Universidade do Minho
Escola de Direito
Patrícia Daniela Pedra de Matos
outubro de 2017
Dos Deveres Pré-Contratuais
no Contrato de Seguro
Patrícia Daniela Pedra de Matos
Dos De
veres Pré-Contratuais no Contrato de Seguro
Patrícia Daniela Pedra de Matos
Dos Deveres Pré-Contratuais
no Contrato de Seguro
Trabalho efetuado sob a orientação do
Professor Doutor Fernando de Gravato Morais
Dissertação de Mestrado
Mestrado em Direito dos Contratos e da Empresa
Universidade do Minho
DECLARAÇÃO
Nome: Patrícia Daniela Pedra de Matos
Endereço eletrónico: [email protected]
Título da dissertação: “Dos Deveres Pré-Contratuais no Contrato de Seguro” Orientador: Professor Doutor Fernando de Gravato Morais
Ano de conclusão: 2017
Designação do Mestrado: Mestrado em Direito dos Contratos e da Empresa
É AUTORIZADA A REPRODUÇÃO PARCIAL DESTA DISSERTAÇÃO APENAS PARA EFEITOS DE INVESTIGAÇÃO, MEDIANTE DECLARAÇÃO ESCRITA DO INTERESSADO, QUE A TAL SE COMPROMETE.
Universidade do Minho, _____/_____/_________ Assinatura:
AGRADECIMENTOS
Ao Professor Doutor Fernando de Gravato Morais, pela sua orientação e aconselhamento durante a génese da presente dissertação.
Aos meus pais, pelo amor, incentivo e acompanhamento constantes ao longo deste extenso processo evolutivo.
Ao meu irmão, pelas palavras de tranquilidade e encorajamento.
Ao meu avô e, em especial, à memória da minha querida avó, por terem sempre acreditado em mim.
RESUMO
Dos deveres pré-contratuais no contrato de seguro
O objetivo da presente dissertação prende-se com a análise e o estudo do regime jurídico relativo aos deveres pré-contratuais no âmbito do contrato de seguro, atualmente consagrado no Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro, tendo em conta a atual pertinência deste tema, uma vez que a área dos seguros se revela, hoje em dia, uma realidade indispensável em variados aspetos da vida e cuja presença tem crescido exponencialmente com a evolução do contexto socioeconómico em que vivemos.
De facto, a Lei do Contrato de Seguro veio autonomizar o regime jurídico relativo ao contrato de seguro, tendo dado importantes passos no sentido do estabelecimento do equilíbrio contratual no âmbito da fase anterior à celebração do contrato, com a finalidade de oferecer uma maior proteção da posição do tomador do seguro ou segurado enquanto parte contratual mais débil, sem negligenciar os interesses igualmente legítimos do segurador.
Com base nesse objetivo, o legislador procedeu a uma uniformização dos deveres pré-contratuais de informação, tendo introduzido exigências ao segurador através não só da consagração do dever de informação ao tomador do seguro relativamente à declaração inicial do risco e consequências jurídicas do seu incumprimento, mas também da previsão de um dever especial de esclarecimento, aspetos estes que se apresentam como inovadores no ordenamento jurídico português. Por outro lado, partindo dos problemas interpretativos e dúvidas adjacentes ao anterior regime previsto no artigo 429.º do Código Comercial, optou por adotar uma solução jurídica mais clara e pormenorizada no âmbito do dever de declaração inicial do risco, tendo autonomizado em dois artigos diferentes as consequências jurídicas relativas ao incumprimento doloso e negligente do dever pré-contratual do tomador do seguro ou segurado. Além disso, o legislador português decidiu ir ainda mais longe comparativamente ao regime jurídico anterior ao consagrar o critério do nexo de causalidade para a apreciação da invalidade do contrato do seguro.
Assim sendo, ao longo da presente dissertação são analisadas questões e apresentadas respostas a algumas problemáticas relativas ao cumprimento e à violação dos deveres pré-contratuais de informação a cargo do segurador e do tomador do seguro ou segurado consagrados na parte geral do Regime Jurídico do Contrato de Seguro (artigos 18.º a 26.º), terminando com uma breve análise desta temática sob a ótica dos ordenamentos jurídicos espanhol, francês e italiano.
ABSTRACT
Pre-contractual duties in insurance contracts
The purpose of this dissertation is to analyse and study the legal regime regarding pre-contractual
obligations under the insurance contract, currently established in Decree-Law no. 72/2008, of 16th of
April, with the alterations introduced by Law no. 147/2015, of 9th of September, taking into account the
current relevance of this topic, since the insurance area is nowadays an indispensable reality in various aspects of life and whose presence has grown exponentially with the evolution of the socio-economic context in which we live.
In fact, the Insurance Contract Regime has autonomised the legal framework for the insurance contract and has taken important steps towards establishing the contractual balance in the pre-contractual phase, in order to provide a greater protection of the policyholder or insured's position as a weaker contractual party, without neglecting the equally legitimate interests of the insurer.
Based on this objective, the legislator has standardized the pre-contractual information duties and has introduced requirements for the insurer not only with the duty to provide information to the policyholder regarding the initial risk statement and the legal consequences of non-compliance, but also with the creation of a duty of special clarification, which are presented as innovating in the Portuguese legal system. On the other hand, based on the interpretative problems and doubts adjacent to the previous regime established in Article 429 of the Portuguese Commercial Code, the legislator chose to adopt a clearer and more detailed legal solution in the scope of the initial risk statement, having autonomised in two different articles the legal consequences relating to the fraudulent and negligent violations of the pre-contractual duty of the policyholder or the insured. In addition, the Portuguese legislator decided to go even further compared to the previous legal regime by establishing the criterion of causality for assessing the invalidity of the insurance contract.
Thus, throughout this dissertation, we analyse topics and present solutions to problems related to the fulfillment and violation of the pre-contractual information duties of the insurer and the policyholder or insured established in the general part of the Legal Regime of the Insurance Contract (articles 18 to 26), ending with a brief analysis of this subject from the point of view of the Spanish, French and Italian legal systems.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO ... 1
CAPÍTULO I – DO CONTRATO DE SEGURO EM GERAL ... 3
1. DA NOÇÃO E FUNÇÕES ESSENCIAIS ... 3
2. DOS ELEMENTOS ESSENCIAIS DO CONTRATO ... 6
2.1.DOS INTERVENIENTES/SUJEITOS DO CONTRATO ... 6
2.2.DO RISCO ... 9
2.3.DO INTERESSE ... 9
2.4.DO PRÉMIO ... 11
2.5.DA APÓLICE ... 12
2.6.DAS OBRIGAÇÕES DAS PARTES ... 13
CAPÍTULO II – DA FASE PRÉ-CONTRATUAL ... 14
1. DA FASE PRÉ-CONTRATUAL NO CONTRATO DE SEGURO ... 14
2. DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS NOS CONTRATOS EM GERAL ... 17
CAPÍTULO III – DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO NO CONTRATO DE SEGURO ... 18
1. DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS NO CONTRATO DE SEGURO ... 18
2. DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO A CARGO DO SEGURADOR ... 22
2.1.DO REGIME COMUM ... 23
2.2.DA REMISSÃO DO ARTIGO 19.º DA LCS ... 28
2.2.1.DA LEI DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS GERAIS ... 28
2.2.2.DA LEI DA DEFESA DO CONSUMIDOR ... 31
2.2.3.DO REGIME DOS CONTRATOS DE SERVIÇOS FINANCEIROS CELEBRADOS À DISTÂNCIA COM CONSUMIDORES ... 32
2.2.4.DO REGIME JURÍDICO DO COMÉRCIO ELETRÓNICO ... 34
2.2.5.DA LEI DA MEDIAÇÃO DE SEGUROS ... 35
2.3.DO MODO DE PRESTAR INFORMAÇÕES ... 38
2.3.1.DOS REQUISITOS PARA A PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES ... 38
2.3.2. DO SUPORTE DAS INFORMAÇÕES A PRESTAR ... 41
2.3.3. DO CASO ESPECÍFICO DO CONTRATO DE SEGURO À DISTÂNCIA ... 42
2.3.4. DA POSSIBILIDADE DE DERROGAÇÃO DO N.º 1 DO ARTIGO 21.º DA LCS ... 43
2.3.5. DA MENÇÃO COMPROVATIVA DAS INFORMAÇÕES PRESTADAS NA PROPOSTA DE SEGURO ... 44
2.4.1. DO ESCLARECIMENTO DAS MODALIDADES DE SEGURO MAIS CONVENIENTES PARA A COBERTURA
PRETENDIDA ... 45
2.4.2. DAS FORMAS DE CUMPRIMENTO DO DEVER ... 48
2.4.3. DO DEVER DE ESCLARECIMENTO PORMENORIZADO ... 49
2.4.4. DA EXCLUSÃO DOS CONTRATOS RELATIVOS A GRANDES RISCOS E DOS CONTRATOS EM QUE INTERVENHA MEDIADOR DE SEGUROS ... 50
2.4.5. DO PROBLEMA DO ÂMBITO DE APLICAÇÃO ... 53
3. DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO A CARGO DO TOMADOR DO SEGURO OU SEGURADO ... 56
3.1.DA DECLARAÇÃO INICIAL DO RISCO ... 56
3.1.1. DAS CIRCUNSTÂNCIAS RELEVANTES PARA A APRECIAÇÃO DO RISCO ... 58
3.1.2. DO PROBLEMA DA AMPLITUDE DO DEVER ... 61
3.1.3. DA ANÁLISE DO N.º 3 DO ARTIGO 24.º DA LCS ... 65
3.1.4. DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO SEGURADOR ... 74
CAPÍTULO IV – DO INCUMPRIMENTO DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO NO CONTRATO DE SEGURO ... 78
1. DO INCUMPRIMENTO DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO A CARGO DO SEGURADOR ... 78
1.1.DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO SEGURADOR ... 78
1.2.DO DIREITO DE RESOLUÇÃO DO CONTRATO PELO TOMADOR DO SEGURO ... 80
1.3.DO ÂMBITO DE APLICAÇÃO DO ARTIGO 23.º DA LCS ... 81
2. DO INCUMPRIMENTO DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO A CARGO DO TOMADOR DO SEGURO OU SEGURADO ... 85
2.1.DAS OMISSÕES OU INEXATIDÕES DOLOSAS ... 85
2.1.1. DO DOLO DO TOMADOR DO SEGURO ... 85
2.1.2. DA ANULABILIDADE SUI GENERIS DO CONTRATO DE SEGURO ... 88
2.1.3. DA NÃO OBRIGAÇÃO DE COBERTURA DO SINISTRO ... 89
2.1.4. DO DIREITO DO SEGURADOR AO PRÉMIO DEVIDO ... 90
2.2.DAS OMISSÕES OU INEXATIDÕES NEGLIGENTES ... 92
2.2.1.DA OPÇÃO PELA ALTERAÇÃO OU CESSAÇÃO DO CONTRATO POR PARTE DO SEGURADOR ... 93
2.2.2.DA OCORRÊNCIA DE SINISTRO ANTES DA CESSAÇÃO OU MODIFICAÇÃO DO CONTRATO ... 96
2.3.DAS CONSEQUÊNCIAS DO INCUMPRIMENTO NOS ORDENAMENTOS JURÍDICOS ESPANHOL, FRANCÊS E ITALIANO ... 99
2.3.1.DO ORDENAMENTO JURÍDICO ESPANHOL ... 99
2.3.2.DO ORDENAMENTO JURÍDICO FRANCÊS ... 101
CONCLUSÃO ... 105 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 109
ABREVIATURAS ASF Cfr. CMVM Coord. LCCG LCS LDC n.º n.ºs Ob. cit. p./pp. Proc. RCSFCD RGAS
- Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões
- Confrontar
- Comissão do Mercado de Valores Mobiliários - Coordenação
- Lei das Cláusulas Contratuais Gerais (Decreto-Lei n.º 446/85, de 25 de outubro, com as alterações mais recentes introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 323/2001, de 17 de dezembro) - Lei do Contrato de Seguro (Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril, com as alterações mais recentes introduzidas pela Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro)
- Lei de Defesa do Consumidor (Lei n.º 24/96, de 31 de julho, com as alterações mais recentes introduzidas pela Lei n.º 47/2014, de 28 de julho) - Número - Números - Obra citada - Página/páginas - Processo
- Regime dos Contratos de Serviços Financeiros Celebrados à Distância com Consumidores (Decreto-Lei n.º 95/2006, de 29 de maio, com as alterações mais recentes introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 242/2012, de 7 de novembro) - Antigo Regime Jurídico de Acesso e Exercício da Atividade Seguradora e Resseguradora
(Decreto- RJASR RJCE RJCS RJMS RTAS ss. Vol.
Lei n.º 94-B/98, de 17 de abril, com as sucessivas alterações)
- Novo Regime Jurídico de Acesso e Exercício da Atividade Seguradora e Resseguradora (Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro)
- Regime Jurídico do Comércio Eletrónico (Decreto-Lei n.º 7/2004, de 7 de janeiro, com as alterações mais recentes introduzidas pela Lei n.º 46/2012, de 29 de agosto)
- Regime Jurídico do Contrato de Seguro
- Regime Jurídico de Acesso e de Exercício da Atividade de Mediação de Seguros e de Resseguros (Decreto-Lei n.º 144/2006, de 31 de julho, com as sucessivas alterações, sendo as mais recentes as introduzidas pela Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro)
- Regime de Transparência para a Atividade Seguradora (Decreto-Lei 176/95, de 26 de julho (alterado pelos Decretos-Leis n.º 60/2004, de 22 de março, e nº 357-A/2007, de 31 de outubro, e revogado pelo Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril)
- Seguintes - Volume
INTRODUÇÃO
O Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril, também conhecido por Lei do Contrato de Seguro, veio introduzir algumas novidades no âmbito do regime jurídico do contrato de seguro.
Impunha-se, desde o regime anterior, regulado no Código Comercial, uma maior proteção do tomador do seguro ou segurado, uma vez que este revestia, como ainda reveste, a posição de parte contratual mais débil.
Com efeito, para além da autonomização do regime jurídico do contrato de seguro operada pelo referido Decreto-Lei, foram tidas em conta pelo legislador várias problemáticas suscitadas pela doutrina e pela jurisprudência em torno do regime relativo aos deveres pré-contratuais a cargo do segurador e do tomador do seguro ou segurado, às quais tentou conceder uma solução mais clara e pormenorizada, reduzindo, deste modo, espaços para dúvidas criadas à luz do regime anterior.
De facto, o contrato de seguro reveste particularidades que o distinguem dos contratos em geral: além de conter cláusulas contratuais gerais, destinadas a serem aceites pelo tomador do seguro ou segurado sem a sua prévia negociação, pelo que este se limita à sua adesão, são celebrados com o segurador, parte com poder negocial mais forte, uma vez que é um profissional especializado na área em que contrata, com profundos conhecimentos técnicos a nível da regulação e do funcionamento do mercado de seguros.
Todavia, o segurador necessita de ter acesso a determinadas informações relevantes para a apreciação do risco que irá cobrir através da celebração do contrato de seguro, informações estas que estarão no poder do tomador do seguro ou segurado, já que respeitam a questões que este conhecerá melhor que o segurador.
Ora, ambas as partes necessitam de ser protegidas, embora com contornos distintos. Contrapondo tanto os interesses do tomador do seguro ou segurado como os do segurador, o legislador decidiu consagrar os deveres pré-contratuais de informação a cargo do segurador e do tomador do seguro ou segurado nos artigos 18.º a 23.º e 24.º a 26.º da Lei do Contrato de Seguro, respetivamente, numa tentativa de equilibrar ambas as posições contratuais com base em todas as especificidades que enformam o contrato de seguro.
Neste sentido, foram introduzidas várias novidades no âmbito dos deveres pré-contratuais de informação, nomeadamente através da consagração do dever especial de esclarecimento por parte do segurador, do dever de o segurador elucidar a contraparte acerca do cumprimento do seu dever de
declaração inicial do risco e das consequências da sua violação, da previsão da possibilidade de o segurador incorrer em responsabilidade civil em caso de incumprimento deste último dever, da consagração, em dois artigos distintos e separados, das consequências jurídicas do incumprimento doloso e negligente do dever de declaração inicial do risco por parte do tomador do seguro ou segurado, e da exigência de nexo causal entre a violação negligente do dever deste último e a verificação do dano. Posto isto, a presente dissertação tem por objeto estes deveres que, como o nome indica, existem na fase de formação do contrato, uma vez que, apesar de as partes não se encontrarem vinculadas por não existir ainda um contrato concluído, dita o princípio da boa fé que esta fase se encontre já pautada por deveres a cargo de ambas as partes de modo a que o contrato seja concluído de forma válida e equilibrada.
Daremos início ao presente estudo com uma breve análise da noção e funções do contrato de seguro e dos seus elementos essenciais, sendo este um ponto fundamental para a compreensão do tema a ser tratado, devido aos termos técnicos inerentes ao contrato de seguro que serão recorrentes durante toda a dissertação. De seguida, procederemos ao estudo da fase pré-contratual propriamente dita, fazendo referência ao iter negocial do contrato de seguro e aos deveres pré-contratuais existentes durante a fase de formação dos contratos em geral, que, na nossa opinião, são aplicáveis também aos contratos de seguro, com a exceção dos deveres pré-contratuais de informação por estarem especialmente regulados na Lei do Contrato de Seguro.
Após esta introdução ao tema, passaremos à investigação das problemáticas dos deveres pré-contratuais de informação no contrato de seguro a cargo do segurador e do tomador do seguro ou segurado – uma vez que são estes deveres os que revestem maior importância na fase pré-contratual do contrato de seguro –, incidindo sobre o seu cumprimento para, no final, terminar com o estudo das consequências da sua violação, fazendo ainda um breve exame desta temática sob a ótica dos ordenamentos jurídicos espanhol, francês e italiano.
Através da presente dissertação, pretendemos descobrir se as intenções do legislador relativamente à ponderação equilibrada dos legítimos interesses de ambas as partes, à maior proteção do tomador do seguro ou segurado e à diminuição das dúvidas que emergiam do regime jurídico anterior se revelam bem-sucedidas ou, pelo contrário, se foram criados ainda mais desequilíbrios e incertezas e divergências no que respeita à interpretação e aplicação dos preceitos normativos aqui em questão.
Existindo ainda dúvidas relativamente aos preceitos aqui em causa, tentaremos oportunamente dar resposta aos problemas que surjam ao longo do nosso estudo, tendo sempre em conta a ratio legis dos artigos 18.º a 26.º da Lei do Contrato de Seguro, o equilíbrio das posições contratuais e a justiça.
CAPÍTULOI–DOCONTRATODESEGUROEMGERAL
1. DA NOÇÃO E FUNÇÕES ESSENCIAIS
A Lei do Contrato de Seguro, aprovada pelo Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril,
doravante LCS1, indica, no seu artigo 1.º, que “por efeito do contrato de seguro, o segurador cobre
um risco determinado do tomador do seguro ou de outrem, obrigando-se a realizar a prestação convencionada em caso de ocorrência do evento aleatório previsto no contrato, e o tomador do seguro obriga-se a pagar o prémio correspondente”.
O preceito em causa, de epígrafe “conteúdo típico”, apresenta-se como uma novidade no regime jurídico português do contrato de seguro. De facto, o legislador optou por não acolher uma definição expressa de contrato de seguro, tendo antes indicado as obrigações principais das partes intervenientes no contrato e as caraterísticas dele resultantes, encontrando assim inspiração no §
1 do projeto de nova lei do contrato de seguro alemão, projeto este convertido em lei, em 2008.2
Ora, tal como refere a LCS no seu preâmbulo, mais precisamente no seu ponto V, “o novo regime agora estabelecido tem em vista a sua aplicação primordial ao típico contrato de seguro, evitando intencionalmente uma definição de contrato de seguro. Optou-se por identificar os deveres típicos do contrato de seguro, assumindo que os casos de qualificação duvidosa devem ser decididos pelos tribunais em vista da maior ou menor proximidade com esses deveres típicos e da adequação material das soluções legais ao tipo contratual adotado pelas partes”.
Assim, o tomador do seguro estará adstrito ao pagamento de um prémio ao segurador, cabendo a este a liquidação do sinistro, caso este venha a ocorrer durante a vigência do contrato de seguro. Daqui podemos retirar que o instituto jurídico do seguro consubstancia uma forma de
1 Com as alterações mais recentes introduzidas pela Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro.
2 Neste sentido, ver anotação de PEDRO ROMANO MARTINEZ, in PEDRO ROMANO MARTINEZ,LEONOR CUNHA TORRES,ARNALDO DA COSTA OLIVEIRA,MARIA
EDUARDA RIBEIRO,JOSÉ PEREIRA MORGADO,JOSÉ VASQUES e JOSÉ ALVES DE BRITO, Lei do Contrato de Seguro – Anotada, 3.ª ed., Almedina, Coimbra, 2016, p. 37, que faz referência ao já mencionado Referentenentwurf do Ministério da Justiça alemão, entretanto convertido em lei,
proteção dos sujeitos de variados riscos presentes em vários aspetos da vida humana cuja
ocorrência provoca consequências com relevo económico.3
Por sua vez, o legislador espanhol estabeleceu no artigo 1.º da Ley 50/1980, de 8 de
outubro, relativa ao Contrato de Seguro4, que “el contrato de seguro es aquel por el que el
asegurador se obliga, mediante el cobro de una prima y para el caso de que se produzca el evento cuyo riesgo es objeto de cobertura a indemnizar, dentro de los límites pactados, el daño producido al asegurado o a satisfacer un capital, una renta u otras prestaciones convenidas”, pelo que, mais uma vez, através do contrato de seguro, o tomador fica adstrito ao pagamento de um prémio e a empresa seguradora obrigada a ressarcir um dano ou a pagar uma quantia em dinheiro se se verificar o evento previsto no contrato.
Esta opção foi também tomada em Itália que, no seu Codice Civile5, adotou, no artigo
1882.º, a Nozione de contrato de seguro, referindo novamente os deveres típicos decorrentes do contrato e a correspondência entre a obrigação da entidade seguradora e o pagamento do prémio
por parte do tomador do seguro.6
Resumindo, apesar de as leis mais recentes nesta área não fornecerem uma noção expressa de contrato de seguro, é possível alcança-la partindo da descrição realizada pela lei dos elementos que o compõem, encontrando-se tal tarefa nas mãos do intérprete.
Tanto na doutrina como na jurisprudência dos sistemas jurídicos anglo-americanos a tendência recai sobre a descrição deste contrato, enquanto que os sistemas jurídicos romano-germânicos apresentam, por sua vez, uma maior preferência pela adoção de definições de caráter
puramente concetual do contrato de seguro7, propensão esta que, como já concluímos, não foi
seguida pelo legislador português na LCS de 2008.
O atual Código Comercial reveste a natureza de lei subsidiária geral, nos termos do artigo 2.º deste diploma e do artigo 4.º da LCS, que para aquele remete, estabelecendo este último
3 No mesmo sentido, RITA GONÇALVES FERREIRA DA SILVA, Do Contrato de Seguro de Responsabilidade Civil Geral – Seu Enquadramento e Aspetos
Jurídicos Essenciais, Coimbra Editora, Coimbra, 2007, p. 65.
4 Com as mais recentes alterações introduzidas pela Ley 20/2015, de 14 de julho. O diploma referido encontra-se disponível em
http://noticias.juridicas.com/base_datos/Privado/l50-1980.t1.html#a10.
5 Diploma disponível em http://www.altalex.com/documents/news/2014/10/02/dell-assicurazione.
6 Nos termos do artigo 1882.º do Código Civil italiano, “l'assicurazione è il contratto col quale l'assicuratore, verso pagamento di un premio, si
obbliga a rivalere l'assicurato, entro i limiti convenuti, del danno ad esso prodotto da un sinistro, ovvero a pagare un capitale o una rendita al verificarsi di un evento attinente alla vita umana.”
7 Para maiores desenvolvimentos relativamente a esta diferença no tratamento da problemática da delimitação do conceito de contrato de seguro
nos diferentes sistemas jurídicos e suas consequências, ver MARGARIDA LIMA REGO, Contrato de Seguro e Terceiros – Estudo de Direito Civil, Coimbra Editora, Coimbra, 2010, pp. 31-40.
preceito normativo que “às questões sobre contratos de seguro não reguladas no presente regime nem em diplomas especiais aplicam-se, subsidiariamente, as correspondentes disposições da lei comercial e da lei civil, sem prejuízo do disposto no regime jurídico de acesso e exercício da atividade seguradora”.
Ora, JOSÉ ENGRÁCIA ANTUNES sublinha que, atualmente, os contratos de seguro são ainda
contratos comerciais, no sentido de “contratos de empresa”, uma vez que um pressuposto obrigatório para a validade destes contratos, sob pena de nulidade à luz do artigo 16.º da LCS,
consiste na necessidade de a entidade seguradora ser uma “empresa”8, nos termos dos artigos
2.º, n.º 1, 3.º e 5.º do Regime Jurídico de Acesso e Exercício da Atividade Seguradora e
Resseguradora, doravante RJASR.9
JOSÉ VASQUES sugere que o contrato de seguro seja definido enquanto “contrato pelo qual
a seguradora, mediante a retribuição pelo tomador de seguro, se obriga, a favor do segurado ou de terceiro, à indemnização de prejuízos resultantes, ou ao pagamento de valor pré-definido, no
caso de se realizar um determinado evento futuro e incerto”.10
Por sua vez, a jurisprudência tem seguido a noção de contrato de seguro enquanto “convenção pela qual uma seguradora se obriga, mediante retribuição paga pelo segurado, a assumir determinado risco e, caso ele ocorra, a satisfazer ao segurado ou a um terceiro uma
indemnização pelo prejuízo ou um montante previamente estipulado”.11
O seguro realiza duas grandes funções principais: a função social, também designada por garantia, e a função económica.
A primeira função traduz-se na realização da prestação por parte da entidade seguradora caso ocorra o evento determinado no contrato, estando tal prestação relacionada com o dever de
indemnização dos danos sofridos pela pessoa lesada.12
A segunda função – económica – está relacionada com a facilitação da exposição a riscos por parte dos tomadores do seguro, segurados ou beneficiários, promovendo-se, assim, a
8 Cfr. JOSÉ A.ENGRÁCIA ANTUNES, “O Contrato de Seguro na LCS de 2008”, Revista da Ordem dos Advogados, ano 69, 2009, p. 819.
9 Este regime jurídico encontra-se previsto na Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro, que aprovou o regime jurídico de acesso e exercício da atividade
seguradora e resseguradora, tendo ainda realizado a primeira alteração ao regime jurídico do contrato de seguro, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril.
10 Neste sentido, JOSÉ VASQUES, Contrato de Seguro – Notas para uma Teoria Geral, Coimbra Editora, Coimbra, 1999, p. 94.
11 Ver acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 08.03.2012, Proc. n.º 1808/07.1TBBRR.L1-8 (Relator: AMÉLIA AMEIXOEIRA), disponível em
www.dgsi.pt.
inovação, encontrando-se a área dos seguros numa posição fundamental na economia e na
redução de riscos relevantes, principalmente a nível empresarial.13 Portanto, para além de o seguro
revestir uma importância considerável em variadas vertentes da atividade económica do quotidiano, também as entidades seguradoras são consideradas investidoras institucionais muito importantes, tendo em conta a constituição de grandes volumes de provisões a que estão adstritas. Uma vez terminada a discussão em torno do conceito e das funções principais do contrato de seguro, partir-se-á agora para uma breve análise dos elementos essenciais que o compõem.
2. DOS ELEMENTOS ESSENCIAIS DO CONTRATO
Os elementos essenciais do contrato de seguro têm obrigatoriamente de estar presentes neste tipo de contrato, sob pena de invalidade.
Assim, estão incluídos nestes elementos essenciais os intervenientes ou sujeitos do contrato, o objeto do contrato, constituído pelo risco e pelo interesse, e, finalmente, as obrigações assumidas pelas partes.
Dentro deste ponto realizaremos uma análise relativamente breve de cada um destes elementos, que servirá de introdução à matéria do contrato de seguro antes de nos debruçarmos sobre o tema propriamente dito da presente dissertação, que se enquadra na fase da formação do contrato.
2.1. DOS INTERVENIENTES/SUJEITOS DO CONTRATO
Existem dois sujeitos principais intervenientes no contrato de seguro, sendo, assim, partes contratuais: o tomador do seguro e o segurador, que celebram o contrato.
O tomador do seguro é o sujeito que celebra o contrato de seguro com o segurador, ficando assim adstrito ao pagamento do prémio. Este sujeito poderá ser, em princípio, qualquer
13 Neste sentido, JOSÉ CARLOS MOITINHO DE ALMEIDA, “O Contrato de Seguro”, Cadernos de Direito Privado, n.º 51, 2015, p. 26, e RITA GONÇALVES
pessoa, singular ou coletiva, pública ou privada, podendo ainda celebrar o contrato de forma direta ou através de um representante, nos termos do artigo 17.º da LCS. Por outro lado, poderá ainda consistir numa parte singular ou numa pluralidade de pessoas, estando neste último caso em
causa um seguro de grupo, tutelado pelos artigos 76.º e seguintes da LCS.14
Por sua vez, o segurador é a parte contratual que cobre um determinado risco, pelo que terá de efetuar a prestação devida, nos termos do contrato, caso ocorra o sinistro. É importante referir que, nos termos dos artigos 28.º e seguintes da LCS, poderão existir os mediadores de seguros que, não sendo partes contratuais nem terceiros, participam na preparação, negociação
e execução do contrato.15
Para além das partes intervenientes no contrato, que o celebram e assumem os deveres que dele decorrem, existem terceiros que com o contrato de seguro se relacionam: o segurado, a pessoa segura e o terceiro beneficiário.
O segurado é o titular do interesse que se encontra seguro, estando, portanto, exposto ao risco. Assim, o contrato é celebrado pelo tomador do seguro no interesse do segurado, que com esse contrato vê o risco coberto pelo seguro, pelo que o segurado poderá ser o próprio tomador do seguro (o que acontece, por exemplo, no seguro por conta própria, nos termos do artigo 47.º da LCS), mas também poderá ser um terceiro determinado ou determinável (algo que ocorre no
âmbito do seguro por conta de outrem, à luz do artigo 48.º da LCS).1617
A figura da pessoa segura surge nos contratos de seguros de pessoas18, sendo assim “a
pessoa singular cuja vida, saúde ou integridade física representa o objeto material do seguro
realizado”, pelo que poderá ou não coincidir com o segurado.1920
14 Neste sentido, JOSÉ A.ENGRÁCIA ANTUNES, “O Contrato de Seguro...”, ob. cit., p. 828, que explica ainda, na nota de rodapé n.º 33, que os seguros
de grupo permitem “a cobertura dos riscos de um conjunto ou pluralidade orgânica de segurados (v.g., trabalhadores de uma empresa, membros de uma associação, etc.). Embora não se possa falar aqui de uma verdadeira parte plural, estes seguros contradistinguem-se por serem celebrados por um tomador por conta de uma pluralidade de terceiros segurados (...) ou, como é mais frequente, por se limitar a enquadrar a celebração futura de uma pluralidade de contratos de seguro individuais pelos próprios tomadores-segurados”.
15 Para maiores desenvolvimentos relativamente aos mediadores de seguros, ver JOSÉ CARLOS MOITINHO DE ALMEIDA, Contrato de Seguro – Estudos,
Coimbra Editora, Coimbra, 2009, pp. 154-189.
16 Cfr. JOSÉ VASQUES, Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 171-172, e JOSÉ A.ENGRÁCIA ANTUNES, “O Contrato de Seguro...”, ob. cit., p. 829. 17 Para maiores desenvolvimentos quanto aos sujeitos da relação de seguro, MARGARIDA LIMA REGO, Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 41-61. 18 Como decorre do artigo 175.º da LCS, os seguros de pessoas têm por objetivo cobrir riscos relativos à vida, saúde e integridade física de uma
pessoa ou de um grupo de pessoas, enquanto que os contratos de seguro de danos têm como finalidade cobrir riscos relacionados com bens materiais ou imateriais, créditos e outros direitos patrimoniais, à luz do artigo 123.º da LCS.
19 Neste sentido, JOSÉ A.ENGRÁCIA ANTUNES, “O Contrato de Seguro...”, ob. cit., p. 829.
20 Quanto a este aspeto, ver acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 03.05.2011, Proc. n.º 1922/07.3TBPMS.C1 (Relator: MOREIRA DO
O beneficiário, ou terceiro beneficiário, é “a pessoa, singular ou coletiva, a favor de quem
reverte a prestação da seguradora decorrente do contrato de seguro (...)”.21 Assim, não sendo
parte no contrato de seguro, o beneficiário é, contudo, titular “de uma qualquer situação jurídica ativa nele estipulada”, pelo que terá o direito a exigir do segurador a sua prestação em caso de
liquidação do sinistro.22
PEDRO ROMANO MARTINEZ sublinha que a LCS adotou um termo neutro, “outrem”, em vez
de utilizar a expressão “segurado” ou “terceiro”, com base na dificuldade de distinção entre pessoa segura e segurado, pelo que assim é possível a abrangência dos seguros de danos e de pessoas. Ora, o risco coberto é o do tomador ou de outrem. No entanto, “ainda que se tenha optado por este termo amplo (outrem), importa distinguir aqueles que podem ter direito a uma pretensão direta contra o segurador (ex. pessoa segura) daqueloutros que só indiretamente poderão beneficiar da prestação (ex. certos beneficiários); ou seja, há que distinguir se foi ou não
atribuída ação direta contra o segurador”.23
Uma questão discutida na doutrina prende-se com saber se um dos elementos essenciais do contrato se relaciona com a organização da entidade seguradora como uma empresa de seguros. Nos termos do n.º 1 do artigo 16.º da LCS, “o segurador deve estar legalmente autorizado a exercer a atividade seguradora em Portugal, no âmbito do ramo em que atua, nos termos do regime jurídico de acesso e exercício da atividade seguradora”, sob pena de nulidade do contrato, tal como estipula o n.º 2 desta norma.
Deste preceito se pode retirar que o segurador deve ser um profissional ou uma empresa, ou seja, uma entidade tecnicamente organizada.
Por outro lado, o RJASR24, no seu artigo 5.º, n.º 1, alínea a), explicita o que se entende por
“empresa de seguros”, esclarecendo que será “qualquer empresa que tenha recebido uma autorização administrativa para o exercício da atividade seguradora”.
que estipulava que estariam excluídos do contrato os riscos decorrentes de ato criminoso do segurado ou do beneficiário de que resultasse a morte da pessoa segura.
21 Cfr. JOSÉ VASQUES, Contrato de Seguro..., ob. cit., p. 98.
22 No mesmo sentido, MARGARIDA LIMA REGO, Contrato de Seguro..., ob. cit., p. 53.
23 Neste sentido, anotação de PEDRO ROMANO MARTINEZ, Lei do Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 38-39.
24 Aprovado pela Lei n.º 147/2015, de 9 de setembro. O anterior regime jurídico encontrava-se regulado pelo RGAS (Decreto-Lei n.º 94-B/98, de
2.2. DO RISCO
O risco reporta-se a um evento futuro e incerto que, concretizando-se, se traduz no sinistro. Por outras palavras, o sinistro consiste na ocorrência, total ou parcial, desse evento, que levará ao acionamento da cobertura do risco prevista no contrato, tal como afirma o artigo 99.º da LCS.
Assim, o risco está relacionado com o perigo de ocorrência de uma situação negativa, mais propriamente de um evento considerado danoso. Poder-se-á com isto concluir que o risco terá de reportar, como dissemos, a factos futuros.
Ora, o risco é um elemento essencial do contrato de seguro, uma vez que a consequência jurídica da sua inexistência será a nulidade do contrato, ao abrigo do n.º 1 do artigo 44.º da LCS; por outro lado, o contrato será ineficaz caso o risco futuro não chegue a existir, à luz do n.º 3 do artigo 44.º; além disso, é razão de caducidade do contrato nos casos em que o risco cesse, de acordo com o artigo 110.º; e, finalmente, poderá levar ao ajuste do contrato relativamente à contraprestação nas situações em que o risco tenha variações na sua intensidade, tal como
estipulam os artigos 92.º e 94.º.25
Nos termos do artigo 11.º da LCS, ao abrigo do princípio da autonomia privada, também denominado de liberdade contratual, as partes acordam entre si o risco e os interesses que pretendem proteger, sendo esta operação a “delimitação do risco”, delimitando-se assim o âmbito do risco alvo do seguro, ou seja, a circunstância que estará descrita no contrato e, portanto, coberta pelo seguro, e, ainda, o risco que ficará daquele excluído.
2.3. DO INTERESSE
Nos termos do artigo 43.º da LCS, “o segurado deve ter um interesse digno de proteção legal relativamente ao risco coberto, sob pena de nulidade do contrato”.
O interesse consiste na relação económica estabelecida entre um determinado sujeito e
um bem, encontrando-se esse bem sujeito ao risco26, ou seja, é a relação existente entre um sujeito
possuidor de uma necessidade e o bem de que esse sujeito necessita.
25 Neste sentido, ANA SERRA CALMEIRO, Das Cláusulas Abusivas no Contrato de Seguro, Almedina, Coimbra, 2014, p. 15. 26 No mesmo sentido, JOSÉ VASQUES, Contrato de Seguro..., ob. cit., p. 131.
O referido artigo 43.º realiza ainda a distinção entre o interesse no âmbito do seguro de danos e o interesse no seguro de vida no n.º 2 e no n.º 3, respetivamente, estabelecendo que “no seguro de danos, o interesse respeita à conservação ou à integridade de coisa, direito ou património seguros” e que “no seguro de vida, a pessoa segura que não seja beneficiária tem ainda de dar o seu consentimento para a cobertura do risco, salvo quando o contrato resulta do cumprimento de disposição legal ou de instrumento de regulamentação coletiva de trabalho”.
O interesse no seguro é um elemento essencial do contrato de seguro, à luz do artigo 12.º da LCS, que consagra a natureza absolutamente imperativa do referido artigo 43.º, e da parte final do n.º 1 deste preceito, pelo que a validade do contrato se encontra dependente da existência do interesse.
Apesar de parte da doutrina entender que o interesse se reporta à conservação de certa
coisa, direito ou pessoa, podendo tanto revestir natureza patrimonial como pessoal27, há quem
defenda que o interesse no seguro possui dupla dimensão, sendo, assim, a relação estabelecida entre um determinado sujeito e o objeto do interesse e, ainda, o valor pecuniário do interesse que
se encontra exposto ao risco. Portanto, refere MOITINHO DE ALMEIDA que este elemento apresenta
sempre caráter patrimonial, uma vez que a valorização do interesse pessoal acarretaria alguma
insegurança jurídica28 devido à sua natureza subjetiva.
De todo o modo, JOSÉ VASQUES defende que é possível definir o interesse digno de proteção
legal referido no artigo 43.º da LCS como “aquele que, ainda que pessoal ou subjetivo, e excluindo o que seja irrelevante juridicamente, mesmo que o possa ser do ponto de vista social ou moral,
justifica o recurso a meios coercitivos previstos na lei”.29
Ora, entendemos que o tomador do seguro terá interesse neste quando beneficiar com a proteção ou preservação do objeto do seguro ou quando houver a possibilidade de sofrer um dano ou desvantagem com a perda desse bem.
Os artigos 47.º e 48.º da LCS, relativos ao seguro por conta própria e ao seguro por conta de outrem, fazem ainda referência ao interesse próprio do tomador do seguro e ao interesse de
outrem, respetivamente30, conduzindo-se esta questão à titularidade do interesse. Estando em
27 Cfr. MARIA INÊS DE OLIVEIRA MARTINS, O Seguro de Vida enquanto Tipo Contratual Legal, Coimbra Editora, Coimbra, 2010, pp. 296 e 303. 28 Neste sentido, JOSÉ CARLOS MOITINHO DE ALMEIDA, “O Contrato de Seguro...”, ob. cit., p. 29.
29 Cfr. JOSÉ VASQUES, Lei do Contrato de Seguro..., ob. cit., p. 235.
30 De acordo com o artigo 47.º da LCS, no seguro por conta própria, o contrato tutela o interesse próprio do tomador do seguro, enquanto que, no
causa o seguro de vida de terceiros, o interesse relevante será o que reporta à pessoa do
beneficiário.31
2.4. DO PRÉMIO
A prestação realizada pelo tomador do seguro no âmbito do contrato de seguro é designada por prémio, sendo o prémio um elemento típico do contrato de seguro, nos termos do artigo 1.º da LCS.
De acordo com o n.º 1 do artigo 51.º da LCS, “o prémio é a contrapartida da cobertura acordada e inclui tudo o que seja contratualmente devido pelo tomador de seguro, nomeadamente os custos da cobertura do risco, os custos de aquisição, de gestão e de cobrança e os encargos relacionados com a emissão da apólice”.
Portanto, o prémio é a quantia monetária que o tomador do seguro terá de pagar enquanto contrapartida do risco assumido pela entidade seguradora, sendo uma remuneração efetivamente devida ao segurador por este se obrigar a cobrir o risco e a realizar a prestação acordada caso o sinistro ocorra.
Por outro lado, mesmo que, durante a vigência do contrato, o sinistro não se verifique, o tomador do seguro não terá direito à devolução da quantia paga a título de prémio. Assim sendo, uma vez que o sinistro pode não ocorrer, o prémio não deverá ser visto como equivalente do risco,
já que, de acordo com JOSÉ BONIFÁCIO RAMOS, “a interdependência entre as prestações não se
encontra dirigida ao valor do prémio pago inicialmente, mas, quanto muito, ao valor do tempo do
cumprimento. Todavia, nem aí há uma necessária equivalência”.32
A liquidação do prémio pode ser realizada por um terceiro, à luz do artigo 55.º da LCS, que indica que o prémio pode ser pago, de acordo com a lei ou o contrato, por terceiro, interessado ou não no cumprimento da obrigação, sem que o segurador possa recusar o recebimento.
Apesar de o n.º 1 do artigo 54.º da LCS, que possui natureza absolutamente imperativa à luz do n.º 1 do artigo 12.º, estipular que “o prémio de seguro só pode ser pago em numerário, por cheque bancário, transferência bancária ou vale postal, cartão de crédito ou de débito ou outro
31 Cfr. MARIA INÊS DE OLIVEIRA MARTINS, O Seguro de Vida..., ob. cit., p. 305.
32 No mesmo sentido, JOSÉ LUÍS BONIFÁCIO RAMOS, “O pagamento do prémio na Lei do Contrato de Seguro”, Cadernos de Direito Privado, n.º 39,
meio eletrónico de pagamento”, o n.º 6 ressalva a situação relativa aos seguros de pessoas, pelo que nestes “é lícito às partes convencionar outros meios e modalidades de pagamento do prémio, desde que respeitem as disposições legais e regulamentares em vigor”.
2.5. DA APÓLICE
Nos termos do n.º 1 do artigo 37.º da LCS, “a apólice inclui todo o conteúdo acordado pelas partes, nomeadamente as condições gerais, especiais e particulares aplicáveis”. O n.º 2
enuncia os elementos mínimos obrigatórios que devem constar da apólice.33
Portanto, do n.º 1 do referido preceito é possível retirar a noção de que a apólice é um
documento que titula o contrato celebrado entre o segurador e o tomador do seguro34, sendo
constituído pelo conjunto de condições gerais, especiais (se existirem) e particulares.
As condições gerais são as aplicáveis a todos os contratos de seguro de um determinado ramo ou modalidade, pelo que estão relacionadas com riscos homogéneos, ou seja, têm em vista
configurações comuns a riscos que apresentem caraterísticas idênticas35, enquanto que as
condições especiais servem de concretização e complemento às condições gerais, aplicando-se, de forma generalizada, a contratos de seguro do mesmo tipo ou submodalidade. Por fim, as condições particulares têm como propósito providenciar uma solução para cada caso
relativamente às circunstâncias do risco a cobrir36, pelo que têm em vista a regulação de aspetos
pessoais e especiais do contrato.
Torna-se ainda importante referir a exigência que a lei faz relativamente a determinadas cláusulas contratuais, impondo que estejas sejam “escritas em carateres destacados e de maior dimensão do que os restantes”, nos termos do n.º 3 do artigo 37.º da LCS, o que evidencia
33 O contrato de seguro encontra-se atualmente sujeito ao princípio da liberdade de forma previsto no artigo 219.º do Código Civil, pelo que a apólice
constitui um requisito ad probationem, ou seja, de eficácia probatória, e não um requisito ad substanciam (de validade). Cfr. JOSÉ A.ENGRÁCIA ANTUNES, “O Contrato de Seguro...”, ob. cit., p. 823, nota de rodapé n.º 23.
34 Tal como o n.º 1 do artigo 34.º da LCS indica, “a apólice deve ser entregue ao tomador do seguro aquando da celebração do contrato ou ser-lhe
enviada no prazo de 14 dias nos seguros de riscos de massa, salvo se houver motivo justificado, ou no prazo que seja acordado nos seguros de grandes riscos”, pelo que, de acordo com o n.º 6, “decorrido o prazo referido no n.º 1 e enquanto a apólice não for entregue, o tomador do seguro pode resolver o contrato, tendo a cessação efeito retroativo e o tomador do seguro direito à devolução da totalidade do prémio pago”.
35 Neste sentido, ANA SERRA CALMEIRO, Das Cláusulas Abusivas..., ob. cit., pp. 16-17. 36 Quanto a esta questão, JOSÉ VASQUES, Lei do Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 218-219.
claramente uma vontade por parte do legislador em proteger o tomador do seguro, considerado a parte contratual mais frágil.
Apesar de o contrato de seguro ser um contrato de adesão, é aplicável a regra da autonomia privada, pelo que as partes podem fixar o conteúdo do contrato livremente, desde que
tal não viole disposições legais imperativas.37
2.6. DAS OBRIGAÇÕES DAS PARTES
Já foram anteriormente mencionadas as obrigações do tomador do seguro ou segurado de pagamento do prémio e do segurador de liquidação do sinistro, caso este venha a ocorrer
durante a vigência do contrato de seguro, através da realização da prestação convencionada.38
37 Neste sentido, ver acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 04.12.2014, Proc. n.º 919/13.9TVLSB.L1.S1 (Relator: GRANJA DA FONSECA),
disponível em www.dgsi.pt.
38 Ora, a obrigação principal assumida pelo segurador de liquidação do sinistro através da realização da prestação convencionada caso se verifiquem,
de forma total ou parcial, os eventos incluídos no risco coberto pelo contrato deu origem, na doutrina, a três teses maioritárias que se debruçam sobre a questão da natureza da prestação realizada pelo segurador: a teoria da gestão de negócios, a teoria da suportação do risco e a teoria de uma prestação em dinheiro. Para um maior desenvolvimento quanto às diferentes teses referidas, ver JOSÉ CARLOS MOITINHO DE ALMEIDA, “O Contrato de Seguro...”, ob. cit., pp. 32-35, MARGARIDA LIMA REGO, Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 321-344, e JOSÉ CARLOS MOITINHO DE ALMEIDA, O Contrato
CAPÍTULOII–DAFASEPRÉ-CONTRATUAL
O contrato de seguro apresenta especificidades relativamente à sua formação que o distinguem, nesse âmbito, dos outros contratos em geral.
Focaremos então, daqui em diante, o nosso estudo na fase prévia à celebração do contrato, ou seja, na fase commumente designada por pré-contratual, uma vez que é esta que reveste especial importância para o tema em questão, pois é aqui que o potencial tomador do seguro forma a sua vontade relativamente à celebração do contrato de seguro e é também nesta fase que surgem os deveres pré-contratuais, sendo os mais relevantes para a presente dissertação os de informação.
1. DA FASE PRÉ-CONTRATUAL NO CONTRATO DE SEGURO
Existem duas grandes fases que antecedem a celebração propriamente dita da generalidade dos contratos: a fase negociatória, durante a qual ocorrem negociações entre as partes com vista à futura realização de um acordo que se traduzirá na concretização da proposta contratual, e a fase decisória, que se situa entre a emissão da proposta contratual e a conclusão
do contrato39 através da aceitação dessa proposta e que se traduz na conclusão, efetiva ou
potencial, do acordo com base na emissão de declarações, simultâneas ou sucessivas.40
Na fase negociatória estão compreendidos “todos os atos, isolados ou encadeados, que antecedem o termo final do processo formativo, tais como convites a contratar, propostas e contrapropostas (umas e outras, desde que não aceites) e uma multiplicidade de outros atos de comunicação integrados na formação (com ou sem sucesso) de contratos através de diálogo oral ou declarações contratuais conjuntas”, para além de “atos omissivos (de informação, de prosseguimento de negociações ou de conclusão do contrato) que, no quadro da boa fé,
desempenham papel de especial relevo”.41
39 Sublinha-se o estipulado no artigo 232.º do Código Civil, que afirma que o contrato não se encontra concluído enquanto as partes não houverem
acordado em todas as cláusulas sobre as quais qualquer delas tenha julgado necessário o acordo.
40 Neste sentido, JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação das partes”, in Temas de Direito dos Seguros, Coord. de Margarida Lima Rego, 2.ª
ed. revista e aumentada, Almedina, Coimbra, 2016, pp. 330-331.
O contrato de seguro ostenta diferenças que o distinguem dos contratos em geral na fase pré-contratual, apresentando um aspeto substancial ou socioeconómico e um aspeto formal ou
estritamente jurídico.42
Na perspetiva socioeconómica ou substancial, o segurador possui, em regra, a iniciativa negocial, seja de forma direta, seja através das suas ligações comerciais, pelo que diligencia no sentido de atrair o potencial tomador do seguro para a aceitação de um contrato, apresentando-lhe, deste modo, e em substância, um negócio. É neste plano que surgem os deveres pré-contratuais de informação e de esclarecimento por parte da entidade seguradora ou do
intermediário43, uma vez que a formação da vontade contratual por parte do potencial tomador do
seguro fica concluída com a apresentação da sua proposta formal, algo que surge após o
cumprimento dos referidos deveres pré-contratuais a cargo do segurador.44
Por outro lado, na perspetiva formal ou estritamente jurídica, o potencial tomador do seguro reveste, formalmente, o papel de proponente, apresentando ao segurador uma proposta contratual, ou seja, uma declaração negocial que se materializa através do preenchimento e da subscrição de um formulário anteriormente disponibilizado pelo segurador, onde o potencial tomador do seguro refere o risco que deseja que fique coberto pelo seguro e estabelece determinadas condições contratuais que pretenda, pelo que a aceitação e consequente conclusão
do contrato estarão a cargo do segurador.45
Todavia, o contrato de seguro apresenta mais especificidades no âmbito pré-contratual, uma vez que possui cláusulas contratuais gerais, pré-redigidas pelo segurador, que não são alvo de negociação individual entre as partes.
42 Neste sentido, LUÍS POÇAS, O Dever de Declaração Inicial do Risco no Contrato de Seguro, Almedina, Coimbra, 2013, p. 47.
43 É este intermediário, designado por mediador de seguros, que, muitas vezes, contacta diretamente com o potencial tomador do seguro durante
a fase pré-contratual, exibindo-lhe a modalidade contratual e fornecendo-lhe as respetivas informações quanto às condições e à vontade de contratar.
44 Cfr. LUÍS POÇAS, O Dever de Declaração..., ob. cit., p. 47.
Ora, o segurador tem de cumprir determinados deveres pré-contratuais de informação durante a fase inicial de informação, de forma a permitir ao potencial tomador do seguro formar a sua vontade negocial partindo das informações fornecidas pelo segurador, realizando uma proposta contratual ao segurador e informando este quanto ao risco que pretende que seja coberto pelo seguro. Com base nessa proposta e nas informações providenciadas ao segurador, este forma, por seu turno, a sua vontade negocial, podendo aceitar a proposta tal como ela se encontra ou realizar alterações, havendo, nesta última hipótese, uma contraproposta por parte deste,
cabendo ao potencial tomador do seguro aceitá-la ou recusá-la.46
Concluindo, e embora o processo de contratação normal do contrato de seguro afaste, em regra, a possibilidade de negociar o conteúdo das cláusulas contratuais, “dificilmente se poderá negar a existência e a relevância da fase negocial preliminar”, uma vez que “nesta, o potencial tomador do seguro poderá escolher, entre as modalidades de seguro disponibilizadas por diversos seguradores (ou até pelo mesmo segurador), qual a que se adequa mais à situação concreta por si visada”. Além disso, nos casos em que a modalidade de seguro o permita, o interessado terá a possibilidade de selecionar um leque maior ou menor de garantias opcionais e de ajustar o valor das franquias, capitais, entre outros, de acordo com o seu escopo contratual. Por outro lado, o próprio segurador poderá oferecer alguma flexibilidade a nível tarifário, o que poderá permitir ao potencial tomador do seguro negociar no sentido mais favorável para si. Finalmente, “quando o risco proposto se afaste dos parâmetros normais, poderá, dependendo das circunstâncias, ser negociável a consequência a aplicar: um sobreprémio ou uma exclusão parcial
de cobertura”.47
46 Neste sentido, LUÍS POÇAS, O Dever de Declaração..., ob. cit., p. 47, nota de rodapé n.º 123. 47Idem, p. 50.
2. DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS NOS CONTRATOS EM GERAL
A relação pré-contratual é pautada por determinados deveres fundados no princípio da boa fé plasmado no artigo 227.º do Código Civil, sendo denominados por deveres de conduta.
De acordo com MENEZES CORDEIRO, existem três grupos de deveres que decorrem do
princípio da boa fé e se encontram presentes na fase pré-contratual: os deveres de proteção, os
deveres de informação e os deveres de lealdade.48
Os deveres de proteção obrigam a que a parte não cause danos pessoais nem patrimoniais à contraparte. Por sua vez, os deveres de informação impõem que as partes informem e esclareçam a contraparte, fornecendo as informações necessárias para que esta tenha conhecimento das circunstâncias que possam ser relevantes para a formação da sua vontade negocial e do consenso contratual. Portanto, haverá uma violação destes deveres quando a parte
age com dolo negocial, nos termos do n.º 1 do artigo 253.º do Código Civil49, e quando existe uma
violação culposa do cuidado exigível, ocorrendo a obrigação de indemnização no âmbito do
instituto da culpa in contrahendo. Finalmente, os deveres de lealdade, que se traduzem na
obrigação das partes em não atuarem de forma a criar dificuldades injustificáveis à celebração do contrato ou a induzir a contraparte em erro, incluem os deveres de sigilo (as partes não podem revelar informações de que tenham tido conhecimento durante a negociação e por via desta nas situações em que tal possa violar as expectativas da contraparte), de cuidado (as partes não devem atuar de forma dolosa ou negligente, devendo salvaguardar a formação e conclusão válidas do contrato) e de atuação consequente (as partes não devem interromper as negociações que se
encontram em curso de forma arbitrária e injustificada).50
Posto isto, focar-nos-emos daqui para a frente nos deveres pré-contratuais de informação no contrato de seguro, pelo que, devido à sua elevada importância e relevância para o tema em apreço, será dedicado um capítulo autónomo para o estudo desta temática, apesar de, como já foi anteriormente referido, o próximo capítulo estar incluído na fase pré-contratual, ou seja, na fase que antecede a celebração do contrato pelas partes.
48 Cfr. ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO, Da Boa Fé no Direito Civil, Almedina, Coimbra, 2001, p. 583.
49 Nos termos do artigo 253.º, n.º 1, do Código Civil, “entende-se por dolo qualquer sugestão ou artifício que alguém empregue com a intenção ou
consciência de induzir ou manter em erro o autor da declaração, bem como a dissimulação, pelo declaratário ou terceiro, do erro do declarante”.
50 No mesmo sentido, ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO, Da Boa Fé..., ob. cit., p. 583, e LINO DIAMVUTU, “A Tutela da Confiança nas Negociações
CAPÍTULOIII–DOSDEVERESPRÉ-CONTRATUAISDEINFORMAÇÃONOCONTRATO
DESEGURO
No presente capítulo iremos analisar os deveres pré-contratuais de informação no contrato de seguro, matéria esta que merece maior enfoque e aprofundamento da nossa parte devido à sua maior importância e relevância para o tema da presente dissertação.
Os deveres pré-contratuais de informação têm como finalidade permitir que as partes decidam como e se pretendem contratar, de forma livre e consciente, pelo que constituem um pressuposto e uma garantia do princípio da liberdade contratual, nos termos dos artigos 405.º do
Código Civil e 11.º da LCS.51
1. DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS NO CONTRATO DE SEGURO
Na génese do contrato de seguro, também se encontrava presente a necessidade de proteção da parte contratual mais débil em razão da forte assimetria informativa existente entre as partes, uma vez que se considerava o tomador do seguro, em regra, um especialista que tomava a posição de contraente mais forte, enquanto que o segurador configurava um empresário
individual que segurava, na maior parte dos casos, naus no âmbito dos seguros marítimos.5253
Antes do surgimento do Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril, que consagrou e autonomizou o regime jurídico relativo ao contrato de seguro, esta matéria encontrava-se consagrada no Código Comercial.
Assim, antes da entrada em vigência da LCS, estipulava o n.º 8 do parágrafo único do artigo 426.º do Código Comercial que a apólice devia incluir, entre outros, todas as circunstâncias
51 Neste sentido, JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 332.
52 Quanto à evolução histórica do contrato de seguro, ver ARNALDO PINHEIRO TORRES, Ensaio sobre o Contrato de Seguro, Tipografia Sequeira, Porto,
1939, pp. 125-126, LUÍS POÇAS, O Dever de Declaração..., ob. cit., pp. 31-43, RITA GONÇALVES FERREIRA DA SILVA, Do Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 21-48, e JOSÉ CARLOS MOITINHO DE ALMEIDA, O Contrato de Seguro no Direito Português..., ob. cit., pp. 5-10.
53 Com o surgimento da atividade mercantil nos finais da Idade Média e o seu desenvolvimento veio a institucionalização progressiva do contrato
cujo conhecimento pudesse interessar ao segurador e todas as condições estipuladas pelas
partes.54
O dever de informação do tomador do seguro ou segurado na fase pré-contratual encontrava-se plasmado no artigo 429.º do Código Comercial, que dispunha que “toda a declaração inexata, assim como toda a reticência de factos ou circunstâncias conhecidas pelo segurado ou por quem fez o seguro, e que teriam podido influir sobre a existência ou condições
do contrato tornam o seguro nulo”5556, referindo ainda, no seu parágrafo único, que “se da parte
de quem fez as declarações tiver havido má fé o segurador terá direito ao prémio”.
Este antigo regime comportava algumas particularidades, uma vez que o artigo 429.º do Código Comercial fazia recair sobre o tomador do seguro o dever de informação com um caráter especialmente “estrito e imperioso”, tendo em conta a assimetria na informação de caráter essencialmente pessoal à qual o segurador não tem fácil acesso, pelo que se apresentava um
regime especialmente favorável para as entidades seguradoras.5758
O Código Comercial especificava também, no seu artigo 442.º, as informações que teriam
de constar obrigatoriamente da apólice no âmbito dos seguros contra fogo59 e, no artigo 457.º, as
informações obrigatórias a incluir na apólice quanto aos seguros de vida.60
Por sua vez, o Decreto-Lei n.º 94-B/98, de 17 de abril, na versão anterior à publicação e
vigência do presente Decreto-Lei61, consagrava nos artigos 176.º a 178.º os deveres de informação
54 Cfr. LUÍS FILIPE CALDAS, “Direitos e Deveres de Informação: Sanção das Declarações Inexatas do Tomador”, in III Congresso Nacional de Direito
dos Seguros, Memórias, Coord. de António Moreira e M. Costa Martins, Almedina, Coimbra, 2003, p. 281.
55 Tanto a jurisprudência como a doutrina dominantes entendiam que a “nulidade” prevista no artigo 429.º do Código Comercial devia ser
considerada uma “anulabilidade”, tendo em conta os interesses privados que a lei pretendia proteger.
56 Neste sentido, LUÍS FILIPE CALDAS, “Direitos e Deveres de Informação...”, ob. cit., pp. 281-282.
57 Cfr. JÚLIO GOMES, “O dever de informação do tomador do seguro na fase pré-contratual”, II Congresso Nacional de Direito dos Seguros, Memórias,
Coord. de António Moreira e M. Costa Martins, Almedina, Coimbra, 2001, pp. 75-77.
58 No entanto, de acordo com JÚLIO GOMES, “O dever de informação do tomador do seguro...”, ob. cit., p. 76, “embora se funde numa assimetria
no acesso à informação não tem como escopo proteger um contratante débil já que hoje, realisticamente, ninguém se lembrará de considerar como tal a empresa seguradora”. Tal afirmação faz certamente sentido, tendo em conta a atual especialização por parte das entidades seguradoras, que exercem a título profissional a atividade seguradora, derivada da crescente necessidade de celebração de contratos de seguro na sociedade atual, pelo que não se pode considerar que os seguradores se encontram, hoje em dia, numa posição contratual mais fraca; aliás, em grande parte dos casos, é mesmo o tomador do seguro que reveste tal posição.
59 Neste sentido, LUÍS FILIPE CALDAS, “Direitos e Deveres de Informação...”, ob. cit., p. 282.
60Ibidem.
existentes nos contratos de seguro celebrados sob o ramo “Não Vida” e nos artigos 179.º a 181.º
os deveres respeitantes aos contratos realizados sob o ramo “Vida”.6263
A LCS entrou em vigor a 1 de janeiro de 2009 e veio revogar expressamente, entre outras normas, as constantes dos artigos 425.º a 462.º do Código Comercial e dos artigos 1.º a 5.º e 8.º
a 25.º do Decreto-Lei n.º 176/95, de 26 de julho (doravante RTAS).64
Refere a LCS, no ponto II do seu preâmbulo, que nesta reforma mereceu especial atenção a questão da tutela do tomador do seguro e do segurado enquanto parte contratual mais débil, tendo em conta, simultaneamente, a adequada ponderação dos interesses das empresas de seguros.
A LCS consagra atualmente um regime geral de deveres pré-contratuais de informação que têm em conta as especificidades inerentes à relação contratual em questão. Assim, impõe estes deveres não só ao segurador perante o tomador do seguro ou segurado, nos termos dos artigos 18.º a 23.º da LCS, como o faz a estes perante o segurador, à luz dos artigos 24.º a 26.º do mesmo diploma, constituindo a consagração da amplitude destes deveres um aspeto primordial da fase de formação do contrato de seguro.
Os artigos 18.º a 26.º da LCS constituem normas jurídicas relativamente imperativas, o que significa que o seu teor só poderá ser alterado se tal se mostrar mais favorável ao tomador do seguro, segurado ou beneficiário, tal como se encontra disposto no artigo 13.º da LCS, algo que se depreende tendo em conta os objetivos prosseguidos pelo legislador com a consagração
dos referidos preceitos e a sua importância neste tipo de contrato.65
De facto, o legislador prestou especial atenção às particularidades que revestem o contrato de seguro e que o distinguem do que acontece na generalidade dos contratos de outras áreas do direito ao ter consagrado estes deveres pré-contratuais de informação na LCS.
Com efeito, como já foi referido, o contrato de seguro contém em regra cláusulas contratuais gerais que são elaboradas prévia e unilateralmente pelos seguradores, sendo destinadas a serem aceites, sem mais, pelos tomadores do seguro, ou seja, sem a sua negociação.
62 Cfr. JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 329. Este regime resultou da transposição da Diretiva 2002/83/CE (também
denominada por Diretiva “Vida”).
63 No mesmo sentido, LUÍS FILIPE CALDAS, “Direitos e Deveres de Informação...”, ob. cit., p. 283.
64 Regime de Transparência para a Atividade Seguradora, alterado pelos Decretos-Leis n.º 60/2004, de 22 de março, e nº 357-A/2007, de 31 de
outubro, e revogado pelo Decreto-Lei n.º 72/2008, de 16 de abril.
65 De acordo com o artigo 19.º, para além do regime legal previsto na LCS poderão também ser aplicáveis aos contratos de seguro normas relativas
aos deveres pré-contratuais de informação existentes em outros diplomas especiais, como, por exemplo, na Lei da Defesa do Consumidor, de acordo com o tipo de contrato em questão e a sua natureza.
Tal encontra justificação na “conveniência prática de pré-formular as respetivas cláusulas para determinados negócios de massa e/ou para negócios que versam sobre matérias juridicamente difíceis ou tecnicamente sofisticadas (…), onde é ineficiente e não racional procurar, sempre de
novo, as soluções contratuais adequadas”.66 Todavia, “o efeito de racionalização pretendido com
o recurso a cláusulas contratuais gerais pode ser desvirtuado, porém, e muitas vezes assim sucede, para afastar a liberdade contratual, na medida exata em que aparecem cláusulas contratuais gerais concebidas unilateralmente no interesse do contratante determinado, que as
formulou, sem hipótese de alteração por parte do aderente que fica sujeito a elas”.67
Como veremos mais adiante, estes deveres têm como finalidade a formação, de modo esclarecido, da vontade contratual das partes, algo que se encontrará sempre dependente do conhecimento do conteúdo do contrato e da aptidão deste para satisfazer as necessidades
concretas de segurança do potencial tomador do seguro.68
66 Neste sentido, HEINRICH EWALD HORSTER, A Parte Geral do Código Civil Português – Teoria Geral do Direito Civil, Almedina, Coimbra, 1992, p.
469.
67Ibidem.