xão nietzschiana sobre a linguagem se encaminha no sentido de explicitar sua dimensão agonística. Tal dimensão pode ser posta em relevo através da análise da concepção de retórica que o filósofo articula no primeiro período de sua produção. Podemos dizer de saída que Nietzsche, apesar de desenvol-ver uma reflexão profunda e instigante acerca da linguagem, não deve ser encarado como um filósofo da linguagem na acepção contemporânea do termo. Isso porque sua reflexão sobre a linguagem deságua numa reflexão sobre o poder na e da linguagem e, portanto, tematiza aspectos tipicamente políticos da linguagem que, na maioria das vezes, passam desapercebidos pelos filósofos da linguagem atuais.
Nosso percurso consiste numa analise interpretativa do Curso sobre
a retórica (1872-1873), que se realiza em dois movimentos. Num primeiro,
trata-se de analisar a tese de que a linguagem é retórica, ou seja, a retórica não é uma modalidade específica de linguagem nem, tampouco, sua forma Resumo: trata-se de compreender a relação entre linguagem e
poder na filosofia de Nietzsche. A partir de uma interpretação do Curso sobre a retórica, sustentamos a hipótese de que Nietzsche tra-balha a relação entre agón no âmbito de uma teoria agonística da linguagem.
Palavras-chave: Nietzsche, linguagem, poder, retórica, agón NIETZSCHE, LINGUAGEM E PODER
Thiago Mota
AGÓN, RETÓRICA E LINGUAGEM
T
emos como objetivo tematizar a relação entre linguagem e poder em Friedrich Nietzsche (1844-1900). Partimos da hipótese de que adesviante, mas, num certo sentido, é a “essência” da linguagem. Nosso se-gundo movimento interpreta a tese de que a retórica é republicana, ou seja, a retórica deve ser compreendia com base na noção de erística, o combate argumentativo ou o agón da palavra.
RETÓRICA E LINGUAGEM: UMA PRAGMÉTICA RETÓRICA Portanto, nos encaminhamos no sentido de mostrar que a teoria re-tórica da linguagem articulada por Nietzsche entende a linguagem a partir de sua dimensão agonística. Compreendemos que a retórica nietzschiana cumpre a função teórica de mediação entre agón e linguagem e, portanto, nos permite tematizar uma relação básica do pensamento nietzschiano, a saber, a relação entre linguagem e poder.
Ao tratar da relação da retórica à linguagem no Curso sobre a
retóri-ca, Nietzsche se contrapõe à distinção entre, de um lado, o que se chama, na
maioria das vezes pejorativamente, de linguagem retórica, isto é, o discurso que se vale de artifícios persuasivos que visam ao convencimento do interlocutor, e, de outro lado, uma linguagem que seria não retórica, na medida em que pretende descrever objetivamente o real. Tal distinção en-contra-se, por exemplo, em Aristóteles (1978), para quem o discurso não retórico, dito “natural”, dirige-se à verdade, ao que é necessariamente verda-deiro, enquanto o discurso retórico volta-se ao verossímil, ou seja, ao que é apenas possivelmente verdadeiro. A tradição concebeu nesses termos uma “naturalidade” não retórica da linguagem em contraposição a uma lingua-gem artificiosamente retórica. Por sua vez, Nietzsche (1995, p. 44-5) rejeita essa distinção ao avançar a tese de que “a linguagem ela mesma é o resultado de artes puramente retóricas”7. Nesse sentido, o uso retórico da linguagem não seria conseqüência do desenvolvimento ou mesmo um desvio da lin-guagem, primeiramente e em si, não retórica. A retórica encontra-se, na visão nietzschiana, na gênese da linguagem.
A retórica definida como força de fazer valer para cada coisa o que é eficaz é ao mesmo tempo para Nietzsche a “essência da linguagem”. Portan-to, não se trata na linguagem única e essencialmente de descrever objetiva-mente o mundo através de sua representação mais adequada, isto é, de uma
epistéme, mas antes de fazer valer uma dóxa, uma opinião e apreensão
sub-jetivas do mundo. “Não são as coisas que penetram na consciência, escre-ve Nietzsche, mas a maneira como nos relacionamos com elas, o pithanón. A essência plena das coisas nunca é apreendida” (NIETZSCHE, 1995, p. 45). A essência das coisas é sempre deixada de fora de nosso discurso porque
nossa forma de nos relacionar com elas, a experiência empírica, não abrange coisa alguma em plenitude, mas apenas um dentre seus vários aspectos. Esse aspecto particular é, entretanto, erigido em essência da coisa, antes de che-garmos a exaurir a experiência. Logo que é articulada lingüisticamente, a apreensão subjetiva da coisa é transmitida a outro sujeito tentando se fazer valer como verdade, tentando conquistar sua adesão. É, portanto, em ter-mos retóricos que levantater-mos nossas pretensões de verdade. Em síntese, afirma Nietzsche (1995, p. 46) que “a linguagem é retórica, porque apenas quer transmitir uma dóxa, e não uma epistéme”. Na linguagem, trata-se de fazer valer uma verdade (für-Wahr-halten), em vez de descobrir a verdade das coisas. Nietzsche realiza uma desconstrução da concepção essencialista de linguagem, através da dissolução da distinção entre linguagem literal e lin-guagem figurada, entre denotação e conotação. Se a linlin-guagem é retórica, então todo uso da linguagem é figurado, nossos termos e proposições funcio-nam sempre como figuras de linguagem, como tropos (sinédoques, metáfo-ras, metonímias), enfim, como designações impróprias. “Todas as palavras são em si e desde o começo, quanto a sua significação, tropos” (NIETZSCHE, 1995, p. 46). Não cabe distinguir entre designações próprias e impróprias, pois a significação é sempre trópica ou retórica. O que se articula aí é uma ruptura com a semântica essencialista, que pretende resolver o problema da relação entre signos e objetos em termos de correspondência. Nietzsche se encaminha na direção de uma semântica retórica, para a qual significar não é um descrever, mas um fazer valer. Nesse sentido, a linguagem é sempre conotativa e a própria idéia de denotação decorre da incompreensão acerca do caráter retórico da linguagem. Diríamos que há em Nietzsche uma espé-cie de terapia retórica da linguagem que, radicalizada, vai implicar o aban-dono da semântica em nome de uma pragmática retórica. Ou seja, o problema do significado vai ser posto em termos de uso e, este, definido como um uso retórico, que visa ao convencimento, à adesão do interlocutor à pretensão de verdade lingüisticamente articulada.
Bem entendido, essa virada em direção a uma pragmática retórica procura romper consistentemente com o projeto essencialista de descoberta de verdades e fundamentos em geral e, em especial, da linguagem. Dizer que a linguagem é retórica não é revelar a essência da linguagem. Não se trata de afirmar que “a essência da linguagem é sem essência”, fazendo implodir a reflexão retórica acerca da linguagem numa contradição performativa, por-que de tal reflexão resulta por-que a linguagem enquanto retórica dirige-se ape-nas ao verossímil e não a essências ou ao verdadeiro em si. Se fazemos uma reflexão tendo em vista avaliar a pretensão de verdade dessa teoria retórica
da linguagem com base em seus próprios critérios, percebemos que ela ar-ticula mera pretensão de verossimilhança. Ou seja, é verossímil dizer que a linguagem é retórica, mas isso deve ser entendido de um ponto de vista interpretativo, experimental, no horizonte de um perspectivismo. Defende-se, nesse sentido, uma pretensão de verdade mais frágil, uma pretensão de verossimilhança tanto para a reflexão teórica acerca da linguagem, quanto para seu uso prático. Ou seja, não se faz distinção entre o estatuto de verdade dos discursos de primeira e de segunda ordem. Por conseguinte, essa prag-mática retórica não pretende ser uma metalinguagem. Com isso, termos como “essencial”, “fundamental”, “verdadeiro”, “de fato” etc não precisam ser expurgados de nossa práxis lingüística. Não há necessidade de correção te-rapêutica da linguagem. Basta que compreendamos o caráter performativo desses termos, isto é, sua função retórica, seu papel no processo de conven-cimento. Predicados como “é a essência”, “é o fundamento”, “é verdade”, “é fato” etc são, assim, deflacionados1, ou seja, não são mais entendidos em seu significado descritivo, mas a partir da função performativa de ênfase retó-rica que exercem ao visar à adesão, ao tentar fazer valer como verdadeiro um determinado proferimento. Ninguém passa a acreditar que algo seja verda-de por simplesmente dizermos “é verdaverda-de”. Esse predicado, entretanto, cumpre a função retórica de reforçar o que queremos que seja tomado por verdadeiro, é um artifício com o qual firmamos uma posição e, portanto, não pode ser tomado como uma inutilidade.
Isso posto, consideramos ter apresentado de forma consistente a tese do Curso sobre a retórica que afirma que a linguagem é retórica, bem como indicamos a principal conseqüência da assunção dessa tese, a saber, que o uso da linguagem visa, sobretudo, à conquista do convencimento. In suma, a linguagem é definida como força de fazer valer em cada caso o que tem
êxito. Nisso consiste a pragmática retórica que ora atribuímos a Nietzsche.
REPÚBLICA E RETÓRICA: UMA DEMOCRACIA AGNÍSTICA O aprofundamento da reflexão realizada até aqui nos leva agora a uma investigação sobre a concepção de retórica proposta por Nietzsche no mes-mo Curso sobre a retórica. Nessa investigação, os aspectos políticos da con-cepção nietzschiana de linguagem vão se sobressair, ou seja, teremos aqui a oportunidade de tratar da relação entre linguagem e poder em Nietzsche.
Encontramos logo na abertura do Curso sobre a retórica a seguinte tese: a retórica “é uma arte essencialmente republicana: tem de se estar ha-bituado a suportar as opiniões e os pontos de vista mais alheios e mesmo
sentir certo prazer na contradição” (NIETZSCHE, 1995, p. 27-8). Se a retórica é republicana, a pergunta óbvia a ser feita é: que concepção de re-pública está implícita nessa tese? No texto de Nietzsche, esse esclarecimento segue a própria enunciação da tese. A república aí pressuposta é um regime político marcado pela pluralidade e pela polêmica. No ambiente republica-no, parte-se da idéia de que as deliberações políticas são tomadas com base em uma pluralidade de pontos de vista, ou seja, o regime é republicano quando está enfim consolidado o hábito de suportar uma grande diversidade de pontos de vista. A república se constitui dessa pluralidade de perspectivas que se relacionam tendo em vista estabelecer uma deliberação, isto é, fazer valer como verdade uma dentre as várias perspectivas.
A outra característica básica da república é o hábito de sentir prazer na contradição, ou seja, o gosto pela polêmica. Mas não se trata de mera questão de gosto. Para que a república funcione como um sistema deliberativo, é preciso que os vários pontos de vista entrem em polêmica, isto é, que se estabeleça um jogo de dicções e contradições, um contraditório entre pers-pectivas. O prazer da contradição decorre do êxito que uma perspectiva conquista no jogo com as demais. Sentimos prazer em contradizer quando temos sucesso em fazer valer nossa perspectiva, quando convencemos a outrem, como que dobrando seu ponto de vista, fazendo-o convergir com o nosso. A eloqüência, que é a práxis retórica por excelência, é precisamente a faculdade de fazer convergir pontos de vista discrepantes. A esse respeito, Nietzsche cita uma passagem de O mundo como vontade e representação:
A eloqüência, diz Schopenhauer, é a faculdade de partilhar as nossas opiniões e a nossa maneira de pensar a propósito de uma coisa, de lhes comunicar os nossos próprios sentimentos, de os pôr em sintonia conosco. E devemos chegar a esse resultado, fazendo penetrar por meio das palavras as nossas idéias nos seus cérebros com uma força tal que os seus próprios pensamentos se desviam do seu curso primitivo para seguir as nossas. E a obra-prima será tanto mais perfeita quanto o curso das suas idéias difira anteriormente mais das nossas (NIETZSCHE, 1995, p. 29).
Bem entendido, ao dizer que a eloqüência é a arte de compor conver-gências não se quer referir à idéia de consenso, como se as perspectivas em confronto fizessem certas concessões para chegar a um denominador comum. No jogo das perspectivas, a divergência é primeira, mas isso não quer dizer que não sejam possíveis convergências. A convergência é almejada por toda
perspectiva em jogo, pois ela equivale ao êxito. Cada perspectiva tensiona as demais a convergirem na direção em que ela aponta. Portanto, toda conver-gência é uma correlação de forças, e como tal é totalmente circunstancial e precária, é tensa. Todo acordo possível é, nesse sentido, meramente fático. Cedo ou tarde a correlação de perspectivas se desfaz e o jogo de posições e contraposições é retomado2.
Pode-se concluir, então, que a concepção de república de que Nietzsche se vale para definir a retórica consiste num jogo político plural e polêmico, diríamos, um jogo perspectivista. Tal concepção de política se forma no mundo antigo quando ocorre a migração do centro deliberativo da corte para a praça pública, ou seja, quando se constitui a ágora, cerne da demo-cracia ateniense (VERNANT, 1992). O que se passa na ágora não foge daquilo que Nietzsche (1995, p. 29) considera “a especificidade da vida helênica: todas as atividades do entendimento, da seriedade da vida, da necessidade e mesmo do perigo são concebidas como um jogo”. Esse jogo é o que os gregos chamaram de agón. Agón em acepção genérica quer dizer jogo, luta, combate, disputa. Daí deriva agonística, que é a arte de combater ou, ainda, o exercício físico de preparação para combates. O agón está presente nas diversas esferas do éthos grego: nas competições esportivas, nos concursos artísticos, nas relações bélicas entre as cidades-Estados. Também na política interna da pólis, tendo a ágora por arena, verifica-se uma espécie de agón: a erística, isto é, a disputa travada por meio da argumentação, o agón da pa-lavra. No Sofista, Platão (1978, p. 148-9) define a erística como o combate “em que se opõem argumentos contra argumentos [...] a contestação condu-zida com arte, e relativa ao justo em si, ou ao injusto em si, e a outras deter-minações gerais”. Portanto, a erística é uma forma de agón tipicamente político e filosófico (em termos platônicos, relativo ao justo ou injusto em si e demais determinações gerais). Por sua vez, aquele que domina a arte de jogar com a palavra tendo em vista fins políticos (erística) é o mesmo mestre da arte da persuasão (retórica): o sofista. É o próprio Platão quem liga retó-rica, erística e sofistica, com a finalidade de combater a todas em conjunto3. Podemos então dizer que é uma democracia agonística, ou erística, a repú-blica a que Nietzsche se refere quando define a retórica como uma arte es-sencialmente republicana.
A erística é a forma arquetípica da retórica, presente em germe, como vimos, na gênese da linguagem. O agón democrático, que se desenvolve com base na palavra, é uma espécie sublimada do agón físico, a luta corporal ou a guerra entre cidades-Estados. A erística é a sublimação do polemós. Ou seja, trata-se de um refinamento das relações de poder a priori baseadas na
oposição em forças físicas (força bruta) em relações de poder baseadas em forças argumentativas (força discursiva), com o que, não obstante, se obtém um ganho de potência. Como conclusão, podemos definir retórica como teoria e prática das relações de poder na e da linguagem. A retórica nietzschiana tem, como se vê, seu cerne na relação entre linguagem e poder.
Notas
1 Nesse ponto é interessante notar que aproximações podem ser feitas entre Nietzsche e as teorias
deflacionalistas da verdade propostas por Ramsey e, sobretudo, por Strawson, que após deflacionar o predicado “é verdadeiro”, analisa sua função performativa. No horizonte da retórica de Nietzsche, essa função performativa é retórica, isto é, o predicado “é verdadeiro” enfatiza o que se diz, reforça retoricamente o proferimento e, por conseguinte, cumpre um papel no processo de conquista de adesão.
2 Rancière (1996, p. 367-82) propõe que a forma de racionalidade específica da política é dissensual. 3 Nietzsche propõe em A disputa de Homero e mantém no Crepúsculo dos ídolos a hipótese de que,
apesar de não reconhecer, o próprio Platão estava imbuído pelo espírito agonístico que tentava com-bater. A dialética platônica seria, assim, o resultado da disputa de Platão com os pré-socráticos, os poetas e os sofistas. Nesses termos, Platão pensou ter superado a agonística através da dialética, entretanto, acabou por reafirmar o princípio da disputa.
Referências
ARISTÓTELES. Tópicos. Tradução de L. V. Vallandro, G. Bornheim. 2. ed. São Paulo: Abril Cultu-ral, 1978.
DE MAN, P. Alegorias da leitura: linguagem figurativa em Rousseau, Nietzsche, Rilke e Proust. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LOPES, Rogério. Elementos de retórica em Nietzsche. São Paulo: Loyola, 2006. NIETZSCHE, F. Da retórica. Tradução de T. C. Cunha. Lisboa: Vega, 1995. NIETZSCHE, F. Kritische Studienausgabe. Berlin; New York: de Gruyter, 1980.
PLATÃO. S. In: Diálogos. Tradução de J. Paleikat, J. C. Costa. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os pensadores).
RANCIÈRE, J. O dissenso. Tradução de P. Neves. In: NOVAES, A. (Org.). A crise da razão. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.
VERNANT, J.-P. As origens do pensamento grego. Tradução de I. B. B. Fonseca. 7. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.
Abstract: the relation between language and power in Nietzsche’s thought
may be understood through his conceptions of rhetoric and agon. In this essay, I interpret passages of his Course on rhetoric, in order to show how
he articulates a sort of rhetoric pragmatic which is able to explain the agonistic dimension of language and permits a redefinition of the notion of rhetoric as the theory and practice of power relations in the language.
Key-words: language, power, rhetoric, pragmatic, agon
THIAGO MOTA
Professor no Departamento de Filosofia da UFC. Mestrando em Filosofia na UFC/CAPES. E-mail: [email protected]