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Título: A arte das iluminuras: uma proposta de sala de aula. Por: Priscila Aquino Silva 1

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Academic year: 2021

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Título: A arte das iluminuras: uma proposta de sala de aula. Por: Priscila Aquino Silva1

O presente relato detalha uma atividade de História desenvolvida no interior de um Projeto Literário mais amplo intitulado “O amor e as aventuras de Tristão e Isolda”. A atividade “A arte das iluminuras medievais” foi desenvolvida no primeiro semestre de 2012 com as turmas de 7º ano do Ensino Fundamental do Instituto GayLussac e teve como produto final a produção individual de uma página iluminada nos moldes dos pergaminhos medievais.

A atividade “A arte das Iluminuras Medievais” se insere no interior de um amplo projeto interdisciplinar que conjuga três disciplinas: História, Português e Produção Textual. Utiliza-se como apoio didático do projeto o livro de Maria Nazareth Alvim de Barros2 cuja leitura e análise perpassam todas as referidas disciplinas. O livro foi considerado, em 2000, Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ – e a autora é mestre em língua e literatura francesa. Em Português, com a orientação da professora Dra. Simone Maria Bacellar, os alunos traçam uma comparação da história de amor impossível de Tristão e Isolda com mitos e lendas clássicas da Literatura mundial e da história, aprofundando casais como Eros e Psiquê, Júlio César e Cleópatra, Maria Bonita e Lampião. A professora estimula a pesquisa de histórias de amor entre casais famosos da realidade e da ficção. Em Produção Textual, sob supervisão da professora Maria Clara Maiolino, o objetivo é reconhecer, na narrativa do livro, aspectos da novela de cavalaria, identificando as partes e os elementos da narrativa em cada episódio, contextualizando na Idade Média as características do gênero. Além disso, os alunos estudam o gênero carta e produzem uma carta de amor. A produção da carta envolve um sorteio que divide a turma em Tristões e Isoldas. Tristão redige uma carta para sua amada, que recebendo sua carta,

1

Doutora em História Antiga e Medieval pela Universidade Federal Fluminense

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BARROS, Maria Nazareth Alvim de. O amor e as Aventuras de Tristão e Isolda. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.

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precisa responder. A produção da carta exige o conhecimento do gênero e um grande exercício de imaginação.

Já em História o projeto, desenvolvido por mim3, cumpre amplos objetivos. Trabalha-se, em primeiro lugar, com a noção da literatura como fonte histórica ao mostrar aos alunos diversos trechos do livro que abordam o contexto medieval, focando na figura do cavaleiro, da nobreza medieval, da relação de suserania e vassalagem e do rico imaginário medievo, repleto de fadas, gigantes, dragões e seres mágicos. O livro aborda também aspectos da forte religiosidade medieval, revelando uma sociedade teocêntrica. Por fim, ao estudarmos o poder da Igreja no mundo medieval, os alunos são convidados a imaginar o trabalho dos monges copistas nos Scriptoriuns medievais, descobrindo que os livros na Idade Média eram verdadeiros tesouros, muitas vezes cravejados de pedras preciosas e folheados a ouro. Assim, todos observam pergaminhos medievais iluminados através de projeções dessas imagens pesquisadas na internet, e analisamos em conjunto sua estrutura básica – a presença da letra capital iluminada, da borda iluminada e de iluminuras (figuras) que sempre se relacionam e dialogam com o texto. Para mostrar aos alunos uma imagem mais realista de um mosteiro medieval e do trabalho dos monges copistas em seu Scriptorium, assiste-se a trechos do filme “O nome da Rosa”4, analisando no caderno suas principais características.

O projeto é finalizado com duas grandes atividades: uma prova, onde o aluno mostra seus conhecimentos do mundo medieval através da leitura do texto e a atividade inscrita no projeto, intitulada “A arte das iluminuras medievais”. Através da análise de diversas iluminuras, os alunos precisam elaborar uma página iluminada medieval que servirá de suporte para iluminar a novela de cavalaria escrita em Produção Textual, mostrando que as disciplinas trabalham em sintonia.

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Importante notar que o trabalho sobre o contexto medieval é desenvolvido por uma professora que possui mestrado e doutorado em História Antiga e Medieval pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

4

Título original: (Der Name Der Rose) Lançamento: 1986 (Alemanha) Direção: Jean-Jacques Annaud Atores: Sean Connery, Christian Slater, Helmut Qualtinger, Elya Baskin. Duração: 130 min Gênero: Ficção

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O livro de Maria Nazareth Alvim de Barros auxilia no aprofundamento e aplicação de conceitos históricos. Procederemos aqui uma breve exemplificação da utilização de trechos do livro para análise histórica. Assim, o livro inicia contando sobre a violência do contexto histórico medieval, marcado principalmente na Alta Idade Média por invasões e lutas por terras. O trecho é analisado em conjunto com os alunos, que são orientados a relacionar a leitura do livro com o contexto material e simbólico do mundo medieval:

“Houve uma época, há muito tempo, em que a guerra era comum entre os povos. Os homens brigavam pela terra, pelos animais, pelos alimentos e até mesmo para passar o tempo. Foi numa dessas desavenças que o rei de Leonês morreu em combate”5.

A suserania e a vassalagem, relação fundamental da Idade Média, que estabelecia um vínculo de fidelidade entre o vassalo, que recebia um privilégio – geralmente um feudo - e o suserano, também é abordado pelo livro em diversos trechos, lidos e analisados em conjunto durante a aula:

“Assim, Tristão foi criado por um fiel vassalo do rei e, apesar de não ter conhecido o carinho dos pais, nem de ter tido irmãos com quem pudesse brincar (e brigar), era feliz e muito amado”6.

Além disso, o estudo do livro facilita a compreensão do feudalismo, revelando a importância da terra no contexto medieval como maior valor daquela época, conforme mostra o trecho: “Naqueles tempos distantes, as riquezas eram as terras, os homens que a cultivavam e os animais que ajudavam com sua força ou alimentavam as pessoas com suas carnes”7.

5

BARROS, Maria Nazareth Alvim de. op. cit. p. 8.

6

Idem. ibidem. p. 10.

7

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A profunda religiosidade do homem medieval é abordada no livro na forma de um ordálio, ou seja, um juízo de Deus. Acreditando que Deus protegeria os inocentes, a justiça medieval submetia os homens a ordálios, provas com fogo, água fervente ou afogamentos. Isolda é submetida a um ordálio, analisado em sala de aula para incentivar o entendimento de um pensamento focado em Deus, teocêntrico, mesmo nos aspectos relativos à justiça:

“Convencidos da culpa de Isolda, eles a obrigaram a enfrentar o julgamento divino. Essa prova era muito usada porque as pessoas acreditavam que, quando Deus agia como juiz, não havia possibilidade de erro ou engano na sentença. O acusado devia segurar um ferro em brasa e se defender das acusações. Se o ferro em brasa queimasse a sua mão, ele era inocente, caso contrário, sua culpa ficaria marcada no próprio corpo”8.

O relato da trajetória de Tristão convida os alunos a mergulharem no sedutor mundo da cavalaria medieval, revelando os valores de um cavaleiro, como honra, fidelidade, coragem, força e também a educação do jovem guerreiro, que envolvia música da harpa, a poesia, enfim, habilidades que o tornavam apto para a convivência no interior da corte do rei. A escrita do livro também reforça a forma de hereditariedade do trono na Idade Média - o herdeiro é o parente masculino mais próximo ao rei, geralmente seu filho primogênito. Assim, o livro fala: “Assim, durante três anos, Tristão encantou a Cornualha com sua música, com os poemas que compunha, com o trinado dos pássaros que imitava à perfeição. Marcos, todo bobo, tecia planos para o futuro: a coroa seria passada a Tristão, seu único herdeiro”.

Além de aspectos materiais o livro também é um rico manancial de aspectos relacionados ao imaginário medieval. Assim, os alunos entram em contato com seres e elementos considerados reais pelos homens da época medieval, como fadas, gigantes, dragões, poções mágicas – criaturas que povoam, aliás, nosso imaginário cinematográfico até os dias atuais.

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Depois da leitura detalhada do livro, os alunos conhecem a arte das iluminuras. Utiliza-se como recurso didático uma apresentação em PowerPoint com diversos exemplos de iluminuras medievais. Instiga-se que os alunos imagem uma cena: cercados por livros amontoados, sentado em um banco alto onde as pernas ficam suspensas a palmos do chão, o monge encontra-se diante de um códice em branco feito de pele de carneiro - disposto em posição inclinada - e com uma longa pena na mão. Um pouco acima vemos outro códice – este não está em Branco. Trata-se de um escrito de Santo Agostinho. O monge copia letra por letra, num trabalho exaustivo, já que entre mão e pena não existe nenhum apoio. Os olhos ardem e incomodam pelo esforço da leitura feita na maioria das vezes com pouca luz. Mas ele não está sozinho neste lugar úmido e frio: outros monges trabalham nas mesmas condições. Algumas vezes – quando se necessita de mais uma cópia de um mesmo manuscrito, um dos religiosos dita e os demais copiam. Estamos dentro de um Scriptorium medieval.

Para os monges medievais a leitura e a escrita é uma privação, uma ascese, como uma disciplina corporal, quase uma penitência. A leitura e a meditação eram formas de engrandecimento espiritual. O fato é que as condições de leitura e de escrita – que para os monges copistas, por exemplo, andavam juntas, eram realmente muito cansativas. Esse aspecto fica claro para os monges que seguiam a regra beneditina, uma vez que São Bento previa que os monges deveriam trabalhar para alcançar a ascese, e um trabalho extremamente cansativo e doloroso, que só poderia ser feito por letrados, é o trabalho de cópia e leitura.9

Assim, analisam-se o local de produção dos livros – os Scriptoriuns medievais, localizados nos mosteiros – e os agentes produtores desses livros – os monges copistas (que copiavam os documentos). Ler e escrever na Idade Média eram habilidades específicas de um grupo social distinto: os orattores. A Igreja toma para si a função de biblioteca e copista desse mundo – supervisionando assim o que era digno de leitura e devia ser reproduzido ou não. Os alunos aprendem o que é uma iluminura - nome que

9

DUBY, Georges. O tempo das Catedrais. A arte e a sociedade. 980-1420. Lisboa: Editorial Estampa. 1979. p. 76.

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se dá às imagens que ilustram as páginas dos livros na Idade Média. Era comum que os reis ou nobres muito ricos fizessem encomendas desses livros, caríssimos, no local onde eram produzidos: os Scriptoriums.

Os alunos aprendem, também, que todo trabalho manual na Idade Média era considerado inferior, inclusive o trabalho da escrita. Os monges copistas faziam essa atividade por penitência, pois era muito dolorosa. Toda a atividade era feita à pena, em pergaminho (nome dado a uma pele de animal, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, preparada para nela se escrever) o que dificultava a escrita. Outra dificuldade é que a escrita era feita em posição inclinada àquele que estava escrevendo. Muitos monges copistas desenvolviam artrites, tendinites e outras dores nas articulações pela repetição de movimentos. Assim, os alunos observam imagens de monges copistas trabalhando e imaginam esse tipo de trabalho doloroso durante muitas horas. Nesse tempo não existia a imprensa, então todo livro era feito à mão. Depois do trabalho do monge copista, o livro era encaminhado para um iluminador, que faria nele as iluminuras, figuras que enfeitariam o livro. O livro, nessa época, era considerado uma raridade. Por serem muito caros, apenas os reis, a alta nobreza e as próprias Igrejas que os produziam poderiam possuir esse bem. Além de ser destinado aos poucos que poderiam pagar por ele, o livro era uma verdadeira obra de arte, muitas vezes banhado a ouro e decorado com pedras preciosas. A tinta também encarecia o produto e quanto mais colorido, mais caro um livro.

Depois de estudar sobre os mosteiros e os monges copistas, os alunos conhecem, através da projeção do PowerPoint, diversas imagens de pergaminhos medievais iluminados. O objetivo é que eles estudem as estruturas que compõe um pergaminho medieval iluminado – como, por exemplo, a letra capital iluminada, a borda iluminada, e exemplos diversos de iluminuras no interior do pergaminho. Para materializar de forma efetiva a imagem de um mosteiro medieval e de um Scriptorium, os alunos assistem trechos do filme “O nome da Rosa”, baseado no Best-seller do medievalista Umberto Eco. Além de mostrar o interior dos mosteiros medievais, o filme também traz imagens que ajudam no entendimento da diferença entre as Ordens da Igreja –

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notadamente os franciscanos e os beneditinos – além de mostrar o pagamento do dízimo feito pelos camponeses. As seguintes cenas do filme foram assistidas fazendo, no caderno, anotações ditadas pela professora:

Cena 1 - Dois frades franciscanos chegam a cavalo a um Mosteiro Beneditino

visivelmente afastado de centros urbanos.

Cena 2 – Adson e Guilherme caminham pelo mosteiro. Atrás deles uma fila de

camponeses com cestas de sua produção na terra ou animais em mãos. – “Tudo que ofereces na terra receberás cem vezes mais no paraíso”, diz o monge em latim, recebendo o dízimo.

Cena 3 – Os frades entram no Scriptorium e o monge bibliotecário fecha uma porta ao

vê-los se aproximar. Guilherme pede para ver o trabalho dos monges mortos ao bibliotecário. Na mesa de Adelmo encontram iluminuras que revelam o lado cômico e desafiador do iluminador. – “Um burro ensinando as escrituras aos bispos. O papa é uma raposa. O abade é um macaco”. Um monge grita e sobe na cadeira com medo de um rato. Os outros riem.

Esse conhecimento é utilizado para fazer o trabalho “A arte das iluminuras medievais”. A proposta é que cada aluno elabore uma página iluminada para o texto produzido na disciplina de Produção Textual utilizando as estruturas dos pergaminhos medievais estudados durante as aulas. No anexo 1, confere-se a proposta da atividade das iluminuras e no anexo 2, 3 e 4, três exemplos de iluminuras feitas pelos alunos. Como professora e medievalista avalio que essa atividade possui originalidade e a importância de trabalhar o conteúdo histórico aliado a uma atividade lúdica de produção individual. Agradeço ao Instituto GayLussac, à minha coordenadora, Marília Cerqueira e ás professoras Simone Barcellar e Maria Clara Maiolino pela parceria e oportunidade de desenvolver um trabalho tão rico.

ANEXO 1

Atividade de História – Projeto Literário Tristão e Isolda

A arte das Iluminuras

D

entro do Projeto Literário Tristão e Isolda a proposta de atividade de História é viajar no tempo e usar a imaginação histórica para nos tornarmos monges copistas e iluminadores medievais.

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Todos já aprendemos em sala de aula que os livros medievais são verdadeiras obras de arte. Muitas vezes cobertos de pedras preciosas ou folheados a ouro, ter um livro em casa é sinônimo de riqueza. Através das aulas de História também estudamos a arte das iluminuras, o trabalho dos monges copistas e a estrutura de uma iluminura medieval. Aprendemos que uma página de um livro medieval geralmente contém as seguintes estruturas:

1) Borda iluminada: as bordas do texto medieval são iluminadas, ou seja, decoradas com motivos figurativos ou não. Geralmente as figuras que aparecem nas bordas possuem relação com o texto.

2) Capital iluminada: A letra capital – primeira letra de um texto – é ricamente decorada nas iluminuras medievais. Muitas vezes essas letras possuem desenhos que também estão relacionados ao texto.

3) Iluminuras: Iluminura é a arte de iluminar o texto com desenhos e figuras que facilitam o entendimento desse texto. Vimos vários exemplos durante as aulas.

4) Texto: O texto que deverá ser iluminado em nosso pergaminho medieval será de autoria própria e deve abordar elementos históricos do mundo medieval. O texto deve ser inspirado na história de Tristão e Isolda e no trabalho feito em Produção Textual.

Valor da Atividade: 3,0 pontos

A iluminura será avaliada pela sua beleza e riqueza de detalhes que remetam ao universo medievo. Não deixem de pesquisar na internet iluminuras medievais que possam inspirar na hora de fazer a sua. O texto será avaliado pela quantidade de referências medievais.

Boa sorte e divirta-se! Prof. Priscila

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BIBLIOGRAFIA

BARROS, Maria Nazareth Alvim de. O amor e as Aventuras de Tristão e Isolda. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.

DUBY, Georges. O tempo das Catedrais. A arte e a sociedade. 980-1420. Lisboa: Editorial Estampa. 1979.

MANGUEL, Alberto. Leitura de Imagens. Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

FAILLACE, Vera Lúcia Miranda. Catálogo do Livro de Horas da Biblioteca Nacional do Brasil. Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2009.

FILMOGRAFIA:

(Der Name Der Rose) Lançamento: 1986 (Alemanha) Direção: Jean-Jacques Annaud Atores: Sean Connery, Christian Slater, Helmut Qualtinger, Elya Baskin. Duração: 130 min Gênero: Ficção

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