Práticas de Assédio Moral em Empresas Portuguesas
Nuno Queiroz de Andrade
101Telmo Mourinho Baptista
102Resumo
Neste artigo são apresentados os resultados de uma investigação que visa identificar (1) os
comportamentos hostis que caracterizam as práticas de assédio moral no trabalho em empresas
portuguesas e (2) as estratégias de coping usadas pelas vítimas para lidarem com as agressões que lhes
são dirigidas. O assédio moral no trabalho define-se como o conjunto de comportamentos hostis
dirigidos, sistematicamente, contra um ou mais indivíduos causando um efeito de humilhação,
intimidação e angústia. As vítimas têm dificuldade em defender-se, o seu desempenho profissional
diminui e o seu emprego é posto em causa. Realizou-se um estudo exploratório qualitativo com
recurso à metodologia das entrevistas narrativas, tendo sido entrevistados dez sujeitos, selecionados
entre clientes de advogados especializados em direito do trabalho e de consultores da área de recursos
humanos e da formação. Os resultados obtidos revelam que estes sujeitos foram submetidos a todas as
categorias de comportamentos hostis, confirmando que se inscrevem no fenómeno que se pretendia
estudar, com o destaque de que todos foram alvo de atentados às condições de trabalho e a isolamento
e recusa de comunicação. Os atentados à dignidade foram os comportamentos hostis mais praticados,
em segundo lugar, pelos agressores. Só um sujeito foi alvo de violência verbal, com gritos e ameaças
de violência física. Os mesmos resultados indicam que as vítimas de assédio moral utilizam,
preferencialmente e de forma combinada, as estratégias de confrontação e de distanciamento, seguida
da procura de suporte social. A aceitação e a reinterpretação são as estratégias menos utilizadas e
nenhum dos sujeitos utilizou a estratégia de fuga. A nível prático, os resultados obtidos podem dar
indicações de atuação a diversos grupos profissionais quer na identificação da ocorrência de
comportamentos hostis típicos do assédio moral em meio laboral quer no apoio às vítimas e às
organizações onde ele ocorre.
Palavras-chave: assédio moral no trabalho, violência psicológica, intimidação, Comportamentos
hostis, coping, vítima.
101 Mestre e Doutorando em Psicologia, na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa ([email protected]).
102
Professor Auxiliar da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses ([email protected]).
1. Introdução
O assédio moral no trabalho é um assunto ignorado em Portugal apesar de ser conhecido no
dia-a-dia profissional de muitos trabalhadores e organizações, direta ou indiretamente. Mas não existe
sustentação empírica para a afirmação de que as práticas de assédio moral estejam generalizadas.
Porém, o desenvolvimento de ambientes de trabalho saudáveis e produtivos é vital para a
competitividade das organizações e para a realização pessoal dos seus colaboradores. A pressão
competitiva, os prazos a cumprir, os objetivos a alcançar dentro da previsão orçamental, a redução de
custos e o aumento da produtividade, a indefinição de procedimentos, as margens de lucro a garantir, a
avalanche de solicitações diárias que requer atenção de forma continuada e divergente, são um risco
permanente da ocorrência de stresse profissional e da degeneração dos ambientes de trabalho e dos
níveis de produtividade. Daí até ao conflito interpessoal não refletido e gratuito, a formas organizadas
de pressão excessiva e ilegítima ou ao cultivar de atitudes deselegantes e abusivas, a fronteira pode ser
muito ténue e facilmente ultrapassada. A prática do assédio moral no trabalho ou, apenas, de
comportamentos de hostilização ou discriminação e a prática de comportamentos afáveis e
respeitadores mas exigentes e rigorosos, são segmentos inteligíveis de uma única linha contínua.
Uma das mais fortes razões explicativas do interesse crescente que o assédio moral no trabalho
tem despertado, na sociedade e nas ciências humanas, é a consolidação de um corpo de conhecimentos
empíricos, abrangente e sistemático, sobre a sua incidência. O assédio moral no trabalho tornou-se um
tema relevante na literatura científica nos últimos vinte anos, dada a proliferação de publicações que se
encontra na consulta às bases de dados especializadas e aos catálogos das editoras. No âmbito da
divulgação pública dos resultados destas investigações, na Europa, destaca-se a obra pioneira de Heinz
Leymann (1996a), em língua alemã, à qual se reporta a generalidade dos autores que publicaram
posteriormente. Nela, o autor efetua a primeira sistematização conceptual do fenómeno, envolvendo
todas as suas dimensões, a partir da sua experiência de trabalho, no acompanhamento e recuperação
das vítimas, e das investigações que simultaneamente desenvolveu. Nos anos seguintes, tendo como
traço comum a experiência profissional de ajuda às vítimas dos seus autores, surgiram três outras
obras, duas da psicoterapeuta francesa Marie-France Hirigoyen (1998 e 2002) que estudavam,
sucessivamente, o fenómeno na vida social e no contexto de trabalho e a terceira do psicólogo
espanhol Iñaki Piñuel (2001). Estas duas últimas obras apresentam, também, a caracterização
epidemiológica do fenómeno do assédio moral nos países dos seus autores, com dados nacionais
recolhidos aplicando instrumentos desenvolvidos pelos próprios. No Reino Unido, a jornalista Andrea
Adams produziu inúmeros programas televisivos, na BBC, entrevistando vítimas, agressores,
profissionais de ajuda, consultores empresariais e políticos, ajudando a delinear medidas de prevenção
nas empresas (Rayner e Hoel, 1997) e refletindo sobre as causas culturais das práticas de assédio
moral (Beasley e Rayner, 1997). De sublinhar que estes quatro autores colaboraram com as
autoridades dos seus países na elaboração de legislação específica sobre o assédio moral no trabalho.
Quadro 1 - Definições de Assédio Moral
Autor
Definição
Leymann
(1996b, p. 168)
«O terror psicológico ou mobbing no trabalho envolve uma comunicação
hostil e contrária à ética, dirigida sistematicamente por um ou alguns
indivíduos sobretudo contra um indivíduo que é, assim, colocado numa
posição de impotência e vulnerabilidade e aí mantida pela continuação
das atividades de mobbing.»
Vartia
(1996, p. 205)
«Bullying é a ocorrência de sérias e recorrentes ações negativas e
comportamentos que irritam e oprimem, durante um tempo prolongado.
Não é bullying se gritarem uma vez consigo ou se alguém o / a ignorar.
O comportamento negativo desenvolve-se no bullying quando acontece
contínua e repetidamente. Frequentemente, a vítima de bullying sente-se
incapaz de se defender a si próprio / a.»
Einarsen
(1999, p. 17)
«Bullying pode ser definido como todas as ações e práticas
repetidamente dirigidas a um ou mais trabalhadores, não desejadas pela
vítima, que podem ser feitas deliberadamente ou inconscientemente, mas
que claramente causam humilhação, ofensa e angústia, e por isso podem
interferir com o desempenho profissional da vítima e / ou causar um
ambiente de trabalhado desagradável.»
Zapf
(1999, p. 73)
«O Mobbing no trabalho é um processo de atormentar, intimidar,
ofender, excluindo socialmente alguém ou atribuindo tarefas ofensivas a
alguém, no curso do qual a pessoa enfrentada fica numa posição
inferior.»
Hoel e Cooper
(2000, p. 5)
«Definimos bullying como uma situação onde um ou vários indivíduos
percebe estar a ser alvo de ações negativas por parte de uma ou várias
pessoas, persistentemente, durante um período de tempo, tendo
dificuldade em defender-se dessas ações. Não nos referiremos a
incidentes únicos como bullying.»
(2001, p. 431)
a um ou vários indivíduos, criando um ambiente de trabalho hostil. A
pessoa alvo tem dificuldades em se defender a si própria; não sendo,
portanto, um conflito entre partes de igual força.»
Piñuel
(2001, p. 52)
«No âmbito laboral, o mobbing é o continuado e deliberado maltrato,
verbal e comportamental, que recebe um trabalhador da parte de um
outro ou de outros, que se comportam com ele cruelmente com o
objetivo de conseguir a sua aniquilação ou destruição psicológica e obter
a sua saída da organização através de diferentes procedimentos.»
Hirigoyen
(2002, p. 15)
«O assédio moral no trabalho define-se como qualquer comportamento
abusivo (gesto, palavra, comportamento, atitude…) que atente, pela sua
repetição ou pela sua sistematização, contra a dignidade ou a integridade
psíquica ou física de uma pessoa, pondo em perigo o seu emprego ou
degradando o clima de trabalho.»
Do conjunto de definições de assédio moral citadas pela literatura científica (Quadro 1),
destacam-se três dimensões relevantes para delimitar o seu significado. A primeira diz que o assédio
moral se caracteriza pela ocorrência de comportamentos de agressão, repetidos e persistentes, de forma
continuada no tempo. Sendo um processo reiterado, o assédio moral distingue-se de episódios isolados
de conflitos ou discussões pontuais entre as pessoas, que surgem, naturalmente, no trabalho, mesmo
que sejam marcados por atos negativos. Por outro lado, estes atos negativos estão presentes no
dia-a-dia de trabalho de muitas pessoas, sem que constituam assédio moral, pois não estão marcados pela
sistematização.
Uma segunda dimensão revela que os procedimentos de assédio moral têm um caráter
intimidante, humilhante e ofensivo. Visam romper a resistência psicológica da vítima, atentando
contra a sua dignidade e desacreditando-a perante as outras pessoas, causam angústia e diminuindo o
seu desempenho profissional. Além de deteriorarem a vida sócio-emotiva e o equilíbrio psicofísico da
vítima, criam um ambiente de trabalho desagradável.
A terceira dimensão indica que, na situação de ser assediada, a vítima tem dificuldade em se
defender. Considerados isoladamente, os atos hostis de assédio parecem inócuos pois é difícil
estabelecer uma relação clara de causalidade ou intencionalidade entre a sua ocorrência e os efeitos
que a vítima experimenta. Este facto, não só retira provas à vítima, como evidencia e acentua uma
desproporção de forças entre a vítima e o seu agressor ou agressores. Ao contrário, quando há
igualdade na relação de poder e, portanto, a possibilidade objetiva de a pessoa se defender, não existe
assédio, mesmo que se possa instalar uma relação muito conflituosa entre duas pessoas. Em
consequência, a vítima fica cada vez mais isolada, chegando a abandonar o trabalho, temporária ou
definitivamente.
Tanto a literatura científica, como os diferentes autores e instituições, utilizam diversas
denominações para se referirem a este fenómeno, não existindo uma designação que reúna o consenso
e seja utilizada universalmente. Na literatura internacional, mobbing e bullying são os termos mais
usados pela generalidade dos autores para designar esta forma específica de violência psicológica no
trabalho, chegando alguns a utilizar indistintamente os dois termos (Einarsen, 2000; Einarsen e
Skogstad, 1996; Hubert e Veldhoven, 2001; Zapf, 1999). O termo mobbing é utilizado
predominantemente nos Países Escandinavos, na Alemanha, Itália, Suíça e nos Estados Unidos da
América, enquanto o termo bullying é utilizado no Reino Unido, Irlanda, Austrália e Canadá
(Einarsen, 2000; Zapf e Einarsen, 2001; Salin, 2003). Em simultâneo, mas não coincidindo com esta
distribuição geográfica, existem duas tradições na literatura que, estudando o fenómeno da exclusão
social por assédio psicológico, remetem o uso do termo bullying para nomear as atitudes hostis
ocorridas no ambiente escolar, entre os alunos, e o uso do termo mobbing para a violência psicológica
a que estão sujeitos os trabalhadores no seu trabalho, que é originada dentro da organização e é
entendida como um do stressores presente no ambiente de trabalho (Schuster, 1996). Deste modo, e
assumindo que os dois termos têm em comum o facto de designarem um fenómeno interpessoal de
estigmatização e exclusão de uma pessoa ou grupo, Leymann (1996b) distingue-os e sugere que se
reserve o termo mobbing para o comportamento de agressão dos adultos no trabalho, caracterizado por
uma grande sofisticação psicológica, e se use o termo bullying para a violência perpetrada pelas
crianças e jovens na escola, marcada por atos de agressão física.
Pese embora este amplo uso internacional do termo anglo-saxónico mobbing, ele não tem
tradução direta para as línguas latinas. Por essa razão, a psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen
(1998) – psicanalista, terapeuta familiar e especialista em vitimologia - ao estudar o tema e querer
utilizar uma denominação na sua língua de origem, criou a expressão «assédio moral». Na sua obra
sobre as formas de violência psicológica nos diferentes contextos das relações humanas (no trabalho,
na família, entre o casal), intitulada «Le harcèlement moral: La violence perverse au quotidien»
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descreve estes comportamentos como característicos de uma relação perversa - numa linguagem
analítica - em que o agressor perverso atua de forma dissimulada mas insidiosa, para encurralar e
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