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História vol.33 número2

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Academic year: 2018

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DOI: 10.1590/1980-436920140002000027

CARRASCO, Olga Muñoz. (Org.). Perú y la Guerra Civil Española. La voz de los intelectuales. Madrid: Calambur Editorial, 2013, 559 p.

________________________________________________________________________________

Marcos GONÇALVES Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.

Contato: [email protected]

A coleção HGCE Hispanoamérica y la Guerra Civil Española – consiste em uma série de

estudos sob a direção geral do poeta e crítico literário britânico Niall Bins. Trata-se de uma

recompilação de textos de época introduzidos por adensados comentários críticos sobre o impacto

da Guerra Civil da Espanha entre os intelectuais da América hispânica. O Volume 3, ora

apresentado, foi organizado por Olga Muñoz Carrasco, poetisa, professora e investigadora da Saint

Louis University (Madrid Campus) e colaboradora honorária do Departamento de Literatura

Hispanoamericana da Universidad Complutense de Madrid. Encontram-se publicados entre os anos

de 2012 e 2013 quatro volumes da coleção: Equador (volume 1), Argentina (volume 2), Peru

(volume 3) e Chile (volume 4), estando em fase de preparação o volume 5, alusivo a Cuba. Cada

um deles reúne testemunhos que permitem conhecermos o panorama do campo intelectual do país

em questão no período de 1936 e 1939, quando as disputas estavam concentradas na convivência

entre as vicissitudes da política interna e as tensões geradas pelo drama da guerra espanhola. A

coleção, ao aliar o diálogo entre as análises dos especialistas organizadores aos documentos selecionados, propõe uma compreensão sobre o termo “intelectual” no contexto altamente politizado e ideologicamente polarizado dos anos 1930, sem, contudo, prescindir de considerá-lo necessariamente elástico: “Para nuestra colección, “intelectual” es toda persona que participó con la palabra escrita en el debate de ideas sobre la guerra civil”. (p. 15).

A cuidadosa pesquisa de Muñoz Carrasco – desenvolvida em arquivos e bibliotecas das

cidades de Lima e Madrid – constitui, assim, uma referência importante para os estudiosos da

história intelectual iberoamericana, pelo menos, por duplo motivo. Primeiro, porque demarca os

inevitáveis contrastes e níveis de engajamento dos intelectuais peruanos, cujas escolhas entre

nacionalistas e republicanos na guerra da Espanha praticamente não admitiam recuos ou

tergiversações. Segundo, porque os documentos que acompanham a obra proporcionam uma mirada

sobre a representação que a elite pensante do país latino-americano construiu a partir de uma

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política: a metáfora do “espelho” traduziu o fenômeno da guerra em termos de identificação dos peruanos com a “madre patria”. Em outras palavras, o conflito não foi tratado como um acontecimento estranho ou exterior às sensibilidades políticas peruanas. Chegou a ser vivido como

uma causa própria, ao aprofundar as divisões entre os intelectuais mais tradicionalistas – à direita

do espectro político – e os de esquerda. Enquanto os primeiros viam na guerra a possibilidade real

de acabar com o comunismo que ameaçava destruir a raiz católica do mundo hispânico, seus rivais

defenderam uma ordem que designavam democrática pela qual também lutavam no Peru. Na parte

inicial, uma indagação decisiva lançada às fontes atravessa o debate proposto por Muñoz Carrasco:

como buscar uma Espanha que se projetava para além de suas fronteiras e de seu tempo; ou, como

recuperar a origem comum entre a Iberoamérica e a mãe pátria dado que o presente de então

somente as aproximava pela violência e terror compartilhados? É nessa perspectiva que a autora

traçou similitudes entre as realidades históricas de Peru e Espanha, elaborando o quadro descritivo,

a um só tempo amplo e preciso das atitudes e práticas que conduziam os intelectuais peruanos a

caminhos incertos e antagônicos.

Segundo Carrasco, o contato entre os dois países havia sido mínimo durante quase todo o

século XIX, desde que o Peru não manteve relações diplomáticas com a monarquia ibérica nos

primeiros 50 anos de sua independência. Ainda que tenha se restabelecido a partir de 1879,

escasseavam na relação demandas institucionais que permitissem o intercâmbio, e, em muitas

ocasiões, iniciativas isoladas definiram a criação de espaços de diálogo como a Academia de la

Lengua, a Academia Nacional de la Historia e a Sociedad Geográfica de Lima.

A situação passou por mudanças entre os anos 20 e 30 do século passado. Pouco a pouco

foram se desfazendo as imagens negativas herdadas da época da independência, e nas celebrações

do centenário da batalha de Ayacucho (1924) começaram a ser construídos novos laços culturais,

evidenciados por expressivo número de livros e artigos dedicados à Espanha. A violência política e

a turbulência social também foram marcas comuns no Peru e na Espanha, assim como outros pontos

de contato, quanto à urgência de transformações estruturais, acentuavam o parentesco entre as duas

sociedades:

[...] ambos países poseían élites políticas que buscaban un camino pacífico hacia la modernidad, habían heredado un sistema de distribución de tierra arcaico y mostraban diferencias dramaticas en el reparto de la riqueza. Por otro lado, tanto España como el Perú contaban con sectores económicos emergentes en la industria y el comercio, así como con una burguesía y un proletariado que, cada vez más, consideraban los modelos tradicionales obstáculos a sus aspiraciones. (CARRASCO, p. 33).

Se no Peru a proibição e o expurgo de movimentos políticos como a APRA de Victor Haya

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Espanha republicana muitos projetos que apontavam para a modernização da sociedade (laicização,

reforma agrária, reforma trabalhista, etc.) tenderam ao fracasso diante da intransigência obstinada

de fontes de poder social, como a Igreja, o Exército, os terratenentes e a influente FE – Falange

Espanhola. Depois de 1935, a brecha aberta entre as duas Espanhas (republicana e nacionalista)

também apareceu no Peru, ainda que sua relevância tenha sido menor do que em outros países

latino-americanos, como Argentina, Chile ou México. A maioria de intelectuais peruanos

contemporâneos da guerra civil firmou-se na identidade e na trajetória política e social do Peru para

mostrar o que considerava a única possibilidade viável do momento: o apoio aos nacionalistas de

Franco. A oposição a eles aconteceu não só por meio dos textos de viajantes eventuais, mas também

de uma poética insurgente e de um periodismo de resistência que encontraram, ora na

clandestinidade, ora no exílio de intelectuais pró-republicanos, os principais lugares de ressonância.

A travessia do estudo de Muñoz Carrasco para a documentação histórica confere ao volume

sua circunstância determinante, porque é ali que são escutados os dilemas saídos das vozes dos

intelectuais. Podemos indagar e, sobretudo, compreender a partir de um mínimo olhar sobre os

manifestos: como se organizava o campo das disputas e, principalmente, de que modos o conflito

espanhol afetava vidas, obras e compromissos políticos?

A linguagem tensionada nos revela, junto ao processo de degeneração da guerra, as

mudanças que aconteceram na percepção dos indivíduos e o empenho em circunscrever o conflito

num horizonte de compreensão. Dos manifestos hispanofóbicos de Alberto Hidalgo e seu grito

¡España no existe! – passando pela poesia de vanguarda de Magda Portal a verter sentimentos de

amor e ódio (“Te odiaba España por tus frailes hipócritas y sombrios...”), chegando-se à defesa do fascismo em Víctor Andrés Belaúnde –, o volume é rico pelo contraditório que continuamente

desperta. De um lado, tal exemplo pode ser rastreado na ação do escritor pró-republicano César

Vallejo (1895-1938). Do seu desterro madrilenho em 1931, via com ceticismo os primeiros passos de uma República que, a seu juízo, “no hacía más que perpetuar las jerarquías de antes”; no entanto: “Cinco años después, en cambio, la radicalización de la República bajo el Frente Popular y la resistencia popular al levantamiento militar lo encandilarían”. (CARRASCO, p. 493).

Depois de várias manifestações do poeta em favor da República por meio de

correspondências, artigos em jornais e periódicos, uma de suas últimas intervenções antes da morte

no exílio parisiense de 1938 veio da participação no II Congreso Internacional de Escritores para

Defensa de la Cultura, realizado em Madrid no mês de julho de 1937, quando a guerra civil

espanhola completava o primeiro ano. No texto-discurso “La responsabilidad del escritor”, a

comovedora argumentação de Vallejo parece reafirmar uma “vocação zolaiana”, se nos é permitida

a expressão, para definir o papel do intelectual na defesa intransigente daqueles que percebe como

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Me refiero ahora al aspecto de la responsabilidad del escritor ante la Historia y, señaladamente, ante los momentos más graves de la Historia. Hablemos un poco de esa responsabilidad, porque creo que en este momento, más que nunca, los escritores libres están obligados a consustanciarse con el pueblo; a hacer llegar su inteligencia a la inteligencia del pueblo y romper esa barrera secular que existe... [...] Camaradas: los pueblos iberoamericanos ven claramente en el pueblo español en armas una causa que les es tanto más común cuanto que se trata de una misma raza y, sobre todo, de una misma historia. [...] la causa de la República Española es la causa del Perú, es la causa del mundo entero [y] los pueblos que han sufrido una represión, una dictadura, el dominio de las clases dominantes, poderosas, durante siglos y siglos, llegan por una aspiración extraordinaria a tener esta rapidez; porque un largo dolor, una larga opresión social, castigan y acrisolan el instinto de libertad del hombre en favor de la libertad del mundo hasta cristalizarse en actos, en acciones de libertad. (VALLEJO apud CARRASCO, p. 513-514).

Ao extremo de Vallejo encontra-se José de la Riva-Agüero (1885-1944). De raízes

aristocráticas, Marquês de Montealegre de Aulestia, ele encarnava, segundo a análise de Jeffrey

Klaiber (2008, p. 460-462), o pensamento integrista e nacionalista, também designado

nacional-catolicismo. Riva-Agüero ingressou tarde no rebanho católico, porque em sua juventude e ainda

como professor em San Marcos professava ideias liberais e positivistas. Em célebre discurso de

1932 diante de seus companheiros de promoção no colégio La Recoleta, formalmente renunciou a

seu passado liberal e declarou-se católico, ao alegar seu distanciamento da religião como fruto de

leituras imprudentes e atropeladas. (KLAIBER, p. 460). Para traduzir seus impulsos

nacional-católicos do campo da retórica ao da ação efetiva, Riva-Agüero liderou, durante a guerra civil espanhola, campanhas de arrecadação de fundos e apoios para Franco: “yo soy el mayor contribuyente mensual para la Cruz Roja Nacionalista. Deseo que allá se enteren de que cumplo con mis deberes”. (RIVA-AGÜERO apud CARRASCO, p. 433). Foi precisamente sua lealdade ao franquismo que o levou a tecer elogios ao governo peruano quando este rompeu as relações com a

República, reconhecendo, ao menos implicitamente, a vitória antecipada dos nacionalistas de

Franco. A radical distinção entre os intelectuais aderentes a um lado e outro da contenda fica mais

patente quando Muñoz Carrasco nos oferece um excerto de discurso pronunciado por Riva-Agüero

na noite de 17 de junho de 1938, no banquete do Club Nacional de Lima em homenagem ao escritor

e conselheiro da Falange Espanhola Eugenio Montes:

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Resultado de anos de investigação, o estudo de Muñoz Carrasco recupera textos pouco

conhecidos de dezenas de intelectuais peruanos da época. Coloca-nos em contato com figuras

centrais no panorama das letras e da política, cuja produção completa sobre a guerra civil é

imprescindível registrar. Outra virtude do trabalho é que a variedade de materiais se apresenta,

metodologicamente, dentro de um critério unificado quanto às tipologias de textos selecionados: a

dimensão política do conflito se revela por meio de correspondências, poemas, discursos e artigos

em jornais e periódicos que formam o cerne da produção intelectual peruana sobre a guerra civil.

Junto à matriz propriamente política e ideológica das militâncias, quedamos surpreendidos pelo

impacto pessoal e moral que emerge da ação de cada um dos envolvidos, cujas consequências, não

raras vezes, podem estar além da ação das organizações. Resta ponderar sobre a atualidade do tema.

Quando muito se discute a rarefação do indivíduo no campo da literatura e a evasão do sujeito da

atividade política, ou quando as marcas tradicionais do engajamento são confrontadas pelo

anonimato e a diluição, que parecem frustrar o próprio núcleo narrativo das experiências, o estudo

de Carrasco restitui um debate que propõe repensarmos as grandes causas emancipacionistas, as

vivências e representações sobre princípios e dilemas éticos.

Referências

CARRASCO, O. M. (Org.). Perú y la guerra civil española. La voz de los intelectuales. Madrid: Calambur Editorial, 2013.

KLAIBER, J., S. J. Los intelectuales y la religión en el Perú. In: AGUIRRE, C.; McEVOY, C. (Eds.). Intelectuales y poder. Ensayos en torno a la república de las letras en el Perú e Hispanoamérica (ss. XVI-XX). Lima: Instituto Francés de Estudios Andinos, 2008, p. 457-477.

Marcos Gonçalves é Professor Doutor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná.

Referências

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