Editores responsáveis: Veleida Anahi da Silva - Bernard Charlot DOI:http://doi.org/10.29380/2020.14.01.49
Recebido em: 13/08/2020 Aprovado em: 07/09/2020
ESTADO MODERNO BRASILEIRO E EDUCAÇÃO EM UMA PERSPECTIVA LIBERAL; MODERN BRAZILIAN STATE AND EDUCATION FROM A LIBERAL PERSPECTIVE; ESTADO BRASILEÑO MODERNO Y EDUCACIÓN DESDE UNA PERSPECTIVA LIBERAL
RAFAEL DE PAULA GOETTEN
Resumo: Trata-se de um trabalho contextual, vinculado ao Grupo de Pesquisa Estado, Políticas e Gestão da Educação (UNICENTRO/PR), que analisa a conjuntura do Estado Moderno, por meio de autores que retratam esse cenário, utilizando como pressupostos o materialismo histórico. Apontamos alguns impactos do sistema capitalista aliado ao liberalismo, no processo de formação do Estado brasileiro e seus reflexos na educação pública. Assim, este trabalho está organizado em três seções; a contextualização do Estado Moderno, tendo como base de estudo as obras de Marx e Araújo, em seguida sua formulação no contexto brasileiro, utilizando de autores como Sodré, Lima, Bresser-Pereira e Bauer. Destacamos o impacto dessa configuração no desenvolvimento de políticas públicas, com destaque para a educação.
Palavras-chave: Estado moderno. Liberalismo. Educação.
Abstract: It is a contextual work, linked to the Research Group State, Policies and Management of Education (UNICENTRO / PR), which analyzes the conjuncture of the Modern State, through authors who portray this scenario, using historical materialism as assumptions. We point out some impacts of the capitalist system combined with liberalism, in the process of forming the Brazilian State and its reflexes in public education. Thus, this work is organized in three sections; the contextualization of the Modern State, based on the works of Marx and Araújo, then its formulation in the Brazilian context, using authors such as Sodré, Lima, Bresser-Pereira and Bauer. We highlight the impact of this configuration on the development of public policies, with an emphasis on education.
Keywords: Modern state. Liberalism. Education.
Resumen: Se trata de un trabajo contextual, vinculado al Grupo de Investigación Estado, Políticas y Gestión de la Educación (UNICENTRO / PR), que analiza la coyuntura del Estado Moderno, a través de autores que retratan este escenario, utilizando como supuestos el materialismo histórico. Señalamos algunos impactos del sistema capitalista combinado con el liberalismo, en el proceso de formación del Estado brasileño y sus reflejos en la educación pública. Así, este trabajo se organiza en tres secciones; la contextualización del Estado Moderno, a partir de las obras de Marx y Araújo, seguida de su formulación en el contexto brasileño, utilizando autores como Sodré, Lima, Bresser-Pereira y Bauer. Destacamos el impacto de esta configuración en el desarrollo de políticas públicas, con énfasis en la educación.
INTRODUÇÃO
Buscamos nesse artigo tratar sobre a formação do Estado moderno, sua base liberal, bem como, os impactos desse cenário na conjuntura do Estado brasileiro e nas políticas públicas que dele derivam, em especial no campo da educação.
Levando em consideração alguns autores que trabalham sobre essa temática como meio de nortear o presente texto e fornecer embasamento teórico para as discussões nele desenvolvidas. A busca em resgatar o contexto no qual o Estado brasileiro se desenvolveu, deriva da necessidade de compreender o contexto que influenciou (e ainda influência) na tomada de decisões dentro das políticas públicas educacionais.
Para isso faz-se necessário entender como ocorre o processo de formação do Estado Moderno, seu surgimento, finalidade e importância e necessidade. O Estado tem origem em meio a contradições que são reproduzidas socialmente, ou seja, sua importância encontra-se na necessidade de regular interesses antagônicos (ARAÚJO, 2016).
Esses interesses antagônicos nascem, de acordo com Marx (2010), pelo embate entre duas classes, a burguesia e o proletariado. Marx (2010) utiliza de momentos específicos da Alemanha e Inglaterra, para explicar esses embates, alegando que a produção do capital estimula a oposição de interesses, pois o capitalismo produz uma pobreza artificial, que na visão de Marx (2010) é mantida pelo Estado, por ele ser o ordenamento que dará continuidade a esse processo de reprodução do capital e manutenção das desigualdades que dele derivam.
Em meio a esse contexto teremos a ampliação da prática capitalista, embasada pela ideologia Liberal, que buscará naturalizar a desigualdade social e o acumulo da riqueza, por meio da ideia de propriedade privada e exploração via trabalho, trabalho este voltado a projeção, expansão do capital externo e a promoção de países desenvolvidos (dominantes) e de países subdesenvolvidos (dominados) (ARAÚJO, 2016).
Dessa forma este trabalho está organizado em três seções; a contextualização do entendimento de Estado Moderno, tendo como base de estudo as discussões de Marx (2010) e Araújo (2016), em seguida sua formulação dentro do contexto brasileiro, utilizando de autores como Sodré (1980), Lima (2005), Bresser-Pereira (1998) e Bauer (2012). Amarrando com o impacto dessa configuração de Estado no desenvolvimento de políticas públicas, com destaque para a educação, sob a fiscalização de organismos internacional, que servirão de norteadores das práticas liberais e de estimulo capitalista, manipulando o campo educacional como meio de disseminação de seus ideais. Conceito de Estado Moderno
Para compreendermos a ideia de Estado Moderno, como um ordenador político e jurídico da sociedade capitalista, torna-se necessário, entender sua origem e importância no cenário social. De acordo com Araújo (2016), o Estado como conhecemos, nasce em meio a uma organização produtiva, reflexo de uma estrutura de classe, que começa a ganhar forma dentro de um determinado contexto social (transição do feudalismo para o capitalismo) “o Estado só adquire significado quando situado nas relações sociais que possibilitam e, ao mesmo tempo, requerem sua existência” (ARAÚJO, 2016, p. 23).
Assim o Estado é importante apenas na reprodução das sociedades de classes, devido a interesses antagônicos, reproduzidos por meio de conflitos entre exploradores e explorados, que necessitam ser
regulamentados, para assim, garantir o direito à propriedade privada. (ARAÚJO, 2016) Em meio a essa situação, o Estado assume caráter mediador, com a função de conciliar (o inconciliável, como diria Freitas (2019), as situações resultantes dos embates entre classes, da vida material capitalista. Vida material esta, que para Araújo (2016), está intimamente ligada a ideia de trabalho, em sua obra, retoma conceitos de Marx e Lukásc, para contextualizar a relação ontológica entre vida social e trabalho “é preciso começar por constatar que em cada época particular os homens precisam, continuamente, suprir necessidades de autopreservação e de reprodução do tipo comer, beber, habitar, vestir-se e etc. Disto se segue que a produção da vida material é uma condição essencial” (ARAÚJO, 2016, p. 24).
No entendimento realizado pelo o autor, o trabalho transforma o indivíduo de um ser biológico para um ser social, “isso porque, à sua distinção, os atos de trabalho impulsionam os homens a desenvolver cada vez mais as potências físicas e mentais” (ARAUJO, 2016, p. 27). Dessa forma o trabalho, gera diversos complexos sociais heterogeneamente diversificados e organizados. Tendo em vista o contexto que estamos estudando, o Estado assume o papel de um desses complexos (pensando aqui os conceitos de estrutura e superestrutura destacados por Marx), gerando certa “ordem” para que se estabeleçam as condições necessárias para a reprodução da sociedade vigente (ARAÚJO, 2016). Na obra Glosas críticas marginais ao artigo “O rei da Prússia e a reforma social. De um prussiano”, Marx (2010) faz duras críticas sobre esse modelo de organização estamental, afirmando que o Estado reproduz e fortalece a escravidão, utilizando de mecanismos opressores para com as classes dominadas. Marx (2010) busca no momento histórico da Alemanha pré-revolução, para desenvolver seus pensamentos, sobre o sentido e função do Estado moderno, em meio a expansão do capitalismo pela Europa.
O pensador alemão, parte da publicação de Arnold Ruge na revista Vorwarts, intitulada “O prussiano” (que retratava a greve dos tecelões da Silésia), para desenvolver sua teoria em relação ao papel do Estado frente a essa questão. De acordo com “o prussiano”, as dificuldades ocorridas na Alemanha são de caráter local, decorrente de sua da má organização política, “é impossível, para um país não-político como a Alemanha, compreender que a miséria parcial dos distritos industriais é uma questão geral, e muito menos que representa um problema para o conjunto da sociedade” (MARX, 2010, p. 25).
Assim o movimento dos tecelões não pode ser visto como sendo um movimento isolado, mas sim representa um marco para a organização do proletariado, uma luta frente as condições impostas pelo sistema capitalista, por mais que não tenha o mesmo dinamismo com que ocorreu em outras regiões, a necessidade do rei de ter que colocar suas tropas armadas contra os trabalhadores, já era um sinal positivo e contrário a visão do “prussiano” (MARX, 2010).
Marx (2010) vai além, em sua reflexão, consegue identificar fatores que são similares entre Inglaterra e Alemanha, decorrente das próprias características universais do capital, independente do seu contexto histórico ou fase de desenvolvimento, são estruturais, produtos da exploração construídas pela própria essência do capital.
Dessa forma Marx (2010) utiliza da questão da miséria nesses locais, para reforçar seu discurso, alegando que tanto a miséria ocorrida nas periferias, como em regiões mais avançadas, são resultados das explorações de uma classe sobre a outra, desmistificando a ideia do “prussiano” de que os problemas ocorridos na Alemanha, são resultados da falta de política.
Pelo contrário, para Marx (2010) o Estado não é capaz de resolver os problemas sociais, como o caso da miséria ou o pauperismo, entendidos como uma “falha de administração”, pois esses problemas são reflexos da própria lógica do capital, ou seja, da exploração da força de trabalho e da acumulação capitalista. Assim o Estado não exerce função de eliminar ou erradicar tais problemas, mas tem o papel de discipliná-los e perpetuá-los “O Estado pode agir de outro modo? Para ele “o Estado jamais
verá no Estado e na organização da sociedade” a razão das mazelas sociais. [...] Onde quer que haja partidos políticos cada um deles verá a razão de todo e qualquer mal no fato de seu adversário estar segurando o timão do Estado” (MARX, 2010, p. 38).
Seguindo esse viés, será necessário a ideia de uma emancipação humana, tema que Marx tratará em sua obra Sobre a Questão Judaica (2010), um diálogo que ocorrerá em relação ao livro do então, seu colega Bruno Bauer, intitulado “A questão judaica”, a obra servirá para que Marx (2010) avance em seus estudos e compreensões sobre a realidade da sociedade, em especifico a luta dos judeus na Europa, o assunto renderá divergências de pensamentos entre Marx e Bauer. Enquanto Marx desenvolverá suas críticas em uma perspectiva material, com carácter político e social, Bauer permanecerá no mundo das ideias, em uma perspectiva filosófica voltada a religião e ao cristianismo. (MARX, 2010)
Marx (2010) alega que Bauer confunde os sentidos de emancipação política e humana, Bauer acredita que através da emancipação política o homem será libertado de suas amarras em relação a religião, e Marx busca esclarecer essa questão, destacando o sentido de emancipação, pois acredita que não se trata de algo simples, “a emancipação política relativamente à religião não é a emancipação consumada, desprovida de contradição” (MARX, 2010, p. 48), continua sua crítica afirmando que “o limite da emancipação política aparece logo no fato de que o Estado pode libertar-se de uma barreira sem que o homem esteja realmente livre dela, [no fato de] que o Estado pode ser um Estado livre sem que o homem seja um homem livre” (MARX, 2010, p. 48).
Dessa forma Marx (2010) difere seu olhar em relação aos judeus, entende que a questão religiosa é de caráter pessoal e não de responsabilidade do Estado, seus estudos se voltam para a situação do judeu em uma perspectiva concreta, relacionada a embates entre classes, o direito à propriedade privada e o acumulo de capital. Com isso Marx (2010) busca reforçar seu posicionamento frente a emancipação dos judeus, mas não uma emancipação limitada, (no caso a política), que apenas gera liberdade nos limites das contradições da sociedade capitalista.
Seu posicionamento vai de encontro a ideia de uma emancipação humana, que ultrapasse os entraves postos pelo capital e reforçados pelo Estado, “a emancipação humana só estará plenamente realizada quando o homem tiver reconhecido e organizado suas “forces propes” [forças próprias] como forças sociais e, em consequência, não mais separar de si mesmo a força social na forma de força política (MARX, 2010, p. 54). Por essa questão que Marx acredita em outra forma de organização social, que ultrapasse os limites da sociedade capitalista, ação que apenas poderá ser alcançada, através da emancipação humana.
A concepção de Estado Moderno no Brasil
Partindo do pressuposto que o Estado é um órgão mediador, que concilia interesses de caráter político e jurídico do sistema capitalista, torna-se necessário compreender como esse ordenamento se desenvolve no contexto do Brasil. De acordo com Sodré (1980) o processo de formação brasileiro ocorrerá de maneira desigual, não apenas em relação a sua condição frente aos países europeus, mas também, dentro do próprio território, teremos diferenciações.
Para compreendermos melhor o perfil do Estado brasileiro, é necessário ter a consciência de que ocorreram avanços diferentes em um mesmo período histórico, isso tanto em escala global, em relação aos países, como também nacional, entre as regiões do Brasil, “isto é, da existência, ao mesmo tempo, de realidades sociais diferentes, mas no mesmo país ou colônia” (SODRÉ, 1980, p. 135). Para Sodré (1980), isso explica o porquê de existir uma distância histórica entre o processo de desenvolvimento europeu em relação ao brasileiro.
o caso dos países europeus. Para Sodré (1980), existiu um caminho natural nesses locais, uma tendência para a criação de excedente, e consequentemente, o surgimento de um mercado consumidor, tendo como solução, uma evolução ao escravismo.
Fato que não ocorreu no território brasileiro, o que houve no Brasil foi uma transplantação de elementos humanos africanos e europeus, “a primeira forneceram a massa da classe dominada, a que concorreu com o trabalho; os segundos forneceram a maioria absoluta dos que concorreram com a propriedade privada” (SODRÉ, 1980, p. 138).
Dessa forma Sodré (1980), acredita que o modelo de organização estamental no Brasil, foi uma criação de fora, uma importação europeia, que rompeu com as relações sociais ocorridas no território brasileiro, criando um modelo escravista, que atendia as demandas do sistema colonialista, caracterizado como um modelo de produção sem mercado interno, apenas atendendo as necessidades externas, ou seja, destinado à exportação.
Essas ações na visão de Sodré (1980) antecedem as concepções capitalistas, para o autor, o país surge em meio a um modelo de produção escravista, argumenta que:
Uma das características mais interessantes dos modos de produção anteriores ao capitalismo foi a que se expressou na confusão entre econômico e o social. As relações econômicas eram expressas, em regra, por formas não-econômicas. Isso as disfarçava, como se sabe. É universalmente aceito que o capitalismo tornou as relações de classes ostensivas, deixou-as claras, despojou-as de seus disfarces. [...] O escravismo importou: na antiguidade romana e grega, em períodos de tempo muito conhecidos, sobre os quais existe documentação suficiente vigorou o escravismo. Criou paradigma, o modelo. Conquanto o escravismo moderno tenha decorrido de condições históricas muito diferentes, aquele modelo serviu bastante para caracterizá-lo como tal. (SODRÉ, 1980, p. 145)
O Estado brasileiro vai moldando suas ações frente a pressões externas, sendo aos poucos inserido o modelo econômico capitalista em sua composição e desenvolvimento, como Sodré (1980), afirma, o Estado vai criando seus paradigmas e métodos frente as influências de fora “os modos de produção se apresentam aqui, como formas particulares, que os distinguem do modelo conceitual, como não podia deixar de ser [...], também são diferentes as formas de passagem de um a outro modo de produção, de uma a outra forma social” (SODRÉ, 1980, p. 148).
Lima (2005, p. 58) enfatiza que “o Brasil é um país onde as influências externas estão presentes, principalmente, no que se refere à organização política e econômica, como também cultural”, assim, conforme o capitalismo vai se expandindo na Europa e EUA, alimentado pela corrente ideológica liberal[i], que no território brasileiro assume formato diferente, decorrente de sua formação colonial e de sua conjuntura histórica (LIMA, 2005).
A origem do Liberalismo não tem uma data definida, pode-se dizer que o seu nascimento se deu no processo de transição do feudalismo para o capitalismo, período de profundas transformações na organização social, transformações estas que resultaram no surgimento de uma nova sociedade que não podia mais justificar o poder político pela providência divina nem pela ordem natural das coisas. Estas mudanças possibilitam uma nova forma de organização política, econômica e social, formada nos fins da idade média. (LIMA, 2005, p. 22)
Seguindo nessa linha de pensamento, o resultado da influencia liberal aliado a uma economia capitalista no Brasil, irá resultar em um modelo de produção de dependência, reflexo da maneira como o Estado foi sendo conduzido, guiado por ações externas em contraponto com problemas locais, ocoasionando forte diferença na formação econômica do país (BAUER, 2012).
Para Bauer (2012) os estágios pelos quais o Brasil não passou (ao contrário da Europa), fez com que nossa formação social fosse desigual, “a condição histórica predominante, trouxe o atraso letárgico e a dependência nas relações econômicas, tecnológicas, populações inteiras degradadas pela deculturação e transformadas em combústivel humano no processo produtivo brutalizado” (BAUER, 2012, p. 22).
Nesse ponto podemos fazer uma comparação entre as obras de Bauer (2012) e Sodré (1980), pois esses estágios que Bauer (2012) destaca, são representações de um processo que ocorreu na Europa de maneira lenta e gradual, resultando em um modelo econômico capitalista, amparado pela lógica liberal, caso que no Brasil não aconteceu da mesma maneira, sendo transplantado um modelo de fora (SODRÉ, 1980), em meio a um contexto local enraizado por características coloniais, escravistas, religiosas, mesclando com uma formação de classe burguesa industrial e de intelectuais liberais. O resultado de tal cenário pode ser compreendido através das palavras de Ribeiro (1978, p. 168).
“[...] a um trauma que submergem sociedades subordinadas a centros industriais, que se veêm ativadas, por intensivos processos de modernização reflexa e de degradação cultural. Somam-se a isto a explosão demográfica e a urbanização acelerada e caótica, agravano ao extremo as tensões sociais que essas sociedades não têm meios de superar ou mesmo de abrandar, porque não poderão exportar seus excedentes populacionais, como fez a Europa no mesmo passo. Nestas circunstâncias, os efeitos reflexos do processo de industrialização, atuando, principalmente, no sentido da dissociação, o tornam incapaz de gerar as forças autocorretivas que permitam enfrentar aqueles percalços, porque seus comandos se encontram fora da sociedade que sofre seus efeitos, e também porque as potencialidades da tecnologia industrial, sendo aplicadas nos campos e limites necessários para tornar as economias periféricas mais eficazes no exércicio de seu papel tradicional, aprofundam sua dependência, só ensejando uma modernização parcial e deformada” (RIBEIRO, 1978, p. 168).
Bauer (2012) e Ribeiro (1978) apontam que esse cenário resulta em uma sociedade subdesenvolvida, que assume um perfil econômico dependente, complementar a outras economias, guiado pelos preceitos de ordem mundial do capital, esvaindo as possibilidades de geração de uma economia autonoma no país, “nessas circunstâncias históricas, seu atraso relativo e intempestivas ações políticas não são o produto de etapas distintas e de transição entre o passado “arcaico” e “feudal” e o “moderno” e capitalista modo de produção, mas uma condição estrutural e conscientemente inibitória do progresso social” (BAUER, 2012, p. 24).
A dependência econômica brasileira intensificará com o desenvolvimento do capitalismo, principalmente em sua terceira fase[ii], chamado de capitalismo financeiro, que nasce com o fim da segunda guerra mundial, e início da junções de grandes empresas e bancos, formando monopólios, com o intuito de ampliar os lucros e expandir seus negócios (BRESSER-PEREIRA, 2011).
Isso porque de acordo com Bauer (2012), a partir do período denominado “milagre econômico”, no regime militar, o Brasil chamará a atenção dessas grandes instituições financeiras internacionais, prejudicando assim, o desenvolvimento da burguesia local, e estimulando o crescimento de
monipólios internacionais “em consequência, são reduzidos os espaços econômicos, políticos, diplomáticos e hegemônicos das burguesia periféricas e dos Estados nacionais dependentes. Suas funções externas e autônomas são limitadas. Subordinam-se ao condomínio burguês-monopolista sob hegemonia imperialista” (BAUER, 2012, p. 25).
Nesse contexto, Bauer (2012) enfatiza que o Estado brasileiro assumirá o papel de financiador, banqueiro, legislador e reorganizador desse sistema capitalista, estimulando ações em prol do favorecimento ao monopólio comercial internacional, reforçando ainda mais o caráter dependente do país frente a ordem global e dificultando o desenvolvimento da elite burguesa nacional. Consequentemente o Estado se colocará a serviço dos interesses desses grupos externos, ajustando suas políticas e ações públicas em prol dos objetivos e estratégias de ordem imperialista internacional.
A relação entre Estado e educação sob a conjuntura liberal
Bresser-Pereira (1998) desenvolve uma análise sobre o papel do Estado ao longo das decádas, em cada fase, o mesmo assume perfis diferentes, influenciados pelas tendências e orientações externas. Acredita que entre as décadas de 1930 a 1960, o Estado teve papel fundamental no desenvolvimento econômico e social, sendo o principal fomentador de atividades de mercado e ações de políticas sociais.
Em contrapartida na década seguinte, o cenário muda “a partir dos anos 70, porém, face ao seu crescimento distorcido e ao processo de globalização, o Estado entrou em crise e se transformou na principal causa da redução das taxas de crescimento econômico, da elevação das taxas de desemprego e do aumento da taxa de inflação que, desde então, ocorreram em todo o mundo” (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 49).
Nesse contexto ganhará espaço as políticas de cunho liberal, que assumirão nova roupagem, denominadas de neoliberalismo, para Lima (2008, p. 5) “os neoliberais retomam a proposta do Estado minimalista, ou seja, a não preocupação com a saúde, educação e previdência social. A ação se restringe ao policiamento, justiça e à defesa nacional”, e ainda complementa “o liberalismo ao longo dos tempos se modificou a partir das necessidades do capitalismo em se manter vivo. Embora as características se diferenciem nos diferentes momentos, há um princípio que é presente em todas as suas formas, a defesa da propriedade privada” (LIMA, 2008, p. 5).
Bresser-Pereira (1998) alega que o mercado é o meio eficiente de superação de crises, que em seu posicionamento, estão vinculadas a interferências do Estado em assuntos voltados ao mercado, “a crise do Estado a que estou me referindo não é um conceito vago. Pelo contrário, tem um sentido muito específico [...] A crise do Estado está associada ao caráter cíclico da intervenção estatal, e ao processo de globalização, que reduziu a autonomia das políticas econômicas e sociais dos estados nacionais” (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 54), não descarta a importância do Estado frente a aspectos políticos, sociais e econômicos, sendo necessário muitas vezes sua intervenção.
O Estado moderno é anterior ao mercado capitalista porque é o Estado que garantirá os direitos de propriedade e a execução dos contratos, sem o que o mercado não poderá se constituir. Mas é também contemporâneo e concorrente do mercado, porque cabe a ele o papel permanente de orientar a distribuição da renda, seja concentrando-a nas mãos dos capitalistas nos períodos de acumulação primitiva, seja distribuindo-a para os mais pobres, de forma a viabilizar a emergência de sociedades civilizadas e modernas, que, além de ricas, demonstraram ser razoavelmente equitativas. (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 52).
Logo Bresser-Pereira (1998) acredita que pode ocorrer uma convivência positiva entre Estado e mercado, em um mesmo ambiente, considera os dois complementares “a complementaridade de mercado e Estado, de capital e organização, de empresários e administradores públicos e privados, tornara-se essencial para o bom funcionamento dos sistemas econômicos e a consolidação dos regimes democráticos” (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 53).
Pois de acordo com Freitas (2019) a função do Estado, nesse cenário, é de manter a dominação da classe dominante sobre a classe dominada, estabelecendo meios para que a classe dominante mantenha suas condições materiais de existência, ou seja, o Estado assume o papel de ser um ordenamento político de exploração da classe inferior.
Essa visão de ordenador político, econômico e jurídico que o Estado assume, dará base para reformulação do mesmo, em diversos países e regiões. Na América Latina, em especifico no Brasil, a partir dos anos 90, organizado principalmente pela direita neoliberal e organismos internacionais, que terão um objetivo em comum, diminuir o tamanho do Estado e destinar o controle da economia para o mercado (BRESSER-PEREIRA, 1998).
Para atingir esse objetivo era necessário desenvolver diversas reformas, principalmente em países subdesenvolvidos, como o caso do Estado brasileiro, para que se ajustassem as novas tendências globais, “era necessário privatizar, liberalizar, desregular, flexibilizar os mercados de trabalho, mas fazê-lo de forma radical, já que para o neoliberal o Estado deve limitar-se a garantir a propriedade e os contratos, devendo, portanto, desvencilhar-se de todas as suas funções de intervenção no plano econômico e social” (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 57).
Em um cenário ideal esse seria o modelo de Estado perfeito para atender as perspectivas neoliberais, mas na prática, não foi necessariamente dessa forma, como mencionado ao longo do texto, a construção de uma sociedade e suas organizações, são formadas, reflexo do contexto histórico, político, social e econômico que as criou. Assim, cada região terá adaptações, reconfigurações, reformas que trarão avanços ou retrocessos, mas que não deixarão de ter como base a implantação e ampliação da lógica do capital.
Marx (2010) faz uma crítica sobre essa relação entre o modo de produção do capitalismo e a perspectiva liberal, compreendendo a existência de uma superestrutura política, formada a partir de uma infraestrutura existente, na qual a primeira determina a segunda. Em sua análise acredita que as condições materiais, econômicas e as relações de trabalho são determinantes na questão estrutural, tanto social, como jurídica, política, estendendo-se até o campo educacional.
Bresser-Pereira (1998), propôs então uma via mais flexível, que tenta acenar para ideais liberais e sociais, atendendo a demandas ideológicas de direita, centro, esquerda e também de organismos internacionais[iii], como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, resultando no que ele denomina de Estado Social-Liberal.
Social porque continuará a proteger os direitos sociais e a promover o desenvolvimento econômico; liberal, porque o fará usando mais os controles de mercado e menos os controles administrativos, porque realizará seus serviços sociais e científicos principalmente através de organizações públicas não- estatais competitivas, porque tornará os mercados de trabalhos mais flexíveis, porque promoverá a capacitação dos seus recursos humanos e de suas empresas para a inovação e a competição internacional. (BRESSER-PEREIRA, 1998, p. 60).
As tendências apresentadas por Bresser- Pereira (1998), irão nortear as reformas dos anos 90/2000 no Brasil, com intuito de aos poucos retirar o Estado de uma série de tarefas, entendidas como não sendo de exclusividade do mesmo, transferindo funções e estimulando a participação mais ativa do mercado frente as políticas públicas. Como exemplo teremos o campo educacional, que aos longo dos anos vem deixando de ser responsabilidade exclusiva do Estado.
Pode-se afirmar que, na Educação Liberal, preconizada em diferentes momentos de desenvolvimento do capitalismo, mesmo não sendo difundida pelas mesmas vozes e nos mesmos lugares, há algo que se torna homogêneo nas diferentes propostas educacionais – a conservação da sociedade capitalista via educação (LIMA, 2008, p. 55)
Seguindo nessa perspectiva, os modelos de expansão neoliberais, dentro no cenário das políticas públicas, promoverão ações de transferência da educação de um contexto de políticas sociais para o âmbito da esfera mercantil, entendendo a mesma, como mercadoria produzida de forma acelerada e seguindo os novos parâmetros de produtividade global, reduzindo custos e aumentando lucros, desse modo, “os indivíduos devem ser responsabilizados pelo custo de seu investimento e receber as recompensas” (FRIEDMAN, 1984, p. 99).
Aliando ao pensamento de Bresser-Pereira (1998), o Estado não deveria interferir nesse processo, sendo sua função diminuir a interferência direta, e aumentar a pilotagem a distância em parceria com o setor privado, para assim melhorar a eficiência das ações públicas.
Esses fatores resultarão em um modelo educacional, não mais entendido pelo viés do direito social, mas como um produto que pode ser consumido individualmente “o debate educacional é pautado em grande parte pelos homens de negócios” (LEHER, 1999, p. 29), como uma mercadoria em uma prateleira de mercado, em que pode ser adquirida de acordo com o poder de compra de cada indivíduo.
No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise no sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital, e pelo esmagamento dos cortes de recursos dos orçamentos públicos. Talvez nada exemplifique melhor o universo instaurado pelo neoliberalismo, em que “tudo se vende, tudo se compra’, ‘tudo tem preço’, do que a mercantilização da educação” (MÉZÁROS, 2005, p. 16)
Dessa forma, é colocado a educação e as ações dela derivadas, nos mesmos patamares de competitividade do mercado internacional, sendo feitas mudanças nas políticas públicas da área, de acordo com as demandas externas (SOARES, 2010), principalmente definidas e pré-estabelecidas pelos organismos internacionais, que geram meios de atuações através da elaboração de relatórios, avaliações e pareceres, diagnosticando os procedimentos que devem ser tomados em âmbito educacional.
Sendo o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), popularmente conhecido como Banco Mundial, um dos órgãos com maior evidência, em relação a suas orientações no campo da educação. Na visão de Fonseca (1997), o banco atua através de mecanismos de ajustes das necessidades neoliberais, orientando reformulações de políticas públicas, “as reformas são apresentadas como intervenções “técnicas”, ausentes de qualquer debate teórico e político, e orientadas pelas “lições aprendidas” e as “boas práticas” que o BM se mostra interessado em reproduzir em todos os países, desconhecendo os diferentes contextos” (VIOR, CERRUTI, 2015, p. 116).
De maneira geral o banco atua principalmente em países subdesenvolvidos, como o caso do Brasil, fornecendo empréstimos, via financiamento, para que o país atue em áreas em que o órgão acredita ser deficitária e que merecem maior atenção, através de orientações/recomendações de ajustes, cortes e reformas que deverão ser desenvolvidas para que o país receba os recursos.
No Brasil o banco começa a ter uma participação mais ativa, a partir dos anos 80, quando são desenvolvidos pesquisas e produzidos relatórios com orientações especificas para América Latina e Caribe, recomendando ajustes/reformas na organização política e econômicas dos países que compõem essa região, principalmente reflexo da crise econômica desse período, e do fortalecimento da onda neoliberal pelo mundo (VILAS, 2015, p. 65), para Pronko (2015) o Banco Mundial afirma que:
Não é preciso que o Estado seja o único provedor de serviços básicos, abrindo as portas para provedores privados competitivos em atividades até agora reservadas ao setor público. Assim, Estado e mercado não precisam ser considerados antagônicos na administração da sociedade, sendo a privatização a saída mais óbvia para esse processo. A reforma do Estado, passa a ser a única saída das nações para se adequarem às novas condições mundiais (PRONKO, 2015, p. 98)
Os reflexos de tais orientações impactam principalmente nas políticas públicas sob responsabilidade do Estado, em especifico a área de educação, abrindo campo para a intervenção do setor privado, com o discurso de que “as parcerias público-privadas se colocavam como uma possibilidade que promovia o “melhor” das duas esferas, concentrando esforços para resolver, ao mesmo tempo, os problemas da concorrência internacional e do acesso da população aos serviços” (PRONKO, 2015, p. 99).
Essa forma de gestão irá nortear as políticas de Estado desenvolvidas no Brasil, ao longo dos anos 90/2000, tendo momentos em que serão empregadas com maior abertura, reflexo do caráter de governo que estará no poder, ora com maior tendencial liberal, ora mais social, a grosso modo o entendimento é de que “embora a educação possa ser compreendida como um bem público, ela é, antes de mais nada, um serviço de responsabilidade do Estado, no que diz respeito à sua regulação e asseguramento, mas que pode ser fornecido por provedores tanto públicos quanto privados” (PRONKO, 2015, p. 201).
Desde a década de 1990 foram diversos documentos lançados, com orientações de como o Estado deve proceder na gestão/administração e em políticas públicas, como o caso da educação, entre eles, destacam-se: Educação primária (1990), Ensino superior: lições derivadas da experiência (1994) e
Prioridades e estratégias para a educação (1995), e os mais recentes Aprendizagem para Todos Investir nos Conhecimentos e Competências das Pessoas para Promover o Desenvolvimento Estratégia (2011), Retomando o caminho para a inclusão, o crescimento e a sustentabilidade (2016), Um Ajuste Justo: Análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil (2017), Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial (RDM) de 2018: APRENDER para Concretizar a Promessa de Educação (2018).
Consequentemente teremos orientações voltadas para a operacionalização, responsabilização, busca de resultados, retornos financeiros, análise de dados, diagnósticos das falhas, comparações dos progressos e melhorias. Tendo como base os resultados de países que apresentam melhores números e práticas, traçando estratégias e direcionamento de investimentos de acordo com o perfil econômico de cada país, como exemplo, o caso brasileiro, que terá a diminuição dos recursos destinados ao ensino superior, e sua realocação na educação básica e ensino técnico, como meio de desenvolver o capital humano e atender as características do perfil da demanda de mão de obra do país (VIOR,
CERRUTI, 2015).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nota-se que o processo de criação do Estado moderno, esteve amarrado as conjunturas ideológicas dominantes, sob destaque na área econômica, o capitalismo, e na política, o modelo liberal, as práticas decorrentes serão criticadas principalmente por teóricos sociais, que irão entendem esse modelo de organização social, como um ordenamento hegemônico, de projeção e valorização de uma classe social sobre a outra.
Assim não teremos na figura do Estado, um meio de resolução dessa crítica, pois sua função será de mediar, conciliar o “inconciliável”, com o objetivo de manter a harmonia e a ideologia dominante, “para proteger a propriedade privada moderna nascente, o Estado, desde a fase da acumulação primitiva do capital, promulgou, por meio do aparato jurídico-legal que lhe corporifica, leis que foram, já ali, fundamentais para a consolidação posterior do referido sistema” (ARAÚJO, 2016, p. 58).
Desse modo, em alguns momentos ocorrerão recuos em outros avanços, dependendo da forma como a sociedade em que o Estado está inserido será organizada. No caso do Brasil, o mesmo assumirá um perfil dependente, reflexo do processo de colonização e exploração pelo qual sofreu, alimentando o desenvolvimento de outros países, dentro dos preceitos da lógica do capital “esse fenômeno é compatível com o desenvolvimento do capitalismo desde seus primórdios, a subordinação do trabalho ao capital” (BAUER. 2012, p. 21).
Nesse sentido a educação será o mecanismo para que esse modelo de organização liberal seja colocado em prática, tanto na forma de estrutura educacional, como a própria educação, que será colocada como mercadoria a ser comercializada, apoiada pelo Estado através da adequação do setor educacional às normas e orientações externas “pré-estabelecidas” por agentes internacionais (MEZÁROS, 2005), tendo como base um modelo liberal de ação, onde o mesmo distingue, classifica e reformula o papel do Estado dentro da sociedade, sendo um “Estado mínimo para as políticas sociais e de Estado máximo para o capital” (PERONI, 1990, p. 56).
REFERÊNCIAS
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_________. Glosas Críticas Marginais ao Artigo “O rei da Prússia e a reforma social” de um prussiano. Trad.: Ivo Tonet. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
MÉSZÁROS, I. A educação para além do capital. Campinas. Sp: Boitempo, 2005.
PERONI, V. M. Política Educacional e Papel do Estado: no Brasil dos anos 1990. São Paulo: Xamã, 2003.
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RIBEIRO, D. O processo civilizatório: Etapas da evolução sociocultural. Estudos de antropologia da civilização. Petrópolis: Editora Vozes, 1978.
SCHWARZ, Roberto. Cultura e política. São Paulo: Paz e Terra, 2005.
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SODRÉ, J. G. Modos de produção no Brasil. In: LAPA, José R. A (org). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Editora Vozes, 1980.
VILAS, Carlos M. O Banco Mundial e a reforma do Estado na América Latina: fundamentos teóricos e prescrições políticas. In PEREIRA, João M. M. (org.) A demolição de direitos: um exame das políticas do Banco Mundial para a educação e a saúde (1980-2013). Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, 2014.
VIOR, S.; CERRUTI, M. B. O. O Banco Mundial e a sua influência na definição de políticas educacionais na América Latina (1980-2012). In PEREIRA, João Márc Mendes (org.) A demolição
de direitos: um exame das políticas do Banco Mundial para a educação e a saúde (1980-2013). Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, 2014.
[i] Nesta perspectiva o liberalismo não pode ser entendido como um corpo de ideias descolada da realidade, mas, sim como uma ideologia da sociedade burguesa fruto das ações concretas dos homens. O liberalismo é um conjunto de ideias que tem a finalidade de assegurar a liberdade individual e a propriedade privada. Estas ideias filosóficas foram geradas a partir do surgimento de uma nova sociedade econômica, no final da idade média: a sociedade capitalista.
[ii] O capitalismo passou por três grandes estágios: o capitalismo mercantil entre o século XIV e o XVIII, o capitalismo clássico no século XIX e, desde o início do século XX, o capitalismo dos profissionais ou tecnoburocrático. No plano da sociedade, esta periodização tem como critério as relações de produção ou a natureza das classes dominantes. A primeira fase – o capitalismo mercantil – foi fruto das grandes navegações e da revolução comercial. Nessa fase a aristocracia proprietária de terras é ainda dominante, mas uma grande classe média burguesa está emergindo. Com a formação dos primeiros Estados-nação e a revolução industrial nos séculos XVII e XVIII, a revolução capitalista pode ser considerada “completa” em cada sociedades nacional desenvolvida e entramos na fase do capitalismo clássico. A terceira fase do capitalismo desencadeia-se com a segunda revolução industrial: a revolução da eletricidade, do motor a explosão, da produção em linha de montagem e do consumo de massa. E é consequência de dois fatos novos: 1) a organização substitui a família no papel de unidade básica de produção e 2) o conhecimento substitui o capital na qualidade de fator estratégico de produção; e a burguesia é obrigada a partilhar poder e privilégio com a nova classe média profissional que então emerge e o capitalismo dos profissionais se configura. (BRESSER-PEREIRA, 2011, p.177)
[iii] Esses organismos são compostos por órgãos mundialmente conhecidos de fomento ao mercado, que buscam o desenvolvimento do capital humano, entre esses órgãos temos: ONU (Organização das Nações Unidas); CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe); FMI (Fundo Monetário Internacional); OIT (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico); UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância); PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento); BIRD (Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento). (SOARES, 2000).
*Professor da rede básica de ensino do estado de Santa Catariana. Mestrando em Educação pela Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná (UNICENTRO). Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Integrante do Grupo de Pesquisa Estado, Política e Gestão em Educação (UNICENTRO/IRATI-PR). E-mail: [email protected].