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Violência e corpo: psicopatologia da atualidade

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Academic year: 2021

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Antonio Alexandre Iorio Ferreira [email protected]

Coordenador do Curso de Psicologia e Professor titular da Faculdade de Tecnologia Intensiva, onde ingressou em 2006. Tem experiência na área de Psicologia Clínica, atuando nos seguintes temas: psicanálise, laço social, violência, mal-estar e sujeito. Doutorando em Psicologia e Subjetividade pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Orientando do Prof. Henrique Figueiredo Carneiro. Tema de Pesquisa: Violência e sofrimento psíquico. Membro do LABIO – Laboratório sobre as novas formas de Inscrição do Objeto. Integrante de equipe do projeto Serviço de Atenção Psicológica no setor de Segurança Pública a partir do registro do boletim de ocorrência por vítimas da violência em espaços públicos.

Henrique Figueiredo Carneiro [email protected]

Professor Titular da Universidade de Fortaleza, onde ingressou em 1987. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Intervenção Terapêutica, atuando principalmente nos seguintes temas: psicanálise, dietética, subjetividade, mal-estar, laço social, saúde, violência e sujeito. Vice-presidente da Associação Brasileira de Psicologia da Saúde. Pesquisador da ANPEPP - GT Psicopatologia e Psicanálise. Membro fundador da AUPPF. Editor da Revista Mal-estar e Subjetividade e do Latin American Journal of Fundamental Psychopathology Online. Autor dos livros: AIDS A nova desrazão da humanidade (Ed. Escuta, 2000), Que Narciso é Esse? (Livro eletrônico CNPq, 2007 - http://www.cnpq.br/cnpq/livro_eletronico/index.htm), A Soberania da clínica na psicopatologia do coitidiano - Org. - (Ed. Garamond, 2009) e O Erotismo e o Paraíso (Ed. As Musas, 2010).

RESUMO

Este trabalho objetiva discutir a partir do referencial psicanalítico, os atos de violência ao corpo como uma psicopatologia da nossa atualidade cobrada pela cultura da estética que visa possibilitar a constituição de uma posição subjetiva para o sujeito. Partindo de um percurso histórico, ressalto o corpo enquanto imaginário social, até chegar a compreensão atual do corpo, enquanto objeto pulsional, estudado pelo campo das psicopatologias em psicanálise. Evidenciamos que o corpo não se limita ao sentido fisiológico, mas apresenta uma significação enquanto objeto pulsional em que o sujeito busca um sentido pelos atos de violência, que vemos hoje, ressaltados a partir das marcas corporais, das próteses muitas vezes dolorosas e dos ideais de estéticos. O Corpo representa o grau zero, a origem e causa primeira do sujeito, representa ainda o primeiro referencial das suas identificações narcísicas.

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Desde a Filosofia, o corpo é explicado para além do aspecto biológico. Inicialmente, vemos o corpo ligado ao divino, apresentando duas unidades, corpo e alma. A alma, em ato, é o que dá vida ao corpo, representa o espírito, o pensamento do corpo, o modo como pensamos e o modo como vivemos. (Ribeiro, 2010)

Posteriormente, o corpo é pensado pelos anatomistas, a partir das partes que o compõe, pois estas apresentam funções específicas que, em equilíbrio, possibilitaria a saúde perfeita. Porém, a noção de corpo se modifica no instante em que passa a ocupar o lugar da “prisão da alma, sede dos desejos sexuais” (Sant’Anna, 2001, p. 17).

Em Teixeira (2004, p.173) constatamos que “La imagen del cuerpo en psicoanálisis no corresponde a su materialidade anatómica, siendo ese cuerpo representado construído en la história subjetiva, maculado por lo erótico y sus implicaciones”, ou seja, o corpo que consideramos, enquanto corpo pulsional

Essa concepção faz surgir, a partir da instauração da linguagem, a dimensão cultural do corpo, ou seja, um corpo vivo que apresenta relação entre o psíquico e o somático, um corpo pulsional. No entanto, o corpo pulsional é submetido, em nome da moral, a políticas de controle que acabam por produzir implicações subjetivas e acarretam intenso sofrimento psíquico.

Vemos então, em seu percurso histórico, que o corpo apresentou um papel fundamental na organização do sujeito, ganhou diferentes significados ao longo da história, ora voltados aos ideais da coletividade, ora da saúde e ora da moral. (Gil, 1997)

Contudo, o corpo ainda permanece em destaque, ganhou o espaço público, tomou frente na cena social, apresenta demandas ligadas a estética que podemos observar a partir das marcas corporais, das tatuagens, das cicatrizes, dos piercings e outros artefatos que são utilizados como forma de capturar o olhar, de fabricar uma estética da presença e representar o ódio social, mas trazem a presença da dor. (Le Breton, 2003)

Fernandes (2011) nos mostra que as marcas corporais produzem uma violência que não se refere ao uso da força bruta, mas representam as demandas sociais simbolizadas pela relação com o Outro, a estética exacerbada do individualismo reclamando novas formas de apresentação do sofrimento psíquico, numa tentativa de obter a reconstrução do sujeito.

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Com isso, compreendemos que o corpo é nada menos que o produto formado entre o corpo imaculado do paraíso, que sofre os efeitos de uma ordem fisiológica, e o corpo do homem caído que traz consigo as marcas dos impulsos sexuais, atravessado pela linguagem, ou seja, o corpo pulsional que, pelo discurso da Psicanálise, apresenta um phatos. (Carneiro, 2000).

Entretanto, os discursos que se inserem no campo do psiquismo, surgem neste contexto, para dar conta não do mal atribuído ao corpo, mas da relação imaginária que se estabelece com esse corpo que podemos chamar de ‘psicológico’, pois observamos que esse corpo não é um elemento que se adquire naturalmente, nem mesmo é algo que se constitui para ser apreendido pela simples intuição ou observação direta, como na anatomia, na fisiologia, na história, etc., mas é um corpo para ser pensado pelo trabalho psicanalítico. (Souza, 1998)

Sant’Anna, (2001) nos diz que o corpo é um “território simbólico, processador de virtualidades infindáveis, campo de forças que não cessa de inquietar, o mais belo traço da memória, fonte de desassossego e de prazeres que revela e esconde traços da subjetividade” (p 03).

Esse fato, nos mostra um corpo construído com o estatuto da realidade e, portanto, com determinantes fundamentais no simbólico, no imaginário e, em algo que sempre se perde e que afirmamos como sendo real. Um corpo que aparece numa posição de exterioridade em relação ao sujeito onde são inscritas as psicopatologias e que, por conta disso, encontra-se tão em cena enquanto fonte de sofrimento e frustração.

Será então, a partir da inserção na linguagem, que podemos marcar a constituição do sujeito que porta um excesso, um Pathos, um sofrimento que toma o corpo e faz com que o sujeito lance mão de simulacros muitas vezes dolorosos, a partir da utilização dos cosméticos, próteses, das marcas corporais. (Berlink, 2000).

Freud ([1930] 2010), ao tratar da relação do sujeito com a cultura, mostra que o corpo é uma das nossas fontes de sofrimento e que, estamos constantemente nos acercando de meios que venham minimizar os efeitos das cobranças sociais que nos causam esse sofrimento. No entanto, vemos ainda em Freud ([1920] 2010), que esse mesmo corpo é atravessado por um aspecto econômico, é fonte de prazeres e sede das pulsões.

É nesse momento que observamos a inclusão dos recursos que o homem contemporâneo tem utilizado como saída para o ‘sofrimento’, através do corpo, pois

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busca marcar no corpo, àquilo que não consegue nomear, àquilo que rechaça da sociedade. No entanto, vemos que essa saída é sempre fracassada, uma vez que não possibilita o aniquilamento dos sofrimentos psíquicos, mas os intensifica e repete sintomaticamente no sentido de serem significados.

Lacan (1967) nos mostra que os artifícios e as marcas no corpo, apresentam um sentido organizador da subjetividade. Nos mostra ainda que “o corpo é feito para ser marcado, para nele se inscrever algo que chamamos de marca”, e essa marca traz o estatuto de construção subjetiva. (p. 28).

Dessa forma, podemos entender as marcas – tatuagens, cicatrizes, etc – como algo que comunica ao Outro uma posição subjetiva e reclama sua presença, algo que escapa ao registro simbólico, do que não encontra representação na linguagem e se atualiza mediante danos físicos, às vezes irreversíveis.

Como nos diz Ribeiro, (2010):

“O corpo, como depositário de fantasias inconscientes, torna-se a contingência para a impressão de marcas sobre ele, que o transformam e o levam ao limite da dor. O indivíduo tenta pela modificação traumática deliberada da imagem corporal, através de práticas agressivas ao corpo, estabelecer-se como sujeito, já perdido de si mesmo em sua submissão ao desejo do Outro”. (p. 01)

Vemos ainda em Lacan ([1957] 1999), que as “marcas endereçadas ao Outro, são atos de violências ao corpo, surgidas diante do impossível de ser significada, supõe possibilidades de passagem ao ato, curto-circuito da palavra retornando no real do corpo como um gozo que escapa ao sentido do sujeito que se vê na impossibilidade de dizer”. (p. 468)

Logo, o homem contemporâneo tem se utilizado da estética do corpo, como forma de reclamar o olhar do Outro, reclamar uma posição subjetiva que emerge a partir de uma violência fundante desde o momento em que começou a estabelecer laços sociais. Para Freud ([1930] 2010), temos que vivenciar o mal-estar de viver em sociedade, pois não há como fugirmos dele, nem mesmo sintomaticamente a partir das saídas Psicopatológicas.

Pela via pulsional, o corpo é o primeiro referencial das identificações narcísicas do sujeito, e, como nos diz Carneiro, (1997, p.62) “se apresenta como o elemento mais próximo e ao mesmo tempo mais estranho que cada indivíduo carrega na sua existência.

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Com ele se nasce e com ele se morre”. É o lugar de inscrição, pulsional, erógeno que bordeja a falta fundadora que nos torna humanos.

Portanto, seria pretencioso tentar dar conta de um conceito como o de corpo, principalmente à luz da psicanálise, pois percebemos que ao longo de sua constituição histórica, o corpo ocupou um lugar de grande relevância, representando um investimento econômico, o grau zero, a origem e a causa primeira do sujeito.|

REFERÊNCIAS

Berlink, M. (2000) Psicopatologia fundamental. São Paulo: Escuta.

Carneiro, H. (1997) O corpo nosso de cada dia: as operações do corpo. Boletim de Novidades Pulsional - Centro de Psicanálise. Ano X nº 103 (p. 62-74) São Paulo: Livraria Pulsional.

Carneiro, H. (2000) AIDS: A nova desrazão da humanidade. São Paulo: Escuta. Fernandes, M. (2011) Corpo. (4.ed.), São Paulo: Casa do Psicólogo.

Freud, S. ([1915] 2010). Os Instintos seus destinos. In Freud, S. Obras Completas: São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. ([1920] 2010). Além do princípio do prazer. In Freud, S. Obras Completas: São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. ([1930] 2010). O Mal estar na civilização. In Freud, S. Obras Completas: São Paulo: Companhia das Letras.

Gil, J. (1997) Metamorfoses do corpo. Lisboa: Antropos.

Lacan, J. (1967). Seminário XIV a lógica do fantasma. Aula de 10/05/67, inédito. Lacan, J. ([1957] 1999). O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. [trad.

Vera Ribeiro], Rio de Janeiro: Zahar.

Le Breton, D. (2003). Adeus ao corpo: Antropologia e sociedade. [trad. Marina Appenzeller], São Paulo: Papirus.

Neto, P. (2011). A (de)missão paterna e suas incidências corporais. Dissertação de Mestrado, Universidade Católica de Pernambuco.

Ribeiro, M. (2010). As marcas corporais: o corpo como depositário das fantasias inconscientes. Reverso [online]. 32 (60), Acedido Julho 30, 2012 em

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0102-73952010000300009&script=sci_arttext.

Sant’anna, D. (2001) É possível realizar uma história do corpo? In Soares, C. L. (Org.), Corpo e história. Campinas: Autores Associados.

Souza, A. (1998) R.S.I.: O corpo na Psicanálise. Seele, 05 (2). Acedido Junho 7, 2000, em http://www.seele.trix.net/numero.5/5aurelio.htm.

Teixeira, L. (2003). El cuerpo en la contemporaneidad y la clinica psicosomática. Terapia Psicologica, 22 (2), 171-176. Acedido Maio 10, 2012, em

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