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Das águas que calam às águas que falam: opressão e resistência no curso das representações da água na Chapada do Apodi

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Academic year: 2018

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO PROGRAMA REGIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO

EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

MAYARA MELO ROCHA

DAS ÁGUAS QUE CALAM ÀS ÁGUAS QUE FALAM:

OPRESSÃO E RESISTÊNCIA NO CURSO DAS REPRESENTAÇÕES DA ÁGUA NA CHAPADA DO APODI

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MAYARA MELO ROCHA

DAS ÁGUAS QUE CALAM ÀS ÁGUAS QUE FALAM:

OPRESSÃO E RESISTÊNCIA NO CURSO DAS REPRESENTAÇÕES DA ÁGUA NA CHAPADA DO APODI.

Dissertação apresentada ao Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Programa Regional de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Área de Concentração: Desenvolvimento e Meio Ambiente.

Orientadora: Profa Drª Raquel Maria Rigotto.

Co-orientador: Dr. João Batista de Albuquerque Figueiredo.

FORTALEZA

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará

Biblioteca de Ciências e Tecnologia

R574d Rocha, Mayara Melo.

Das águas que calam às águas que falam: Opressão e resistência no curso das representações da água na Chapada do Apodi / Mayara Melo Rocha. – 2013.

230 f.: il. , color. , enc. ; 30 cm.

Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Centro de Ciências, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Programa de Pós-Graduação em

Desenvolvimento e Meio Ambiente, Fortaleza, 2013.

Área de Concentração: Desenvolvimento e Meio ambiente. Orientação: Profa. Dra. Raquel Maria Rigotto.

Coorientação: Prof. Dr. João Batista de Albuquerque Figueiredo.

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À vida pela oportunidade de estar entre as pessoas que amo e aos orixás, sobretudo, Iemanjá, por toda a proteção.

Às pessoas queridas da comunidade do Tomé que me acolheram, incentivaram e contribuíram. Sem vocês não faria sentido: Socorro, Jayanne, Gracinha, Neguinho, Dona Maria, Batista, Quinha, Raphaella, Gabriel e Branquinha.

Ao Fernando Leão, meu companheiro de todos os momentos, por nunca ter me deixado sozinha, por sempre me fazer sorrir, por ser o grande amor da minha vida e acreditar em mim até quando eu mesmo duvidei.

À Raquel Rigotto por toda sua amizade, companheirismo, sorrisos, ensinamentos e por confiar em mim, existir e me deixar existir em sua vida.

Ao Ernesto Gomes (e a querida Tia Rosa) por todo o cuidado, amizade e atenção que me dedicou e por garantir que eu vencesse a última etapa dessa caminhada com toda a tranquilidade do mar.

Ao Tiago Costa por segurar a onda em todos os momentos, pelos abraços e a paciência.

À Andréa Camurça por viver comigo os medos e as inseguranças e dividir também todas as risadas que só nós entendemos.

À Maiana Maia pelos ouvidos sempre atentos e pela doçura com a qual sempre me incentivou.

À Lourdes Vicente pelos telefonemas e mensagens carinhosas, pela compreensão e cumplicidade, pelas trocas de ideias e atenção.

Ao João Figueiredo pela inspiração.

À minha família sempre atenta em saber de mim e torcer pelo melhor, especialmente minhas irmãs Thanna Elys e Dayana.

Às minhas três mães, Elizete Melo, Regina Aragão, Mentinha e ao meu pai Francisco das Chagas Rocha.

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Furtado, Ada Pontes, Lara Braga, Bruna Sarkis, Poty, Danielli Costa, João Luís...etc...

Aos companheiros e companheiras do M21: Bernadete, Diego, Pe. Júnior, Osarina, Reginaldo...etc...

Às queridas Alba Pinho e Gema Galgani que aceitaram o convite para participar de minha banca e contribuir com todo seu conhecimento e sensibilidade.

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“Viver é muito perigoso...Porque aprender a viver é que é o viver mesmo...Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa...O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

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A pesquisa analisa as representações sociais da água na comunidade do Tomé, Chapada do Apodi (CE), e suas relações com os conflitos socioambientais ocasionados pela implantação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi. Tomando como foco a comunidade do Tomé reconstruíram-se as modificações ocorridas nas formas de uso e acesso à água com o objetivo de identificar a relação entre os processos de apropriação desigual e contaminação por agrotóxicos – decorrentes da implantação do modelo agroexportador na região –, e as interferências no modo de significação e representação da água pelas populações locais. Utilizou-se uma abordagem qualitativa baseada na proposta metodológica da Hermenêutica de Profundidade abrangendo diferentes técnicas de pesquisa como as entrevistas abertas, a formação de um grupo de pesquisa ampliado com membros da comunidade, a realização de trabalho de campo de base etnográfica fazendo uso da observação participante e do diário de campo. O processo analítico-interpretativo do material coletado se deu através da abordagem proposta pela Análise do Discurso. A pesquisa resultou na identificação do processo de modernização agrícola como promotor de rupturas na teia significativa da água modificando suas representações e, consequentemente, alterando as práticas coletivas de uso. Revelam-se processos que caminham para o rompimento da representação da água enquanto bem coletivo à medida que as estratégias de defesa e proteção contra os riscos se individualizam. Essa reconfiguração é ocasionada por mecanismos de violência simbólica, exercidos por agentes do poder contra as populações locais, uma vez que o medo de tratar das questões relativas à contaminação e a apropriação privada da água tem provocado o silenciamento da comunidade sobre o tema. Aponta-se para a necessidade de processos de reconstrução simbólica sobre a água, que retomem a perspectiva do direito e do acesso aos bens comuns, para que as ações de resistência sejam fortalecidas.

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In this study we analyzed the social representations of water in Tomé, a community in Chapada do Apodi (Northeastern Brazil), and their relation to the socioenvironmental conflicts resulting from the establishment of the Jaguaribe-Apodi irrigation district. Centered on the community in Tomé, we evaluated changes in the use of and access to water in order to identify the relation between, on one side, the processes of private appropriation of water resources and contamination by agrochemicals associated with the adoption of agro-export models, and, on the other

side, changes in the local populationʼs perceptions and web of significance of water.

The approach was qualitative, based on deep hermeneutics, and comprised an array of techniques, such as open interviews, inclusion of members of the community in research groups, ethnographic field work with participant observation, and field logs. The collected data were interpreted by way of discourse analysis. Agricultural modernization was found to have disrupted the local populationʼs perceptions and web of significance of water, leading to changes in collective water use practices. Processes were identified which tend towards loss of the perception of water as a collective good and the individualization of strategies of defense and protection against risks. These changes have taken hold through mechanisms of symbolic violence perpetrated by power agents against local populations silenced out of fear of discussing issues like contamination and private appropriation of water resources. A symbolic reconstruction of the web of significance of water in light of rights and access to common goods is necessary in order to reinforce local resistance.

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Figura 1 - Mapa do Ceará com destaque para os Agropolos ... 107

Figura 2 - Localização geográfica do Baixo Jaguaribe ... 109

Figura 3 - Canal a céu aberto ao lado das plantações ... 119

Figura 4 - Piscina da quadra IV que abastece a comunidade do Tomé ... 119

Figura 5 - Comunidades cercadas por plantações ... 121

Figura 6 - Mapa elaborado pelas comunidades representando os impactos sobre o território. ... 122

Figura 7 - Desenho da comunidade do Tomé ... 123

Figura 8 - Quadrinho da comunidade do Tomé ... 123

Figura 9 - Capela Nossa Senhora de Fátima ... 124

Figura 10 - Mapa de cartografia social da comunidade do Tomé ... 125

Figura 11 - Comunidade do Tomé por satélite ... 127

Figura 12 - Situação de proximidade entre cultivos e residências... 127

Figura 13 - Representação da cacimba do Tomé ... 158

Figura 14 - Representação da roladeira ... 158

Figura 15 – Localização da lagoa do Tomé ... 161

Figura 16 - Local onde existia o poço com dessalinizador ... 162

Figura 17 - Registro da mortandade de peixes em 2004 ... 169

Figura 18 - Imagens do Grito dos Excluídos em 2009 ... 171

Figura 19 - Placas de advertência na piscina que abastece a comunidade ... 173

Figura 20 - Linha do Tempo (Um rio chamado tempo) ... 177

Figura 21 - Depósito de bebidas ... 213

Gráfico 1 - Vendas de produtos comerciais de todas as classes ... 117

Gráfico 3 - Produtos comercializados no Ceará 2005 - 2009 ... 118

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Tabela 1 - Evolução da potência hidrelétrica instalada... 65

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ADECE – Agência de Desenvolvimento do Ceará

AIJA Associação dos Ex-irrigantes do Projeto Jaguaribe-Apodi

ANA – Agência Nacional de Águas

ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária

BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento

BIRD – Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento

BNB – Banco do Nordeste do Brasil

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

CAGECE – Companhia de Água e Esgoto do Ceará

CAIs - Complexos Agroindustriais

CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

CODEVASF – Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco

COELCE – Companhia Elétrica do Ceará

COGERH – Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Estado do Ceará

CONAMA Conselho Nacional do Meio Ambiente

CONERH – Conselho de Recursos Hídricos do Estado do Ceará

CONFINS – Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social

CPT Comissão Pastoral da Terra

CSN – Companhia Siderurgica Nacional

DIJA – Distrito de Irrigação Jaguaribe-Apodi

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EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

EPI – Equipamentos de Proteção Individual

FAFIDAM – Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos

FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação

FAPIJA – Federação das Associações do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi

FUNASA – Fundação Nacional de Saúde

FUNCEME - Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos

GPM21 – Grupo de Pesquisa do Movimento 21

IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

ICMS – Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços

IFCE – Instituto Federal do Ceará

IFOCS – Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas

IOCS Inspetoria de Obras Contra as Secas

IPECE – Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará

IPI Imposto sobre Produtos Industrializados

ISEB Instituto Superior de Estudos Brasileiros

M21 – Movimento 21 de abril

MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia

MDA – Ministério de Desenvolvimento Agrário

MIN – Ministério da Integração Nacional

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PAC – Programa de Aceleração do Crescimento

PERH – Plano Estadual de Recursos Hídricos

PIN – Programa de Integração Nacional

PIS – Programa de Integração Social

PLANERH – Plano Estadual de Recursos Hídricos

PND – Plano Nacional de Desenvolvimento

PNHR – Política Nacional de Recursos Hídricos

PROÁGUA – Programa de Desenvolvimento Sustentável dos Recursos Hídricos do Semiárido Brasileiro

PRODHAM - Programa-Piloto de Gestão das Micro-Bacias

PROGERIRH Projeto de Gerenciamento Integrado de Recursos Hídricos do Estado do Ceará

PROMOVALE – Programa de Valorização Rural do Baixo e Médio Jaguaribe

PROURB – Programa de Desenvolvimento Urbano e Gerenciamento de Recursos Hídricos

PROVARZEAS Programa Nacional de Aproveitamento Racional de Várzeas Irrigáveis

SAAE – Serviço Autônomo de Água e Esgoto

SEMACE – Superintendência Estadual de Meio Ambiente do Ceará

SEMAR – Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos

SIGERH - Sistema Integrado de Gestão de Recursos Hídricos

SINDAG Sindicato da Indústria de Defensivos Agrícolas

SOHIDRA – Superintendência de Obras Hidráulicas

SRH – Secretaria dos Recursos Hídricos

SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste

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UFMG Universidade Federal de Minas Gerais

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“Água da palavra Água calada, pura Água da palavra Água de rosa dura Proa da palavra (...)

Margem da palavra Entre as escuras duas Margens da palavra Clareira, luz madura Rosa da palavra”

(A terceira margem do rio - Caetano Veloso)

A terceira margem do rio1 - busca e inquietações iniciais

Escolhi nomear a apresentação tomando emprestado o título do conto de Guimarães Rosa não apenas por deleite estético, mas por aceitar a provocação implícita na metáfora de que existe uma margem além das duas que a vista facilmente alcança. Isso se deve ao fato deste trabalho ter sido conduzido pelo desejo de captar não só aquilo que fala, mas também o silenciado.

Foram muitos os rios que naveguei para chegar a essa pesquisa e sou composta por todos os organismos vivos, pedrinhas, correntezas, afluentes que encontrei nesse navegar. Nascida no sertão do Ceará, o rio que passava perto da minha casa, o açude onde eu tanto me divertia, as histórias sobre as águas e os lamentos pela sua insistente escassez povoam minha memória. Aprendi ainda cedo

que dia bom é aquele “bonito pra chover”. No sertão, comecei a perceber que havia

contraste entre as formas de se apropriar das coisas. Embora a água fosse vista como dádiva dos céus, tanto que recordo as novenas para São José, ela vinha sempre de forma desigual e as razões eu ignorava.

O fato é que no sertão aprendi a reconhecer e questionar privilégios e desigualdades, isso acabou marcando minha trajetória de vida. Por paixão e na busca de ampliar minhas compreensões fui estudar comunicação social, acreditava verdadeiramente no poder da ação comunicativa para interferir num contexto social opressor. Foi a partir disso que dediquei minha formação profissional a contribuir

1 Subtítulo emprestado do conto “

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organizações ambientalistas me possibilitaram contestar o pensamento hegemônico que diz que todas as pessoas são afetadas da mesma forma pelos impactos ambientais. Compreendi que essa noção desconsidera as dimensões sociológicas dos problemas ambientais e reduz o debate a uma esfera meramente técnica. Desse modo, a discussão sobre a apropriação privada da natureza assentada no modo de produção capitalista, assim como os impactos, que recaem de modo desproporcional sobre determinadas populações e grupos étnicos, provocando injustiças ambientais, são invisibilizados nas reflexões.

Tendo isso em vista, escolhi ingressar no Programa Interdisciplinar de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, pois acredito que as aprendizagens acumuladas enquanto comunicóloga podem contribuir com a interdisciplinaridade do debate ambiental. Além disso, minha inserção no Núcleo Tramas Trabalho, Meio Ambiente e Saúde, da Universidade Federal do Ceará, foi fator decisivo para que eu pudesse chegar à construção desse projeto de pesquisa, pois me deu novos e importantes elementos para pensar sobre o fazer científico.

Através do Núcleo Tramas, cheguei à Chapada do Apodi e foi naquele território que as inquietações que se acumularam em mim ao longo do tempo reverberaram formando perguntas que deram origem à presente pesquisa. Saliento que essas perguntas não partiram do zero, mas de um longo processo de análise e reflexão empreendido pelo Núcleo Tramas na Chapada do Apodi.

No período de 2007 a 2010 foi desenvolvida, com a coordenação do

Tramas, uma pesquisa intitulada “Estudo epidemiológico da população da região do Baixo Jaguaribe exposta à contaminação ambiental em área de uso de agrotóxicos”,

contemplada no edital: MCT-CNPq/MS-SCTIE-DECIT/CT – Saúde - No 24/2006. Essa pesquisa resultou numa série de materiais como artigos, dissertações, tese, livro, cordel, almanaque, jogo e outros instrumentos de conhecimento que tentaram articular de forma profunda o conhecimento científico com o saber popular.

Durante o desenvolvimento da pesquisa supracitada, diferentes sujeitos sociais se fizeram parceiros do processo: lideranças e associações comunitárias, sindicatos, movimentos sociais, pastorais, organizações da sociedade civil e pesquisadores de outras universidades. Esse contexto permitiu que, mesmo após a finalização da pesquisa contemplada no Edital citado, persistisse no território um

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de José Maria Filho (Zé Maria do Tomé) – liderança comunitária da comunidade do Tomé e importante mobilizador da luta em defesa da água – surgiu o Movimento 21 (o nome do movimento é uma alusão ao dia 21 de abril, data em que Zé Maria foi assassinado). Esse movimento teve o potencial de aglutinar várias forças sociais no sentido de dar continuidade às mobilizações por justiça socioambiental na Chapada do Apodi. Um dos desdobramentos desse processo foi a criação do Grupo de Pesquisa do Movimento 21 - GPM21 que integra uma diversidade de pesquisadores do Núcleo Tramas da Universidade Federal do Ceará, da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos - FAFIDAM/UECE, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP, entre outros importantes parceiros, com a perspectiva de se debruçar sobre o território através da multiplicidade de olhares e da interdisciplinaridade com vistas ao desenvolvimento de pesquisas que dialoguem com as necessidades reais das populações locais e comprometidas com a transformação social através do fortalecimento do que Santos (2004) chama de ecologia de saberes. É nesse contexto que a presente pesquisa nasce e é acolhida.

A Chapada do Apodi, localizada na região do Baixo Jaguaribe no Ceará, tornou-se uma zona de expansão agrícola na qual foram implantadas grandes empresas nacionais e multinacionais do ramo da fruticultura voltadas à exportação. Na década de 1980, a Chapada recebeu a instalação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi para garantir infraestrutura necessária ao desenvolvimento de atividades agrícolas. O que assistimos a partir de então foi um violento processo de desterritorialização de várias famílias, que tinham na Chapada seu território de vida, para dar lugar a um modelo agrícola agroexportador que imprimiu as marcas de um modelo de desenvolvimento excludente e ambientalmente danoso.

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populações assimilam e também resistem ao discurso hegemônico? Como essas populações estão construindo outras formas de se relacionar com o ambiente? Enfim, como a ciência pode contribuir para que os saberes acumulados por essas populações possam emergir? Diante de todas essas inquietações, resolvi me lançar em busca da terceira margem do rio.

Para apresentar nosso navegar ao longo da pesquisa estruturamos o texto de forma a seguir um trajeto muito semelhante àquele que fizemos no caminho de nossas descobertas nesse rio. Desse modo, iniciamos com o capítulo chamado de “As nascentes” que traz não só nossas inquietações iniciais, mas também apresenta nosso lugar de partida que são nossos objetivos e o percurso metodológico escolhido. Em seguida, com o capítulo “Caminho das Águas”

navegamos por diferentes formas de representar e interpretar a água em nossa sociedade, o que é também um modo de perceber as diferentes possibilidades de apropriação dos bens ambientais. Em seguida, temos o capítulo chamado “A força das representações” que busca de evidenciar nossos referenciais teóricos e iluminar

o capítulo seguinte que trata sobre “A Chapada do Apodi como arena da disputa de sentidos”. Finalmente, navegamos pelos resultados com o capítulo intitulado “As tramas das representações sociais da água na comunidade do Tomé” e

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1 AS NASCENTES: UMA INTRODUÇÃO ... 21

1.1 Objetivos da pesquisa ... 25

1.1.2 Objetivos específicos ... 25

1.2 A bússola: o percurso metodológico ... 26

1.2.1 Desenhando as rotas: pressupostos da pesquisa ... 26

1.2.2 Escolhendo caminhos ... 30

1.2.3 Mapa de navegação: método ... 31

1.2.4 Instrumentos de bordo: procedimentos ... 32

1.2.5 Pra onde segue a correnteza: a análise interpretativa ... 40

2 CAMINHO DAS ÁGUAS ... 43

2.1 A centralidade da água ... 43

2.2 Água – distintas representações... 46

2.3 Modos de apropriação desigual da água no Brasil ... 50

2.3.1 Povos indígenas e as águas livres ... 50

2.3.2 Binômio terra e água no Brasil pré-industrial ... 53

2.3.3 Código das Águas – água como força motriz para a industrialização do Brasil ... 57

2.3.4 O desenvolvimentismo avança na apropriação da natureza ... 62

2.3.5 Política Nacional de Recursos Hídricos... 67

2.4 Caminho das águas no Ceará... 69

2.4.1 Atual modelo de gestão dos recursos hídricos no Ceará... 75

3 A FORÇA DAS REPRESENTAÇÕES ... 80

3.1 Lançando olhares sobre as representações ... 80

3.2 Uma perspectiva crítica das representações a partir de Bourdieu ... 87

3.3 O habitus como mediação reencontrada ... 92

3.4 Linguagem e representações ... 96

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Ceará... 99

4.2 Modernização excludente – os impactos do modelo hegemônico sobre a cultura... 103

4.3 O Baixo Jaguaribe - novo espaço produtivo para o mercado global? ... 106

4.4 A tentativa de apropriação da Chapada do Apodi – território de vida ameaçado pelo agronegócio ... 112

4.4.1 A implantação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi e os impactos negativos sobre as populações locais ... 114

4.4.2 Água envenenada, vida ameaçada – o envenenamento das águas pelo

agronegócio ... 116

4.4.3 A comunidade do Tomé ... 124

5 AS TRAMAS DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA ÁGUA NA COMUNIDADE DO TOMÉ ... 131

5.1 Que fios tecem a trama da água? ... 136

5.1.1 A comunidade aponta os nós críticos ... 137

5.2 O Tomé navega em sua história ... 145

5.2.1 Um rio chamado tempo ... 151

5.3 Flutuando entre a abundância e a escassez ... 178

5.4 “É tudo pros de fora” – a percepção das injustiças ... 184

5.5 A contaminação da água por uso de agrotóxicos ... 189

5.5.1 Intervenções na teia significativa ... 190

5.5.2 A percepção da contaminação ... 193

5.5.3 A dificuldade de enfrentar o problema ... 198

5.6 Das águas que calam ou “Quando fala em água todo mundo se cala” ... 202

5.7 De bem comum à mercadoria ... 207

6 PARA DESAGUAR OU CONCLUIR: CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 217

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1 AS NASCENTES: UMA INTRODUÇÃO

“Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente pra fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.”

(Guimarães Rosa)

Embora seja vital para a sobrevivência dos seres humanos, em decorrência de um padrão de desenvolvimento desigual, a água sempre esteve à disposição de poucos no Nordeste brasileiro. Durante muito tempo a responsabilidade por um suposto “atraso” no desenvolvimento econômico da região foi atribuída aos fatores climáticos que limitavam a oferta hídrica para determinadas atividades produtivas. Essa percepção deu origem a uma série de intervenções que se expressaram, sobretudo, na construção de grandes reservatórios de água que, na prática, não resolveram os problemas das populações em situação de

vulnerabilidade visto que essas águas mantiveram-se concentradas nas mãos de grandes proprietários de terras.

No entanto, a partir da década de 1970 entrou em vigor uma nova fase da exploração capitalista no Nordeste e, sob os auspícios do desenvolvimentismo, iniciou-se a política de implantação de perímetros irrigados. Essa política resultou na

criação de “ilhas de prosperidade” encravadas no semiárido nordestino que passaram a se configurar como espaços para a instalação do capital globalizado à custa da desterritorialização das populações locais. De acordo com dados do Departamento Nacional de Obras contra as Secas - DNOCS, entre os anos de 1968 e 1992, o Governo Federal construiu 35 perímetros públicos irrigados no Nordeste, 40% deles apenas no estado do Ceará.

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O avanço do modelo agroexportador no território em questão tem sido responsável por uma série de impactos socioambientais que afetam diretamente as populações locais. Além da desterritorialização de inúmeras famílias, a inserção do novo modelo agrícola tem provocado alterações significativas no modo de vida e trabalho. Muitos dos pequenos agricultores que foram desapropriados para a implantação do perímetro tiveram que se deslocar para as periferias das cidades próximas, como Limoeiro do Norte e Quixeré e passaram a ser empregados das empresas do agronegócio. Os que permaneceram na Chapada passaram a viver em algumas das comunidades, mas perderam as condições de manter suas atividades agrícolas tradicionais. Além disso, o aumento da migração tem acarretado grandes mudanças na dinâmica de vida local de modo que a população aponta o avanço do consumo de drogas, da exploração sexual e da violência como problemas da região. O modelo agrícola instalado na Chapada do Apodi se legitima através do discurso modernizador e da geração de emprego e renda. No entanto, tem sido responsável pela proliferação do que há de mais arcaico no que diz respeito às relações trabalhistas, à estrutura fundiária, à manutenção de relações obscuras entre o público e o privado, à negação de direitos das populações locais e ao saque e degradação dos bens ambientais. Por isso, autores como Porto-Gonçalves (2012b) nomeiam esse processo de modernização agrícola conservadora.

[...] esse modelo agrário-agrícola que se apresenta como o que há de mais moderno, sobretudo por sua capacidade produtiva, na verdade, atualiza o que há de mais antigo e colonial em termos de padrão de poder ao estabelecer uma forte aliança oligárquica entre as grandes corporações financeiras internacionais, as grandes indústrias-laboratórios de adubos e de fertilizantes, de herbicidas e de sementes, as grandes cadeias de comercialização ligadas aos supermercados e os grandes latifundiários exportadores de grãos. Esses latifúndios produtivos são mutatis mutandis, tão modernos como o foram as grandes fazendas de cana-de-açúcar e seus engenhos no Brasil e nas Antilhas dos séculos XVI e XVII. À época, diga-se de passagem, não havia nada de mais moderno. A modernidade bem vale uma missa. (PORTO-GONÇALVES, 2012b, p. 243 e 244, grifos do autor).

Baseado no modo de produção agrícola advindo da chamada “revolução verde” o agronegócio é dependente do uso intensivo de produtos químicos e vem

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O conhecimento das populações locais sobre essa realidade fez nascer ações de resistência. Nesse processo, a comunidade do Tomé teve uma atuação fundamental, pois o líder comunitário local, José Maria Filho (Zé Maria do Tomé), junto a outros integrantes da associação comunitária São João, realizou um amplo trabalho de mobilização e denúncia contra os impactos do modelo agrícola sobre a vida das populações locais, sobretudo, no que diz respeito à contaminação das águas e à pulverização aérea. No auge das mobilizações a comunidade teve algumas conquistas a exemplo da Lei Municipal Zé Maria do Tomé que proibia a pulverização aérea de agrotóxicos na Chapada do Apodi. No mesmo período, a justiça determinou que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto – SAAE garantisse o fornecimento de água potável para a população através de carros-pipa. No entanto, após o assassinato do líder comunitário, em abril de 2010,2 houve um arrefecimento da mobilização comunitária e tanto a Lei, que proibia a pulverização, foi derrubada pela Câmara Municipal de Limoeiro do Norte quanto o SAAE interrompeu, sem maiores explicações, o fornecimento de água por carros-pipa à comunidade.

O assassinato de Zé Maria aumentou o clima de insegurança e medo na comunidade do Tomé fazendo com que o problema da água sofresse processos de silenciamento. Além do medo da violência física, a população teme represálias como o corte no abastecimento de água ou processos de demissão em massa contra os trabalhadores. Embora reconheçam a contaminação das águas como uma ameaça à vida e à saúde, tanto que a população é categórica ao afirmar que esse é atualmente o maior problema vivido por eles. O medo imposto pela violência simbólica exercida pelos agentes do poder tem conseguido neutralizar as estratégias coletivas de enfrentamento.

Além da contaminação, a população tem sofrido com os impactos provocados pela exploração das águas do aquífero Jandaíra pelas empresas do agronegócio. Segundo os relatos, o excesso de poços profundos perfurados na região tem causado a redução dos níveis de reserva do aquífero comprometendo o acesso à água pelos pequenos agricultores que se encontram fora da área do

2 José Maria Filho foi morto no dia 21 de abril de 2010 num crime com características de pistolagem e

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perímetro e dependem exclusivamente da captação de águas subterrâneas para a produção.

Diante desse contexto, percebemos alterações no modo de uso e significação da água pelas populações locais. Observamos um conflito entre a percepção de mundo que está atrelada à lógica hegemônica do capital, que se impõe e avança sobre os recursos necessários à sobrevivência das comunidades da Chapada, e a afirmação dos modos de vida locais.

Acreditamos que a análise das diferentes formas de uso da água —

determinadas pela experiência vivida a partir de apropriações desiguais — e suas distintas significações pode contribuir com uma compreensão ampliada sobre como as comunidades que convivem com a degradação da água em seu território produzem resistência. Assim talvez seja possível lançar perspectivas de enfrentamento à problemática a partir da construção de um conhecimento que parta da intersubjetividade da relação entre sociedade e natureza.

Segundo Guatarri (2001) não é possível responder à crise ecológica sem que se opere uma revolução política, social e cultural que seja capaz de reorientar os objetivos da produção de bens materiais e imateriais; isso, porém, não deverá ocorrer apenas nas relações de forças visíveis em grande escala, mas também nos domínios da sensibilidade e do imaginário, uma vez que as relações estabelecidas com a natureza são também relações culturais.

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1.1 Objetivos da pesquisa

1.1.1 Objetivo geral

Analisar as distintas representações sociais da água na comunidade do Tomé, localizada na Chapada do Apodi (CE), e suas relações com os conflitos socioambientais ocasionados pela implantação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi na região.

1.1.2 Objetivos específicos

- Construir com a comunidade do Tomé um resgate histórico sobre as formas de acesso e uso da água em seu território identificando as transformações ocorridas no modo de representar e consequentemente de se relacionar com a água;

- Compreender como os impactos e as injustiças ambientais decorrentes da instalação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi afetaram as representações sociais da água na comunidade do Tomé;

- Analisar a construção de discursos hegemônicos que tentam legitimar a apropriação da água pelo agronegócio na Chapada do Apodi;

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1.2 A bússola: o percurso metodológico

1.2.1 Desenhando as rotas: pressupostos da pesquisa

Ao longo de nosso processo de pesquisa fomos descobrindo que tão importante quanto conceber um arcabouço teórico e metodológico foi permitirmo-nos vivenciar, praticar, experimentar, deixarmo-nos tocar pelas histórias do passado e do presente que se intercruzavam sob nosso olhar. Aprendemos que nos entregarmos a um processo de aprendizagem que não ocorre apenas nos espaços institucionais da universidade, mas bem além dele, é fundamental. Passamos a perceber que as opções metodológicas não são apenas um conjunto de métodos e técnicas de pesquisa que elegemos para facilitar o levantamento de dados. Compreendemos que, muito mais que garantir o alcance dos objetivos propostos, a escolha da

metodologia nos indicaria o “modo de navegar” ou talvez “modos” seja mais

apropriado, pois percebemos também que não existe uma maneira de fazer as

coisas, mas várias possíveis combinações. No caso de nossa pesquisa, desde o

princípio, tivemos a clareza de que o “como” seria tão importante quanto “o que”

alcançaríamos com ela.

A relevância do “navegar” se relaciona ao fato de que esta pesquisa não nasce apenas de aspirações pessoais uma vez que integra um esforço maior de compreensão da realidade e construção de conhecimento trans e interdisciplinar no território do Baixo Jaguaribe. Felizmente, esse processo não foi uma construção solitária, pois a escolha da realidade pesquisada, a definição dos objetivos, a inserção no campo, enfim, as fases da pesquisa foram dialogadas tanto com os sujeitos do território onde ela se desenvolveu quanto com os parceiros e parceiras do Núcleo Tramas/UFC3 e do Grupo de Pesquisa do Movimento 21 - GPM214. Aliás, é importante ressaltar que isso explica nossa preferência pelo uso da primeira

3O Núcleo Tramas/UFC se constitui enquanto um espaço de encontro, formação e práxis de pessoas

que comungam o desejo de dedicar-se a processos históricos de emancipação humana e social a partir da Universidade tendo como foco as inter-relações entre Produção, Trabalho, Ambiente e Saúde.

4

O GPM21 é o grupo de pesquisa do Movimento 21 (M21) que é uma articulação formada,

atualmente, pela Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte, pastorais sociais, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST, a CSP-Conlutas, a Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos –

(29)

pessoa do plural ao longo do texto, deixando claro que ela não se manifesta como uma tentativa de distanciamento do “objeto”, mas como reconhecimento de que essa

construção se ergue a partir de muitos olhares, reflexões e afetos, ou seja, as vozes

aqui presentes se expressam por “nós”.

A inserção em coletivos que ampliaram nossas perspectivas nos faz perceber que nosso navegar se deu por caminhos muito mais amplos do que aquilo que podemos descrever no escopo da metodologia de uma dissertação. Como certa vez observou Bourdieu (2008), a verdade é que as pesquisas publicadas muitas vezes representam um momento privilegiado em uma longa série de trocas que não se restringem aos encontros pontuais, arbitrários e ocasionais delimitados no escopo metodológico registrado. Por isso pontuamos que a maturação das ideias, as teias de relações construídas, as conexões que estabelecemos entre a pesquisa que ora se apresenta e outras pesquisas e ações que se desenrolam no território do Baixo Jaguaribe são também parte dessa trajetória. Afinal, os momentos de aprendizagem coletiva, a participação em atividades de extensão e o envolvimento com os movimentos sociais nos inseriram num circuito que extrapolou as barreiras da Universidade e nos levou a interagir com o campo a partir de uma prática dialógica entre academia, movimentos sociais e sociedade civil.

Foi nessa perspectiva que nos lançamos ao desafio de construir uma pesquisa que tentasse promover um diálogo sincero entre o conhecimento científico e o saber popular pautado na compreensão de que a ciência é mais um modo possível de compreender a realidade e não o único, final e detentor da verdade. (DEMO, 1995). Inclusive, essa é a razão pela qual esta pesquisa não se propõe a

encontrar “verdades” factuais, pois entendemos que a realidade a qual nos

esforçamos para compreender não se apresenta como um quadro estático pronto para a observação, mas como uma tela em constante movimento que exige de nós o esforço constante de reflexão. Convicção que nos conduziu também ao pensamento de Freire (1990) ao nos alertar para a importância de não reduzir o real a um conjunto de dados materiais ou fatos que se esgotam em si mesmos, mas considerá-lo um todo que une fatos, dados e mais a percepção dos sujeitos envolvidos em sua construção. Sendo a realidade fruto dessa relação dinâmica, entendemos que não é possível reduzir os grupos sociais a objetos de pesquisa.

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um conhecimento do conhecimento anterior (o que se dá ao nível da experiência quotidiana) se torna um novo conhecimento. Se me interessa conhecer os modos de pensar e os níveis de percepção do real dos grupos populares estes grupos não podem ser meras incidências de meu estudo. (FREIRE, 1990, p. 35).

A afinidade com essa perspectiva nos conduziu a uma metodologia de investigação que integrou diferentes sujeitos em seu desenvolvimento. Acreditando na possibilidade de construir conhecimento de forma compartilhada e solidária, nosso percurso metodológico tentou trilhar o caminho proposto por Santos (2005) quando fala em ecologia de saberes como uma possibilidade de enfrentamento

crítico ao caráter colonialista que a universidade moderna por tanto tempo assumiu. Para Santos (2005) a ecologia de saberes exige uma mudança epistemológica no

interior da própria academia e atua como uma extensão ao contrário, ou seja, parte da sociedade para dentro da universidade. Desse modo, a ecologia de saberes

consiste na promoção de um diálogo verdadeiro entre os conhecimentos científicos e os conhecimentos leigos, populares, tradicionais e outros que circulam na sociedade. É fruto da compreensão de que, ao assumir o conhecimento científico como o único válido, a universidade contribuiu historicamente para a desqualificação dos conhecimentos populares e ocasionou a marginalização de diversos grupos sociais que a ela não possuiam acesso. Santos (2005) sugere que no seio da injustiça social há também uma injustiça cognitiva e para que seja possível quebrar essa barreira faz-se necessário a emergência da ecologia de saberes que pode ser

descrita como

[...] conjuntos de práticas que promovem uma nova convivência activa de saberes no pressuposto que todos eles, incluindo o saber científico, se podem enriquecer nesse diálogo. Implica uma vasta gama de acções de valorização, tanto do conhecimento científico, como de outros conhecimentos práticos, considerados úteis, cuja partilha por pesquisadores, estudantes e grupos de cidadãos serve de base à criação de comunidades epistêmicas mais amplas que convertem a universidade num espaço público de interconhecimento onde os cidadãos e os grupos sociais podem intervir sem ser exclusivamente na posição de aprendizes. (SANTOS, 2005, p. 177, 178).

Por acreditarmos nesse caminho, consideramos que nossa metodologia está integrada a um processo maior conduzido coletivamente pelas comunidades epistêmicas que integramos, portanto, não se restringe aos materiais, procedimentos e métodos desenhados para produzir os resultados desta pesquisa, embora façamos aqui o esforço de tentar delimitá-los.

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caminhar sobre o qual estamos falando, pois não foi uma criação individual minha enquanto pesquisadora. Embora minhas afinidades e interesses tenham sido considerados, a escolha da realidade a ser estudada partiu de uma demanda real das comunidades da Chapada do Apodi. Em duas oportunidades, proporcionadas pelas vivências junto ao Grupo de Pesquisa do M21, foi possível dialogar com os sujeitos locais e ouvir as demandas que estes tinham em relação às pesquisas. Nessas ocasiões, a questão da água se colocou como urgente para a população que, através de gestos, olhares e palavras, expressou seus anseios de compreender e interferir na problemática da apropriação e contaminação das águas na Chapada do Apodi. Portanto, a própria escolha do objeto de pesquisa partiu do compromisso que assumimos ao tentar responder a interpelação de Freire (1990):

[...] considero importante, nesta altura da conversa, insistir mais uma vez sobre o caráter político da atividade científica. A quem sirvo com a minha ciência? Esta deve ser uma pergunta constante a ser feita por todos nós. E devemos ser coerentes com a nossa opção, exprimindo a nossa coerência na nossa prática. (FREIRE, 1990, p.36).

Desse modo, não tememos evidenciar nossa escolha ética e política pelas populações vulnerabilizadas, ao contrário, acreditamos que elucidar o “lugar”

do qual falamos dentro do campo científico é a forma mais honesta de proceder, pois permite a nós e aos outros o exercício de reflexão sobre nossas práticas. Afinal, quanto maior nossa capacidade de autorreconhecimento maior será também nossa capacidade de autorreflexão e melhores nossas chances de construir processos idôneos. Importante pontuar que, assim como Demo (1995), acreditamos que a objetividade total é uma meta inalcançável uma vez que na realidade social existe um fundo de coincidência entre o sujeito e o objeto de modo que não é possível estudar a realidade de fora como se pudéssemos nos desfazer de nossa própria pele. Sabemos que muitas vezes o conceito de objetividade serviu para cobrir a ciência com um véu de neutralidade o que, entre outras coisas, serviu para atender a interesses velados, difundir conceitos e manter hierarquias arbitrárias.

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realizado pelo reconhecimento crítico e autocrítico e pela submissão das ideologias ao debate e à discussão. Não se trata de assumir um ponto de vista parcial e com isso produzir uma fantasia com ares de cientificidade, mas de assumir a posição da qual emana nossa fala dentro do campo científico.

1.2.2 Escolhendo caminhos

Refletindo sobre escolhas metodológicas Porto-Gonçalves (2006) faz uma interessante provocação ao questionar como uma ciência que pretende desvendar o desconhecido pode, antes mesmo de entrar em relação com a realidade a ser estudada, definir um método.

Ora, se a ciência caminha em direção ao desconhecido, qual é o caminho - o método - que leva até lá? Estranho paradoxo esse o de pretender dominar um método que nos permita desvendar o mistério da natureza das coisas antes de entrar numa relação efetiva com elas. Na verdade, como nos ensina o físico e filósofo Gaston Bachelard, nenhum método pode ser construído a não ser na relação com o objeto. Ou, como dizia Ernesto "Che" Guevara, "El camino se hace al caminhar"... Estas observações, sabemos, poderão ser classificadas de "espontaneístas" ou românticas e seremos, talvez, censurados por essa associação pouco usual de Bachelard e Guevara, quando eles se envolviam com preocupações tão diferentes. Todavia, talvez o que autoriza exatamente essa aproximação seja a abertura e a flexibilidade de espírito que esses dois homens conseguiam ter diante de questões tão sérias como a ciência e a política... Seriedade e rigor científico não devem ser, portanto, confundidos com dogmatismo. (PORTO-GONÇALVES, 2006, p.23 e 24, grifos do autor).

Na esteira dessa reflexão, concebemos o método a partir de nossa aproximação com a realidade estudada de modo que ele foi construído, de fato, ao longo do caminhar da pesquisa. Evidente que isso não quer dizer que deixamos de nos munir de referenciais antes de entrar em campo, mas que estivemos o tempo todo em alerta para as necessidades de adequação que se mostrassem necessárias. Nesse sentido, diante de um objeto complexo, nos abrimos para a possibilidade de integrar diferentes abordagens metodológicas seguindo indicações de Bourdieu (2007) ao afirmar que

[...] é preciso desconfiar das recusas sectárias que se escondem por detrás de profissões de fé demasiado exclusivas e tentar, em cada caso, mobilizar todas as técnicas que, dada a definição do objeto, possam parecer pertinentes e que, dadas as condições práticas de recolha dos dados, são praticamente utilizáveis. (BOURDIEU, 2007, p.26).

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estruturas objetivas do mundo social, pensamos que nossa metodologia deveria enveredar por caminhos que considerassem tanto os elementos objetivos quanto subjetivos.

De acordo com Bourdieu (2007) não há razão para ruptura entre objetividade e subjetividade quando nosso objeto é a realidade social, sobretudo, quando tratamos de suas representações, uma vez que as ideias, visões de mundo e representações são tributárias de suas próprias condições de produção. Essa postura implica em rejeitar reduções objetivistas que neguem a prática dos sujeitos e se limitem as relações de coerção impostas pela estrutura, mas também o subjetivismo que desconsidera a gênese social das ações individuais. Buscamos então compreender a realidade não a partir das explicações, sentimentos e reações particulares dos indivíduos, mas através da estrutura historicizada que se impõe sobre os pensamentos e as ações dos agentes (individuais e coletivos). A relação entre as estruturas objetivas e as representações é, portanto, recíproca e

permanente de maneira que “restituir ao mesmo tempo as estruturas objectivas e a

relação com essas estruturas [...] é munir-se de um meio de explicar mais

completamente a ‘realidade’.” (BOURDIEU, 2007, p.118). Tendo isso em vista, partimos para a construção de um desenho metodológico que nos permitisse usar métodos e técnicas variados para ampliar as possibilidades de investigação e interpretação da realidade pesquisada.

1.2.3 Mapa de navegação: método

Na perspectiva de compreender as estruturas objetivas em relação às quais se conformam as representações da água na Chapada do Apodi, nos esforçamos para resgatar o contexto sócio-histórico que resultou no atual modelo de gestão, apropriação e modos de uso da água no território. Através do estudo de outras pesquisas que se desenvolveram na região, do levantamento histórico dos processos de gestão da água no Brasil e no Ceará e das políticas públicas de irrigação tentamos reconstruir as condições históricas e sociais na qual são produzidas e circulam as representações. Essa é uma etapa que Thompson (2009) identifica na proposta metodológica da Hermenêutica de Profundidade (HP) como

análise sócio-histórica. Segundo Thompson (2009), as formas simbólicas não são

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estruturais específicos, por isso, a compreensão dessas estruturas nos ajudam a identificar assimetrias, disputas e divisões pulsantes no campo estudado.

De acordo com Bourdieu (2004), metodologicamente, a compreensão das estruturas é fundamental e pode ser considerado o momento objetivista da pesquisa. Isso, porém, não implica em desconsiderar a subjetividade envolvida no processo de construção da realidade, mas compreender que as estruturas objetivas que construímos no momento objetivista são o fundamento das representações subjetivas e pesam como coações estruturais. No entanto, é preciso reconhecer que ao mesmo tempo precisamos atentar para a importância de considerar as representações como conhecimento válido e como tal “devem ser retidas, sobretudo

se quisermos explicar as lutas cotidianas, individuais ou coletivas, que visam

conservar ou transformar a estrutura.” (BOURDIEU, 2004, p. 152).

Outra etapa fundamental para a metodologia proposta pela Hermenêutica de Profundidade é a interpretação da doxa. Conforme Thompson (2009), esse seria

o momento da decifração da vida cotidiana com o objetivo de nela identificar o modo pelo qual os sujeitos compreendem a realidade, ou seja, é o momento etnográfico da pesquisa. Para Bourdieu (2004) a doxa opera como uma espécie de senso comum e

contempla tudo aquilo que é admitido como “sendo assim mesmo”, ou seja, nela

operam os sistemas de classificação do mundo social, por isso sua compreensão é fundamental para que tenhamos acesso às representações.

Seguindo a proposta da HP, realizamos também o trabalho de análise

formal ou discursiva que busca compreender as formas simbólicas em relação ao

contexto sócio-histórico utilizando análises formais como a análise do discurso. Finalmente, empreendemos o que Thompson (2009) chama de reinterpretação um

processo que parte da compreensão de que as formas simbólicas, entre elas as representações, fazem parte de um campo já pré-interpretado pelos próprios sujeitos que constituem o mundo sócio-histórico, portanto, trata-se de uma explicação interpretativa do fenômeno investigado e funciona como uma síntese que integra o conteúdo das formas simbólicas à análise do contexto de sua produção.

1.2.4 Instrumentos de bordo: procedimentos

(35)

formas de compreensão e decodificação do mundo social que se transfiguram em conhecimento prático na medida em que são postas em movimento para que os sujeitos possam agir sobre a realidade, portanto, as representações são práticas e simbólicas ao mesmo tempo. Além disso, as consideramos “sociais”, pois

acreditamos que são construídas, transmitidas e assimiladas nas relações estabelecidas no âmbito do mundo social. Essa concepção nos levou a propor métodos investigativos que buscaram captar as representações dos sujeitos dentro da teia de relações em que estão envolvidos. Isso significa dizer que nosso interesse não se centrou nos sujeitos enquanto indivíduos atomizados, mas enquanto portadores de uma historicidade e possuidores de habitus incorporados a partir de

uma determinada estrutura. Portanto, tentamos compreender a teia de relações estabelecidas no campo pesquisado para que pudéssemos compreender de modo contextualizado os discursos dos sujeitos da pesquisa.

Nossa pesquisa sobre as representações da água na Chapada do Apodi se concentrou na comunidade do Tomé que tem seus limites territoriais divididos entre os municípios de Limoeiro do Norte e Quixeré e possui uma população estimada em 2.012 pessoas5. As razões que nos levaram a optar pelo Tomé, entre as várias comunidades da Chapada, residem no fato dela ter sido o primeiro núcleo populacional da porção cearense da Chapada do Apodi, por ter sido também a primeira comunidade a receber água do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi para o consumo humano e, principalmente, pelo histórico de organização comunitária em defesa da qualidade da água. Esse fato foi fundamental para que houvesse interesse dos membros da comunidade em participar do desenvolvimento da pesquisa.

Na perspectiva de envolver pessoas da própria comunidade no processo de pesquisa trabalhamos com a formação do que passamos a chamar de grupo de pesquisa ampliado. O grupo funcionou como um coletivo reflexivo que reuniu a

pesquisadora e membros da comunidade tanto para debater a temática da água quanto para balizar o próprio desenvolvimento do processo metodológico. Assim, constituímos um grupo composto por um total de 14 pessoas: 11 membros da comunidade do Tomé, a pesquisadora que ora apresenta esta dissertação, um

5 De acordo com informações que nos foram fornecidas por uma agente de saúde da comunidade.

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membro da equipe do Núcleo Tramas/UFC6 - que acompanhou e contribuiu com todo o trabalho de campo -, e um arte-educador7 que contribuiu com a facilitação dos encontros. O processo de trabalho do grupo de pesquisa será detalhado adiante.

Além dos trabalhos junto ao grupo, consideramos essencial a realização de entrevistas individuais, por isso foram realizadas 19 entrevistas em profundidade com membros da comunidade indicados pelo grupo de pesquisa, alguns membros do próprio grupo também foram entrevistados. Os procedimentos das entrevistas serão explicitados mais a frente.

Além das entrevistas e das reuniões de grupo, realizamos um trabalho de campo de base etnográfica, pois consideramos que há uma variedade de fenômenos importantes que não podem ser captados através da análise documental e muitas vezes nem pela aplicação de entrevistas, pois fazem parte do que Malinovski (1997, p. 31) classifica como “os imponderabilia da vida real”. Pensamos

que esses fenômenos são mais plenamente observáveis quando acessamos a diversidade de interações da vida cotidiana. Para isso, fizemos o uso da observação participante que, segundo Fernandes (2011) pode ser compreendida como um modo de levantamento de dados que pressupõe convívio e compartilhamento de experiências no contexto das relações sociais em que vivem os sujeitos. Nesse sentido, consideramos que a observação participante significa uma possibilidade aberta para a captura das ações e dos discursos no ato e no contexto em que ocorrem.

Para a realização do trabalho de campo, no que diz respeito à etapa propriamente etnográfica da pesquisa, tentamos seguir as orientações de Goldman (2003) para quem o trabalho de campo não deve se limitar a um mero processo de observação de comportamentos, nem a formas de conversão que visam assumir o ponto de vista do outro e nem, muito menos, um processo de transformação substancial na qual o pesquisador tenta ser/parecer um dos membros do grupo. Assim, tentamos compreender o processo etnográfico como um “devir”, tal como

proposto pelo conceito deleuziano, ou seja, como um “movimento através do qual

um sujeito sai de sua própria condição por meio de uma relação de afetos que

6 Francisco Tiago Costa de Castro Engenheiro de Pesca, mestre em Desenvolvimento e Meio

Ambiente e integrante do Núcleo Tramas/UFC.

7Fernando Antônio Fontenele Leão arte-educador, professor do Curso de Teatro do Instituto

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consegue estabelecer com uma condição outra.” (GOLDMAN, 2003, p.464). Esse processo foi desenvolvido ao longo do trabalho de campo que totalizou 06 meses, tendo início em novembro de 2012 e finalizando em abril de 2013.

Nossa perspectiva foi a de conjugar entrevistas em profundidade, observação participante e encontros do grupo de pesquisa formando uma metodologia triangular que nos permitisse caminhar em direção ao que Figueiredo (2007) propõe quando fala de um movimento de “aproximações adequadas e, em

‘zoom’, ir e vir, nos distanciarmos e nos aproximarmos na constituição dessa tessitura da teia, da trama e fios do real interpretado.” (FIGUEIREDO, 2007, p.168).

1.3.4.1 O grupo de pesquisa

O grupo de pesquisa foi formado com o objetivo de debater o tema da água junto aos membros da comunidade. Para compor o grupo, conversamos individualmente com algumas pessoas da comunidade que nos foram apresentadas ainda na fase de visitas exploratórias ao campo por membros do Núcleo Tramas/UFC que já tinham realizado pesquisas anteriores na Chapada do Apodi. As pessoas com as quais conversamos possuíam alguma relação com a associação comunitária local ou estavam integradas a espaços nos quais interagem com muitos membros da comunidade como as escolas ou grupos da igreja católica. Inicialmente explicamos a todas as pessoas a proposta de pesquisa e as convidamos para participar do grupo de modo que a adesão ocorreu de forma espontânea.

Assim, o grupo foi formado por 11 integrantes da comunidade com o seguinte perfil: Machado, 47 anos, agricultor; Joaquina, 35 anos, agricultora; Miriam, 38 anos, agricultora; Tiago, 46 anos, agricultor; Kennedy, 18 anos, estudante; Zilma, 43 anos, agricultora; Alex, 31 anos, agricultor; Mari, 20 anos, estudante; Joana, 57 anos, agricultora; Nicole, 21 anos, estudante e Eulália, 54 anos, agricultora. Observamos que os nomes aqui utilizados, tanto dos integrantes do grupo quanto das pessoas entrevistadas, são fictícios e foram escolhidos pelos próprios sujeitos como forma de proteger suas identidades.

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Encontro 01 Revelando os nós críticos em relação à água.

O primeiro encontro do grupo foi realizado no dia 16 de dezembro de 2012 e teve como finalidade: apresentar e debater a pesquisa, seus objetivos e metodologia, firmar os acordos coletivos e as datas dos encontros seguintes e fazer um primeiro levantamento sobre os nós críticos em relação à água. Esse momento foi fundamental para que nos situássemos em campo e dele emergiram as questões que nos ajudaram a nortear o processo de observação participante. Além disso, foi o momento de elencarmos juntos as pessoas que seriam convidadas para as entrevistas individuais.

Encontro 02 Um rio chamado tempo

Realizado no dia 09 de março de 2013, esse encontro teve como objetivo a construção coletiva da linha do tempo da história da água na comunidade do Tomé

a qual chamamos de “rio do tempo”. Foi o momento de trazer à tona a trajetória de ações e sentidos em relação à água para a comunidade.

Encontro 03 As mediações

O terceiro encontro aconteceu no dia 23 de março de 2013. Nos propomos a realizar um debate sobre a problemática da contaminação da água por uso de agrotóxicos na Chapada do Apodi a partir de uma reportagem produzida por um programa de televisão da TV Globo. O objetivo era gerar no grupo um debate sobre o tema a partir do discurso produzido por um meio de comunicação massivo, pois buscávamos identificar as negociações de sentido estabelecidas no ato de recepção e mediação das informações produzidas sobre a realidade vivida pela comunidade.

Encontro 04 As resistências

O último encontro ocorreu no dia 13 de abril de 2013 e teve como foco o resgate dos processos de mobilização e luta comunitária que os povos da Chapada vêm trilhando ao longo do tempo nas questões relativas à água.

1.3.4.2 As entrevistas

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livre, pois, assim como Thompson (1992), acreditamos que este é o método mais adequado quando nosso principal objetivo não é buscar informações, evidências ou fatos que falem por si mesmos, mas fazer um registro de como homens e mulheres interpretam a realidade. Nessa perspectiva, a própria maneira de falar das pessoas, as coisas que elas elegem para destacar ou ocultar, as palavras escolhidas são tão importantes que, quanto menos o depoimento dos entrevistados for “moldado pelas perguntas do entrevistador, melhor” (THOMPSON, 1992, p.528). No entanto, o autor salienta que não é possível a existência de uma entrevista completamente livre uma vez que

[...] para começar, já é preciso estabelecer um contexto social, o objetivo deve ser explicado, e pelo menos uma pergunta inicial precisa ser feita; e isso tudo, juntamente com os pressupostos não expressos, cria expectativas que moldam o que vem a seguir. (THOMPSON, 1992, p. 258).

Nesse sentido, as entrevistas foram concebidas como conversas que iniciavam sempre com a explicitação de nossa pesquisa e a escuta sobre as impressões de nossos interlocutores sobre ela. Fizemos isso tentando garantir o estabelecimento do que Bourdieu (2008b) chama de uma “comunicação não

violenta” na relação de entrevista. Para o autor, é preciso reconhecer que pode existir uma distância entre a finalidade da entrevista para o entrevistado e para o entrevistador e, para reduzir as distorções que podem derivar dessa dissimetria, é importante explicitar nossos objetivos aos entrevistados e ouvir deles as razões pelas quais se dispõem a estabelecer o diálogo conosco. Só assim, segundo Bourdieu (2008) temos condições de compreender as censuras que os impedem de falar certas coisas e as incitações que os levam a acentuar outras.

Outro fator importante que nos possibilitou o estabelecimento de uma

“comunicação não violenta” foi a forma de escolher e acessar os entrevistados.

Todos foram elencados e contatados pelos membros do grupo de pesquisa formado pelas próprias pessoas da comunidade. De acordo com Bourdieu (2008b), buscar as pessoas através de outras com as quais elas já possuem relações de confiança nos ajuda a estabelecer familiaridade reduzindo as chances de que a interação entre pesquisador e entrevistado seja permeada pela violência simbólica comum às entrevistas realizadas de modo invasivo e arbitrário.

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no interesse que o grupo achava que essas pessoas tinham pelo tema da água e/ou as posições de referência que, por alguma razão, ocupavam na comunidade. A partir disso, consideramos o critério de diversidade de idade, sexo e ocupação para selecionarmos 20 com as quais começaríamos a dialogar para agendar as entrevistas. O critério relativo à quantidade de pessoas a serem entrevistadas seguiu o que Pereira de Sá (1998) chama de critério de “saturação”, ou seja, chega-se ao número limite, não pré-determinado, quando os argumentos dos entrevistados começam a se repetir, o que indicaria que aumentar o número de entrevistas não acrescentaria substancialmente elementos novos dado que os pontos centrais do conteúdo da representação já teriam aparecido. Desse modo, estabelecemos 20 pessoas inicialmente, mas estávamos dispostas a parar antes do número referencial, caso a “saturação” ocorresse antes ou ampliar o universo, caso fosse necessário.

No entanto, acreditamos que chegamos ao ponto de “saturação” por volta da décima

quarta entrevista, mesmo assim, fomos um pouco adiante e totalizamos 19 entrevistas.

O universo de entrevistados foi composto por 11 (onze) mulheres e 08 (oito) homens com idades variando entre 20 e 80 anos. Todas as pessoas entrevistadas vivem na comunidade do Tomé sendo que 14 (quatorze) nasceram na própria comunidade, 04 (quatro) vieram de outras comunidades da Chapada do Apodi e apenas 01 (uma) veio de outra cidade. Em relação às ocupações, 12 (doze) se autodenominaram agricultores ou agricultoras, 02 (duas) como estudantes, 02 (duas) como professoras, 01 (uma) como comerciante, 01 (uma) como dona de casa e 01 (uma) como agente de saúde.

As 19 (dezenove) entrevistas foram realizadas durante o período de trabalho de campo nas seguintes datas: 23 e 24 de fevereiro de 2013; 02, 22, 24 e 25 de março de 2013 e, finalmente, 14, 21, 22 e 24 de abril de 2013.

A realização das entrevistas ocorreu dando toda a liberdade aos entrevistados de escolherem o melhor momento e local de modo que ficassem completamente à vontade. A aproximação com cada um dos entrevistados foi feita cuidadosamente sob o intermédio de nossos parceiros do grupo de pesquisa que muitas vezes nos acompanharam nos momentos de apresentação e agendamento.

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principalmente, a partir da instalação do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi. No entanto, muitas vezes não foi preciso elaborar uma pergunta propriamente dita, bastava oferecer a água como tema gerador para que as pessoas fossem desenvolvendo suas reflexões e precisássemos nos limitar a uma escuta atenta e a pequenas intervenções que os estimulassem a aprofundar algumas questões. Mais uma vez, seguimos as orientações de Bourdieu (2008) para quem a entrevista pode

ser considerada um “exercício espiritual” no sentido de provocar no entrevistado uma conversão no olhar que favoreça ao “esquecimento de si” o que implica numa

[...] disposição acolhedora que inclina a fazer seus os problemas do pesquisado, a aptidão a aceitá-lo e compreendê-lo tal como ele é, na sua necessidade singular é uma espécie de amor intelectual [...] Oferecendo-lhe uma situação de comunicação completamente excepcional, livre dos constrangimentos, principalmente temporais, que pesam sobre a maior parte das trocas cotidianas e abrindo-lhes alternativas que o incitam ou o autorizam a exprimir mal-estares, faltas ou necessidades que ele descobre exprimindo-os, o pesquisador contribui para criar condições de aparecimento de um discurso extraordinário, que poderia nunca ter tido e que, todavia, já estava lá, esperando suas condições de atualização. (BOURDIEU, 2008b, p.704).

Esse procedimento se mostrou extremamente rico, pois percebemos que algumas pessoas aproveitaram a oportunidade para expressar reflexões que muitas vezes pareciam estar reprimidas ou mesmo a chegarem a conclusões que, por vezes, pareciam ter evitado até então. Talvez por isso, Bourdieu (2008b) compare esse procedimento de entrevista com uma auto-análise provocada e dirigida.

O material oriundo das entrevistas resultou em pouco mais de 20 horas de áudio que optamos por transcrever pessoalmente. Essa escolha se deu por acreditarmos que o trabalho de transcrição é também um trabalho fundamental para a análise que nos propomos a fazer, uma vez que o processo de análise começa nele.

[...] a transcrição muito literal (a simples pontuação, o lugar de uma vírgula, por exemplo, podem comandar todo o sentido de uma frase) já é uma verdadeira tradução ou até uma interpretação. Com mais razão ainda, a que é aqui proposta: rompendo com a ilusão espontaneísta do discurso que 'fala por si mesmo', a transcrição joga deliberadamente com a pragmática da escrita (principalmente pela introdução de títulos e de subtítulos feitos de frases tomadas da entrevista) para orientar a atenção do leitor para os traços sociologicamente pertinentes que a percepção desarmada ou distraída deixaria escapar. (BOURDIEU, 2008b, p.709).

Referências

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