José Oliveira Santos é enfermeiro especialista na Maternidade Dr. Alfredo da Costa.
Preocupações dos adolescentes
e algumas práticas dos seus estilos de vida
JOSÉ OLIVEIRA SANTOS
Só há relativamente pouco tempo nas sociedades industria-lizadas os adultos começaram a ter em conta as necessida-des e capacidanecessida-des fisiológicas e psicológicas características dos adolescentes. Assim, nas últimas décadas deste século assiste-se a uma nova forma de lidar com o adolescente por parte da sociedade adulta.
Neste âmbito realizámos um estudo descritivo, analítico e transversal cujo objectivo foi identificar os principais pro-blemas nos estilos de vida dos jovens da área do Centro de Saúde de Carnaxide e cuja finalidade é a elaboração de uma proposta de programa que promova competências de autonomia, responsabilidade e sentido crítico junto do jovem.
A população em estudo era constituída pelos adolescentes de ambos os sexos da Escola Vieira da Silva, em Carnaxide, com idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos. A amostra baseou-se no processo de amostragem probabi-lística, constituída por 81 adolescentes pertencentes ao 7.o, 8.o e 9.o anos de escolaridade.
Obtiveram-se os dados através do questionário e os resul-tados foram objecto de tratamento estatístico manual e informático.
As principais conclusões foram:
• Os adolescentes em estudo são maioritariamente femi-ninos (58%);
• Vêem na família o elemento para a partilha das suas preocupações sobre a saúde;
• Vêem como principais preocupações no âmbito da saúde a SIDA, a droga, as relações com os pais e o insucesso escolar;
• Vêem como problemas que mais os preocupam os que estão ligados à escola e à família;
• Não têm por hábito os métodos contraceptivos na sua actividade sexual;
• O padrão alimentar é constituído essencialmente por fornecedores de hidratos de carbono simples, por excesso de gorduras, sendo que 6,2% não fazem a pri-meira refeição do dia, e acompanhado de poucos hábi-tos de exercício físico;
• Os refrigerantes são tomados por 85,2% dos jovens;
• Têm como expectativas alguns valores universais (paz, amizade, fome...), o constituir família, o ter emprego, o entrar na faculdade e não ter doenças graves (cancro, SIDA).
1. Introdução
Sabe-se hoje que a saúde dos indivíduos está profun-damente relacionada com o contexto sócio-econó-mico e cultural, sendo, como aponta Andreolano (1987), identificados muitos problemas de saúde das populações estreitamente correlacionados com o estilo de vida, com o trabalho e com a percepção que temos da vida e da sociedade.
Na actualidade, esta ocorrência verifica-se principal-mente no mundo ocidental, onde se identifica uma
predominância das patologias comportamentais em desfavor das patologias infecciosas, tornando-se deste modo pertinente a preocupação com as relações pessoais e familiares por aqueles que se dedicam à saúde da criança/jovem e família.
Uma vez que a saúde não depende exclusivamente da prestação de cuidados, é neste contexto que têm sur-gido nos últimos anos algumas questões acerca da mesma, uma vez que a melhoria das condições de vida e os espantosos progressos das ciências médicas permitiram o controlo de muitas situações mórbidas e o consequente aumento da esperança de vida, que no entanto, nem sempre se traduziu em qualidade de vida. É deste modo que nos interrogamos sobre o que efectivamente estará mal. Serão os estilos de vida da população? Serão os seus comportamentos os menos indicados? Ou será que algo está mal no funciona-mento dos serviços de saúde em termos de educação para a saúde? Quanto a nós, estas duas questões pare-cem dicotomizar dois aspectos que consideramos essenciais na saúde das populações.
Porém, constata-se que nas sociedades modernas, onde as transformações são constantes, os jovens vêem-se confrontados com situações que anterior-mente não existiam ou, se existiam, se revelavam menos importantes. Temos, como exemplo disso, o álcool, a droga, o tabaco, as alterações nos hábitos alimentares, nos hábitos de consumo, nos hábitos de lazer...
A par de tudo isto, como nos refere Peres (1994), relativamente ao comportamento alimentar «moderno», este advém cada vez mais de uma alimen-tação praticada fora de casa e principalmente nos snack-bars, lanchonettes, hamburger-houses, self--services, pizzarias, croissanteries, onde este modo de comer está hoje bem individualizado quanto às suas características alimentares e nutricionais e condicio-nantes sociais e até culturais. Este padrão alimentar é designado por padrão alimentar ocidental, onde os erros alimentares apontados são vários, e inclui: • Excesso de fornecedores de hidratos de carbono,
com predomínio de produtos cerealíferos empo-brecidos, de açúcar e de refrigerantes;
• Excesso de bebidas alcoólicas;
• Quantidade de gorduras muito superior ao limite saudável;
• Abandono de leguminosas secas;
• A carne, peixe e ovos preenchem cada vez mais o espaço dos fornecedores proteicos, em detri-mento dos de origem vegetal;
• Só por excepção, hortaliças, legumes e frutos. Ainda neste contexto, Peres (1994) diz-nos que no nosso país pesam negativamente algumas
circunstân-cias bem documentadas e aponta-nos: consumo de bebidas alcoólicas por crianças, comida escassa ou mal combinada, primeiro almoço insuficiente ou ine-xistente; intervalos longos entre as refeições, porque falham merendas.
Diz mais: «Os nossos jovens púberes e adolescentes cometem muitos erros.» Principalmente em meio urbano verifica-se o seguinte: «38% bebem cerveja, 11% vinho e 8% bebidas destiladas; 54% não meren-dam a meio da manhã e 26% não o fazem durante a tarde; 6% não tomam o pequeno-almoço; comem fri-tos regularmente 96%; 46% comem pastéis e 76% adoçam bastante tudo o que bebem» (op. cit., p. 194). Os meios urbanos mostram-se mais vulneráveis, para o que contribui a «desorganização da vida familiar, com impossibilidade de comer em casa, os horários de trabalho desencontrados, ... a má comida das can-tinas e restaurantes...». Refere-nos também que, à medida que uma população se urbaniza, mesmo quando o poder de compra não melhora grande-mente, a tendência é para romper com tradições ali-mentares e simular comportamentos urbanos «de sucesso».
Mário Cordeiro (1996) é também da opinião de que os adolescentes têm erros nutricionais quantitativos e qualitativos, que, associados à falta de exercício físico e de desporto, levam a que muitos adolescentes tenham peso em excesso, celulite, carências vitamíni-cas e de cálcio e que sofram de tal modo que ao olharem para o espelho não gostam daquilo que vêem.
Nos últimos anos, segundo Dias Cordeiro (1994), assiste-se a um conjunto de vicissitudes que, ao con-trário de constituírem um enquadramento pedagó-gico e um conjunto de identificações estáveis, intei-ramente indispensáveis, dão ao adolescente uma descrição dos adultos e da sociedade que pode ser fortemente negativa, condicionando as vivências dos adolescentes de uma forma não harmoniosa e sadia. Destacam-se, entre outras, o desmembramento da família enquanto instituição, não só pelo aumento das separações, divórcios, como pela dificuldade de comunicação verbal e de trocas afectivas, e a «crise de autoridade» dos pais e consequente demissão do seu papel de educadores. A frequente ausência de ambos os pais durante todo o dia, por trabalho absor-vente, distante de casa, pode ter como consequência a procura de conforto e comunicação por parte dos adolescentes nos grupos de pares, que podem ser marginais, associais ou mesmo anti-sociais. As solici-tações aos jovens são efectivamente de toda a ordem numa sociedade marcada pelo consumo e pela cria-ção de «necessidades» perfeitamente supérfluas. Hoje para intervir junto dos jovens é necessário saber que variáveis nos apelam, quem eles valorizam como
interlocutor privilegiado para falar de saúde e onde. Só escutando-os poderemos responder às suas preo-cupações.
Uma abordagem do adolescente é, antes de mais, uma abordagem da vida, da sociedade e da família. A família é o principal contexto onde se aprendem modos de vida que podem favorecer ou prejudicar a saúde. No seio familiar, dada a sua dimensão física e relacional, transmite-se uma cultura que inclui a da própria saúde e que influenciará o tipo de auto-cuidados e de comportamentos no presente e no futuro. Na adolescência, período de grandes opções de vida, tais conjunturas constituem-se fundamen-tais, uma vez que o jovem dá início a um processo em que se interroga e experimenta, numa busca de identidade e de novos valores, onde se estabelecem estilos de vida e comportamentos e é organizado um sistema pessoal de valores, factores que irão deter-minar o estado de saúde a médio e longo prazos (Castanheira, 1989).
Na opinião de Mott (1990), é durante a adolescência que as crenças e os valores sobre saúde são formali-zados. Porém, para muitos adolescentes as preocupa-ções com a escola, a aparência, os pares, o desporto, o seu futuro e outras são primordiais em detrimento da preocupação com a saúde. Estas prioridades podem atribuir-se ao facto de a maioria dos adoles-centes se sentir saudável. Também o facto de os ado-lescentes usarem o pensamento simbólico e hipoté-tico na resolução de problemas permite-lhes pensar a saúde e a doença num contexto mais vasto, assim como estabelecer uma relação causa-efeito para com-portamentos e doenças. Tanto na promoção de Saúde como nas condutas perante a doença, a família é apontada como a fonte primária na obtenção de informação.
Lucas (1995) também nos aponta a família como uma das principais determinantes de saúde (ou de doença) e um prestador e receptor de cuidados de saúde. Assim, a saúde de cada membro da família é afectada por determinados comportamentos familia-res, como os padrões alimentafamilia-res, exercício físico, hábitos de fumo e consumo de álcool.
Assim, da nossa vivência profissional surgiu o desejo de compreender e ao mesmo tempo procurar conciliar um contributo pessoal para a identificação dos estilos de vida da população juvenil do Centro de Saúde de Carnaxide, por um lado, e, por outro, a formulação de estratégias capazes de adequar mais as intervenções dos enfermeiros do Centro de Saúde de Carnaxide numa perspectiva personalizada, de maneira a promo-verem a saúde e bem-estar, entendidos como condição essencial para o desenvolvimento.
Pretende-se com este trabalho identificar os princi-pais problemas nos estilos de vida dos jovens e ir ao
encontro das metas de saúde para todos no ano 2000 n.os 14 e 16, as quais nos dizem, respectivamente:
• Que viver de forma saudável implica a capaci-dade de formular problemas, de encontrar as soluções, de tomar decisões e dar-lhes segui-mento, de resolver conflitos, de comunicar eficaz-mente com outrem, e vai mais longe ao dizer que «é na infância e na adolescência que estas apti-dões se adquirem com mais facilidade»;
• «Desenvolver comportamentos saudáveis» diz--nos que o comportamento saudável deve ser entendido como um esforço consciente levado a cabo pelos indivíduos com o intuito de protege-rem de uma forma activa a sua própria saúde e a de terceiros.
Porém, para que a actuação do enfermeiro seja ade-quada às necessidades da população é necessário que alguns estudos de campo sejam efectuados. Assim propusemo-nos elaborar um estudo cujo objectivo é identificar os principais problemas nos estilos de vida dos jovens da área do Centro de Saúde de Carnaxide e cuja finalidade é a elaboração de uma proposta que promova competências de autonomia, responsabili-dade e sentido crítico junto da criança/jovem, com o saber sobre quais os comportamentos mais saudáveis.
2. Variáveis
2.1. Variável dependente
Estilos de vida dos jovens do 7.o, 8.o e 9.o anos
de escolaridade
Indicadores para medir a variável dependente: • Hábitos/práticas alimentares;
• Hábitos/práticas de exercício físico; • Hábitos de higiene;
• Hábitos de sono;
• Hábitos tabágicos e outras dependências; • Práticas de comunicação com os pares; • Práticas de comunicação com a família; • Práticas e preocupações com a saúde; • Conhecimentos e práticas de sexualidade; • Expectativas futuras.
2.2. Variáveis independentes
• Idade. • Sexo.
• Habilitações literárias dos pais. • Tipo de habitação.
3. Metodologia
Uma vez definido o problema, desenvolvemos um estudo descritivo, analítico e transversal, porque, segundo Ary et al. (1982, p. 308), «os estudos desta natureza tratam de obter informação acerca do estado actual dos fenómenos. Com ele pretende-se precisar a natureza de uma situação tal como ela existe no momento do estudo. O objectivo consiste [...] colher informação que ajude a tomar decisões». E, para Polit e Hungler (1991, p. 198), «os estudos de corte transversal consistem na colheita de dados num período de tempo ou momento particular».
3.1. População/amostra
A população sobre a qual o estudo incidiu foi de 415 alunos, distribuindo-se por três turmas do 7.o, duas do
8.o e três do 9.o anos de escolaridade da Escola Vieira da
Silva, em Carnaxide. A constituição da amostra baseou--se no processo de amostragem probabilística, tendobaseou--se procedido ao sorteio das turmas (uma turma de cada ano de escolaridade). Esta foi constituída por 81 adoles-centes com idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos. Ainda numa metodologia de amostragem não probabilística casual, foi escolhida a referida localidade.
3.2. Instrumento de colheita de dados
O instrumento seleccionado para efectuar a colheita de dados foi o questionário de autopreenchimento com respostas fechadas e abertas.
O anonimato que pode conseguir-se com este método parece-nos ser um factor preponderante e que foi decisivo na nossa opção.
3.3. Pré-teste
Foi aplicado a 15 alunos das Escolas 1, 2 e 3 de Outurela (Portela); a sua aplicação fez-nos constatar que havia necessidade de pequenas alterações a duas questões, as quais foram efectuadas.
3.4. Procedimento da recolha de dados
Para aplicação do questionário foi pedida autorização ao conselho directivo da Escola Vieira da Silva, em
Carnaxide, onde lhes foi facultado um questionário e dados a conhecer os objectivos do trabalho e finali-dades do mesmo.
Uma vez na sala de aula, foram dados a conhecer aos alunos os objectivos do trabalho e pedida a sua cola-boração no estudo, informando os alunos de que não haveria limite de tempo para responderem.
O seu preenchimento procedeu-se sem dificuldades.
3.5. Procedimento de análise dos dados
O tratamento estatístico dos dados foi efectuado manualmente e por computador, usando-se para este o programa SPSS instalado no laboratório de infor-mática da Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende.
Na análise qualitativa das questões abertas os resul-tados são apresenresul-tados em quadros e o seu trata-mento foi feito através de análise de conteúdo, que, segundo Vala, citando Bardin (1986, pp. 103-104), «é a inferência que permite a passagem da descrição à interpretação enquanto atribuição de sentido às características do material que foram levantadas, enu-meradas e organizadas».
Após enumeração de todos os questionários, foi feita uma leitura flutuante na íntegra de todas as questões abertas.
Relativamente às questões que procuram identificar as preocupações e expectativas dos jovens, procedeu--se à elaboração de unidades de registo por temas que procuram transcrever o que vai no seu imaginário.
4. Apresentação e análise dos dados obtidos Neste capítulo passaremos a analisar os dados obti-dos através da aplicação do instrumento da colheita de dados. Estes são apresentados sob a forma de qua-dros.
Na apresentação dos dados omite-se o local e a data no título dos quadros, assim como fontes dos mes-mos, pois todos os dados foram obtidos através do instrumento aplicado na Escola Vieira da Silva, em Carnaxide.
4.1. Caracterização da amostra
A amostra em estudo é constituída por 81 indivíduos, correspondente a cerca de 20% da população que frequenta o 7.o, 8.o e 9.o anos de escolaridade da
Escola Vieira da Silva, em Carnaxide.
A população em estudo, no que toca à idade e ao sexo, é maioritariamente feminina (58%), como pode
ver-se no Quadro I. Verificamos ainda que este tipo de distribuição se mantém em todos os grupos etários, excepto no grupo etário dos 15 anos, em que é equivalente.
Do tratamento estatístico, verificamos que a média é de 13,07 anos, a moda de 13 anos e a mediana de 13,07 anos.
Relativamente à idade e ao ano de escolaridade, como pode ver-se no Quadro II, parece existir uma certa harmonização entre a idade e a escolaridade dos jovens em estudo. Assim, verifica-se que uma clara maioria dos que frequentam o 7.o ano são os mais
jovens, com 12 anos, a grande maioria dos que fre-quentam o 8.o ano têm 13 anos e os jovens do 9.o ano
têm 14 anos de idade. Em suma, 24 sujeitos em cada um dos casos, não havendo aqui grandes desvios sig-nificativos, o que parece apontar para uma situação de sucesso escolar.
O local onde a maioria, 57 (70,4%), dos adolescentes deste estudo reside é Carnaxide, seguindo-lhe a locali-dade de Linda-a-Velha, 14 (17,3%), o que significa, em termos de deslocação para o estabelecimento de ensino, algo vantajoso, não necessitando de apanhar vários transportes e ganhando muito tempo na deslocação. Os restantes alunos residem em zonas limítrofes. O tipo de habitação referido por 69 (85,2%) é o andar, por 10 (12,3%) é a moradia e apenas 1 (2,7%) aponta bairro de lata.
Relativamente às habilitações e profissões dos proge-nitores, não nos é possível apresentar uma relação concreta entre a profissão e as habilitações, uma vez que a questão das habilitações só foi objecto de res-postas por parte de 50,6% dos adolescentes para o pai e 51,9% para a mãe.
4.2. Descrição e análise dos estilos de vida e preocupações
No âmbito das práticas/preocupações com a saúde, os jovens foram questionados sobre problemas ou preo-cupações com a sua saúde e a quem recorriam em tais situações. Verificámos, conforme pode constatar-se no Quadro III, que os pais (48,1%) são os elementos a quem os jovens recorrem com mais frequência, pro-curando em seguida apoio em parceria para as suas preocupações ou problemas no médico de família e serviço de urgência de um hospital (19,8%). 9,9% procuram apoio apenas no médico de família. Estes resultados mostram-nos que para a maioria dos jovens os pais (família) têm um papel muito impor-tante na partilha dos seus problemas/preocupações, ao contrário de alguns preconceitos que por vezes fazem crer o contrário. Contudo, o médico de família é visto como um elemento que participa da partilha dos problemas destes jovens.
Quadro I
Distribuição dos sujeitos segundo a idade e o sexo
Idade M Percentagem F Percentagem
12 10 12,4 14 17,3 13 11 13,6 18 22,2 14 12 14,8 14 17,3 15 11 11,2 11 11,2 Total 34 42,0 47 58,0 Quadro II
Distribuição dos sujeitos de acordo com idade/ano de escolaridade Ano
Idade Total %
7.o Percentagem 8.o Percentagem 9.o Percentagem
12 24 29,63 – – – – 129,63 13 14 14,93 24 29,63 11 11,24 135,81 14 – – 12 12,46 24 29,63 132,09 15 – – 11 11,24 11 11,24 112,48 Total 28 34,56 27 33,33 26 32,11 1001,1 Quadro III
Distribuição das pessoas mais significativas a quem o jovem recorre em momentos de problemas ou preo-cupações de saúde F % Pais 39 48,1 Médico de família + S. U. 16 19,8 Médico de família 18 19,9 S. U. 14 14,9
Médico de família + S. U. + pais + amigos 14 17,3
Quando questionados a pronunciarem-se sobre as cinco mais importantes preocupações com a saúde para os jovens da sua idade, verificamos, como nos mostra o Quadro IV, que a SIDA e a droga aparecem como as primeiras preocupações, com 25,9%, e as relações com os pais como a segunda preocupação, com 16,0%.
Como segunda preocupação, obtiveram-se os mes-mos temas, diferindo apenas as percentagens; assim, a droga é apontada por 39,5%, a SIDA por 21,0% e as relações com os pais por 11,1%.
Como terceira preocupação, apontaram o insucesso escolar 17,3%, o álcool 16,0% e as relações com os pais 16,0%.
Como quarta preocupação é referido o insucesso escolar (17,3%), o álcool (14,8%) e a sexualidade (13,6%).
Finalmente, como quinta e última preocupação, o insucesso escolar (19,8%) foi apontado novamente pela maioria e a sexualidade (18,5%).
A par das duas grandes preocupações (a SIDA e a droga), uma outra não menos importante é o insu-cesso escolar. Se efectuarmos um somatório às preo-cupações, constatamos que o insucesso escolar é, no conjunto, a que mais aflige os jovens deste estudo. Estes dados poderão estar relacionados, por um lado, com a pressão de que são alvo no seio familiar e, por outro, com a grande competição que cada vez mais se trava com a entrada na faculdade. Outras preo-cupações também merecem ser referenciadas, como são os casos do álcool e das relações com os pais, dadas as implicações que têm nos adolescentes. A preocupação «relações com os pais» pode apontar--nos uma tentativa de busca da sua autonomia/iden-tidade e de novos valores. Este processo cria tensões entre o jovem e quem o rodeia e, caso não sejam bem geridas, poderão traduzir-se em graves perturbações.
Numa tentativa para melhor compreendermos a comunicação que é estabelecida por parte dos adoles-centes com os seus familiares, questionaram-se estes relativamente às relações com os pais. Verificamos que 56,8% dos jovens consideram-nas muitos boas, 29,6% boas e 12,3 regulares. Estes dados vêm con-firmar o que tínhamos verificado anteriormente, ou seja, são os pais as pessoas a quem recorrem quando têm preocupações/problemas.
Quanto à partilha das alegrias/tristezas, verifica-se que 25,9% dos jovens optam pelos pais em parceria com o melhor amigo para a partilha desses momen-tos. Como únicos confidentes para estes momentos, os jovens referem os pais (19,8%) e o melhor amigo (13,6%). Estas percentagens mostram-nos que os pais não são o único confidente primordial, como seria de esperar nesta idade; o melhor amigo ocupa um lugar de destaque, o que está de acordo com a bibliografia. Contudo, os pais continuam a merecer um lugar de destaque, o que poderá ir contra alguns preconceitos existentes quanto a esta matéria. Quando questionados para enumerarem por ordem mais importante cinco problemas para os jovens da sua idade, verificamos que as relações com os pais são o problema que consideram mais importante, sendo referido por 88,9%. Estes valores poderão indicar-nos, como já foi referido anteriormente, uma busca de autonomia/independência, e não, como a priori poderia deduzir-se, que seria um problema efectivo de relação pais/filhos, dado que outros dados encontrados neste estudo revelam o contrário. Como segundo problema que mais os preocupa, apontam a sexualidade (42,0%). A alimentação surge como o terceiro problema que mais os preocupa. Em quarto lugar foram referidos os tempos livres (39,5%) e como quinta preocupação é apontado o insucesso escolar, sendo um problema para 72,8%.
Quadro IV
Preocupações mais importantes para os jovens segundo a ordem de prioridade Prioridade
Problema Totais
1.a 2.a 3.a 4.a 5.a
SIDA 21 17 18 19 15 60
Droga 21 32 17 – – 60
Relações com os pais 13 19 13 16 17 48
Insucesso escolar 12 15 14 14 16 61
Sexualidade 15 15 18 11 15 44
Problemas com a pele 15 17 – 16 12 30
Álcool – – 13 12 18 33
Alimentação – – – 19 – 19
Tempos livres – – – – 16 16
Outros 14 16 18 14 12 54
Quanto aos conhecimentos e práticas de sexualidade e relativamente à informação sobre sexualidade, constatamos que todos (100%) os jovens referem possuírem conhecimentos sobre sexualidade. Quando questionados sobre o tipo de informação que pos-suem, constata-se que 93,8% referem as doenças sexualmente transmissíveis, 81,5% mencionam a reprodução e 70,3% os métodos contraceptivos. Quanto à fonte que lhes forneceu essa informação, como pode verificar-se através do Quadro VII, a mãe (59,3%) é apontada como o meio que mais informa-ção lhes forneceu, o que de certa forma vem confir-mar o papel clássico que cabe à mãe nesta matéria. Contudo, o pai já aparece referido por 42,0% dos adolescentes, o que lhe traz um papel mais activo nesta matéria. Os livros surgem referenciados por 50,6% e a escola por 48,1%.
A escola é mencionada por 48,1% dos adolescentes, o que poderá estar relacionado com os programas escolares onde estes temas são abordados, ou poderá estar relacionado com os conhecimentos adquiridos na educação para a saúde levada a cabo pelos vários
técnicos. Estes dados revelam a importância destes espaços conjuntos, cuja finalidade é a mesma. Os amigos, tal como a bibliografia refere, desempe-nham um papel importante em todo este processo de aquisição de conhecimentos sobre a sexualidade para cerca de 30% dos adolescentes.
Quanto a métodos contraceptivos e se estes são usa-dos pelos jovens, verifica-se que 80,2% não os usam porque ainda não são sexualmente activos, 16,0% dos que são sexualmente activos não usam qualquer método contraceptivo e apenas 2,5% referem o cui-dado de os usarem sempre. Uma jovem de 13 anos refere-nos, quanto a este aspecto, «não sei o que são métodos contraceptivos».
Apesar de não se terem estudado todos os aspectos sobre a sexualidade, existem dados que preocupam qualquer técnico de saúde, uma vez que existem jovens que referem não usarem qualquer método contraceptivo e outros que não sabem o que são métodos contraceptivos. Estes dados indicam-nos que algo pode estar a falhar junto destes adolescen-tes, como a educação para a saúde.
Quadro V
Distribuição das pessoas mais significativas na partilha de alegrias/tristezas
F Percentagem
Pais + melhor amigo 21 125,9
Pais 16 119,8
Melhor amigo 11 113,6
Pais + irmãos 19 111,1
Irmãos 17 118,6
Irmãos + melhor amigo 15 116,2
Outros 12 114,8
Total 81 100,1
Quadro VI
Problemas mais importantes para os jovens
1.o 2.o 3.o 4.o 5.o
Relações com os pais 72 11 – – –
Sexualidade 17 34 – – –
Alimentação – 17 32 10 –
Tempos livres – – 15 32 14
Insucesso escolar – – – 17 59
Droga – – 11 30 15
Problemas com a pele – 24 17 11 –
Álcool 12 15 16 – –
Total 81 81 81 80 68
Quadro VII
Fonte de informação mais significativa sobre sexuali-dade F Percentagem Mãe 48 59,3 Livros 44 54,3 Escola 39 48,1 Televisão 37 45,7 Pai 34 42,0 Amigos 25 30,9
Quanto aos hábitos e práticas alimentares, sentimos a necessidade de agrupar os alimentos/bebidas em gru-pos, dada a diversidade de alimentos/bebidas referi-dos. Assim, os alimentos/bebidas foram agrupados mediante a classe de nutrientes fornecidos por cada alimento/bebida.
Deste modo, fomos verificar o número de refeições feito por cada adolescente e constatámos, como pode ver-se no Quadro IX, que fazem, em média, quatro refeições por dia. Todos eles almoçam e jantam. 93,8% dos adolescentes deste estudo tomam o pequeno-almoço. E 29,6% dos adolescentes fazem uma refeição a meio da manhã. A quase totalidade dos adolescentes (97,5%) lancha. Seis (7,4%) refe-rem tomar apenas três refeições por dia e cinco (6,2%) destes não mencionam tomar o pequeno--almoço. É feita uma ceia por 16,0% do total dos adolescentes.
Uma substancial maioria (75,3%) ingere duas a três vezes por dia leite e iogurte, factor importante no equilíbrio nutricional da vida do jovem, dado o seu estado de maturação física.
Tendo em consideração estes dados, verificamos que 29,6% fazem uma refeição a meio da manhã, o que significa que existe um grande número de adolescen-tes que fazem intervalos muito grandes entre as refei-ções, principalmente no período da manhã. 6,2% não fazem o pequeno-almoço, aspecto que se considera significativo, dado que a ingestão desta refeição parece influenciar positivamente a atenção e a apren-dizagem no final da manhã (Águas e Fonseca, 1996, citando Spyckerelle et al).
Alguns destes dados vão de encontro ao que Peres (1994) descreve sobre os erros alimentares dos jovens portugueses em meio urbano, ou seja, este autor refere-nos que 54% dos jovens não merendam a meio da manhã e 6% não tomam o pequeno--almoço. É de salientar a enorme semelhança entre estes dados e os referidos pelo autor.
Estes dados também podem ser confrontados com o estudo de Águas e Fonseca (1996); quanto aos resul-tados encontrados por estes autores, verificámos
algumas diferenças quanto à percentagem daqueles que tomam uma refeição a meio da manhã. Estes autores encontraram 89% a fazerem o pequeno--almoço, 61% dos adolescentes a fazerem uma refei-ção a meio da manhã e, relativamente à ceia, encon-traram 53% a fazer este tipo de refeição. O nosso estudo encontrou 54% para a refeição a meio da manhã e 16% dos adolescentes a referirem que faziam ceia.
Quanto aos alimentos que os adolescentes comem com mais frequência e consideram fazerem-lhes bem à saúde são apontados, como pode verificar-se no Quadro X, carne, peixe, leite e derivados e ovos (88,9%), hortaliças e legumes (72,8%), fruta (69,1%) e cereais e produtos derivados (7,4%).
É de salientar que, dos alimentos referidos, não foram mencionadas uma única vez as leguminosas secas, o que de certa forma poderá dizer-nos que os hábitos alimentares destes adolescentes se contextua-lizam cada vez mais no chamado padrão alimentar ocidental, onde o abandono da leguminosas secas é uma das suas características. Uma excepção ao refe-rido padrão refere-se ao consumo de hortaliças, legu-mes e frutas (Peres, 1994), o que está de acordo com os dados encontrados neste estudo.
Apesar disso, existem 6,1% de adolescentes que refe-rem a sopa como um alimento óptimo para a sua saúde; tal facto poderá levar-nos a pensar que esta-mos em presença de famílias que mantêm os valores culturais mais tradicionais.
Quadro VIII
Distribuição do uso de métodos contraceptivos
F Percentagem
Sexualmente não activo 65 80,2
Não usa 13 16,0
Usa sempre 12 12,5
NR 11 11,2
Total 81 100,11
Quadro IX
Distribuição do número de refeições/dia
Número Percentagem 3 refeições 16 17,4 4 refeições 41 50,6 5 refeições 29 35,8 6 refeições 15 16,2 Total 81 100,11 Quadro X
Distribuição dos alimentos considerados benéficos para a saúde e ingeridos frequentemente
Grupo de alimentos Número Percentagem
Carne/peixe/leite e derivados/ovos 72 88,9
Hortaliças/legumes 59 72,8
Fruta 56 69,1
Cereais e produtos derivados 16 17,4
Relativamente aos alimentos que os adolescentes comem com mais frequência e que consideram pre-judiciais à sua saúde, temos, como nos mostra o Quadro XI, 86,4% dos adolescentes a fazerem refe-rência a bolos, chocolates e gelados como sendo aqueles que ingerem mais frequentemente, sabendo, contudo, que lhes são prejudiciais à saúde. Seguem--se, com 39,5%, os fritos, carnes gordas, hamburgue-res e enchidos.
Estes valores são concordantes com aquilo que Peres (1994) nos relata sobre os erros alimentares dos jovens portugueses.
Para além dos alimentos referidos anteriormente, os adolescentes apontam outros, como queijo, manteiga, alimentos com muita vitamina C e conservas, como prejudicais à sua saúde. Destes argumentos podere-mos deduzir que os seus conhecimentos sobre o valor nutritivo dos alimentos e sobre os seus benefícios/ malefícios para a saúde não serão os mais adequados. Quanto às bebidas ingeridas pelos adolescentes e consideradas benéficas para a sua saúde, constata-se, conforme o Quadro XII, que as bebidas mais refe-renciadas pelos adolescentes são os sumos naturais/ batidos (96,3%), a água (87,6%) e o leite/iogurte (51,8%).
É de salientar que 3,7% dos adolescentes consideram a Coca-cola como bebida boa para a sua saúde; este dado leva-nos a supor o quanto são influenciados os jovens pelas características das sociedades modernas, onde o consumo de alguns produtos se faz passar com as mais variadas ilusões.
As bebidas que os adolescentes ingerem com mais frequência e sabem ser uma ameaça à sua saúde,
como pode ver-se no Quadro XIII, apontam para os refrigerantes (85,2%), a cerveja (8,6%), o vinho (6,2%) e as bebidas destiladas (4,9%). Estes últimos valores relativos às bebidas alcoólicas (cerveja, vinho e bebidas destiladas), que perfazem 19,7%, são valo-res preocupantes, dada a idade dos indivíduos em estudo.
Os valores encontrados nesta questão mais uma vez vão de encontro àquilo que Peres (1994) nos des-creve sobre os hábitos dos jovens portugueses e dizem-nos que 11% bebem regularmente vinho e 8% bebidas destiladas. Os dados aqui apresentados pode-rão estar relacionados com o facto de o consumo do álcool ser um costume entre a nossa população e em algumas regiões desde tenra idade, não sendo alvo de reprovação social explícita. Por outro lado, podemos deduzir que tal comportamento poderá estar asso-ciado ao meio circundante, onde o jovem vai pro-curar os seus modelos de identificação.
Ao analisarmos em conjunto as questões relativas aos hábitos/práticas alimentares, os resultados encontra-dos parecem indicar-nos que o comportamento ali-mentar destes grupos de adolescentes possui determi-nadas características que nos levam a pensar numa menor qualidade alimentar, dado que estão numa fase em que o crescimento é muito rápido e, portanto, têm necessidades acrescidas de nutrientes. Sendo o com-portamento alimentar à base de bolos, refrigerantes e fritos, implica um esforço dos técnicos da educação para a saúde de poderem ainda em tempo útil incutir--lhes hábitos alimentares adequados.
Esta maneira de comer excessivamente calórica, nutricionalmente desequilibrada e tóxica leva-nos a pensar em doenças metabólicas e degenerativas a médio e longo prazo, uma vez que os padrões ali-mentares adoptados nesta fase da vida irão, com cer-teza, servir de base aos hábitos futuros, sendo certa-mente bastante difícil sofrerem alterações.
Também não podemos esquecer razões frequente-mente apontadas para este mau comer que cada vez mais estão condicionadas, sem dúvida, pelos apelos dos novos alimentos e pelas novas formas de organi-zar as refeições e lanches. Embora não tenhamos
Quadro XI
Distribuição dos alimentos considerados prejudiciais para a saúde e ingeridos frequentemente
Número %
Bolos/gelados/chocolates 70 86,4 Fritos/carnes gordas/hamburgueres e enchidos 32 39,5
NS/NR 12 12,5
Quadro XII
Distribuição das bebidas ingeridas mais frequentemente e considerados benéficas para a saúde
Bebidas Número Percentagem
Sumos naturais/batidos 78 96,3
Água 71 87,6
Leite/iogurtes 42 51,8
Coca-cola 13 13,7
Quadro XIII
Distribuição das bebidas ingeridas mais frequentemente e consideradas prejudiciais à sua saúde
Bebidas Número Percentagem
Refrigerantes 69 85,2
Cerveja 17 18,6
Vinho 15 16,2
Café/chá preto 14 14,9
estudado nesta população os factores que determi-nam estes hábitos/práticas alimentares, sabemos da bibliografia e de outros estudos que este caracterís-tico modo de se alimentar pode advir cada vez mais de novos estilos de vida, de horários laborais e escolares desencontrados, da gestão diferente do tempo para afazeres domésticos e da mudança da natureza dos bens alimentares mais acessíveis, ou seja, de uma cada vez mais alimentação praticada fora de casa, principalmente nos snack-bars, ham-burger-houses, self-services...
Quanto às práticas de comunicação com a família, e considerando as horas de refeições como momentos privilegiados para este momento de partilha, questio-naram-se os jovens quanto à companhia que têm durante as mesmas. Como pode verificar-se no Qua-dro XIV, 38,3% dos jovens apontam a família como a companhia no momento das refeições, no entanto com o televisor ligado. Este instrumento poderá constituir um obstáculo a uma das actividades mais importantes em todos as famílias, dado que constitui uma das melhores formas de ensinar as crianças a interagirem no seio de um grupo. 35,8% fazem as refeições apenas com a família. A família mais os amigos são apontados por 16,0% e 6,2% dos adoles-centes referem tomarem as refeições sozinhos. Estes últimos adolescentes também fazem parte daqueles que estão preocupados com as relações com os pais. Estes dados constituem uma preocupação para os técnicos de saúde, dado o abandono a que poderão estar votados; por outro lado, estes jovens pouco acompanhados têm um risco acrescido de se sentirem sós (deprimidos) e/ou de mais facilmente serem desencaminhados pelos seus pares, que poderão influenciar negativamente o seu comportamento. Também podemos pensar que modelos estes jovens adoptam, uma vez que é ao meio social circundante que o jovem vai procurar os seus modelos de identi-ficação.
Relativamente aos hábitos tabágicos e outras depen-dências, constata-se que 6,1% têm hábitos tabágicos,
referindo fumar entre um e cinco cigarros por dia e um jovem refere fumar entre seis e dez cigarros/dia. Consoante o número de cigarros fumados diaria-mente, considerou-se:
• Sem hábitos — se não fuma;
• Ligeiros — se respondeu 1 a 5 cigarros/dia; • Moderados — se respondeu 6 a 10 cigarros/dia. Deste modo, verifica-se que cerca de 6% têm hábitos tabágicos ligeiros e só um indivíduo tem hábitos moderados. Se analisarmos estes resultados com dados de outros estudos (Águas e Fonseca, 1996), poderemos verificar que os jovens deste estudo apre-sentam, em termos percentuais e relativamente ao tabaco, o dobro dos valores encontrados pelas auto-ras anteriores, que verificaram que 3% tinham hábito de fumar, 7% consumiam álcool e 3% consumiam substâncias ilícitas.
O uso do tabaco no jovem poderá estar associado ao acto de ser adulto, à sociabilidade; no entanto, não verificámos a razão do seu uso, o que implicaria outro estudo.
Relativamente à questão se conhecem na escola alguém que já tenha experimentado drogas ilícitas, verifica-se que 9,9% dos jovens referem conhecer alguém na escola que já tenha experimentado. Quando questionados se já tinham experimentado drogas ilícitas, apenas dois jovens (2,46%) referem que sim e um deles refere-nos que teve essa experiên-cia aos 13 anos. Estes dados, quando confrontados com os valores anteriores (se conhece alguém na escola que já tenha experimentado: 9,9%), levam--nos a supor que os jovens tenham receio de dizer a verdade, uma vez tratar-se de uma questão bastante reprimida socialmente. Tal pressuposto é apoiado num comentário de uma jovem de 13 anos que nos refere: «[...] há muita boa gente que não responde a verdade sobre fumar, álcool e fumar erva, etc., não diz a verdade por medo.»
Quanto aos hábitos de café, considerou-se, conforme o número de cafés bebidos por dia:
• Não tem — se não bebe café; • Ligeiros — se respondeu um;
• Moderados — se bebe mais de dois cafés por dia. Assim, verificou-se que 16,0% dos jovens têm hábi-tos ligeiros de beber café. Se, por um lado, pensar-mos que o hábito de beber café no jovem poderá ser um modo como está a realizar-se a «identificação com o mundo dos adultos», a maneira como o stress é gerido e como é suprida a falta de repouso, perante os resultados encontrados, podemos deduzir que os jovens não recorrem a esta droga lícita como meio de
Quadro XIV
Companhia que os adolescentes têm no acto das refei-ções
F Percentagem
Família + televisor ligado 31 38,3
Família 29 35,8
Família mais amigos 13 16,0
Sozinho 15 16,2
NR 13 13,7
superarem a falta de repouso ou gestão do seu stress. Tal comportamento leva-nos a pensar que será mais um processo de identificação com o mundo dos adul-tos, o que está de acordo com o que é descrito na bibliografia.
Quanto ao número de horas despendidas para a prá-tica de exercício físico fora da escola, verifica-se que 35,8% dos jovens referem praticar exercício físico entre uma e duas horas semanais. 30,9% despendem entre três e cinco horas semanais e 14,8% não fazem qualquer desporto fora das horas escolares durante a semana. É de referir que apenas 8,6% revelam ter por hábito a prática de exercício físico fora da escola com uma carga horária superior a dez horas sema-nais. Constata-se, conforme o Quadro XV, que 50,7% dos jovens não têm por hábito a prática de exercício físico. Estes dados levam-nos a supor que estes jovens não conhecem verdadeiramente os benefícios (imediatos e a longo prazo da prática do exercício físico) deste hábito. Por outro lado, estes dados implicam que os técnicos, na educação para a saúde, ajudem os jovens a consciencializar-se dos benefícios de uma actividade física como modo de prevenir as doenças ditas das sociedades modernas (stress, obe-sidade, doenças cardiovasculares).
Quanto ao número de horas passadas a ver televisão, verifica-se que 53,1% dedicam entre uma e duas horas diariamente, 22,2% passam entre três e quatro horas e 13,6% passam mais de quatro horas a ver televisão.
Se analisarmos em conjunto o número de horas despendidas por semana para a prática de desporto/ exercício físico e o número de horas passadas a ver televisão diariamente, verifica-se que os dados obti-dos parecem apontar para um estilo de vida clara-mente sedentário, uma vez que 50,7% dos jovens não fazem exercício físico ou apenas o fazem entre uma e duas horas por semana e 35,8% passam três ou mais horas a ver televisão por dia.
Perante estes dados, poderemos pensar num estilo de vida sedentário; no entanto, estes dados são reforça-dos se considerarmos que 14,8% não praticam qual-quer actividade física e 13,6% dos jovens passam mais de quatro horas por dia em frente do televisor. Estes valores mostram-nos o quanto é necessário intervir junto do jovem e família de maneira a cons-ciencializar as populações para a prática da activi-dade física como promotora da saúde física e mental. Porém, constata-se que 17,2% dos jovens têm por hábito praticarem uma actividade física e que esta lhes ocupa seis ou mais horas por semana, o que leva a crer que estejamos em presença de um grupo de jovens com características diferentes dos jovens anteriores. Quanto aos hábitos de sono e a partir do número de horas de sono que os jovens mencionaram dormir diariamente, considerou-se:
• Bons — entre 8 e 9 horas; • Razoáveis — 7 ou 10 horas;
• Não adequados — se < 7 e > 10 horas. Da análise ao Quadro XVII, podemos deduzir que os hábitos de sono dos jovens apontam para hábitos adequados a um desenvolvimento harmonioso no adolescente, uma vez que 71,6% dos jovens têm hábitos de sono que podem considerar-se como bons e 25,9% como razoáveis. Estes dados levam-nos a pensar que os jovens têm consciência de que o hábito de sono é parte essencial dos nossos hábitos de saúde e bem-estar, permitindo tirar o máximo de rendi-mento escolar. Tal hábito também será compreendido pela família, dado que o jovem ainda se mantém muito ligado a esta.
Quadro XVI
Distribuição das horas passadas a ver televisão
Número de horas/dia F Percentagem
< 1 18 19,9 1 a 2 43 53,1 3 a 4 18 22,2 > 4 11 13,6 NR 11 11,2 Total 81 1001,1 Quadro XV
Distribuição das horas de exercício físico numa semana
Número de horas/semana F Percentagem
0 12 14,8 1 a 2 29 35,9 3 a 5 25 30,9 6 a 10 17 18,6 > 10 17 18,6 NR 11 11,2 Total 81 1001,1 Quadro XVII
Distribuição das horas de sono
Horas de sono F Percentagem
7 horas/dia 13 16,0 8 horas/dia 30 37,0 9 horas/dia 28 34,6 10 horas/dia 18 19,9 > 10 horas/dia 12 12,5 Total 81 1001,1
Relativamente ao que mais gostam de fazer nos seus tempos livres, e conforme o Quadro XVIII, os jovens deste estudo indicam-nos que gostam de passar as suas horas de lazer na rua com os amigos (24,7%), a ver televisão (17,3%), a fazer desporto (17,3%) e a jogar no computador (11,1%). Estes valores parecem apontar para o que se constatou antes relativamente ao exercício físico, onde a percentagem é a mesma. O estar na rua com os amigos é para estes jovens uma forma de lazer das que mais apreciam, o que demonstra aquilo que é referido na bibliografia acerca dos amigos nesta idade.
O adolescente é apontado grande parte das vezes como um indivíduo sem preocupações relativamente ao seu futuro; contudo, e contrariamente a algumas ideias preconcebidas, tem preocupações e vive-as intensamente.
Neste sentido, questionaram-se os jovens sobre duas dimensões relativas a esse futuro, o que os faria mais felizes e aquilo que mais receiam. Através de análise de conteúdo, analisámos os dados relativos à pri-meira dimensão — as expectativas. Apesar de as declarações dos jovens serem sintéticas, é com cla-reza que nelas se destacam alguns temas, os quais serão referenciados segundo a maior frequência: • Valores universais;
• Família;
• Emprego/trabalho; • Saúde/qualidade de vida; • Processo de escolaridade.
Quanto ao primeiro tema — valores universais —, conforme pode ver-se no Quadro XIX, destaca-se a importância de valores terminais, como a paz, a feli-cidade e a amizade. Podemos verificar também uma preocupação com a sua felicidade e com a felicidade dos outros, uma preocupação com o ter amigos, aspectos que parecem apontar para necessidades de
partilha e para uma atitude altruísta destes jovens. Uma outra preocupação apontada pelos jovens é um dos maiores flagelos deste final de século nas socie-dades ocidentais — a droga; esta preocupação parece apontar para o problema que a droga coloca aos jovens nos mais variados projectos de vida, e daí ansiarem que ninguém tomasse drogas.
Dois outros aspectos apontados pelos jovens nas suas asserções são a violência e a prostituição. Dos seus argumentos podemos deduzir que a vida teria outro sentido se não existissem tais comportamentos. Outros sujeitos falam-nos ainda de «coisas» novas, como a ecologia, tema que os adultos só agora começam a abordar e a mostrarem-se preocupados. Tais argumen-tos levam-nos a pensar que os jovens de hoje vêem no ambiente a grande preocupação para a humanidade. Quanto ao segundo tema mais referenciado — a família —, verificamos que a família é para o jovem algo importante, quer no sentido de vir a constituí-la, como também a mantê-la e/ou preservá-la por perto. Das afirmações podemos deduzir que o jovem vê na família o modelo que lhe permite o reconhecimento de si mesmo.
Relativamente aos que dizem quererem constituir família, verifica-se que 19,8% referem desejarem ter um(a) bom(a) companheiro(a) e sete (8,7%) dizem desejarem ter filhos.
O tema emprego e trabalho surge-nos como o ter-ceiro mais referenciado pelos jovens num total de cinco referências, o que de certo modo poderá apon-tar para um problema muito actual e que atinge nomeadamente aqueles que procuram o primeiro emprego. Esta preocupação também poderá apontar para o facto de se verem mais limitados quanto à sua independência económica e o constituírem família. Outros parecem ser mais ambiciosos e têm como expectativas conseguirem «um bom emprego», «uma boa profissão». Este facto leva-nos a reflectir sobre o significado do dinheiro para os adolescentes.
Trata-Quadro XVIII
Distribuição das actividades nos tempos livres
F Percentagem
Rua com os amigos 20 24,7
Televisão 14 17,3 Fazer desporto 14 17,3 Jogar no computador 19 11,1 Ler 16 17,4 Dormir 16 17,4 Namorar 15 16,2
Conjunto das várias anteriores 17 18,4
Total 81 100,1
Quadro XIX
Expectativas relativas a valores universais
Não haver guerra 8
Paz 8
Não existir violência na rua 3
Amizade 6
Ter sempre amigos 7
Ser feliz 6
Ver os outros felizes e com saúde 7
Ninguém tomasse drogas 5
Acabar com a fome 5
Abrigar os mendigos 1
Poluição 3
-se, na verdade, de algo carregado de simbolismo, podendo significar poder ou dádiva. Pode também assumir um valor excessivo e transformar-se no cen-tro das principais preocupações do adolescente. Tal aspecto poderia ser abordado em futuros estudos, o que constituiria por certo matéria interessante para ser estudada.
Quanto ao quarto tema (de cinco referências) — saúde/ qualidade de vida —, podemos deduzir das suas declarações que o ter saúde é para os jovens algo que os preocupa bastante, onde apontam o medo pelas doenças incuráveis e a SIDA, verificando-se também uma preocupação quanto ao «viver bem» e «ter uma casa razoável». Estes aspectos poderão estar relacio-nados com as dificuldades que a família tem em conseguir uma casa própria.
Quanto ao último tema (quinto) — processo de escolaridade —, verificamos que existe uma preo-cupação quanto à continuidade da escola, centrando--se na entrada para a faculdade e o tirar o curso dese-jado. Outros referem que seriam mais felizes se conseguissem melhorar as notas ou mesmo acabar a escola e um outro jovem refere «tornar-me o melhor aluno».
Ainda dentro das expectativas, e no geral, verifica-mos a existência de três situações que merecem a sua referência em particular, dado que nos parecem sig-nificativas e não se enquadrarem nos agrupamentos que mencionámos anteriormente. Assim, uma jovem aponta aspectos que têm a ver com a sua imagem corporal, «ser mais magra, ser um pouco mais alta...», aspectos estes importantes na procura da auto-imagem nesta fase de desenvolvimento. Um segundo refere-nos uma preocupação com os pares, «que a relação com os amigos melhorasse», e um terceiro mostra preocupação quanto aos progenitores, «que os meus pais deixassem de fumar».
Relativamente ao que mais receiam no futuro (segunda dimensão), verificamos nos seus argumen-tos os seguintes temas, respeitando a ordem pela qual obtiveram a maior frequência:
• Valores universais; • Doenças;
• Emprego; • Família; • Escola.
Quanto ao primeiro tema — valores universais —, conforme pode verificar-se no Quadro XX, constata-mos alguns valores e preocupações que já tinham sido anteriormente referidos como valores terminais, a prostituição, a poluição, o emprego e a família. Constata-se que o grande receio que existe é relativo à morte, quer seja do próprio, quer daquelas pessoas
mais significativas, podendo estes receios ter a ver com o facto de o jovem viver a vida muito intensa-mente; por outro lado, esta situação perturba-o, pois o jovem ainda está muito dependente da família. Outros apontam a droga e o receio de se meterem na droga: tais preocupações no jovem levam-nos a pen-sar sobre os problemas que estão em causa no pro-jecto de vida e no meio familiar de qualquer jovem. Também poderão estar relacionadas com os vários projectos existentes a nível escolar e com a ênfase que é dada agora à toxicodependência. Outros ainda referem o receio sobre a pobreza, o não terem condi-ções para viverem, o viverem em zonas impróprias ou viverem numa barraca. Estes jovens que apontam o viver numa barraca ou em zonas impróprias para viver são filhos de pais com profissões diferenciadas (médicos, bancários, professora). Este receio talvez esteja associado ao conhecimento dos problemas sociais que geralmente se relacionam com essas zonas. Por outro lado, leva-nos a pensar que poderão estar relacionados com as zonas limítrofes da sua área de residência.
Quanto ao segundo tema — problemas de saúde —, é de referir a importância que este assume perante os jovens. Este facto que os preocupa poderá estar asso-ciado a doenças, como a SIDA ou o cancro, como pode verificar-se no Quadro XXI, onde o apanhar doenças graves, doenças incuráveis, constitui um sério receio. Estes dados poderão apontar para um
Quadro XX
Receios relativos aos valores universais
Guerra 13 Solidão 19 Morte do próprio 17 Morte de familiares/namorada 15 Droga 13 Fome 11
Não ter condições para viver 14
Ser pobre 14
Ser infeliz 12
Poluição 14
Prostituição 12
Quadro XXI
Receios relativos aos problemas de saúde
Apanhar SIDA 18
Ter doenças 18
Apanhar doenças graves 17
Contrair o cancro 15
Ter doenças sem cura 15
Não ter saúde 12
conhecimento mais alargado sobre os malefícios que tais doenças provocam. Estas afirmações levam-nos a pensar que estes receios de algum modo poderão vir a constituir uma influência benéfica sobre os estilos de vida dos mais jovens.
Outros temas que já tinham sido objecto de referên-cia nas expectativas tornam a sê-lo nos receios: são o emprego, a família e a escola. Quanto ao emprego, apontam o receio de não terem trabalho, de não con-seguirem arranjar um emprego. Quanto ao processo escolar, verifica-se que os jovens demonstram preo-cupação quanto ao insucesso escolar, o não tirarem o curso que desejam, estando estes dados de acordo com o que nos refere Mott (1990). Este dado poderá estar relacionado com as dificuldades de acesso ao ensino superior e ao primeiro emprego. Deste modo, a escola torna-se altamente competitiva, uma vez que melhores resultados escolares predispõem a uma maior probabilidade de sucesso social. Poderá tam-bém relacionar-se com a pressão exercida sobre os jovens dos seus familiares.
5. Conclusões e sugestões
A família é para 48,1% dos jovens o primeiro recurso que procuram para a partilha dos seus problemas/ preocupações com a saúde. O médico de família e o serviço de urgência são, a seguir à família, aqueles a quem os jovens recorrem para encontrarem resposta às suas preocupações.
As primeiras cinco preocupações com a saúde são para estes jovens, e por ordem de prioridade, a SIDA e a droga, com 25,9% cada uma, as relações com os pais, o insucesso escolar e a sexualidade. É impor-tante destacar que o insucesso escolar foi o aspecto que mereceu um maior número de referências, 61 jovens (75,3%), apesar de surgir apenas como quarta preocupação.
No que diz respeito aos problemas que mais preo-cupam os jovens, destacam-se em primeiro lugar as relações com os pais, apontadas por 88,9%. Embora se verifique que as relações com os pais sejam gran-des preocupações para os jovens, estas são conside-radas por 56,8% como muitas boas e por 29,6% como boas. Reforçando este dado, verificou-se que para partilharem as alegrias e tristezas os jovens escolhem os pais, juntamente com o melhor amigo, como as pessoas que maior confiança lhes mere-cem.
Apesar do que foi referido anteriormente, existem 6,2% dos jovens que referem tomarem as refeições sozinhos, aspecto que não pode deixar de constituir uma preocupação para os técnicos de saúde, dada a solidão a que poderão estar votados estes jovens.
Retomando os problemas que mais preocupam os jovens, verificou-se que a sexualidade é o segundo problema que mais os aflige, seguindo-se-lhe a ali-mentação, os tempos livres e o insucesso escolar. Sobre sexualidade, dizem 93,8% terem conhecimentos sobre doenças sexualmente transmissíveis, 81,5% sobre reprodução e 70,3% sobre métodos contraceptivos. No que diz respeito a esta questão, encontramos um jovem que refere não saber o que são métodos contra-ceptivos; no entanto, ficamos na dúvida se é uma difi-culdade relativa a uma palavra menos usual ou se será devido a nunca ter ouvido falar sobre o assunto. Os conhecimentos que possuem foram transmitidos em primeiro lugar pela mãe, seguindo-se os livros, a escola e em quarto lugar a TV. O pai como interlocutor neste âmbito surge apenas em quinto lugar.
Dos sujeitos que são sexualmente activos, 16,0% dos jovens referem não usarem qualquer método contra-ceptivo e 2,5% referem usarem sempre um método contraceptivo.
Relativamente à alimentação, ela parece estar ainda longe de poder ser considerada equilibrada, quer em termos do número de refeições/dia, quer em termos dos alimentos que consomem. Assim, verificamos que 50,6% fazem 4 refeições/dia e só 42,0% fazem entre 5 e 6 refeições/dia (o que está de acordo com a alimentação equilibrada) e 93,8% dos jovens fazem o pequeno-almoço e cerca de 30% fazem uma refei-ção a meio da manhã. Um pequeno grupo (16,0%) de jovens faz uma ceia. Estes valores poderão estar rela-cionados com o facto de os jovens se deitarem cedo, dado que 81,5% dos jovens dormem entre 8 e 10 horas diárias.
Os alimentos que consomem mais frequentemente e consideram ser benéficos para a sua saúde apontam: a carne/peixe, leite e derivados e ovos (89,9%), as hortaliças e legumes (72,8%), a fruta (69,1%), os cereais e derivados (7,4%), a sopa (6,1%). O facto de este último dado ser referido por uma percentagem tão baixa leva-nos a pensar que poderá estar relacio-nado com a falta de conhecimentos da parte de alguns familiares em relação ao valor nutritivo deste hábito tão importante.
As leguminosas secas são praticamente inexistentes nos hábitos alimentares dos jovens. Tendo em conta o elevado valor nutritivo deste tipo de alimentos, é importante a divulgação e utilização dos mesmos na alimentação das crianças e jovens.
Dos alimentos que consomem e consideram ser pre-judiciais para a sua saúde, verifica-se que 86,4% apontam os doces e 39,5% apontam as gorduras, onde incluem os fritos, as carnes gordas e os hambur-gueres. É neste âmbito que se verificaram os maiores problemas alimentares, embora os jovens tenham consciência dos erros que cometem.
As bebidas que tomam frequentemente e consideram ser benéficas para a sua saúde referem: 96,3% os batidos/sumos naturais, 87,6% a água e 51,8% o leite/iogurtes. Neste âmbito encontramos 3,7% dos jovens que consideram a Coca-cola como uma bebida benéfica para a sua saúde. Das bebidas que tomam e consideram que lhes prejudicam a saúde apontam: 85,2% os refrigerantes e 19,7% as bebidas alcoólicas. Numa tentativa para minimizar este pro-blema, será da máxima importância o esclarecimento a nível escolar, através da educação para a saúde, dos riscos a que estão sujeitos a longo prazo.
Relativamente ao padrão alimentar, não é certamente durante a adolescência a melhor altura para incutir hábi-tos alimentares correchábi-tos e saudáveis, uma vez que é nesta fase de desenvolvimento que se faz sentir uma maior contestação das mensagens que lhes são dirigidas pelos educadores, pais e professores. Contudo, constitui a última oportunidade em tempo útil de se lhes incuti-rem hábitos alimentares saudáveis. Por outro lado, para ultrapassarmos algumas destas barreiras, a educação alimentar deve iniciar-se precocemente junto da família e das crianças na idade pré-escolar, onde se verifica uma maior receptividade e capacidade de adaptação a novos hábitos. A escola poderá ter um papel importantíssimo na medida em que os jovens podem levar para junto dos familiares hábitos saudáveis.
Da análise à prática desportiva e ao número de horas passadas a ver televisão diariamente, parece-nos que 35,8% têm um estilo de vida sedentário, dado que 50,7% não praticam ou praticam uma hora semanal de exercício físico fora da escola e passam cerca de 4 horas por dia a ver televisão.
As expectativas e receios dos jovens quanto ao futuro centram-se em valores universais: gosta-riam que deixasse de haver guerras, que existisse mais amizade entre as pessoas, de ser felizes e também de ver as outras pessoas mais felizes, que abrigassem os mendigos e acabasse a fome. Relati-vamente à família, gostariam de mantê-la por perto, de constituir família, de ter um bom(a) compa-nheiro(a) e ter filhos. Quanto ao emprego, constitui uma preocupação o arranjar trabalho, o ter emprego ou ter um bom emprego. No âmbito do processo escolar, gostariam de tirar o curso de que gostam, de entrar na faculdade e de se tornarem os melhores alunos. Por último, mostram-se bastante preocupa-dos com o apanhar SIDA, o apanhar doenças graves (cancro, doenças sem cura), não ter saúde ou o ter que viver em zonas «impróprias para viver», receando ainda o facto de poderem vir a meter-se na droga.
Os principais problemas apontados encontram-se sin-tetizados no Quadro XXII.
Quadro XXII
Principais problemas apontados
Área de saúde/problemas Manifestação da dimensão e gravidade
50,6% dos jovens fazem apenas 4 refeições/dia e 6,2% não tomam o pequeno--almoço.
Falta de informação sobre o valor nutritivo de alguns alimentos e sobre deter-minados refrigerantes (por exemplo, Coca-cola).
Existência de um número significativo de jovens que ingerem doces em dema-sia (86,4%), refrigerantes (85,2%) e gorduras (39,5%).
Os tempos livres são uma preocupação para os jovens (quarto tema de uma lista de cinco).
Exercício físico/actividades lúdicas Existência de 50,7% de jovens que não praticam qualquer actividade física fora da escola e de 35,8% que passam cerca de 4 horas diárias a ver televisão. Existência de jovens que referem não saberem o que são métodos contraceptivos. Admite-se a existência de casos potenciais de risco de gravidez indesejada ou a possibilidade de contrair doenças sexualmente transmissíveis (DST), dado que dos 15 jovens que se dizem sexualmente activos 13 deles referem não usarem qualquer método contraceptivo.
SIDA, cancro... (doenças incuráveis) Primeira e segunda preocupação para cerca de 50% dos jovens.
Existência de 6,1% de jovens que têm hábitos tabágicos e de 19,7% que con-somem bebidas alcoólicas.
Uso/abuso de drogas lícitas e ilícitas Existência de 2,4% de jovens que referem já terem experimentado drogas ilí-citas e de 9,9% que dizem conhecer alguém na escola que já tenha experimen-tado drogas.
Alimentação (consumos desajustados)
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Summary
CONCERNS AND LIFESTYLE PRACTICES OF ADOLES-CENTS
Only recently have industrialized societies begun to take into con-sideration the specific physiological and psychological needs and capacities of adolescents. Through such studies adult society has, in recent decades, developed new ways in which to deal with the adolescent.
In this light, a study of a descriptive, analytical and transveral nature was carried out with the objective of identifying the princi-pal problem associated with adolescent lifestyles in the area of the Carnaxide Health Centre, and to propose a program which would promote independence, responsability and critical thinking in the adolescent.
The population under study was made up of both male and female adolescents between the ages of 12 and 15 attending the Vieira da Silva School, in Carnaxide. The selected cluster sample was made up of 81 adolescents belonging to grades 7, 8, and 9.
Our data was obtained through a questionnaire, and the results were subject to both manual and computer-based statistical analy-sis.
The principal conclusions of this study include:
• The majority of adolescents under study are female (58%); • These individuals consider the family as a group with whom
they can share their health care concerns;
• Their principal health concerns include AIDS, drugs, parental relations and academic failure;
• Their most pressing concerns are tied to scholastics and the family;
• Generally speaking, they do not practice contraceptive meth-ods in their sex lives;
• Their diet is essentially made up of foods rich in simple car-bohydrates and fats and 6.2% skip breakfast. These dietary habits are accompanied by limited physical activity; • Softdrinks are consumed by 85.2% of these youths; • Their goals/expectations include some universal values (e. g.,
peace, friendship, famine), building a family, holding a job, going to university and avoiding serious disease (cancer, AIDS).