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Palavras-chave: Sentidos. Prática Docente. Exercício Profissional.

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Academic year: 2021

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OS SENTIDOS DE PRÁTICA DOCENTE NO ENDIPE: APRENDIZAGEM DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL A PARTIR DO COTIDIANO DE TRABALHO E

DA SÍNTESE DOS SABERES

MELO, Maria Julia Carvalho (UFPE – CAA) ALMEIDA, Lucinalva Andrade Ataíde (UFPE – CAA)

Resumo

Neste trabalho tivemos o objetivo de analisar os sentidos construídos pelas publicações científicas do ENDIPE sobre prática docente nas reuniões de 2002 a 2010. Para tanto, inicialmente discutimos os sentidos de prática docente reflexiva a partir de autores como Zeichner (1993) e Duarte Neto (2010) buscando evidenciar como os autores estão tratando esta perspectiva teórica quese fez recorrente nos artigos analisados. E com o intuído de dar conta de nosso objetivo escolhemos como caminho teórico-metodológico a pesquisa qualitativa associada à análise do discurso proposta por Orlandi (2012) realizando primeiro um levantamentos dos trabalhos que continham no título, resumo ou palavras-chave alguma referência à prática docente, analisando-os posteriormente. Como resultados, identificamos que os discursos presentes nas publicações demonstraram a recorrência do enunciado cotidiano e saberes vinculados a teoria da epistemologia da prática, teoria esta que vem se fazendo uma constante no cenário educacional desde a década de 90 do século XX.Esses enunciados constroem um sentido de prática docente que diz respeito a esta ser estabelecida a partir dos cursos de formação, mas também com as situações enfrentadas em sala de aula no exercício da função, bem como o sentido de prática docente entendida como síntese dos saberes aprendidos e elaborados durante todo o percurso formativo dos professores. No entanto, embora haja a recorrência, é possível identificar também rupturas com o discurso da epistemologia da prática, emque afirma que esta teoria, apesar de suas contribuições, corrobora para a individualização do trabalho do professor.

Palavras-chave: Sentidos. Prática Docente. Exercício Profissional. Introdução

O lócus de produção de conhecimento científico analisado neste trabalho diz respeito ao Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino (ENDIPE), por ser este o evento acadêmico específico que trata das questões de pratica docente. Para tanto, inicialmente fizemos o levantamento das produções em quatro reuniões do evento (2002, 2006, 2008, 2010), no qual encontramos 10 artigos publicados no formato painel que traziam diretamente em seus títulos, resumos ou palavras-chaves a dimensão do fazer pedagógico do professor.

Assim, inscrevemos nossa análise na busca por identificar os sentidos produzidos neste lócus discursivo – ou seja em um espaço que veicula, apresenta e

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produz conhecimento científico –na intenção de compreender a forma como as pesquisas têm orientado os estudos sobre a função específica do professor que é ensinar. Dessa forma, os 10 artigos encontrados sobre prática docente foram lidos e analisados na íntegra tendo como perspectiva teórica a Análise do Discurso, evidenciando os sentidos que emergem nessas publicações sobre a prática docente que trazem a marca do já-dito, mas que também constroem outros dizeres responsáveis pela insurgência de novos sentidos.

Ressaltamos que os trabalhos estão de tal modo imersos em nossa conceituação que apenas é possível perceber sua inclusão quando visualizamos as referências das citações no corpo do texto, aonde além do nome do autor, do ano e da página, incluímos o lugar da publicação (ENDIPE). Assim, inicialmente trazemos a discussão teórica sobre prática docente reflexiva, uma vez que a recorrência dos enunciados cotidiano e

saberes se configuram enquanto elementos base da epistemologia da

prática,paraposteriormente dialogar com os artigos buscando evidenciar o sentido de prática docente produzidos.

A prática docente reflexiva: o professor como produtor de conhecimento

A teoria da reflexividade vem ganhando força nas produções acadêmicas das últimas décadas, entretanto ela encontra suas bases nas produções de John Dewey já no início do século XX. Com este autor, tem princípio o que é comumente chamado de epistemologia da prática, onde ele e nomes como Nóvoa, Perrenoud, Schön, Tardif, Zeichner “advogam que a reflexão é um importante instrumento dedesenvolvimento do pensamento e da ação e vêem na reflexão sobre a prática a estratégia que pode superar a racionalidade técnica.” (DUARTE NETO, 2010, p. 135).

Esta teoria intenciona, dessa forma, superar o tecnicismo que coloca o professor numa posição de mero aplicador de técnicas advindas de outros, retirando sua autonomia no exercício profissional. Na perspectiva da epistemologia da prática há, portanto, a possibilidade do docente construir conhecimento a partir da reflexão sobre seu fazer pedagógico, um conhecimento que não seria alheio às condições concretas do cotidiano no qual está inserido.

É neste panorama da epistemologia da prática que surge o professor reflexivo, conceito que reconhece a importância do conhecimento produzido a partir de experiência com vistas à melhoria do processo de ensino-aprendizagem, além de entender que é durante toda sua vida que o docente aprende a ser professor (ZEICHNER, 1993, p. 17).Partimos então, do pressuposto de que a reflexão sobre a

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ação não pode ser feita pelo professor isoladamente, mas deve ser uma reflexão que contemple seu fazer, o fazer da escola e dos outros professores que nela atuam, além do contexto social mais amplo, como também não esqueça dos conhecimentos universais que a humanidade já produziu.Baseados nessa perspectiva, construímos nossa análise evidenciando que os discursos produzidos pelas publicações estão balizados na epistemologia da prática.

Análise dos sentidos de prática docente inscritos no ENDIPE

Ao analisarmos os 10 trabalhos publicados no ENDIPE que tratavam da temática da prática docente reconhecemos inicialmente a recorrência do enunciado cotidiano, sendo utilizado na construção do sentido de prática docente como aprendizagem do exercício profissional. As publicações evidenciam que a partir das situações enfrentadas no seu cotidiano de trabalho os professores elaboram um repertório de saberes que o ajudam na sua função de ensinar. “Assim, em sua prática cotidiana, nos processos de socialização profissional, aprendem mediados que são pela estrutura de funcionamento da escola, as professoras aprendem os traquejos de sua profissão.” (PENNA, 2010, p. 32, ENDIPE).

Considera-se, portanto, que a aprendizagem da profissão não se faz somente nos momentos em que os professores estão em cursos de formação, mas no exercício da função o qual se constitui também como processo formativo. Nessa direção, seria necessário que a formação de professores, segundo as publicações, tivesse como referência de sua estruturação a realidade da educação básica, bem como a experiência do professor, ou seja, “Trata-se de pensar a formação docente valorizando as necessidades reais do professor, os problemas de seu cotidiano profissional [...]” (BRITO, 2006, p. 2, ENDIPE).

Dessa forma, o conhecimento que o professor constrói no seu cotidiano de trabalho seria considerado nos cursos de formação, contribuindo para a articulação entre os dois espaços. Percebemos a partir da recorrência do enunciado cotidiano, a vinculação dos trabalhos à epistemologia da prática, uma vez que o cotidiano se configura como um dos conceitos pilares dessa perspectiva.

Sendo assim, os trabalhos elaboram um sentido de prática docente que diz respeito a esta ser estabelecida a partir dos cursos de formação, mas também com a experiência profissional, com as situações enfrentadas em sala de aula no exercício da função. Tanto a formação quanto a própria atuação profissional contribuiriam para a construção e reconstrução da prática docente, sendo responsáveis pela pluralidade de

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conhecimentos sobre o magistério adquiridos pelos professores. Contudo, as publicações tratam dessa pluralidade de conhecimentos a partir do enunciado saberes, que em nossa análise se constitui como outra recorrência dos discursos produzidos: “[...] ancoramos a nossa definição de saberes docentes, ou saberes da ação docente, entendendo-os como saberes provenientes do exercício da ação reflexiva da profissão, os quais o professor manipula para enfrentar as situação advindas do seu cotidiano.” (CARVALHO; THERRIEN, 2008, p. 8, ENDIPE).

Os professores aprendem, ressignificam e constroem ao longo de sua formação e de seu trabalho cotidiano, saberes que incorporam-se no seu subjetivo e em sua identidade criando o habitus profissional. Sem embargo, a partir do enunciado saberes associado ao cotidiano, identificamos a construçãodo sentido de prática docente como resultado de conhecimentos advindos de diferentes lugares, sendo a prática/cotidiano de trabalho para onde convergem esses conhecimentos.

Desse modo, as publicações constroem o sentido de prática docente como síntese dos saberes aprendidos e elaborados durante todo o percurso formativo dos professores, entendendo ainda que esse percurso dura toda a vida profissional do docente, o que significa dizer que a formação não se encerra no curso de graduação. Conforme discutido, a recorrência dos enunciados saberes e cotidiano nos sentidos construídos no ENDIPE sobre a prática docente demonstram a presença da epistemologia da prática. Esta teoria que se tem feito uma constante no cenário educacional desde as duas últimas décadas do século XX, apresentou maior impacto a partir da década de 90.

Assim, os sentidos encontrados no ENDIPE trazem a marca da historicidade, por essa razão, “[...] não consideramos nem a linguagem como um dado nem a sociedade como um produto; elas se constituem mutuamente.” (ORLANDI, 2012, p. 21). Nos inscrevemos então, no entendimento de que o discurso produzido sobre a prática docente (bem como qualquer outro discurso) é objeto histórico-social (ORLANDI, 2012). Essa marca que pode trazer a recorrência de um discurso, também pode carregar rupturas.

Dessa forma, apesar da incorporação e utilização da epistemologia da prática pelos trabalhos analisados, também é possível identificar rupturas com seu discurso, ou seja, a história embora determine as condições de produção de um discurso, igualmente se inscreve na possibilidade do novo. Ruptura que pode ser vista no texto de Duarte Neto, Golveia, Braga e Nunes (2010) quando afirmam que:

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Em que pesem as contribuições da epistemologia da prática, em formular as críticas sobre o paradigma da racionalidade técnica, este apresenta limitações quando propugna um modelo de formação

baseado na prática reflexiva, centrada no indivíduo e

descontextualizada do contexto que a produz. (p. 8, ENDIPE).

Há, portanto, a preocupação de que a prática docente seja justificada e analisada isolada do contexto em que se produz, sendo desapropriada da teoria que lhe é inerente. A despeito da recorrência dos enunciados cotidiano e saberes que colocam como objeto central do sentido da prática docente o fazer cotidiano do professor, vemos o processo de ruptura com esse discurso.

Algumas considerações

Identificamos a emergência nas publicações do ENDIPE de um esforço científico em pensar a prática docente não mais como aplicação de um modelo aprendido durante a formação. É possível, portanto, identificar a presença de um sentido de prática docente que se constrói durante todo o período de exercício profissional e que se faz a partir da síntese entre os saberes incorporados e aprendidos durante a graduação e os saberes elaborados a partir da atuação docente. Dessa maneira, o processo formativo do professor também acontece em suas ações cotidianas, entendendo esse trabalho cotidiano como atividade teórica e prática.

Referências

BRITO, Antonia Edna. Aprender a ensinar: a prática como espaço de formação e de produção de saberes docentes. In: XIII ENDIPE. Anais. Recife, 2006.

CAVALHO, Antonia dalva França; THERRIEN, Jacques. Etnometodologia: uma opção teórico-metodológica para o estudo da epistemologia da prática docente. In: XIV

ENDIPE. Anais.Porto Alegre, 2008.

DUARTE NETO, José Henrique; GOUVEIA, Karla Reis; BRAGA, Maria Margarete Sampaio de Carvalho. A epistemologia da prátca: influências na formação de

professores. In: XV ENDIPE. Anais. Belo Horizonte, 2010.

DUARTE NETO, José Henrique. A práxis curricular nos cursos de formação de

professores da educação básica: a epistemologia da prática e a construção do

conhecimento escolar. 2010. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, UFPE, Recife, 2010.

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PENNA, Marieta Gouvêa de Oliveira. Aspectos da prática docente: cultura escolar e processos de socialização. In:XV ENDIPE. Anais.Belo Horizonte, 2010.

ZEICHNER, Kenneth M. A formação reflexiva de professores: ideias e práticas. Lisboa: Educa e autor, 1993.

Referências

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