MANUELA KAUTSCHER PEDRINI
ENGENHARIA SIMULTÂNEA:
PLANEJAMENTO E CONTROLE INTEGRADO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO/PROJETO NA CONSTRUÇÃO CIVIL
VITÓRIA 2012
ENGENHARIA SIMULTÂNEA:
PLANEJAMENTO E CONTROLE INTEGRADO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO/PROJETO NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil do Centro Tecnológico da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Engenharia Civil, na área de concentração Construção Civil.
Orientadora: Profª. Drª. Cristina Engel de Alvarez
VITÓRIA 2012
Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)
(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)
Pedrini, Manuela Kautscher, 1979-
P371e Engenharia simultânea : planejamento e controle integrado do processo de produção/projeto na construção civil / Manuela Kautscher Pedrini. – 2012.
233 f. : il.
Orientadora: Cristina Engel de Alvarez.
Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro Tecnológico.
1. Construção civil. 2. Engenharia simultânea. I. Alvarez, Cristina Engel de. II. Universidade Federal do Espírito Santo. Centro Tecnológico. III. Título.
ENGENHARIA SIMULTÂNEA:
PLANEJAMENTO E CONTROLE INTEGRADO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO/PROJETO NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Engenharia Civil do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito para obtenção do grau de Mestre em Engenharia Civil, na área de Construção Civil.
Aprovada no dia 10 de abril de 2012, por:
Profa. Dra. Cristina Engel de Alvarez Doutora em Arquitetura e Urbanismo Orientadora - UFES
Prof. Dr. João Luiz Calmon Nogueira da Gama Doutor em Engenharia Civil Membro Interno - UFES
Prof. MSc. Augusto Alvarenga Mestre em Arquitetura e Urbanismo Membro Interno - UFES
Prof. Dr. Claudio Lima Ferreira Doutor em Arquitetura e Urbanismo Membro Externo – Universidade Anhembi Morumbi
À Professora Doutora Cristina Engel de Alvarez, orientadora e incentivadora, pelo carinho, paciência e persistência na formação de uma consciência cientifica;
Aos colegas e profissionais que contribuíram para a realização deste trabalho;
A todos os colegas do Laboratório de Planejamento e Projetos da Universidade Federal do Espírito Santo pelas conversas e bate-papos que culminaram em ideias para o trabalho.
À minha família pelo apoio, incentivo incondicional, compreensão, respeito e espera sem cobrança.
A Deus, grande responsável por todo o meu caminho;
E a todos que de alguma forma contribuíram para que esta pesquisa se realizasse e se tornasse um projeto concreto.
A expressão Engenharia Simultânea (Concurrent Engineering – CE) abriga diversos conceitos que defendem, principalmente, ações que levem à otimização do tempo de produção de bens pela indústria. Na Construção Civil, a expressão não foi incorporada, mas as ideias nela contidas passaram a estar, de certa forma, presentes nos estudos sobre o melhor gerenciamento dos empreendimentos de construção. Um dos desafios da Engenharia Civil é a aplicação da abordagem da Engenharia Simultânea no que se refere ao desenvolvimento de produto no setor, que, no contexto desta pesquisa, se refere ao processo de projeto. Nesse sentido, reconhecendo a importância do assunto, nas condições do cenário da construção civil no Brasil, que têm levado as empresas do setor a uma busca por mudanças e inovações no processo de desenvolvimento dos produtos, o objetivo deste trabalho é discutir o conceito de Engenharia Simultânea, analisando a sua pertinência na construção de edifícios, assim como propor diretrizes para aplicação destas abordagens no processo de projeto. Na metodologia adotada, entre outros aspectos, foram selecionados dois estudos de caso com o intuito de verificar e apresentar a realidade de como o processo de projeto e construção da edificação está sendo realizado. Os empreendimentos foram analisados através de instrumentos específicos – questionários e fichamentos técnicos –, com o objetivo de obter informações dos profissionais envolvidos nos projetos, para identificar como a Engenharia Simultânea pode contribuir para melhoria no processo, assim como os empecilhos para aplicação dos seus conceitos. Dentre os principais resultados obtidos, observa-se que o processo de desenvolvimento de produto precisa de mudanças e melhorias, e que, de acordo com o que foi apontado na avaliação dos profissionais, a adoção dos conceitos da ES pode auxiliar.
Palavras-chave: Engenharia Simultânea. Gestão do projeto. Construção civil.
The term Concurrent Engineering (CE) designates several concepts with the purpose of optimizing the time spent in the production of manufactured goods. Although this term has not been incorporated in the construction industry, studies about the management of building projects incorporate many of its ideas. The goal of my work is to discuss the application of CE within Civil Engineering, more specifically to study its suitability in the projects of the construction of buildings and to propose a framework to apply CE’s concepts in the design phase of the project. The motivation of my research derives from the current scenario of the construction industry in Brazil, in which construction companies have been searching for technological innovations in the process of developing new products. I used two case studies to assess the current state of the design process. Questionnaires and technical summaries served to identify the phases more likely to be optimized by CE, and to pinpoint the difficulties in applying CE. Results indicate that there is space to improve the new product development process, and that the adoption of CE is an alternative to provide such improvements.
Keywords: Concurrent Engineering, Project Management, Construction, Product
Figura 2 - Projeto como gerador de valor. ... 104
Figura 3 - Esquema genérico de um processo de projeto tradicional. ... 106
Figura 4 - Esquema comparativo entre os processos de desenvolvimento de produto seqüencial e baseado no conceito de Engenharia Simultânea. 107 Figura 5 - Proposta para seqüência de projeto privilegiando o paralelismo e a interatividade entre projetos. ... 110
Figura 6 - Interfaces do processo de desenvolvimento de produto na construção de edifícios. ... 112
Figura 7 - Processo simultâneo de atividades de gestão e coordenação de projetos na construção civil. ... 116
Figura 8 - Simulação digital em 3-D de projeto de instalações passando no teto de uma edificação, através do Building Information Modeling, e foto de obra mostrando a execução destas instalações. ... 125
Figura 9 - Processo de projeto na Cyrela Brazil Realty. ... 128
Figura 10 - Identificação e análise dos requisitos da incorporação. ... 128
Figura 11 - Identificação e análise dos requisitos da incorporação. ... 129
Figura 12 - Imagem esquemática de como funciona a integração no site Construmanager. ... 133
Figura 13 - Imagem da página de acesso aos arquivos de projetos de uma determinada obra, que estão no site Construmanager. ... 134
Figura 14 - Modelo proposto para desenvolvimento de projetos nas edificações públicas... 136
Figura 15 - Perspectiva ilustrada da fachada das edificações do empreendimento A. ... 140
Figura 16 - Perspectiva ilustrada da implantação do complexo – empreendimento B. ... 142
envolvidos no desenvolvimento do empreendimento A, por assunto. . 157 Gráfico 2 - Resultado do total ponderado referente às questões avaliadas pelos
projetistas em relação ao empreendimento A. ... 157 Gráfico 3 - Resultado dos questionários aplicados aos oito projetistas
envolvidos no desenvolvimento do empreendimento B, por assunto. . 158 Gráfico 4 - Resultado do total ponderado referente às questões avaliadas pelos
projetistas em relação ao empreendimento B. ... 158 Gráfico 5 - Resultado da média total ponderado das questões avaliadas pelos
projetistas. ... 159 Gráfico 6 - Resultado dos formulários aplicados ao coordenador dos projetos do
estudo de caso A, por assunto. ... 160 Gráfico 7 - Resultado do total ponderado referente às questões avaliadas pelo
coordenador dos projetos do empreendimento A. ... 160 Gráfico 8 - Resultado dos formulários aplicados ao coordenador dos projetos do
estudo de caso B, por assunto. ... 161 Gráfico 9 - Resultado do total ponderado referente às questões avaliadas pelo
coordenador dos projetos do empreendimento B. ... 161 Gráfico 10 - Resultado, da média do total ponderado referente às questões
avaliadas pelos coordenadores. ... 162 Gráfico 11 - Resultado total da média ponderado referente às questões avaliadas
pelos profissionais envolvidos no processo, tanto projetistas, quanto coordenadores. ... 162
TABELA 2 - RESULTADO DOS QUESTIONÁRIOS APLICADOS AOS OITO PROJETISTAS ENVOLVIDOS NO DESENVOLVIMENTO DO EMPREENDIMENTO A. ... 157 TABELA 3 - RESULTADO DOS QUESTIONÁRIOS APLICADOS AOS OITO PROJETISTAS
ENVOLVIDOS NO DESENVOLVIMENTO DO EMPREENDIMENTO B. ... 158 TABELA 4 - RESULTADO DOS QUESTIONÁRIOS APLICADOS AO COORDENADOR DO
PROJETO DO ESTUDO DE CASO A. ... 159 TABELA 5 - RESULTADO DOS QUESTIONÁRIOS APLICADOS AO COORDENADOR DO
APLICAÇÃO DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA ... 94 QUADRO 2 - LISTA DE VERIFICAÇÃO PARA ANÁLISE DO PROJETO DE
INSTALAÇÕES ELÉTRICAS, CONFORME FORMULÁRIO PADRÃO ADOTADO PELO DEPARTAMENTO DE PROJETOS DA CYRELA BRAZIL REALTY... 131 QUADRO 3 - CONCEITOS DE AVALIAÇÃO CORRELACIONADOS À ABORDAGEM
DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA. ... 147 QUADRO 4 - PESOS ADOTADOS PARA CADA TEMA E QUESTÕES DO
QUESTIONÁRIO APLICADO AOS PROJETISTAS, REFERENTE AO EMPREENDIMENTO A. ... 148 QUADRO 5 - PESOS ADOTADOS PARA CADA TEMA E QUESTÕES DO
QUESTIONÁRIO APLICADO AOS PROJETISTAS, REFERENTE AO EMPREENDIMENTO B. ... 149 QUADRO 6 - PESOS ADOTADOS PARA CADA TEMA E QUESTÕES DO
FORMULÁRIO TÉCNICO APLICADO AO COORDENADOR DO PROJETO DO EMPREENDIMENTO A. ... 150 QUADRO 7 - PESOS ADOTADOS PARA CADA TEMA E QUESTÕES DO
FORMULÁRIO TÉCNICO APLICADO AO COORDENADOR DO PROJETO DO EMPREENDIMENTO B ... 153
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA ... 80
1.2 JUSTIFICATIVAS ... 83
1.3 OBJETIVOS ... 84
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA ... 84
1.4.1 Revisão Bibliográfica ... 86
1.4.2 Elaboração dos instrumentos de coletas de dados ... 86
1.4.3 Coleta de dados ... 86
1.4.4 Apresentação e avaliação dos dados coletados e discussão dos resultados ... 87
1.4.5 Proposta de diretrizes ... 87
1.4.6 Avaliação do trabalho... 87
1.5 ESTRUTURA DO TRABALHO ... 87
2 ENGENHARIA SIMULTÂNEA ... 89
2.1 IMPLEMENTAÇÃO DO MODELO NA CONSTRUÇÃO CIVIL ... 91
2.2 PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DO PRODUTO (PDP) ... 95
3 O PROCESSO DE PROJETO ... 100
3.1 O VALOR DO PROJETO ... 105
3.2 O PROJETO SIMULTÂNEO ... 108
3.3 AS INTERFACES DO PROCESSO DE EDIFÍCIOS ... 111
3.4 INTEGRAÇÃO DO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DE PRODUTO ... 117
3.5 SISTEMA DE GESTÃO E PROCESSO DE PRODUÇÃO ... 118
3.6 CONTRIBUIÇÃO DA TECNOLOGIA PARA APLICAÇÃO DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA: FERRAMENTAS QUE FOMENTAM O PROCESSO DE PROJETO 121 3.7 EXEMPLO DE EMPRESAS QUE TÊM IMPLANTADO OS CONCEITOS DE ENGENHARIA SIMULTÂNEA ... 126
3.7.1 A Cyrela Brazil Realty ... 127
3.7.2 Incortel Incorporação e Construção – Exemplo do uso da web como ferramenta gerenciadora de projetos ... 132
3.7.3 O processo de projeto no setor público: a necessidade de aplicação de novos conceitos e os empecilhos da Lei de Licitações (8.666/93) ... 134
4 ESTUDO DE CASO ... 138
4.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE A EMPRESA DOS PRODUTOS PESQUISADOS ... 138
4.2 ESTUDO DE CASO 1 – EMPREENDIMENTO A ... 139
4.3 ESTUDO DE CASO 2 – EMPREENDIMENTO B ... 140
4.4.3 Procedimento de aplicação dos questionários e formulário ... 144
4.4.4 Avaliação dos resultados ... 144
5 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS ... 146
5.1 AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS ... 155
5.1.1 Resultado dos Questionários ... 156
5.1.2 Resultado dos Formulários... 159
5.2 SÍNTESE DOS RESULTADOS ... 162
6 PROPOSTA ... 164
6.1 MUDANÇA NA GESTÃO DAS EMPRESAS – VALORIZAÇÃO DO PROJETO E INTEGRAÇÃO DO PROCESSO. ... 164
6.2 PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO ... 165
6.3 DEFINIÇÃO DO PRODUTO ... 166
6.4 DEFINIÇÃO DOS RECURSOS – CONTRATAÇÃO DOS PROJETISTAS ... 166
6.5 PLANEJAMENTO E CONTROLE DO DESENVOLVIMENTO DO PROJETO ... 167
6.6 DESENVOLVIMENTO DO PROJETO ... 167 6.7 RETROALIMENTAÇÃO DO SISTEMA ... 168 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 170 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 171 ANEXOS ... 178 APÊNDICES ... 187
1 INTRODUÇÃO
A transformação das indústrias após a Segunda Guerra Mundial tem progressivamente contribuído para o aumento da complexidade dos produtos e dos processos. Essa transformação vem exigindo mudanças na forma de conduzir o processo de desenvolvimento de produto, que, tradicionalmente, é realizado através do cumprimento seqüencial de metas relacionadas a fases segmentadas (KOSKELA, 2000).
Nas últimas décadas, algumas mudanças no ambiente de negócios – tais como a competição baseada na inserção rápida e eficaz de novos produtos, aumento da complexidade destes e mudanças freqüentes nas demandas de mercado –, têm exigido modificações ainda mais radicais na forma de condução do processo de desenvolvimento do produto (CLARK; WHEELWRIGHT, 1993). Como conseqüência, esse processo passou a envolver um número ainda maior de profissionais e especialidades (KOSKELA, 2000) e a exigir certo grau de simultaneidade entre as diversas atividades envolvidas.
Como resposta ao desafio imposto por estas condições, muitas empresas, de vários setores, passaram a utilizar práticas relacionadas à organização simultânea do desenvolvimento do produto. Denominadas de Engenharia Simultânea (CUNHA; BUSS, 2001), tais práticas têm sido bastante disseminadas, despertando, assim, o interesse pelos resultados positivos (PRASAD, 1996). Na construção civil, tem sido crescente o interesse nesse tipo de abordagem, principalmente em empreendimentos complexos, nos quais há grande incerteza e necessidade de compressão de prazos (KOSKELA, 2000; HUOVILA et al., 1997a; KAMARA et al. 1997).
Sobre essa vertente se dirige a pesquisa e neste capítulo são apresentados uma breve contextualização da mesma, as justificativas para a escolha do tema, os objetivos visados e a estrutura de organização do trabalho.
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA
A indústria, de maneira geral, incluindo o setor de construção, passa por um momento de intensa competição. No cerne deste processo, as crescentes
exigências dos agentes sociais e a instabilidade dos mercados demandam das empresas a capacidade de articularem globalmente os intervenientes nos seus processos de produção, na busca por qualidade dos produtos, eficiência e flexibilidade na produção, de maneira a responder os desafios de uma sociedade mais exigente e em constante alteração.
A construção de edifícios, particularmente, tem sofrido uma mudança acelerada de paradigmas. Começa-se a discutir mais profundamente a excelência destes produtos, que se formam a partir da interação de vários profissionais com atuação bastante especializada.
Em resposta às demandas, as empresas passaram a utilizar práticas relacionadas à organização simultânea do desenvolvimento do produto. De sua parte, a comunidade acadêmica tem procurado entender este novo processo através da busca de um referencial teórico, bem como buscar soluções que permitam a aplicação prática do conceito estabelecido. A partir dessas novas abordagens vários trabalhos têm sido desenvolvidos no sentido de contribuir para a melhoria do Processo de Produção. Entretanto, um assunto que deve ser investigado é o porquê de as empresas ainda não conseguirem aplicar as abordagens da Engenharia Simultânea no processo de projeto desde a concepção do produto.
Diversas empresas, em especial aquelas que produzem produtos complexos – como, por exemplo, as ligadas às indústrias automobilísticas, aeroespacial e microeletrônica –, têm conseguido ampliar e agilizar sua capacidade de amadurecer novas tecnologias e transformar estas em novos produtos de qualidade, através da implantação e da utilização do processo de ES nas fases de concepção e desenvolvimento de produto. A realização de projetos através da ES parte da premissa de que os produtos devem ser desenvolvidos levando-se em conta o seu ciclo de vida e as demandas dos clientes, desde a sua concepção.
A construção civil brasileira, tida como uma das mais importantes indústrias da economia nacional e, apesar de sua relevância, considerada como um setor atrasado em relação a outros industriais (PERALTA, 2002, apud FORMOSO et al., 1993), tem se preocupado cada vez mais com a difusão de idéias e conceitos voltados para a melhoria do setor.
No entanto, muitos dos esforços feitos neste sentido têm se deparado com a condução dos processos de desenvolvimento do produto, ainda tradicional, realizado através do cumprimento seqüencial de metas relacionadas a fases segmentadas. Além disso, a gestão dos empreendimentos, cujos sistemas tradicionalmente empregados para a gestão de custos possuem muitas deficiências, é amplamente abordada pela bibliografia, entre as quais se pode destacar a falta de informações oportunas para basear a tomada de decisão na gestão da produção (KERN, 2005). A partir destas novas abordagens e generalizações propostas, trabalhos vêm sendo realizados no sentido de contribuir para a melhoria do processo de desenvolvimento do produto na construção civil, inclusive abordando não só a parte teórica, mas também a prática, como a utilização de novas tecnologias e ferramentas que proporcionam a aplicação da ES. Tais trabalhos têm sido motivados pelo fato de que a má qualidade do projeto vem sendo apontada como uma das principais causas do baixo desempenho do setor em termos de eficácia e eficiência (BALLARD; KOSKELA, 2002; BALLARD, 2000a).
Um tema importante relacionado ao processo de desenvolvimento do produto é a questão do planejamento estratégico, promovendo o envolvimento e a interação dos profissionais participantes desde a concepção do produto, início do processo. Nos produtos complexos, nos quais há incertezas e interdependência entre as atividades, o planejamento e o controle integrado assumem um papel fundamental no sentido de propor um fluxo contínuo de trabalho na produção e possibilitar a redução do tempo de desenvolvimento, com a realização de atividades paralelas.
Dentro do contexto atual de evolução da construção de edifícios, deve ser considerada irreversível a tendência de maior pressão sobre o processo de projeto; um dos problemas para a evolução do setor. Deste modo, no ambiente das empresas, a atividade de projeto, de todas as especialidades, deve ser priorizada desde o início do processo de definição do produto, e estar definitivamente vinculada à estratégia de inovação tecnológica traçada em cada organização, visto ser um fator relevante no bom desempenho empresarial (NAVEIRO; OLIVEIRA, 2001). Assim sendo, o processo de projeto vem sofrendo uma evolução conceitual significativa, que não só amplia o seu escopo como reposiciona o seu papel no contexto do processo construtivo de edificações (PERALTA, 2002).
1.2 JUSTIFICATIVAS
A mudança no ambiente da construção – em função da demanda do mercado, da complexidade dos empreendimentos e do progresso tecnológico – tem exigido modificações na condução do processo de produção no setor.
Esse contexto de incremento das exigências sociais frente aos produtos e aos processos tem levado as empresas a buscarem outros e mais ágeis métodos para desenvolverem os novos produtos.
Considerando a relevância do tema e a importância do planejamento e controle integrado dos processos de projeto e produção para redução de perdas e eficiência na execução dos empreendimentos da construção civil, percebe-se a necessidade de discutir os novos paradigmas de gestão na indústria contemporânea, reunidos sob o conceito de Engenharia Simultânea, analisando a pertinência destes na construção de edifícios, assim como para estabelecer diretrizes e recomendações para aplicação destas abordagens no dia a dia da construção, trazendo benefícios ao setor.
A pesquisa busca investigar e apontar as dificuldades e empecilhos para aplicação do conceito de Engenharia Simultânea no processo de desenvolvimento das edificações, de maneira que funcione, efetivamente, como uma ferramenta para contribuir para melhoria do setor, da sua produtividade, diminuindo perdas e desperdícios, encurtando tempo de produção e reduzindo custos no sistema produtivo, visando a excelência do produto final.
Neste contexto algumas dificuldades para aplicação e implementação dos conceitos de ES na construção civil podem ser apontadas, tais como:
Cultura dos profissionais: há necessidade de transformação cultural, de maneira que os projetistas entendam a importância do desenvolvimento paralelo dos projetos; assim como os benefícios da utilização das ferramentas e inovações tecnológicas para desenvolvimento, comunicação e intercâmbio de informações entre os envolvidos.
Gestão das empresas: necessidade de mudança na forma de conduzir o processo, de forma que o desenvolvimento do produto proporcione a
interação dos envolvidos desde o planejamento, concepção, controle até a produção, justificada pela necessidade de simultaneidade, em contraposição à abordagem seqüencial, que pode resultar em um processo cíclico de alterações e correções, no qual o consumo de tempo e recursos tende a ser maior (PRASAD, 1996).
1.3 OBJETIVOS
Adota-se por principal objetivo para o desenvolvimento da pesquisa propor diretrizes para a implementação da Engenharia Simultânea nos processos de projeto, elaboradas a partir dos empecilhos identificados no processo de desenvolvimento do produto na construção civil, visando minimizar as interferências e incompatibilidades de projeto, partindo do pressuposto que tais medidas possibilitam a obtenção de maior eficiência na execução da obra.
Como objetivos específicos para alcance dos resultados, tendo como referência o levantamento bibliográfico e os estudos de caso da pesquisa, destacam-se:
Identificar os problemas no produto final – a edificação – conseqüentes do desenvolvimento do projeto através do processo seqüencial tradicional;
identificar como a Engenharia Simultânea pode contribuir para a melhoria do processo de desenvolvimento de produto/projeto a partir da perspectiva dos profissionais do setor da construção civil;
relacionar as inovações tecnológicas e ferramentas disponíveis passíveis de serem aplicadas para o planejamento, gestão da produção e desenvolvimento do produto com maior controle e interação entre os profissionais; e
a partir da identificação dos empecilhos para a adoção da Engenharia Simultânea nos processos projetuais, propor diretrizes visando sua implementação efetiva.
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
Para Checkland, metodologia é um “conjunto de princípios de método que em qualquer situação problema tem que ser reduzido para um método apropriado para
aquela situação problema” (CALMON, 1987, p. 36-37).
A determinação de uma metodologia para analisar o processo de projeto de edificações, considerando o universo dos estudos de caso em questão, direcionou a pesquisa para a busca de processos metodológicos que instrumentassem a comprovação dos resultados, focando na contribuição dos conceitos da Engenharia Simultânea para melhoria do desenvolvimento de projeto.
O procedimento adotado envolve dois estudos de caso realizados em uma construtora de Vitória, que atua no mercado de edificações. Foram escolhidos dois empreendimentos para estudo, sendo um residencial e o outro misto – comercial e residencial. Foi realizado o acompanhamento do processo de projeto de ambos, no período de 2009 a 2011.
A escolha da empresa deu-se devido aos perfis dos produtos que desenvolve, foco desta pesquisa, que são as edificações com projetos de elaboração complexa. Também foi um fator adicional para a escolha da empresa analisada a facilidade de acesso ao acompanhamento do processo de desenvolvimento dos empreendimentos, assim como aos dados e materiais, pelo vínculo da pesquisadora com a empresa.
O método proposto utiliza um modelo de pesquisa voltado para os dados coletados através de questionários e fichamentos técnicos, em que se adotou, por princípio básico de avaliação, obter informações dos profissionais, coordenadores e projetistas envolvidos no desenvolvimento do produto, a respeito do processo de projeto de cada empreendimento em questão.
O processo de avaliação selecionado tem como objetivo identificar, através dos instrumentos aplicados aos estudos de caso, os empecilhos para aplicação dos conceitos de ES no processo de desenvolvimento de projeto e propor diretrizes para isso, considerando que o resultado da realidade da empresa avaliada pode ser extrapolado para universos semelhantes.
A metodologia empregada no desenvolvimento desta pesquisa envolve as etapas descritas a seguir.
1.4.1 Revisão Bibliográfica
Realização de um levantamento sobre o tema, com o objetivo de conhecer as fontes capazes de fornecer as respostas adequadas à solução do problema desta pesquisa, identificando os conceitos, metodologias e critérios de desenvolvimento de projeto e construções, incluindo:
Levantamento e análise da documentação e demais materiais coletados visando à seleção, agrupamento e categorização das informações.
Consultas a revistas, periódicos especializados, artigos, teses, dissertações, anais de congressos, livros, bases de dados e sites da internet, entre outras publicações científicas de importância nacional e internacional e, quando necessário, consultas a bibliotecas de outras universidades.
1.4.2 Elaboração dos instrumentos de coletas de dados
Buscando a resposta para as perguntas da pesquisa, foi estabelecido como principal procedimento para a coleta de dados a elaboração de questionário e formulário aplicados por acompanhamento. O problema, as hipóteses e os pressupostos da pesquisa foram correlacionados aos procedimentos de coleta de dados para que os objetivos propostos pudessem ser alcançados. As informações pertinentes são obtidas pelos profissionais envolvidos, através de perguntas organizadas e previamente codificadas para serem utilizadas no processo.
1.4.3 Coleta de dados
A pesquisa de campo foi efetuada com auxílio dos coordenadores e projetistas do processo de projeto dos empreendimentos selecionados para estudo de caso, no sentido de transmitir as informações do processo no decorrer do seu desenvolvimento, através de dois instrumentos, o questionário e o formulário técnico.
Nesta pesquisa entende-se por questionário um instrumento de coleta de dados, constituído de perguntas diretas e indiretas, com o objetivo de coletar a opinião dos projetistas envolvidos, com relação ao desenvolvimento dos projetos, assim como o processo como um todo; e por formulário como sendo um instrumento de
observação in loco para a avaliação e entendimento das questões abordadas junto aos coordenadores e profissionais envolvidos no processo. Foi adotado como estratégia de aplicação dos instrumentos de coleta de dados o envio via internet objetivando a não eventual interferência do pesquisador nas respostas e, conseqüentemente, nos resultados.
1.4.4 Apresentação e avaliação dos dados coletados e discussão dos resultados
A interpretação dos resultados dos aspectos avaliados nos questionários tem o intuito de identificar os itens que são, de fato, gargalos na construção civil de edificações. Esta etapa compreende a análise das informações obtidas dos estudos de caso, ou seja, não só os resultados da avaliação feita pelos profissionais envolvidos através das ferramentas aplicadas, mas, principalmente, o relato das dificuldades encontradas na aplicação dos conceitos de ES na construção de edifícios.
1.4.5 Proposta de diretrizes
Entende-se por proposta de diretrizes como a elaboração de condutas de trabalho para aplicação do conceito de ES no desenvolvimento de projetos, a partir da avaliação dos resultados dos questionários e formulários, visando à melhoria do processo.
1.4.6 Avaliação do trabalho
Ao término das análises, é efetuada a avaliação final sobre a aplicação dos conceitos de ES no processo de projeto e sobre a atual possibilidade de implementação da abordagem adaptada ao setor para o desenvolvimento integrado dos produtos – edificações – nas empresas com o mesmo universo dos estudos de caso abordados, verificando o cumprimento dos objetivos propostos e apontando sugestões para continuidade da pesquisa.
1.5 ESTRUTURA DO TRABALHO
Na seção 1, faz-se a contextualização da pesquisa e apresentam-se as justificativas, os objetivos, os procedimentos metodológicos – incluindo as etapas da pesquisa – e a estrutura do trabalho;
As seções 2 e 3 destinam-se à revisão bibliográfica sobre os aspectos relativos à Engenharia Simultânea e sobre alguns métodos existentes de avaliação de edifícios, respectivamente;
A seção 4 é destinada à apresentação do estudo de caso e aos procedimentos adotados para o seu desenvolvimento e avaliação dos resultados;
Na seção 5, são apresentados e discutidos os resultados dos dois projetos estudados e a conclusão dos mesmos;
Na seção 6, com base nos resultados alcançados e no referencial teórico, são propostas diretrizes para melhoria no desenvolvimento dos projetos;
Na seção 7 são feitos os comentários finais, avaliando-se os objetivos alcançados com indicativos para a continuidade da pesquisa; e
2 ENGENHARIA SIMULTÂNEA
O surgimento de novas tecnologias e a crescente complexidade dos produtos, entre outros fatores, resultou em aumento do tempo de ciclo total de desenvolvimento de produtos. Nesse contexto, para se manterem competitivas, as empresas precisavam lançar novos produtos em espaços de tempo cada vez menores. Para enfrentar o mercado, uma das soluções adotadas pelas empresas, no início dos anos 1980, foi o aumento do grau de paralelismo das atividades de desenvolvimento. Atividades que eram seqüenciais, ou seja, realizadas somente após o término e a aprovação das atividades anteriores, foram antecipadas, de forma que seu início não dependa dos demorados ciclos de aprovação.
Os primeiros estudos de Engenharia Simultânea, tal como é entendida hoje, e a sua utilização por empresas ocidentais aconteceram no início da década de 1980, quando foi iniciado um estudo conduzido pela DARPA (Defense Advanced Research
Project Agency), uma agência do governo americano, sobre formas de se aumentar
o grau de paralelismo das atividades de desenvolvimento de produtos. O resultado desse trabalho definiu o termo “Concurrent Engineering”, tornando-se uma importante referência para novas pesquisas nessa área (PRASAD, 1996). Segundo o estudo realizado pela DARPA (1988),
Engenharia Simultânea é uma abordagem sistemática para o desenvolvimento integrado e paralelo do projeto de um produto e os processos relacionados, incluindo manufatura e suporte. Essa abordagem procura fazer com que as pessoas envolvidas no desenvolvimento considerem, desde o início, todos os elementos do ciclo de vida do produto, da concepção ao descarte, incluindo qualidade, custo, prazos e requisitos dos clientes (WINNER et al., 88 apud PRASAD, 1996).
Várias das principais características da Engenharia Simultânea, entretanto, podem ser encontradas na indústria japonesa, anteriores a este período, na década de 50 do século passado, sendo, em parte, responsável pelo sucesso alcançado por seus produtos de exportação nas décadas seguintes, de 70 e 80, tornando as práticas de desenvolvimento de projetos das empresas japonesas referência para a indústria ocidental.
Filosofia da Produção, ou produção enxuta, cujas ideias surgiram no Japão. A aplicação mais notável dessa nova filosofia, ou seja, seu ponto inicial foi na indústria automobilística, no Sistema Toyota de Produção, cujo objetivo era eliminar completamente elementos desnecessários na produção (KOSKELA, 1992).
A idéia básica, impulsora deste sistema, é a eliminação de estoques e de outros desperdícios na produção, redução no tempo de montagem, adoção de máquinas semi-autônomas, cooperação com os fornecedores, entre outros processos (KOSKELA, 1992), isto é, busca-se a melhoria da produtividade e a redução de custos através da diminuição de perdas em todo o sistema produtivo.
O grande diferencial da nova filosofia da produção é que ela entende o sistema como um conjunto de atividades interligadas e interdependentes.
O termo Engenharia Simultânea refere-se a um processo que trata primeiramente da fase de concepção do produto. Incorpora nas fases iniciais, de concepção, os obstáculos das fases subseqüentes, fortalecendo o controle da produção (KOSKELA, 1992).
Vários são os objetivos da ES, mas existe um relativo consenso entre diversos autores a este respeito, destacando-se entre eles Prasad (1996); Laufer et al., (1996); Koskela e Huovila (1997); Kamara et al. (1997); Huovila et al. (1997a); Cunha e Buss (2001) e Fabrício (2002). Esse conceito refere-se basicamente à possibilidade de redução do tempo de desenvolvimento do produto, à redução dos custos e ao atendimento às necessidades e requisitos dos clientes internos e externos, além do aumento do valor e da qualidade do produto, a redução das perdas e do número de problemas causados pela separação entre o projeto e a produção.
Por fim, Laufer et al. (1996) salientam que o objetivo principal da ES é criar condições para o desenvolvimento de empreendimentos que envolve diversas disciplinas, com alto grau de incerteza envolvida, com reduzido prazo de desenvolvimento, sem comprometer substancialmente os custos e a qualidade do produto.
2.1 IMPLEMENTAÇÃO DO MODELO NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Embora originalmente desenvolvida para a indústria seriada, várias características da Engenharia Simultânea podem ser úteis em outros setores, como o da Construção Civil, uma vez que, em termos gerais, a problemática tem sido ampliar a eficiência produtiva e a qualidade dos produtos.
Após o amadurecimento e implantação dos conceitos da produção enxuta pela indústria seriada, ela finalmente começa a ser alvo de interesse do setor da construção civil, porém, diante das diferenças entre os dois setores produtivos, não é aconselhável uma aplicação direta da metodologia de desenvolvimento de produto baseada na ES, como foi concebida, na atividade de construção (TAHON, 1997). É importante que a aplicação desta filosofia no setor adeque-se às particularidades, através da criação de modelos e métodos próprios.
Frente ao atual contexto da construção civil, caracterizado por altos indicadores de desperdício, produtos com baixa qualidade, grande ocorrência de patologias construtivas (CORRÊA, 2005), os princípios da construção enxuta têm plena aplicabilidade e necessidade de serem implantados, face aos bons resultados que podem proporcionar. As técnicas da nova filosofia de produção podem se mostrar como um importante mecanismo de racionalização da produção, assim como uma ferramenta para minimização de problemas relativos aos mais diversos agentes do sistema construtivo, assumindo um papel estratégico na melhoria do processo produtivo.
Nas questões pertinentes à velocidade da construção, a ES pode dar uma valiosa contribuição, juntamente com o auxílio das inovações tecnológicas existentes, como propõem Huovila et. al. (1994). Esses autores destacam que, na construção, a necessidade de comprimir os prazos do empreendimento leva muitos projetos a serem desenvolvidos por meio de uma “via rápida”, que consiste na sobreposição do processo de projeto com a obra. Ou seja, a obra tem início enquanto algumas especialidades de projeto ainda estão sendo desenvolvidas e detalhadas. A via rápida, porém, tem resultados incertos, podendo diminuir o tempo do empreendimento em detrimento de maiores custos de produção (HUOVILA et al., 1994), ou mesmo acarretar problemas na obra alongando os prazos de execução e comprometendo a data de entrega.
O cenário atual da construção civil, em particular no país, é de grande transformação. Em função da crescente competitividade há, segundo Corrêa (2005), uma retomada de consciência entre as empresas do setor, que estão voltando sua atenção à implantação de novos métodos e posturas gerenciais e à utilização de novas filosofias de produção, tendo em vista o índice alarmante de perdas financeiras em função do desperdício e do mau desempenho dos materiais.
Os empreendimentos de construção tradicionais têm como característica o caráter seqüencial das intervenções para cada um dos seus participantes, em que o projeto permanece ainda como uma atividade fragmentada. No entanto, os problemas de qualidade surgidos na fase de uso, o aumento das exigências dos clientes, as pressões de custo e a necessidade de inovação, entre outros fatores, têm induzido a práticas diferenciadas de organização dos projetos. Como resultado do visível processo de obsolescência do modelo construtivo tradicional, novos conceitos se tornaram objeto de atenção de empreendedores.
Segundo Castells e Luna (1993), a Engenharia Simultânea é uma filosofia adequada à construção civil, sendo a mesma carente de inovações que contribuam para a melhoria da qualidade, além de ser um setor no qual o processo é descontínuo, oferecendo grande oportunidade de modificar processos e produtos. Basil (2004) completa enfocando a Engenharia Simultânea como um referencial importante para o aumento da eficiência produtiva e gerencial dos processos operacionais das empresas construtoras.
O desenvolvimento do produto na construção civil tem se tornado um processo plural, envolvendo cada vez mais interesses e conhecimentos especializados, implicando na mobilização de diferentes profissionais para tratar os múltiplos problemas colocados no setor, principalmente na sua concepção (FABRICIO; MELHADO, 2000). Parte dessa complexidade é relacionada ao produto, que vem adquirindo novas características técnicas bastante específicas, e outra ao seu processo de produção, em função do aumento do número de intervenientes envolvidos com diferentes especialidades, além da grande variedade de requisitos de desempenho e componentes envolvidos.
justamente a pouca importância efetivamente atribuída aos projetos que, em muitos casos, são considerados como instrumentos necessários para o cumprimento de exigências legais e de caracterização geral (pouco detalhada) do produto e de algumas de suas especialidades, como estrutura e instalações. Com isso, o desenvolvimento tradicional de projetos na construção é marcado pelo retrabalho e pela falta de comprometido com o processo de produção do produto, uma vez que são concebidos por projetistas das mais diversas especialidades de forma independente, sem preocupação com a construtibilidade.
Para transportar as metodologias da ES para o contexto da construção de edifícios, é importante destacar, mesmo que sucintamente, algumas especificidades do desenvolvimento do produto no setor (FABRICIO; MELHADO, 1999). Dentre essas diferenças, ressalta-se a distinção de porte e de abrangência de mercado (Quadro 1), menor nas empresas de construção do que na indústria seriada; o caráter não repetitivo da produção de edifícios – que limita a distribuição dos custos de desenvolvimento do produto ao tamanho do empreendimento –, e o fato de os projetos na construção serem desenvolvidos por agentes externos à empresa que realiza o empreendimento e constrói os edifícios, marcando uma separação nítida e profunda entre o negócio da construção, o projetar e o construir (MELHADO; FABRÍCIO, 1999).
Características do Produto da Construção Civil
Natureza do empreendimento
Na construção, o planejamento e programação do empreendimento, concepção e projeto, e produção são muito mais pulverizados (a cargo de diferentes agentes) que na manufatura; O negócio da construção de edifícios envolve aspectos imobiliários que condicionam o sucesso do edifício à capacidade de incorporar terrenos, deslocando parte dos requisitos de sucesso do empreendimento da esfera produtiva para a área imobiliária. Tipo e
características do produto
A complexidade do edifício envolvendo uma forte interação com as dinâmicas urbanas coloca um fator de difícil controle e previsão para ser tratado. O longo ciclo de vida faz com que sejam precárias as condições de planejamento de todas as transformações e solicitações que o edifício sofrerá durante sua existência.
Cultura e aspectos relacionais
As relações entre agentes são muito mais sazonais e contratuais pautadas pelo ciclo de empreendimentos não repetitivos; Ao contrário da manufatura, na construção, os clientes costumam interferir significativamente na gestão interna do empreendimento e na sua produção.
Fornecedores
Predomina no setor uma forte fragmentação e heterogeneidade entre os tipos de fornecedores (indústrias, subempreiteiros, projetistas, etc.) que participam do empreendimento. Por diversas razões geográficas e de mercado, a manutenção dos mesmos fornecedores, em diferentes empreendimentos, é bastante dificultada. Dados os diferentes portes das empresas envolvidas, o poder de negociação com os fornecedores é mais restrito e variado conforme o tipo de fornecedor.
Escala de produção A construção costuma trabalhar com pequenas escalas, o que reduz, relativamente, a possibilidade de amortização dos custos do projeto.
Limitações do canteiro
Na construção o local de produção (canteiro) é muito mais sujeito a variações e intempéries.
QUADRO 1 - PECULIARIDADES DA CONSTRUÇÃO QUE INTERFEREM NA APLICAÇÃO DA ENGENHARIA SIMULTÂNEA
Fonte: Elaborado a partir de Fabricio et al. (1999, p. 5).
O principal entrave para a implantação de qualquer programa organizacional que objetive a ampliação da eficiência produtiva e qualidade dos produtos é dado, segundo Melhado (1999), pelos valores culturais das empresas que, muitas vezes, não estão abertas a transformações em suas filosofias de posicionamento no mercado.
O desafio tem sido expedir o processo de projeto de forma a considerar a totalidade das questões do ciclo de vida dos empreendimentos de construção e buscar modelos mais eficientes de organização do processo de projeto. E, para isso, é preciso haver transformações na cultura dos agentes, como a cooperação técnica entre projetistas, construtores e promotores; coordenação precoce e desenvolvimento em paralelo das diferentes especialidades de projeto, fomentando a interatividade na equipe e melhorando a qualidade dos projetos; além de apropriação de novas tecnologias.
Torna-se necessário que haja introdução de “novos conceitos” nas práticas de mercado e mudança na mentalidade dos profissionais envolvidos na execução dos
empreendimentos, que ainda estão imersos em uma cultura que segmenta a cadeia de produção e separa o projeto de sua execução. Os conceitos como gestão da cadeia de valor, lean design, coordenação de projetos, adoção de estratégias de engenharia simultânea, etc., segundo Lama e Andery (2004), têm sido amplamente estudados nos meios acadêmicos, aplicados em algumas empresas de excelência, mas, em geral, são objetos de resistência por parte de alguns segmentos do mercado. Trabalha-se ainda com as formas tradicionais de concepção de uma construção, na qual falta uma visão integrada da cadeia de produção do produto final: a edificação (BORBROFF, 1998).
Conforme Fabrício (2002), os principais elementos considerados para implantação do Projeto Simultâneo na construção de edifícios são: valorização do papel do projeto e integração precoce, no projeto, entre os vários especialistas e agentes do empreendimento; transformação cultural e valorização das parcerias entre os agentes do projeto; reorganização do processo de projeto de forma a coordenar concorrentemente os esforços de projeto; utilização das novas tecnologias de informática e telecomunicações na gestão do processo de projeto.
Ainda segundo Fabrício (2002), para que isso ocorra é preciso propiciar o desenvolvimento de métodos mais apropriados para implementação de Engenharia Simultânea; identificar as áreas que requerem melhorias ou mudanças e habilitá-las para perceber a necessidade da implementação da Engenharia Simultânea, estabelecendo melhorias no processo de projeto como um todo; e implementar ferramentas que proporcionem melhoria do processo, tornando-o mais eficiente e eficaz.
2.2 PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DO PRODUTO (PDP)
O acirrado aumento da competitividade tem modificado o Processo de Desenvolvimento do Produto sob vários aspectos. Nesse contexto, para melhor entendimento, a gestão do PDP pode ser convenientemente dividida em três períodos, em função do modo no qual seus processos são conduzidos: artesanalmente, seqüencialmente e simultaneamente (KOSKELA, 2000).
sendo que a concepção, o projeto e a coordenação da fabricação de produtos eram normalmente realizados por uma única pessoa que, artesanalmente, executava essas atividades. Assim como os produtos, muitos processos também eram relativamente simples e não exigiam métodos mais sistemáticos para o seu gerenciamento e coordenação (KOSKELA, 2000).
No período logo após a Segunda Guerra Mundial, a evolução da indústria bélica impulsionou a transformação de várias indústrias. A produção aumentou em escala e os produtos aumentaram em complexidade. O trabalho passou a ser realizado por várias pessoas à medida que novas especialidades e especialistas iam surgindo (KOSKELA, 2000). Nesse período, o processo passou a ser multidisciplinar e multifuncional.
Esse modo de desenvolvimento do produto, ainda verificado nos dias atuais, é essencialmente realizado em fases seqüenciais, ordenado de forma consecutiva e segmentado por quebras do processo entre as fases. Os requisitos do produto são identificados em ordem seqüencial à medida que ele vai sendo desenvolvido e as tarefas ao longo das fases, em geral, enfatizam apenas a conversão, como definição de requisitos, definição do produto, definição do processo de fabricação, entrega e suporte (PRASAD, 1996).
No desenvolvimento seqüencial, para que uma nova fase se inicie, considera-se necessário que as tarefas de fases anteriores estejam inteiramente concluídas. A retroalimentação das informações para cada estágio ocorre sob a forma de verificação de erros, mudanças e correções, as quais levam ao surgimento de vários ciclos de negociação e conseqüentemente ao prolongamento do Lead Time do desenvolvimento do produto (PRASAD, 1996).
Em meados dos anos 1980, com a abertura dos mercados internacionais, o aumento da competição e o surgimento de clientes cada vez mais exigentes, a forma de conduzir o desenvolvimento de produtos mudou consideravelmente. Em muitas empresas, os produtos e os processos, além de se tornarem mais complexos, passaram a envolver um número ainda maior de profissionais (KOSKELA, 2000). A competitividade passou a ser baseada na inserção rápida e eficaz do produto e na capacidade de traduzir e incorporar, a este, novas demandas de mercado. Assim,
nesse período, passou a haver a necessidade de introduzir um caráter de simultaneidade aos processos envolvidos no desenvolvimento de produtos (CLARK; WHEELWRIGHT, 1993). Nesse estágio de evolução, o processo tornou-se interdisciplinar e interfuncional.
Em razão do aumento da complexidade do processo e do produto, os problemas decorrentes do desenvolvimento de produtos também se tornaram maiores. Nesse sentido, a complexidade das operações e das decisões tornou-se uma das características mais marcantes do PDP, principalmente em função do grande número de pessoas que passaram a estar envolvidas no processo (CRAWFORD; BENEDETTO, 2000).
São vários os termos utilizados para se referir ao Processo de Desenvolvimento do Produto (PDP), tais como processo de planejamento e projeto (PAHL; BEITZ, 1996); projeto de engenharia (CROSS, 1994) e projeto e desenvolvimento do produto (ULRICH; EPPINGER, 2000). Além de inúmeros termos, existem também diversas definições para o PDP, como a de Ulrich e Eppinger (2000), a qual afirma que projeto e desenvolvimento do produto dizem respeito ao conjunto de atividades interdisciplinares que se iniciam com a identificação de requisitos do cliente e terminam com a entrega do produto fabricado, passando pela concepção, pelo projeto e pela fabricação do produto. Dentre as várias definições propostas, é consensual a existência de uma fase preliminar para o planejamento do PDP, que é a concepção do produto – início de todo o processo –, que compreende o planejamento estratégico e o entendimento do mercado em que a empresa pretende investir. Do mesmo modo, também é consensual que o produto seja desenvolvido ao longo de fases. A esse respeito, de acordo com Pahl e Beitz (1996), a divisão do PDP em fases e em grupos de atividades é uma das maneiras utilizadas para lidar com a complexidade desse processo, pois permite o estabelecimento de pontos de controle que contribuem para aumentar a eficácia do gerenciamento do mesmo. Observa-se também que não há limites claros entre as fases, embora cada uma delas, em geral apresente um objetivo a ser atingido. Por exemplo, aspectos desenvolvidos em fases mais adiantadas no processo podem ser necessários durante a elaboração do conceito nas fases preliminares, assim como podem ser essenciais para determinar detalhadamente os processos de produção, em fases
mais adiantadas (PAHL; BEITZ, 1996).
No presente trabalho, a definição de PDP aplicada é a de processo interfuncional que se inicia com a concepção do produto, na fase de projeto, e termina com a retroalimentação do processo através da análise de resultados obtidos após a entrega do produto ao cliente.
Apesar da disponibilidade de métodos e ferramentas de suporte à gestão do produto, o PDP é marcado pela existência de problemas que fogem ao controle de cada um dos envolvidos (CLARK; WHEELWRIGHT, 1993).
No PDP, um dos obstáculos para se atingir rapidez, eficácia e alta qualidade de desenvolvimento é a incerteza inerente ao desenvolvimento de novos produtos. Isso pode ser observado desde o início, quando as primeiras ideias geradas sobre um produto incerto buscam criar uma perspectiva para um futuro incerto que, em alguns casos, está muitos anos à frente (CLARK; WHEELWRIGHT, 1993).
Contudo, existem outros tipos de dificuldades relacionadas à incerteza, mas que de certa forma podem ser evitadas. Dentre os problemas comumente citados, destacam-se a falta de informação ou a falha na mesma (CLARK; WHEELWRIGHT, 1993), além do desenvolvimento tardio na produção de alguns projetos, em função da demora da contratação; a má gestão dos fornecedores; o perfil dos profissionais envolvidos; o medo e a resistência a mudanças, o que pode gerar dificuldades em inovar com o uso de ferramentas tecnológicas que agilizam o processo e proporcionam o aumento da sua qualidade.
Em síntese, existem muitas dificuldades no gerenciamento do PDP, independentemente do tipo de produto, serviço ou empresa. De acordo com Clark e Wheelwright (1993), isso se deve a um problema de ordem fundamental: os gerentes falham em planejar suficientemente as habilidades e recursos, em definir o empreendimento e suas propostas apropriadamente e em integrar o empreendimento em desenvolvimento a outras estratégias da empresa. Além disso, os gerentes tendem a resolver os problemas tardiamente, quando a sua importância se torna aparente.
outras indústrias e que repercutem no PDP. Apesar dessas diferenças, contudo, o processo de desenvolvimento na construção civil envolve funções similares às encontradas na indústria manufatureira (marketing, projeto, produção, etc.) e pode ser divido em fases, de modo semelhante ao PDP de outras indústrias.
Assim, constatou-se que na construção civil o escopo do PDP pode se resumir ao processo de projeto ou a um processo mais amplo que se confunde com o processo de negócio.
O PDP na construção civil é caracterizado por sua elevada complexidade, principalmente no que diz respeito às características próprias do setor, do produto e dos diferentes profissionais envolvidos.
O processo de desenvolvimento geralmente se inicia a partir do planejamento realizado de maneira inadequada. Assim, as fases subseqüentes são alimentadas, comumente, com informações inconsistentes, o que leva a perdas. Além disso, por vezes, a estratégia, o mercado e o produto não estão alinhados coerentemente. Observa-se também que muitas decisões de projeto são tomadas durante a execução do produto e por pessoas que usualmente não participaram do seu desenvolvimento.
Logo, o PDP, na forma tradicional como vem sendo conduzido na indústria da construção, geralmente não atende às necessidades de tempo de desenvolvimento, qualidade e satisfação dos clientes exigidas em mercados cuja competição é acirrada. No capítulo 3 são apresentados alguns dos métodos e ferramentas que têm sido utilizados com o objetivo de melhorar a gestão no PDP.
3 O PROCESSO DE PROJETO
O modelo tradicional de processo (modelo de conversão), mais comumente utilizado pelas empresas construtoras, segundo Tzortzopoulos (1999), desconsidera as atividades de fluxo, que consomem recursos e não agregam valor ao produto; preocupa-se com os subprocessos individuais, limitando a melhoria do processo global e, da mesma forma, não considera os requisitos dos clientes externos e internos, o que pode resultar em uma produção ineficaz.
A falta de racionalização, observada em grande número de obras e normalmente contextualizada como a separação entre o projeto e a execução, é reflexo do desenvolvimento do setor nos últimos 30 anos, conforme relatado por Graziano (2003) no breve histórico a seguir sintetizado.
Em meados dos anos 1960, na ocorrência de uma forte demanda imobiliária, começaram a aparecer os escritórios técnicos especializados em arquitetura, estrutura e instalações, com profissionais que anteriormente trabalhavam de forma conjunta dentro de empresas que projetavam e construíam e, portanto, de certa forma coordenavam o desenvolvimento dos seus trabalhos.
Inicialmente essa forma de trabalhar deu resultados satisfatórios, pois as equipes de projeto vinham de um contato direto com a prática da construção e sabiam as necessidades no que tange à construtibilidade e aos requerimentos das demais especialidades envolvidas no projeto.
Com o passar do tempo, os construtores ficaram mais distanciados das atividades de projeto e os projetistas ficaram mais longe da execução dos sistemas por eles projetados. Esta perda de elos entre os participantes fez com que a atividade construtiva passasse a ter altos índices de desperdício. Em meados dos seguintes anos 1980, algumas empresas e segmentos começaram a perceber a necessidade de compatibilizar os projetos.
Embora tal necessidade seja originada pela separação entre a atividade projetual e a execução, há outros motivos que a justificam na atualidade, tais como a especialização cada vez maior das diferentes áreas de projetos; a conformação de equipes de projeto encontradas em diferentes localidades; e o número crescente de soluções tecnológicas sendo agregadas aos empreendimentos.
A complexidade dos projetos gerada pela evolução da tecnologia e hábitos modernos segmentou suas etapas de desenvolvimento e prejudicou, ao longo do tempo, a comunicação e a integração das equipes de projetistas.
A fase de projeto passa a ser um diferencial e, ao mesmo tempo, um elemento de competitividade para as empresas, conduzindo, assim, segundo Basil (2004), todo o processo e seus intervenientes para uma necessária revisão e um amadurecimento quanto às atuais práticas de desenvolvimento de projetos.
Conforme Goldschmidt (1996), o projeto é a atividade mais importante do PDP. Sua importância advém principalmente do grande número de atividades de projeto que são realizadas e também pela natureza desta atividade. Existem várias definições e abordagens utilizadas para o termo projeto, em função do exercício da atividade ocorrer em contextos variados.
Apesar de o projeto como processo criativo ser extremamente variável em função dos diferentes caminhos possíveis de serem adotados por diferentes projetistas na resolução de um problema, o seu entendimento é extremamente importante no desenvolvimento de melhorias na sua gestão.
Assim, algumas abordagens podem ser utilizadas na busca por melhorias do processo de projeto a partir da análise do fluxo de informações, ao longo de seu desenvolvimento, ou seja, da identificação das necessidades e requisitos do cliente à proposição de uma solução. Sobre essas abordagens, são a seguir apresentadas algumas considerações.
Segundo Koskela e Huovila (1997), muitos problemas de gestão do processo de projeto estão vinculados à existência de uma visão tradicional de projeto como conversão, segundo a qual este é um processo de conversão de informações que caracterizam as necessidades e requisitos dos clientes em conhecimento sobre o produto. Sob essa visão, o projeto é segmentado em um conjunto de tarefas designadas a diferentes intervenientes (KOSKELA; HUOVILA, 1997).
Essa visão é largamente difundida em projeto, assim como em métodos de organização, gerenciamento e controle, sendo que a melhoria do processo de projeto tem se resumido a torná-lo mais eficiente e eficaz através do uso de
ferramentas de projetos e de princípios, métodos e ferramentas da engenharia de sistemas (KOSKELA; HUOVILA, 1997).
Segundo Koskela (2000), há limitações na visão de conversão, o que a torna insuficiente para o entendimento ou melhoria do processo de projeto. Para esses autores, as principais deficiências dessa visão são:
não serem explicitamente identificadas as atividades que não agregam valor neste processo, tais como transferência e espera de informações e inspeções; e
não existir relação conceitual entre o processo de desenvolvimento do produto e os clientes.
Ainda sobre os problemas gerados pela adoção da abordagem de conversão, Koskela e Huovila (1997) afirmam que esse tipo de abordagem tem contribuído direta e indiretamente com muitos dos problemas persistentes de projeto. Dentre eles, os autores destacam a fragmentação do processo (“é mais importante realizar a tarefa do que estar atento às interações com outras atividades”); o retrabalho resultante da necessidade de interação e da variabilidade inerente ao cumprimento de tarefas de projeto não é facilmente visualizado; e os requisitos do cliente final tendem a ser esquecidos em longas cadeias de atividades.
Adicionalmente, Clark e Fujimoto (1991) atribuem os seguintes problemas à dificuldade em projetar com simplicidade e confiabilidade: excessivo uso de tempo para a realização dos projetos; atenção inadequada aos clientes; pouca ligação com os fornecedores e negligência da melhoria contínua.
Originária da engenharia de produção, segundo Koskela e Huovila (1997), a abordagem do projeto como processo diz respeito ao fluxo de realização das atividades, sendo focada no caminho que a informação percorre até a conversão em projeto (Figura 1). Em outras palavras, a unidade de análise é o fluxo total de informação considerando as atividades de transporte, espera, conversão e inspeção dessas informações.
Figura 1 - Projeto como fluxo
Fonte: Adaptado de Huovila et al. (1997) apud Quevedo (2006, p. 94).
De acordo com MacPherson et al. (1993), sob essa perspectiva, o projeto é tratado como o processo de resolução de problemas, ou seja, é o processo interativo pelo qual uma solução presumida inicialmente é progressivamente refinada e checada para a compatibilização com outros aspectos emergentes.
A esse respeito, Huovila et al. (1997) equiparam o processo de projeto ao de produção e consideram que, naquele, somente as atividades de conversão podem ser consideradas como projeto. Apesar da existência das demais atividades, essas são consideradas como perdas que devem ser eliminadas ou executadas de modo mais eficaz.
Em relação à eliminação das perdas nesse tipo de abordagem, Koskela e Huovila (1997) afirmam que as principais categorias são as perdas devido ao retrabalho, à transferência de e espera por informação.
Cabe ressaltar que existem dois tipos de retrabalho: o primeiro é inerente à compreensão do problema e à definição da solução de projeto (HUOVILA et al., 1997b; CROSS, 1999) e, nesse caso, é considerado parte da natureza do processo e por isso não constitui uma perda (HUOVILA et al., 1997b); o segundo é o retrabalho devido à falta ou má qualidade das informações, mudanças de escopo, erros, incertezas, etc. Nesse sentido, é considerado como perda, que pode ser reduzida através de práticas como a melhor definição do escopo, o planejamento das atividades, prototipação, congelamento das decisões, dentre outras (HUOVILA
et al., 1997b).
Por sua vez, as perdas por transferência de informação (tempo e esforço) podem ser reduzidas através da aproximação da equipe interfuncional. Nesse sentido, muita informação pode ser transferida informalmente e oralmente, sem a utilização de papel ou outros meios de comunicação e sem os entraves de burocratização (HUOVILA et al., 1997b). Ainda em relação a perdas por transferência e espera,
Koskela e Huovila (1997) descrevem aquelas causadas pela incompatibilidade entre sistemas de informação, para as quais esses autores recomendam a padronização das estruturas de informação a serem utilizadas.
Em relação às perdas relacionadas à espera por informações, segundo Koskela e Huovila (1997) e Ward (2002), estas são causadas principalmente pela transferência da informação em grandes lotes. A esse respeito, Koskela e Huovila et al. (1997b) apontam como possível solução à divisão das tarefas de projeto em lotes menores a intensificação da comunicação informal e a simultaneidade entre os processos. Quanto aos benefícios proporcionados pela redução do tamanho do lote de informação, Reinertsen (1997) faz menção ao aumento da velocidade de processamento da informação, à melhoria do desempenho nos processos e à redução dos custos. Para esse autor, é considerado um lote de informação o agrupamento mínimo possível de dados que possa gerar uma informação.
Adicionalmente, segundo Clark e Fujimoto (1991) e Ward (2002) existem ainda perdas de conhecimento que interferem na conversão das informações. Nesse sentido, as causas são bastante relacionadas às relações entre os projetistas e destes com o processo. De acordo com esses autores, essas perdas são atribuídas a perdas de conhecimento, otimismo e dispersão.
Para finalizar, cabe ressaltar a visão de projeto como gerador de valor. Esta abordagem, fortemente utilizada na gestão da qualidade, foca no valor gerado pelo projeto para os seus clientes (Figura 2), à medida que o produto atende às necessidades dos mesmos. (KOSKELA; HUOVILA, 1997).
Figura 2 - Projeto como gerador de valor.
Fonte: Adaptado de Koskela (2000) apud Quevedo (2006, p. 99).
Em ambientes altamente competitivos, o processo tradicional de desenvolvimento do produto, de caráter seqüencial, tem levado a longos tempos de ciclo, causando retrabalhos, conforme mencionado anteriormente, e também um grande risco em