CAPÍTULO III – DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO NO CONTRATO DE
3. DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO A CARGO DO TOMADOR DO SEGURO OU
3.1. DA DECLARAÇÃO INICIAL DO RISCO
3.1.2. DO PROBLEMA DA AMPLITUDE DO DEVER
O dever de declaração inicial do risco depende de dois fatores: o tomador do seguro ou o segurado deve ter conhecimento do facto e deve razoavelmente tê-lo por relevante, ou seja, significativo, para a apreciação do risco pelo segurador.
O artigo 24.º causa, portanto, dúvidas quanto à amplitude do dever de declaração inicial do risco. Estará o tomador do seguro obrigado a informar o segurador acerca de todas as doenças
195 Cfr. LUÍS POÇAS, O Dever de Declaração..., ob. cit., p. 330.
196 Neste sentido, JOSÉ VASQUES, Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 161-162, e JORGE FERREIRA SINDE MONTEIRO, Responsabilidade por conselhos,
recomendações ou informações, Almedina, Coimbra, 1989, pp. 356-357.
que já teve durante a sua vida e que tem antes de celebrar o contrato de seguro de saúde? E como é que o tomador do seguro poderá identificar todas as doenças relevantes para o cumprimento do dever em causa? De acordo com que critério e com que grau de diligência?
Ora, a doutrina defende que não se pode exigir o cumprimento do dever de forma tão ampla e tão difícil de realizar sem a imposição de quaisquer limites, sendo necessário alcançar uma posição de equilíbrio com base no princípio da boa fé, repartindo assim os encargos entre o
segurador e o tomador do seguro ou segurado. Tal como refere JÚLIO GOMES, “foi-se ganhando
consciência, gradualmente, que um ordenamento não pode requerer ao tomador do seguro que declare todas as circunstâncias atinentes ao risco, o que representa não só um objetivo inatingível para o leigo, como um obstáculo à própria atividade seguradora”, pelo que “pode, por isso, dizer- se que, ainda que em diferentes graus nos vários países, se procede hoje (…) a uma divisão de
tarefas entre as partes do contrato na determinação do risco contratual”.198
Daí a necessidade de sublinharmos o facto de o dever se reportar às circunstâncias que o tomador do seguro ou segurado conheça, uma vez que não faria qualquer sentido exigir-lhe a declaração de factos ou circunstâncias que não fossem do seu conhecimento. Aliás, tal como o referido Autor reitera, “o dever de informação respeita apenas aos factos e circunstâncias conhecidos do tomador do seguro; se os factos não eram conhecidos não existe qualquer violação
de tal dever”.199
Mas as “circunstâncias que conheça” referidas no artigo 24.º da LCS abrangem também as circunstâncias desconhecidas pelo tomador do seguro ou segurado, mas que devia razoavelmente conhecer?
Na vigência do regime anterior, JÚLIO GOMES afirmou que, perante um regime tão
desequilibrado no sentido favorável ao segurador, no âmbito do qual o incumprimento do dever de informação tinha como consequência a invalidade do contrato mesmo que o tomador estivesse de boa fé, o tomador ou segurado tinha apenas a obrigação de declarar os factos conhecidos, muito embora o Autor aceitasse que, nos casos em que existisse um questionário com questões precisas, e não genéricas ou ambíguas, o tomador do seguro ou o segurado tivesse a obrigação de encetar esforços no sentido de recordar todos os elementos relevantes de forma a poder
198 Neste sentido, JÚLIO GOMES, “O dever de informação do tomador do seguro...”, ob. cit., p. 88.
199Idem, p. 89, reafirmando o Autor que o tomador do seguro só deve declarar exatamente aquilo que conhece, uma vez que ninguém pode ser
responder-lhe de forma completa e exata, o que poderia implicar um “esforço de memória” e
alguma “investigação”.200201
De todo o modo, à luz do regime atual, o Autor segue o entendimento de que a obrigação de declaração por parte do tomador ou do segurado inclui apenas as circunstâncias do seu
conhecimento e já não as cognoscíveis, ou seja, aquelas que ele poderia ou até deveria conhecer.202
Ora, seguindo o entendimento de JOANA GALVÃO TELES203, é necessário analisar a questão e
interpretar a lei à luz das regras gerais, ou seja, de acordo com o artigo 9.º do Código Civil. Assim, em vez de nos restringirmos à letra da lei, devemos reconstituir o pensamento legislativo, a razão de ser da lei – a ratio legis -- inserida na unidade do sistema atual.
Assim sendo, não é razoável exigir ao tomador do seguro ou ao segurado que se informe e que pesquise sobre todos os aspetos que poderão ser relevantes para a análise do risco por
parte do segurador204, uma vez que tal constituiria um dever de diligência demasiado elevado, o
que levaria à substituição do segurador pelo tomador do seguro na realização do trabalho daquele, assim como não é razoável obrigar o tomador do seguro ou o segurado a informar-se sobre novos factos que, até ao momento, nunca conheceu mas que seria melhor se conhecesse.
Todavia, e como salienta a Autora, é um dever do tomador do seguro ou do segurado realizar um esforço de memória de forma a invocar todos os factos que estejam relacionados com o risco a cobrir e que possam influenciar a apreciação do mesmo.
Concluindo, “em determinados casos, parece que será contrário à boa fé aceitar que o tomador do seguro ou o segurado desconhecesse determinados factos que são demasiado óbvios para invocar o seu desconhecimento e que, somente por culpa ou mesmo por dolo, não foram
informados ao segurador”.205
Sustentando esta posição, afirma PEDRO ROMANO MARTINEZ que, apesar de a letra da lei
apontar em sentido contrário, com base nos princípios gerais normalmente expressos pela ideia de boa fé, como, por exemplo, o artigo 227.º do Código Civil, em alguns casos, poderá ser
200 Neste sentido, JÚLIO GOMES, “O dever de informação do tomador do seguro...”, ob. cit., p. 89.
201 Aliás, já durante a vigência do regime previsto no artigo 429.º do Código Comercial se apelava ao previsto no n.º 2 do artigo 762.º do Código
Civil, que serve de base ao dever de consideração razoável dos interesses da contraparte, obrigando, desta forma, a uma declaração minimamente diligente. Neste sentido, anotação de ARNALDO COSTA OLIVEIRA, Lei do Contrato de Seguro...,ob. cit., p. 138.
202 No mesmo sentido, Cfr. JÚLIO GOMES, “O dever de informação do (candidato a) tomador...”, ob. cit., p. 405. 203 Cfr. JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 371.
204 Por exemplo, que realize exames médicos a todas as partes do corpo, de forma a entregar um relatório completo sobre o seu estado de saúde
ao segurador antes da celebração de um contrato de seguro de saúde.
suficiente que o tomador devesse conhecer da existência dos factos. O Autor refere, em especial, os casos de ignorância intencional, nos quais o tomador se recusou a ter certa informação que teria se tivesse atuado com normalidade, dando como exemplos os casos de adiamento intencional de exames médicos de rotina, algo relevante no âmbito dos seguros de vida ou de saúde, e de não aproveitamento de oportunidades frequentes de observação de bens próprios a
segurar, algo com relevância para os contratos de seguro de danos.206
Por outro lado, a lei exige, na 2.ª parte do n.º 1 do artigo 24.º da LCS, uma diligência média, de um homem médio, por parte do tomador do seguro ou segurado, no sentido de aferir a essencialidade, para o segurador, do facto a ser declarado, tendo em conta a adoção do termo
“razoavelmente”.207
O dever ou ónus de informar em causa pressupõe que o tomador do seguro ou o segurado compreende o sentido do contrato que está a celebrar, ou seja, compreende que, através do contrato, o segurador cobre um risco e cobra um prémio calculado com base nesse mesmo risco, em face de toda a informação disponível. Ora, “se o tomador, por ignorância ou pouca reflexão, não compreende bem o sentido do contrato que pretende celebrar, nem por isso deixa de ter o mesmo dever de informação”, uma vez que a lei se refere a uma leitura “razoável” dos riscos existentes e da sua relevância e também do próprio contrato, pelo que tanto no uso do conceito de “razoavelmente” como na referência ao que é “significativo” para a apreciação do risco a lei estabelece um critério abstrato de normalidade, que não se encontra dependente das concretas
capacidades do tomador.208 Ou seja, o tomador do seguro ou o segurado não pode invocar que
não considerou um facto relevante que seria considerado significativo aos olhos da pessoa comum, razoável, normal, com conhecimentos médios, como, por exemplo, no âmbito de um seguro de incêndio, não informar o segurador de que está em causa uma fábrica com atividade perigosa que
utiliza produtos facilmente inflamáveis.209
Quanto a esta questão, trata-se de estabelecer o conteúdo do dever de declaração inicial do risco por parte do tomador do seguro ou do segurado, ou seja, “que conjunto de circunstâncias
206 Cfr. comentários complementares de PEDRO ROMANO MARTINEZ, Lei do Contrato de Seguro..., ob. cit., p. 143. 207 Neste sentido, anotação de ARNALDO COSTA OLIVEIRA, Lei do Contrato de Seguro...,ob. cit., p. 139.
208 No mesmo sentido, comentários complementares de PEDRO ROMANO MARTINEZ, Lei do Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 143-144. 209 Cfr. JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 372.
o mesmo deve, em cada caso, transmitir ao segurador, independentemente das concretas
capacidades e conhecimentos do mesmo”.210