V Mostra de Pesquisa da
Pós-Graduação
A marginalização da literatura brasileira dos anos 70 e 80: um
olhar sobre a produção e a crítica através das cartas de Paulo
Leminski e Caio Fernando Abreu
Vinícius Gonçalves Carneiro, Ricardo Araújo Barberena (orientador)
Faculdade de Letras, PUCRS
Resumo Introdução
A literatura dos anos 70 e 80 no Brasil tem sido, até hoje, observada com um olhar um tanto míope: de um lado, alguns nomes da crítica e da historiografia literária brasileira tendem a enquadrá-la de um modo fechado, com características muito restritas – por vezes, qualificando-a entre o bem e o mal, o bom e o ruim, o frutífero e o inócuo (fazem parte deste enquadramento designações como “literatura marginal”, “literatura do desbunde”, “literatura verdade” ou “literatura do eu”); de outro lado, há o silêncio, a desmemória, o esquecimento. Tendo como tema a literatura brasileira doa anos 70 e 80 e sua crítica e motivado por este quadro de negligência, tenho como objetivo rediscutir a produção literária deste período e a recepção da crítica quanto a esta. Farei tal estudo tendo como corpus de análise os livros Caio
Fernando Abreu - Cartas (Moriconi, 2002) e Envio meu dicionário e outras cartas
(Bonvicino, 1999). A partir do entendimento de cartas como “arquivo”, conforme conceito de Michel Foucault em Arqueologia do Saber (1997) e de Jacques Derrida em Mal de Arquivo (2004), construirei um caminho de descrição, delimitando um espaço de abordagem, o qual evidenciará o lugar dos enunciados dos arquivos e a projeção de outros sistemas de enunciados. Para um melhor entendimento do contexto literário deste período, utilizar-me-ei do conceito de “campo literário” de Pierre Bourdieau, presente no livro Regras da Arte (1996).
Após estudar os dois livros de cartas de Paulo Leminski e Caio Fernando Abreu e perceber nos enunciados um desejo constante de inserção no mercado literário brasileiro e de divulgação de suas produções, selecionei algumas cartas representativas e parti para o estudo da crítica sobre a produção literária dos anos 70 e 80. Recolhi então a bibliografia crítica sobre o período e selecionei os críticos literários Antônio Candido, Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Flora Süssekind e Heloísa Buarque de Holanda. Tal seleção deveu-se: ao fato de serem todos esses críticos mais do que relevantes no cenário intelectual brasileiro; ao fato de todos terem produzido e/ou produzirem textos críticos sobre a produção literária dos anos 70 e 80; à escassez de textos críticos sobre a produção literária pós-AI 5, o que facilitou, de certo modo, a minha seleção. Em seguida, tendo em vista um quadro de tipologias viciadas e viciantes ou um deserto de silêncio crítico, as perguntas que me surgiram foram: a. Por que alguns autores desse período como Paulo Leminski e Caio Fernando Abreu foram e são marginalizados ou esquecidos do discurso crítico e historiográfico, tendo em vista a sua representatividade e relevância na cena literária dos anos 70 e no mercado editorial brasileiro dos anos 80? b. Existiria o fetiche dá auto-marginalização por parte desses autores que explicasse tal sumiço – tendo em vista as produções de autor típicas da década de 70, como a geração mimeógrafo? c. É possível recontar uma nova história, fragmentária, dessa passagem dos anos 70 para os 80 integrando esses autores? Para responder tais perguntas e construir reflexões sobre os resultados, parto, como afirmado acima, do entendimento de cartas como “arquivo”, conforme conceito de Michel Foucault em Arqueologia do Saber (1997) e de Jacques Derrida em Mal de Arquivo (2004), além do conceito de Pierre Bourdieu, em Regras
da Arte, de “campo literário” (1996).
Resultados (ou Resultados e Discussão)
Trabalho com a hipótese de que os autores em questão não queriam a marginalização. Pelo contrário, fizeram de tudo para serem lidos e relidos. Se isso não foi mais bem realizado na década de 70, deveu-se ao mercado editorial brasileiro, o qual apenas nos anos 80 criou as condições para a sedimentação desses autores no mercado. O fato de esses autores estabelecerem e cultivarem relações de amizade e “estéticas” com escritores outros não plenamente inseridos no cenário acadêmico contribuiu, possivelmente, para tal exclusão.
Quanto à crítica, esta busca frequentemente enquadramentos explicativos, e ausentar alguns autores desses enquadramentos facilita um processo de leitura do período como um “período” ou uma “geração”. Esses enquadramentos motivaram a criação de estereótipos como “literatura marginal” ou “literatura do desbunde”, entre outros, os quais foram relevantes para a legitimação do que Marcos Augusto Gonçalves e Heloísa Buarque de Holanda (1979) chamam de “boom literário” da década de 70, mas contribuiu também para que outros autores fossem apagados desse período, assim como demarcou um modus operandi para ler os autores inseridos no boom. Outra parte da crítica não considerou as produções dos anos 70 e 80 como relevantes uma vez que olhou apenas para o mercado editorial brasileiro como o conhecido e estabelecido até então, não considerando as inovações quanto às publicações ocorridas nesse período e o que isso representava.
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