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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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INTELECTUAIS E TESTEMUNHAS NO MÉXICO CONTEMPORÂNEO EMEL TESTIGO DE JUAN VILLORO

Simone Silva do Carmo

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SIMONE SILVA DO CARMO

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação de Letras Neolatinas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Área de concentração: Estudos Literários – Opção Literaturas Hispânicas)

Orientador: Professor Doutor Víctor Manuel Ramos Lemus.

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C287i

Carmo, Simone Silva do.

Intelectuais e testemunhas no México contemporâneo emEl testigo de Juan Villoro / Simone Silva do Carmo. -- Rio de Janeiro: UFRJ/Faculdade de Letras, 2013.

250 f. : il. ; 30 cm.

Orientador: Prof.º Dr. Víctor Manuel Ramos Lemus.

Dissertação (mestrado) – UFRJ / Programa de Letras Neolatinas (Faculdade de Letras), 2013.

1. Literatura mexicana. 2. Vanguardas mexicanas. 3. Juan Villoro. 4. Ramón López Velarde. I. Lemus, Victor Manuel Ramos. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. III. Intelectuais e testemunhas no México contemporâneo emEl testigo de Juan Villoro.

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Simone Silva do Carmo

Orientador: Professor Doutor Víctor Manuel Ramos Lemus

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Área de concentração: Estudos Literários – Opção: Literaturas Hispânicas).

Aprovada por:

Presidente, Prof. Doutor Víctor Manuel Ramos Lemus - UFRJ

Prof. Doutor Ary Pimentel - UFRJ

Prof. Doutor Juan Pablo Chiappara Cabrera - UFV

Prof. Doutor Miguel Ángel Zamorano Heras - UFRJ, Suplente

Prof. Doutor Luis Alberto Nogueira Alves – UFRJ, Suplente

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confiança e apoio nos momentos mais difíceis.

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Agradeço a Deus que permitiu a realização deste sonho.

Aos meus pais Lúcia, Diorge e a minha avó Altiva, como tantos outros brasileiros desse imenso país não tiveram a oportunidade de estudar, mas nunca deixaram de me apoiar e incentivar, com certeza parte deles está aqui neste trabalho.

Aos meus seis irmãos: Sergio, Eduardo, Janete, Ricardo, Rodrigo e Rafael que me apoiaram ao longo da vida.

A quatro incríveis mulheres, minhas grandes amigas que foram meu ombro sempre que precisei: Alessandra, Lúcia, Luciára e Zenilma meus sinceros agradecimentos.

Ao Professor Doutor Víctor Manuel Ramos Lemus não há palavras para agradecer as palavras certeras e as broncas na hora certa para trilhar esse caminho até aqui. Com certeza, ele se tornou menos árduo graças a sua orientação precisa e segura desde a Especialização.

Aos Professores Doutores Julio Aldinger Dalloz e Ary Pimentel um agradecimento especial pelo incentivo e generosidade desde a Especialização.

À Professora Doutora Helena Parente Cunha pelo delicado acolhimento de compartilhar comigo tanta sabedoria.

À Professora Doutora Elena Palmero González, agradeço a descoberta que me permitiu deslocar por muitos lugares.

Ao Professor Doutor Marco Luchesi pela ampliação dos conhecimentos sobre a filosofia da história, tema relevante para o amadurecimento deste trabalho.

Aos Professores Doutores Pedro Paulo Garcia Ferreira Catharina e Maria Aurora Consuelo Lagorio, pelas primeiras observações a respeito deste texto que permitiram desenvolvê-lo de forma organizada.

Ao amigo distante Sergio Gutiérrez Negrón que com tamanha generosidade e desprendimento indicou um sólido caminho, meus sinceros agradecimentos.

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em El testigo de Juan Villoro. Rio de janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas (Área de concentração: Estudos Literários Neolatinos - Opção: Literaturas Hispânicas) Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

El testigo do escritor mexicano Juan Villoro, publicado em 2004, tece uma reflexão sobre a testemunha, figura colocada em questão por diversas tendências contemporâneas. Composto quase todo no estrangeiro após a derrota eleitoral do PRI (Partido Revolucionario Institucional) nas eleições presidenciais de 2000, fato que, a princípio, colocaria fim à hegemonia de 71 anos do “governo da Revolução Mexicana”, trata-se de um romance que aproveita a forma romanesca do século XIX para traçar um panorama do México, incluindo o campo e a cidade, os ricos e os pobres, o antigo e o moderno, procurando discutir a nação. Para tanto, Villoro retorna ao início da poesia mexicana moderna e à tradição da narrativa literária do meio do século, invocando escritores e temas desses períodos. No entanto, desde o início, sabe-se, por diversas marcas e indícios, que essa obra está situada após o ano de 2000, num contexto que parece tirar de cena a figura do intelectual, passando por isso mesmo, inicialmente, a tratar os personagens como testemunhas. Deste modo, este trabalho demonstra que, no romance em que aparecem muitos personagens ocupando o papel de “testemunha” e no qual o termo intelectual não é destacado, é desta figura que, na verdade, se tece uma reflexão. Para tal, discute-se a relação do intelectual mexicano com a história e com o poder num contexto caracterizado pela violência do narcotráfico, pela contínua manipulação dos meios de comunicação a favor do poder hegemônico e pela interferência da Igreja no contexto social e político do México. É, portanto, a figura do intelectual que permite entender o porquê da reflexão sobre o poeta Ramón López Velarde, a recuperação das vanguardas mexicanas e a colocação de personagens caracterizados como produtores de discurso.

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en El testigo de Juan Villoro. Rio de janeiro, 2013. Disertación sometida al Programa de Postgrado en Letras Neolatinas en la Universidad Federal de Rio de Janeiro – UFRJ, como parte de los requisitos necesarios para la obtención del título de Master en Letras Neolatinas (Área de concentración: Estudios Literarios Neolatinos - Opción: Literaturas Hispánicas).

El testigo del escritor mexicano Juan Villoro, publicado en 2004, hace una reflexión sobre el testigo, figura cuestionada por diversas tendencias contemporáneas. Compuesto casi todo en el extranjero después de la derrota electoral del PRI (Partido Revolucionario Institucional) en las elecciones presidenciales de 2000, hecho que, al principio, pondría fin a la hegemonía de 71 años del “gobierno de la Revolución Mexicana”, es una novela que trata de la forma novelística decimonónica para hacer un dibujo de México, incluyendo el campo y la ciudad, los ricos y los pobres, lo antiguo y lo moderno. Por lo tanto, Villoro vuelve al principio de la poesía mexicana moderna y la tradición de la narrativa literaria de mediados de siglo, invocando escritores y temas de esos períodos. Sin embargo, desde el inicio, es sabido por diversas marcas e indicaciones que esta novela está ubicada después del año 2000, contexto que parece quitar la figura del intelectual de la escena y, por consiguiente, los personajes son inicialmente tratados como testigos. Así este estudio demuestra que en la novela donde aparecen muchos caracteres ocupando el papel de “testigo”, y en la cual el término intelectual no es destacado, de hecho, es realmente acerca de esta figura que se hace una reflexión. Con este fin, se discute la relación del intelectual mexicano con la historia y con el poder en un contexto caracterizado por la violencia del narcotráfico, la manipulación constante de los medios de comunicación en favor del poder hegemónico y la injerencia de la Iglesia en el contexto político y social de México. Por lo tanto, es la figura del intelectual que permite entender el porqué de la reflexión sobre el poeta Ramón López Velarde, la recuperación de las vanguardias mexicanas y la colocación de personajes que se caracterizan como productores de discurso.

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El Testigo of Juan Villoro. Rio de Janeiro, 2013. Thesis (MA in Romance Languages Literature (Major: Literary Studies Neolatinos - Option: Hispanic Literatures) Faculty of Arts, University Federal of Rio de Janeiro.

El Testigo of the Mexican writer Juan Villoro, published in 2004, makes a reflection on the witness, figure into questions by several contemporary tendencies. Written almost all abroad, after the electoral defeat of the PRI (Partido Revolucionario Institucional) in the presidential elections of 2000, a fact that, at first, would put an end to the hegemony of 71 years of "government of the Mexican Revolution," this is a novel that takes advantage of the nineteenth-century novel way to draw a picture of Mexico, including country and city, rich and poor, old and new, in order to discusses the nation. Therefore, Villoro returns to the beginning of modern Mexican poetry and tradition of literary narrative mid-century, invoking writers and themes of these periods. However, from the beginning, it is known by various marks and signs that this book was written before the year 2000, in a context that seemed to abolish the intellectual, and began to treat the characters initially as witnesses. Nevertheless, the idea of a complete witness, one that could go to the end of an event where there was a total destruction, is not possible. Thus, the text puts producers and promoters of speeches in order to fill that role as witness. Therefore, as the intellectual term is not mentioned, this study intends to reflect on the witness, since many characters occupy this role. To this end, he discusses the relationship between the history of the Mexican intellectual with the power, in a place characterized by violence of drug trafficking, the ongoing manipulation of the media in favor of hegemonic power and the interference of the Church in social and political context of Mexico. It is therefore the figure of the intellectual that allows us to understand the reason for reflection on the poet Ramón López Velarde, the recovery of the Mexican avant-garde and the placing of characters posed as producers of discourse.

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INTRODUÇÃO 11

CAPÍTULO 1 - Juan Villoro: obra e crítica 23

1.1 Panorama da narrativa de Juan Villoro no contexto literário mexicano 24

1.2 A trajetória intelectual de Juan Villoro 61

1.3 El testigodiante da crítica 70

CAPÍTULO 2 – Ramón López Velarde: vanguarda como nação intelectual

emEl testigo 78

2.1 Os intelectuais e o período revolucionário mexicano 79

2.2 Ramón López Velarde e as vanguardas mexicanas no início do século XX

86

2.3 Ramón López Velarde emEl testigo 100

CAPÍTULO 3 - Literatura e testemunho emEl testigo 110

3.1 Testemunho: ficção, poder e realidade 110

3.2 Julio Valdivieso 121

3.3 O vínculo com a Igreja 130

3.4 O envolvimento com a mídia 144

3.5 Aproximação ao narcotráfico 150

3.6 Flaco Cerejido 160

CAPÍTULO 4 - O intelectual no México contemporâneo 162

4.1 ACidade letrada como testemuha 162

4.2 Os intelectuais e o poder no México contemporâneo 175

4.3 A figura do intelectual no México contemporâneo deEl testigo de Juan

Villoro 186

CONCLUSÂO 201

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 215

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INTRODUÇÃO

La novela mexicana vista desde un contexto socio-político y económico ha sido un vehículo de conocimiento de la realidad de Latinoamérica en crisis. La novela raramente es entretenimiento, al contrario, la mayoría de las veces es una densa exploración de lo real.

Jorge Ruffinelli

Um dos fenômenos a que se assiste nas últimas décadas, principalmente na

América Latina, é o debate sobre a recuperação da memória como estratégia

política e cultural numa tentativa de iluminar o futuro. Esse resgate da memória,

entretanto, não se dá de maneira pacífica. Após longos períodos ditatoriais, como

ocorreu em muitos países latino-americanos, diversos grupos reivindicam para si a

legitimidade de representação do passado para contrapor-se a uma versão da

chamada “história oficial”. Assim, quando se trata de analisar a história, utilizar-se

da memória como uma forma de disputa pelo poder é bastante usual. Desta forma, o

tema da memória é central para o debate das mudanças no presente, pois obriga a

uma releitura do passado, a uma nova interpretação. Isso porque o fato histórico

interessa mais ao presente que ao passado.

Nesse contexto, a tensão memória-história vem sendo amplamente discutida,

não só pelos historiadores, mas também por críticos literários. Essa tensão provoca

uma disputa entre diferentes grupos de poder uma vez que cada qual quer ser o

representante da história “verdadeira”, narrando-a ou tentando narrá-la de seu ponto

de vista e questionando as versões apresentadas pelos outros grupos. Afinal, disso

depende a hegemonia social, a imposição da agenda histórica e dos interesses de

cada um desses grupos.

Sendo assim, durante os períodos ditatoriais, mais ainda do que em outros, a

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de “história oficial”. Deste modo, a figura da testemunha ganha relevada importância

no período da pós-ditadura, pois essa voz pretende resgatar e reinterpretar o que o

discurso oficial tenta omitir ou manipular, possibilitando o resgate de perspectivas e

interesses da história conhecida até o momento.

No entanto, cabe destacar que a testemunha ocupa uma posição

problemática, pois algumas vezes não apresenta um posicionamento crítico,

havendo também o oportunismo como tentativa de legitimação. Destaque-se que

seu discurso, não rara vez, é reduzido ao subjetivo e, quando aceito para debate,

vem mediado pela figura do intelectual.

Nesse contexto, encontra-se o romance El testigo1 (2004), do escritor

mexicano Juan Villoro, composto quase todo no estrangeiro após a derrota eleitoral

do Partido Revolucionario Institucional (PRI)2 nas eleições presidenciais ocorridas no

México no ano 2000, fato que, na teoria, colocaria fim à hegemonia do “governo da

Revolução Mexicana”.

Juan Villoro nasceu no Distrito Federal da cidade mais povoada do continente

e pertence a uma geração que se distancia dos desafios literários ao qual estavam

submetidos os escritores dos anos cinquenta e sessenta: “de la ambición de novelar

los grandes conflictos sociopolíticos del continente. En cambio, como muchos

intelectuales de su edad, padece la fascinación por la cultura popular: la música

rock, las tiras de cómic, los deportes de masas.” (DÉS, 2005, p. 2)

A obra em questão marca, em sua estrutura narrativa, dois períodos

importantes da história do México, através de dois personagens. No caso do

1 Daqui em diante todas as vezes que se tratar deEl testigo se estará referindo à edição de 2004 de Juan Villoro publicado pela Editora Anagrama.

(14)

primeiro, trata-se do personagem histórico Ramón López Velarde, o poeta nacional

por excelência, o qual, em sua curta vida, foi extremamente criticado por ser: “un

hombre que iba a la vanguardia del arte y a la retaguardia de la política”.

(GONZÁLEZ ROJO, 2008, p. 28). Foi, enfim, um intelectual mexicano que viveu num

período de mudanças ocasionadas, em grande parte, pela Revolução. Em relação

ao segundo, trata-se do protagonista do romance, Julio Valdivieso, o filho intelectual

de uma família de fazendeiros. É um personagem complexo, cuja história pessoal e

familiar se confunde com a nacional, visto atravessar esse complicado período de

transição para a democracia. Ambos são intelectuais e testemunhas de períodos de

euforia e desilusão.

No entanto, cabe salientar queEl testigo, não se coloca como um romance de

testemunho, no estilo de Hasta no verte Jesús mío (1969) de Elena Poniatowska ou

Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia (1985) de Elizabeth

Burgos-Debray e Rigoberta Menchú, serve como um balanço do México visto do

ângulo dos primeiros anos do século XXI, debruçado sobre o seu processo histórico

pós-revolucionário.

Considerando aqui que essa testemunha não é mais o subalterno, aquele que

tem o intelectual como mediador, já que, nessa obra, o próprio intelectual é chamado

a dar fé, a prestar testemunho, até que ponto se pode aceitar como verdade aquilo

que diz a testemunha? Através do romance, pode-se observar, numa fragmentação

apresentada por diversos personagens, como se dá a multiplicidade de visões que

exploram as distintas faces da testemunha.

A temática que guiará esta dissertação é tentar responder a uma pergunta

que percorre todo o romance: é preciso ter visto ou ter vivido o horror para ser

(15)

figura do intermediário, do mediador, mas da problemática figura da testemunha,

cuja fidedignidade é questionada o tempo todo no romance.

No que tange as eleições presidenciais ocorridas no México no dia 2 de julho

de 2000 marcam o fim de um sistema político que se apresentava como democrático

ao longo de 71 anos. Afinal, havia uma alternância presidencial através de eleições,

e esse fato escondia que se tratava de uma ditadura de partido, representando os

interesses de alguns setores das elites mexicanas. Entretanto, decorrente de um

acordo entre as elites (já que quem arquiteta as eleições são elementos da máquina

eleitoral montada pelo PRI ao longo de décadas), venceu Vicente Fox, o candidato

do Partido de Acción Nacional (PAN).

É preciso lembrar, porém, que a disputa pelo poder e pela memória-história

tornou-se ainda mais acirrada do que quando o PRI estava no comando da política

nacional. Aliás, esse partido, como menciona Igor Fuser em seu livro México em

transe (1995), ressaltando o discurso de Mario Vargas Llosa em visita ao México em

1990, como se observa nesse trecho:

Um partido que é inamovível, um partido que concede espaço à crítica na medida em que esta lhe serve, porque confirma que é um país democrático, mas suprime por todos os meios, inclusive os piores, aquela crítica que de alguma maneira põe em perigo sua permanência no poder. (VARGAS LLOSA apud FUSER, 1995, p. 14)

Desde a consolidação da Revolução Mexicana, o México passou a ter o PRI

como único partido a ocupar o poder. Formado por membros vitoriosos do

movimento armado em 1910, tal partido fundamentou-se na obrigatoriedade de

filiação para todos os funcionários públicos e sindicalistas, dentre outros indivíduos.

Com o irrestrito apoio do Congresso, tornou-se absoluto, conseguindo exercer poder

total sobre os Três Poderes, as Forças Armadas, a mídia, as associações de

(16)

Inicialmente concebido como um partido de massas, defensor dos direitos dos

trabalhadores, da reforma agrária e da estatização, o PRI mudou radicalmente nos

anos oitenta e noventa, voltando-se para uma política neoliberal alinhada com seu

vizinho do norte, os Estados Unidos. Desde sua independência em 1821, até os dias

atuais, o México convive com as incontáveis interferências desse gigante na sua

política interna e externa. Essa situação ficou muito clara na famosa frase de Porfirio

Díaz: “Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”. (DÍAZ apud

SPECKMAN GUERRA, 2007, p. 205)

Entre as mais relevantes interferências, podem-se destacar a perda de parte

de seu território na guerra do século XIX3, diversas investidas durante a Revolução

de 1910 e, mais recentemente, no revezamento de forças políticas do PRI, que

lutavam para manter-se no poder à custa de grandes concessões, resultando,

finalmente, a aprovação, pelo Congresso dos EUA a entrada do México no Tratado

de Livre Comércio Norte-Americano (TLCAN)4 em dezessete de novembro de mil

novecentos e noventa e três.

É preciso considerar também que o PRI, muitas vezes, com uma política

interna e externa ambígua, intercalou linhas de direita e esquerda, pois, como

membro atuante da Internacional Socialista, recebeu refugiados políticos europeus e

latino-americanos, mas manteve uma dura política interna de combate às

contestações sociais, além de transformar os sindicatos em máfias e ter membros de

seu alto escalão envolvidos com o tráfico internacional de drogas. Não obstante, ao

longo dos anos, o poder do PRI começou a diminuir em decorrência de episódios

3 Na Guerra contra os Estados Unidos da América ocorrida entre 1846 e 1848, o México perdeu grande parte de seu território, as regiões que hoje compreendem os estados: Califórnia, Nevada, Texas, Novo México, Arizona além de partes de Utah e Colorado. (CALDAS, 2009, p.1)

(17)

como a Matança de Tlatelolco, a grave crise econômica a partir de 1970 e as

eleições federais de 1988.

Essa matança aconteceu quando, dias antes dos Jogos Olímpicos de 1968,

estudantes protestaram contra a instabilidade política do país. O então presidente

Gustavo Díaz Ordaz ordenou que o exército invadisse a Universidad Nacional

Autónoma de México (UNAM), onde os jovens se haviam refugiado. O número de

mortos é impreciso, variando entre duzentos e trezentos. A grave crise econômica

instalada a partir de 1970 é, certamente, uma das consequências para a diminuição

do poder aquisitivo da população, gerando desvalorizações, desemprego e

ampliação da pobreza. No caso das eleições federais de 1988, foi marcante o

episódio da queda do sistema durante a contagem de votos, pois esse saiu do ar no

momento em que o candidato Cuauhtémoc Cárdenas do Partido de la Revolución

Democrática (PRD) levava vantagem. No dia seguinte, o sistema voltou a funcionar

com larga vantagem para o candidato do PRI, Carlos Salinas de Gortari, que

acabaria por vencer as eleições.

Certamente a obra em questão não é uma crônica jornalística do que ocorreu

no México após a derrota do PRI. Apresenta, entretanto, um pano de fundo político,

cuja leitura toca em temas relacionados com o México contemporâneo, como as

feridas abertas pela guerra cristera na história recente, reflexões sobre os meios de

comunicação, principalmente a televisão, e a influência do narcotráfico no contexto

cultural, político e social do país.

Em linhas gerais, o romance narra a história de um professor universitário,

Julio Valdivieso, que vive há vinte e quatro anos na Europa. Ele é casado com a

tradutora italiana Paola (que traduz os best-sellers de Constantino Portella), com

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apaixonado por sua prima Nieves, porém, quando o romance começa, ela já havia

falecido num acidente de carro com o marido, deixando aos cuidados dos tios

Donasiano e Florinda seus dois filhos: Alicia e Luciano. Assim que chega ao país, o

professor é abordado pelos antigos amigos da Oficina Literária da qual fizera parte:

Juan Ruiz (El Vikingo), Ramón Centollo, Félix Rovirosa, Olga Rojas e Flaco Cerejido,

sendo que os dois primeiros são assassinados durante o desenvolvimento do

romance. Além desses personagens mais próximos do protagonista, outros também

são importantes, como o dono da rede de TV, José Atanasio Gándara, o padre

Monteverde e os policiais que investigam as mortes dos personagens: Ogarrio e

Rayas. Já o personagem histórico-narrativo Ramón López Velarde atravessa todo o

romance com passagens de sua biografia e inclusão de trechos dos seus poemas.

Desta forma, acredita-se que esse romance, situado entre o documental, o

histórico e o ficcional, considerado por críticos como Mihály Dés e Christopher

Domínguez Michael, uma obra da maturidade, apresenta uma crítica ao não

posicionamento do intelectual que assiste ao horror na condição de testemunha. É o

que se pode depreender a partir do peculiar matiz sarcástico e irônico de Villoro ao

apresentar muitos personagens ocupando o papel de “testemunha”, sem destacar,

porém, o termo intelectual, mas tecendo uma reflexão da imagem projetada por essa

figura.

A questão do testemunho na América Latina, tendo como ponto de partida a

experiência histórica da ditadura, a repressão das minorias e a exploração

econômica, apresenta muito mais um peso de política “partidária” do que cultural,

num posicionamento a favor da luta de classes e da defesa dos oprimidos. Neste

caso, o discurso da testemunha, bem diferente do que ocorre na reflexão sobre

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estruturado em torno das experiências traumáticas da Segunda Guerra Mundial e da

Shoah5, vem geralmente mediado pela figura do intelectual.

Com base nessa concepção, quando se trata de analisar o testemunho

literário, é natural a sua vinculação à historiografia, ao estudo etnográfico, biográfico

ou autobiográfico. No entanto, não se pode desconsiderar que o termo testemunho

apresenta também uma ligação jurídica e religiosa. Em ambos os campos, esse

termo está muito bem definido; no campo literário, porém, provoca dúvidas e

controvérsias.

Sendo assim, tanto a testemunha quanto o intelectual são figuras que

ocupam a tribuna de debate nas últimas décadas na América Latina, provocando

inúmeras críticas, autoelogios e incontáveis polêmicas. Deste modo, são diversas as

questões levantadas, principalmente com relação ao seu engajamento,

comprometimento e participação na sociedade.

Cabe ressaltar que a escrita literária teve, durante boa parte do século XX, o

papel de formar opinião e até de usurpar as funções do discurso historiográfico,

político e jornalístico. Por sua natureza, essa escrita é ambígua e metafórica,

essencialmente esquiva, por mais literal que se pretenda.

Desta forma, o que El testigo propõe é uma reflexão sobre o posicionamento

da figura do intelectual nesse período de mudança, demonstrando que, tanto numa

era de ditadores como na de um governo institucionalizado, os intelectuais ocupam

um importante espaço como interlocutores entre o poder e os cidadãos. É, portanto,

a figura do intelectual que permite entender o porquê da reflexão sobre o poeta

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Ramón López Velarde, a recuperação das vanguardas mexicanas e a colocação de

personagens que se caracterizam como produtores de discurso.

No entanto, nesse país em que a mídia continua controlada, os partidos

políticos são marcados por escândalos de corrupção, a violência do poder paralelo

do narcotráfico se acentua e a influência da Igreja Católica, fortemente abalada pelo

processo revolucionário, havia sido reativada, forças, que parecem incrustadas em

várias esferas de poder, torna isso problemático. Afinal, tudo que o protagonista

descobre, ou conhece via “testemunha” a respeito desse período do qual esteve

ausente por tanto tempo, retira dele a responsabilidade, tanto no acontecido como

na práxis que está por vir.

O crítico mexicano e autor da Antología de la narrativa mexicana del siglo XX

(1996), Christopher Domínguez Michael, comenta em seu artigo “La vitalidad

histórica de los muertos mexicanos: El testigo de Juan Villoro” (2011), que Villoro:

“se atrevió a presentar una imagen novelesca de México a la manera decimonónica.”

(DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p.191), ou seja, em pleno século XXI, esse autor

opta por produzir um romance com as características da tradição literária do século

XIX, que valoriza as contradições das relações humanas e a reflexão do mundo

vivido, ao mesmo tempo em que estabelece uma literatura engajada, na qual

aparece um equilíbrio entre o erudito e o popular, na passagem para a chamada

cultura de massa.

Esse autor educado “en la mejor escuela balzaquiana, aquella que concibe la

novela como el envés de la sociedad.” (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 2011, p. 192)

produz um romance com a pretensão de narrar a nação, a cultura, a política, a

sociedade e o sistema literário, principalmente a partir da segunda metade do século

(21)

Para tanto, Villoro convoca, ainda que não explicitamente, as escolas

literárias, desde as vanguardas da década de 1920 e 1930, passando pela literatura

do meio do século, com Juan Rulfo, Juan José Arreola, José Revueltas, Carlos

Fuentes e os poetas infrarrealistas dos anos 70, até a literatura nortenha mexicana,

com David Toscana, Eduardo Antonio Parra e Luis Humberto Crosthwaite. Isso fica

bem claro a partir do momento em que se constata ser um dos personagens do

romance o poeta modernista Ramón López Velarde, e é justamente ele “quien

permite dar cuenta de la transición del modernismo a la vanguardia”.

(SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 28)

Desse modo, será traçado, no primeiro capítulo, um breve panorama da

narrativa mexicana a partir da segunda metade do século XX, procurando vincular o

romance corpus dessa pesquisa às questões levantadas nas narrativas desse

período, destacando, principalmente, a trajetória intelectual de Juan Villoro e a crítica

literária em torno de El testigo. A relevância de iniciar essa pesquisa com tal

proposta leva em consideração que, tanto o protagonista quanto o escritor do

romance nasceram e produziram a partir de referida data e que várias questões

presentes nas obras desse período foram retomadas por Villoro nesse romance.

A disputa pela interpretação do passado no romance está representada pela

figura do poeta nacional, tido como um dos pilares da literatura mexicana moderna.

O poeta Ramón López Velarde é a figura da pátria, o leitmotiv que dá legitimidade à

questão dos intelectuais, percorrendo todo o romance. Muitas dúvidas em El testigo,

entretanto, pairam sobre o posicionamento político desse poeta, falecido no fim da

Revolução Mexicana. Na verdade, discute-se se ele teria tido tempo ou não para se

manifestar contra ou a favor de algumas das posições em disputa, transformando-se

(22)

muitos acreditam teria sido tomada por ele se tivesse vivido mais alguns anos.

Afinal, os intelectuais desse período revolucionário são criticados tanto pela

participação política mais efetiva quanto pela preocupação estética literária. No

entanto, o que se questiona no romance não é nem uma coisa nem outra, mas a

posição confortável ocupada por López Velarde.

No segundo capítulo, serão desenvolvidas reflexões sobre os intelectuais,

desde o porfiriato, passando pelo período revolucionário, destacando,

principalmente, a figura do já citado poeta Ramón López Velarde, juntamente com

as vanguardas mexicanas do início de século XX, assunto que interessa a todos os

personagens de El testigo, os quais, direta e indiretamente, contribuíram para a

formação de um discurso nacionalista e cultural.

Desde o título, El testigo indaga sobre a figura da testemunha, muito bem

definida em diversos meios, mas não na literatura. Em latim, pode-se denominar o

testemunho com duas palavras: testis e superstes. A primeira indica o depoimento

de um terceiro em um processo de litígio entre duas partes. Já a segunda indica a

pessoa que atravessou uma provação e subsistiu, ou seja, o sobrevivente. Desta

forma, muitos personagens denominam o protagonista, Julio Valdivieso, a

testemunha perfeita, quer dizer, um testis, pois acreditam que ele pode dar fé dos

fatos, pelo distanciamento deles. No entanto, para ele, todos os outros personagens

deveriam ocupam essa posição, pois haviam atravessado um duro período de

transição, do qual Valdivieso esteve ausente.

Já o terceiro capítulo estará centrado na análise dos personagens que, a

princípio ocupam o papel de testemunhas no romance. Antes, porém, serão

apresentadas algumas considerações a respeito do testemunho na América Latina,

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em consideração a relação dos personagens com a história e com o poder no

México atual.

Cabe destacar que dos personagens que ocupam a posição de testemunhas

em El testigo são produtores de discurso, além de manterem uma relação de

proximidade com várias esferas de poder. Fato que está presente no romance desde

o poeta da pátria, Ramón López Velarde ao protagonista Julio Valdivieso.

Nesse contexto, o último capítulo desta pesquisa se centrará na tensão

intelectual-testemunha e trará à discussão a relação do intelectual e o poder no

México contemporâneo, pois El testigo tece uma reflexão sobre a testemunha e se

pergunta sobre a tradição romanesca mexicana, cifrada na forma literária da qual

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CAPÍTULO 1 - JUAN VILLORO: OBRA E CRÍTICA

Pero eso que sé, mientras observo a Villoro que mira el Mediterráneo, no es lo importante. ¿Lo importante es que seguimos vivos? Tampoco, aunque no es poco. Lo importante es que tenemos memoria. Lo importante es que aún podemos reírnos y no manchar a nadie con nuestra sangre. Lo importante es que seguimos en pie y no nos hemos vuelto ni cobardes ni caníbales.

Roberto Bolaño

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o existencialismo invade o âmbito

intelectual do ocidente. A militância de Jean-Paul Sartre toma conta do pensamento

dos jovens da América Latina, principalmente nas grandes capitais. E a Cidade do

México não é diferente. Martin Heidegger, Ortega y Gasset e o magistério pessoal

de José Gaos ocupam a centralidade da crítica acadêmica.

Juan Villoro, assim como Julio Valdivieso, o protagonista de El testigo,

nascem na década de cinquenta, momento em que paira sobre a intelectualidade

mexicana a filosofia do “ser mexicano”. Essa filosofia, embalada por Octavio Paz,

Luis Villoro (pai do autor sobre o qual esta pesquisa se ocupa) e Leopoldo Zea, entre

outros, partem da premissa “de que un pueblo mexicano era sólo posible por una

identidad psicológica común”. (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 371)

Desta forma, não de maneira exaustiva, pois não é objeto deste trabalho a

história literária do México, será feita, nas páginas seguintes, uma breve revisão da

literatura mexicana a partir da década de cinquenta. Trata-se, entretanto, de uma

revisão sem aprofundamentos ideológicos ou estéticos, criando apenas um

panorama, cuja tentativa seria localizar Villoro e El testigo dentro do contexto

narrativo mexicano. Os comentários sobre os autores e as obras que seguem nesse

capítulo se baseiam principalmente na visão crítica de Christopher Domínguez

(25)

1.1 Panorama da narrativa de Juan Villoro no contexto literário mexicano

No meio literário, a segunda metade do século XX é marcada pelo surgimento

de escritores profissionais mexicanos. São os chamados pais fundadores da nova

literatura: “el poeta Octavio Paz, un prosista como Juan José Arreola y quienes dan

a la novela mexicana su primer grupo de magnitud histórica: Agustín Yánez,

Fernando Benítez, José Revueltas e Juan Rulfo” (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p.

1001), que praticamente constituem uma geração.

É importante salientar que, em sua maioria, esses escritores nasceram nos

anos dez e vinte, e suas publicações apareceram simultaneamente com: Adán

Buenosayres (1948) de Leopoldo Marechal,El túnel (1948) de Ernesto de Sábato,El

Aleph (1949) de Jorge Luis Borges, Los pasos perdidos (1954) de Alejo Carpentier,

La hojarasca (1955) de Gabriel García Márquez e Los ríos profundos (1958) de José

María Arguedas, para citar algumas obras de importantes escritores

hispano-americanos.

Em ensaio publicado no início dos anos oitenta intitulado Aguafuertes de la

literatura mexicana: 1950-1980, José Joaquín Blanco destaca que o assunto

fundamental da literatura mexicana da segunda metade do século XX:

es la modernización del país, la brusca y forzada transformación de una Nación preindustrial, rural y campesina, con poderosas atmósferas indígenas, aparentemente aislada de la vida occidental y arraigada en modos tradicionales, en un país industrial y urbano. (BLANCO, 1982, p. 1)

Cabe ressaltar que esse processo se iniciou no governo de Porfirio Díaz6

com a chegada das estradas de ferro em terras mexicanas. No entanto, o emblema

desse projeto e o consolidador do capitalismo no país é certamente Miguel Alemán

(26)

(1946-1952). Esse momento histórico cabe na significativa frase do escritor e

jornalista mexicano Luis Spota: “La revolución se bajó del caballo y subió al cadilac.”

(SPOTA apud SEFCHOVICH, 1990, p. 172)

No contexto político e social, a segunda metade do século passado se inicia

com um forte desenvolvimento impulsionado pelo fim da Segunda Guerra Mundial,

pelo civilismo e pelo fortalecimento do PRI. Em contrapartida, há a repressão aos

movimentos sociais associada à corrupção. Nesse período, o México já não é um

país de massas, mas de anúncios publicitários, e tanto o índio, quanto o camponês

ou o simples morador da cidade se transformam em consumidores.

E assim, muito raramente se encontra uma vida cultural isenta das malhas do

poder, pois não há público independente, vida sindical livre, comunidades rurais ou

urbanas autônomas, já que quase tudo está incluído no sistema do Estado e no

sistema privado parasita dos benefícios estatais. Observa-se que, de uma maneira

ou de outra, os intelectuais trabalham para o governo. Literatura independente,

crítica, autônoma, destaca Blanco “sólo en los sótanos, en las cárceles y en difíciles

y raros espacios académicos”(BLANCO, 1982, p. 3),se pode encontrar.

No campo filosófico, a chegada de José Gaos é a origem da transformação

mais importante do pensamento mexicano no século XX, pois “bajo su influencia, el

campo filosófico adquirió, en gran medida, los temas y problemas que lo siguen

ocupando hasta nuestros días”. (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p.166) Entre as

contribuições de Gaos destacam-se duas: a atualização e a transformação do

arquivo filosófico do pensamento, pois antes dele a filosofia mexicana se mantinha

muito próxima do positivismo, do indigenismo e de outras correntes emanadas do

nacionalismo cultural e ligadas a projetos hegemônicos do Estado; depois de Gaos,

(27)

debate. A outra é a chamada “filosofia da filosofia”, ou seja, “una filosofía que se

ocupa de las condiciones concretas del sujeto en su devenir histórico abre la puerta

a lo que se llamará la “filosofía de lo mexicano””(SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 168).

Nesse sentido, o México do contraste parece desaparecer, criando um culto

em torno da personalidade do presidente, transformando-o não somente no eixo

político e econômico, mas também cultural, intelectual e do espetáculo.

Uma vez consolidado o campo do poder, a cultura se converte em

instrumento que tenta alcançar alguma definição. Encontrar-se, o cenário da

obsessiva busca pelo ser nacional, o qual esteve a cargo do grupo Hiperión7

formado por estudantes mexicanos de José Gaos por volta de 1947 e encabeçado

por Leopoldo Zea e Luis Villoro, entre outros. Surge então a filosofia do “ser

mexicano”.

A operação central desse grupo no debate sobre a mexicanidade está no

deslocamento da “essência à existência”, como menciona Sánchez-Prado (2006) “de

características transhistóricas a contingencia histórica, en la descripción de la

ontología del mexicano.” (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p.186) Ou seja, nos anos

cinquenta, essas ideias estão incorporadas na fala cultural, ou melhor dizendo, na

força do projeto hegemônico do nacionalismo e no contexto do campo do poder,

fatos que impedem uma posição mais crítica e autônoma no campo cultural.

Na medida em que há a identificação da população com a imagem de si

mesma no cinema, na literatura, na música popular e no muralismo, essa é a

maneira através da qual o poder do Estado pode neutralizar, de forma bastante

(28)

eficiente, a resistência. E sem dúvida, muitos intelectuais contribuíram para essas

formas alternativas de constituição de “povo”.

Cabe salientar, no entanto, que, desde os anos trinta, os Contemporáneos

(assunto que será desenvolvido no próximo capítulo) não se submeteram ao

nacionalismo estatal, como se pode observar na ironia de Salvador Novo em

Poemas proletarios (1934), composto por quatro poemas, no qual se destaca um

pequeno trecho do mais longo “Del pasado remoto” (1934):

Revolución, revolución,

siguen los héroes vestidos de marionetas, vestidos con palabras signaléticas,

el usurpador Huerta y la Revolución triunfante,

don Venustiano disfrazado con barbas y anteojos como en una novela policiaca primitiva

[...]

la clase laborante y el proletariado organizado, la ideología clasista,

los intelectuales revolucionarios,

los pensadores al servicio del proletariado, el campesinaje mexicano,

la Villa Álvaro Obregón, con su monumento, y el Monumento a la Revolución.

(NOVO, 1934, p. 2)

Com relação à produção literária da segunda metade do século, Blanco

(1982) a caracteriza como uma literatura esquecida dos matizes indigenistas, rurais,

revolucionários e cristeros, para embrenhar-se na vasta e caótica vida urbana, na

qual a literatura de Juan Rulfo, José Revueltas, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Elena

Poniatowska e Carlos Monsiváis desafiam a visão oficial montada pelo PRI e

transcendem o espaço literário, chegando a ser, nos anos setenta, uma bandeira

política, opinando:

(29)

tiempo las autoridades agrarias oficiales, de comunidades campesinas despojadas, de ciudades caóticas y brutalmente desordenadas a fin de ser más exprimidas por los negocios inmobiliarios. Frente a esta modernidad del desastre, se necesitó nuevos autores.(BLANCO, 1982, p. 3)

Ao se avançar demais, é preciso retroceder aos pais fundadores da nova

literatura mexicana, “denominación justa aunque sin duda bombástica”

(DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p.1004) e convém iniciar por El laberinto de la

soledad (1950) do poeta Octavio Paz (1914-1998), não somente porque é publicada

no meio do século passado, mas principalmente para destacar a imagem oficial do

“ser nacional”, que entra na esfera pública a partir dessa obra, e que o discurso

filosófico de Hiperión fica restrito ao âmbito acadêmico.

A importância de traçar esse cenário é para que se possa compreender o

meio em que Villoro se desenvolveu culturalmente e como alguns autores e obras

apresentadas nesta parte inicial contribuíram direta ou indiretamente para sua

formação intelectual, destacando, neste caso, a relação de Villoro com a filosofia do

“ser nacional”, pois é contra essa filosofia que ele se “rebela”, como deixa claro na

entrevistaVilloro en Villoro (2009):

Cuando yo empecé a escribir y leer por mi cuenta había una saturación de autodefinición nacionalista y creo que buena parte de las cosas que yo he escrito han sido un ejercicio de ironizar y de desmontar esos procesos. Creo que el camino que va de 1950 con el

Laberinto de la soledad a fines del siglo veinte con la Jaula de la melancolía de Roger Bartra es el camino para entender que el mexicano es múltiple, es híbrido es provisional, que no hay un mexicano emanante […] todas las escrituras de mis cuentos, de mis novelas y de mis ensayos tienen que ver con ese proceso de desmontaje de una identidad unívoca y de una identidad retórica […]. (VILLORO, 2009, p. 1)

Esse processo a que se refere Villoro na entrevista, o de demonstrar através

de suas obras que não há idiossincrasia mexicana, aparece em diversos momentos

(30)

ao país, encontra seu amigo Vikingo no restaurante Los Guajolotes, e o narrador

comenta “el rostro asombrosamente familiar de un mesero – bigote canónico, nariz

de muñeco de palo – le hicieron sentir que no había salido de México.” (VILLORO,

2004a, p. 20)

Ocorre também mais adiante, quando o protagonista comenta a respeito da

tristeza que sentia assim que chegou à Europa com saudades de casa e

principalmente de seu amor, Nieves, e comenta:

Paola estaba al tanto de esa oportunidad perdida, la única sombra antes que ella. Conoció a Julio cuando parecía un huérfano con más deseos de ser adoptado que de ligar. Por suerte para ambos, ella asoció su insoportable tristeza con la cultura mexicana. Había leído

El laberinto de la soledad y se disponía a traducir a autores de ese país desgarrado, que reía mejor en los velorios. En los ojos de Julio vio el culto a la muerte y la vigencia de los espectros. (VILLORO, 2004a, p. 39)

Nesses dois trechos se observa a maneira irônica com que Villoro se

aproxima desse tema, questionando a construção de tipicidade do mexicano, das

características estereotipadas que havia recebido no estrangeiro a respeito de uma

identidade nacional comum.

Tal fato aparece também em seu romance Materia dispuesta (1996), em cujo

último capítulo, intitulado “Las pieles infrarrojas”, há um grupo de artistas mexicanos

contratados para ir ao estrangeiro e atravessam um drama, o de não parecerem

tipicamente mexicanos, pois uns são brancos; outros, mestiços ou loiros. Resolvem

então tomar banhos de bronzeamento artificial, com medo de que lhe tirem os

empregos, como se observa na conversa entre os personagens Fredy, Jimmy e

Mauricio (protagonista):

(31)

parezcan suecos o los finlandeses húngaros, pero nosotros no podemos negar la cruz de nuestra parroquia” Jimmy torció el argumento para que la falta de color local pareciera una traición al origen - . […] _ ¿cuál es la solución? ¿Disfrazarse de mexicanos? (VILLORO, 2011, pp. 248-249)

Cabe reforçar que esse processo ironizado por Villoro em suas narrativas no

início do século passado, momento em que foi pensado, era válido, pois havia então

a necessidade de fortificar a identidade nacional em construção. Essa tipicidade e

essa autenticidade, no entanto, não são possíveis.

Villoro lê com muito respeito a tradição literária mexicana. E essa referência

aparece em El testigo através da convocação tanto de narrativas quanto de

escritores ditos canônicos. Entretanto, esse autor deixa para trás as questões do

“ser nacional” e avança com muita clareza para a cultura de massa, manejando a

alta e a baixa cultura com a mesma desenvoltura, tecendo poetas malditos e

estrelas de televisão com uma variação de cenários dissímiles entre o cinismo e o

disparate.

Para José Ramón Ruisánchez, Villoro é herdeiro de três vertentes mexicanas:

primero, la que va de la novela de la Revolución a Carlos Fuentes, releyendo productivamente a Rulfo; en segundo lugar, el canon que recupera la manera heterodoxa de los Contemporáneos por medio de la Generación de la Casa del Lago y de sus excursiones a literaturas “marginales” que permiten regresar a la novela y al cuento desde la riqueza de una ruptura con el género rígido, lo que llamaron “escritura” siguiendo a los teóricos franceses de la écriture;

finalmente, el atrevimiento progresista que bebe por una parte de las grandes narraciones sociales del 68 y del 85 y, por otra, de los hallazgos pop de la Onda. (RUISÁNCHEZ, 2008, p. 144)

Nesse contexto, sua geração, ou seja, a dos nascidos na década de

cinquenta, recebem uma forte influência da geração do boom, como já declarou

(32)

Mi generación, o sea la de los escritores nacidos en los años cincuenta, ha sentido un doble y fuerte atracción, proveniente de los dos polos continentales: la llamada literatura fantástica del Río de la Prata (muy señaladamente Felisberto Hernández, Borges, Bioy Casares, Cortázar, hasta el mismo Onetti) y la literatura norteamericana, una literatura de velocidad, con ritmo cinematográfico, con yuxtaposición cinematográfica de escenas y una construcción de secuencias tomadas del montaje de los filmes, los escritores posteriores a la «generación perdida»: Saúl Bellow, John Updike e Truman Capote. (VILLORO, 1997, p. 121)

Levando-se em consideração que, no início dos anos cinquenta, as obras

literárias que circulavam em sua maioria eram os romances da Revolução, os

poemas de López Velarde e os conteúdos pedagógicos do sistema educativo

construído sob a tutela de José de Vasconcelos, Paz utiliza o recurso literário

ausente da obra do grupo Hiperión, que é basicamente a “superioridade estilística” e

potencializa a circulação de seu livro no espaço público. Não se trata, como comenta

Sánchez-Prado, de enfatizar a superioridade de Paz, “sino la forma en que las

modalidades literarias del discurso superan a las filosóficas en la capacidad de

articulación a la esfera pública”. (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 211)

El laberinto de la soledad fecha um ciclo, estabelecendo a conclusão de um

processo de formação intelectual iniciado nos anos trinta, pois, como comenta

Domínguez Michael:

La filosofía de lo mexicano va desapareciendo como encrucijada intelectual cuando su propio proceso la degenera en una ontología localista y a menudo pintoresca. Octavio Paz lo entendió al afirmar que el mexicano no era una esencia sino una historia. Historia estrechamente ligada al mito: la combinación correspondió a la literatura. (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p. 1004)

O sonho de emancipação intelectual dos hiperiones e de Paz parece que fica

reduzido a uma caricatura, o pensamento crítico confinado nas instituições

acadêmicas, enquanto na esfera pública se consagram os mitos que os mexicanos

(33)

Outro importante escritor desse período, no qual se observa muito das

características de sua obra em El testigo, é Juan José Arreola (1918-2001), o qual,

com seu peculiar sentido de humor e grande habilidade para apagar fronteiras entre

a fantasia e a realidade, publica em 1949 Varia invención. Arreola é um autor difícil

de ser classificado, pois está “a mitad de camino entre Kafka y Borges”.

(DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p.1007). Sua matéria prima, segundo Octavio Paz,

citado por Domínguez Michael “es la vida misma pero inmovilizada o petrificada por

la memoria, la imaginación y la ironía” (PAZ apud DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p.

1009).

Memória, imaginação e ironia não faltam nas obras de Villoro, principalmente

no romance que constitui o corpus dessa pesquisa, cujo protagonista oscila em

diferentes tempos, e a memória funciona como catalizadora de múltiplas tensões

entre as contradições da história e um presente sem rumo claro.

Em 1966 se reúnem em Confabulario total (Confabulario e Bestiario) as obras

mais representativas de Arreola, que são um impulso decisivo na prosa mexicana

culta. Esse autor inventou a oficina da prosa, na qual ensinava a escrever,

artesanalmente, textos sonoros sem assonâncias ou repetições, e por lá passaram

Carlos Fuentes, Elena Poniatowska e José Agustín, entre outros. Além de ter

ajudado a tantas gerações, ele é autor também de La feria (1963), um curioso

romance verdadeiramente popular, cujo protagonista são as massas, mais

especificamente, o povo de uma cidade. Conseguindo reunir, dentro de um texto

moderno, a picaresca com o artesanato fantástico, o culto e o vernáculo em uma só

unidade, Arreola é “ya un escritor plenamente hispanoamericano y universal, como

nadie había sido antes en el terreno de la ficción.” (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a,

(34)

Herdeiro da hagiografia cristera e do romance proletário, José Revueltas,

(1914-1976) escritor, roteirista e ativista político mexicano, é autor deEl luto humano

(1943) com seus miseráveis camponeses presos até a morte pela inundação, pois

em Revueltas “el paraíso se transforma en infierno; la irrigación rural en diluvio

universal; el realismo de la Revolución Mexicana en escenario apocalíptico”.

(DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p. 1014)

O tema cristero é, sem dúvida, uma das chaves de leitura de El testigo, já que

apresenta uma visão mais fresca, porém não menos engajada que em Revueltas,

mesmo utilizando uma telenovela para resgatar a discussão, pois, como comenta

Ruisánchez (2008), a obra de Villoro:

no sólo corre hacia delante en dirección de lo que va a pasar, de lo nuevo, traído por la “transición” democrática, sino, simultáneamente, hacia el pasado cristero, porfirista, acaso colonial. Y también hacia el pasado como un esclarecimiento —siempre provisional: esa es su lección, la ética de su historiografía— de lo que sucedió tanto en la vida como en la Historia. En todos estos sentidos, El testigo es una ficción archívica. Los cambios en el presente, una y otra vez, obligan a una relectura que violenta el pasado, que lo vuelve críptico no sólo porque en él habitan los muertos, sino también porque desde él los muertos exigen respuestas a sus preguntas. (RUISÁNCHEZ, 2008, p. 146)

Em 1947, Revueltas declara ironicamente que: “la revolución mexicana

llegaba al medio siglo muerta, o de que había nacido muerta”. (REVUELTAS apud

BLANCO, 1982, p. 5) Essa história, exaltada pelos muralistas nos espaços estatais,

ganha um novo olhar sobre essa paisagem, agora macabra, da realidade social na

consciência humana, concebida como câmara de tortura. Algumas de suas obras

são: Los muros de agua (1941), Dios en la tierra (1944), Los días terranales (1949),

Los errores (1964), El apando (1969) entre outras. Vale reforçar que, com exceção

de Revueltas, a participação do campo literário mexicano nos movimentos políticos

nos anos finais de cinquenta e início de sessenta são muito limitados, pois, como

(35)

Octavio Paz se encontraba en medio de su labor diplomática en la India, Carlos Fuentes no tenía ninguna participación política en particular, Juan Rulfo trabajaba en el Instituto Indigenista del régimen y no tuvo ninguna participación de consideración en las marchas, Agustín Yáñez era secretario de Estado y los miembros de Hiperión nunca trascendieron del todo las fronteras de la academia. (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 298)

A limitação que menciona Sánchez-Prado não dura muito, pois, no final dos

anos sesenta, não há como ficar indiferente ao ocorrido na Plaza de las Tres

Culturas em Tlatelolco no dia 2 de outubro de 1968. Paz “renunció al cargo de

embajador en la India para protestar contra la represión policiaca al movimiento

estudiantil.” (LOAEZA, 1998, p.2) e o narrador tardio, Agustín Yáñez (1904-1980)

autor de Al filo del agua (1947), obra considerada por muitos anos o maior romance

mexicano, tem uma efetiva participação nesse movimento.

Yáñez foi governador do Estado de Jalisco entre 1953 e 1959, e Secretário

de Educação em 1968 (durante o massacre de Tlatelolco), substituindo Jaime Torres

Bodet, que havia desempenhado a função no sexênio anterior. E como comenta

Blanco (1982), Yáñez era “precisamente la autoridad a la que correspondía

directamente el "problema" estudiantil, y Revueltas como el principal preso por las

arbitrariedades y depredaciones oficiales de entonces”. (BLANCO, 1982, p. 5) Ou

seja, esses dois importantes escritores marcaram os extremos desse período.

Ressalte-se que com extrema ambição formal, na obra de Yáñez se

destacam: La creación (1959), La tierra pródiga (1960), Las tierras flacas (1962) e

Las vueltas del tiempo (1973), entre outras. Nessas obras, observa-se a utilização

de procedimentos contemporâneos, como a ‘collage’, o monólogo interior e a

simultaneidade; por outro lado, percebe-se a presença de uma linguagem rica,

(36)

Nos romances El rey viejo (1959) e El agua envenenada (1961), Fernando

Benítez (1912-2000) deixa transparecer toda a qualidade de sua prosa, que, como

destaca Blanco “llana y a la vez abundante en matices, con una fluencia de

conversación que, sin embargo, no prescinde del aparato, de la tensión ni de la

profundidad del discurso escrito.” (BLANCO, 1982, p.10)

Além de escritor, Benítez foi também editor, antropólogo, etnólogo e

historiador, recursos que permitiram o enriquecimento de seu trabalho com aspectos

críticos da realidade nacional, como se pode observar em: Los indios de México

(1967-1981), em cinco tomos, e Lázaro Cárdenas y la revolución mexicana

(1977-1978) suas maiores obras.

Outro importante escritor desse período é Juan Rulfo (1917-1986), cuja obra

se compõe do livro de contos El llano en llamas (1953) e do romancePedro Páramo

(1955). Neles se observa um narrador cuja dimensão dá: “el testimonio del campo

mexicano, hundido en la pobreza, en el caciquismo, en el fanatismo y las

supersticiones, antes de ser aplastado por los tiempos modernos. (BLANCO, 1982,

p.4)

Rulfo acabou com a investidura pitoresca do índio e mostrou, através de sua

obra, uma resposta à crise do “realismo mexicano” dos anos quarenta. Para

Domínguez Michael (1996a), é um erro chamá-lo de indigenista, como já o fizeram

alguns norte-americanos, ou que esteja ligado à Literatura da Revolução, pois a

guerra de Rulfo havia sido outra, a Cristiada e sua “ideologia” (DOMÍNGUEZ

MICHAEL, 1996a, p.1030), na qual perdera o pai e dois tios. Como comenta

Sánchez-Prado (2006) a respeito do romance de Rulfo:

(37)

estructura narrativa de la novela de la Revolución que, en su impulso memorialista, pierde por completo la reflexión sobre el problema del impacto del movimiento histórico en los espacios comunitarios del interior del país. (SÁNCHEZ-PRADO, 2006, p. 233)

O que hoje parece óbvio, naquele momento não era, pois a obra de Rulfo é

produto tanto de uma experiência histórica como de uma forma de incorporação ao

campo literário, que caracterizou tanto o debate sobre o nacionalismo como a

articulação com o campo acadêmico.

Os diálogos intertextuais entre Pedro Páramo (1955) e El testigo são

inúmeras, indo desde os protagonistas que vagam como sonâmbulos, ou melhor,

fantasmas: Juan Preciado e Julio Valdivieso; passando pelo espaço de possibilidade

da memória: o povoado de Comala e a fazenda Los Cominos que “por más que en

Los Cominos no encuentre Valdivieso un mundo de muertos si que encuentra un

ahogado y extrañificante paisaje de vivos en trance de descomposición.”

(HERMOSILLA SÁNCHEZ, 2010, p. 3); culminando com a violência presente no

tema cristero, pois, como menciona Carlos Fuentes:

Villoro hace una incursión notable al mundo del campo mexicano. Ya no es, claro, el campo de Yánez o Rulfo, porque los campesinos mexicanos han perdido todas sus luchas. Villoro recrea la gran nostalgia de la acción campesina, no sólo en la Revolución de Zapata y Villa, sino en ese singular momento que fue la Cristiada, la rebelión del interior católico contra las leyes civiles de la Revolución y, en particular, contra los gobiernos “ateos” de Obregón y Calles en la década de 1920-1930. Acción desesperada, heroica, insensata, la Cristiada es en Villoro el símbolo histórico de una derrota de la tierra. (FUENTES, 2011, p. 118)

As referências a Rulfo e a Pedro Páramo são, na maioria das vezes,

discretas, mas, no enterro de Vikingo, o amigo de Valdivieso, tornam-se explícita:

(38)

voces. Rostros parecidos a recuerdos. Apariciones. (VILLORO, 2004a, p. 322)

Como se observa, Valdivieso se converte, por um instante, em Juan Preciado,

enquanto vê passar e cumprimentar pessoas que não reconhece em um vísivel

estranhamento, como Villoro comenta em um artigo sobre o romance de Rulfo: “El

proceso de extrañamiento, esencial a la invención fantástica, se cumple en el más

común de los territorios”. (VILLORO, 2001, p. 3)

Depois de libertados pelos pais fundadores, os autores que seguem não têm

outra pretensão a não ser narrar. Antes, porém, de tratar desses escritores, vale a

pena destacar a entrada das mulheres nesse espaço masculinizado, uma vez que,

até por volta da década de cinquenta, a participação delas nos debates culturais que

deram forma à cultura e à literatura nacional era bem modesta. Sanchéz-Prado

(2006) destaca que:

Hasta 1950, las mujeres habían estado sistemáticamente excluidas y ausentes de los debates culturales que dieron forma a la cultura y la literatura nacional. Algunos autores, como Margo Glantz, atribuyen este fenómeno a la definición hegemónica de la literatura como viril en los años veinte, que significó una localización en el cuerpo masculino de la experiencia nacional, lo que se tradujo en una descalificación de la experiencia de la mujer en la literatura. […] Todo esto implica que atribuir a la literatura viril el borramiento de la mujer del espacio público es incorrecto porque oculta el hecho de que este borramiento es mucho mayor y dejó a la mayoría de las mujeres fuera de los ámbitos culturales. […] De hecho, la “obstinada invisibilización de la mujer” (Valenzuela Arce, Impecable 118) fue parte constitutiva de muchos de los discursos de lo nacional producidos por Hiperión y sus contemporáneos, cuyo punto más alto es la famosa descripción del rol “enigmático” de la mujer en El laberinto de la soledad. (SANCHÉZ-PRADO, 2006, p. 265)

Nesse contexto, poucas mulheres conseguiram intervir no campo cultural dos

anos trinta, com exceção da pintora Frida Kahlo (1907-1953), a escritora Nellie

Campobello (1909-1986), a modelo e romancista Guadalupe Marín (1895-1983) e a

(39)

Rivas Mercado8 (1900-1931), que o fizeram desde uma performance pública, não

tendo conseguido, porém, impor-se verdadeiramente no campo cultural.

Dentro dessa perspectiva, a publicação de El libro vacío (1958) de Josefina

Vicens (1915-1988) significou uma grande ruptura responsável pela transformação

da condição feminina no meio do século XX, principalmente a partir do sufrágio

universal em 1953. Destaca-se ainda Rosario Castellanos (1925-1974) com Balún

Canán (1957), que propõe uma releitura da história marcada, simultaneamente, pelo

gênero, nostalgia e crítica ao poder. Além de Elena Garro (1920-1998) com Los

recuerdos del porvenir (1963), uma obra que traça um paralelismo com Pedro

Páramo (1955) de Rulfo, com a diferença, porém, de que essa autora não conta a

história de um povoado consumido pela estrutura do poder pós-revolucionário, mas

“una alegoría del conflicto histórico entre las burguesías regionales y los intentos del

Estado de incorporar estas regiones al proyecto de la reforma agraria”.

(SANCHÉZ-PRADO, 2006, p. 272)

Nesse meio do século, além dos escritores destacados, encontram-se

também: Francisco Tario (1911-1977), Archibaldo Burns (1914-2011), Edmundo

Valadés (1915-1994), Jorge López Páez (1922), Luis Spota (1925-1985), Rodolfo

Usigli (1905-1979) entre outros. Cabe ressaltar que este último, com a obra Ensayo

de un crimen (1944), dá ao espaço urbano a densidade labiríntica de que carecia. É

quando aparece, pela primeira vez no romance mexicano, a cidade moderna vista

por dentro:

(40)

La ciudad de México en Usigli aparece como un pardo crepúsculo cuyos signos son apenas discernibles. Calles y cafés, pasajes urbanos y jardines, taxis y cabarets: todos son lugares a punto de desvanecerse, funcionando en cámara lenta, intangibles. El homenaje de Usigli es a una ciudad cuyo esplendor del medio siglo es el anuncio de su decadencia: los ciudadanos que la habitan viven como especies terminales. (DOMÍNGUEZ MICHAEL, 1996a, p. 1060)

A Cidade do México, nesse período, estreava, radiante em sua modernidade,

com muitos cafés, teatros, cinemas, livrarias e restaurantes em ruas iluminadas, pois

os governos de Manuel Ávila Camacho (1940-1946) e de Miguel Alemán

(1946-1952), ao contrário de seus predecessores desde o período da Revolução,

caracterizaram-se por uma relativa estabilidade política, crescimento e diversificação

da economia. Sendo assim, a cidade atrai outros escritores, como Rafael Bernal

(1915-1972), com El complot mongol (1969), romance em que desaparecem as

referências sociais e cafés da moda de Usigli, fazendo surgir uma cidade mostrada

através dos bairros mais simples.

A denominada Generación del Medio Siglo ou Generación de la Casa del

Lago, cresceu em um meio literário influenciado por três destacadas situações: a

presença da figura de Alfonso Reyes; a herança de seus antecessores, como o

grupo dos Contemporáneos e a inspiração e estímulo de Octavio Paz. Essa geração

é integrada por escritores como Inés Arredondo, Tomás Segovia, Huberto Batis,

Juan García Ponce, Juan Vicente Melo, Salvador Elizondo, Sergio Pitol, José Emilio

Pacheco entre outros, que não somente desenvolveram obras próprias, mas um

destacado trabalho de crítica em diferentes campos (teatro, cinema, pintura, música,

romance, ensaio e poesia), como também no âmbito da tradução.

O perfil dessa geração poderia ser definido por vários aspectos, como

destaca a professora e pesquisadora Claudia Albarrán em um artigo publicado na

Referências

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