CENTRO DE RÁDIO ASTRONOMIA E ASTROFÍSICA MACKENZIE
Fabian Marcel Menezes
RAIO SOLAR EM FREQUÊNCIAS
SUBTERAHERTZ E SUA RELAÇÃO COM A ATIVIDADE SOLAR
São Paulo
2017
RAIO SOLAR EM FREQUÊNCIAS
SUBTERAHERTZ E SUA RELAÇÃO COM A ATIVIDADE SOLAR
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências e Aplicações Geoespaciais da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito à obtenção do título de Mestre em Ciências e Aplicações Geoespaciais.
Orientador(a): Dra. Adriana Benetti Marques Valio
São Paulo
2017
A M542 Menezes, Fabian Marcel
Raio Solar em Frequências Subterahertz e sua Relação com a Atividade Solar/ Fabian Marcel Menezes – São Paulo, 2017.
82 f.: il., 30 cm Bibliografia: f. 68-71
Dissertação (Mestrado em Ciências e Aplicações Aeroespaciais) – Universidade
Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2017.
Profa. Dra. Adriana Benetti Marques Valio
1. Sol 2. Raio solar 3. Atmosfera solar 4. Ciclo solar I.Título
CDD 523.01
seu empenho e dedicação à Ciência. Um pesquisador sem igual que nos deixou um legado incrível. Faltam pessoas como ele no mundo. Sempre será uma grande inspiração para mim e, com
certeza, fará muita falta.
Primeiramente, agradeço imensamente a Beatriz Pinto, quem melhor me conhece e que há muito me incentiva a buscar a verdadeira satisfação, independente da direção em que as manadas da vida querem nos levar.
À minha orientadora, Adriana Valio, por quem tenho muito respeito e admiração e na qual me espelho muito pessoal e academicamente. Obrigado pela orientação, apoio, confiança, atenção, paciência e incentivo.
A minha família, mãe, pai, mãe n
o2 e irmão, pelo incentivo e por constituírem grande parte de quem eu sou.
Às equipes dos podcasts Dragões de Garagem e Scicast, que me lembraram do fascínio que sempre senti pela Ciência, mas que estava adormecido.
Aos colegas J. F. Valle e a D. V. Cornejo pelas dicas e discussões muito produtivas, a C.
L. Selhorst por compartilhar o modelo SSC, a G. Castro pelos scripts do SST e a A. S.
Kudaka pelas imagens em H-𝛼 e 30 THz.
Aos amigos, colegas e todo corpo docente e administrativo do CRAAM/PPGCAGE. Em especial: Amauri, Ana, André, Carol, Deysi, Douglas, Edith, Jordi, Jorge, Luciano, Lu- cíola, Odilon, Raphael, Raissa, Ray, Valdomiro, Yuri por criarem boas memórias nestes dois anos.
Grande reconhecimento ao falecido Prof. Pierre Kaufmann, que teve a visão das muitas possibilidades de monitorar o Sol em altas frequências submilimétricas e de construir o telescópio SST na Argentina.
Ao CRAAM/CASLEO pelos dados fornecidos.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de estudos do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições de Ensino Particulares (PROSUP).
Ao MACKpesquisa pelo financiamento que possibilitou minha participação nos eventos XL Reunião Anual Da SAB e IAUS 328: Living Around Active Stars.
E a todos os outros, que direta ou indiretamente me incentivaram a seguir este caminho,
meu muito obrigado.
nocchiere, ch’entra in naviglio sanza timone o bussola, che mai ha certezza dove si vada.”
“Os que se encantam com a prática sem a ciência são como os navegadores que entram no navio sem leme nem bússola, nunca tendo certeza do seu destino” [traduzido pelo autor]
Leonardo da Vinci
O Sol emite radiação em diversos comprimentos de onda do espectro eletromagnético.
Na banda visível, seu raio é de 696.000 km e isto é o que define a fotosfera, a superfície visível do Sol. Contudo, à medida que a altitude aumenta, a radiação eletromagnética dominante é produzida em outras frequências, fazendo com que o raio solar mude em função do comprimento de onda. Nosso objetivo é medir o raio solar em frequências de subterahertz de 0,212 e 0,405 THz, isto é, a altitude onde são geradas estas emissões e, além disso, a variação do raio ao longo do ciclo de atividade solar de 11 anos. A importância desta pesquisa é a possibilidade de se compreender mais sobre atmosfera solar e qual a dependência do raio com o ciclo solar, o que pode ser um bom indicador das mudanças que ocorrem nesta estrutura. Para isso, utilizamos mapas em rádio do disco solar de 1999 a 2016 que foram reconstruídos a partir de varreduras diárias feitas pelo Telescópio Solar para Ondas Submilimétricas (SST), instalado no Complexo Astronômico El Leoncito (CASLEO), nos Andes argentinos. O valor de raio obtido para ambas as frequências é 966
′′, 5 com dispersão de ±2,
′′8 para 0,212 THz e ±2,
′′7 para 0,405 THz, o que significa uma altitude de 5, 0 ± 2, 0 × 10
6m. Além disso, observou-se uma forte anti-correlação entre a variação temporal do raio e a atividade solar em ambas as frequências.
Palavras-chaves: Sol, atividade solar, ciclo solar, raio solar.
The Sun emits radiation at several wavelengths of the electromagnetic spectrum. In the optical band, the solar radius is 696,000 km and this is what defines the photosphere, the visible surface of the Sun. However, as the altitude increases, the dominant electromagnetic radiation is produced at other frequencies, causing the solar radius to change as function of wavelength. We measure the solar radius at the subterahertz frequencies of 0,212 and 0,405 THz – i.e., the altitude where these emissions are generated – and also analyse the radius variation over the 11-year solar activity cycle. These measurements enable a better understanding of the solar atmosphere and the radius dependence on the solar cycle, is a good indicator of the changes that occur in the atmospheric structure. For this, we used radio maps of the solar disk for the period between 1999 and 2016, reconstructed from daily scans made by the Solar Submillimeter-wave Telescope (SST), installed at El Leoncito Astronomical Complex (CASLEO), at Argentinean Andes. At both frequencies our measurements yield a radius of 966
′′, 5 with dispersion of ±2,
′′8 for 0,212 THz and
±2,
′′7 for 0,405 THz. This implies a height of 5.0 ± 2.0 × 10
6m above the photosphere.
Furthermore, we also observed strong anti-correlation between radius variation and solar activity at both frequencies.
Key-words: Sun, solar activity, solar cycle, solar radius.
Figura 1 – Raio (Mm) em função da frequência (GHZ). . . . 17 Figura 2 – Esquema ilustrativo da estrutura solar. . . . 21 Figura 3 – Perfis de temperatura e densidade, em função da altitude da atmosfera
solar. . . . 22 Figura 4 – Eclipse solar visto de Uganda. Cromosfera em vermelho e coroa em
branco. . . . . 23 Figura 5 – Esquema ilustrativo da rotação diferencial solar com períodos em dias. 24 Figura 6 – Torção das linhas de campo magnético devido à rotação diferencial. . . 25 Figura 7 – Formação de manchas solares e arcos magnéticos. . . . 26 Figura 8 – Mancha solare em alta definição. . . . 26 Figura 9 – Número de Wolf acima e a baixo Digrama-borboleta indicando posição
das manchas solares em função do tempo. As cores indicam a área da mancha em relação a área da superfície solar. . . . 28 Figura 10 – Mosaico de imagens do Sol coloridas artificialmente em múltiplos com-
primentos de onda (de ultra-violeta ao visível). . . . . 29 Figura 11 – Sol em continuum, rádio, H-𝛼 e IR . . . . 30 Figura 12 – Arranjo de antenas do rádio-heliógrafo do Nobeyama Radio Observatory 31 Figura 13 – Sol no espectro visível com indicação de obscurecimento de limbo. . . . 32 Figura 14 – Perfis de intensidade relativa em 17 GHz . . . . 33 Figura 15 – Esquema ilustrativo do tamanho angular do Sol. . . . 34 Figura 16 – Medições do raio solar aparente na banda visível de 1773 a 2006. . . . 35 Figura 17 – Perfis de temperatura em função da altura acima da fotosfera dos mo-
delos de atmosfera solar C7 (linha contínua) , VALC (linha pontilhada) e SSC (linha tracejada) . . . . 37 Figura 18 – Profundidade óptica calculada para 10, 40, 200 e 800 GHz usando os
modelos de atmosfera solar C7 (linha contínua) , VALC (linha ponti- lhada) e SSC (linha tracejada). . . . 39 Figura 19 – Espectro solar sintético de 2 GHz a 10 THz em função da altura at-
mosférica sobre a fotosfera e da frequência. . . . 40 Figura 20 – Telescópis Solar para Ondas Submilimétricas dentro de sua redoma no
CASLEO. . . . 41
os seguintes itens: (1) espelho plano giratório; (2) grade polarizadora permitindo; (3) dois radiômetros de 405 GHz; (4) quatro radiômetros
de 212 GHz; (5) fonte de temperatura ambiente; (6) fonte quente. . . . 42
Figura 22 – Posição e tamanho dos feixes do rádio-telescópio em relação ao disco solar. . . . 43
Figura 23 – Etapas de calibração do SST: (1) Calibração de temperatura; (2) Varre- duras de mapas solares; (3) Rastreio de zênite-horizonte-zênite (medida de opacidade atmosférica, 𝜏 ); (4) Rastreamento do centro do disco solar seguido pelo rastreamento da fonte da região ativa. . . . 44
Figura 24 – Esquema ilustrativo da trajetória de varreduras pelo disco solar feitas pelo SST, correspondente ao modo de operação n
o2 (mapas em azimute e elevação). . . . 45
Figura 25 – Fluxo solar durante varreduras azimutais do SST em 2008-01-09, mos- trando valores de background, de Sol calmo e de limbo. . . . 45
Figura 26 – Exemplos de mapas solares reconstruídos com os dados das varreduras do SST de 2008-01-09. . . . 46
Figura 27 – Mapas solares reconstruídos de 2008-01-09, com linhas de contorno de intensidade. . . . 46
Figura 28 – Contagem de mapas azimutais realizados pelo SST por dia, por mês e por ano, de 1999 a 2017 . . . . 47
Figura 29 – Exemplos de mapas solares considerados ruins e que foram descartados. 47 Figura 30 – Etapas da determinação do raio solar (mapa de 2008-01-09). . . . 49
Figura 31 – Média mensal do n
ode Wolf de 1991 a 2017. . . . 51
Figura 32 – Resultados de raio solar para os mapas em ao longo dos anos . . . . 52
Figura 33 – Histogramas de 𝑅
𝜈em segundos de arco para cada feixe, onde ¯ 𝑅 é a média, ˜ 𝑅 é a mediana e 𝑅
𝑀 𝑜é a moda. . . . 53
Figura 34 – Histogramas de raio solar em 0,212 THz (acima) e 0,405 THz (abaixo), onde ¯ 𝑅 é a média, ˜ 𝑅 é a mediana e 𝑅
𝑀 𝑜é a moda. . . . 55
Figura 35 – Altura das emissões acima da fotosfera em função da frequência. . . . . 56
Figura 36 – Perfil de temperatura de brilho do disco solar. . . . 57
Figura 37 – Perfil de temperatura de brilho do disco solar pelo modelo SSC. . . . . 58
do ALMA. . . . 60 Figura 39 – Média corrida mensal de variação do raio solar e do n
ode Wolf de 1999
a 2017 (0,212 THz acima e 0,405 THz abaixo). . . . 61 Figura 40 – Média corrida de 13 meses para variação do raio solar e para o n
ode
Wolf de 1999 a 2017 (0,212 THz acima e 0,405 THz abaixo). . . . 62 Figura 41 – Histogramas de raio solar em 0,212 THz (acima) e 0,405 THz (abaixo),
com dados referentes apenas ao período de 2007 a 2017, onde ¯ 𝑅 é a média, ˜ 𝑅 é a mediana e 𝑅
𝑀 𝑜é a moda. . . . 63 Figura 42 – Média corrida mensal de variação do raio solar e do n
ode Wolf de 2007
a 2017 (0,212 THz acima e 0,405 THz abaixo). . . . 64 Figura 43 – Média corrida de 13 meses para variação do raio solar e para o n
ode
Wolf de 2007 a 2017 (0,212 THz acima e 0,405 THz abaixo). . . . 65
Tabela 1 – Frequências e raios correspondentes. . . . . 17
Tabela 2 – Resultados prévios de raio solar e altitude em frequências de rádio. . . 36
Tabela 3 – Modos de operação do SST. . . . 44
Tabela 4 – Contagem de mapas azimutais realizados pelo SST de 1999 a 2017 . . . 46
Tabela 5 – Contagem de mapas azimutais após critérios de descarte. . . . 50
Tabela 6 – Resultados de raio solar para cada feixe. . . . 54
Tabela 7 – Resultados de raio solar em 0,212 e 0,405 THz . . . . 54
Tabela 8 – Raio solar resultante dos modelos. . . . . 58
Tabela 9 – Coeficentes de correlação. . . . 63
AIA Atmospheric Imaging Assembly.
ALMA Atacama Large Millimeter/submillimeter Array
CASLEO Complejo Astronómico El Leoncito. Em português, Complexo Astronô- mico El Leoncito.
CME Coronal Mass Ejection. Em português, Ejeções de Massa Coronal.
CONICET Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas. Em portu- guês, Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas.
CRAAM Centro de Rádio-Astronomia e Astrofísica de Mackenzie.
HMI Helioseismic and Magnetic Imager. Em português, Imageador Helios- sísmico e Magnético.
IAU International Astronomical Union. Em português, União Astronômica Internacional.
IR Infrared. Em português, infravermelho.
NASA National Aeronautics and Space Administration. Em português, Admi- nistração Nacional da Aeronáutica e Espaço.
ROA Real Instituto y Observatorio de la Armada. Em português, Instituto e Observatório Real da Marinha (Espanha).
SDO Solar Dynamics Observatory. Em português, Observatório de Dinâmica Solar.
SI Sistema Internacional de Unidades.
SST Solar Submillimeter-wave Telescope. Em português, Telescópio Solar
para Ondas Submilimétricas.
Å Angström. 1 Å = 10
−10m.
ADC Analog-to-Digital Conversion Units. Em português, unidades conversão de analógico-para-digital. Unidade de potência linearmente proporcio- nal à temperatura de antena.
eV Elétron-volt. Unidade de energia definida como o trabalho realizado ao se mover um elétron através de uma diferença de potencial de um volt.
1 eV ∼ = 1, 602 × 10
−19J.
G Gauss. Unidade de campo magnético no sistema cgs.
GHz Gigahertz. 1 GHz = 10
9Hz.
Hz Hertz. Unidade de medida de frequência no Sistema Internacional de Unidades (SI).
J Joule. Unidade de energia no SI.
K Kelvin. Unidade de temperatura no SI.
km Quilômetro. 1 km = 10
3m.
Mm Megametro. 1 Mm = 10
6m.
M
⊙Massa solar. 𝑀
⊙∼ = 1, 989 × 10
30kg.
nm Nanômetro. 1 nm = 10
−9m.
R
𝑧Número de Wolf. É o número relativo de manchas solares.
R
𝜈Raio solar em determinada frequência de observação.
R
⊙Raio solar. 𝑅
⊙∼ = 6, 96 × 10
8m.
T Tesla. 1 T = 10.000 G. Unidade de campo magnético no SI THz Terahertz. 1 THz = 10
12Hz.
ua Unidade astronômica. 1 ua ∼ = 1, 496 × 10
11m.
𝜈 Frequência. Grandeza física que indica o número de oscilações em um determinado intervalo de tempo.
𝜌
⊙Densidade solar média. 𝜌
⊙=
4𝑀⊙3𝜋𝑅3⊙