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MONOGRAFIA
Go~mAMEN~UWD~Am~N~O
POLÍTICA DAS ESTATÍSTICAS
1Nelson de Castro Senra
Pesquisador, IBGE Doutorando em Ciência da Informação (CNPq/IBICT-UFRJ/ECO)Palavras-Chave
Governamentalidade Racionalidade Governamental Governo dos Homens - Sociedade
População - Economia Política Liberalismo - Aritmética Política - Estatísticas
"Bref, le passage d'un art de gouvemerà une science politique, le passage d'un régime dominé par les strueturesdesouveraineté à un régime dominé par les techniquesdegouvemement se font auXVIII~ siecle autour delapopulation et, par conséquent, autourde lanaissancedeI'économie politique. "
Michel Foucault
1 Introdução
A
invenção política das estatísticas é um acontecimento relativamente recente, teve início quando muito em meados do século XVII, talvez mais apropriadamente no século XVIILIsto não significa, em absoluto,Um resumo deste texto foi publicado nos Anais do I Encontro de Pesquisa da Pós-Graduação em Ciência da Informação, realizado em 9 de agosto de 1995, promovido pelo CNPq/IBICT - UFRJ/ECO
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INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p. 88-95,jan.ljun. 1996
2 Este texto, como foi dito, está centrado na obra de Foucault, razão porque apenas as suas obras estão citadas na bibliografia. Entretanto, obras
de outros autores poderiam ter sido relacionadas.
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Trata-se de um processo que, iniciado no século XVII, ganhou culminância no século XVIII e chegou ao século XIX. Passa-se de um Estado atento ao território a um Estado atento à população, com novos objetivos, novos problemas, novas técnicas. Consti-tui-se um saber político que coloca a noção de popu-lação no centro de suas preocupações, fazendo surgir procedimentos e meios capazes de assegurar sua regulação, configurando-se assim um governo dos homens. Neste contexto, as estatísticas assumem pa-pel de destaque, acabando por se tomar o instrumento maior da nova racionalidade governamental. (FOUCAULT, M.1994a. p. 719)
Terceiro: "por governamentalidade, creio que é possível entender o processo ou, antes, o resultado do processo pelo qual o Estado de justiça da Idade Média, tomado nos séculos XV e XVI Estado administrativo, foi pouco a pouco 'governamentalizado'''. (FOUCAULT, M.l994b. p.655)
Isto posto, com base nas idéias e nos conceitos desenvolvidos por Foucault, primeiramente serão abor-dados acontecimentos ocorridos nos séculos XVII e XVIII, a partir da superação do século XVI, tratando-se do "governo do Estado", da idéia de mais e mais governo. Em seguida, serão abordados os séculos XIX e XX, sobretudo o primeiro, visualizando o estado do governo sob intensa crítica, com o liberalismo afir-mando que sempre há governo demais e fazendo emergir a idéia de sociedade. Finalmente, a partir dessa contextualização histórica, novamente
seguin-2
do Foucault, será destacada a questão das estatísticas . O objetivo deste texto é revelar o gesto que instaurou essa sensibilidade às estatísticas, vale dizer, tratar do instante em que os desejos foram constituídos, os conceitos formados, os sujeitos posicionados. Em suma, pretende-se observar como um olhar político sobre as estatísticas terá se tomado possível, enfim, como as idéias no entorno das estatísticas terão se realizado.
Segundo: "entendo a tendência, a linha de força que, em todo o Ocidente, não cessou de conduzir, desde longa data, àproeminência desse tipo de poder que se pode chamar de 'governo', sobre todos os outros: soberania, disciplina; provocando, de um lado, o desenvolvimento de toda uma série de aparelhos específicos de governo e, de outro lado, o desenvolvimento de toda uma série de saberes".
dizer que a produção das estatísticas tenha começado apenas nessa época. Longe disso, ela está presente no início da própria história da cristandade, conforme o
Evangelhosegundo São Lucas:
"Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era governador da Síria. E todos iam se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a Judéia, na cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da fanu1ia de Davi, para se inscrever com Maria, sua mulher, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deuà luz o seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala."(Lc 2, 1-7) Entretanto, só ontem, por assim dizer, a estatís-tica passou a ser vista como instrumento de uma racionalidade governamental, como tecnologia de governo, aquilo que Foucault, lançando mão de um neologismo, chamou de governamentalidade, cons-tituindo-se num saber específico e muito especial.
Antes de prosseguir, pela posição central que ocupa neste texto, convém que se discuta a idéia de governamentalidade, conceito que passou por su-cessivos ajustes nos textos finais de Foucault, em seus últimos dez anos de vida. Em algum momento, ele anunciou que escreveria uma história da governamentalidade, o que teria sido excelente mas, infelizmente, acabou por não fazê-lo. Assim, navega-se por mares desconhecidos, não raro tur-bulentos, sempre a sugerir novas reflexões, o que exige tempo, sendo então este texto mais uma aproximação, do que uma abordagem final do pro-blema. Enfim, Foucault lançou um tríplice olhar que mais tarde passaria por ajustes finos, naturalmente sem perda da essência, afirmando, sobre a idéia de governamentalidade:
Considerada como arte, nosentid~ de ser,urnaté~ni.caque se conforma acertas regras (FOUCAULT, M.1994e. p. 150 e FOUCAULT, M. 1994j. p. 816). A arte de governar estara aSSOCiada pnnclpalmente a urna razão de Estado, da qual se falará adiante.
2 O governo do estado:
on gouverne
(rop peu
Como se governar, como ser governado, como governar os outros, porque aceitar ser governado, como fazer para ser o melhor governante possível, são indagações que começam a ser feitas ao longo do século XVI. (FOUCAULT, M.1994b. p. 636) Na verdade, inquirir sobre a forma de governar e de se governar, de conduzir e de se conduzir acompanha, ao fim do feudalismo, o nascimento de novas formas de relações econômicas e sociais, além de novas estrutu-ras políticas. (FOUCAULT, M. 1994a. p. 720)
O mundo, que até então se pautava pelo Oriente, torna-se ocidental, mais exatamente europeu. O co-mércio mediterrâneo torna-se difícil, com a queda de Constantinopla. As grandes navegações portuguesas, ampliando a arte náutica, abrem novos caminhos para o Oriente. As novas rotas comerciais afetam profunda e positivamente a vida européia, com os preços das especiarias baixando fortemente. Sobremodo, desco-bre-se o continente americano, significativamente cha-mado de Novo Mundo, cuja riqueza muda a face do planeta. Nunca antes o continente europeu fora tão poderoso.
Os Estados nacionais se consolidam, os últimos resquícios do feudalismo são superados, à exceção da Alemanha e da Itália, cuja unificação nacional só se dará mais tarde. As monarquias emergentes buscam formas e formas de se tomarem poderosas perante seus vizinhos. Vive-se um movimento de concentra-ção estatal. O Estado se constitui e se quer forte, o governo é exercido sobre o território, sua soberania é considerada acima de qualquer outra coisa. Os Esta-dos vivem sob intenso relacionamento comercial, configurando-se o tempo do mercantilismo.
Maquiavel, emO Príncipe,publicado em 1513,
expressa bem a idéia de governo então dominante, sempre na forma de "conselhos ao Príncipe", vale dizer, de como manter, reforçar e proteger sua relação com o principado, que é vista aqui em termos de singularidade, exterioridade e transcendência. Daí que forças contrárias, vindas de fora ou de dentro, podem ameaçar sua autoridade, colocando a existência do Príncipe em permanente sobressalto. Portanto, é pre-ciso que ele desenvolva forte habilidade para manter seu principado, o que não quer dizer que ele possua
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uma arte de governar. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 638-639)
Ao longo dos séculos XVII e XVIII, surge uma vasta "literatura anti-Maquiavel", que questiona a idéia de governo. Percebe-se que a atuação do Príncipe sobre o Estado é apenas uma das formas de governo. Na verdade, muita gente governa: o superior de um convento, o chefe de uma farru1ia, e tantos outros. Mas todos estão dentro de um Estado. Assim, antes que singular e transcendente, como seria o Príncipe de Maquiavel, vive-se a pluralidade nas formas de gover-no e a imanência em suas práticas, com relação ao Estado. Entretanto, dentre tantas modalidades, aquilo que se pode chamar governo do Estado, em sua forma política, reveste-se de uma certa especificidade. (FOUCAULT, M. 1994b. p.640)
Nesse ~uadro, procurou-se constituir uma arte
de governar ,com o cuidado de estabelecer uma continuidade ascendente e descendente entre as dife-rentes formas de governo, como, por exemplo, aquelas apresentadas numa tipologia de época: o governo de si mesmo, o governo da farru1ia, o governo do Estado. Trata-se de saber como introduzir a economia (até então ligada à gestão correta dos indivíduos, dos bens, das riquezas no interior de uma farru1ia, por seu chefe) ao nível da gestão de um Estado. Assim, governar um Estado significará estabelecer a economia ao nível geral do Estado, isto é, ter em relação aos habitantes, às riquezas, aos comportamentos individuais e coleti-vos, uma forma de vigilância, de controle, tão atenta quanto a do pai de farru1ia. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 641 - 642)
Por essa época, diz-se, governar é dispor corre-tamente as coisas, assumindo-se o encargo de condu-zi-las a um fim conveniente. Duas novidades são introduzidas: a idéia decoisa (não mais essencialmen-te o essencialmen-território, mas um conjunto de homens e coisas) e a idéia de haver uma finalidade para a ação de gover-no. Não se trataria de impor uma lei aos homens, mas de dispor as coisas, ou seja, táticas seriam utilizadas, ao invés de leis, ou ainda, as leis seriam usadas como táticas, sempre de modo a dispor convenientemente as coisas. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 645 - 646)
A metáfora do navio, apresentada por Foucault, é bastante esclarecedora. O que é governar um navio? É certamente se ocupar dos marinheiros, mas também do navio, e ao mesmo tempo, da carga; governar um
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4 Aqui entram as estatísticas, assunto que será abordado adiante, na seção 4.
5 Conforme Foucault, a idéia de "polícia", que vem do alemão, teria tudo a ver com a noção de "administração", que tanto influenciou os Estados europeus, do final do séc. XVIII ao séc. XIX, como por exemplo, a França napoleônica (FOUCAULT, M. 1994a. p. 722).
6 Essa abundância monetária pode ser associada ao ouro de Minas Gerais, na segunda metade do séc. XVIII.
suas forças, procurando a felicidade de seus habitan-tes, através da manutenção da ordem, da disciplina, dos regulamentos. No limite, a vida é o objeto da polícia: seja o indispensável, seja o útil, seja o supér-fluo. (FOUCAULT, M. 1994a. p. 722; 1994e. p. 153; 1994j. p. 820)
Entretanto, ao longo dos séculos XVII e XVIII, a arte de governar marcou passo, limitada pelas idéias mercantilistas, ainda que o mercantilismo tenha sido a primeira racionalização do exercício do poder como prática de governo. Na verdade, esse mercantilismo procurava introduzir as possibilidades oferecidas por uma arte refletida de governar, mas o fazia no interior de uma estrutura institucional e mental da soberania que, ao mesmo tempo, a bloqueava. Seu desbloqueio só se dará a partir da emergência de fatos novos. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 648-649)
Entretanto, asoberania e adisciplinanão foram eliminadas como problemas de análise, ao contrário, tornaram-se ainda mais agudos. Deve-se compreen-der as coisas não em termos de substituição de uma sociedade de soberania por uma sociedade disciplinar, A constituição de um saber de governo é absolu-tamente indissociável da constituição de um saber sobre todos os processos referentes à população em sentido lato, daquilo que chamamos, mais precisa-mente, deeconomia política. A passagem de uma arte de governo para uma ciência política, de um regime dominado pela estrutura da soberania para um regime dominado pelas técnicas de governo, ocorre no século XVIII, em torno da população e, conseqüentemente, do nascimento da economia política. (FOUCAULT, M.1994b.p.653)
o
desbloqueio da arte de governar virá no rastro da expansão demográfica ocorrida no século6
XVIII, ligada à abundância monetária e por sua vez, ao aumento da produção agrícola. Em suma, o desbloqueio da arte de governar esteve ligado à emer-gência do problema da população. Em relação à população, a fanu1ia, como modelo de governo, passa a segundo plano, como elemento no interior da popu-lação. Na verdade, a fanu1ia, de modelo quimérico para o bom governante, vai se tornar instrumento privilegiado para o governodapopulação. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 652)
navio é igualmente levar em conta os ventos, os arrecifes, as tempestades, as intempéries.Éo relacio-namento entre tudo isto (os marinheiros, que se deve salvar, o navio, que se deve salvaguardar, e a carga, que é preciso levar em perfeito estado ao porto; além dos acontecimentos da natureza, como ventos, arreci-fes, tempestades) que caracteriza o governo de um navio. Igualmente interessante é a metáfora da casa: governar uma fanu1ia, não é essencialmente salvar suas propriedades, mas sim ter como alvo os indivídu-os que a compõem, sua riqueza, sua prindivídu-osperidade; ademais, é levar em conta os acontecimentos que podem afetá-Ia: mortes, nascimentos, alianças. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 644)
A polícia - não uma instituição ou um mecanis-mo funcionando no interior do Estado, mas um con-junto bem específico de técnicas de governo, próprias do Estado - expressa a natureza dos objetivos do Estado e a forma geral dos instrumentos que empregas. Enfim, trata de tudo aquilo que tende a afirmar e aumentar o poder do Estado, fazendo bom emprego de
o
Estado, constituído como organização políti-ca, lança mão de certos mecanismos racionais com vistas ao pleno exercício de seu poder. Mecanismos racionais, não de uma racionalidade geral, mas espe-cífica. Consciente de sua singularidade, a racionalidade do exercício do poder pelo Estado, foi formulada sob duas doutrinas: a doutrina da razão de Estado e a doutrina da polícia, com significações de caráter positivo, ao contrário do que ocorre atualmente, quan-do se lhes associa um caráter eminentemente negativo. (FOUCAULT, M. 1994b. p. 150)A razão de Estado não se reporta à sabedoria de Deus nem à razão do Príncipe, mas ao Estado mesmo, àsua natureza e racionalidade próprias. Pela primeira vez, surge um elo entre a política como prática e a política como um saber. No seio do Estado, o homem que vai dirigir os outros será um político, que deverá se apoiar em um saber político específico, distinto do saber jurídico. Assim, o governo só é possível na medida em que se conhece a força do Estado, um saber que lhe revele a potência de maneira concreta e
preci-4
7 Considere-se, por curiosidade, que a palavra"gouvemement"como ação de governar entra na língua francesa em 1190, ao passo que a palavra
"gouvememental" I "aux" , como governamental, aquilo que trata do governo - de onde claramente Foucault derivou o neologismo "gouvemementalité"-só entra na língua francesa em 180l.
8 A propósito, conviria retomar a obra de Jeremy Benthan, para quem governar seria promover a felicidade da maioria. Por conseguinte, as leis
deveriam ser expressão dos interesses da maioria, cujo perfil (inclusive ou sobretudo numérico) os legisladores deveriam se interessar por conhecer atentamente.
9 O estudo das disciplinas pode ser encontrado notadamente em "Vigiar e punir" e em "A vontade de saber" (primeiro volume da História da
Sexualidade). Por opção, talestudo não será abordado neste texto.
10 Parece-me queaíestá uma nova forma de conceituar governamentalidade, reforçando ainda mais a idéia de um duplo olhar sobre a população
e sobre o indivíduo. O conceito de poder pastoral é expresso, em boa síntese, por Foucault (FOUCAULT, M. 1994g. p. 229 - 230).
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e desta por uma sociedade de governo. Trata-se, antes, de uma triangulação: soberania - disciplina - gestão governamental, que tem na população seu alvo prin-cipal e nos dispositivos de segurança seus mecanis-mos essenciais. (FOUCAULT, M.l994b. p. 654)
Assim, passa-se de uma arte de governar, base-ada nas virtudes tradicionais e nas habilidades huma-nas, a uma outra, absolutamente racional, cujos prin-cípios e domínios são próprios do Estado. Constitui-se uma racionalidade governamental, aquilo que Foucault chamou de governamentalidade, criando
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um neologismo . Trata-se de uma nova matriz de racionalidade, segundo a qual o governante governa os homens. Em suma, o Estado deve conjugar esforços no sentido de velar por sua população, promovendo a felicidade dos homens, permitindo-lhes viver, traba-lhar, produzir, consumir, e até mesmo morrer. Portan-to, o governo se distancia do simples aplicar coercitivo
8
de um corpo de leis e torna-se positivo, permanente.
3 O estado do governo:
on gouveme
toujours trop
Em suas análises da governamentalidade, Foucault se propunha a fazer uma crítica, a seu ver necessária, às concepções correntes de poder (confu-samente pensado como um sistema unitário, organiza-do em torno de um centro). O autor passava a pensá-lo como um domínio de relações estratégicas entre indivíduos ou grupos (relações que têm por campo a conduta do outro ou dos outros). Isso implica colocar no centro da análise não o princípio geral da lei, nem o mito do poder, mas as práticas complexas e múlti-plas de uma governamentalidade. Esta supõe, de um lado, formas racionais, procedimentos e instrumentos técnicos, através dos quais ela se exerce; de outro, jogos estratégicos que tomam instáveis e reversíveis
as relações de poder que elas devem assegurar. Assim, ressalte-se que a emergência da idéia de população não significa em absoluto o abandono da
idéia de indivíduo. Na verdade, a preocupação da vida individual torna-se, desde o final do século XVIII, mais e mais um dever de Estado. As disciplinas mantêm sua atualidade e importância, ainda que
pos-sam sofrer ajustes; governar é agir no detalhe, na
minúcia; governar os indivíduos é conduzir suas
con-9
dutas, em diferentes domínios. Portanto, sob outro ângulo, Foucault acentua, em outras três oportunida-des, a idéia de governamentalidade, que pode ser vista como o encontro entre as técnicas de domina-ção exercidas sobre os outros e as técnicas de dominação de si próprio ou ainda, como governo de si mesmo pela própria pessoa na articulação das relações com o outro. (FOUCAULT, M.1994f. p. 213; 1994h. p. 582 - 583; 1994i. p. 785)
No interior do Estado moderno, vale dizer, en-contra-se uma complexa e variada combinação de
técnicas individualizadoras e de procedimentos
totalizadores, resultante da assimilação, ainda que sob nova forma política, de uma velha técnica de poder. Trata-se do poder pastoral, cuja trajetória vem do Oriente, especialmente da sociedade hebraica, entran-do no Ocidente através entran-do cristianismo. Esse poder emerge como se fosse um novo poder pastoral, com renovados objetivos, administração e atores, enfim, com um novo saber sobre o homem. Este novo saber é, ao mesmo tempo, globalizante e quantitativo no referente à população e analítico quanto ao
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indivíduo .(FOUCAULT, M.l994g: p. 230 - 231) Intensificam-se as relações de poder, joga-se com ajustamentos mais e mais controlados, cada vez mais racionais e econômicos, entre as atividades produtivas e as redes de comunicação.
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~ee:::stado que dizia de si próprio estar sempre governando muito pouco, passou-se a ver um Estado do qual se dizia estar governando em Um novo tempo tem início, aparentemente posi-tivo, mas também preocupante. A intervenção perma-nente do Estado na vida social é característica da política moderna, constituindo-se nossa problemática política. Esta discussão se processa em torno do libe-ralismo desde o século XVIII. A propósito, convém não perder de vista que as idéias econômicas e liberais estão intimamente associadas, desde suas origens. Assim, a noção de governamentalidade, posicionada por Foucault ao final do século XVIII e início do século XIX como um exercício de gestão da popula-ção, sob a égide da economia política, traz em si mesma um fortalecimento do Estado. Paradoxalmen-te, essa governamentalidade se concretiza sob um
olhar questionador quanto à existência do Estado11.
(FOUCAULT, M.1994j. p. 825 - 826)
A biopolítica, entendida desde o século XVIII
como a forma de racionalizar os problemas postosà
ação governamental pelos fenômenos próprios da população, desenvolve-se no quadro do liberalismo. Tais problemas, como saúde, higiene, natalidade, longevidade, raça, além de muitos outros, atravessam o século XIX, chegando até nossos dias. Assim, torna-se uma questão-chave a consideração do fenômeno da população, com seus efeitos e problemas específicos, num sistema preocupado com os sujeitos de direito e com a liberdade de iniciativa dos indivíduos. Em nome de que e segundo que regras poder-se-ia considerar tal fenômeno, eis a grande questão. (FOUCAULT, M.1994d. p. 818)
Entenda-se o liberalismo não como uma teoria ou ideologia (menos ainda como uma maneira da sociedade se representar), mas antes como uma práti-ca, vale dizer, princípio e método de racionalização do exercício de governo, procurando maximizar seu be-nefício, ao menor custo possível. Sobremodo, a raci-onalização liberal parte do princípio de que o governo (não a instituição propriamente dita, mas a atividade que consiste em reger a conduta dos homens num quadro e com instrumentos estatais) não teria em si mesmo sua razão de ser, não teria em si seu fim. O liberalismo, assim, rompe com a razão de Estado, em seu esforço dejustificaruma governamentalidade crescente, sempre pela via do fortalecimento do Estado.
Sob o liberalismo, por trás da permanente sus-peita de que há governo em demasia, submetendo-se organização política das sociedades - o de vigiar os
poderes excessivos (ou os abusos de poder) da racionalidade política. (FOUCAULT, M.1994e. p. 135; 1994g.p.224)
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A dobradinha riqueza-população foi, àépoca
do mercantilismo e do cameralismo, o objeto privile-giado da nova razão governamental. Do enriqueci-mento pelo comércio surge a possibilidade de aumen-tar a população, a mão-de-obra, a produção e a expor-tação, e de prover exércitos fortes e numerosos. Uma das condições de elaboração da economia política é, precisamente, o tratamento do problema população-riqueza, sob diferentes expressões (como fiscalização, escassez, despovoamento, ociosidade, mendicância, vagabundagem).
A economia política se desenvolve assim que se percebe que a gestão da relação riqueza-população não poderia mais passar exaustivamente por um siste-ma regulamentar e coercitivo, que tenderia a aumentar a população pelo incremento das riquezas. Aos fisiocratas, que se auto-denominaram economistas, a população não se apresentava como a simples soma das pessoas que habitavam um território, soma que seria o resultado de cada um ter filhos ou de uma legislação que favorecesse ou desfavorecesse os nas-cimentos. Ao contrário, seria uma variável dependen-te de diversos fatores que poderiam ser artificialmendependen-te modificados, como o sistema de impostos, a circula-ção, a repartição dos ganhos. Assim, começa a apare-cer claramente uma dimensão política frente ao problema da população.
Govemamentalidade, a invenção política das estatísticas
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sua atividade a intensa crítica, há um questionamento ainda mais forte e radical: deveria ou não haver gover-no? Disso resulta a idéia de sociedade, nova ao início do século XIX e apresentada como condição e fim último do governo. Daí pode-se desenvolver uma tecnologia particular de governo, tendo como princí-pio uma forte suspeita de ser "muito" e estar "em excesso". No liberalismo, o mercado como realidade e a economia política como teoria, desempenham importante papel. O mercado poderia ser visto como o lugar privilegiado de experiência, onde podem ser observados os efeitos dos eventuais excessos de
12
governamentalidade . (FOUCAULT, M.1994d. p. 821)
Haveria uma incompatibilidade de princípios entre o desenrolar otimizante do processo econômico e uma maximização dos procedimentos governamen-tais. Assim, o liberalismo pode ser visto como um esquema regulador da prática governamental, no qual a regulação, na forma da lei, aparece como um instru-mento eficaz, mais do que a sabedoria ou a moderação dos governantes. Por sua importância, na elaboração da lei teria que haver mecanismos de participação de toda a sociedade, razão porque, ao longo de todo o século XIX, tanto se discutiu a formação do sistema parlamentar, constituindo-se numa forma de reflexão crítica sobre a prática governamental via política.
Foucault distingue duas vias históricas de desen-volvimento do liberalismo: uma representada pela Escola de Freibourg e outra pelaEscola de Chicago, o que merece oportuno aprofundamento. A primeira significa uma economia social de mercado: organiza-da, embora não planificada ou dirigida; garantida e limitada por leis, sob um certo quadro institucional, tendo sido praticada no pós-guerra pelos alemães. Seria uma alternativa às soluções soviética, socialista e keynesiana. Ao contrário, o liberalismo de Chicago - antepondo-se ao keynesianismo do New Deal, por exemplo, mas igualmente em suas outras manifesta-ções ao longo do tempo - manifestaria uma crença irrestrita nos mecanismos de mercado. Daí sairia o neoliberalismo.
o
saber governar: o uso político das
estatísticas
Desde o século XVI, e sobretudo a partir do século XVII, a teoria da arte de governar esteve ligada a todournconjuntodeanálisesesaberes.Essencialmente,o conhecimento do Estado,em seus diferentes domínios e dimensões, nos diversos fatores de sua força ou potência, configura aquilo que se chamou de "estatís-tica", entendida comociéncia do Estado. Como visto anteriormente, seja pela via da "doutrina da razão de Estado", seja pela via da "doutrina de polícia", a arte de governarencontra os princípios de suaracionalidade naquilo que constitui a realidade específica do Estado. As estatísticas cumprem precisamente o papel de instrumentalizar essa racionalidade. (FOUCAULT, M.1994b. p. 647 - 648)
A estatística que, ao tempo do mercantilismo, havia tido um emprego limitado, restrito aos interes-ses administrativos das monarquias, que funcionavam nos moldes da soberania,acaba por se tornar um dos principais fatores técnicos do desbloqueio da arte de governar, ao ser capaz de dar forma à população. Assim, a estatística revela , pouco a pouco, que a população tem características próprias, por exem-plo, o número de mortos, de doentes, regularidade de acidentes, dentre outros. Indica, ainda, que a população, por seus deslocamentos, por suas ma-neiras de agir, por suas atividades, tem efeitos econômicos específicos. E finalmente, revela que a população, em seu todo, tem características pró-prias e que seus fenômenos são irredutíveis aos da família, por exemplo, as grandes epidemias, a mor-talidade endémica, a espiral do trabalho e da rique-za, dentre outros. (FOUCAULT, M.1994b. p. 651)
Portanto, a constituição de um saber de governo é absolutamente indissociável da constituição de um saber sobre todos os processos referentes à população, inclusive em suas relações contínuas e múltiplas com o território e a riqueza, daquilo que se chamou preci-samente de "economia política". Esta é formalizada como ciência a partir do final do século XVIII. A seu turno, a constituição da economia política, como bem atestam as obras de seus pais fundadores, muito se valeu da estatística como seu principal instrumento técnico, quantificando o momento em que a população
12 A propósito, retomando-se o pensamento de Bernard de Mandeville e de Adam Smith e recuperando o pensamento de Thomas Malthus e Alfred
Bibliografia
Na expressão de Michel Serres, "a retórica do poder perdeu suas letras para ganhar números." (SERRES, M.Hermes:uma filosofia das ciências.
Rio de Janeiro: Edições Graal, 1990. p. 135).
Um contraponto, a ser aprofundado, pode ser encontrado em Bruno Latour em La science en action, sobretudo no capítulo 6 "Les centres de
calcul", p. 515 -623, onde a pertença ao Estado parece perder sua clareza. (LATOUR, Bruno.Lascience en action.Paris: Gallimard, 1995.)
v.2, 1, p. 88-95, 1996 95 exatamente, estabelecendo sua govemamentalidade, entendida, como já visto, como uma ação sobre a população, zelando por sua felicidade, promovendo sua regulação. A população, devidamente revelada, se torna o Um e o instrumento do governoj confor-mando a governamentalização do Estado1•Assim,
as estatísticas, em seu uso político, sob a noção de govemamentalidade, trazem naturalmente a marca do
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Estado . (FOUCAULT, M.1994e. p. 160)
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_.Le sujet et le pouvoir. ln: _ .Dits et écrits: 1954 - 1988. Paris: Éditions Gallimard, 1994g. v. 4: 1980-1988,
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_.Préface à l'Histoire de la sexualité. ln:_.Dits et écrits: 1954 - 1988. Paris: Éditions Gallimard, 1994h. v.
4: 1980-1988, p.578-584.
_.Les techniques de soi. ln: _.Dits et écrits: 1954 - 1988. Paris: Éditions Gallimard, 1994i. v. 4: 1980-1988,
p.783-813.
_.La technologie politique des individus. ln: _ .Dits et écrits: 1954 - 1988. Paris: Éditions Gallimard, 1994j.
v.4: 1980-1988, p.813-828.
Abstract
Through the idea of govemmentality developed by Foucault, the author intends to demonstrate how a politicaI view about statistics was bom. From a State aware of its territory, we arrive to a State attentive to its population, which has new goals, new problems, new techniques.Under the liberalism, the idea of govemment is intensely questioned, and the idea of society emerges. On this context, the statistics become more and more outstanding, and tums to be the major instrument of the new govemmental rationality.
ganha sua objetivação. Assim, a estatística cria um plano abstrato de integração, constituindo-se num olhar com foros de ciência, próprio ao Estado.