CAPÍTULO III – DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO NO CONTRATO DE
3. DOS DEVERES PRÉ-CONTRATUAIS DE INFORMAÇÃO A CARGO DO TOMADOR DO SEGURO OU
3.1. DA DECLARAÇÃO INICIAL DO RISCO
3.1.1. DAS CIRCUNSTÂNCIAS RELEVANTES PARA A APRECIAÇÃO DO RISCO
do segurado e suas distintas consequências na validade do contrato.
Com a consagração deste dever a cargo do tomador do seguro ou segurado, o legislador teve em conta que é o tomador do seguro que se encontra em melhor posição para informar a contraparte acerca do risco que pretende que seja segurado, uma vez que, em princípio, só ele terá acesso às informações consideradas relevantes não só para o cálculo do risco, mas também para a sua previsão, já que estão em causa situações que o tomador do seguro conhece melhor do que qualquer outra pessoa, informação essa à qual o segurador não terá facilmente acesso. Daí a necessidade de se ter consagrado este dever, pelo que o tomador do seguro ou segurado terá de diligenciar no sentido de transmitir, da melhor forma e o mais completo possível, toda a informação relevante para a decisão de contratar e a apreciação do risco a cobrir, de modo a que o segurador possa ter acesso aos exatos termos e condições em que irá contratar. É claro que, apesar da diferença entre as posições das partes quanto ao acesso a estas informações, não se considera necessariamente que o segurador seja uma parte contratual mais fraca, uma vez que, em princípio, possui diversos mecanismos através dos quais pode aceder à informação necessária
para a apreciação do risco a ser coberto e, por fim, para a celebração do contrato.180
3.1.1. DAS CIRCUNSTÂNCIAS RELEVANTES PARA A APRECIAÇÃO DO RISCO
O contrato de seguro tem por objeto a cobertura de um determinado risco, sendo também
um contrato pautado pela regra da máxima boa fé181, pelo que, nos termos do n.º 1 do artigo 24.º
da LCS, “o tomador do seguro ou o segurado está obrigado, antes da celebração do contrato, a
declarar com exatidão182 todas as circunstâncias que conheça e razoavelmente deva ter por
180 Cfr. JÚLIO GOMES, “O dever de informação do tomador do seguro...”, ob. cit., p. 76. 181 Neste sentido, JOSÉ VASQUES, Contrato de Seguro..., ob. cit., pp. 160-162. 182 Por outras palavras, com rigor e clareza.
significativas para a apreciação do risco pelo segurador”, ou seja, o conjunto de circunstâncias
que o homem médio consideraria como relevantes para a apreciação do risco.183
Assim, estão incluídas todas as circunstâncias do conhecimento do tomador do seguro ou do segurado que possam influenciar a apreciação do risco que se verifiquem até ao momento da celebração do contrato, pelo que, após este momento, já estará em causa o dever de informação
contratual de agravamento do risco184, nos termos do artigo 93.º da LCS.185
Existe, no âmbito da repartição de tarefas entre ambas as partes do contrato para obter todas as informações relevantes e necessárias para o cálculo do risco e do prémio e para a apreciação das condições do contrato, algum dever ou ónus do segurador de fazer questões à contraparte ou apresentar um questionário completo e exaustivo pelo qual ele se responsabiliza? Ou, pelo contrário, não existe qualquer dever ou ónus do segurador, que poderá optar por ajudar o tomador do seguro ou o segurado a cumprir o seu dever, mas sem assumir qualquer
responsabilidade quanto à obtenção das informações necessárias?186
O questionário constitui uma das formas de declaração inicial do risco por parte do candidato a tomador do seguro, tendo como finalidade a ponderação, por parte do segurador, dos riscos que correrá com a celebração do contrato de seguro que lhe é proposto, consistindo “numa facilitação concedida pelo segurador ao segurado” que tem por base a probidade das informações fornecidas e a boa fé deste, de forma e evitar um complexo de averiguações e exames, pelo que
não deve redundar em prejuízo do segurador.187
Ora, no sistema do questionário aberto, o questionário elaborado pelo segurador e fornecido ao tomador do seguro ou ao segurado tem como objetivo facilitar a recolha de informação relevante para a apreciação do risco por parte do segurador, cabendo, no entanto, tal dever de recolha de informação ao tomador do seguro ou segurado, já que é este que se encontra na posição mais favorável para tal. Por outro lado, no sistema do questionário fechado, o segurador tem o dever de elaborar um questionário claro e completo ao qual o tomador do seguro ou segurado possa responder de forma clara e completa, declarando os factos e as circunstâncias
183 No mesmo sentido, JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 369.
184 Que não será analisado na presente dissertação, uma vez que se trata de um dever contratual, e não pré-contratual.
185 Cfr. JÚLIO GOMES, “O dever de informação do (candidato a) tomador...”, ob. cit., pp. 404-405, e LUÍS POÇAS, O Dever de Declaração..., ob. cit.,
pp. 331-335.
186 Cfr. JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 373.
187 No mesmo sentido, acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 15.01.2015, Proc. n.º 931/13.8TBVCT.G1 (Relator: MANUEL BARGADO),
relevantes para a análise do risco por parte do segurador. Enquanto que no primeiro sistema está em causa um dever ou ónus do tomador ou segurado, que ficará sujeito às consequências do seu incumprimento, no segundo sistema, caso o segurador não realize um questionário ou apresente um incompleto ou pouco claro, em que faltem respostas ou em que estas sejam incompletas ou dúbias, quem suporta as desvantagens do incumprimento é o segurador, que não poderá invocar
o facto de o tomador do seguro ou segurado não ter declarado o risco.188
O tomador do seguro189 encontra-se obrigado a declarar as circunstâncias, nos termos
suprarreferidos, mesmo que as mesmas não sejam solicitadas em questionário fornecido pelo
segurador190, ou seja, o disposto no n.º 1 do artigo 24.º é também aplicável a circunstâncias cuja
menção não seja solicitada em questionário eventualmente fornecido pelo segurador para o efeito,
de acordo com o n.º 2 do referido preceito.191
Portanto, conjugando-se o disposto no n.º 1 com o previsto no n.º 2 do artigo 24.º da LCS,
chega-se à conclusão de que o legislador nacional adotou o sistema do questionário aberto192, pelo
que o tomador do seguro ou segurado tem o dever de declaração espontânea, clara e completa dos factos e circunstâncias que conheça e que razoavelmente deva ter por significativos para a apreciação do risco. Assim, “a lei determina, claramente, que o dever ou ónus estão a cargo do tomador de seguro ou do segurado, independentemente de haver questionário, considerando –
com o eventualmente – a hipótese de o último nem sequer existir”.193194
188 Neste sentido, JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., pp. 373-374.
189 O dever de declaração inicial do risco compete também ao segurado quando este não coincide com o tomador do seguro e intervenha de modo
relevante na celebração do contrato ou pratique um ato autónomo de adesão ao contrato, algo que ocorre em alguns seguros de grupo. Neste sentido, comentários complementares de PEDRO ROMANO MARTINEZ, Lei do Contrato de Seguro..., ob. cit., p. 143.
190 Neste sentido, acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 15.01.2015, Proc. n.º 931/13.8TBVCT.G1 (Relator: MANUEL BARGADO), disponível
em www.dgsi.pt.
191 De acordo com o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 14.09.2015, Proc. n.º 172/13.4TBMAI.P1 (Relator: MANUEL DOMINGOS FERNANDES),
disponível em www.dgsi.pt, “o cumprimento do dever de declaração do risco não se esgota no preenchimento do eventual questionário que acompanha a proposta ou com a entrega desta. Ele acompanha toda a fase de formação do contrato e o seu cumprimento terá de aferir-se pelas circunstâncias que venham ao conhecimento do proponente até à conclusão do contrato”.
192 ANTÓNIO SANTOS ABRANTES GERALDES, O novo regime do contrato de seguro – antigas e novas questões, 2010, disponível em
www.trl.mj.pt/PDF/REGIME.pdf, p. 6, entende que, com base no novo quadro legal, é previsível a utilização de conceitos indeterminados por parte dos seguradores, principalmente no âmbito de contratos massificados na área do direito do consumo, algo que trará um aumento de litígios face à gravidade das consequências das omissões ou inexatidões declaratórias previstas na LCS, pelo que, de acordo com o Autor, “sendo as seguradoras detentoras de maior poder contratual e de maior conhecimento das circunstâncias relevantes para o exercício da sua atividade, razões de segurança e de certeza jurídica deveriam ter levado a optar por outra solução assente num modelo de declarações essencialmente fundado no preenchimento de questionários fechados, previamente elaborados de acordo com a especificidade de cada seguro ou de cada objeto do seguro”.
193 Cfr. JOANA GALVÃO TELES, “Deveres de informação...”, ob. cit., p. 374.
194 Aliás, a adoção do termo “igualmente” significa que o dever de informar quanto a todos os factos que sejam conhecidos e relevantes não deixa
Ora, o n.º 1 do artigo 24.º da LCS procura um critério objetivo e equitativo de definição da relevância dos factos ou circunstâncias omitidos ou inexatamente declarados, enquanto que o n.º 2 se refere ao sistema de declaração espontânea já previamente presente no Código Comercial,
cabendo, em primeira linha, o cumprimento do dever em causa ao proponente.195
A lei obriga a participação ao segurador, por parte do tomador do seguro ou do segurado, de todos os factos e circunstâncias relativos ao risco com base na boa fé, constituindo a declaração inicial do risco “um dever pré-contratual de fornecer à contraparte informação sobre todos os aspetos relevantes para a sua decisão, incluindo mesmo aqueles que a possam levar a afastar-se do projeto negocial”, pelo que “o dever de dar a conhecer ao segurador todos os factos relevantes advém aqui de que muitos deles estão no exclusivo conhecimento do tomador ou segurado, sendo de outra forma impossível àquele obter os factos necessários para o cálculo do risco que há-de
assumir”.196
Aliás, a imposição por parte da lei do dever ou ónus ao segurador de adoção de todas as diligências no sentido de obtenção de todas as informações relevantes para a apreciação do risco acarretaria prejuízos ao segurador a nível de tempo e custos dispendidos que seriam excessivos, algo que teria de ser compensado através do aumento do montante do prémio a ser cobrado e que poderia até trazer problemas a nível de direitos de personalidade do tomador do seguro ou do
segurado197, dada a natureza pessoal de grande parte da informação relevante.