.

7 O programete é uma peça radiofônica de curta duração, geralmente temático, de diferentes formatações

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jovem. A segmentação difunde-se após meados de 80 quando as rádios passam a vincular seus produtos a públicos cada vez mais perfilados. Até a década de 60, no entanto, a programação das rádios atingia públicos mais amplos.

É a direção artística que garante a combinação das modelizações estruturantes da emissora para caracterização do perfil editorial-artístico que orienta, considerando o conjunto das peças radiofônicas, a segmentação de público-alvo, performance vocal de locução e conteúdo artístico, sejam essas emissoras comunitárias, educativas, populares, jornalísticas, esportivas, musicais, religiosas, com transmissão em AM ou FM. A direção artística, portanto, também é da estruturalidade do rádio.

Por exemplo, na emissora segmentada esportiva, no programa esportivo – cuja modelização é predominante nesse tipo de emissora - destaca-se a performance vocal que tem ritmos diferenciados e podem ser observados na mudança de locução: do narrador, como se acompanhasse o ritmo da bola de futebol em campo; do comentarista, como se desse uma pausa para o pensamento do torcedor; e do repórter que privilegia a informação jornalística sobre o que acontece no campo durante e em paralelo ao jogo.

Na combinação da palavra falada com os efeitos sonoros, pontua-se a marcação do gol, a interrupção de jogo ou o término e abertura de partida. No campo de futebol, com o radinho de pilha ao pé da orelha, o ouvinte indica ao locutor a reação que deve ser comentada transformando-se, nesse momento, em emissor – recebe e emite – para o locutor que transforma-se, cor um momento, também em recedptor – ele emite, mas recebe para reemitir.

Nas rádios populares com programação voltada ao entretenimento, as combinações modelizantes colocam a palavra e a trilha, mais a palavra do que a trilha, como elementos principais na construção de sentido, pois o locutor apresentador é a espinha dorsal na transmissão da mensagem radiofônica ao ouvinte. Apesar de já ser possível observar certo deslocamento para as rádios FM, é nas AM que predomina o modelo do comunicador popular que em sua performance vocal fideliza e se faz companheiro do ouvinte, despertando a curiosidade em torno de quem está falando: “logo ao ouvir a voz do locutor o ouvinte tente visualizar o que ouve, criando na mente a figura do dono da voz”. (MCLEISH, 2001:15)

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receptor em emissor ocorre no contexto de conteúdo determinado pela emissora. Esse recém-emissor somente interferirá no conteúdo dos programas se tal interferência vier ao encontro do interesse dos comunicadores ou donos de emissoras. Ou seja, apesar da participação e interatividade com o comunicador, quem determina conteúdos da programação é a emissora.

As rádios comunitárias surgidas no final da década de 90 foram boa tentativa em aumentar a participação do ouvinte na transmissão da mensagem. A legislação que delimita área de alcance da emissora a, no máximo, um km a partir de sua antena transmissora e define que o objetivo deve ser o de proporcionar informação, cultura, entretenimento e lazer a pequenas comunidades, para contribuir com seu desenvolvimento, propiciava que os próprios integrantes dessas comunidades fossem receptores-emissores de mensagens de interesse das respectivas comunidades. Isso poderia ocorrer se, de forma geral, com exceções, as rádios comunitárias não reproduzissem o modelo tradicional do rádio comercial.

Já em uma emissora jornalística, segmentada em textos jornalísticos, apesar do predomínio também da palavra falada, também há a trilha e os efeitos sonoros, porém como figurantes de segundo plano para dar ritmo à notícia veiculada e pontuar mudança de assuntos e de programas, pois o conteúdo noticioso é o mais importante nas modelizações ou programas desse tipo de emissora. Transmitidos ao vivo, disseminam notícias, repercutidas ao longo do dia não só pelos ouvintes, mas também pelos chamados formadores de opinião de outras mídias de massa, como jornais, revistas e TVs e, mais atualmente, pela própria internet. Na cobertura jornalística radiofônica, repórteres e entrevistados levam o som ambiente das ruas para as mensagens emitidas.

Combinados com trilhas, às vezes associadas a personagens, às vezes dando ritmo à palavra falada, criando cenários ou expressando emoções, os efeitos tiveram predominância no gênero dramático privilegiado no rádio nos anos 40, chamados de Era do ouro do rádio, através das radionovelas. Na combinação com a palavra falada, levavam o ouvinte a imaginar cenários e acompanhar narrativas em que mocinhos e mocinhas se beijavam ao som da chuva e desviavam-se de trovões e relâmpagos, heróis andavam à cavalo, policiais e bandidos trocavam tiros, mãe e filho se reencontravam após anos de sofrimento.

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venda de produtos e marcas. Com durações curtas, mas variadas, os spots são distribuídos em blocos dividindo programas ou, ao longo da programação, passam a integrar a grade de programação de uma emissora.

Também peças curtas são as vinhetas que, em modelizações variadas pela combinação da palavra, trilha e efeitos, apontam identidade da rádio, denotam direções editoriais e artísticas, indicam, abrem e fecham programas ou harmonizam a programação ao servirem de ponte ou passagem entre músicas.

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1.4. Radioweb

O verbo pode saltar do papel para a tela eletrônica; a foto, virar digital; o cinema, se tornar soft, trans, inter; a televisão, ser on demand, mas suas linguagens, mesmo transformadas pelo meio, sobrevivem.

(SANTAELLA, 2007:209)

Meio frio, segundo Mcluhan (1064), a radioweb está situada na era da fragmentação, do efêmero, enfim, da pós-modernidade8. Todos participando de um fluxo de informações, gerando, acessando e distribuindo, protagonistas da mudança de paradigma: da comunicação de massa existente no rádio, em que um emissor se comunica ao mesmo tempo com um coletivo de receptores, para a web e a comunicação um para um, todos para todos, emissor e receptor ao mesmo tempo9. Uma rede composta por nós, sendo cada internauta um nó.

O computador surge em 1940. A internet é criada 30 anos depois pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos e completada posteriormente pelo “WWW Word-Wide Web, recurso de informação desenvolvido por um centro europeu de pesquisa na área de Física, capaz de transmitir documentos na forma de hipertextos” (MOREIRA, 1999: 210).

8 Jair Ferreira dos Santos (2005) analisa o atual contexto sócio-político-econômico, considerando: a) O indivíduo: “O indivíduo na condição pós-moderna é um sujeito blip, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes

efeitos culturais, sociais e políticos” (p.27);

b)A sociedade: “A massa pós-moderna, no entanto, é consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais e acha-se seduzida e atomizada (fragmentada) pelos mass media, querendo o espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano (p.91);

c)Isolamento: “O sujeito se converte assim num terminal de informação. Mas um terminal isolado de

outros terminais, pois as mensagens não se destinam a um público reunido, mas a um público disperso (cada um em sua casa, seu carro, seu micro). Eis porque a massa pós-moderna é atomizada (ultrafragmentada). (p.95) ;

d) Fluxo temporal: “O sujeito pós-moderno é a glorificação do ego no instante, sem esperança alguma no

futuro”. (p.105)

9 Definindo o computador como nova mídia em contraponto às midias tradicionais, Wilson Dizard Jr

afirma que essas novas tecnologias não se adequam à antiga definição de meios de comunicação de massa

se considerado que mídia de massa “significa produtos de informação e entretenimento centralmente (grifo nosso) produzidos e padronizados, distribuídos a grandes públicos através de canais distintos. Os

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Em sua evolução, transforma-se em extensão “do nosso cérebro. Com sua habilidade de armazenar e manipular símbolos, o computador imita a mente na sua capacidade de funcionar como um meio de computação e um meio de representação” (cf. JORNA, 1990:195 apud SANTAELLA, 2003: 233). Com capacidade para fornecer, processar e comunicar dados, passou a ser chamado de mídia,

[...] palavra usada para se referir tanto aos sistemas de comunicação, tais como revistas, jornais, rádio, televisão etc., quanto a uma peça de propaganda que pode estar no rádio, num programa de TV, jornais etc. (2003: 213)

Na década de 90 surgem na internet as redes sociais. O marco inicial propiciou a interatividade em tempo real entre usuários, com o sistema monomodal de relacionamentos MSN, passando pela monomodal múltipla, a Rede 2.0, utilizada para entretenimento, contatos profissionais, marketing social e compartilhamento de arquivos por meio de sites como Orkut e Myspace, chegando na multimodal Rede 3.0, que permite o uso de aplicativos e de mídias móveis, como o Facebook e o Twitter.

As RSIs são plataformas-rebentos da web 2.0, que inaugurou a era das redes colaborativas, tais como wikipédias, blogs, podcasts, o Youtube, o Second Life para compartilhamento e intercâmbio de arquivos como [...] entre elas o Orkut, My Space, Goowy, Hi5, Facebook e Twitter com sua agilidade para microbloging . (LEMOS E SANTAELLA, 2010: 7)

Apenas para contextualizar onde está inserida a radioweb, alguns dados estatísticos: em 2008, havia mais de 133 milhões de blogs (DELARBRE, 2009)10, além de webcans, youtube, ipod e twitter, entre tantas outras ferramentas que permitem a apropriação de conteúdos. Pesquisa11 mostra que a cada dia, 500 mil pessoas entram pela primeira vez na Internet e estima que em 2012 o número de usuários chegará a 2 bilhões.

10 Raúl Trejo DELARBRE Internet como expressão e extensão do espaço público, artigo publicadona

Revista Matrizes, da Escola de Comunicação e Artes da USP, Ano 2, n.2, primeiro semestre de 2009, p.89

11 Dados extraídos de pesquisa feita pelo Ibope Nielsen Online, publicados em www.teleco.com.br

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Ligia Trigo de Souza12 diz que há três tipos de emissoras na web. No primeiro tipo está a transmitida pelas ondas eletromagnéticas, que a partir de 1996 começou a funcionar também na internet. A este tipo de emissora, segundo a autora, pertencem as que funcionam em off-line, ou seja, utilizam a rede para divulgar seu trabalho no dial eletrônico e não disponibilizam o áudio como seu principal serviço.

Há de se considerar que a velocidade dos avanços tecnológicos e a facilidade de acesso e de uso dos seus recursos fazem com que cada vez mais se reduza a ocorrência desse tipo de emissora, aumentando, em conseqüência, o segundo tipo definido por Souza: a on-line, que da mesma forma existe fora da internet, mas disponibiliza o áudio na rede como seu produto principal. Transmite concomitantemente pelas ondas magnéticas e pelo sistema digital. O terceiro tipo é a emissora que não existe fora da internet, designada pela autora de NetRádio, e que será denominada nesta pesquisa como Radioweb.

A transmissão pela internet é digital, em cujo sistema a informação é transformada em dados, na combinação binária de 0 e 1. Existem duas possibilidades de transmissão: ao vivo e on demand. Na transmissão ao vivo, em streaming13, o sinal de áudio do programa é enviado a um computador que o codifica como se fosse sub-arquivos, em formato de pacotes de dados. Ligado a um servidor, esse computador lhe envia os pacotes. Os usuários, conectados ao servidor, passam a receber em seus computadores os pacotes da transmissão, tendo acesso independentemente de o arquivo ter sido transmitido totalmente. Após a transmissão ao vivo os pacotes são apagados imediatamente.

Na transmissão on demand, os arquivos digitais do programa ficam disponíveis no servidor e são acionados quando o ouvinte decide escutá-los. Em ambos os casos, a transmissão se dá via streaming, o chamado fluxo de transmissão contínua, e o arquivo não fica armazenado no computador do usuário.

12 A análise da autora consta de sua dissertação de mestrado Rádios@Internet: o desafio do áudio na rede

na Escola de Comunicações e Artes, USP, 2003.

13 A transmissão em streaming tem a propagação contínua, sem interrupção. Também é chamado de

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1.5. Especificidades da radioweb

Funcionando em ambiente digital, a radioweb tem em sua estruturalidade as três matrizes da linguagem, a sonora, a visual e a verbal, cuja presença em suas variadas modelizações é característica da linguagem hipermidiática14. Para ouví-la é necessário acessar determinado endereço eletrônico no computador e, por meio de índices, ícones e símbolos, visualizar a programação que pode ser selecionada para audição. Portanto, além da oralidade, estão presentes a palavra escrita e a imagem.

No que diz respeito à matriz sonora, como no rádio, compõem a estruturalidade da radioweb as combinações resultantes da palavra falada, música, a trilha musical e os efeitos sonoros, com o intercâmbio recorrente entre eles que resulta em outras modelizações. Assim, são consideradas estruturas nucleares os programas que se apresentam em seus diversos gêneros15 e durações temporais, as vinhetas e as chamadas institucionais.

Temos, portanto, em fronteira, o diálogo permanente entre os diversos textos em que novas estruturas vão se formando na radioweb, permitindo ressaltar que cada gênero de programa pertencente à grade de programação se transforma em outra estrutura nuclear, a estrutura dos programas de Entretenimento, a dos programas de Variedades ou a dos programas Informativos ou Jornalísticos, a estrutura da direção artística, enfim, a própria estrutura do que é chamado no rádio de grade de programação.

Necessário esclarecer como está sendo utilizada, nesta pesquisa, a nomenclatura radioweb. Recebe esta denominação a emissora operada exclusivamente no computador e não a que tem transmissão simultânea, pelas ondas eletromagnéticas e digital. Considera-se, neste caso, que esse tipo de mídia tem maior proximidade com uma homepage que oferece arquivos em diferentes sistemas de linguagem e reproduz o áudio transmitido pelas ondas hertzianas. Ter a transmissão feita exclusivamente pelo sistema digital é uma das características da radioweb.

14Lúcia Santaella denomina hipermídia como “síntese inaudita das matrizes de linguagem e pensamento

sonoro, visual e verbal com todos os seus desdobramentos e misturas possíveis. [...] a hipermídia pressupõe um desenho estrutural para a inserção interativa do leitor imersivo”. (2005: 392)

15 Adotamos nesta pesquisa a seguinte tipificação: programas do gênero Informativo ou Jornalístico para

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Outra característica considerada neste trabalho é que, diferentemente do podcast16, a radioweb apresenta apenas programas de áudio, enquanto o podcast pode oferecer arquivos na linguagem audiovisual, apesar de existir a nomenclatura videocast denominativa de para este sistema.

Mais uma diferença entre radioweb e podcast é a existência da Direção Artística como constituinte da estruturação de uma emissora radiofônica. É por meio da Direção Artística, espécie de coluna vertebral, que se tornam pertinentes as diferenciações de conteúdos e de estéticas entre as emissoras, garantindo o cumprimento da proposta editorial-artística de cada uma delas.

Sobre esta estruturalidade no rádio, José comenta:

[...] importante tratar da direção artística porque tudo decorre dela em uma emissora de rádio: a formação da carteira de clientes, a seleção de vozes para a locução para os diferentes horários e programas, os temas e conteúdos a serem tratados como programa e/ou programete, a editoria jornalística e a constituição do playlist da emissora; por playlist entenda-se o amplo repertório sonoro-musical a entenda-ser usado nas diferentes durações programáticas da emissora [...]17

O estabelecimento da transmissão de programas ao vivo e a periodicidade planejada na atualização da programação radiofônica também são componentes da proposta editorial-artística da emissora web, executada pela Direção Artística.

Ao encontro desse pensamento, o pesquisador Marcelo Medeiros18 aponta como descaracterizadores do modelo rádio na internet, a falta de regularidade na produção de programas, a interrupção da continuidade de transmissão, e a não-centralização da produção.

Ao conceituar um programa de rádio, ele19 defende a presença de elementos radiofônicos principais ou conceituais - que são a linguagem radiofônica e o discurso radiofônico - e também a presença dos elementos estruturais da linguagem radiofônica -

16

Forma de transmissão de arquivos de áudio que podem ser atualizados mediante assinatura do internauta e indexação de RSS, mecanismo que permite o download atualizado. A palavra une os termos Pod – Personal On Demand com Broadcast, ligado à transmissão.

17 JOSÉ, Carmen Lúcia. Essa foi pra tocar no rádio. 6º. Encontro de Música e Midia, do Centro de

Estudos em Música e Mídia, Música de/ Para. São Paulo: Musimid, 2010

18 MEDEIROS, Marcelo. Podcasting: um antípoda radiofônico. XXIX Congresso Brasileiro de Ciências

da Comunicação, 2006. Brasília: Intercom, 2006

19 Idem. Artigo Transmissão sonora digital: Modelos radiofônicos e não radiofônicos na comunicação

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entre eles, a presença do locutor/apresentador, da grade de programação, vinhetas, chamadas, blocos comerciais e blocos jornalísticos.

Eduardo Meditsch ilumina outras características do rádio:

é um meio de comunicação sonora, invisível e que emite em tempo real. Se não for feito de som não é rádio, se tiver imagem junto não é mais rádio, se não emitir em tempo real (o tempo da vida real do ouvinte e da sociedade em que está inserido) é fonografia, também não é radio20.

Como ponto de partida, ao considerar as características dos meios de comunicação citadas por José, Medeiros e Meditsch, denota-se que uma emissora de rádio, para funcionar no computador, precisa configurar-se a partir da natureza da internet, enquanto ocorre o diálogo metalingüístico com a estruturalidade do rádio, em fronteira.

Assim, nesta pesquisa está sendo considerada radioweb, a rádio que: 1) funciona exclusivamente pela internet; 2) disponibiliza apenas arquivos sonoros; 3) possui direção artística para orientar e garantir a editoria temática e artística; 4) tem possibilidade das duas formas de transmissão, on demand e ao vivo; 5) apresenta periodicidade planejada para a atualização da produção de programas.

Como diz Balsebre, não é possível compreender o conceito de mensagem se não estiver referida a um contexto comunicativo, “un mensaje es alguien interpretando un mensaje. Sin la interacción emissor-receptor, sin la mediación de un proceso de percepción, considero que la producción de mensajes no tiene sentido” (2004:19)

20 MEDITSCH, Eduardo. O ensino do radiojornalismo em tempos de internet. In Moreira, Sonia

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1.6. Síntese das especificidades dos dois espaços semióticos

Antes de saber quais mudanças são operadas pelos processos de roteirização, produção e edição de programas radiofônicos na fronteira entre radio e radioweb, torna-se necessário sintetizar as estruturalidades dos dois modelos sistêmicos de rádio para, posteriormente, nos capítulos seguintes, iluminar a tradução dos elementos constitutivos da linguagem sonora do rádio quando deslocados para a radioweb.

Assim, consta da estruturalidade do rádio, a presença de:

a) constituintes da linguagem radiofônica, a palavra falada, trilhas, efeitos e silêncio;

b) a programação é ouvida segundo o relógio radiofônico estabelecido pela emissora;

c) estruturas modelizantes como programas, vinhetas, chamadas e spots comerciais que resultam em grade de programação;

d) direção artística como elo dos formantes da editoria temática e artística (conteúdo, programação, performance vocal);

e) oralidade mediatizada. Na radioweb:

a) soma-se à linguagem sonora os demais sistemas de linguagem, o verbal e o visual e o encontro resultante dessas matrizes;

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Capítulo 2 - Rádios em fronteira

Nesta pesquisa predomina o estudo da linguagem sonora presente nos meios rádio e radioweb e as transformações nela decorrentes quando deslocada de um meio para outro ao passar por mecanismos de tradução aqui estabelecidos como os processos de produção, roteirização e edição dos programas radiofônicos.

Para embasar este estudo foram utilizados os conceitos de semiosfera21 e de fronteira do semioticista Yuri Lotman (1996), pois o trânsito entre os dois sistemas se encontram numa zona bilíngüe que traduz metalinguisticamente uma modelização textual em outra, a partir da estruturalidade da nova mídia.

Así como en la matemática se llama frontera a un conjunto de puntos perteneciente simultáneamente al espacio interior y al espacio exterior, la frontera semiótica es la suma de los tradutores –filtros bilingües pasando através de los cuales un texto se traduce a otro lenguaje (o lenguajes) que se halla fuera de la semiosfera dada. (1996: 24)

Na fronteira, os processos de tradução vão transformando, misturando e ao mesmo tempo distinguindo o que é modelização do rádio e o que é modelização da radioweb, cujo diálogo entre ambas as mídias ocorre no interior da natureza de cada uma porque, afinal, cada meio produz sua respectiva mensagem.

Ao adotar os conceitos de Lotman nesta pesquisa comparativa de linguagem entre rádio e rádio pela internet, foi possível perceber que ao encontro de seu pensamento vem o de outro semioticista russo, Aaron Gurevitch, para quem “[...] ao comparar e encontrar grandes similaridades, é preciso sempre mostrar as diferenças [...] Só é possível comparar fenômenos semelhantes, mas é o estudo das diferenças, das especificidades, das particularidades que faz clara a percepção dos objetos [...]”22 Também foi possível entender que para traçar a fronteira entre os dois espaços semióticos propostos seria necessário o conhecimento dos elementos componentes respectivos, chamados por Lotman de estruturas nucleares, e, assim, apontar diferenças e especificidades entre ambos.

21 Segundo Lotman, semiosfera é o espaço composto por estruturas nucleares e periféricas formadas por

diversos textos e linguagens que se relacionam em níveis diferentes de hierarquização em um continuum semiótico. Apresenta as características da delimitação, traçada pela homogeneidade e individualidade dos códigos, e da irregularidade, marcada pela diversidade de códigos, ambas determinantes da fronteira com o espaço extrassemiótico, onde ocorrem os processos semióticos. (1996: 22-31)

22

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Temos, neste estudo, dois espaços semióticos delimitados pela fronteira ambivalente, que une e ao mesmo tempo separa, onde estão localizados os mecanismos tradutores “através de los cuales un texto se traduce a outro lenguaje (o lenguajes) que se halla fuera de la semiosfera dada.” (1996:24). O autor explica que na fronteira, parte indispensável da semiosfera, o mecanismo bilíngüe traduz as mensagens externas em linguagens internas da semiosfera e o inverso também.

É por meio dela que a semiosfera faz o contato com os espaços não semióticos e alossemióticos “[...] todos os mecanismos de tradução que estão a serviço dos contatos externos pertencem à estrutura da fronteira da semiosfera” (1996: 26, tradução nossa). Esse encontro de desiguais gera novos textos culturais, novas semiosferas, novas fronteiras e periferias de intensos processos dinâmicos.

Com a web 2.0 como plataforma para transmissão de áudio, considerado até então um espaço assemiótico frente à linguagem radiofônica, consolida-se um espaço de interação em que ocorrem processos de tradução entre estruturalidades diferenciadas. Consolida-se, portanto, a fronteira entre as distintas estruturalidades radiofônicas.

Nela, estão os processos de produção, roteirização e edição de programas radiofônicos como mecanismos de tradução das estruturas nucleares do rádio em estruturas periféricas dessa outra estruturalidade, da radioweb, para, por fim, conduzirem-se ao núcleo do novo espaço semiótico.

La frontera tiene tambiém otra función en la semiosfera: es un dominio de procesos semióticos acelerados que siempre transcurrem más activamente en la periferia de la oikumena cultural, para de ahí dirigir-se a las estructuras nucleares y desalojarlas. (1996:28)

Se, como diz Lotman, da posição do observador depende por onde passa a fronteira de uma cultura dada, no caso do ponto de vista do observador interno do rádio, alguns elementos encontram-se no espaço extrassemiótico ou alossemiótico; no entanto, do ponto de vista do observador externo dessa estruturalidade radiofônica, tais elementos podem apresentar-se como pertencentes à sua periferia semiótica.

(31)

outro espaço semiótico e, posteriormente, ruma ao centro dele. Essas estruturas semióticas, ao serem transportadas para o centro, transformam-se em estruturas dominantes nesse novo espaço semiótico – o da radioweb.

2.1. Tradução das estruturas radiofônicas

Uma das hipóteses apresentada por este trabalho é que, diferentemente do rádio, a radioweb é obrigada a apresentar uma programação que pode ser ouvida em diferentes momentos: repetidamente, no tempo decidido pelo ouvinte-internauta quando acessa a internet ou após o arquivamento do programa; e, ainda, como no rádio, também no tempo presente da emissora, o chamado ao vivo, desde que o horário da transmissão seja previamente estabelecido e o ouvinte-internauta avisado com antecedência por alguma modelização possível nessa outra semiosfera.

A possibilidade desta nova programação que pode ser ouvida em diferentes momentos está fundamentada no encontro em fronteira dos dois espaços semióticos da radiofonia com suas respectivas estruturalidades: a radioweb, com transmissão exclusivamente digital, e o rádio, com transmissão pelas ondas eletromagnéticas.

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2.1.1. Audição e visualidade

A garota voltava para o escritório e ligava seu radinho de pilha após almoçar rapidamente para não perder seu programa de rádio preferido. Todo dia debruçava-se na mesa e lá ficava, ouvindo, encantada pela voz e palavras do apresentador do programa. Foram anos e anos a fio seguindo-o com os ouvidos, até perderem-se no cotidiano diferenciado que a vida obriga. Muito tempo se passa e ela, já adulta, jornalista formada trabalhando em rádio, recebe a notícia de que o ídolo de anos atrás participaria ao vivo no jornal falado da mesma emissora. No dia seguinte, ao chegar cedo na rádio, percebe a roda de profissionais em animada conversa, no corredor em frente a porta do estúdio. Presente na roda, ela reconhece a voz que por tantos tempo admirara a imaginar seu rosto. E mediante a oportunidade de finalmente conhecer o rosto da voz, percorre rapidamente o corredor até chegar ao final e fecha a porta sem olhar para trás. Preferiu ficar com a imaginação.

Estruturado pelas combinações dos elementos da matriz sonora - a palavra falada, trilhas, efeitos e silêncio - o rádio apresenta modelizações diversas como programas, programetes, vinhetas, spots publicitários e chamadas institucionais, interligados em uma grade de programação pela direção editorial-artística, e que podem ser ouvidos durante as 24 horas em que a emissora fica no ar. Nesse relógio radiofônico, a transmissão das peças ocorre sequencialmente ou com a linearidade estabelecida pela emissora, ou seja, o ouvinte pode escolher o programa que quer ouvir, porém, deve se sujeitar ao horário de transmissão determinado pela emissora.

Tanto o rádio como a radioweb apresentam oralidade mediatizada, mas na estruturalidade da radioweb somam-se, aos constituintes da linguagem sonora, os constituintes das matrizes de linguagem verbal e visual, resultando na visualidade de suas modelizações no espaço físico em que funciona a emissora digital. O conceito de visualidade vem de Lucrécia Ferrara, ao comparar com visibilidade. Se este “corresponde à elaboração perceptiva e reflexiva das marcas visuais”, o de visualidade é “para designar a imagem que frouxamente se insinua na constatação receptiva do visual físico e concreto [...]” (2002: 120).

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grade de programação, com transmissão sequencial temporal dos programas é a da Rádio Clube.

ade de

SegundaTerçaQuartaQuintaSextaSábadoDomingo

05:00 - 06:30 A Hora do Trabalhador Lucas Siqueira

06:30 - 08:00 Bom Dia Cidade

Alexandre Pereira, Kátia Regina e Cristiano

Silva

08:00 - 11:30 Show da Manhã Rose Leite

11:30 - 12:30 A Hora do Povo

Kátia Regina, Napoleão Bernardes e Edélcio

Vieira

12:30 - 13:30 Assembléia de Deus Igreja Assembléia de Deus

13:30 - 16:00 Show da Tarde Farley Jota Santos

16:00 - 17:50 BlumenauFest Elza Aparecida

17:50 - 18:00 Palavras Amigas Pastor Marcos Giústi

18:00 - 19:00 Sucessos da Clube Locutores

19:00 - 20:00 A Voz do Brasil

20:00 - 22:00 Clube da Noite Cristiano Nunes

PATROCINADORES

Em uma radioweb, os programas passam a compor uma “programação” também vinculada por determinada direção editorial-artística, mas não precisa ser mais uma grade de progamação na forma de uma listagem.

[...] estão simultaneamente expostos e disponíveis, sem pontuações fixas para entrar no ar, porque a qualquer tempo, o ouvinte-internauta pode clicar e ouvir qualquer um deles. (JOSÉ, 2010)23

(34)

Ou seja, o desenho da programação pode ser traçado pelos próprios programas visualizados na tela do computador, cuja disponibilidade temporal permanente extinguiu a obrigatoriedade de preencher as 24 horas de transmissão existente no rádio. Há de se registrar, no entanto, que ainda é comum na internet a repetição visual de uma grade na forma de lista de programas, repetindo o modelo do rádio eletromagnético. Mas, como dito, há outra possibilidade de desenho de programação. Segue um exemplo, o da Rádio Uol:

(35)

Na tradução em fronteiras, uma das estruturas do rádio, a reprise de programas, ou o momento em que se ouve pela segunda vez um programa após a emissora informar a nova data de transmissão - o que geralmente acontece aos finais de semana – é modelização transformada. De estrutura nuclear do rádio que antes estabelecia o horário de retransmissão de determinado programa, na radioweb a reprise deixa de ocorrer, pois é o ouvinte quem decide o quê e quando acessar as peças radiofônicas. Na estruturalidade da radioweb, é ele quem passa a decidir se haverá a retransmissão, qual o programa a ser retransmitido e quando quer ouví-lo.

No encontro em fronteira da radioweb com o rádio, há tradução de outra estrutura nuclear do rádio, a chamada institucional. Nele, além de ser usada para informar sobre reprises de programas, a função principal da chamada institucional é a de convidar o ouvinte a sintonizar a emissora para audição específica de um programa em determinado dia e horário, trazendo para isso, em diferentes combinações, os atributos qualitativos do programa ao qual se refere. Ou, em outras palavras, no rádio, a programação ou programas específicos, somente serão conhecidos com antecedência pelo ouvinte se houver divulgação por meio de chamadas institucionais24.

Na radioweb a chamada também pode ocorrer, porém, mantida em um espaço específico, visível na espacialização da programação ou na modelização do programa Ao vivo. Se no rádio a chamada informa data temporal em que o programa será transmitido, na radioweb ela informa sobre a disponibilidade do programa na tela do computador, portanto, o espaço a ser acessado.

2.1.2. Trânsito e permanência das mensagens

Os programas radiofônicos também são traduzidos na fronteira entre as duas semiosferas e novas modelizações podem surgir na radioweb. Tendo por característica a natureza transitória e um ouvinte que, no geral, desenvolve outras atividades enquanto o rádio está ligado ou que não pode pedir para o locutor repetir o que acabou de dizer, o rádio é obrigado a abordar temas e assuntos de forma simples, rápida e objetiva, na busca da audição e compreensão de sua mensagem pelo ouvinte. “Trata-se, de fato, de um meio de comunicação efêmero, e se o ouvinte não estiver ali para ouvir o noticiário este já terá sido transmitido e ele terá de esperar pelo próximo”. (MCLEISH, 2001:17).

24 Com a internet, tornou-se possível às rádios com transmissão em ondas eletromagnéticas

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Na radioweb, ouvida, mas também vista em sua espacialização, é possível o aprofundamento de temas e assuntos divididos em vários programas que permanecerão disponíveis, todos ao mesmo tempo, e por tempo indeterminado, à disposição do ouvinte-internauta, em uma mesma programação que poderá acessá-los para ouvir quantas vezes quiser.

Nessa espacialização da radioweb, a programação musical também se desvencilha dos períodos fixos da grade linear do rádio e pode adquirir nova proposta com agrupamentos variados de músicas, seja com intérpretes diferenciados, de épocas variadas, de canções temáticas etc25 , transformando cada agrupamento em uma programação musical. No rádio, a programação musical atende à direção artística da emissora não só na escolha de músicas adequadas ao seu público-alvo, mas também na seleção que mistura, em um mesmo período de transmissão, músicas com estimulações rítmicas diferentes, músicas interpretadas por bandas com as interpretadas por solistas, cantoras com cantores etc.

2.1.3. Intensificação da interatividade

O programa Ao vivo está modelizado conforme arranjo pertencente à estrutura nuclear dos dois espaços semióticos. Original do rádio, na fronteira com a radioweb é traduzido e transforma-se em estrutura nuclear desse novo espaço trazendo os mesmos constituintes: palavra falada, trilhas, efeito e silêncio, estruturantes de vinhetas de abertura, encerramento e passagem, e de blocos de conteúdo temático dos diversos gêneros radiofônicos.

A participação do ouvinte, ou a comunicação em tempo real com locutores e produtores do programa que está no ar, também é do núcleo do Ao vivo e é este texto que, traduzido na fronteira com a semiosfera da radioweb, tem um de seus elementos transformados: o canal por onde ocorre essa participação. Antes, no rádio, o ouvinte conversava com os profissionais do rádio por telefone ou por carta enviada pelo correio; com a radioweb, além do telefone, somam-se os canais digitais como twitter, facebook, e-mail e demais tipos de mensagens possibilitadas pela transmissão digital.

Aumenta a velocidade da interatividade com o ouvinte, não só pelo maior número dos recursos de participação advindos com o sistema digital, mas por ser

25 No artigo Essa foi pra tocar no rádio apresentado por Carmen Lúcia José no 6º. Encontro de Música e

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característica da internet, onde está situada a radioweb, a “inserção interativa do leitor imersivo”26.

Referências

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